quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Desemprego e centrais de propaganda

Na sua recente mensagem de Natal o Primeiro-Ministro disse que “entrámos numa nova fase […] de aumento do emprego” e, poucos dias depois, o Presidente da República afirmou que “a economia está a crescer […] e o desemprego diminuiu”. São duas vozes institucionais com formação económica e que têm à sua volta muitos assessores e consultores que os deviam ter prevenido para a nossa realidade, em que nem “o emprego aumenta”, nem “o desemprego diminui”. De facto, toda a gente sabe que o emprego não está a aumentar pelo que aquelas declarações só podem magoar e ofender os que não têm emprego e os que continuam a ser forçados a emigrar. O crescimento do chamado “falso emprego” criado em absoluta precaridade pelo próprio Estado, através de alguns milhares de estagiários e de desempregados que estejam a receber subsídios, não deu para encobrir a realidade.
Hoje, no seu primeiro Comunicado de Imprensa de 2015 (News Release 1/2015) o Eurostat veio anunciar os mais recentes valores do desemprego: 11.5% para a Zona Euro (EA18), 10,0% para a UE28 e 13,9% para Portugal. Aquele comunicado destaca que só a Grécia, a Espanha, o Chipre e a Croácia têm mais desemprego do que Portugal e revela também que Portugal é o país da Europa que nos últimos dois meses registou o maior agravamento da taxa de desemprego, que passou de 13,3% para 13,9%, o mesmo acontecendo com a taxa de desemprego jovem (< 25 anos) que aumentou de 12,5% para 13,8%. Portanto, Portugal registou a maior degradação do mercado de trabalho em toda a União Europeia e, tanto o Primeiro-Ministro como o Presidente da República disseram o contrário. Não dá para acreditar! Belém e São Bento não podem ser centrais de propaganda. Têm que se dar ao respeito. Será que cederam aos seus interesses partidários ou que pensam que uma mentira muitas vezes repetida se torna uma verdade?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A mais lusitana cidade norte-americana

Fall River é uma pequena cidade costeira do Estado de Massachusetts, na costa oriental dos Estados Unidos, nela estando fixada uma importante comunidade portuguesa ou de origem portuguesa. Estima-se que 49% da população residente na cidade seja de origem portuguesa ou seja proveniente do antigo ultramar português e, apesar dos fenómenos de integração e de aculturação que “americanizam” os emigrantes, há 37% de residentes que se reclamam de origem portuguesa. Em termos percentuais, na cidade de Fall River reside a maior comunidade luso-americana dos Estados Unidos e, naturalmente, existem na cidade vários restaurantes portugueses – Caldeiras, Lusitano, Clipper, Academica, Barcelos, Estoril, Marisqueira Azores e outros que publicitam a boa comida portuguesa.
Na cidade publica-se o The Herald News, um jornal diário fundado em 1872, que no seu noticiário reflecte frequentemente os interesses da comunidade portuguesa.
Assim aconteceu na edição de hoje, em que o jornal anuncia em primeira página e com duas fotografias, a reabertura para breve de dois restaurantes de referência na cidade: o Sagres e o Mesa 21. Ambos tinham sido vítimas de incêndio e o jornal informa que são “two of the city’s landmark restaurants”.
O Restaurante Sagres é propriedade de Vítor da Silva e é considerado o melhor restaurante português da cidade. Fica localizado em 177 Columbia St. e foi destruído no dia 6 de Julho de 2013 por um incêndio que deflagrou num apartamento localizado por cima do restaurante.
O Restaurante Mesa 21 é propriedade de Peter de Sousa, fica localizado em 21 Lindsey St. e também foi destruído por um incêndio.
Ambos vão reabrir em breve. É bem curioso verificar como a reabertura de dois restaurantes tem destaque no principal jornal da cidade, a evidenciar como Fall River é a mais portuguesa cidade dos Estados Unidos.

A enorme degradação do serviço público

Nos últimos tempos temos sido surpreendidos por notícias relativas a uma generalizada falta de pessoal nos serviços do Estado, de que vem resultando uma degradação da qualidade dos serviços, com notórios prejuízos para os utentes e para a população em geral. Há tempos foi a questão da colocação dos professores e o atraso no arranque escolar em muitas regiões do país. Depois foi o bloqueio do sistema de justiça por razões informáticas, mas também por falta de pessoal. A seguir tivemos a Segurança Social a mandar centenas de trabalhadores para a requalificação que, como sabemos, é a ante-câmara do desemprego. Agora foi a notória falta de médicos e de outro pessoal de saúde em diversos hospitais, de que resultaram inadmissíveis tempos de espera e casos de morte à porta das urgências hospitalares. Reduzir serviços, dispensar pessoal e comprimir despesas, tem sido o lema. Tudo isto acontece pela obcessão governamental pelo chamado emagrecimento do Estado, embora os responsáveis esqueçam que essa redução deva “manter a qualidade na prestação do serviço público”.
Hoje o Jornal de Notícias vem dar-nos uma explicação: a Função Pública encolheu o dobro do exigido pela troika.
Desde 2011, o ano em que a troika chegou a Portugal, a Função Pública perdeu cerca de 80 mil trabalhadores e a redução está a decorrer a um ritmo que, no mínimo, é o dobro daquilo que foi programado. De facto, o Memorando de 17 de Maio de 2011 estipulava: “limitar admissões de pessoal na Administração Pública para obter decréscimos anuais em 2012-2014 de 1% ao ano na Administração Central e de 2% nas Administrações Local e Regional”. Porém, tal como prometeram e se vangloriaram, os governantes quiseram ir para além da troika. E foram. Assim, eles são os responsáveis por esta degradação da qualidade dos serviços públicos a que temos direito.

sábado, 3 de janeiro de 2015

A economia a crescer? Eu não sabia...

Nos discursos de Natal e de Fim do Ano ouvimos os nossos dirigentes máximos algo preocupados com as eleições que se avizinham e com um alerta para que não deitemos “tudo a perder” ou o aviso de que o país “não pode regredir”. Ouvimos um a dizer que “a economia está a crescer, a competitividade melhorou, o investimento iniciou uma trajectória de recuperação e o desemprego diminuiu”, enquanto o outro nos disse que “entramos numa nova fase, uma fase de crescimento, de aumento do emprego”, com a economia a registar “um crescimento moderado, mas sustentado”. Dizem a mesma coisa, a lembrar-nos o Dupond e o Dupont, aquelas figuras gémeas que Hergé criou para enriquecer as aventuras de Tintim.
A generalidade da população não vê nada disso. Pelo contrário, vê pobreza, desemprego, emigração e desesperança. Por isso, ao consultar as estatísticas é preciso ter muito cuidado, porque quando são mal lidas, são muito mentirosas.
No entanto, um dos indicadores percursores da actividade económica é a evolução do mercado automóvel e o facto é que as vendas de veículos ligeiros e pesados em Portugal aumentaram 36,1% em 2014, segundo revelou a Associação Automóvel de Portugal (ACAP) e este facto parece dar alguma razão aos nossos dirigentes que tão optimistas se mostraram na análise do estado da nossa economia. Assim, em 2014 foram vendidas 172.390 viaturas novas em Portugal e o ranking das vendas de veículos ligeiros foi o seguinte: Renault (21.670), Peugeot (16.893), Volkswagen (16.014), Mercedes (11.385), Citroën (11.212), BMW (10.344) e Opel (10.344). Além disso, a Porsche vendeu 395 unidades (mais 45% do que em 2013) e a Ferrari vendeu 15 unidades (mais 66% do que em 2013), para além de terem sido vendidos 13 Maserati, 8 Aston Martin e 4 Bentley. Ora aqui está a prova provada de que “entramos numa nova fase” e que afinal “a economia está a crescer”, embora à custa do consumo interno e não das exportações como seria desejável. Então é caso para perguntar quantos pares de sapatos será necessário exportar para pagar aqueles 15 Ferraris e 13 Maseratis?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Macau: essa palavra saudade…

Decorreram 15 anos desde o dia 20 de Dezembro de 1999 que assinala a data em que as autoridades portuguesas transferiram a administração do território de Macau para as autoridades da República Popular da China.
A história da presença portuguesa em Macau é um dos mais interessantes capítulos da História de Portugal e prolongou-se por mais de quatro séculos. Durante um tão longo período a pequena Povoação do Nome de Deus do Porto de Amacau na China atraiu o interesse de aventureiros, mercadores e religiosos, tornou-se numa verdadeira cidade-Estado, progrediu e tornou-se uma cidade cosmopolita e um importante entreposto comercial nas relações entre a China, a Europa e o Japão. Perante os importantes acontecimentos que ao longo dos tempos ocorreram naquela região asiática, as autoridades portuguesas de Macau sempre tiveram a sabedoria diplomática necessária para assegurar a soberania portuguesa com dignidade, embora por vezes em algumas situações de maior tensão.
Quando a transferência da soberania se concretizou, as autoridades chinesas reconheceram repetidamente que a administração de Macau sempre manteve uma cooperação amistosa com a China e esse reconhecimento permitiu manter as pontes para o futuro. Assim, a língua portuguesa continuou a ser uma das duas línguas oficiais de Macau e o património, as instituições e as memórias portuguesas puderam perdurar, não deixando de ser curioso que em 2005 o Centro Histórico de Macau tenha sido declarado Património da Humanidade pela UNESCO, enquanto testemunho do pioneirismo e da mútua influência cultural entre o Ocidente e o Oriente. Por isso, o Hoje Macau – um dos quatro jornais macaenses que se publica em língua portuguesa – publicou um suplemento alusivo ao 15º aniversário da criação da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, no qual utilizou a fotografia da gruta e do busto de Camões que se encontra no Jardim de Camões em Macau e, ainda, um sugestivo título: Essa palavra saudade…

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Um bom ano para todos os meus leitores

A chegada de um novo ano é festejada em quase todo o mundo, não só porque representa o início de um novo ciclo em que se renovam as esperanças em dias melhores para a saúde ou para os negócios, mas também porque se tornou num ciclo festivo que entusiasma e estimula a vontade dos homens. O culto da passagem do ano continua a estar associado à ideia de abundância e daí a fartura das grandes celebrações gastronómicas que enchem muitos salões, assim como as festas populares cada vez mais sofisticadas que inundam de alegria as ruas e as praças das cidades. Porém, a passagem do ano também mantém algumas tradições e rituais particulares como sejam as corridas de São Silvestre, os banhos de mar nas águas frias de algumas praias ou até, aquela costumeira e desinteressante reportagem em que os repórteres identificam o primeiro bébé do ano.
Nos últimos tempos, em consequência de factores económicos e culturais diversos, as celebrações da passagem do ano globalizaram-se e generalizaram-se os espectáculos de luz e cor em que as cidades competem entre si com vistosos fogos de artifício, não só para animar as suas populações, mas também para atrair visitantes e, dessa forma, dar um incremento económico às respectivas comunidades.
Nas primeiras horas do novo ano as televisões e os jornais internacionais fazem sempre uma exaustiva divulgação das imagens dos festejos em Auckland e Hong Kong, Dubai e Moscovo, Nova York e Paris, Chicago e Londres, Rio de Janeiro e Berlim, mas as televisões portuguesas também nos mostraram as imagens dos festejos realizados no Funchal, em Lisboa, no Porto e em outras cidades.
Para assinalar o início de 2015 e como forma de desejar um bom ano a quem ler este texto, escolhi a expressiva primeira página da edição de hoje do The Daily Telegraph que se publica em Sydney.
Um bom ano para todos os que visitam a Rua dos Navegantes!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Eu escolho o Pedro como figurão do ano

Quando termina o ano, as agências noticiosas e os órgão de comunicação social tratam de escolher os acontecimentos e as figuras do ano, através das mais diversas consultas. Este ano, assim voltou a acontecer e, de uma forma geral, todas as escolhas incidiram no Papa Francisco, no futebolista Ronaldo, no cantor Carlos do Carmo, na vitalidade cívica de Mário Soares, no surpreendente caso BES ou na detenção do ex-PM Pinto de Sousa. Eu permito-me discordar dessas opiniões e escolher o Pedro (PPC) como figura do ano. Mais do que uma figura, ele foi realmente um figurão.
PPC é o nosso primeiro-ministro desde 21 de Junho de 2011 e é aquele jovem de estudos tardios que, antes de ganhar as eleições, dissera que estava preparado, que tudo tinha estudado e que não seria necessário despedir pessoas nem cortar salários ou pensões. Porém, era mentira. Quando chegou a São Bento esqueceu-se do que tinha dito e com as suas políticas vieram os cortes nos salários e nas reformas, o aumento dos impostos, a precaridade no emprego, assim como a má prestação nos serviços de educação e de saúde por falta de pessoal e de material. O défice orçamental ficou na mesma e a dívida pública aumentou. A vulnerabilidade económica acentuou-se, a coesão social enfraqueceu, a pobreza aumentou e a desesperança instalou-se. Somos realmente um navio à deriva.
Milhares de portugueses perderam o emprego e outros tantos milhares emigraram. Muitos cientistas, médicos, engenheiros, arquitectos, pilotos de linha aérea e enfermeiros, entre outros profissionais, cuja formação tanto custa ao país, deixaram-nos e foram enriquecer outras economias, seguindo o conselho de PPC e do seu antigo braço direito Relvas, que bem incentivaram para que os portugueses emigrassem. Diz a Ordem dos Médicos que em 2014 houve 269 clínicos que pediram certificados para exercer a profissão noutro país e diz a Ordem dos Enfermeiros que desde 2011, recebeu 7564 pedidos de certificados de emigração para exercício da actividade no estrangeiro. Não precisamos de mais exemplos para mostrar a brutal sangria que estas políticas de PPC estão a fazer ao nosso país, que servem outros interesses que não os dos portugueses. E com um inclassificável despudor, ainda há poucos dias, a minha figura do ano nos avisou que mudar de políticas e de governo seria “deitar tudo a perder”. Como é possível tanta insensibilidade e tamanha cegueira política?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um grande jornal, uma grande instituição

O Diário de Notícias completou hoje 150 anos de vida e esse facto merece ser destacado, porque não é comum que as entidades empresariais portuguesas nascidas no século XIX, designadamente aquelas que têm por objecto a edição de periódicos, tivessem chegado ao século XXI. Neste tão longo período, o Diário de Notícias atravessou regimes políticos e situações económicas muito diferentes mas, no essencial, manteve a confiança dos seus leitores e dos seus anunciantes, tornando-se num referencial da imprensa portuguesa e numa verdadeira instituição cultural.  
Em boa hora, o jornal decidiu celebrar essa relevante efeméride com diversas iniciativas, de que se destaca uma edição especial com 144 páginas impressas em papel couché e em formato berliner, que o próprio jornal classifica como “uma espécie de viagem no tempo” e que recomenda que seja “para guardar”.
Esta edição especial foi hoje distribuida com a edição diária do jornal e é, realmente, uma viagem pelos grandes acontecimentos dos últimos 150 anos ou uma lição de História. A reprodução fac-similada da primeira edição do Diário de Notícias, datada de 29 de Dezembro de 1864, é o elemento mais interessante da edição, na qual se incluem textos apropriados de alguns escritores de referência como António Lobo Antunes, Manuel Alegre, Mário Cláudio, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge ou Miguel Sousa Tavares. Como curiosidades, a edição “serve” aos leitores duas interessantes preciosidades: as quatro reportagens que Eça de Queirós fez da inauguração do Canal do Suez em 1870 e a entrevista de António Ferro a Adolf Hitler em 1930, pouco tempo antes do entrevistado se ter tornado o Führer da Alemanha.
150 anos de idade são por si só uma notável efeméride de uma entidade que conheceu a Monarquia e a República, a Ditadura e a Democracia. Esta edição especial do Diário de Notícias celebra-a condignamente.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Rolex Sydney to Hobart Yacht Race 2014

 
A edição de hoje do diário australiano The Sydney Morning Herald dá um grande destaque à regata oceânica que desde 1945 faz a ligação entre o porto de Sydney na costa oriental da Austrália e o porto de Hobart na ilha da Tasmânia, numa extensão de cerca de 630 milhas (1170 Km). A regata tem a sua largada no Boxing Day, isto é, no dia a seguir ao Natal e atrai velejadores e embarcações de todo o mundo, sendo considerada como uma das mais difíceis regatas do mundo e um ícone do desporto de verão australiano.
O record desta travessia foi estabelecido em 2012 pelo iate australiano Wild Oats XI que gastou 1 dia, 18 horas, 23 minutos e 12 segundos para ligar Sydney a Hobart. Na edição de 2014 participam 118 veleiros provenientes de dez países e de todos os Estados australianos, incluindo-se nessa frota alguns dos vencedores das anteriores edições.
Uma das curiosidades desta prova para veleiros de cruzeiro é a possibilidade de ser acompanhada quase em directo, apesar de decorrer longe de terra. De facto, para satisfazer o enorme interesse dos australianos por esta prova, a organização mantém uma webpage com informações permanentes sobre o estado do tempo e a previsão meteorológica, mas também com o posicionamento dos participantes, as distâncias actuais entre si e as velocidades com que navegam. Dessa forma, através da tecnologia GPS, os interessados podem acompanhar a Rolex Sydney to Hobart Yacht Race 2014 no seu computador, quase em directo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Evocando o trágico tsunami de 2004

Foi há dez anos, no dia 26 de Dezembro de 2004, que o mundo foi surpreendido pelas brutais imagens televisivas do pior desastre natural que aconteceu no último século, em que perderam a vida 250 mil pessoas e foram destruídas muitas povoações ribeirinhas. Nesse dia, algumas ondas gigantes geradas a partir de um sismo submarino ocorrido ao largo da ilha de Sumatra, propagaram-se pelo oceano Índico e atingiram a orla costeira de diversos países. Foi um tsumani, um termo e um fenómeno que, até então, eram pouco conhecidos, inclusive por quem domina a meteorologia. Uma imponente e descontrolada massa de água entrou pela terra dentro com enorme velocidade e energia, tudo destruindo à sua passagem. A tragédia foi impressionante, como ainda podemos observar nas imagens que se conservam. O número de mortos atingiu mais de 165 mil na Indonésia, mais de 35 mil no Sri Lanka e mais de 16 mil na Índia, mas também houve vítimas na Tailândia, Malásia, Myanmar, Maldivas e na costa oriental africana. Algumas comunidades ribeirinhas que se reclamavam de origem portuguesa e que conservavam um crioulo português, por exemplo em Banda Aceh (Indonésia) e em Batticaloa (Sri Lanka), foram dizimadas. Se antes foram ignoradas pelas autoridades portuguesas, agora assim continuam e nem sequer se sabe quantos dos seus elementos sobreviveram ao tsunami. 
Dez anos depois desta tragédia que mobilizou substanciais auxílios internacionais para a reconstrução de infraestruturas e blocos residenciais para os muitos milhares de desalojados, sucedem-se as cerimónias evocativas e a inauguração de memoriais às vítimas do tsumani de 2004. Um pouco por todo o mundo as vítimas dessa tragédia foram evocadas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Há mensagens de Natal muito ridículas

Os jornais espanhóis deram um grande e elogioso destaque à primeira mensagem de Natal de Filipe VI como rei de Espanha e, especialmente, às suas referências ao combate à corrupção, sobre o qual afirmou que “devemos cortar a corrupção pela raiz e sem contemplações” e que “um cargo público não pode ser um meio para enriquecer”. Na sua aplaudida mensagem, o rei salientou que “vivemos tempos complexos e difíceis para os nossos cidadãos e para a Espanha” e criticou aqueles que se desviam do que deles esperamos enquanto agentes do Estado, o que provoca tanta indignação e desilusão. A terminar, o rei teve palavras de incentivo para os agentes políticos e económicos e disse-lhes: “Aqui estarei sempre, ao vosso lado, como o servidor dos espanhóis”.
Isto aconteceu em Espanha no dia 24 de Dezembro. Aqui em Portugal também tivemos mensagens de Natal que foram muito diferentes da mensagem do rei de Espanha, porque os nossos republicanos mensageiros já nos cansam e as suas mensagens nada de relevante nos dizem ou, como diz o povo, são conversa da treta.
No dia 19 de Dezembro houve a mensagem de Boas Festas do Presidente da República, recitada a duas vozes, sem brilho, sem interesse e sem qualquer substância, a confirmar  a impopularidade com que as sondagens o contemplam.
No dia 25 de Dezembro tivemos a confrangedora mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, na qual mostrou estar à margem das realidades do país e do orçamento do Estado que fez aprovar. Disse que “entrámos numa nova fase, numa fase de crescimento, do aumento do emprego e da recuperação dos rendimentos das famílias” e que “os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”. Segundo disse, “a economia está a gerar dezenas de milhares de postos de trabalho” e é indispensável “não deitar tudo a perder". Que atrevimento! Foi uma intervenção que nada tem a ver com o Natal, inverdadeira ou mesmo mentirosa e que foi descaradamente eleitoralista. Há realmente mensagens de Natal que são muito ridículas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Vancouver e a beleza da neblina matinal

No passado dia 21 de Dezembro pelas 23:03 horas (hora de Lisboa), ocorreu o Solstício de Inverno para as regiões situadas no hemisfério norte, o que significa que aconteceu o  dia mais curto do ano e teve início o Inverno. Com o Inverno agravam-se as condições meteorológicas no mar e em terra, dificultando muitas vezes a vida das pessoas e o normal desenvolvimento de muitas actividades.
Os jornais e os outros meios de comunicação costumam informar sobre o estado do tempo e sobre as previsões meteorológicas, mas também dão notícia das tempestades marítimas, do fecho de barras e portos, dos nevões e nevoeiros, do encerramento de aeroportos e do cancelamento de voos, de inundações e de outros fenómenos meteorológicos. Algumas vezes, esses jornais recorrem ao fotojornalismo para mostrar aos seus leitores os aspectos mais espectaculares desses fenómenos.
Assim fez na sua edição de hoje o Vancouver Sun, um importante diário da cidade canadiana de Vancouver, ao inserir na sua primeira página uma fotografia da “city in the mist”, isto é, uma eloquente fotografia da cidade envolta numa neblina matinal de que emergem  as torres dos grandes edifícios.
Acontece que Vancouver tem a fama de ser a mais habitável cidade do mundo. Depois de Toronto e Montreal, é a terceira cidade mais importante do Canadá, é uma cidade acentuadamente multicultural, é o maior porto canadiano e é conhecida como a Hollywood do Norte devido à sua indústria cinematográfica. Com todos estes atributos e para além de ter no turismo a sua maior actividade económica, até a neblina matinal que envolve a cidade parece que a embeleza e a torna mais atraente. É mesmo uma cidade com sorte.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Ainda a aproximação entre os EUA e Cuba

 

O anúncio da aproximação entre os Estados Unidos e Cuba feito simultaneamente por Barack Obama e Raúl Castro surpreendeu e entusiasmou a comunidade internacional, surgindo aplausos por todo o mundo. Porém, também gerou algum desagrado nos sectores conservadores americanos e nos seus aliados latino-americanos, que viram com desconfiança aquela iniciativa que consideram perigosa e desastrada. Segundo esses críticos, a decisão de perdoar os excessos do regime cubano e de ajudar os irmãos Castro é uma atitude de grande ingenuidade, que vai incentivar “os ditadores e tiranos de Caracas a Teerão e Pyongyang”. Do lado cubano também há algum cepticismo, pois há quem não acredite que termine a repressão contra os dissidentes anticastristas e que pense que a liberalização da economia só irá servir para fortalecer os grupos de interesses ligados ao regime que já dominam a economia cubana.
No Brasil de Lula da Silva e Dilma Rousseff, em que o poder político tem estado mais ou menos alinhado com o regime cubano, também os sectores conservadores têm mostrado muito cepticismo em relação à decisão de Barack Obama, estando a utilizá-la como arma de luta política interna ou como um ameaçador fantasma. A revista Veja, cuja política editorial se posiciona habitualmente com a direita política brasileira, examina e critica esta semana os efeitos resultantes da aproximação entre Cuba e os Estados Unidos. Na sua capa destaca “o amigo americano” e utiliza uma fotomontagem com a insinuação de que Barack Obama é um novo Che Guevara a apoiar os revolucionários cubanos. Será que temem um Che Obama para ocupar a Sierra Maestra e avançar sobre Santa Clara e Havana? Sabemos bem que não, mas o facto é que a fotomontagem funciona no subconsciente de muitas pessoas.

sábado, 20 de dezembro de 2014

A Índia já aderiu ao encanto do futebol

Um dos maiores jornais da Índia – o Hindustan Times – reservou a primeira página da sua edição de hoje para anunciar a final da Indian Super League de futebol. Trata-se de um acontecimento desportivo inédito, porque o futebol era até agora um acontecimento marginal na Índia, onde prevalecem o cricket e o hóquei em campo. As excepções eram Goa e a região de Calcutá (Kolkata) onde o interesse pelo futebol domina, mas parece que agora já nem a Índia resiste à globalização do futebol e ao seu encanto.
Este ano, pela primeira vez, foi organizado um torneio nacional que foi baptizado como a Indian Super League. São oito equipas criadas este ano em oito diferentes Estados ou cidades – Chennai, Delhi, Goa, Guwahati (Assam), Kerala, Kolkata (Bengala), Mumbai e Pune (Maharastra). São equipas que quase são selecções representativas desses Estados ou cidades, embora incluam muitos jogadores contratados no estrangeiro e até haja vários jogadores portugueses nessas equipas. A equipa de Goa contratou o famoso Zico para treinador e o luso-francês Robert Pires como jogador, mas nas outras equipas jogam antigos campeões do mundo e nomes famosos como Capdevilla, Del Piero, Trézéguet, Silvestre, Nesta, David James e Anelka. Embora sejam jogadores em fase descendente da sua carreira futebolística, os seus nomes sonantes, mais os media e a publicidade, exponenciaram o entusiasmo pelo futebol na Índia.
Na primeira fase desta primeira edição da Indian Super League jogaram todos contra todos e a classificação foi a seguinte: 1) Chennaiyin FC; 2) FC Goa; 3) Atletico de Kolkata; 4) Kerala Blasters FC. Depois, os quatro primeiros jogaram entre si. Kerala bateu Chennai e chegou à final. Goa defrontou Kolkata, sem que dois jogos e prolongamentos dessem sequer um golo, pelo que o finalista foi encontrado nos penaltis. Goa foi menos feliz e Kolkata seguiu para a final que se disputa hoje entre as equipas de Kerala e de Kolkata.
Goa, a verdadeira capital indiana do futebol, fica de fora. É pena.

R.I.P. Vítor Crespo

Com 82 anos de idade faleceu Vítor Crespo, almirante da Marinha Portuguesa e um dos símbolos do 25 de Abril.
Conheci-o há 50 anos, quando numa sala de aulas e em frente de um quadro preto, nos iniciava na química das pólvoras e dos explosivos e nos deduzia os complexos modelos matemáticos da Balística. Era um professor competente e eu apreciava-lhe a solidez dos seus conhecimentos e o profissionalismo e o rigor com que preparava as suas aulas.
Depois, andamos por caminhos diferentes. Até que surgiu o “dia inicial inteiro e limpo”, o dia em que “emergimos da noite e do silêncio”, como se referiu Sophia à madrugada libertadora do 25 de Abril. Foram muitos os que então arriscaram as suas carreiras e, porventura, as suas vidas, para que recuperássemos a Liberdade e conquistássemos a Democracia. Alguns arriscaram mais do que outros. Assim aconteceu com o pequeno grupo de militares que, com determinação e coragem, esteve no Posto de Comando da Pontinha a comandar as operações que conduziram à queda do regime. Só depois soube que Vítor Crespo foi um desses homens. Esse facto ligou-o intimamente ao processo de democratização e, durante os anos em que durou a intervenção do MFA na vida política, muitas vezes em circunstâncias muito difíceis, Vítor Crespo foi um dos mais eloquentes exemplos do “espírito do 25 de Abril”, um homem de grande coerência cívica, sensibilidade política, invulgar carácter e enorme tenacidade, tendo prestado relevantes serviços ao nosso país.
Quando em 1982 foi extinto o Conselho da Revolução e os militares sairam da cena política, Vítor Crespo regressou à Marinha durante alguns anos, sem beneficiar de quaisquer direitos ou mordomias pelos serviços que prestara. Atingida a reforma e com mais tempo disponível, continuou a ter uma intervenção cívica exemplar e de grande coerência, designadamente no quadro da Associação 25 de Abril, mas também no convívio com os seus amigos que lhe reconheciam uma superior inteligência e uma sólida cultura. Ontem deixou-nos.
Homens destes marcam uma época e fazem-nos falta nos tempos que vão correndo!