quinta-feira, 18 de março de 2021

Agrava-se a crise sanitária no Brasil

A edição de hoje do jornal O Estado de S. Paulo escreve que o “Brasil enfrenta sua maior crise sanitária” e esse título, juntamente com a palavra colapso, perturbam e entristecem os leitores, sobretudo aqueles que estão do lado de cá do Atlântico e que consideram, pela história, pela língua e por laços familiares, que o Brasil ainda é uma espécie de Portugal dos trópicos.
Ao fim de um ano de pandemia, torna-se evidente que a gestão da crise sanitária brasileira tem sido uma sucessão de erros, como atesta o facto de ter sido empossado o 4º Ministro da Saúde do Brasil, o que parece demonstrar que os três ministros anteriores não suportaram a ignorância e a irresponsabilidade de quem os dirigia, isto é, fartaram-se do presidente Jair Bolsonaro, o tal que falou em gripezinha.
Acontece que, depois dos Estados Unidos, o Brasil é o país onde ocorreram mais óbitos causados pelo covid-19. Estão contabilizados 284.775 óbitos e, nos últimos tempos, a sua média diária supera largamente os dois milhares. É uma tragédia e a imprensa brasileira utiliza as palavras agravamento, catástrofe, colapso da saúde, fora de controlo e recorde de casos, entre outras, para descrever a triste realidade de um país que não aprendeu que com as máscaras, o distanciamento social e o confinamento se podia evitar o pior. O prestígio internacional do Brasil está em jogo e, segundo o jornal paulista, há 108 países que barram a entrada a cidadãos brasileiros. 
É evidente que Jair Bolsonaro não merece respeito nenhum e que os brasileiros saberão despachar o fanfarrão-fantoche que tão mal os representa.

Síria: dez anos de guerra e de tragédia

A viagem do Papa Francisco ao Iraque produziu, entre outras consequências, o regresso da Síria e dos seus dramas à agenda de alguma imprensa internacional e o jornal L’Orient-Le Jour, que se publica na cidade libanesa de Beirute, foi um dos jornais que trouxe para a sua primeira página o drama sírio.
O presidente Bashar el-Assad sobreviveu a dez anos de guerra, mas governa um país em ruínas e partilha o seu território com quatro exércitos estrangeiros e inúmeras milícias armadas. Bashar el-Assad tem 55 anos de idade e está infectado por covid-19, tal como a sua mulher Asma, mas governa a Síria desde 2000 e, em breve, deverá ser reeleito para um quarto mandato presidencial de sete anos. Porém, o país que vencera o analfabetismo, que era auto-suficiente no plano alimentar e energético, que exportava gás, petróleo e fosfatos, já não existe. 
A guerra síria é a maior catástrofe humanitária que o mundo conheceu depois da 2ª Guerra Mundial. Metade dos seus 24 milhões de habitantes está deslocada, houve 390 mil mortos e 200 mil desaparecidos, mais de um milhão de feridos e quase seis milhões de refugiados nos países vizinhos. No terreno encontram-se quatro exércitos estrangeiros: os turcos com cerca de 15 mil soldados, que controlam uma faixa com 120 quilómetros de extensão e 30 quilómetros de profundidade na fronteira norte da Síria, bem como uma província curda no nordeste do país; os russos que ocupam a base aérea de Hmeimim e outros aerodromos, têm uma base naval em Tartous e algumas posições militares na fronteira leste do país; os americanos mantêm 800 soldados no nordeste a proteger os poços de petróleo; os Guardas da revolução iraniana, o Hezbollah libanês, as milícias xiitas e afegãs encontram-se nas proximidades das cidades mais próximas da fronteira com o Iraque; as milícias curdas, apoiadas pelos Estados Unidos e pela França, controlam um terço do território sírio à volta das cidades de Hassaké no nordeste e Raqqa no norte e a província oriental de Deir Ezzor. No sul há outras milícias e algumas células do Daesh em actividade. São demasiados actores e demasiadas tensões acumuladas. Ninguém sabe como se pode sair desta tragédia.

terça-feira, 16 de março de 2021

Precaução suspende vacina AstraZeneca

A imprensa internacional destaca nas suas edições de hoje que o uso da vacina Oxford/AstraZeneca foi suspenso na Europa, ou em grande parte dos países europeus.
Os primeiros países que suspenderam temporariamente a utilização daquela vacina após se terem verificado casos de coagulação de sangue em doentes imunizados foram a Áustria, Estónia, Lituânia, Letónia, Luxemburgo e Dinamarca. Seguiram-se a Noruega, a Islândia, a Itália, a Alemanha, a França, a Espanha e, ontem, foi a vez de Portugal.
Segundo vem sendo anunciado, a suspensão do uso da vacina é apenas uma atitude de precaução porque não se sabe se há, ou se não há, uma relação directa entre a vacina e os problemas sanguíneos que têm sido detectados. O facto é que já foram administradas 17 milhões de vacinas Oxford/AstraZeneca e apenas foram identificados quarenta casos de formação de coágulos no sangue e, por isso, tanto a OMS como as autoridades de saúde estão a sossegar as pessoas que já receberam esta vacina.
Independentemente do que vier a ser apurado nas próximas semanas, já ninguém quer a vacina da Oxford/AstraZeneca ou, por outras palavras, na grande corrida pelo sucesso comercial e pelo prestígio científico que está em curso, a Oxford/AstraZeneca (Reino Unido/Suécia) já perdeu a confiança das populações. Deve ser uma consequência da guerra entre as multinacionais farmacêuticas. Entretanto há outras oito vacinas que estão a ser usadas no mundo – Novavax, Moderna e Johnson&Johnson (Estados Unidos), SinoVac e Sinopharm (China), Sputnik V (Rússia), Bharat Biotech (Índia) e BioNTech/Pfizer (Alemanha/EUA) – cada uma delas a procurar ganhar a confiança das autoridades sanitárias.  Pois que produzam muito e que sejam realmente eficientes.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Desconfinamento requer muita prudência

Hoje inicia-se o processo de desconfinamento, ou como diz o jornal Público, o lento regresso à normalidade ou, ainda, o já chamado regresso a conta-gotas, sendo a face mais visível da nova situação a abertura das escolas para os mais novos, o que vai fazer com que mais de um milhão de pessoas volte à rua. Porém, este início de desconfinamento tem mesmo que ser prudente pois o vírus ainda não desapareceu, tem novas variantes e está activo em países bem próximos de nós.
O governo ouviu os especialistas e definiu um plano de desconfinamento para os próximos três meses, com indicação das medidas específicas a cumprir nas diferentes áreas de actividade, embora se mantenha o dever cívico de recolhimento domiciliário e as regras gerais de uso de máscara e de distanciamento social que têm vigorado.
Como sempre, surgiram críticas daqueles que entendem que ainda era cedo para desconfinar e daqueles que criticam a timidez das medidas tomadas. Eu confio no plano apresentado pois é equilibrado e, como qualquer outro plano, não é rígido e pode ser reapreciado a qualquer momento perante novas evidências.
A situação pandémica é muito crítica em diversos países e regiões, designadamente em alguns países da Europa, parecendo que há uma quarta onda de covid-19 que se aproxima, o que a todos obriga ao cumprimento das regras já conhecidas. 
Entretanto, em relação à vacinação da população, há muito pouca informação. É sabido que houve cortes nas remessas de vacinas que se previa serem enviadas para Portugal o que poderá ter alterado os planos de vacinação, mas também parece que há muita pressão de certas corporações para serem consideradas prioritárias e que denotam um espírito egoísta e não solidário relativamente aos grupos dos mais velhos. Há demasiada gente a reivindicar que são prioritários.
É o que parece, mas talvez seja eu que esteja a ver mal

O andebol português vai estar em Tóquio

Os Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020 foram adiados devido à crise pandémica e estão agora agendados para ser realizarem entre 24 de Julho e 8 de Agosto de 2021.
Sendo o mais importante acontecimento desportivo que se realiza no planeta é natural que neles se concentrem a atenção do público, dos meios de comunicação social, dos grandes patrocinadores e das autoridades desportivas de cada país porque, durante duas semanas, os Jogos são um palco em que estarão em prova os atletas, mas também o prestígio dos países que representam.
Portugal participa nos Jogos Olímpicos desde 1912 e até agora conquistou 24 medalhas olímpicas, das quais dez em atletismo, quatro em vela, três em hipismo, duas em judo e uma em tiro, canoagem, triatlo, ciclismo e esgrima. Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro e Nelson Évora são os quatro campeões olímpicos que Portugal já teve. Como sempre, a poucos meses da competição, as expectativas são relativamente altas, sobretudo no atletismo e na canoagem, mas nestas XXXII Olimpíadas há um novo elemento de interesse nacional. Ontem, em Montpellier, no torneio de qualificação olímpica, a equipa nacional de andebol venceu a França a 14 segundos do fim da partida e assegurou um dos doze lugares no torneio olímpico de andebol em que estarão presentes os seguintes países: Japão, Dinamarca, Argentina, Bahrain, Espanha, Egipto, Brasil, Noruega, França, Portugal, Alemanha e Suécia. Será a primeira vez que Portugal consegue uma presença olímpica numa modalidade de pavilhão desde 1992 em Barcelona, quando esteve presente a selecção de hóquei em patins em versão de exibição.
O jornal O Jogo destaca o comportamento da equipa portuguesa que aparece pouco tempo depois do 10º lugar no campeonato do mundo e ilustra a sua primeira página com um fotografia da festa e da homenagem que todos fizeram à memória de Alfredo Quintana, recentemente falecido 

domingo, 14 de março de 2021

R.I.P. Francisco Contente Domingues

Francisco Contente Domingues faleceu aos 62 anos de idade. Era Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e um grande especialista em História das Navegações e da Expansão Marítima.
Foi um notável académico, tendo deixado uma importante obra publicada e, também, um exemplar trabalho na formação de novos investigadores e na dinamização dos estudos relativos à história marítima portuguesa e europeia, tendo orientado 35 teses de Mestrado ou de Doutoramento na FLUL. No seu currículo constam mais de duas centenas de títulos publicados, entre livros, capítulos de livros e artigos em revistas da especialidade, destacando-se Os navios do Mar Oceano – Teoria e empiria na arquitectura naval portuguesa dos séculos XV e XVI, o Dicionário da Expansão Portuguesa, a História Militar de Portugal e Caravelas, Naus e Galeões – séculos XV e XVI. Foi responsável pela organização de inúmeras reuniões científicas relacionadas com a história marítima, foi professor convidado em duas universidades americanas e uma marroquina e foi o criador e um dos maiores entusiastas do Mestrado e do Doutoramento em História Marítima da FLUL, em associação com a Escola Naval. Era Membro Emérito da Academia de Marinha, onde exerceu o cargo de vice-presidente da Classe de História Marítima entre 2007 e 2015.
Francisco Contente Domingues era um espírito aberto mas rigoroso, tinha a humildade dos homens grandes e revelou grande coragem na sua luta contra a doença. Éramos amigos desde há mais de duas dezenas de anos. Aqui lhe presto a homenagem que lhe é devida.

sexta-feira, 12 de março de 2021

A guerra da Síria ou a tragédia esquecida

No próximo dia 15 de Março perfazem-se dez anos sobre o início da guerra civil na Síria. Tudo começou em Janeiro de 2011 com manifestações populares contra o regime de Bashar al-Assad, no contexto da chamada Primavera Árabe, tendo havido violentos confrontos entre os manifestantes e as forças de segurança do regime. No dia 15 de Março de 2011 uma parte do Exército sírio revoltou-se e juntou-se à oposição para destituir Bashar al-Assad, formando o Exército Livre da Síria (ELS), enquanto o regime e os seus fiéis passaram a tratar a oposição armada como terroristas. Porém, o objectivo da luta depressa deixou de ser a tomada do poder pela oposição, pois formaram-se diversos grupos de cariz religioso em que a rivalidade entre xiitas e sunitas prevaleceu. O conflito passou a opor uma maioria sunita apoiada pelos estados do Golfo às forças xiitas leais a Bashar al-Assad, apoiadas pelo Irão e pela Rússia. Entretanto, a partir de 2014 entrou em grande actividade ao lado da oposição o autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL ou Daesh) que depois passou a actuar de forma autónoma. Destas várias situações resultou a internacionalização do conflito com a entrada em cena do Líbano e do Iraque, dos estados do Golfo, da Turquia e do Irão, da Rússia e dos Estados Unidos. Em Março de 2019 o Daesh foi finalmente derrotado, depois de ter chegado a controlar mais de 200 mil quilómetros quadrados de território na Síria e no Iraque. Nessa altura, com o apoio russo o regime sírio controlava quase todo o território, mas a Turquia ameaçava a província síria do Curdistão. Então a guerra civil na Síria saíu da agenda dos mass media internacionais e pouco se sabe sobre o que se passa, isto é, se ainda há guerra, se há conversações, que potências estrangeiras estão no terreno ou se a reconstrução do país começou.
Agora, na passagem do décimo aniversário do início da guerra e por ocasião da visita papal ao Iraque, o jornal L’Osservatore Romano, que é o órgão oficial do Vaticano veio lembrar que há uma geração de sírios que foi devastada pela guerra e “o terrível impacto da guerra nas crianças sírias e nas suas famílias”, salientando que, de acordo com a Unicef, houve cerca de 12.000 crianças que foram mortas ou feridas e que mais de 5.700 menores foram recrutados como combatentes.
Entretanto, sobre o curso actual do conflito não há notícia.

quinta-feira, 11 de março de 2021

O Brasil, a pandemia e o regresso de Lula

Por razões históricas e culturais o Brasil está sempre presente na memória colectiva portuguesa e, por isso, os portugueses acompanham tudo o que vai acontecendo no maior país da América so Sul. Assim, na edição de hoje do jornal O Globo, que se publica no Rio de Janeiro, encontramos dois temas de destaque: a pandemia do covid-19 e a nova vida política do ex-presidente Lula da Silva.
O jornal anuncia que a pandemia está descontrolada e que o país é o epicentro de uma tragédia que, nas últimas 24 horas, provocou 2.349 mortes e revelou 80.955 novos casos - os números mais altos que se registaram até agora - evidenciando como tem sido errada a política sanitária de Jair Bolsonaro, ao não compreender a intensidade da pandemia a que um dia chamou uma gripezinha. No que respeita à vacinação, o jornal informa que cerca de nove milhões de brasileiros já tomaram a primeira vacina (4,26% da população) e que cerca de três milhões já receberam a segunda vacina (1,50% da população), mas a vastidão territorial do Brasil vai tornar muito complexa essa tarefa.
O outro tema em destaque na edição de hoje do jornal O Globo é o aparecimento público do ex-presidente Lula da Silva e as suas declarações de ataque a Jair Bolsonaro e à forma como tem sido conduzido o combate à pandemia mas, sobretudo, a sua declaração de ter sido vítima da maior manipulação jurídica que aconteceu no Brasil nos últimos 500 anos e que o juiz Sérgio Moro é um mentiroso. Lula da Silva não revelou as suas intenções quanto ao futuro, limitando-se a dizer que vai percorrer o país e reencontrar-se com os seus amigos e apoiantes, o que parece significar o início de uma caminhada que o leve de novo ao Palácio da Alvorada em Brasília, que ocupou entre 2003 e 2011. 
A pandemia derrotou Donald Trump. Será que a pandemia vai derrotar Bolsonaro?

terça-feira, 9 de março de 2021

Macau e a sua moderna Biblioteca Central

As edições dos três jornais macaenses que se publicam em português destacam hoje na sua primeira página uma fotografia da maquete do edifício da futura Biblioteca Central de Macau.
A intenção de construir uma biblioteca moderna já era antiga e o primeiro concurso para o projecto de arquitectura foi lançado em 2008, mas acabou por ser suspenso. Depois houve avanços e recuos que se arrastaram por muito tempo, mas parece que finalmente o projecto vai arrancar. No passado mês de Setembro foi anunciado que a nova Biblioteca Central seria construída na Praça do Tap Seac, no centro da cidade e no local onde se localizou o antigo Hotel Estoril, estando já escolhidas as quatro equipas de projectistas que integravam a short list – uma holandesa, uma finlandesa, uma suiça e outra irlandesa.
Agora, o governo de Macau anunciou que o atelier holandês Mecanno foi escolhido para desenvolver o projecto que apresentou. No seu portfólio a Mecanno conta com diversos projectos de referência como a Biblioteca de Birmingham, a renovação da Biblioteca Central Pública de Nova Iorque e a Biblioteca Dr. Martin Luther King em Washington. A escolha da Mecanno baseou-se na sua experiência neste tipo de projectos e no moderno design que apresentou, mas também foram analisados outras variáveis como o custo global, a dificuldade de construção, a concepção energética, a disposição funcional e os custos de design, entre outros. Os conceitos nucleares do projecto assentam na imagem de um livro, de estantes e lombadas e de uma página que se abre no centro da cidade.
As autoridades esperam que, mais do que um edifício onde se guardam livros, o novo edifício se torne num ex-libris da modernidade de Macau e um centro cultural de referência. A obra terá um custo estimado de 500 milhões de patacas (cerca de 52 milhões de euros) e espera-se que fique concluída em 2025.

Luiz Inácio Lula da Silva está de volta?

Luiz Inácio Lula da Silva foi presidente do Brasil entre 2003 e 2011, tendo sido um dos mais populares presidentes da história brasileira, tanto interna como externamente. Os seus governos foram marcados pelas políticas sociais como o Bolsa Família e o Fome Zero, que foram reconhecidos pelas Nações Unidas e se tornaram referenciais na luta contra a pobreza para muitos países.
Em 2013, dez anos depois do início desses programas, a FAO anunciava que o Brasil tinha conseguido reduzir a pobreza extrema em 75% e que, em termos globais, a pobreza tinha sido reduzida em 65%. Era a consagração das políticas sociais dos governos de Lula, pelo que foi reconhecido à escala mundial e foi distinguido com dezenas de condecorações e com 36 doutoramentos honoris causa.
A partir de 2016 surgiram acusações, designadamente de lavagem de dinheiro e de ocultação de património e, dois anos depois, foi condenado com pena de prisão pelo controverso juiz Sérgio Moro mas, após 580 dias na prisão, veio a ser libertado em Novembro de 2019. Muitos consideraram que o processo e a sentença foram viciados com intenções políticas, até porque Lula foi impedido de se candidatar à Presidência da República quando as sondagens lhe davam o favoritismo.
Ontem, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações ditadas pela Vara Federal de Curitiba e pelo juiz Moro, pelo que o antigo Presidente recuperou todos os seus direitos políticos.
Luiz Inácio Lula da Silva tem 75 anos de idade e poderá estar de volta como hoje titula o jornal O Dia que se publica no Rio de Janeiro. Lula já estará a equacionar a hipótese de se recandidatar às eleições presidenciais de 2022, mas também já estará a estudar a forma de pedir contas pelos danos políticos e morais que sofreu, devido à manipulação dos processos judiciais em que foi envolvido. Independentemente de se recandidatar ou não, o regresso de Lula da Silva à vida política anima milhões de brasileiros e vai ter consequências.

segunda-feira, 8 de março de 2021

As três medalhas de ouro para Portugal

Realizaram-se na cidade polaca de Torun durante quatro dias, os Campeonatos Europeus de Atletisno em pista coberta e a participação portuguesa destacou-se ao obter três medalhas de ouro, o que nunca acontecera, mesmo nos tempos de Carlos Lopes, de Rosa Mota e de outros grandes atletas que conhecemos. 
Com surpresa, as medalhas não foram conquistadas nas corridas de fundo como era habitual, mas em disciplinas ditas técnicas, como o lançamento do peso e o triplo salto. A consulta do medalheiro do European Athletics Campionship (indoor) mostra uma situação inédita, com Portugal no segundo lugar, apenas atrás da Holanda, mas bem à frente de todos os outros países participantes. Na sexta-feira tinha sido Auriol Dongmo a vencer a prova do lançamento do peso feminino e, ontem, foram Pedro Pichardo e Patrícia Mamona que venceram a prova do triplo salto. A bandeira portuguesa foi hasteada três vezes no Arena Torun e todos pudemos ver como cada um dos novos campeões europeus, mesmo com máscara, cantou A Portuguesa, o que não costuma acontecer com os futebolistas.
Os jornais desportivos portugueses renderam-se a estes resultados e, por uma vez, esqueceram o futebol e dedicaram a sua primeira página aos novos campeões europeus.
De facto, a indústria do futebol arrasa todo o espaço mediático desportivo, mas desta vez o jornal A Bola e os outros jornais desportivos portugueses, não conseguiram ignorar estes resultados.
Aqui fica o meu aplauso pelas performances desportivas destes três atletas, esperando-se que se mantenham em forma para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

sábado, 6 de março de 2021

O Papa Francisco está em visita ao Iraque

Depois de vinte e quatro anos no poder, o ditador Saddam Hussein foi derrotado pelas tropas de uma coligação liderada pelos Estados Unidos que, no dia 20 de Março de 2003, invadiu o território do Iraque e o veio a ocupar militarmente.
A República do Iraque tinha sido criada na sequência da dissolução do Império Otomano a seguir à Grande Guerra de 1914-18, tornando-se num estado independente em 1919, mas a sua história mostra que nunca foi conseguida a unidade nacional, sobretudo devido às rivalidades religiosas entre xiitas, sunitas e curdos. Daí que os iraquianos tivessem vivido muito tempo com guerras e golpes de estado, tendo sido por essa mesma via que Saddam Hussein ocupou o poder em 1979 e o manteve até 2003.
Saddam Hussein era acusado de possuir armas de destruição em massa e essa foi a justificação para que a coligação invadisse o país à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas essa acusação era falsa. Ele perdeu essa segunda Guerra do Golfo e foi capturado pelas tropas americanas. Seguiram-se os esforços da comunidade internacional patrocinados pelas Nações Unidas para pacificar o país e dar-lhe uma estrutura governativa estável. Porém a guerra abriu uma caixa de Pandora e, desde então, o país tem estado em guerra interna provocada por diferentes facções e sob ameaça externa, bastando recordar duas recentíssimas ocorrências: uma emboscada ocorrida a norte de Bagdad, em que morreram 11 soldados iraquianos e o duplo ataque suicida acontecido no centro de Bagdad, em que houve 32 mortos e 110 feridos. É nesse contexto de instabilidade nacional e de recrudescimento das actividades terroristas e do reaparecimento dos jihadistas do Estado Islâmico, que se está a realizar a viagem do Papa Francisco ao Iraque, em defesa da paz e da tolerância religiosa, mas também em apoio aos cristãos iraquianos. É um grande acontecimento no caminho da paz entre os iraquianos, mas também é um acto de grande coragem do Papa, tendo sido noticiado com destaque na imprensa internacional, designadamente pelo The Wall Street Journal.
O Papa Francisco chegou ontem a Bagdad e as primeiras notícias que nos chegam são promissoras, porque o encontro que já manteve com o ayattollah Ali al Sistani, a máxima autoridade religiosa dos xiitas, se traduziu num pacto de amizade sem precedentes entre cristãos e xiitas, de que resultará a protecção da minoria cristã no Iraque e em outros países do Médio Oriente.

sexta-feira, 5 de março de 2021

A pandemia e o Jair desesperam o Brasil

Com um sentido inverso do que se passa em Portugal, o Brasil está a atravessar um momento muito difícil devido à crise pandémica, verificando-se que o número de óbitos se aproxima dos dois mil registos diários, enquanto o número de novos infectados ultrapassa os setenta mil casos por dia. Esta situação é muito preocupante porque já estão contabilizados 260.970 óbitos desde o início da pandemia, um valor que no mundo só é superado pelos Estados Unidos. 
Embora seja difícil perceber as razões da actual subida de casos e de óbitos, verifica-se que a imprensa brasileira atribui uma boa parte dessa responsabilidade ao próprio presidente da República, recordando o mau exemplo que constituem as palavras que utiliza quando fala para a imprensa: “E daí?", "gripezinha", "não sou coveiro" e "país de maricas" foram algumas das formas utilizadas pelo presidente da República  para desvalorizar ou mesmo desdenhar publicamente uma situação que continua a alastrar e que já infectou mais de dez milhões de brasileiros.
Neste contexto, o presidente Jair Bolsonaro interveio e ontem fez uma declaração pública em Goiás, em que afirmou: "Vocês não ficaram em casa. Não se acovardaram. Temos que enfrentar os nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?".
O jornal Estado de Minas, que se publica na cidade de Belo Horizonte, foi um dos jornais que não gostou da frescura, nem do mimimi, tendo criticado severamente as declarações do Jair, lembrando-lhe que o país real está desesperado. Outros jornais criticaram o Jair e lembraram a carência de vacinas e um confinamento pouco eficaz, a par de uma enorme quebra na economia. A OMS classificou a situação por que passa o Brasil como uma tragédia.
O Brasil bem precisava de um outro presidente, porque quando isto acabar vai ser necessário reconstruir o Brasil.

terça-feira, 2 de março de 2021

Um ano de covid-19 em Portugal

Perfaz-se hoje um ano sobre o dia 2 de Março de 2020 em que foram detectados os dois primeiros casos de covid-19 em Portugal e, desde então, verificaram-se 804 956 casos positivos dos quais cerca de 89,5% já recuperaram, tendo ocorrido 16 351 óbitos. Este número é dramático e supera o número de mortos havidos durante os treze anos de guerra colonial, mas esconde o drama de muitas famílias e uma realidade inesperada: o mundo mudou e nunca mais vai voltar a ser o que era, na política e na economia, na educação e na saúde, no desporto e na vida cultural. As facemasks e o take away, as conversas remotas via zoom e as compras online entraram nas nossas vidas e, durante o ano que passou, pudemos assistir a uma multidão de oportunistas que, disfarçados de especialistas, tomaram de assalto os espaços televisivos. Porém, a mediocridade da televisão portuguesa foi mais longe e entregou os seus noticiários a estagiários que, em vez de informarem e esclarecerem, apenas procuram saber o que não correu bem e arranjar responsáveis para serem queimados na praça pública. Tem sido um ano televisivamente lamentável.
Naturalmente que nem tudo tem corrido bem, até porque tudo está a passar-se num quadro que não se conhecia. No entanto, tem havido a humildade de reconhecer erros e tem havido o generoso contributo de muitos profissionais que, por detrás desta cortina que é a televisão e muitos dos seus patetas, trabalha dedicadamente nos hospitais e nos serviços de apoio à rede hospitalar. Por isso, aqui fica a minha gratidão e o meu aplauso à tenacidade e à dedicação com que a Ministra da Saúde, a Directora Geral da Saúde e as suas equipas têm enfrentado não só a pandemia, mas também o histerismo de comentadores, de estagiários de jornalismo e das ordens profissionais, tão apostadas andam na promoção pessoal dos seus bastonários.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Jair Bolsonaro: autoritário e populista

Embora sejamos confrontados com diferentes narrativas em relação à evolução da pandemia e haja notícias animadoras nas últimas semanas, ainda ninguém avança com previsões seguras quanto ao futuro, que continua dominado pela incerteza. No entanto há algumas excepções que contrariam o alívio que se sente um pouco por todo o mundo e a mais notória acontece no Brasil, que parece atravessar o seu pior momento em relação a novas infecções e ao número de óbitos, para além de se anunciar que em algumas cidades brasileiras os sistemas de saúde estão a entrar em colapso. O controlo da pandemia no Brasil tem dificuldades específicas devido à vastidão do território e à descentralização estadual, mas também devido à forma como os mais altos responsáveis do país quiseram tratar esta “gripezinha”, como se lhe referiu o próprio Presidente da República.
De facto, Jair Bolsonaro sempre desvalorizou a pandemia, ao mesmo tempo que sempre procurou reforçar o seu projecto de poder populista e autoritário, com que ultrapassa a lei, os princípios democráticos e o bom senso. O homem parece delirar e procura inspiração no rei Luis XIV que, em finais do século XVII, afirmou que “L´Etat c´est moi”. Pois Bolsonaro já no ano passado, imitando o Rei Sol, gritou que “eu sou a Constituição”. Agora, num novo registo de autoritarismo, decidiu interferir na Petrobras para servir a sua clientela, quebrando a confiança dos agentes económicos e descredibilizando o país junto dos mercados internacionais. O ridículo cobriu-o completamente quando gritou: “Eu sou o Estado”.
Na sua mais recente edição a revista paulista IstoÉ apresenta Bolsonaro como um vulgar rambo, denunciando o seu comportamento e os seus propósitos para concretizar um projecto de poder pessoal autoritário. Porém, a gravidade da crise sanitária, não parece levantar qualquer tipo de preocupação ao Jair.