quinta-feira, 5 de março de 2026

Destroços de guerra são atração turística

O devastador ataque que Donald Trump e o seu parceiro Benjamin Netanyahu desencadearam contra o Irão é uma violação do direito internacional, sem a cobertura das Nações Unidas e sem justificação, mesmo considerando a extrema violência do regime iraniano sobre a sua população. É um confronto de regimes cujos dirigentes são fanáticos que excluem qualquer negociação para as suas divergências e que tudo querem resolver através das bombas, da morte e da destruição. Como mostram todas as sondagens conhecidas, a maioria dos americanos está contra a guerra. Na Europa, embora não se conheçam sondagens sobre essa questão, certamente que a maioria também não quer a guerra. Porém, os seus líderes calam-se, encolhem-se, amedrontam-se e deixam-se humilhar por essa parelha de fanáticos, com a honrosa excepção de Pedro Sánchez que, corajosamente, afirmou que “não vamos ser cúmplices de algo que é mau para o mundo e contrário aos nossos interesses, simplesmente por medo de represálias de alguém”.
Quanto ao que se passa no terreno, apenas sabemos aquilo que as partes querem que se saiba. É sempre assim. A guerra da propaganda é tão intensa como a guerra das bombas, dos mísseis e dos drones, mas não há dúvidas que os pontos estratégicos iranianos estão a ser massacrados e que os iranianos estão a tentar atingir Israel e as bases americanas da região com os seus mísseis.
Hoje o jornal holandês AD - Algemeen Dagblad, que se publica em Roterdão, destacou na sua primeira página a fotografia de um míssil iraniano que errou o alvo junto do aeroporto de Qamishli, no Curdistão sírio, que não explodiu. Esse míssil tornou-se uma quase atracção turística e foi muito fotografado, tendo servido de ilustração de primeira página a muitos jornais americanos e europeus. 
Vai ser, certamente, uma fotografia que ficará para a história desta guerra,

terça-feira, 3 de março de 2026

A exemplar autonomia política da Espanha

Antigamente, dizia-se que não se podia esperar da Espanha, “nem bom vento, nem bom casamento”, mas esses tempos já estão muito distantes porque da Espanha soberana, independente e orgulhosa, nos chegam estimulantes exemplos de uma política externa própria e de não subserviência aos arrogantes disparates, como aquele que está a ser conduzido por Donald Trump contra o Irão, talvez por causa do petróleo, talvez pelo caso Epstein, ou sabe-se lá porquê. Tal como a guerra do Iraque em 2003, também agora se inventou uma ameaça enquanto se negociava. Ao contrário do que acontece com outros países europeus e como hoje anuncia a manchete do jornal El País, a “España rechaza las bases para los ataques de EE UU a Irán”, mas esta recusa já levou o fanfarrão a anunciar o corte de todas as relações comerciais com a Espanha. Há poucos meses, o governo de Espanha acusou o regime de Netanyahu de “exterminar o povo palestiniano” e anunciou medidas contra Israel, porque “da mesma forma que condenou o Hamas, também condena o genocídio em Gaza”, quando toda a Europa se calou perante a destruição e as atrocidades cometidas pelos extremistas de Israel no território de Gaza.
Os espanhóis são uns valentes, mas não só na festa brava em que enfrentam os touros. A sua política externa também é corajosa e merece todo o respeito, até porque compara com a generalizada subserviência europeia às ameaças e às excentricidades belicosas de Donald Trump. Daí que a situação nos evoque o texto que José de Almada Negreiros escreveu em 1915 e que intitulou Manifesto anti-Dantas, em que criticou com ironia o escritor teatral Júlio Dantas e escreveu:

    O Dantas é o escárnio da Consciência!
    O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
    O Dantas é a meta da decadência mental!
    Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

Calem-se os canhões e avance o diálogo

O violento e brutal ataque contra o Irão que foi desencadeado pela parelha Trump-Netanyahu e está em curso, não é apenas uma grosseira violação da ordem e da lei internacionais, mas é também uma tentativa de controlar o petróleo iraniano e um crime contra as populações indefesas e, esperemos, que não seja uma provocação aos aliados do Irão, sobretudo a Rússia e a China.
Donald Trump revela cada vez mais desequilíbrios mentais, vive obcecado com a sua promessa de fazer a América grande outra vez e já afirmou várias vezes que defende os interesses americanos, isto é, a pilhagem dos recursos naturais dos outros países, seja o petróleo da Venezuela ou do Irão, sejam as terras raras da Ucrânia e da Gronelândia.
Se Luís XIV dizia que “l’État c’est moi”, o Donald sonha em poder um dia afirmar “I rule the world”. Não lhe interessam os regimes políticos desde que os países se submetam à sua vontade e para esse desígnio subversivo, usa o poder das suas armas, o terror das suas bombas, a violência da sua destruição. As imagens que nos chegam pela televisão mostram-nos mais uma vez o horror da guerra, tal como faz a primeira página do jornal britânico The Guardian, porque os jornais americanos não mostram a face hedionda da guerra e preferem enfatizar a morte do clérigo ditador Ali Khamenei, talvez para ajudar o Donald, ou por ter medo dele.
Porém, os cidadãos americanos não estão com o Donald e estão maioritariamente contra esta ação da parelha Trump/Netanyahu. Segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos há 43% dos americanos que estão contra e apenas 27% apoiam os ataques militares ao Irão, mas uma sondagem da CNN revela que 59% dos americanos desaprovam a iniciativa de Trump. 
Por isso, que se calem os canhões e que avance o diálogo.

domingo, 1 de março de 2026

A nova guerra de Donald Trump

Os figurões Donald Trump e Benjamin Netanyahu que governam os Estados Unidos e Israel, têm sob as suas ordens poderosas forças militares com as quais decidiram atacar o Irão, uma república teocrática islâmica que possui abundantes recursos petrolíferos.
Foi no sábado e, embora as informações que nos chegam pela comunicação social sejam vagas e até contraditórias, tudo aponta para que o ataque tenha sido devastador, tendo sido mortos muitos dirigentes iranianos, incluindo o líder supremo que era, desde há 35 anos, o aiatolá Ali Khamenei.
Decorriam negociações entre os Estados Unidos e o Irão para encontrar uma solução para a questão nuclear iraniana, havendo algumas declarações que referiam que havia progressos, pelo que a decisão daqueles dois figurões foi criminosa, injusta, violadora do direito internacional e um atentado à paz mundial. É certo que o regime iraniano é uma ditadura, autoritário e arrogante, que o país vive sob um regime de terror, ou próximo dele, mas nem Trump nem Netanyahu são polícias do mundo, nem têm qualquer legitimidade para alterar desta forma o regime iraniano.
Com esta iniciativa que vários países europeus condenaram abertamente, tanto Trump como Netanyahu revelaram, uma vez mais, o seu alinhamento com práticas que violam a soberania de outros estados e o direito internacional, além de serem cruéis e desumanas e tenham características bem próximas de um terrorismo.
O que Netanyahu fez em Gaza, tal como o que Trump fez na Venezuela e em Cuba merecem o repúdio da comunidade internacional, embora a Europa tivesse ficado calada. Agora os dois figurões juntaram forças e atacaram o Irão, provavelmente a pensar no seu petróleo. 
Na sua edição de hoje o jornal Público fez jornalismo e, ao contrário da generalidade da imprensa internacional que noticiou a morte de Ali Khamenei, o jornal português disse e bem que é “a nova guerra de Trump”.
Esse Donald queria ganhar o Nobel da Paz, mas só pensa na guerra. Está a ser um problema para a América e para o mundo…

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Quatro anos de derramamento de sangue

O dia 24 de fevereiro de 2022 marca o início da tentativa russa de ocupar Kiev e da guerra que, desde então, se intensificou na Ucrânia. Quatro anos depois, alguns jornais evocaram essa data a priori e aqui foram referenciados, mas outros trataram-na a posteriori e apresentam-no nas suas edições de hoje, evidenciando uma grande solidariedade para com a resistência e coragem ucranianas. Porém, são evidentes dois tipos de posicionamento: alguns jornais anunciam mais solidariedade e mais apoio de armas e dinheiro à Ucrânia, com a presença em Kiev de António Costa, Ursula von der Leyen e outros líderes, enquanto outros jornais mostram a fotografia dos cemitérios ucranianos numa verdadeira mensagem de apelo à paz.
Entre estes destaca-se o jornal canadiano Toronto Star que, para além do título “quatro anos de derramamento de sangue”, publica uma fotografia de um cemitério em Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia, em que foram colocadas bandeiras nacionais nas campas dos mortos.
É sabido que a guerra tem sido muito violenta e que até o próprio Donald Trump argumenta que é preciso acabar com “a matança e o massacre”, porque está a morrer muita gente jovem, mas nenhuma das partes tem sido clara na divulgação dessa informação. Segundo algumas estimativas, o número combinado de militares mortos, feridos ou desaparecidos dos dois lados pode chegar a 1.800.000.
Como aqui desde sempre tem sido salientado, é necessário que a guerra acabe depressa para que o povo ucraniano tenha a paz, o sossego e o progresso a que tem direito e  possa escolher livremente as suas opções, sem a pressão de Moscovo, nem de Bruxelas, nem de Washington.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Ucrânia: quatro anos de guerra e de dor

Estão decorridos quatro anos desde o dia em que as tropas russas iniciaram a sua “operação militar especial” com o ataque à Ucrânia e hoje, de entre os muitos jornais publicados no mundo, apenas encontramos três jornais que evocam essa data, através de reportagens assinadas pelos seus enviados especiais às frentes de combate. Este facto mostra como a imprensa internacional está cansada desta guerra e, naturalmente, também mostra como as opiniões públicas se têm desinteressado deste folhetim, em que poucos se preocupam com o povo ucraniano que é a grande vítima desta “guerra civil”, ou deste choque de interesses e de vaidades entre a Europa e a Rússia ou, ainda, deste confronto que prenuncia uma futura luta mais intensa entre o Ocidente e o Oriente.
Os jornais que hoje evocam os quatro anos de guerra na Ucrânia são os franceses La Dépêche du Midi (Toulouse) e La Croix (Paris) e o espanhol el Periódico (Barcelona). Os títulos e subtítulos apresentados nas suas primeiras páginas dão-nos algum esclarecimento sobre a situação.
O jornal La Dépêche du Midi diz que “a Ucrânia oscila entre a esperança da paz e o medo de um atoleiro” e que “o conflito só terminará quando russos e ucranianos compreenderem que o custo da guerra é superior aos ganhos possíveis”.
O jornal católico La Croix escreve apenas que são “1500 km de linha da frente” e que “em Kherson, aqueles que restam são os velhos, os pobres e os doentes”.
O jornal el Periódico escreve que “quatro anos de guerra deixam a Ucrânia sem forças”, acrescentando que “a população aceita cada vez mais renunciar a territórios”, que “o conflito, com as frentes estancadas, já dura mais que a guerra da Coreia” e que “a Europa, encurralada por Trump, busca o seu lugar nas negociações”.
Neste quadro, é tudo muito difícil e na Europa há erros acumulados e muitas divergências. Parece, agora, que Macron e Meloni querem falar com Putin, que Friedrich Merz não vê o final possível da guerra, que von der Leyen quer mais um pacote de sanções contra a Rússia e que Viktor Órban bloqueia financiamentos à Ucrânia e sanções à Rússia. Agora, também reapareceu o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson, provavelmente um dos maiores responsáveis por esta guerra não ter terminado ao fim de uma ou duas semanas, a sugerir que o Reino Unido deveria enviar tropas não combatentes para a Ucrânia, isto é, mandar gasolina para a fogueira. Com esta gente e como se tem visto, é mesmo muito difícil acabar com o conflito e há mesmo quem queira que prossiga, para depois tirar partido da desgraça dos outros.
Como alguém disse, ou escreveu, a guerra vai acabar pela exaustão e não com negociações.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Milano-Cortina 2026 acabou em festa

Os XXV Jogos Olímpicos de Inverno que se disputaram nas cidades italianas de Milão e Cortina d’Ampezzo, terminaram hoje e se as cerimónias de abertura realizadas no Milano San Siro Olympic Stadium foram “inesquecíveis”, como então escreveu a organização, as cerimónias de encerramento que aconteceram hoje em Verona, na imponente Verona Olympic Arena, ou Coliseu de Verona, foram uma festa formidável de exibição da cultura italiana e, em especial, da erudita arte da ópera.
Verona é uma cidade histórica e simbólica, tendo sido o cenário escolhido por William Shakespeare em finais do século XVI para situar a sua peça trágica “Romeu e Julieta”, havendo na cidade um palácio, conhecido como o Palácio dos Capuletos, onde até se pode ver a famosíssima “varanda da Julieta”…
Relativamente aos resultados desportivos desta Olimpíada destacou-se o norueguês Johannes Klæbo, que foi o primeiro atleta a conquistar seis medalhas de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno, ao vencer todas as competições em que entrou e que já acumula 11 medalhas de ouro olímpicas. Só os nadadores Mark Spitz com sete medalhas de ouro em Munique 1972 e Michael Phelps com oito medalhas de ouro em Pequim 2008, fizeram melhor. Porém, na lista dos mais medalhados olímpicos de sempre, a seguir a Phelps que ganhou 23 medalhas de ouro, está agora Klæbo que tem onze na sua vitrina.
As medalhas em Milano-Cortina 2026 foram distribuídas por atletas de 29 países, com destaque para a Noruega (41 medalhas das quais 18 de ouro), Estados Unidos (33 medalhas das quais 9 de ouro), os Países Baixos (20 medalhas das quais 10 de ouro) e a Itália (30 medalhas das quais 10 de ouro). Os atletas da China, que nos últimos anos apareceram nestes Jogos, já conquistaram 15 medalhas, das quais cinco foram de ouro, pelo que a edição de hoje do jornal China Daily destaca em primeira página os campeões chineses. No “medalheiro” destacaram-se ainda a Espanha com três medalhas, incluindo uma medalha de ouro) e o Brasil com uma medalha de ouro. 
Milano-Cortina 2026 terminou. A 36ª edição dos Jogos Olímpicos de Inverno será realizada em 2030 nos Alpes Franceses. Até lá...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

André Mountbatten-Windsor e a imprensa

André Mountbatten-Windsor foi o filho favorito da Rainha Isabel II e é irmão do Rei Carlos III, ocupando a oitava posição na linha de sucessão ao trono britânico. Serviu na Royal Navy durante cerca de vinte anos e durante a guerra das Falklands em 1982, foi copiloto de helicópteros Sea King a bordo do porta-aviões Invencible
Nos últimos meses foram divulgadas as suas relações com Jeffrey Epstein e alguns escândalos sexuais pelo que lhe foram retirados todos os títulos nobiliárquicos. Ontem foi detido por suspeita de “irregularidades enquanto titular de um cargo público” e a comunicação social de todo o mundo “não falou de outra coisa”, tendo havido cadeias de televisão portuguesas que, propositadamente, mandaram repórteres a correr para Londres para noticiar o acontecimento. Um exagero mundial e um exagero nacional.
A detenção do cidadão André Mountbatten-Windsor ocupou a primeira página da edição de hoje do jornal The Times, mas também de muitos jornais de todo o mundo, reproduzindo a fotografia do detido na viatura em que foi conduzido aos calabouços da Polícia para ser interrogado. Embora o André não seja um cidadão qualquer, não se percebe a razão por que em Portugal, na Espanha, no Reino Unido, na França, na Suiça, na Irlanda, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Austrália, na Argentina, na Áustria, na Itália, na Grécia e certamente em muitos outros países, esse seja o tema central do interesse jornalístico. Não é aceitável tanta conversa sobre o André e haja um quase silêncio sobre o que está acontecer com o embargo americano a Cuba que, tendo sido iniciado em 1962, assumiu nas últimas semanas o carácter de um assassinato generalizado ao povo cubano, nem se fale na pressão israelo-americana para atacar o Irão, nem se fale do sofrimento dos palestinianos em Gaza e na Cisjordânia, nem em muitos outros problemas com que o mundo se debate. Não parece ser jornalismo sério. Até parece que o problema do mundo é o André…  

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Donald Trump e o afundamento de Cuba

Desde que no dia 1 de janeiro de 1959 o ditador Fulgencio Batista fugiu de Havana para a Republica Dominicana e os guerrilheiros barbudos de Fidel de Castro tomaram o poder em Cuba – já passaram 67 anos – que o país tem vivido no fio da navalha, devido à hostilidade americana em relação ao seu alinhamento com o bloco soviético. Com a implosão da União Soviética ocorrida em 1991, a situação agravou-se, embora se pensasse que o fim de Fidel Castro, que aconteceu em 2016, levasse a um progressivo afastamento cubano dos seus aliados tradicionais, sobretudo a Rússia e a Venezuela.
Embora os Estados Unidos mantenham sanções económicas muito duras contra o regime cubano desde há muitos anos, a administração Trump decidiu subir a parada, depois da captura do presidente Nicolás Maduro no passado dia 3 de janeiro. Com esse golpe foi interrompida a entrega de 27.000 barris diários de petróleo que o regime chavista fazia a Cuba e, paralelamente, foi anunciada a ameaça de imposição de sanções comerciais a quem venda petróleo a Cuba, pelo que os países amigos de Cuba e os fornecedores alternativos estão hesitantes. A economia de Cuba começa a estar asfixiada e próximo do colapso, o turismo caiu, enquanto é relatada uma gravíssima crise social. Não há electricidade, não há água, não há comida e a fome ameaça os 11 milhões de cubanos. O jornal espanhol El País escreveu que é “el hundimiento de Cuba”.
A crise humanitária cubana é muito grave e a Espanha decidiu enviar ajuda alimentar e de produtos sanitários de primeira necessidade, tal como fez o México que enviou mais de 800 toneladas de alimentos, mas ninguém se atreve a enviar o petróleo de que Cuba necessita.
Entretanto, na sua edição de hoje, o jornal Granma, o “órgano oficial del Comité Central del Partido Comunista de Cuba”, destaca em primeira página que “Cuba resiste y resistirá esta agresón inhumana”, embora seja cada vez mais evidente que o regime e o povo cubano estão cada vez mais afastados. Porém, o que Trump está a fazer é uma condenação à morte do povo cubano.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Brasil ganha ouro em Cortina d’Ampezzo

Estão a decorrer os XXV Jogos Olímpicos de Inverno que se disputam nas cidades italianas de Milão e Cortina d’Ampezzo, que são vulgarmente conhecidos por Milão-Cortina 2026. Desde o dia 6 de fevereiro e até ao dia 22, estarão em prova 2.871 atletas representando 96 países, a maioria dos quais com uma presença simbólica, como acontece com a Guiné-Bissau, o Benim, a Eritreia, a Colômbia, o Quénia e até mesmo com Portugal, porque os desportos de inverno só acontecem onde há neve e gelo. Daí que os Jogos Milão-Cortina 2026 interessem pouco os portugueses e que a maioria das medalhas até agora disputadas tenha sido conquistada por noruegueses, italianos, americanos, suecos, holandeses, franceses, alemães e austríacos.
Porém, por vezes acontecem imprevistos e até o tropical Brasil, que escalda em tempo de Carnaval, teve uma medalha olímpica de ouro!
Aconteceu no dia 14 de fevereiro, quando a prova de Sky Alpino Slalom Gigante Masculino foi ganha por Lucas Pinheiro Braathen, que bateu os suíços Marco Odermatt e Loic Meillard. 
Lucas nasceu em Oslo, é filho de mãe brasileira e tem 25 anos de idade. A sua dupla nacionalidade brasilo-norueguesa permitiu-lhe representar o Brasil e ser o primeiro brasileiro e latino-americano a conquistar uma medalha olímpica nos Jogos de Inverno (na mesma prova o português Emeric Guerillot foi o 38º classificado).
Quando da subida ao pódio para receber a sua medalha de ouro, o medalhado Lucas Pinheiro não aguentou a sua euforia e deu um salto de satisfação, pouco habitual nestas cerimónias mas muito compreensível, tendo essa fotografia ilustrado a edição d’O Estado de S. Paulo, mas também de outros jornais brasileiros e estrangeiros. Essa fotografia vai certamente figurar na galeria das mais expressivas fotografias dos Jogos Milão-Cortina 2026.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O comboio de tempestades que cá passou

A depressão Kristin chegou a Portugal na noite de 28 de janeiro e entrou pela zona centro do país, com ventos ciclonicos de extrema violência, tendo sido registada uma rajada de 209 km/hora na estação de Soure. A destruição provocada foi muito severa, com postes eléctricos partidos, telhados destruídos, árvores arrancadas e muitas infraestruturas públicas e empresariais danificadas, com chuvas torrenciais que provocaram cheias e inundações. No dia seguinte, o governo aprovou uma resolução declarando a situação de calamidade até ao fim do dia 1 de fevereiro nos concelhos mais afetados, mas depressa corrigiu e prolongou essa situação até ao dia 8. Porém, a chuva não deu tréguas e no dia 4, com a chegada da depressão Leonardo, a situação agravou-se com forte agitação marítima, neve nas terras altas e com chuva “equivalente a três dias em apenas 24 horas”. As inundações intensificaram-se, algumas povoações ficaram isoladas, houve estradas submersas, algumas populações foram desalojadas e o pânico chegou às margens de diversos rios, sobretudo do Sado, do Tejo e do Mondego. O governo, uma vez mais prolongou o estado de calamidade até ao dia 15. Porém, no sábado que foi dia 8, surgiu a depressão Marta, com mais chuva, neve, vento, agitação marítima e, sobretudo, uma nova subida dos caudais dos rios e ribeiras da zona centro do país. Num quadro tão desolador, temeu-se que nas eleições presidenciais do dia 9 muitos eleitores se abstivessem, mas isso não aconteceu e os portugueses rejeitaram aventuras.
A situação de calamidade continuou com mais chuvas e com as barragens a atingirem os seus níveis máximos, obrigando a descargas que alimentaram as inundações, mas no dia 12 começaram a aparecer os primeiros sinais de acalmia da situação. A depressão Oriana ainda passou por perto, mas sem agravar a situação, enquanto os especialistas informaram que tinha sido a 15ª tempestade do corrente outono/inverno e sugeriram que foi “a última depressão do comboio de tempestades que afectou o continente português”.
Hoje o jornal Público mostra uma estrada rural destruída e alerta para os prejuízos milionários na agricultura, embora a calamidade tivesse afetado todos os sectores da sociedade e da economia. Agora há que ajudar quem precisa, reerguer o que caíu e aprender todas as lições que esta calamidade nos trouxe.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Democrata Seguro será Presidente seguro

António José Martins Seguro foi ontem eleito como o novo presidente da República Portuguesa, tendo recebido cerca de três milhões e meio de votos que correspondem a 66,82% do total dos votos expressos nas urnas. A sua expressiva vitória inspirou o jornal Público que, na sua edição de hoje, escolheu a palavra seguríssimo como manchete. 
O presidente eleito tem 63 anos de idade, vive nas Caldas da Rainha e tem como principais credenciais políticas o facto de ter sido eurodeputado, ministro do governo de António Guterres e secretário-geral do Partido Socialista. A sua expressiva vitória, foi também a vitória da Democracia e da Liberdade, dos valores do 25 de Abril e da moderação e do equilíbrio, mas também foi uma pesada derrota para os extremistas, para os saudosistas do antigo regime e para os populistas que não olham a meios para atingir os seus fins.
Sobre o presidente eleito pesam agora grandes responsabilidades como inspirador da sociedade portuguesa e moderador das lutas políticas, pois é necessário ultrapassar a situação em que o nosso país se encontra, sobretudo depois das recentes calamidades meteorológicas, mas também levar o país a ser internacionalmente menos subserviente e a ser mais consequente no combate à pobreza e à corrupção. Embora não vá governar, espera-se que o novo presidente não siga os caminhos do seu antecessor, que aparecia por todo o lado, que falava demais e que viajava demasiado sem se saber para quê. 
António José Seguro tem o nosso aplauso e vai ser um Presidente seguro e firme na defesa da Liberdade e da Democracia, da Paz e da Justiça Social. 
Seguro sucede a Soares, a Sampaio, a Silva e a Sousa, isto é, parece que para se ser Presidente da República tem que se ter um apelido começado na letra S

Honi soit qui mal y pense!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Kristin e Leonardo: a fúria da tempestade

Portugal está a viver tempos muito difíceis, com uma sucessão de fenómenos meteorológicos pouco comuns que têm afetado o país com ventos ciclónicos e destruições, mas também com chuvas diluvianas e inundações, que causaram algumas mortes, muitos desalojados e incalculáveis prejuízos materiais. As tempestades e o enorme desespero que provocaram, foram devidas à passagem das depressões Kristin e Leonardo, que têm sido classificadas como ciclones, sem que haja cuidados na utilização do termo científico mais adequado a cada uma das situações.
A depressão Kristin foi uma ocorrência que atingiu a região centro do país com ventos de grande violência, que destruíram habitações e telhados, edifícios, muitas infraestruturas empresariais, que arrancaram árvores e partiram postes eléctricos, deixando milhares de pessoas sem abrigo, sem energia e sem trabalho.
Inicialmente poucos imaginaram a dimensão da destruição, inclusive o próprio governo e essa coisa que é a Proteção Civil, o que contribuiu para a angústia e para o sofrimento de milhares de pessoas. Escreveu-se que foi “a força da natureza associada à incompetência e irresponsabilidade”. Diz o povo que “uma desgraça nunca vem só” e logo apareceu a depressão Leonardo, que embora não tenha tido a fúria destruidora da depressão Kristin, deixou o país novamente em sobressalto, com muita chuva, inundações, desabamentos de terras e isolamento de algumas povoações ribeirinhas, como não havia memória de antes ter acontecido.
Hoje, com destaque, o Jornal de Notícias publica uma fotografia de Ereira, uma aldeia do concelho de Montemor-o-Velho, que está absolutamente isolada pela cheia do rio Mondego. É apenas um exemplo das dificuldades que se atravessam e que revelam duas realidades bem diferentes em Portugal: de um lado o povo que sofre e aqueles que, voluntários e solidários o ajudam, enquanto do outro lado andam figurões com títulos diversos, que não sabem nem percebem o que se passa, mas que insistem em aparecer na televisão.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Djokovic e Alcaraz: rei morto, rei posto!

Ontem, na cidade australiana de Melbourne, realizou-se a final do Australian Open, em que o tenista espanhol Carlos Alcaraz, de 22 anos de idade, venceu o tenista sérvio Novak Djokovic, de 38 anos de idade. Este resultado desportivo, entre dois atletas de 38 e de 22 anos de idade que se enfrentaram, tem um enorme simbolismo geracional, porque representa um “render da guarda” e significa que tem plena justificação o conhecido provérbio “rei morto, rei posto”. Ninguém é insubstituível e a partir de agora Djokovic tenderá a ser esquecido pelo público, enquanto Alcaraz se vai tornar, ou já é, o novo ídolo do ténis mundial.
Novak Djokovic, com Roger Federer e Rafael Nadal, representou uma era e é, provavelmente, o melhor tenista de todos os tempos, possuindo os recordes como número um do mundo durante 428 semanas e com vitórias em 24 torneios de Grand Slam e em 40 Masters 1000.  
Carlos Alcaraz representa uma nova geração do ténis mundial, já venceu 7 títulos do Grand Slam e oito Masters 1000, sendo o mais jovem tenista que venceu cada um dos quatro torneios do Grand Slam (Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open).
Inúmeros jornais de todo o mundo destacaram nas suas edições de hoje, em primeira página e com fotografia, a vitória de Carlos Alcaraz, assim acontecendo com o diário The Age, que se publica em Melbourne. Naturalmente, os jornais espanhóis não se pouparam nos adjectivos – historico, leyenda, imparable, grande, total, el rey, de ensueño – tratando de transformar Carlos Alcaraz no novo ídolo da Espanha.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Continua a crueldade israelita sobre Gaza

O cessar-fogo em Gaza foi declarado no dia 10 de outubro de 2025 e, teoricamente continua em vigor, embora haja frequentes relatos de violações e de confrontos, em que Netanyahu e o Hamas se acusam mutuamente. 
Porém, o que aconteceu ontem foi mais um exemplo da brutalidade israelita sobre o território de Gaza e sobre a martirizada população palestiniana, pois um violento ataque matou pelo menos 32 pessoas, incluindo uma dezena de mulheres e seis crianças, o que constitui o maior número de mortes num só dia, desde o cessar-fogo. Assim, o número de palestinianos mortos desde a trégua de outubro já soma mais de meio milhar. 
Os governos do Egipto, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Paquistão, Turquia, Arábia Saudita e Catar já condenaram “as reiteradas violações por parte de Israel do cessar-fogo em Gaza, que causaram morte e ferimentos a mais de mil palestinianos". 
Procuramos saber como tinha reagido a imprensa internacional a esta agressão israelita e, com surpresa, apenas encontramos dois jornais que, com destaque de primeira página, mostraram a fotografia da violenta explosão provocada pelo ataque israelita de ontem no território de Gaza: um deles é o diário La Jornada que se publica na cidade do México e o outro é o jornal Rio Negro que é publicado na cidade argentina de General Roca, na Patagónia. Como diria o Papa Francisco foram os jornais do “fim do mundo” que estiveram atentos à desumanidade e mostraram que continua a crueldade em Gaza, enquanto a imprensa ocidental continua a mostrar-se indiferente ao genocídio de Netanyahu, ou alinhada com os seus falcões extremistas.
Naturalmente, a Europa também continua sem nada fazer, nem nada dizer...

sábado, 31 de janeiro de 2026

Os brilhantes andebolistas portugueses

Neste ano de 2026 realizou-se pela 17ª vez o EHF European Men's Handball Championship ou, mais simplesmente, o Campeonato da Europa de Andebol, com a equipa portuguesa a classificar-se no 5º lugar, o que constitui a sua melhor classificação de sempre.
A equipa fez oito jogos e brilhou: na fase preliminar (grupo B) com a Roménia (40-34), a Macedónia do Norte (29-29) e a Dinamarca (31-29); no main round (grupo I) com a Alemanha (28-30), a França (38-46), a Noruega (35-35) e a Espanha (35-27). Seguiu-se o jogo para a atribuição do 5º lugar e bateu a Suécia (36-35). Foram 4 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, numa campanha de grande nível competitivo, em que esteve com os melhores. Amanhã, a Dinamarca e a Alemanha vão disputar a final e, tendo essas duas equipas estado no caminho da equipa portuguesa, basta ver os resultados para concluir que Portugal poderia ter sido finalista. Entretanto, a equipa ficou apurada para o próximo Campeonato do Mundo que se realizará em 2027, no qual procurará melhorar o seu 4º lugar conquistado em 2025. Estão de parabéns os andebolistas portugueses que fazem do andebol um espectáculo tão artístico como um moderno bailado.
Pensava-se que a imprensa desportiva portuguesa iria destacar esta proeza desportiva, mas assim não aconteceu. Hoje os três jornais desportivos portugueses tratam de futebol, de futebol e de futebol. Com grandes fotografias na primeira página, cada jornal mostra um “ídolo”, que por acaso nenhum é português: um mostra um tal Alisson que o Nápoles quer mas que ninguém sabe quem é, outro exibe o Suárez que diz que não tem limites e o outro elogia um tal Temem Moffi que ainda nem chegou ao nosso país, mas que os nossos jornalistas já idolatram. 
Os brilhantes e talentosos andebolistas portugueses – n’A Bola, no Record e n’O Jogo – não mereceram mais que uma pequena nota de rodapé na sua primeira página. Palavras para quê?

A calamidade que nos trouxe a Kristin

Depois das depressões Ingrid e Joseph, o território continental português foi assolado pela depressão Kristin e aconteceu uma calamidade, sobretudo na região Centro do país, onde sopraram ventos ciclonicos e foi registada uma rajada de 209 km por hora. 
As imagens televisivas que pudemos observar mostram a dimensão de uma enorme catástrofe para que ninguém estava preparado, apesar dos habituais avisos amarelo e laranja que, por serem tão frequentes, já ninguém lhes liga. Para além de algumas mortes, houve muitas inundações, abundante queda de árvores, destruição de infraestruturas, telhados e postes partidos, cortes de energia, internet e comunicações, numa escala a que o país não estava habituado. 
Os prejuízos são incalculáveis e os efeitos desta calamidade irão sentir-se durante muito tempo.
O episódio, segundo o IPMA, teve as características de um ciclone-bomba e foi agravado por um fenómeno chamado sting jet, que é uma forte corrente descendente que, por vezes, se desenvolve no bordo das depressões extratropicais e gera ventos muito violentos e de efeitos muito destruidores.
Não é possível saber se as autoridades responderam com prontidão a esta catástrofe, porque nestas ocasiões de desespero é normal que surjam críticas por parte daqueles que sofrem e que precisam de ajuda. Agora há que olhar para o problema e atacá-lo deixando para mais tarde a avaliação do que aconteceu. Nestas circunstâncias de emergência, é necessária a solidariedade e a entreajuda de todos – voluntários, bombeiros, militares, associações, entidades locais – sobretudo nas áreas mais afectadas, para ajudar as populações isoladas ou mais carenciadas, para contribuir para a limpeza e para recuperação dos espaços públicos e para que a normalidade regresse tão depressa quanto possível.
Os portugueses que tantas vezes têm sido solidários com causas alheias, bem podem agora unir-se por esta causa humanitária.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A coragem curda e a traição do Ocidente

O Curdistão é uma região do Médio Oriente que constitui “a maior nação sem Estado do mundo” e que se estende por uma área semelhante à da Espanha, distribuindo-se por territórios que pertencem à Turquia, ao Irão, à Síria e ao Iraque. Nessa área vivem mais de 30 milhões de seres humanos, étnica e culturalmente curdos, mas com nacionalidades turca, iraniana, síria ou iraquiana.
O Curdistão era uma região dominada pelo Império Otomano mas com o desmembramento que se verificou depois da Primeira Grande Guerra, a “terra dos curdos” foi dividida entre os quatro países que ainda a ocupam.
A partir de meados do século XX, têm-se sucedido rebeliões curdas “nos seus territórios”, reclamando a autonomia e a liberdade cultural, mas também a independência política, mas essa reivindicação de criação de um Estado curdo tem tido forte oposição dos governos da região que reprimem os separatistas com violência, mas também a indiferença da comunidade internacional e das grandes potências.
A título de exemplo, refira-se o que aconteceu com o regime iraquiano de Saddam Hussein que lançou um ataque de armas químicas sobre uma cidade curda, com o que aconteceu com a guerra santa que o ayatollah Khomeini declarou aos curdos e o que tem acontecido regularmente com a violenta repressão aos curdos feita pelo regime turco de Recep Erdoğan. No caso da guerra da Síria e da luta contra o Daesh, todos reconhecem que foi o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e as famosas e corajosas YPJ (Unidades de Protecção Feminina) que mais apoiaram as forças dos Estados Unidos.
A mais recente edição da revista francesa Le Point trata do problema dos curdos e, para título dessa reportagem escolheu, e muito bem, "a traição do Ocidente".

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A volta ao mundo à vela em 40 dias

Diversos jornais franceses destacaram nas suas edições de ontem a proeza náutica de Thomas Coville no Trophée Jules-Verne, porque com a sua equipa de seis elementos a bordo do veleiro trimaran Sodebo Ultim 3, bateu o recorde da volta ao mundo em equipa e sem escalas, ao retirar quase treze horas à marca estabelecida por Francis Joyon a bordo do Idec Sport em 2017. Thomas Coville e a sua tripulação completaram o seu desafio em 40 dias, 10 horas, 45 minutos e 50 segundos, percorrendo um total de 28.315 milhas à velocidade média de 29,17 nós (54 km por hora) e essa marca foi assinalada em manchete pelo jornal ouest france, que se publica na cidade de Rennes, na região francesa da Bretanha.
A ideia de criar o Trophée Jules-Verne nasceu em 1990 inspirada em ”A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, o famoso livro de Júlio Verne, tendo ficado assente que o percurso se faria desde Ouessant, uma pequena ilha nas proximidades de Brest, seguindo para o Cabo da Boa Esperança, para o Cabo Leeuwin e para o Cabo Horn, regressando depois a Ouessant.
As primeiras tentativas para estabelecer um recorde ocorreram em 1993, tendo o primeiro sido estabelecido por Bruno Peyron e pela sua tripulação, em 79 dias, 6 horas e 15 minutos, a bordo do catamaran Commodore Explorer. Desde então realizaram-se 35 tentativas para bater o recorde, mas apenas 16 barcos concluíram a prova e destes só dez bateram o recorde que, em 32 anos, passou de 79 para 40 horas.
Todos estes velejadores são franceses e, como diria o famoso Asterix, “ces Français sont fous…”

sábado, 24 de janeiro de 2026

A luta de libertação do PAIGC e os cubanos

A mais recente edição do semanário caboverdiano Expresso das Ilha, que se publica na cidade da Praia, destaca em primeira página uma fotografia de Amílcar Cabral com Fidel Castro, acompanhada do título “A presença cubana que o PAIGC quis esconder”. Apesar de várias tentativas não consegui ler o artigo referido, mas como o tema interessa e faz parte da nossa história contemporânea, recorri ao livro “La Historia Cubana en Africa”, publicado em Havana em 2011, para recolher alguns elementos sobre a presença cubana na Guiné entre 1965 e 1974, que não são muito conhecidos da historiografia portuguesa.
Em janeiro de 1965 aconteceu em Conacry o primeiro encontro entre Amílcar Cabral e Ernesto Che Guevara em que foi acordada “la ayuda internacionalista cubana” e, cinco meses depois, “la motonave cubana Uvero desembarcaba la primera ayuda de Cuba al PAIGC”. Depois, “a finales del proprio año 1965 viajaron a Cuba cuarenta combatientes del PAIGC, al mando de Pedro Rodrigues Pires, quienes se entrenaron en tácticas militares”. Em janeiro de 1966, “Amílcar Cabral visitó por primera vez La Habana con motivo de la Conferencia Tricontinental. En la capital cubana  conoció al comandante Fidel Castro y los dos líderes revolucionarios sostuvieron largas conversaciones”. Em abril de 1966 chegaram à Guiné “los primeros cinco internacionalistas: tres artilleros y dos médicos, pues los necesitaban urgentemente en el teatro de operaciones”; em junho chegaram “siete instructores de artilleria, siete médicos, nueve choferes y el mecânico”.
A “ayuda internacionalista cubana” intensificou-se ao longo dos anos e está registada a morte de nove “internacionalistas cubanos”, a mostrar quanto estiveram envolvidos na guerra da Guiné. Por isso, talvez se possa afirmar que João Bernardo Vieira, ou o mítico comandante Nino Vieira, de facto não era o comandante militar do PAIGC, mas que o verdadeiro comando militar era cubano. Será por isso que, como destaca o Expresso das Ilhas, o PAIGC quis esconder a presença cubana na luta de libertação da Guiné?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Diocese de Macau celebra 450 anos

Quando o mundo e a imprensa internacional hoje se concentram, falam e escrevem sobre Davos, Donald Trump, a Gronelândia e sobre essa criação trumpiana que é, ou vai ser, o Board of Peace, no território de Macau celebra-se o 450º aniversário da sua diocese, que foi criada por decisão de 23 de janeiro de 1576 do Papa Gregório XIII.
Nesta cidade de Macau, que até 1999 esteve sob soberania portuguesa, predomina a religião budista e apenas 4% da população segue a Igreja Católica, muitos deles imigrantes filipinos, a Diocese de Macau e a Santa Casa da Misericórdia de Macau são “pilares da identidade histórica do território”, como escreve na sua edição de hoje o jornal macaense Tribuna de Macau. Essa identidade é reconhecida pela Unesco ao classificar o Centro Histórico de Macau como património da Humanidade, com referência explícita aos símbolos do património cultural e religioso macaense, designadamente as ruínas de São Paulo, que é um ex-libris da cidade, a Sé Catedral, a Igreja de São Domingos e o edifício-sede da Santa Casa da Misericórdia, no Largo do SenadoAo longo da sua existência de 450 anos, a Diocese de Macau tem sido um centro de propagação do catolicismo no Oriente e tem assumido a missão de estabelecer pontes entre o Oriente e o Ocidente, promovendo a educação, a caridade, os direitos humanos e o serviço pastoral, mas por via indirecta também tem sido um símbolo da cultura portuguesa em Macau.
A efeméride será assinalada com um programa comemorativo que adoptou o tema “De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia” e, durante o ano de 2026, organizará uma série de actividades e exposições comemorativas.
Actualmente. a diocese de Macau é gerida pelo Bispo D. Stephen Lee Bun-sang, natural de Hong Kong e com 69 anos de idade, que se formou em Arquitectura em Londres e trabalou como arquitecto em Hong Kong, antes de ser ordenado padre em 1988.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A Dinamarca repudia o Gangster-Trump

A questão da Gronelândia está agora no topo da agenda de Donald Trump, como antes estiveram outras questões como a sua vontade de baptizar o golfo do México como golfo da América, ou a sua proposta para fazer do Canadá o 51º estado americano, ou a sua obsessão pelo petróleo venezuelano. Agora assistimos, incrédulos e até angustiados, ao ataque que Donald Trump está a fazer à soberania e à integridade territorial de um país que é membro da União Europeia e da NATO.
A Europa que é uma miscelânea de interesses, de vaidades e de bem instalados, não foi capaz de arbitrar, moderar ou resolver os problemas da Ucrânia, nem teve a dignidade de condenar os massacres e a destruição de Gaza pelo regime de Netanyahu, está agora com um problema eventualmente mais sério entre mãos e bem pode anunciar que vai ser firme, pois poucos acreditam nisso. Afinal os abraços com que Macron, Merz e Starmer têm repetidamente saudado Donald Trump são simples exercícios de hipocrisia política, ou são elementares afirmações de submissão.
Porém, nem tudo é assim e, como noutro contexto escreveu o poeta Manuel Alegre na “Trova do vento que passa”, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. A pequena Dinamarca e a sua região autónoma da Gronelândia têm reagido sem tibiezas e têm suscitado alguma solidariedade europeia. Hoje o jornal Ekstra Bladet, que se publica em Copenhaga desde 1904, é bem a imagem do repúdio dinamarquês pela agressividade de Donald Trump e publica a sua fotografia com o título Gangster-Trump, acrescentando que ele é um “especialista que utiliza métodos da mafia” e que “exige o controlo total da Gronelândia”.
Estamos mesmo perante um verdadeiro imbróglio.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A nova parceria estratégica do Canadá

Vários jornais da imprensa canadiana ilustram hoje a capa das suas edições com as bandeiras da China e do Canadá, países que acabam de assinar um importante acordo comercial, através do qual o Canadá visa diminuir a sua dependência dos Estados Unidos que, actualmente, concentram cerca de 75% do comércio externo canadiano.
Assim, o Canadá dá um passo no sentido da diversificação de alianças e de diminuição de riscos num quadro internacional cada dia mais instável, com o jornal The Gazette, que se publica em Montreal, a salientar em título de primeira página que “Xi recebe um fluxo constante de líderes abalados pela nova ordem mundial de Trump” e que procuram alternativas às suas políticas comerciais. Portanto, parece que não é só o Canadá que procura alternativas à dependência comercial americana, mas que outros países também seguem o mesmo caminho.
No que respeita ao Canadá, o primeiro-ministro Mark Carney não perdeu tempo e perante as ameaças de Donald Trump e a agressividade da sua política comercial, afastou-se do seu vizinho e aproximou-se da China, com a qual estabeleceu uma “nova parceria estratégica” e um acordo para a importação de 49.000 veículos eléctricos chineses com uma tarifa de 6,1%, um valor que contrasta com a tarifa de 100% que até agora era aplicada aos mesmos veículos. Esta aproximação canadiana à China tende a perturbar as relações com os Estados Unidos, até porque no horizonte estão novos acordos envolvendo a indústria, a tecnologia e a transição energética.
Significa que começa a haver países que contestam o poder comercial hegemónico dos Estados Unidos e que a política do “quero, posso e mando” de Donald Trump já tem quem lhe faça frente. 
E o que está a fazer a Europa? Será que está a fazer como o Canadá, ou será que continua à espera não se sabe de quê?
Note-se que a China já é o principal parceiro comercial do Brasil e que, em 2025, as trocas comerciais entre os dois países cresceram 8,2% em termos homólogos.

domingo, 18 de janeiro de 2026

A ameaça americana à gélida Gronelândia

Quando em 1776 as treze colónias britânicas da costa leste da América do Norte declararam a independência e fundaram os Estados Unidos da América, o território da nova nação era uma estreita faixa litoral onde viviam cerca de 2,4 milhões de habitantes de origem europeia. A partir de então, o novo país procedeu a aquisições territoriais por processos diversos que levaram os seus limites até à costa do oceano Pacífico, por cedência, ocupação ou compra de territórios franceses, espanhóis, mexicanos e russos, de que são exemplos a Louisiana, o Texas e o Alaska. Esse processo de expansão territorial nunca parou e em 1946 os Estados Unidos propuseram ao Reino da Dinamarca a compra da Gronelândia, mas essa proposta foi rejeitada.
Donald Trump recuperou agora essa vontade com a desculpa da segurança internacional e dos interesses chineses e russos na região, pelo que exige, “a bem ou a mal”, a imediata “compra completa e total” da Gronelândia, um território autónomo pertencente ao Reino da Dinamarca, o que os dinamarqueses não aceitam, nem a população local quer. Entretanto, alguns países europeus decidiram enviar tropas para a Gronelândia, sem se saber se o fazem no quadro da NATO ou da União Europeia, nem para que o fazem. Esses países – Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia – puseram-se na mira de Donald Trump que ontem anunciou a imposição de tarifas progressivas sobre as suas mercadorias, que começam a 10% e poderão chegar aos 25%, como forma de pressionar um rápido acordo.
Hoje, o jornal The Independent anunciava as ameaças de Trump aos países europeus que defendem a soberania da Dinamarca que, naturalmente, ninguém imaginaria pudessem acontecer. Ninguém sabe o que aí vem.

As eleições presidenciais em Portugal

Hoje é dia de eleições presidenciais em Portugal e todos os portugueses devem ir às urnas, porque é um dever cívico e porque é no exercício do voto que se fundamenta a Democracia e a Liberdade. 
A frase “o voto é a arma do povo” deveria ser inspiradora para cada cidadão, embora nos últimos tempos o acto de votar se tenha transformado num ritual descaracterizado, ou até mesmo mentiroso, porque os eleitos tendem a esquecer tudo o que antes prometeram, muitas vezes dão o dito por não dito e outras tantas vezes tratam de se servir dos cargos e de não servir aqueles que os escolheram. De forma simétrica, também as opções de voto dos eleitores são condicionadas pelas campanhas eleitorais e pelas influências partidárias, sindicais, corporativas e outras, de que resultam opções de voto formatadas por interesses alheios e que estão desalinhadas dos interesses profundos dos eleitores.
Por tudo isto, as Democracias estão em crise, um pouco por todo o mundo, mas a frase atribuída a Winston Churchill continua a ser válida, isto é, “a democracia é o pior dos sistemas, com excepção de todos os outros”, mas isso não significa que seja a forma perfeita para nos organizarmos e nos governarmos.
Depois de 48 anos de regime autoritário em que não havia eleições livres nem democráticas, desde 1975 que os portugueses têm sido chamados a votar para escolher aqueles que os representam ou que os governam. A maioria dos portugueses tem beneficiado de um enorme progresso social, observável na educação, na saúde, na economia e na cultura, mas sempre com origem no voto. Porém, há uma crescente abstenção eleitoral que mostra que muitos cidadãos não acreditam numa democracia que os ignora, ou que os trata de forma desigual, ou que os mantém na pobreza, mas essa é a excepção à regra.
Por isso, é necessário votar e combater o desinteresse e a indiferença com a arma do voto, porque só o voto pode garantir a Liberdade, a Democracia e o Progresso.

O Nobel e os apetites de Donald Trump

A vida internacional está a tornar-se demasiado desregulada, devido à mediocridade de muitos dos seus protagonistas e ao corrupio de casos que vão sucedendo. Porém, Donald Trump destaca-se ao concentrar a maioria dos casos que estão a abalar o mundo, com as suas ameaças, as suas tarifas, os seus bombardeamentos e os seus assaltos. Apesar de anunciar repetidamente que já acabou com oito guerras, o facto é que tem dado ordens para bombardear vários países, sempre para impor a sua ambição, a sua vaidade e os seus interesses.
Nessa sua postura, de que faz parte o seu enriquecimento pessoal, nunca omitiu alguns apetites maiores ou menores, designadamente pelo Prémio Nobel da Paz, embora o Comité Nobel lhe tivesse negado essa vontade. Porém, a venezuelana Maria Corina Machado que foi a laureada de 2025, numa decisão irresponsável decidiu oferecer-lhe o prémio e foi a Washington onde foi recebida por Donald Trump que, sem vergonha nem pudor, o aceitou.
O Comité Nobel tratou imediatamente de anunciar que “independentemente do que aconteça com os símbolos físicos, o laureado original mantém para sempre a honra e o reconhecimento, não podendo o galardão ser revogado ou repartido com terceiros”, acrescentando que a medalha, o diploma e a dotação financeira correspondente continuam a pertencer ao laureado, sendo ele que passa à história como recebedor do prémio. O caso é tão triste que o jornal La Vanguardia, que se publica em Barcelona, o destacou na sua edição de ontem, referindo em primeira página a ”indignação” com que a Noruega assistiu a esta farsa que poucos podiam imaginar.
Trump quis o Nobel e quer a Riviera em Gaza, as terras raras da Ucrânia, o petróleo venezuelano, a Gronelândia...

sábado, 17 de janeiro de 2026

A tradição baiana cumpre-se no Bonfim

O Estado da Bahia fica situado no nordeste brasileiro, tendo uma paisagem tropical na costa atlântica e um interior sertanejo mas, provavelmente, é o estado com a marca cultural mais intensa de todo o país, tanto pela diversidade da sua população, como pelo seu património histórico, em que se destaca a arquitectura colonial do século XVII, sobretudo na cidade de Salvador, ou Salvador da Bahia.
O centro histórico de Salvado foi o palco principal da fusão das culturas portuguesa, africana e ameríndia, tendo sido a capital do Brasil desde 1549 a 1763, estando classificado como património mundial pela Unesco desde 1985. A região é a parte mais antiga do Brasil colonial e foi aí que os portugueses chegaram em 1500 e que, em consequência da sua influência e interacção religiosa e cultural, nasceu a devoção ao Senhor do Bonfim trazida por um capitão português. Na actualidade, essa devoção atrai multidões à capital baiana por ser uma festa que é um dos maiores símbolos de fé dos baianos.
A festa é celebrada em Janeiro na Basílica do Senhor do Bonfim, um templo católico que é um dos mais importantes monumentos de Salvador, nela se incluindo a tradicional “lavagem do Bonfim”, ou lavagem das escadarias da basílica com água de cheiro feita por baianas, em que se confundem o catolicismo e o candomblé. Associada a esta devoção também existe a tradição das “fitas do Senhor do Bonfim” que se usam amarradas ao pulso e com três nós, correspondentes a três pedidos que, quando a fita se desfaz ou rompe, os pedidos são satisfeitos.
Ontem, a edição do jornal A Tarde que se publica em Salvador, destacou em manchete a fé e a festa da Senhora do Bonfim, publicando uma fotografia em que se vê a Basílica do Bonfim, construída a partir de 1745.

Viva o povo e a democracia de Cabo Verde

A República de Cabo Verde celebrou no passado dia 13 de janeiro o Dia da Liberdade e Democracia, assinalando o 35º aniversário das primeiras eleições multipartidárias realizadas no país, que representaram o fim do regime de partido único e o início do Estado de Direito Democrático. O semanário Expresso das Ilhas, que se publica na cidade da Praia, assinalou a efeméride com uma edição especial.
O dia maior do país é, certamente, o dia 5 de julho de 1975, data em que foi proclamada a independência nacional depois de um processo de negociação entre o governo português e o PAIGC, que resultou da guerra travada no território da Guiné-Bissau e da revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974. Porém, o dia 13 de janeiro de 1991 também é considerado um marco histórico na vida do país porque os caboverdianos votaram livremente pela primeira vez e terminaram com o mito da unidade Guiné - Cabo Verde, criado no tempo colonial, bem como com a transformação local do PAIGC em PAICV. Depois, no dia 25 de setembro de 1992, entrou em vigor a nova Constituição da República e essas três datas de 1975, de 1991 e de 1992, são as mais importantes para o povo caboverdiano.
Nas celebrações realizadas este ano destacou-se a inauguração do Monumento da Liberdade e Democracia, reproduzido na capa do Expresso das Ilhas, bem como a realização de muitas outras actividades desportivas e culturais, com destaque para o Festival Liberdade & Democracia, na Achada Grande Frente, na cidade da Praia.
Não há países nem sociedades perfeitas, mas Cabo Verde aproxima-se muito dessa condição, sendo um modelo de harmonia política e cultural, o que naturalmente é um motivo de orgulho para os portugueses, sobretudo os que conhecem o país e não dispensam uma boa cachupa, nem uma morna na voz de Cesárea Évora ou das vozes que a seguiram. E para coroar a exemplaridade caboverdiana, a sua selecção vai estar presente no Campeonato do Mundo de Futebol que se vai realizar este ano.