sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

2022 é um novo ano que se vai iniciar

Daqui a poucas horas entramos no novo ano de 2022 e, um pouco por todo o mundo, sucedem-se festejos ruidosos e iluminações deslumbrantes mas, sobretudo, divulgam-se mensagens de esperança num ano mais próspero, com mais paz e, nas circunstâncias actuais, com mais saúde. As pessoas trocam mensagens de amizade e os meios de comunicação social dedicam largos espaços ao balanço sobre o que aconteceu no ano que agora termina e traçam perspectivas sobre o que se espera para o ano que vai chegar. Por vezes, os jornais transmitem mensagens aos seus leitores, como hoje sucede com o The Standard-Times da cidade de New Bedford, no estado americano de Massachusetts, que se dirige aos seus leitores com uma sugestiva mensagem: Happy New Year
Os jornais portugueses são menos exuberantes e não transmitem mensagens directas aos seus leitores, mas fazem balanços e prognósticos. Porém, o seu balanço tem sido feito na espuma dos dias, pois esquecem quem realmente se destacou, isto é, os cientistas e as autoridades de saúde que souberam manter a epidemia sob controlo e transmitir mensagens de confiança à população, bem como a classe dos enfermeiros que operacionalizou o processo de vacinação. Da mesma forma ignoram aqueles que mantiveram o país a funcionar, nomeadamente os professores e os médicos, os bombeiros e os agricultores, os polícias e os farmacêuticos, bem como aqueles que mantiveram em funcionamento as escolas, os transportes, os supermercados, as farmácias, os hospitais, as livrarias, as fábricas, os serviços da protecção civil e a maioria das actividades económicas e sociais.
Na hora do balanço, tanto os jornais respeitáveis como a imprensa cor-de-rosa portuguesa, tendem a tomar a nuvem por Juno ou confundem a árvore com a floresta. 
Aqui não elegemos factos nem desfactos, nem figuras nem desfiguras. Apenas desejamos um Bom Ano de 2022 a quem nos lê.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Goa e a controversa estátua de Ronaldo

Os portugueses tomaram Goa aos muçulmanos do sultanato de Bijapur em 1510 e durante 451 anos ocuparam aquele território de cerca de 3.700 km2. A ocupação levou a um processo de aculturação que deu origem a uma cultura específica – a cultura indo-portuguesa – com evidências na língua, no modo de vida, nas artes, na religião, na gastronomia e em outros aspectos da vida social goesa. 
Goa era a “joia da coroa” do império português e o berço de gente muito ilustre.
Em 1947 a Índia tornou-se independente do Reino Unido e logo reivindicou o regresso de Goa à mother India, mas o governo português foi intransigente e, em 1961, as tropas, os navios e os aviões indianos invadiram e ocuparam aquele território, assim como Damão e Diu, que conjuntamente constituíam o Estado Português da Índia. O trauma foi enorme, tanto em Portugal como em Goa, onde uma parte dos goeses se considerou “libertada” e outra parte se afirmou “invadida”. Sessenta anos depois, a controvérsia entre libertação e invasão ainda continua, embora menos intensa do que antes. Contudo, permanecem em Goa muitos traços culturais e emocionais de cariz português e os indianos consideram Goa a “Europa da Índia”.
Nesse país que é o segundo mais populoso do mundo, o cricket é o desporto-rei, mas no estado de Goa – um dos 28 estados da Índia – o desporto-rei é o futebol, o que é uma das mais relevantes heranças culturais portuguesas. Foi aí que, na área de Calangute e por iniciativa oficial, foi agora erguida uma estátua de Cristiano Ronaldo para servir de incentivo e inspiração aos jovens futebolistas goeses. Numa terra onde depois de 1961 foram derrubadas as estátuas de Camões e de Afonso de Albuquerque, esta iniciativa de erguer uma estátua a um jogador de futebol português não caiu bem em alguns sectores da sociedade goesa que a consideraram um insulto ou um sacrilégio, enquanto outros sectores consideraram que a estátua de uma figura prestigiosa como Cristiano Ronaldo é mesmo um incentivo aos jovens e um sinal de reconciliação entre o colonizador e o colonizado. 
A iniciativa é realmente controversa embora tenha o meu aplauso. Porém, fico na expectativa quanto ao que irão fazer os fossilizados freedom fighters goeses, useiros e vezeiros em atentar contra tudo o que é português.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

As armas de Portugal continuam em Ceuta

Na edição de hoje do jornal El Pueblo de Ceuta encontra-se uma fotografia de Juan Jesús Vivas Lara, que desde Fevereiro de 2001 é o presidente da Ciudad Autónoma de Ceuta. No segundo plano dessa imagem vêem-se as bandeiras de Ceuta, da Espanha e da União Europeia, destacando-se nas duas primeiras de forma bem visível os brasões de armas de Ceuta e da Espanha, que também são de Portugal e da Espanha.
A presença de um escudo português na bandeira e no brasão de uma cidade autónoma espanhola é uma curiosidade que resulta da História. A cidade situada na margem africana do estreito de Gibraltar foi conquistada pelo rei D. João I de Portugal em Agosto de 1415 e, nessa altura, foi hasteada a bandeira da cidade de Lisboa, gironada de oito peças de negro e prata, que a partir de então simbolizou a posse portuguesa da cidade. Mesmo depois da união dos dos reinos ibéricos verificada em 1580, a cidade continuou a ser administrada pelos portugueses, mas quando Portugal restaurou a sua independência da Espanha em 1640, o povo de Ceuta escolheu a sua integração no reino de Espanha, mas não abdicou da sua bandeira nem do seu brasão que representa as armas do reino de Portugal, tal como se usavam na Idade Média.
Significa, portanto, que a cidade de Ceuta usa a "mesma bandeira" que na manhã do dia 22 de Agosto de 1415 foi hasteada na cidade por D. João Vasques de Almada, cavaleiro e conselheiro do rei D. João I.

A Antártida e as alterações climáticas

A problemática das alterações climáticas e do aquecimento global está na ordem do dia, até porque as catástrofes naturais parece que estão a aumentar, quer em frequência, quer em intensidade. É, certamente, uma das principais preocupações do nosso tempo. Um pouco por todo o planeta sucedem-se ciclones e furacões, cheias e inundações, incêndios e secas extremas de efeitos imprevisíveis e devastadores. A mudança dos padrões climáticos está a afectar a produção de alimentos, a qualidade da vida humana e ameaça a subida do nível das águas do mar. A humanidade enfrenta uma crise climática muito severa mas, como tem sido referido muitas vezes por António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, é uma batalha que podemos vencer, se os líderes políticos e empresariais unirem esforços e se a Economia e a Ciência trabalharem em conjunto.
Na edição de hoje do jornal The New York Times é destacada uma alargada reportagem sobre o aquecimento global do planeta e sobre a Corrente Circumpolar Antárctica, ainda pouco conhecida, mas que se sabe actuar como um potente motor climático que circula em torno da Antártida e que gera uma força fria que tem impedido que o aquecimento global seja ainda maior. Porém, o aquecimento global também está a afectar o oceano Glacial Antártico e o glaciar Thwaites, que é um dos maiores da Antártida e que tem sido considerado muito estável, está a desenvolver fendas que podem acelerar a sua desintegração num prazo de três a cinco anos, o que pode elevar o nível do mar em cerca de meio metro. Daí a preocupação dos cientistas e o seu esforço para conhecer melhor a realidade antártica e as suas influências climáticas.
Durante séculos, os mares do sul eram identificados como a região dos ventos ciclónicos, das enormes tempestades, dos frios intensos e da caça à baleia. Agora os cientistas, estão empenhados como nunca na descoberta dos mares da Antártida e dos seus efeitos climáticos.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

R. I. P. Desmond Tutu

Com 90 anos de idade, faleceu ontem em Capetown o arcebispo Desmond Tutu (1931-2021), uma das mais importantes figuras da Igreja Anglicana na República da África do Sul. Era amigo e companheiro de luta de Nelson Mandela (1918-2013), o homem que dirigiu o movimento do Congresso Nacional Africano (ANC) e foi o primeiro presidente eleito do país entre 1994 e 1999.
Desmond Tutu foi o primeiro negro nomeado deão da catedral de Johanesburgo e em 1976 foi sagrado bispo da diocese de Lesoto, onde intensificou a sua luta contra o apartheid e a favor dos direitos civis iguais para toda a população. Em reconhecimento da sua corajosa luta, em 1984 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz, a que se seguiu a atribuição de diversos títulos honoris causa por diversas universidades americanas e europeias. A partir de 1990, quando Nelson Mandela foi libertado, depois de 28 anos de prisão, Desmond Tutu tornou-se um dos seus principais apoios, quando já se tornara o primeiro negro a ocupar o cargo de arcebispo de Capetown.
Em 1992 foi referendado o apartheid, que veio a ser extinto em 1994 com as primeiras eleições sul-africanas que Nelson Mandela venceu. Com o fim do apartheid, o arcebispo Desmond Tutu continuou a ser uma figura central da política sul-africana, muito respeitado pela população e sempre apostado na luta contra a segregação racial. Na sua corajosa luta pela igualdade racial esteve sempre ao lado de Nelson Mandela, dizendo que “a voz de Desmond Tutu será sempre a voz dos que não têm voz”. A partir de 1996 veio a presidir à Comissão de Reconciliação e Verdade destinada a promover a integração racial sul-africana, depois de cerca de 50 anos de apartheid.
Quem conheceu o apartheid viu como era desumano, cruel e indigno. Quem lutou contra o apartheid foi muito corajoso e Desmond Tutu foi um deles. A sua morte foi destacada pela imprensa americana e europeia de referência, designadamente pelo jornal londrino The Guardian, que o classificou como "o campeão universal dos direitos humanos".

O Cumbre Vieja cessou a sua actividade

Depois de cerca de 85 dias de actividade, o vulcão Cumbre Vieja foi considerado extinto, tanto pelos cientistas como pelas autoridades, o que veio aliviar a tensão das populações da ilha de La Palma, no arquipélago das Canárias, tendo o jornal El Día de Tenerife anunciado o “fin”, na sua primeira página.
A erupção iniciou-se no dia 19 de Setembro na parte sul da ilha de La Palma e, durante cerca de três meses, expeliu toneladas de lava que invadiram milhares de hectares de terrenos agrícolas, soterraram algumas centenas de casas e forçaram à retirada de mais de duas mil pessoas. Os danos causados pelo vulcão foram enormes e cerca de 1300 casas de habitação, bem como casas agrícolas, hotéis, escolas e outras infraestruturas, assim como cerca de 73 quilómetros de estradas foram cobertas pela lava, enquanto as redes de distribuição de água, electricidade e linhas telefónicas da região também foram destruídas ou danificadas.
Segundo o comité científico que acompanhou a actividade do vulcão, a sua última erupção aconteceu no dia 13 de Dezembro, quando cessaram os abalos de terra e todos os parâmetros vulcanológicos diminuíram. Depois, decorreram dez dias consecutivos sem sinais visíveis de actividade, que é o período cientificamente recomendado para confirmar o fim da erupção, pelo que só depois foi confirmado o seu fim. De acordo com as informações divulgadas, a erupção aumentou a área da ilha em 43 hectares, resultantes da criação de deltas de lava e fajãs que atingiram as águas atlânticas.
Agora, já se anunciam as operações de realojamento das pessoas que perderam as suas casas, bem como a limpeza e a reconstrução do território, mas os cientistas pretendem que o Cumbre Vieja se transforme num local de estudo dos fenómenos vulcanológicos.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Quando a caridade e a política se juntam

Foto retirada de www.presidencia.pt
As festividades do Natal proporcionam sempre episódios invulgares ou curiosos, alguns bem estimulantes, outros comoventes e outros bem deprimentes. 
De facto, a época natalícia é um tempo em que as ideias de fraternidade e de solidariedade estão mais activas e, por isso, é natural que cada um de nós, pelo menos por breves períodos, pense no próximo como em si mesmo. Trata-se de fazer pelos outros o que gostaríamos que eles fizessem por nós ou, como refere a religião católica nos seus mandamentos, trata-se de “amar o próximo como a nós mesmos”, que é talvez a expressão mais completa para definir a fraternidade e a solidariedade, isto é, a caridade.
Provavelmente, a forma mais nobre para nesta quadra exprimir a caridade é a que se dirige aos doentes e aos mais vulneráveis. Algumas pessoas e algumas instituições lembram-se – ao menos uma vez no ano – dos doentes, dos incapacitados, dos mais dependentes, dos mais debilitados e dos mais pobres. Assim, segundo uma notícia hoje divulgada pela Agência de Notícias Lusa, de que as televisões fizeram eco, o Presidente da República visitou o centro de acolhimento para pessoas sem-abrigo no antigo quartel de Santa Bárbara, em Lisboa. Reza a notícia que “o chefe do Estado visitou os vários espaços, desde as camaratas à sala de informática, passando pelo gabinete médico e o refeitório, onde serviu refeições nesta noite de Natal, equipado a rigor para o efeito com um avental, luvas e uma protecção de plástico na cabeça. A acompanhá-lo estiveram o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e a vereadora com o pelouro dos direitos humanos e sociais, Laurinda Alves”. 
A visita presidencial é louvável, mas a fotografia divulgada vale mais que mil palavras, pois mostra que se a caridade é uma coisa bonita, já a demagogia usada a servir sopas com fins políticos e para que seja mostrada pelas televisões, é outra coisa. Como diria o famoso Diácono Remédios e eu aqui subscrevo, não havia necessidade…

sábado, 25 de dezembro de 2021

Um Natal diferente na região de Manaus

A cidade de Manaus é a capital do estado da Amazónia, que tem uma superfície de 1559 mil km2, o que significa que é 17 vezes maior do que Portugal. A cidade tem mais de dois milhões de habitantes e fica localizada na confluência dos rios Negro e Solimões que, a partir daí, constituem o rio Amazonas.
Aproximando-se o Natal, a Prefeitura de Manaus decidiu montar um presépio gigante numa plataforma flutuante com 30 metros de altura e 15 metros de largura, que foi decorada, muito iluminada e recebeu uma árvore de Natal e um Pai Natal deslocando-se em trenós, a fim de visitar as populações ribeirinhas do interior do estado da Amazónia. Estas populações vivem geralmente muito isoladas e a iniciativa procurava constituir-se como uma boa surpresa, sobretudo na complexa situação sanitária que o país e o mundo atravessam. A operação iniciou-se no passado dia 16 de Dezembro e, nessa visita-surpresa, a embarcação-presépio distribuiu presentes às crianças e cestas básicas de alimentação às famílias rurais carenciadas, para além de levar alegria, música, luz e cor às populações isoladas.
O jornal O Globo destacou na sua edição de ontem o “Natal flutuante na Amazónia” com uma fotografia a toda a largura da primeira página, na qual se pode observar a plataforma-presépio e a sua espectacular decoração, que muito terá impressionado as populações visitadas. Segundo os depoimentos recolhidos pelo jornal, toda a gente elogiou a iniciativa da Prefeitura de Manaus neste Natal, ao levar um presépio flutuante a tantos locais isolados da Amazónia. Estes exemplos de criatividade entusiasmam e merecem realmente o nosso aplauso pela sua originalidade.

Feliz Natal para todos e cada um de nós

Hoje é Dia de Natal e ainda é oportuno aqui lembrar este dia tão simbólico para os seres humanos que se consideram cristãos e que, incluindo católicos romanos, ortodoxos e protestantes, são cerca de 2,18 mil milhões de pessoas e constituem cerca de 31,5% da população mundial. São, portanto, a maior religião do planeta, a que se segue a religião muçulmana com cerca de 23,2% da população mundial.
O Natal é uma festa religiosa em que é celebrado o nascimento de Jesus que ocorreu em Belém, na província romana da Judeia, que hoje pertence à Palestina. Porém, o Natal transformou-se numa festa que mistura tradições muito diversas e que evoluiu para um consumismo incontrolável que atrai as populações e mobiliza as pessoas, através das técnicas de marketing que criam necessidades de consumo e que são acompanhadas por grandes campanhas de publicidade, feéricas iluminações, árvores iluminadas e figurações de presépios e, mais recentemente, por essa invenção que é o Pai-Natal a viajar num trenó puxado por renas. As pessoas centram-se cada vez mais nas compras e enchem os shopping centres, adquirindo o necessário e o supérfluo, o que as afasta cada vez mais dos verdadeiros valores do Natal, que é a festa da unidade da família, mas também da fraternidade e da solidariedade. Porém, ainda se conservam alguns velhos hábitos, nomeadamente a saudação à família, aos amigos, aos vizinhos, aos companheiros de trabalho, entre outros, através da tradicional saudação Feliz Natal!
Muitos jornais também saúdam os seus leitores, assim acontecendo com a edição de ontem de Le Télégramme da cidade francesa de Lorient, a que nos associamos com a mesma saudação aos nossos leitores - Joyeux Noël - embora também pudéssemos usar a expressão Merry Christmas!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Alta velocidade ferroviária chega à Galiza

A Espanha possui uma importante rede de comboios de alta velocidade de cobertura nacional, pois permite ligar Madrid a algumas das principais cidades espanholas como Barcelona, Sevilha, Valencia, Alicante, León, Granada e outras mais. Na passada segunda-feira, essa rede foi acrescentada com a ligação do comboio de alta velocidade entre Madrid e a Galiza, ou antes, entre as cidades de Madrid e Ourense, que depois tem ligações a Vigo, Santiago e Corunha.
A rede de alta velocidade espanhola é gerida pela Renfe (Red Nacional de los Ferrocarriles Españoles), uma entidade pública empresarial que explora a rede ferroviária, incluindo o AVE (Alta Velocidad Española), que é um dos mais rápidos comboios europeus e que pode atingir a velocidade máxima de 330 quilómetros por hora.
A viagem inaugural entre Madrid e Ourense teve a presença do rei Filipe VI e do primeiro-ministro Pedro Sánchez, além de muitas outras entidades oficiais, tendo o AVE saído às 10.00 horas da estação de Chamartin em Madrid, feito duas paragens e chegado a Ourense às 12.19 horas. Antes, esses 500 quilómetros demoravam 4 horas e 52 minutos, mas esse tempo foi agora reduzido para um pouco menos de metade.
A imprensa galega, nomeadamente o jornal La Voz de Galicia, classificou a chegada do AVE como um dia histórico e, de facto, é um sinal de grande progresso.
Para os portugueses do norte do país que precisem de se deslocar a Madrid e não gostem do avião, o AVE Madrid-Ourense vai obrigar a fazer algumas contas, porque a viagem de 620 quilómetros de automóvel entre o Porto e Madrid tem agora alternativas mais rápidas e mais económicas, até porque Ourense está a 90 quilómetros de Chaves e a 220 do Porto.
Quanto ao nosso TGV, o comboio lusitano de alta velocidade, bem se pode questionar se é um investimento mesmo necessário.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Os novos ventos que sopram no Chile

O eleitorado chileno elegeu no passado domingo como Presidente da República do Chile o candidato Gabriel Boric, um antigo dirigente estudantil de 35 anos de idade.
Gabriel Boric é natural de Punta Arenas, a cidade mais meridional do Chile, que é a capital da região de Magalhães e Antártica Chilena, uma das dezasseis regiões do país, pelo que o jornal local El Pinguino escolheu o sugestivo título “Magallánico Boric a La Moneda”, isto é, ao Palácio Presidencial.
O presidente eleito é membro da Câmara de Deputados desde 2014 e candidatou-se à Presidência da República como representante de uma alargada coligação de partidos de esquerda. Embora liderasse as sondagens, veio a perder na primeira volta por 150 mil votos a favor do candidato José António Kast, representante da extrema-direita e admirador confesso do antigo ditador Pinochet. Para a segunda volta, Boric seguiu as normas das campanhas eleitorais, moderou-se na linguagem e nas atitudes, cortou o cabelo e escondeu as tatuagens, acabando por conquistar o eleitorado que lhe deu 55,8% dos votos. Vai ser o 66º presidente da República do Chile e também o mais jovem presidente que o país alguma vez teve.
A América Latina e o mundo olham para o Chile com muita curiosidade. Gabriel Boric surge como um herdeiro de Salvador Allende, o primeiro presidente socialista a chegar democraticamente ao poder em toda a América Latina, mas que foi deposto em 1973 por um sangrento golpe de estado liderado pelo general Augusto Pinochet. Agora há a expectativa de saber se as forças conservadoras golpistas chilenas e os seus aliados aceitam a presidência de Boric, mas também a expectativa de saber como vai o Tio Sam conviver com os regimes que nada lhe são subservientes, como sucede com os regimes dirigidos por Nicolas Maduro (Venezuela), Pedro Castillo (Perú), Luis Arco (Bolívia) e Alberto Fernández (Argentina), a que se junta a presidência de Gabriel Boric (Chile) e, lá para Outubro, talvez também a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. 
O tempo do autoritarismo militar latino-americano do século XX está a dar lugar à democracia e à cidadania, esperando-se que traga mais progresso e menos desigualdade para aquele subcontinente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Macau depois de 1999, ou 22 anos depois

No dia 20 de Dezembro de 1999 ocorreu a transferência da soberania de Macau da República Portuguesa para a República Popular da China e, por isso, completam-se hoje 22 anos sobre essa data em que ficou constituída a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China (RAEM). 
A data foi hoje assinalada na imprensa macaense de língua portuguesa, designadamente no jornal ponto final.
Os portugueses fixaram-se na pequena península de Macau, na costa do sul da China e junto da foz do rio das Pérolas, na primeira metade do século XVI, provavelmente em 1535, com a finalidade de possuir uma base para negociar na região de Cantão. Foram os primeiros ocidentais a chegar às costas chinesas e, depois dos primeiros mercadores, desembarcaram os aventureiros, os fidalgos e os missionários. O pequeno entreposto que a dinastia Ming autorizara a instalar-se naquela pequena península depressa se alargou, tendo sido criada a Diocese de Macau em 1576 e adquirido o estatuto de cidade em 1585, num tempo de grande prosperidade que as viagens do Japão proporcionavam. Macau tornou-se uma cidade-estado governada pelos seus moradores através de um senado e o rei D. João IV “em fé da lealdade que conheceu nos cidadãos dela”, determinou que a expressão “nenhuma mais leal” lhe servisse de lema.
Durante cerca de 450 anos os portugueses permaneceram em Macau, resistindo aos ataques holandeses, esquivando-se aos apetites ingleses e, sempre, convivendo com os chineses, independentemente das suas dinastias reinantes ou dos seus regimes.
No dia 13 de Abril de 1987 os governos de Portugal e da República Popular da China assinaram uma Declaração Conjunta em que acordaram “numa solução apropriada da questão de Macau legada pelo passado” e em que reconheceram que Macau “faz parte do território chinês e que o governo da República Popular da China voltará a assumir a soberania sobre Macau a partir de 20 de Dezembro de 1999”. Assim aconteceu há 22 anos e, segundo nos garante quem acompanha o quotidiano do território, os macaenses parecem estar satisfeitos.

sábado, 18 de dezembro de 2021

1961: evocando a queda do Estado da Índia

Revista Visão História, Dezembro, 2011
Perfazem-se hoje 60 anos sobre a data em que aconteceu a queda da Índia Portuguesa. É uma história complexa e dolorosa que só foi possível pela teimosia e pela intransigência de quem quis contrariar os “ventos da História” e que em vez de seguir os caminhos da diplomacia e da negociação, decidiu pedir o sacrifício total aos seus homens e afirmar que soldados e marinheiros só seriam reconhecidos se “vitoriosos ou mortos”. 
O governo de Nehru mandou avançar a operação Vijay e as tropas do general Candeth invadiram Goa, Damão e Diu por terra, mar e ar, sem que as tropas do general Vassalo e Silva lhe pudessem resistir. Corria o mês de Dezembro de 1961 e a perda da “jóia da coroa”, fortemente ligada a alguns dos mais importantes episódios da epopeia e da memória histórica lusitana, foi traumática para a sociedade portuguesa, mas também para uma parte da sociedade goesa e damanense que, ao longo de quatro séculos e meio, havia adoptado a língua e a cultura portuguesas.
Passados estes sessenta anos, aqueles territórios constituem o Estado de Goa e os Union Territories de Damão e Diu, mas em Goa, Damão e Diu persistem muitos traços da cultura portuguesa, nos quotidianos e nas práticas culturais, no património e na nostalgia de um modo de viver, de comer e de vestir de raiz portuguesa. 
A evocação que hoje aqui fazemos é uma homenagem aos que pereceram naquele dia e naquelas infelizes circunstâncias, mas é também a expressão de um sentimento de fraternidade para com aqueles que vivendo em Goa, Damão e Diu e possuindo passaporte indiano, são cultural e emocionalmente portugueses.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Brasil vê o Lula a subir e o Jair em queda

O principal instituto brasileiro de pesquisas políticas é o Datafolha, que faz parte do mesmo grupo empresarial do jornal Folha de S. Paulo e que tendo feito uma sondagem com 3.666 entrevistas presenciais entre os dias 13 e 16 de Dezembro, obteve resultados muito significativos, com uma margem de erro de apenas dois pontos percentuais.
Segundo essa sondagem, Luiz Inácio Lula da Silva venceria as eleições presidenciais com 47% de votos se as mesmas fossem realizadas hoje, enquanto Jair Bolsonaro não teria mais do que 21% dos votos. A tendência para a polarização está a aumentar no Brasil e as intenções de voto nos candidatos da chamada terceira via mostram que essas candidaturas têm pouca viabilidade e que Sergio Moro (9%), Ciro Gomes (7%) e João Doria (3%), até poderão vir a desistir da corrida presidencial. A sondagem da Datafolha também analisou os resultados de uma eventual segunda volta em que Lula da Silva derrotaria Bolsonaro por 59% a 30%, mas que também venceria folgadamente Moro, Ciro e Doria.
A popularidade e o prestígio de Bolsonaro estão em acentuada queda e 60% dos brasileiros dizem não acreditar em nada do que ele diz, enquanto só 13% acreditam sempre nas palavras do seu presidente. O seu governo também é fortemente reprovado pela opinião pública, pois é rejeitado por 53% da população e só tem o apoio de 22%. Daí resulta que, segundo a sondagem referida, numa segunda volta eleitoral Bolsonaro perderia para qualquer um dos seus quatro adversários. Parece, portanto, que Jair Bolsonaro tem o seu futuro político traçado, até porque o Brasil não esqueceu os 617 mil óbitos causados pelo covid-19 e não perdoa a forma irresponsável como ele sempre se referiu à pandemia. Porém, o que não há dúvidas é que a herança que vai deixar para o seu sucessor é muito pesada.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Há mercenários dos dois lados na Ucrânia

A comunicação social portuguesa pouco difere de uma comunicação de tipo paroquial, pois vive de casos, de sensacionalismos e do trabalho de estagiários, como se vê sempre que se descobre que uma qualquer figura de sucesso mediático subira na vida através da violação das regras que regem a nossa sociedade. Nesses casos da chamada criminalidade de colarinho branco, até acontece que aqueles que mais endeusaram as personagens da banca, do futebol e de outros sítios onde cheirasse a dinheiro, são aqueles que agora mais os afundam e que mais procuram antecipar-se a quem tem o dever de julgar os desvios à lei. Por isso, enquanto consumidores de notícias e de informações ficamos sujeitos a um jornalismo de tipo coscuvilheiro, feito de sensacionalismos, de presunções e de conjecturas, do qual muitas vezes duvidamos.
Por outro lado, o noticiário do que se passa para lá dos limites da paróquia fica entregue a comentadores geralmente bem preparados, mas que nem sequer fingem ser neutrais.
Vem isto a propósito da edição de hoje do jornal ucraniano ВЕСТИ ou Vesti, que se publica em russo na cidade de Kiev e em outras cidades da Ucrânia. A imagem da capa mostra o capacete de um soldado, algumas balas e um maço de notas de dólar, insinuando que há dinheiro a correr para pagar à “tropa de choque mercenária” que se prepara, ou não, para reactivar a guerra civil no Leste da Ucrânia, que desde 2014 mantém a região de Donbasss e as autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk em estado de rebeldia com o apoio russo.
Sabe-se que nesta escalada militar há muitos mercenários de ambos os lados e que o conflito já deixou de ser um caso interno da Ucrânia para se tornar num confronto ou numa guerra por procuração entre a Rússia e a NATO. Sabe-se também que, onde há mercenários, tem que haver dinheiro. Daí que a insinuação contida na capa do ВЕСТИ faça todo o sentido e possa referir-se a qualquer dos lados do conflito, mas para esclarecer isso era preciso conhecer a língua russa, que eu não conheço,  ou que a nossa comunicação social se interessasse por estes assuntos.