sábado, 10 de abril de 2021

Um dia bem negro da Justiça portuguesa

A decisão instrutória da Operação Marquês foi conhecida ontem, foi lida em directo na televisão pelo juiz Ivo Rosa e as teses do Ministério Público foram arrasadas, pelo que dos 28 arguidos apenas cinco vão a julgamento, enquanto dos 189 alegados crimes económico-financeiros apenas 17 vão ser julgados. Como alguém já escreveu “a montanha pariu um rato”. Evidentemente que vai haver recursos para os nossos tribunais superiores, mas também irão entrar em acção outras instâncias judiciárias como o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
O processo iniciou-se em 2014 e dele se encarregaram o procurador Rosário Teixeira e o juiz Carlos Alexandre, com as suas equipas, os seus assessores, os seus seguranças e os seus motoristas. No final do processo apareceram 146 volumes com 56.238 folhas. É um caso inacreditável de insensatez, de irrealismo e de incompetência e, como referiu o juiz Ivo Rosa, há incoerência, falta de rigor, especulação e fantasia na formulação das acusações. O Justiça não pode ser isto. O Teixeira e o Alexandre fizeram um mau trabalho, desprestigiaram a nossa Justiça, promoveram criminosas fugas ao segredo de justiça e tudo fizeram para que houvesse, mesmo que injusta, uma condenação na praça pública e nos telejornais. Gastaram muito tempo e muito dinheiro dos meus impostos, sempre com o apoio da televisão e da imprensa, por forma a criar a narrativa que mais lhes interessava. Nos últimos dias, essa gente voltou a pressionar e a procurar influenciar os acontecimentos, sem nunca apelar à descoberta da verdade, mostrando uma vez mais que houve fortes motivações políticas, manipulação e viciação neste processo. A corrupção era a principal acusação, mas o Ministério Público e os seus aprendizes de carrascos, não perceberam que a prova desse crime não são as fugas de informação ou as notícias dos jornais, mas as provas objectivas que não conseguiram reunir. Disse o juiz: “Esta é uma decisão correcta, independente, imparcial. Não é a favor nem contra ninguém. Obedece à lei. A pressão pública não pode colocar em causa os princípios fundamentais e as garantias dos arguidos”.
A Justiça portuguesa foi condenada, especialmente, as práticas abusivas de alguns agentes do Ministério Público. Depois de tanto barulho e de tanta dedução criativa e malévola, apenas cinco dos 28 arguidos vão a julgamento por dezassete crimes. Tanto tempo e tanto dinheiro gasto para isto! Foi um dia muito negro para a nossa Justiça, como escreveu o semanário Sol.

R.I.P. Filipe, Duque de Edimburgo

Faleceu Filipe Mountbatten, o Duque de Edimburgo, que completava cem anos no próximo dia 10 de Junho. 
Filipe nasceu em 1921 na ilha grega de Corfu e descendia das casas reais grega e dinamarquesa, mas a sua família foi expulsa do país no ano seguinte, na sequência de um violento golpe de estado. Estudou em vários países e em 1939, com 18 anos de idade, alistou-se como cadete no Royal Naval College of Dartmouth, onde obteve a melhor classificação do seu curso. O mundo estava em guerra e em 1940, como guarda-marinha da Royal Navy, seguiu para a ilha de Ceilão onde embarcou no cruzador HMS Ramilles, tendo servido seis meses no oceano Índico. Foi destacado depois para o cruzador HMS Valiant no Mediterrâneo, mas pouco tempo depois, já como subtenente, regressou às ilhas Britânicas para frequentar alguns cursos técnicos de especialização. Embarcou de seguida no destroyer HMS Wallace, baseado em Rosyth, tendo estado empenhado nas escoltas aos comboios que atravessavam o Atlântico. Foi promovido a 1º tenente, tornou-se o oficial imediato daquele mesmo navio que veio a tomar parte no desembarque aliado na Sicília. Serviu depois no destroyer HMS Whelp no Índico e no Pacífico e esteve com esse navio na baía de Tóquio, quando os japoneses assinaram a sua rendição. 
Depois de uma intensa actividade como oficial da Royal Navy, que incluíu alguns combates navais, no dia 20 de Novembro de 1947 casou com Isabel, a filha mais velha do rei Jorge VI, recebendo o estilo de Sua Alteza Real e o título de Duque de Edimburgo. Continuou no serviço activo da Marinha e foi promovido a oficial superior, mas retirou-se em 1952, quando Isabel subiu ao trono. A partir de então e durante 69 anos foi o príncipe consorte da Rainha, que acompanhou com uma presença discreta, sorridente e bem-humorada, que conquistou a simpatia do povo britânico, de meio mundo e até de um republicano como eu. 
A notícia da sua morte e a sua fotografia estão hoje nos jornais do mundo inteiro.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Portugal, o Brasil e a pandemia do covid

A pandemia em Portugal tem estado muito controlada e, desde há vários dias, que o número de óbitos se situa abaixo de uma dezena e que o número de novos contágios se situa um pouco acima das cinco centenas, quando em fins de Janeiro chegou a atingir três centenas de óbitos e quinze mil novos casos. O país está em desconfinamento a conta-gotas e já foram aplicadas dois milhões de vacinas. Tudo parece seguir no bom caminho e os níveis de confiança da população estão a aumentar. No entanto, o que se passa em Portugal é diferente do que se passa em alguns países europeus e, sobretudo, no Brasil.
O jornal Correio Braziliense anunciou ontem que, pela primeira vez, o Brasil registou “mais de quatro mil mortos em um dia”, o que mostra que o país está a passar por uma situação muito difícil e que parece ter sido escolhido pela pandemia para se instalar. Actualmente já estão contabilizados 345 mil óbitos no país, o que coloca o Brasil no segundo lugar dos países com mais óbitos por covid-19, superando o número de mortos de países mais populosos que o Brasil, como por exemplo a China, a Índia, a Indonésia ou o Paquistão.
A animadora situação portuguesa e a preocupante situação brasileira não acontecem por acaso, pois estão relacionadas com os comportamentos sociais e culturais das populações e com as políticas sanitárias que são executadas pelas autoridades. Hoje não estou com vontade de falar a respeito do fanfarrão Bolsonaro, mas aproveito para elogiar mais uma vez a forma como tem sido conduzida a política sanitária em Portugal, apesar das pressões irresponsáveis de algumas corporações e de outros interesses.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Cambridge e Oxford conservam a tradição

A equipa do clube de remo da Universidade de Cambridge venceu ontem a 166ª edição da habitual regata em que defronta a equipa do clube da Universidade de Oxford e fez a dobradinha, pois ganhou a prova masculina e a prova feminina. O interesse por esta histórica prova desportiva é enorme e o The Independent foi um dos jornais que deu notícia desse evento, tendo publicado uma destacada fotografia da regata na capa da sua edição de hoje.
Esta regata amadora disputa-se desde 1829, com as excepções dos períodos das duas grandes guerras mundiais e do ano de 2020 devido à crise pandémica causada pelo covid-19, sendo uma das mais antigas e mais populares competições do desporto moderno. A prova disputa-se no curso do rio Tamisa, na área metropolitana de Londres, numa distância aproximada de 6.800 metros e as embarcações utilizadas são o shell de 8 (remadores) com timoneiro, que têm cerca de 20 metros de comprimento.
Ontem a equipa de Cambridge conseguiu a sua 85ª vitória, contra as 80 vitórias já obtidas pela equipa de Oxford, tendo havido um empate em 1877. Porém, a partir de 1927 a regata entre as duas universidades também passou a ser disputada entre equipas femininas. Ontem, a equipa feminina de Cambridge também venceu e os registos passaram a indicar que Cambridge tem 45 vitórias, enquanto Oxford se fica pelas 30 vitórias.
Resumindo, as equipas de Universidade de Cambridge levam vantagem em masculinos por 85-80 e em femininos por 45-30. Começa a ser um grande diferencial!

sábado, 3 de abril de 2021

Cabo Delgado e o doloroso caso de Palma

Nunca a província de Cabo Delgado nem o distrito ou a vila de Palma, que se situam no extremo nordeste de Moçambique, tinham sido tão falados como nos últimos dez dias. A vila de Palma foi atacada e ocupada por insurgentes ou terroristas inspirados nas práticas do Daesh, tendo havido um número indeterminado de mortes, vítimas de grande crueldade. A população fugiu em direcção ao cabo Afungi e ao complexo industrial que a petrolífera francesa Total ali vem construindo, situados a cerca de vinte quilómetros. Uma parte dessa população já chegou à cidade de Pemba, a bela cidade que no tempo colonial se chamava Porto Amélia, onde já se concentram muitos milhares de refugiados provenientes das zonas de Cabo Delgado onde os insurgentes afectos ao Daesh têm atacado desde 2017. As notícias são muito contraditórias e os relatos tanto indicam que os insurgentes dominam a vila, como afirmam que as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique continuam a disputar o controlo da vila. A Total terá suspenso os trabalhos em curso no complexo de gás e o seu pessoal, onde haveria cerca de cinquenta portugueses, foi retirado do local onde apenas terá ficado a segurança privada das instalações a cargo de uma empresa sul-africana de segurança.
O semanário Savana, que se publica na cidade de Maputo, destaca na sua última edição os acontecimentos de Palma e, tal como muitos observadores, aponta as principais responsabilidades à inacção das autoridades governamentais, ao presidente Filipe Nyusi e à Frelimo. Para quem conheceu tão bem aquela área que a natureza privilegiou com uma paisagem marítima lindíssima, são muito dolorosas as imagens que nos chegam de Palma e de Pemba que, por vezes, mostram locais que nos foram familiares.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Uma grande festa basca na Copa del Rey

El Correo de Bilbao e El Diario Vasco de San Sebastian
Amanhã, na cidade de Sevilha vai disputar-se a final da Copa del Rey da época de 2019-20, que foi retardada de 349 dias devido à crise pandémica que tanto nos preocupa. 
A Copa del Rey é uma competição futebolística que acontece desde 1902 e que teve várias designações como a Copa de España, a Copa del Generalíssimo e, agora, a Copa del Rey, mas sempre com o mesmo formato nas 114 edições que já se disputaram. O actual detentor do troféu é o Valencia Club de Fútbol, mas no pódio dos grandes vencedores estão o Barcelona com 30 vitórias, o Athletic de Bilbao com 24 vitórias e o Real Madrid com 19 vitórias.
Amanhã vão defrontar-se duas equipas bascas: o Athletic Club (Bilbao) e a Real Sociedad de Fútbol (San Sabastian). É a primeira vez que se encontram estas duas equipas, uma oriunda da província da Biscaia e outra proveniente da província de Guipúscoa. Apenas cem quilómetros separam estas duas cidades, ambas fortemente ligadas aos ideais autonomistas bascos. O Athletic não ganha desde 1984 e a Real Sociedad, que só tem duas vitórias, não ganha desde 1987. Amanhã, cerca de dois milhões de bascos que são apenas 5% da população espanhola, vão vibrar com aquele jogo e vão exibir as suas rivalidades. Os jornais de Bilbao exigem que aos rojo y blancos que regressem para a Biscaia com a taça, enquanto os jornais de San Sebastian incitam a equipa azul celeste para honrar a história de Guipúscoa.
Que seja uma festa bonita e que o orgulho basco seja satisfeito, independentemente da taça ir para Bilbao ou para San Sebastian.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Finalmente, já há pastéis de nata em Goa

De vez em quando chegam-nos notícias que mostram como a língua e a cultura portuguesa resistem ao tempo, às geografias, às políticas e à indiferença histórica de muitos responsáveis. 
Desta vez a notícia chega de Goa, onde durante alguns anos me deliciei com bebincas, bolos sans rival e dedos de ama, mas onde via com mágoa que a doçaria goesa ignorava o arroz doce e o pastel de nata. Não conseguia compreender como numa terra onde a gastronomia portuguesa deixou algumas raízes, aqueles símbolos da doçaria lusitana não tivessem tido o acolhimento da sociedade goesa, nem das suas elites.
Pois a notícia chegou agora e informa que em Goa nasceu a Padaria Prazeres numa terra cheia de bakeries e, entre o pão e a pastelaria de diferentes origens, encontramos o nosso pastel de nata, uma guloseima emblemática da doçaria portuguesa que ainda há pouco tempo não se encontrava em Goa.
A Padaria Prazeres situa-se em Caranzalém, um bairro da cidade de Panjim, parecendo que está a ter um grande sucesso. O meu aplauso aqui fica, até que lá possa ir.

terça-feira, 30 de março de 2021

Está safo o Ever Given. O mundo respira!

Ao fim de seis dias, o gigantesco navio super-contentores Ever Given foi desencalhado e o trânsito no canal de Suez foi reaberto, devido à acção conjugada de rebocadores e de dragas e, naturalmente, com a indispensável ajuda das marés. 
O mundo, e em particular o comércio internacional, respiraram de alívio. Os prejuízos foram astronómicos para muita gente e era muito pesado o cenário que se desenhava, embora ainda estejam para vir as decisões dos tribunais quanto às indemnizações que vão ser requeridas por centenas de armadores e de exportadores por perdas e danos.
A imprensa mundial, como foi o caso do Financial Times, publicou fotografias do Ever Given desencalhado e já a navegar no canal em direcção ao Mediterrâneeo com a sua carga de cerca de vinte mil contentores. Algumas das fotografias publicadas na imprensa e as imagens televisivas que nos chegam do navio a atravessar o “deserto” são impressionantes, pois mostram como as suas dimensões são desproporcionadas relativamente às dimensões do canal. Até parece o Rossio a entrar na Rua da Betesga! 
As autoridades egípcias que ali têm a sua galinha dos ovos de ouro vão ter que equacionar estas situações que, como se viu nestes dias, lhe podem causar grandes problemas. Por agora está safo o Ever Given e o mundo respira.

sábado, 27 de março de 2021

O gigantesco Ever Given continua atascado

A fotografia obtida a partir de satélite do navio super-contentores Ever Given a bloquear a mais importante via marítima do mundo já foi publicada na imprensa internacional em muitos jornais e é um bom exemplo de que, por vezes, uma imagem vale mais que mil palavras. Por isso recorremos ao jornal espanhol ABC para aqui revelar essa esclarecedora imagem daquilo que está a acontecer no canal de Suez.
O bloqueio do canal já aconteceu noutras ocasiões. Em 1956, depois da nacionalização do canal pelo Egipto, houve uma intervenção franco-britânica na área do canal de que resultou o seu bloqueio durante algum tempo. Em 1967, durante a guerra dos Seis Dias, as forças israelitas afundaram alguns navios no canal que ficou bloqueado até 1975.
Porém, este caso é muito diferente pois teve uma origem que ainda está por esclarecer, havendo que se esperar pelas revelações da caixa negra do navio para se perceber exactamente o que sucedeu. O navio atravessado no canal e “atascado” como refere o jornal ABC, está a agitar o comércio internacional, o custo dos fretes marítimos e os grandes armadores. Há mais de duas centenas de navios impedidos de passar pelo gigantesco Ever Given e as cargas paralisadas valem muitos milhões, pelo que as consequências deste imbróglio junto das companhias seguradoras é um imprevisto que também vale muitos milhões.
A situação está a revelar-se muito complexa de ultrapassar e nem os rebocadores, nem as dragas estão a resolver o problema que já se arrasta há quatro dias. Talvez a próxima maré possa ajudar ou ter-se-ão que descarregar milhares de contentores para aliviar o navio e restituir-lhe flutuação. Há mesmo muita incerteza e muita imprevisibilidade no mundo, apesar de todos os progressos com que a Ciência e a Técnica nos vão habilitando.

sexta-feira, 26 de março de 2021

O pânico e o desespero em Cabo Delgado

De vez em quando chegam-nos notícias de Cabo Delgado, a província mais setentrional de Moçambique, onde desde há cerca de três anos se movimentam forças insurgentes ligadas ao grupo jihadista Estado Islâmico, com o aparente objectivo de estabelecer um califado na região costeira daquela província. Estima-se que já terão morrido cerca de 2.600 pessoas e que haverá cerca de 700 mil deslocados que fogem à violência e que estão sob uma grave crise humanitária já denunciada pelas Nações Unidas.
Depois de vários ataques a Mocímboa da Praia, foi agora a vez de ter sido atacada a vila de Palma que se situa na baía de Tungué, não se sabendo ainda os resultados dessa acção, pois estão cortadas as comunicações. O jornal O País escreve hoje que “os terroristas voltam a deixar pânico e desespero em Palma”.
Na península de Afungi que se situa as proximidades de Palma, a petrolífera francesa Total está a construir um complexo industrial que é o maior investimento multinacional privado do continente africano e que se destina à exploração do gás natural naquela região marítima conhecida por bacia do Rovuma, o que pode levar a uma intervenção estrangeira em apoio do governo de Moçambique e de protecção do complexo industrial em construção. Entretanto, um comunicado do Ministério da Defesa moçambicano anunciou que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) “estão a perseguir o inimigo e apelam à população para se manter vigilante e serena”.
Palma, baía de Tungué e cabo Afungi, tal como bacia do Rovuma, ilhas Tekomagi e Rongui e farol de Cabo Delgado que os portugueses construíram em 1931, são nomes que nos foram familiares há muitos anos e cuja visão permanece na nossa mente, pelo que não somos indiferentes ao desespero daquelas populações.

quinta-feira, 25 de março de 2021

O embaraçoso bloqueio do canal de Suez

No passado dia 23, que era terça-feira, o porta-contentores Ever Given que desloca 224.000 toneladas e tem 400 metros de comprimento e 59 metros de largura, navegava no canal do Suez em viagem do porto chinês de Yantian para o porto de Roterdão. O navio é operado pela Evergreen Marine, uma empresa de transportes de Taiwan e arvora bandeira de conveniência do Panamá, tendo encalhado pela sete horas da manhã num local em que o canal tem 260 metros de largura e ficou a bloquear o canal do Suez, por onde passam cerca de cinquenta navios por dia.
O canal do Suez liga o mar Vermelho ao mar Mediterrâneo, tem uma extensão de 193 quilómetros e foi inaugurado em 1869. É uma das maiores obras realizadas pelo Homem e, actualmente, garante cerca de 12% do comércio mundial, incluindo uma boa parte do movimento mundial do petróleo.
Não foram dadas até agora quaisquer explicações sobre as causas do acidente, para além de ter ocorrido um vento anormal com rajadas de 40 nós de velocidade e uma tempestade de areia que afectaram a navegação do navio, o que é insuficiente. Nem a Autoridade do Canal de Suez, nem os seus Serviços de Pilotagem, adiantaram explicações adicionais sobre este acidente. A alternativa ao canal do Suez é a Rota do Cabo, que tem mais nove mil quilómetros de extensão e consome mais dez dias de viagem. Os navios bloqueados pelo gigantesco porta-contentores Ever Given começam a atingir muitas dezenas em ambas as pontas do canal e o impacto na economia mundial deste engarrafamento de efeitos globais ainda é, neste momento, imprevisível, embora já estejam a aparecer algumas consequências no comércio internacional e no preço do petróleo.
Muitos jornais publicaram fotografias captadas por drones em que se pode observar o impressionante bloqueio que um navio de 400 metros de comprimento está a provocar num canal com 260 metros de largura. Porém, a fotografia publicada pelo Finantial Times é, talvez, mais sugestiva pela desproporção que mostra entre a proa do navio que transporta 20 mil contentores e uma máquina escavadora.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Uma imagem vale mais que mil palavras

No dia em que a imprensa brasileira anuncia o impressionante número de 3.251 mortos por covid-19 nas últimas 24 horas e em que se escreve que o Brasil é o país do mundo onde mais se morre devido à pandemia, a revista veja classifica o país como doente e mais pobre.
Embora essa possa ser a realidade brasileira, não se pode ignorar que essa é também a situação que se verifica em quase todo o mundo, pois a pandemia chegou a todo o lado, matou muitos milhares de pessoas, tem feito grandes estragos nas economias e tem feito aumentar a fome e a pobreza. Porém, os brasileiros não estão insatisfeitos apenas com o número de mortes causados por uma pandemia que o próprio Presidente da República ridiculariza e com a contínua desvalorização do real em relação ao dólar, a denunciar a grave deterioração de uma economia onde não há investimento, em que aumenta o desemprego e em que há sérias quebras na produção e nas exportações. 
Os brasileiros sentem que este quadro de crise se agrava com a generalizada sensação de descontrolo das instituições brasileiras, nomeadamente as instâncias políticas e judiciais, como veio mostrar a recente decisão do Supremo Tribunal Federal ao declarar que o Juiz Sérgio Moro não foi imparcial no julgamento de um antigo Presidente da República e que, depois, foi premiado por Jair Bolsonaro com o cargo de Ministro da Justiça. Esse triste episódio da história recente do Brasil mostra que o país está mesmo muito doente e à deriva, como insinua a ilustração da capa da revista veja que mostra uma esfarrapada bandeira nacional brasileira. É seguramente um caso de comunicação em que uma imagem, aquela imagem, vale mais que mil palavras.

O inominável e cretino Jair Bolsonaro

A situação sanitária no Brasil continua a agravar-se e, cada vez mais, os brasileiros acusam Jair Bolsonaro pela forma irresponsável, incompetente e mentirosa como tem gerido a crise pandémica. Até há pouco tempo ele ainda suscitava o apoio de boa parte da sociedade brasileira e até era o favorito para as próximas eleições presidenciais de 2022, mas o agravamento da pandemia fez cair os seus índices de popularidade e, segundo as sondagens conhecidas, já são 56% os brasileiros que o consideram incapaz de liderar o país e são 54% os que consideram a sua actuação em relação ao controlo da pandemia foi muito má. A bandeira contra a corrupção, que ergueu durante a campanha eleitoral, há muito que foi esquecida e a distribuição de cargos entre familiares e amigos parece ter atingido níveis impensáveis. Além disso, o cenário do regresso de Lula da Silva à vida social e, possivelmente à vida política, desfavorece e enfraquece Bolsonaro, que está com a sua liderança ameaçada e a perder a sua sustentação política. 
Neste quadro desolador, o número de óbitos continua a aumentar e o Brasil tornou-se o centro global do covid-19, enquanto meio mundo impede a entrada de brasileiros tratados como factores de contágio. É o maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil, mas Jair Bolsonaro continua a apoiar aqueles que lutam contra o confinamento, a negar as evidências científicas e a fazer declarações absurdas. A opinião pública e a imprensa ridicularizam Bolsonaro e tratam-no como cretino, ignóbil, repugnante, canalha, deplorável, patife, ordinário, mesquinho, reles, pulha, velhaco, abominável, detestável, infame, bandalho, ignorante, vil, cafajeste, inculto, boçal, estúpido, rude, maldito, desgraçado, burro, incapaz, idiota, desumano, malfeitor, parvo e muito mais. Isso não teria qualquer importância se ele não fosse o presidente de um grande país que é a República Federativa do Brasil.

segunda-feira, 22 de março de 2021

A glória angolana está no Cuito Cuanavale

O Jornal de Angola assinala na sua edição de hoje a batalha de Cuito Cuanavale, que ocorreu no sul de Angola, escrevendo que essa batalha alterou a História de África. 
Decorreu entre os dias 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988, isto é, durante mais de quatro meses e nela tomaram parte, de um lado, o exército angolano (FAPLA) e as forças expedicionárias cubanas (FAR) e, do outro, as forças da UNITA e o exército sul-africano. Como quase sempre acontece nestes casos, ambos os lados reclamaram vitória nesta batalha que foi a mais prolongada e dura que aconteceu no continente africano desde a 2ª Guerra Mundial. 
Tudo começou com um ataque das FAPLA às bases da UNITA situadas na Jamba e em Mavinga, feito com aviação e com o auxílio de unidades motorizadas cubanas e tanques de origem soviética. A África do Sul que ocupava o território fronteiro da Namíbia pretendeu opor-se a que as FAPLA ocupassem aquela região fronteira e desse abrigo aos nacionalistas da SWAPO. Houve avanços e recuos das duas forças em presença e, durante os quatro meses de combates, morreram alguns milhares de combatentes. Quando se verificava um impasse nos combates foram assinados os acordos de Nova Iorque entre Cuba, África do Sul e Angola, que deram origem à Resolução 435/78 do Conselho de Segurança das Nações Unidas que levou à retirada das forças estrangeiras de Angola, à independência da Namíbia, ao fim do regime de segregação racial conhecido por apartheid que vigorava na África do Sul e à libertação de Nelson Mandela que se verificou no dia 11 de Fevereiro de 1990.
Cuito Cuanavale representa, portanto, um marco na história da libertação da África Austral e as autoridades angolanas celebram a data e criaram um parque temático no Triângulo do Tumpo, para honrar a memória dos seus combatentes e servir de memória para as gerações futuras.

domingo, 21 de março de 2021

Os Pares do Reino nascidos para governar

A edição de hoje do The Sunday Times destaca uma grande reportagem sobre “a verdade sobre os Pares do Reino que nasceram para governar”, isto é, um corpo hereditário da nobreza britânica que tem assento na Câmara dos Lordes, que é a câmara alta do Parlamento britânico. De acordo com a investigação daquele respeitado jornal, há 85 duques, condes e barões que por direito de nascimento têm assento naquela câmara, sem que tenham passado por qualquer crivo eleitoral. Esses Pares do Reino têm uma média de 71 anos de idade, são todos homens e, desde 2001, reivindicaram o recebimento de 47 milhões de libras para pagamento de despesas de saúde e de viagens, sem que tivessem participado num único debate, nem tenham alguma vez falado ou feito qualquer pergunta escrita. Outra das curiosidades deste grupo é o facto de 46% deles ter frequentado o Eton College que, durante séculos, tem educado a classe dominante britânica e que é sinónimo de elite, de aristocracia e de privilégio. Mesmo no modelo muito conservador da Monarquia britânica, este sistema de nobreza hereditária está desactualizado e alguns dos seus membros entendem que deve ser abolido.
Como curiosidade regista-se que em Portugal existiu a Câmara dos Digníssimos Pares do Reino durante o tempo da Monarquia Constitucional, onde tinham assento noventa pares da mais alta nobreza nomeados pelo rei, mas sem direitos hereditários. Essa câmara foi criada pela Constituição de 1826 e foi extinta com a Revolução de 1910, mas a sua congénere britânica ainda perdura, sabe-se lá por quanto tempo.