domingo, 13 de abril de 2025

Estudando o Real Forte Príncipe da Beira

A edição de ontem do jornal The Washington Post destaca como tema principal da sua primeira página, a história de um forte português “perdido” na Amazónia, que os cientistas estão agora a estudar através de tecnologias com base nos raios X, que é uma forma de radiação electromagnética muito utilizada na Medicina para a análise das condições dos órgãos internos. 
Trata-se do Real Forte Príncipe da Beira, localizado na margem direita do rio Guaporé, no estado brasileiro de Rondónia, que começou a ser construído em 1775 por ordem do Marquês de Pombal. O Tratado de Madrid de 1770 tinha assegurado o direito português à posse dos territórios situados para leste do “meridiano de Tordesilhas” e os fortes da Amazónia faziam parte de um plano para a construção de um “cordão de fortes” para defender o território brasileiro de eventuais incursões espanholas, a partir da Bolívia, designadamente para pesquisa de ouro.
O Real Forte Príncipe da Beira é considerado a maior edificação militar portuguesa do Brasil colonial e foi construído no sistema Vauban, com base num quadrado com 118 metros de lado com um baluarte em cada vértice. Poucos anos depois, a presença portuguesa na região consolidou-se, o Brasil tornou-se independente e cessou a ameaça espanhola, pelo que o forte perdeu a sua importância estratégica e, em finais do século XIX, foi abandonado, tendo “desaparecido” por acção da vegetação tropical.
Em 1913 o forte foi “redescoberto” e, nos anos mais recentes, foi recuperado, inclusive com o apoio técnico português, sobretudo da Fundação Calouste Gulbenkian. A partir de 2009 iniciaram-se trabalhos arqueológicos, por iniciativa do Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional, para compreender a história, não só do forte mas de toda a zona envolvente, onde se situavam povoações aborígenes e uma povoação europeia de nome Lamego.
A reportagem do The Washington Post divulga a história do Real Forte Príncipe da Beira, que os portugueses construíram, mas também o que está a ser feito com o apoio das tecnologias para conhecer o passado histórico e antropológico da região.

terça-feira, 8 de abril de 2025

O caos que o DT semeou e o pânico geral

A questão das tarifas decretadas pelo DT no quadro da sua política do MAGA para limitar ou desencorajar as importações de produtos provenientes do Canadá e do México, da Europa e da China, do Japão e do Brasil e da generalidade dos países, estão a causar muitos embaraços às economias mundiais e a dar origem a medidas de retaliação, enquanto se teme por uma quebra significativa no comércio internacional, na produção interna e no emprego de muitos paises, bem como no aparecimento de um surto inflacionista à escala global. Uma recessão mundial está no horizonte, em muitos países já se sente a emergência económica e, no caso de Portugal, que tem 4.231 empresas que exportam para os Estados Unidos, a situação pode trazer grandes dificuldades à economia.
Uma das características das modernas economias é a actividade accionista ou actividade bolsista que se desenvolve através das Bolsas de Valores e por intermédio do sistema bancário, permitindo que as grandes empresas se financiem e que o público aplique as suas poupanças por forma a conseguir melhores rendimentos, quer pelo recebimento de lucros e dividendos, quer pela valorização das acções que tenha adquirido. No mercado bolsista compram-se e vendem-se acções, cujo valor ou cotação depende de factores diversos da empresa e dos factores envolventes e das expectativas. 
As cotações da bolsa são actualmente um importante indicador económico: quando sobem também a economia está em crescimento e os agentes económicos estão confiantes; quando descem a economia cai e não há confiança nos agentes económicos.   
Hoje, a capa do jornal financeiro francês La Tribune mostra a evolução das bolsas mundiais e, perante a queda brutal que se verifica, ou “o caos semeado por Donald Trump”, o jornal escolheu o título “panique sur les marchés”. 
São, realmente, tempos de muita incerteza.

domingo, 6 de abril de 2025

O “Ruination Day” de Donald John Trump

Na sua mais recente edição, a prestigiada revista The Economist, que se publica em Londres desde 1843, escreve sobre o “Ruination Day” e apresenta uma imagem do DT a isolar os Estados Unidos do mundo, através da sua guerra das tarifas e da sua política do MAGA – Make America Great Again.
O “Ruination Day” é um dia que aparece referido em várias músicas da cantora e compositora americana Gillian Welch e que representa um dia amaldiçoado e trágico, em que houve acontecimentos muito graves. Nas suas canções, aquela cantora referiu o dia 14 de Abril em que o presidente Abraham Lincoln foi assassinado (1865), em que naufragou o Titanic (1912) e em que aconteceu o Dust Bowl, uma tempestade de areia que ocorreu nos Estados Unidos na década de 1930. Nem a data nem os acontecimentos referidos por Gillian Welch se consolidaram na opinião pública, mas o conceito de “Ruination Day” tornou-se popular no ponto de vista simbólico e poético, com o significado de qualquer data maldita em que tudo se desmorona.
No meio da confusão, da perplexidade e até do tsunami provocado pelas medidas tomadas pelo DT, The Economist inspirou-se em Gillian Welch e identificou essas medidas como um “Ruination Day”, pelos malefícios que vão trazer para a economia mundial, mas também para a economia dos Estados Unidos. As críticas surgem de todo o lado e os protestos já começaram a aparecer em solo americano. Perante a excentricidade política do DT, o senador Chuck Schumer que é o líder da minoria democrata no Senado, descreveu a sua política de tarifas como “absurda, louca e caótica”. Muitos analistas preveem uma generalizada recessão económica, com desemprego e inflação, mas também há quem preveja uma grande oportunidade para a China.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

A nova guerra comercial que o DT iniciou

No prosseguimento da sua política de MAGA (Make America Great Again) o presidente Donald Trump parece apostado em concretizar muitas das medidas que anunciou em campanha eleitoral, nas quais poucos acreditaram. No campo da política internacional destacam-se os apetites sobre os recursos naturais da Gronelândia e da Ucrânia, enquanto no campo do fortalecimento da economia americana a aposta parece centrar-se na produção interna de muitos bens que até agora eram importados. Na política económica não é mais do que a conhecida política de substituição de importações, que passa pela redução das importações e pelo estímulo à produção nacional, inclusive através do investimento estrangeiro nos Estados Unidos.
Enquanto prepara estas medidas - que podem ter efeitos muito perversos porque as economias são demasiado interdependentes - o DT vai avançando com “provocações ao Canadá e ao México” e com a prometida deportação de emigrantes ilegais que já ultrapassou as cem mil pessoas. Ontem, através de uma ordem executiva, o DT decretou uma guerra comercial ao mundo, ao aumentar em 10% as tarifas alfandegárias sobre os produtos importados pelos Estados Unidos, embora haja excepções mais gravosas, como a importação de automóveis europeus que passa a ter uma tarifa de 25%.
A fotografia do DT aparece nas primeiras páginas da imprensa de todo o mundo e as manchetes variam entre a simples informação de “aumento das tarifas”, como faz o jornal The Times, ou a informação do começo de uma "guerra comercial" como fazem por exemplo o El País e o Le Figaro. Porém, a imprensa portuguesa é uma excepção e em primeira página trata outros assuntos, como se estas medidas do DT não nos afectassem.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Turquia e Israel à beira de um confronto?

No dia 8 de Dezembro de 2024, depois de um período de quase quatro anos de contenção na guerra civil síria, os grupos rebeldes da oposição coligaram-se e fizeram uma ofensiva que, depois de ocuparem várias cidades, entraram em Damasco. O regime de Bashar al-Assad colapsou, depois de ter estado no poder durante cerca de 24 anos, tendo o seu líder abandonado o país e seguido para o exílio na Rússia. Pela rapidez com que aconteceu, a queda de Assad surpreendeu muita gente, até porque estava apoiado desde há muitos anos na Rússia e no Irão.
A nova Síria passou a ser governada por Ahmed Hussein al-Sharaa, também conhecido pelo seu nome de guerra Abu Mohammed al Jawlani, um engenheiro de 42 anos de idade, que antes pertenceu à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico do Iraque. Este homem foi transformado numa figura mediática, passou a usar gravata e a afirmar que o seu objectivo é a reconstrução do país, mas os seus vizinhos mais poderosos não acreditam nele. Assim, a Turquia e Israel viram uma oportunidade de intervir no complexo problema sírio para redefinir o jogo do poder no Médio Oriente.
A Turquia já acusou Israel de procurar expandir o seu território, para além dos Montes Golã que anexou em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, enquanto Israel critica a Turquia com a mesma acusação e pela sua contínua intervenção em território sírio com o pretexto de atacar os curdos. A tensão tem aumentado desde a queda de Assad e é mais um problema para a administração de Donald Trump, havendo mesmo um risco elevado de confronto armado entre Recep Tayyip Erdogan e Benjamin Netanyahu, como salienta a última edição da revista Newsweek.

domingo, 30 de março de 2025

Aí está a Espanha, as fiestas e as corridas

A temporada de touradas em Espanha vai começar e nos próximos meses vão acontecer centenas de corridas, que são a mais tradicional, mas também a mais controversa das fiestas espanholas. As touradas são uma tradição profundamente enraizada na cultura espanhola e realizam-se em quase todo o país mas, sobretudo, na Andaluzia (Sevilha, Córdoba, Málaga e Granada), Madrid, Castela-La Mancha, Castela e Leão, Comunidade Valenciana e Navarra.
A Feria de San Isidro em Madrid, na Plaza de Toros de Las Ventas, é a mais famosa feira taurina do mundo, mas também são muito apreciadas as corridas da Feria de Abril na Plaza de Toros de la Maestranza de Sevilha, das Fiestas de San Fermin na Plaza de Toros de Pamplona, onde ocorrem os famosos encierros, da Feria de Fallas na Plaza de Toros de Valencia, da Feria de Pedro Romero, ou corrida Goyesca, na Plaza de Toros de Ronda e da Feria de Malaga, na Plaza de Toros de La Malagueta.
A edição de hoje do Diario de Sevilla dedica a sua primeira página a Morante de la Puebla, o nome artístico de José António Mrante Camacho, um matador de toiros espanhol muito apreciado, que é natural de La Puebla del Rio, nos arredores de Sevilha.
A Feria de Abril de Sevilha começará no dia 5 de Maio e durará sete dias, mas as redacções dos jornais já começam a promover as corridas e as fiestas que se aproximam, bem como os diestros que vão emocionar os aficionados, como hoje acontece com Morante de la Puebla, o ídolo de Sevilha, com o seu "emotivo retorno a los ruedos". 
... e que viva la España!

A loucura e a surpresa nos apetites do DT

Donald Trump, ou simplesmente o DT, tomou posse há pouco mais de dois meses e a forma como tem conduzido a política interna e externa americana está a surpreender muita gente e a abalar o mundo. O DT já tinha ocupado a Casa Branca entre 2017 e 2021, eram conhecidas as suas extravagâncias e as suas posturas autoritárias, mas nada indicava que fosse possível fazer tanta maldade em tão pouco tempo. Muita gente, sobretudo na Europa, mas também nos Estados Unidos, está surpreendida e eu sou um deles. Igual surpresa foi a escolha para seu vice-presidente de J.D. Vance, um rapazola desbocado, arrogante e insensato, que vai fazendo o trabalho mais sujo da administração do DT, nos vários sítios por onde passa.
A forma como têm vindo a querer tomar conta da Gronelândia “de uma maneira ou de outra”, é chocante e de um atrevimento que não conhecíamos, mas os apetites do DT não se ficam apenas pela Gronelândia. A sua promessa de “acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas”, afinal não passou de uma forma de querer apossar-se das riquezas minerais e das centrais nucleares ucranianas e de, ao mesmo tempo, humilhar os europeus que, diga-se a verdade, bem se puseram a jeito.  
Na sua edição de ontem, o jornal francês Ouest-France que se publica em Rennes e é o principal diário da Bretanha, destaca uma fotografia do desbocado J.D. Vance em pose de conquistador num território que é dinamarquês, enquanto escolheu para título “l’apétit des États-Unis…”. É que, para além da Gronelândia e da Ucrânia, o DT ainda quer o canal do Panamá, a Faixa de Gaza e até o Canadá, a quem vem assediando para se tornar o 51º estado dos Estados Unidos. E sabe-se lá mais o quê. 
Como andam baralhados os comentadores profissionais que ocupam as televisões e que não previram que isto pudesse acontecer…

quinta-feira, 27 de março de 2025

A excelente lição que nos chega do Brasil

Os brasileiros assistiram estupefactos aos acontecimentos ocorridos no dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília, quando milhares de pessoas invadiram e vandalizaram os edifícios monumentais que representam os três poderes da República Federativa do Brasil, respectivamente o Palácio do Planalto (poder executivo), o Congresso Nacional (poder legislativo) e o Supremo Tribunal Federal (poder judicial). Uma multidão de bolsonaristas contestava com violência os resultados eleitorais que tinham dado a vitória presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva e rejeitavam a própria democracia.
A perturbação foi controlada no limite, mas de imediato foi divulgada pela imprensa a informação de que tinha sido montada uma organização criminosa com o objectivo de concretizar um golpe de estado e assegurar que Jair Bolsonaro continuasse no poder. Na altura escreveu-se que havia sólidas provas que mostravam que vários oficiais de alta patente tinham tido participação activa na tentativa antidemocrática.
O facto é que a Procuradoria-Geral da República (PGR) conduziu as averiguações contra o ex-presidente Bolsonaro e mais sete dos seus aliados, vindo o Supremo Tribunal Federal a proferir agora a sua decisão unânime, declarando-os réus.
A decisão é inédita no Brasil. Pela primeira vez na sua história, um ex-presidente e vários oficiais de alta patente das Forças Armadas foram declarados réus por crimes ligados a uma tentativa de golpe de estado. A imprensa brasileira, designadamente O Estado de S. Paulo, destacou esta notícia com muito sensacionalismo. Na política não vale tudo.
Evidentemente que o processo vai ser longo e, lá como cá, é prematuro condenar os réus antes de julgamento, pois todos têm direito à presunção de inocência, mas este exemplo que nos chega do Brasil bem pode servir para condenar todas as jogadas antidemocráticas que por cá acontecem, através da desinformação e do controlo da comunicação social e das redes sociais.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Um cessar-fogo que é um sinal animador

As conversações que têm sido realizadas em Riad entre russos e ucranianos com a mediação dos Estados Unidos, conduziram a um acordo de cessar-fogo parcial e à aceitação de uma trégua relativamente aos ataques às redes energéticas dos dois países e à navegação no mar Negro, embora os russos condicionem essa aceitação ao levantamento das sanções ocidentais impostas ao sector agrícola russo. Os Estados Unidos comprometeram-se a assegurar o cumprimento destes acordos e a ajudar a restabelecer as exportações russas de produtos agrícolas e fertilizantes.
Porém, um dos aspectos mais significativo deste acordo é que não é indicado que o cessar-fogo seja por 30 dias, como estava planeado inicialmente, o que pode indiciar que as partes podem ir mais longe nas suas negociações e que Putin e Zelensky já terão compreendido que ambos terão que fazer cedências, sem as quais não se resolve o complexo imbróglio ucraniano. Há que ter esperança que as negociações avancem.
Como hoje escrevia o El Pais, este cessar-fogo é “la primera señal que apunta a una salida negociada en tres años de guerra” e é mais um pequeno passo a caminho da paz. Esse mérito é dos americanos, sendo mais uma “bofetada de luva branca” nos líderes europeus, que nada fizeram pelo fim da guerra e que continuam a pavonear-se em sucessivas cimeiras, antes para ganhar a guerra e, agora, para ajudar Zelensky e o seu regime. Quase todos adoptaram a narrativa que tem sido propagandeada, que exige o rearmamento da Europa para fazer face à ameaça russa, embora ela pareça preocupar muito pouco os povos da Europa como vem mostrando o Eurostat.

A eficiência na captura de um submarino

A notícia foi divulgada pela Polícia Judiciária e informava que um submarino vindo da América do Sul, que transportava cerca de sete toneladas de cocaína, tinha sido interceptado e capturado a sul do arquipélago dos Açores. Nunca tal tinha acontecido na Zona Económica Exclusiva portuguesa e, por isso e pela importante captura efectuada, esta acção vai ficar como um exemplo da eficiência portuguesa no combate ao tráfico de droga.
A acção que recebeu o nome de Operação Nautilus desenvolveu-se durante alguns dias com a cooperação da Marinha e da Força Aérea portuguesas, tendo sido o resultado de uma investigação em que cooperaram várias entidades ou agências portuguesas, espanholas, americanas e britânicas.
A Polícia Judiciária também informou que o submarino interceptado pertencia a uma organização criminosa e que havia cinco tripulantes a bordo, sendo três de nacionalidade brasileira, um espanhol e um colombiano, que foram detidos e transportados para Ponta Delgada a bordo de um navio da Marinha Portuguesa. O submarino foi rebocado e também já se encontra no porto de Ponta Delgada.
A imprensa portuguesa, tanto continental como açoriana, destacaram esta notícia, mas foi o jornal galego Diario de Pontevedra que publicou a mais esclarecedora fotografia deste submarino que, embora utilizado em acções criminosas, não deixa de admirar aqueles que andam, ou andaram no mar, pela ousadia de atravessar o Atlântico em tão precárias condições.
Naturalmente, também aqui se saúda a eficiência da Polícia Judiciária e a boa cooperação que lhe foi prestada nesta importante operação.

sábado, 22 de março de 2025

Os estragos da depressão Martinho

Durante vários dias desta semana a depressão Martinho perturbou a região ocidental da península Ibérica, em terra e no mar, tendo provocado vento muito forte, chuva intensa e forte ondulação. Metade do território continental português esteve sob aviso amarelo ou laranja, houve muitas inundações, foram derrubadas centenas de árvores, muitas infraestruturas e telhados foram danificados e houve cortes de estradas. As rajadas de vento ciclónico foram frequentes, tendo a mais forte que foi registada acontecido na serra de Monchique e atingido 158,9 km/hora. Os prejuízos foram enormes e as televisões mostraram muitas das perturbações e estragos que o Martinho causou.
Porém, a edição de hoje do jornal Faro de Vigo destaca uma fotografia em primeira página do porta-contentores MSC Houston V com a legenda “Martinho noquea a un gigante”. Este porta-contentores que está registado na ilha da Madeira e usa bandeira portuguesa, tem um comprimento de 267 metros, uma largura de 35 metros, uma arqueação bruta de 44.768 toneladas e uma capacidade para transportar 4.432 contentores. No passado dia 20, o navio dirigia-se do Pireu para Liverpool e navegava ao largo da costa portuguesa, nas proximidades do cabo de S. Vicente, quando foi “visitado” pelo Martinho e por ventos da ordem dos 100 km/hora, que deixaram marcas.
Pelo menos 15 contentores caíram ao mar, enquanto muitos dos que permaneceram a bordo colapsaram para estibordo, perto da popa, conforme mostra a fotografia publicada. O navio procurou abrigo em Vigo e foi aí que o Faro de Vigo colheu a sensacional fotografia que hoje publicou na sua primeira página.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Uma quase aventura digna de Júlio Verne

Os astronautas americanos Sunita Williams e Barry Wilmore partiram no dia 5 de Junho de 2024 a bordo da cápsula Startliner, construída pela Boeing, com destino à Estação Espacial Internacional (ISS). Era uma simples missão de rotina com duração de uma semana, mas verificaram-se problemas no sistema de propulsão, considerados pela NASA demasiado perigosos para uma viagem de regresso dos astronautas à Terra.
Assim, a missão que deveria durar oito dias, estendeu-se por nove meses, ou 286 dias, devido aos referidos problemas técnicos. O resgate dos astronautas aconteceu no passado dia 18 de Março, quando uma cápsula Crew Dragon Freedom da construtora SpaceX, tripulada por Nick Hague da NASA e Alekandr Gorbunov da Rússia, que tinha partido com dois lugares vazios, trouxe de volta à Terra os astronautas Williams e Wilmore. Após 17 horas de viagem, a cápsula com os quatro astronautas amarou no golfo do México (nenhuma notícia lhe chamou golfo da América como “decretou” o DT), tendo os astronautas sido recolhidos em segurança.
O jornal New York Post foi um dos vários jornais que destacaram esta proeza da NASA e da indústria espacial americana, em que os rivais Boeing e SpaceX cooperaram com sucesso nesta missão de resgate. Esta “aventura” de recuperação de astronautas conduzida por Hague e Gorbunov é verdadeiramente exemplar, até no pormenor da tripulação ter sido constituída por um americano e por um russo, para salvar uma astronauta de origem indiana e um americano.
Parece mesmo uma aventura retirada dos livros de Júlio Verne, o visionário francês que no século XIX imaginou os avanços da ciência e da tecnologia e ainda é o escritor cuja obra foi mais traduzida em toda a História!

quarta-feira, 19 de março de 2025

“Il primo passo” para a paz que se saúda

Na guerra que tem arrasado parte da Ucrânia e provocado centenas de milhares de mortos, os líderes europeus não quiseram e continuam a não querer, ser os mediadores de um conflito entre eslavos, com raízes históricas muito antigas. Ignorando o que tinha sido combinado com Mikhail Gorbachev quando da reunificação alemã, os falcões da NATO avançaram para oriente e incorporaram mais de uma dúzia de países, incluindo os estados bálticos, a Bulgária e a Roménia, a Albânia e o Montenegro. Faltava a Ucrânia. Os russos sentiram-se ameaçados, tal como Kennedy se sentiu ameaçado com a crise dos mísseis de Cuba em 1962. A fricção russo-ucraniana intensificou-se em 2014 com a anexação da Crimeia e com a agitação no Donbass (Donetsk e Luhansk). Depois, tudo se complicou e logo se tratou de vender a narrativa de haver santos e diabos, quando afinal os ucranianos e os russos são primos uns dos outros. Neste grande imbróglio, em Fevereiro de 2022 houve realmente um agressor e um agredido, mas antes houve demasiadas provocações feitas por gente que nunca procurou a paz nem a mediação. Hoje as narrativas da ameaça russa fazem lembrar as aparições de Fátima de 1917 e, sem que as populações europeias tenham sido ouvidas, já está decidido o rearmamento que vai abalar os alicerces, os orçamentos e o modo de vida da União Europeia.
Por tudo isto e, independentemente das motivações pessoais de Donald Trump e dos interesses estratégicos americanos, há que saudar os esforços que estão a ser feitos para negociar um cessar-fogo e a paz.
Hoje, o jornal romano Secolo d’Italia diz que os telefonemas de Donald Trump para Putin e para Zelensky são il primo passo e eu concordo, embora lamente profundamente que os europeus não tenham sido capazes de fazer telefonemas e se limitassem a acusar Putin, mas sem que usem a mesma condenação contra Benjamin Netanyahu pelo genocídio que está a fazer em Gaza.

domingo, 16 de março de 2025

A economia mundial está sob turbulência

A política internacional americana conduzida pela extravagância de Donald Trump tem procurado, em diferentes domínios, justificar a sua doutrina do MAGA, isto é, do Make America Great Again mas, em menos de dois meses, o mundo está confuso com o que se está a passar. Segundo a mais recente edição do The Economist, durante várias décadas os Estados Unidos apoiaram os seus amigos e aliados, dissuadindo os seus rivais e adversários, mas agora parece que tudo mudou, pois estão a afrontar os seus amigos e a fortalecer os seus adversários, sobretudo no que respeita ao comércio internacional.
Donald Trump começou por impor tarifas aduaneiras de 25% ao Canadá e ao México, designadamente nas importações do aço e do alumínio, a que se seguiu a passagem de 10 para 20% das tarifas sobre as importações chinesas. Depois virou-se para a União Europeia e “atacou” os automóveis, mas já está a ameaçar com tarifas de 200% sobre vinhos e outras bebidas alcoólicas.
Em termos económicos esta fórmula de protecionismo é altamente arriscada e já está a provocar muita turbulência e a prenunciar uma guerra comercial. A Economia é um sistema complexo em que a produção, o consumo e o emprego, tal como a poupança e o investimento, ou as importações e as exportações, se articulam num modelo que tem formulação matemática. Quando se alteram algumas das variáveis desse modelo, as outras também são alteradas, podendo levar a que os efeitos provocados sejam exactamente contrários aos que se desejavam.
Há duzentos anos o inglês David Ricardo apresentou a sua Teoria das Vantagens Comparativas do Comércio Internacional, demonstrando que com o comércio internacional todos ganhavam. Talvez a equipa económica do DT ganhasse com a releitura da teoria de David Ricardo e que não secundarizasse os seus amigos, porque os efeitos que pretende podem ser bem diferentes do que aqueles que pretende.

sexta-feira, 14 de março de 2025

O cessar-fogo e a paz para a Ucrânia...

No cenário de muita propaganda e muita desinformação que tem rodeado o conflito na Ucrânia, são regularmente divulgadas as mais desencontradas informações quanto ao número de baixas de ambos os lados. Há quatro dias, um jornal de Barcelona destacava em título de primeira página, que “Rusia sufre 1.500 muertos y heridos diarios en Ucrania”, enquanto outras notícias indicam algumas centenas de milhares de baixas de ambos os lados.
Por tudo isto, sejam russos ou ucranianos, ou mesmo de outras nacionalidades, é necessário acabar com esta mortandade muito trágica e com esta permanente ameaça à paz na Europa e no mundo. Embora com controversos objectivos pessoais, o facto é que Donald Trump já conseguiu qualquer coisa que os europeus não conseguiram, pois fez uma proposta de cessar-fogo por 30 dias, que é um passo em frente muito positivo no sentido do fim das hostilidades e que, até agora, não foi rejeitado pelas partes. É um sinal de esperança, muito ténue como hoje sugere o jornal Libération, mas tem que se começar por qualquer lado. 
A situação é muito complexa porque as partes se extremaram. Existe uma resolução das Nações Unidas que exige a retirada das tropas russas da Ucrânia, há a ocupação ilegal da Crimeia desde 2014 e há cerca de 20% do território ucraniano que está ocupado pelos russos, que se sentem ameaçados se a Ucrânia for admitida na NATO. Por outro lado, apesar da ideia que tem sido posta a circular sobre a necessidade do rearmamento da Europa, sem que os europeus até agora se tenham pronunciado sobre isso, o apoio militar à Ucrânia tende a diminuir apesar das declarações em contrário.
Ao fim de mil dias de guerra, enganaram-se aqueles que pensaram que haveria um vencedor no terreno, embora alguns deles – de ambos os lados – continuem a insistir nessa tese, talvez impulsionados pela indústria do armamento. Donald Trump tem procurado a paz, enquanto a Europa está cada vez mais insignificante. O que se deseja é que o cessar-fogo seja aceite, que comecem as negociações e que se possa caminhar para a paz.