quinta-feira, 6 de outubro de 2022

A arquitectura agrega imaginação e arte

A última edição do jornal i destaca com uma fotografia a toda a largura da sua primeira página uma antevisão do Lucas Museum of Narrative Art, actualmente em construção no Parque de Exposições da cidade de Los Angeles, por iniciativa de George Lucas, um produtor cinematográfico americano de 78 anos de idade, que se tornou famoso como criador das séries Star Wars e Indiana Jones.
George Lucas é uma personalidade multifacetada e, além dos seus interesses no cinema, é milionário, filantropo e coleccionador de arte, tendo reunido mais de cem mil registos de arte, incluindo pinturas, esculturas, fotografias, filmes, bandas desenhadas e objectos utilizados em filmes, como o Parque Jurássico de Steven Spielberg e o Avatar de James Cameron.
Com todo o seu potencial financeiro e de criatividade, George Lucas idealizou um museu actualmente em construção, que foi desenhado pelo arquitecto chinês Ma Yansong e projectado pelo seu gabinete MAD Architects. O design é muito pouco convencional e a construção é elevada acima do solo, criando um espaço de sombra para os visitantes, sendo coberta por vegetação arbórea, mas o que realmente o distingue é o facto de ter sido idealizado como se fosse uma grande nave espacial pronta a descolar a todo o momento. Esse é, seguramente, o seu aspecto mais notável.
As paredes exteriores serão revestidas com vidro e por painéis solares, enquanto o interior é um amplo espaço com cerca de 30 mil metros quadrados, distribuído por cinco andares, que abrigará amplas galerias, dois teatros, restaurantes, lojas, cinemas, salas de aula e uma biblioteca. A colecção museológica incluirá desde mosaicos e ânforas romanas, até à pintura renascentista e contemporânea, mas também a fotografia contemporânea e o cinema.
O Lucas Museum of Narrative Art tem a sua inauguração prevista para 2025.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Viva o 5 de outubro. Viva a República!

Há 112 anos, no dia 5 de Outubro de 1910, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa foi proclamada a República Portuguesa pela voz de José Relvas, em nome do Directório do Partido Republicano. A crise monárquica era profunda e já se agravara desde há alguns anos, mas aprofundara-se depois do assassinato do rei D. Carlos e do Príncipe Real, que aconteceu no dia 1 de Fevereiro de 1908 na Praça do Comércio, isto é, estes dois acontecimentos ocorreram em locais situados a menos de cem metros um do outro.
Apesar das muitas vicissitudes por que passou durante alguns anos, o ideal republicano conquistou o povo com o seu hino e a sua bandeira, enquanto as celebrações da implantação da República se tornaram um feriado e uma festa nacional. Porém, como escreveu Luís de Camões há mais de quatro séculos, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e hoje o povo já não celebra a implantação da República, como se verifica na forma como a comunicação social ignora essa data histórica ou a evoca timidamente, apenas à espera dos discursos de circunstância. São sinais dos tempos. Assim aconteceu também com o 1 de Dezembro de 1640 e, qualquer dia, assim acontecerá com o 25 de Abril de 1974.
A cultura do esquecimento das datas e dos acontecimentos históricos só enfraquece a identidade e a unidade nacionais, ao mesmo tempo que tudo é feito para idolatrar o futebol e os sucessos de uma qualquer selecção nacional. Aqui não há celebrações populares da República mas, paradoxalmente, a nossa comunicação social deslumbrou-se em data recente com a Monarquia britânica. O povo não pode ficar refém deste tipo de escolhas dos gatekeepers da comunicação social. A indiferença com que são tratadas as datas e os acontecimentos históricos pelas diferentes instâncias dos poderes públicos e pela comunicação social não é um bom serviço que se presta aos sentimentos populares da mais antiga nação da Europa, esse “nobre povo, nação valente e imortal”.
Viva o 5 de Outubro! Viva a República!

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O Brasil adiou a sua escolha presidencial

Com grande tranquilidade e sem que tenham sido registadas quaisquer ocorrências significativas, a primeira volta das eleições presidenciais brasileiras decorreu ontem e contrariou as sondagens, pois embora Lula da Silva tivesse obtido 48,42% dos votos contra 43,21% de Jair Bolsonaro, a diferença de cerca de 5% é bem menor do que aquilo que as sondagens previam.
Afinal, o eleitorado não mandou o Jair para casa como previram algumas sondagens e, pelo contrário, deixou-o com um esperançoso resultado. Os dois candidatos mais votados recolheram cerca de 91% da totalidade dos votos expressos, o que mostra a enorme polarização do eleitorado brasileiro. Perante estes resultados o jornal Estado de Minas de Belo Horizonte, destaca que o Brasil é “um país dividido” e mostra um mapa em que essa divisão é bem evidente. Temos, portanto, uma segunda volta que se disputará no dia 30 de Outubro entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro e, de acordo com o que foi expresso pela generalidade dos comentadores, o que vai acontecer é imprevisível e a vitória pode chegar a qualquer dos dois candidatos.
Estão a ser feitas as mais diversas análises quanto ao que vai acontecer, pois Lula conseguiu 57 milhões de votos contra 51 milhões de Bolsonaro, mas essa diferença de mais de cinco milhões de votos não garante a sua eleição. A partir de agora vão ser disputados os cerca de nove milhões de votos que foram entregues aos candidatos Simone Tebet e Ciro Gomes e, também, os votos dos 32 milhões de abstencionistas, isto é, há cerca de quarenta milhões de votos que os dois candidatos irão agora procurar atrair.
O que parece não haver dúvida é que vão ser quatro longas semanas de intensa luta política, de ameaças, de insultos, de ódios e de radicalização da sociedade brasileira.

domingo, 2 de outubro de 2022

O Brasil vai mandar o Jair para casa?

Chegou o dia em que os brasileiros irão fazer as suas escolhas políticas através do voto, embora seja a escolha do Presidente da República que vai mobilizar os cidadãos para irem às urnas.
As sondagens dão como possível a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva já hoje, o que pouparia os brasileiros de mais quatro semanas de violência política, de deterioração da situação económica e de instabilidade social. O actual presidente mostrou durante o seu mandato e confirmou na actual campanha eleitoral, a sua medíocre cultura democrática, a sua manifesta ignorância e a sua incapacidade para dirigir o grande país que é o Brasil. O seu alinhamento internacional é perturbador e os seus amigos políticos são muito pouco recomendáveis. Pelo contrário, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva mobiliza, entusiasma e dá esperança ao povo, para além de ter um elevado prestígio internacional pela forma como governou o Brasil entre 2003 e 2011, bem como pelos resultados que obteve no combate à fome e à desigualdade.
Os brasileiros vão hoje escolher o seu presidente e muitos irão votar em Lisboa, que é a mais brasileira cidade do mundo. O que se espera é que a eleição decorra com tranquilidade e que, no fim, o Jair vá para casa. O Brasil precisa disso.
Hoje o jornal berria, que se publica na pequena cidade de Andoain, na província de Gipuzkoa da Comunidade Autónoma do País Basco, dedica a sua primeira página às eleições brasileiras, sendo uma enorme surpresa que numa pequena cidade basca desperte tanto interesse o momento político brasileiro.
Força Brasil!

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A paz na Ucrânia é cada vez mais urgente

As últimas notícias sobre o conflito da Ucrânia que, com maior ou menor verdade nos vão chegando, parecem mostrar que o regime de Vladimir Putin está a passar por grandes dificuldades, não só no campo de batalha, mas também na ordem política interna e internacional.
A reocupação ucraniana de algumas áreas territoriais, sobretudo na região de Kharkiv, e o reforço da ajuda militar americana, levaram Putin a fazer um discurso ameaçador e a decretar a mobilização de reservistas, ao mesmo tempo que, tanto os chineses como os indianos, não mostraram a solidariedade para com a Rússia que Putin desejava. Depois surgiram o anúncio dos referendos, mais a acção de sabotagem sobre as condutas do Nord Stream e o anúncio do reconhecimento da independência das regiões de Kherson e Zaporijia que, tal como Lugansk e Donetsk, irão ser integradas no território russo apesar da oposição da comunidade internacional, como salientou o secretário-geral das Nações Unidas. Como refere a última edição do Der Spiegel, que exibe na capa uma ilustração de Putin com um olho negro – que corresponde ao mapa da Ucrânia – ele está “perigosamente fraco”.
A ser assim, tal como acontece com os animais acossados, Putin torna-se perigoso e as suas ameaças devem ser levadas a sério, pelo que é necessário que se faça qualquer coisa para acabar com esta guerra e evitar que a arma nuclear seja utilizada. É preciso que a diplomacia regresse a este palco rapidamente, o que de resto parece ser a opinião já dominante dos cidadãos europeus como revelou recentemente o Eurobarómetro.
Ao contrário das guerras de antigamente em que havia vencedores e vencidos, estamos agora num conflito que corre o risco de não ter vencedores, mas apenas vencidos.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

O fornecimento de gás russo à Europa

A notícia mais importante do dia de ontem foi, seguramente, a fuga de gás que se verificou nos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2, que transportam o gás natural desde a Rússia até à Alemanha, através do mar Báltico, que é depois distribuído por vários países da Europa. Estes gasodutos correm paralelamente numa extensão de 1224 quilómetros de comprimento e têm sido objecto de muitas discussões, pois simbolizam a relação de dependência energética do centro e do ocidente da Europa em relação à Rússia. Essa discussão acentuou-se com o conflito ucraniano em que o gás russo se tornou uma arma de guerra, pois os russos precisam do dinheiro da venda do seu gás natural para alimentar a sua economia de guerra e os ocidentais precisam do gás russo para alimentar as suas economias e para aquecer as suas casas.
Hoje vários jornais publicam a fotografia da mancha provocada pela fuga do gás no mar Báltico, em águas territoriais suecas e dinamarquesas, enquanto todos se interrogam sobre o que realmente se passou, pois foram detectadas explosões na área onde estão assinaladas as fugas de gás.
O jornal holandês deVolksrant destaca com uma fotografia a seis colunas, a enorme mancha resultante da fuga de gás no mar Báltico e diz que “as explosões no Nord Stream são quase certamente sabotagem”. No mesmo sentido estão algumas reacções já conhecidas das autoridades alemãs, dinamarquesas e polacas, pois é difícil imaginar uma avaria técnica simultânea nos dois gasodutos. Significa que toda a gente parece apostar na tese da sabotagem mas, a ser verdadeira, torna-se difícil saber quem poderia e teria capacidade para levar a efeito esta acção. Ou como diria o detective Hercule Poirot, que a ficção televisiva celebrizou, encontre-se quem estaria interessado nesta sabotagem e está encontrado o autor.
O certo é que o fornecimento de gás russo à Europa está em risco e as tensões agravam-se.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Giorgia Meloni agita a unidade europeia

O partido Fratelli d’Italia e a sua presidente Giorgia Meloni venceram as eleições legislativas italianas com 26,19% dos votos, enquanto os resultados dos partidos seus aliados, ou seja, a Liga do Norte de Matteo Salvini (8,93%) e a Força Italia de Silvio Berlusconi (8,28%), vão permitir que a coligação de direita e extrema-direita tenha a maioria parlamentar e Giorgia Meloni possa formar governo. A notícia do jornal La Stampa diz que será a primeira mulher a governar a Itália, mas a generalidade da imprensa diz que a Itália regressa à extrema-direita, com Meloni a governar na linha de Mussolini. Foi a escolha de 50 milhões de italianos que, desta forma, criticaram a política interna italiana e mostraram o seu desagrado com a política europeia seguida por Bruxelas.
A União Europeia reagiu com alguma surpresa a este resultado, pois a coligação italiana vencedora defende muitas posições que são contrárias à filosofia política comunitária, o que pode significar o início de um retrocesso na construção europeia, em que por vezes têm sido dados “passos maiores que a perna”, quer no seu alargamento com critérios discutíveis, quer nas suas posições relativamente aos grandes blocos, sobretudo porque muitas decisões são tomadas à margem da opinião dos cidadãos.
Se Robert Schuman, o francês que foi o verdadeiro pai da união europeia, regressasse à sua Europa, certamente ficaria estupefacto com a situação. Acabaram as discussões sobre a “Europa das Pátrias” ou a “Europa dos Estados”, mas também os debates sobre as soluções intermédias, entre um federalismo integrador europeu que ignora a existência de nações e culturas diferenciadas e os nacionalismos exacerbados e egoísmos nacionalistas. Bruxelas e a sua burocracia tornaram-se arrogantes e menos democráticos e, escondida num sorriso simpático, a presidente Ursula von der Leyen é hoje o símbolo de algum desnorte. 
A entrada em cena de Giorgia Meloni vai perturbar espíritos e agitar as águas mas, também, vai mostrar que a Europa não pensa toda da mesma maneira, ao contrário do que há dias dizia o eminente ministro Cravinho, quando afirmou que a força da Europa está na sua unidade.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Um português que não poupa em viagens

A edição de hoje do Diário de Notícias destaca, com uma fotografia a quatro colunas, a presença de Marcelo Rebelo de Sousa na Califórnia, num dos habituais registos populistas de que tanto gosta. O título é simplesmente “Marcelo na Califórnia”, mas podia ter sido “Um presidente que não poupa em viagens”.
De facto, nos últimos trinta dias o nosso Presidente da República: (1) esteve em Angola para tomar parte no funeral de José Eduardo dos Santos, (2) foi ao Brasil para participar nas festas do Bicentenário da Independência do Brasil, (3) regressou a Angola para assistir à tomada de posse de João Lourenço, (4) seguiu depois numa uma viagem ao Reino Unido para se integrar nas cerimónias fúnebres da rainha Isabel II e, por fim, (5) viajou até aos Estados Unidos para cumprir a sua promessa de visitar as comunidades portuguesas da Califórnia. Feitas as contas, são cerca de 62.000 quilómetros que correspondem a uma volta e meia à Terra, voando sobre o Equador, além de terem sido mais de 15 dias de ausência física do território nacional, embora ele esteja sempre presente através dos tempos de antena televisivos que lhe são assegurados e que muito vão cansando os portugueses.
Com ele viaja sempre uma comitiva que nunca é divulgada, mas que através das inúmeras reportagens televisivas, verificamos que é bem numerosa e, obviamente, muito cara. Num tempo de dificuldades económicas crescentes, o país havia de gostar de saber quanto custam todas estas viagens e, também, que interesse objectivo têm para o nosso bem-estar. Na comitiva também segue o comentador Marcelo, que é uma personagem irritante que acompanha sempre o Venerando Chefe do Estado e que se faz rodear de microfones para os quais vai falando de tudo, pois ultimamente fala sobre tudo, quase sempre a dizer banalidades e lapalissades.
Portanto, os portugueses da Califórnia estão em festa e, nestes dias, farão fila para se fotografarem como o nosso Presidente da República, um homem que incarna, simultaneamente, as figuras do senhor Feliz e do senhor Contente.

sábado, 24 de setembro de 2022

A guerra da Ucrânia e as opiniões públicas

O conflito da Ucrânia parece estar para durar e não se vislumbra uma solução militar, enquanto o esforço de guerra das partes envolvidas é enorme e muito desgastante, porque os recursos não são ilimitados ou, como dizia Paul Samuelson, quando se gasta mais em canhões, gasta-se menos em manteiga. Do Atlântico aos Urais, os governos das partes envolvidas começam a ser questionados pelos cidadãos, que veem a sua ração de manteiga mais reduzida e, por isso, o sentimento das opiniões públicas é cada vez determinante para a condução da guerra.
Daí que comecem a surgir sondagens a medir o sentimento dos cidadãos europeus em relação ao conflito ucraniano.
Na sua edição de hoje, o semanário Expresso publica uma recente sondagem do ICS/ISCTE, que destaca que os “Portugueses mais atingidos pela crise já querem cedências à Rússia”. Assim, a sondagem revela que 53% dos portugueses “preferem resistir à Rússia” e que 35% “preferem ceder à Rússia”, mas também que “entre os maiores de 65 anos, 37% dizem que ‘seria melhor’ terminar a guerra, mesmo fazendo cedências a Moscovo”. Além disso, outra curiosidade da sondagem é que “a defesa de um final rápido do conflito com cedências do Ocidente é exactamente igual entre eleitores de esquerda e de direita (34%)”, isto é, a vontade de encontrar a paz não é determinada pela ideologia, mas por outros factores.
No mais recente Eurobarómetro, divulgado a 6 de Setembro em Bruxelas, os cidadãos europeus confirmam o seu forte apoio à Ucrânia, incluindo o apoio humanitário (92%), o apoio ao acolhimento de ucranianos que fogem da guerra (90%), o apoio às sanções económicas impostas aos russos (78%) e o apoio ao financiamento e fornecimento de equipamento militar à Ucrânia (68%), o que significa que 32% dos cidadãos europeus não apoiam nem o financiamento, nem o fornecimento de equipamento militar à Ucrânia. Assim, os números do Eurobarómetro parecem estar em linha com os resultados apurados pela sondagem publicada pelo Expresso, mostrando que ao contrário do que é insistentemente insinuado por políticos e comentadores televisivos, há muita gente na Europa e em Portugal que quer a paz na Ucrânia.

Aproximam-se as eleições brasileiras

Falta apenas uma semana para que o Brasil vá votar para escolher um novo Presidente da República ou, dito por outras palavras, falta apenas uma semana para que os brasileiros expulsem o actual ocupante do Palácio do Planalto, penalizando-o pela sua ignorância, impreparação e estupidez.
São 156.454.011 os brasileiros que poderão votar, não apenas para a escolha do Presidente da República, mas também para os cargos de governador, senador e deputado federal e, ainda, para deputado estadual. Porém, o que verdadeiramente anima a campanha eleitoral e até preocupa muita gente, é a disputa presidencial entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
O jornal Folha de S. Paulo anunciou ontem a última previsão eleitoral que dá 47% para Lula e 33% para Bolsonaro, mas estes números pouco variaram durante os últimos quatro meses, o que pode significar um menor rigor técnico da sondagem e, portanto, um maior grau de incerteza.
Jair Bolsonaro tem conduzido a sua campanha eleitoral sem quaisquer escrúpulos, tendo utilizado as suas funções para fazer propaganda, por vezes grosseira e injuriosa em relação aos seus adversários. Assim aconteceu nas comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil, na sua presença no funeral de Isabel II em Londres e na sua participação na Assembleia Geral das Nações Unidas. Os eleitores brasileiros perceberam as manobras eleitoralistas deste irresponsável e, no dia 2 de Outubro, talvez decidam afastá-lo imediatamente do seu futuro, evitando uma segunda volta das eleições.
No Brasil todos esperam melhores dias, com mais alegria, menos fome e um novo presidente, enquanto fora do Brasil todos esperam o despedimento de Bolsonaro e um novo ciclo de prosperidade, que faça retornar o país ao prestígio internacional de que gozou no tempo de Luiz Inácio Lula da Silva.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Lições de fair-play que chegam de longe

Começou hoje em Londres e decorre até ao próximo domingo, a quinta edição da Laver Cup 2022, um torneio de ténis masculino em que se defrontam as equipas da Europa e do Resto do Mundo e em que a equipa europeia procura conquistar o quinto título. Entre outros grandes ases do ténis mundial que formam as duas equipas, destacam-se o espanhol Rafael Nadal, o inglês Sir Andy Murray, o suíço Roger Federer e o sérvio Novak Djokovic. Estes quatro tenistas são designados habitualmente por The Big Four e, em conjunto, conquistaram 66 títulos do Grande Slam, três medalhas olímpicas de ouro e, segundo as minhas contas, ganharam 344 torneios ATP. Durante cerca de vinte anos defrontaram-se entre si, alimentaram rivalidades, derrotaram a concorrência e, sobretudo, ganharam muitos, mas mesmo muitos milhões. Agora em Londres, os quatro ases estiveram na mesma equipa e esqueceram rivalidades. O jornal The Times publicou hoje a fotografia dos The Big Four e essa fotografia é um exemplo extraordinário de desportivismo de homens que, tantas vezes, discutiram nos courts os milhões que estavam em jogo.
Esta fotografia remete-nos para a vergonha do radicalismo, da intolerância e do comportamento anti-social, que aconteceu no dia 10 de Setembro em Famalicão e, uma semana, depois no Estoril. Em Famalicão, durante o jogo Famalicão-SL Benfica, um grupo de energúmenos e ignorantes obrigou uma criança que estava na bancada a despir a camisola benfiquista que usava. No Estoril, durante o jogo Estoril-FC Porto, um outro grupo de energúmenos insultou e expulsou um adepto portista e a filha que tinha ao colo, apenas porque vestiam camisolas portistas. Ninguém apoiou esta canalha, mas é necessário que as entidades responsáveis tomem medidas punitivas para acabar com estes radicalismos, com esta agressividade e com esta intolerância que está a destruir o nosso desporto. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

A fanfarronice de Putin não serve a paz

Ao fim de sete meses de guerra, o imperial Vladimir Putin falou ao seu povo e tratou de radicalizar o seu discurso, ao anunciar a mobilização de mais tropas e ao ameaçar a Ucrânia e aqueles que a apoiam, com mais armas, incluindo o seu arsenal nuclear. Como é evidente, esta reacção é a resposta ao crescente poderio militar ucraniano e a alguns desaires que as forças russas têm sofrido, como foi o insucesso do assalto a Kiev, o afundamento do cruzador Moskva e o seu recente recuo na chamada batalha de Kharkiv. Ninguém esperaria que Putin fizesse um discurso apaziguador, mas também não se esperava que optasse por esta escalada verbal, que meio mundo já condenou. O jornal polaco Gazeta wyborcza destacou o discurso e salientou que “Putin voltou a ameaçar”. Com esta opção de Putin, a guerra vai continuar, a destruição e a morte vão prosseguir, enquanto a paz por que muitos anseiam vai ter de esperar. 
As guerras consomem recursos e alteram as conjunturas económicas, daí resultando dificuldades no quotidiano das populações e efervescência nas opiniões públicas. O exercício do poder e as opções políticas são sempre muito dependentes das opiniões públicas e, como se tem visto, são cada vez mais os que estão fartos da guerra, tanto na Rússia como no Ocidente. Chega a parecer que serão as opiniões públicas que irão exigir aos seus governos, que parem a guerra e tratem de conversar.
Praticamente à mesma hora do discurso de Putin, nos termos de um acordo de cooperação espacial assinado em Julho, dois astronautas russos e um americano, partiram do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, tendo já chegado à estação espacial onde vão permanecer seis meses. À mesma hora era anunciada a maior troca de prisioneiros desde o início da guerra, envolvendo cerca de 300 combatentes, incluindo dez estrangeiros e os comandantes do batalhão Azov, que se tinham rendido em Mariupol e que estariam à espera de julgamento.
O discurso de Putin não encaixa com a cooperação espacial, nem com a troca de prisioneiros. Talvez ele tivesse precisado dessa fanfarrocine como condição prévia para aceitar falar de paz.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

O novo rei e o futuro do Reino Unido

O funeral da rainha Isabel II foi um acontecimento que interessou o mundo e que, durante vários dias, encheu a programação das televisões e as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo, transformando-se num notável caso mediático, tão notável como foi o seu longo reinado. Milhões de pessoas acompanharam as cerimónias fúnebres, tanto nas Ilhas Britânicas, como na Commonwealth e no mundo. As imagens da urna de Isabel II, da Família Real, dos agentes do protocolo, dos acompanhantes e do público encheram os noticiários, sobretudo devido ao impacto emocional do colorido das fardas militares e do compasso acertado do cortejo fúnebre. A justa homenagem à rainha Isabel II, que conseguiu manter unida a Grã-Bretanha apesar dos desvarios de alguns dos seus primeiros-ministros, foi tratada em termos mediáticos ou noticiosos como se se tratasse de um espectáculo. Assim foram as reportagens dos inúmeros jornalistas portugueses, a cujo registo alguém chamou “jornalismo de entretenimento” que, muitas vezes, foram marcadas pelo ridículo e pelo despropósito.
No que respeita aos jornais, verifica-se que a generalidade publicou a fotografia da urna a caminho de Westminster ou no interior da abadia, com diversos enquadramentos e, muitas vezes, com a frase “the final farewell”. Porém, o jornal Kurier, que se publica em Viena, escolheu uma fotografia diferente do último adeus à rainha, em que se destacam o novo rei Carlos III e o seu filho William, seu sucessor e príncipe de Gales.
Eles vão estar no centro da vida britânica e esperam-nos tempos muito difíceis. O Reino Unido passa por uma época de crise, que o ambiente de comoção nacional dos últimos dias deve ter amortecido, mas as reivindicações da Escócia e da Irlanda do Norte irão recomeçar. Qualquer dia…

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O tenor Plácido Domingo encantou Sevilha

Plácido Domingo tem 81 anos de idade e foi a principal atracção da gala lírica que inaugurou a primeira edição das Noches de la Maestranza, o novo festival que se realizou na famosa Plaza de Toros de La Real Maestranza de Caballeria de Sevilla.
O tenor é uma figura mundial, quer como cantor quer como director de orquestra, tendo sido galardoado com muitos títulos honoríficos e prémios muito diversos, mas também é reconhecido pelos seus compromissos humanitários e de solidariedade social. Tem sido um divulgador da ópera, sobretudo através das suas parcerias com José Carreras e Luciano Pavarotti, os três tenores que “conquistaram o mundo”. Em 2021 foi nomeado Embaixador da Cultura Espanhola no Mundo.
Em Sevilha, Plácido Domingo foi um dos nove cantores que intervieram na gala lírica e, com a Real Orquestra Sinfónica de Sevilha, apresentou-se em dois blocos diferenciados: o primeiro dedicado à ópera e que centrou em Giuseppe Verdi, enquanto no segundo escolheu um repertório espanhol com zarzuelas, passodobles e canções populares. O público deslumbrou-se com a actuação e aplaudiu-o longamente e de pé, reconhecendo o talento artístico daquele octogenário.
Porém, o que é curioso foi o facto da edição sevilhana do jornal ABC, mas também o Diário de Sevilla, terem dedicado as suas primeiras páginas a “una noche estelar para Sevilla”. De facto, com um noticiário tão diversificado e tão vasto, com novidades internas e internacionais, é bem curioso como os dois maiores jornais sevilhanos centraram as suas edições na arte e na cultura. Excepcional. Único.
O Futebol e a Política desta vez perderam.

domingo, 18 de setembro de 2022

A guerra na Ucrânia e o outono de Putin

A guerra na Ucrânia tem estado em banho-maria aparentemente devido ao cansaço das partes ou à falta de soldados e de munições, mas nos últimos dias parece que algo está a mudar, com os ucranianos e os seus apoiantes a mostrarem sinais de grande satisfação por algumas vitórias. Inversamente, os russos de Vladimir Putin têm acumulado más notícias e algumas derrotas tanto militares como políticas. O jornal sueco Expressen destacou ontem em primeira página que “Putins kollaps”, o que significa “o colapso de Putin”.
De facto, Putin sofreu vários revezes bem duros nos últimos dias. O primeiro foi o recuo na região de Kharkiv que, em termos militares, foi uma pesada derrota. O segundo revés foi a descoberta de uma vala comum com mais de quatro centenas de corpos na cidade de Izyum, que repete o que aconteceu em Bucha e que, supostamente, serão crimes de guerra. O terceiro revés aconteceu em Samarkand, pois embora Putin se tivesse encontrado com Xi Jinping e com Narendra Modi, os líderes dos dois mais populosos países do mundo e que possuem armamento nuclear, nenhum deles expressou claro apoio a Putin, tendo mesmo sugerido que era tempo de acabar com a guerra. Finalmente, um quarto revés foi interno, pois algumas dezenas de autarcas de várias cidades russas assinaram uma petição a pedir a demissão de Putin, porque a sua política prejudica o futuro da Rússia e dos seus cidadãos.
Esta situação configura um desequilíbrio que pode conduzir a maiores dificuldades para uma desejável negociação da paz. O facto é que o equinócio do outono se aproxima, mas Vladimir Putin parece que antecipou o seu próprio outono.