terça-feira, 5 de junho de 2012

Um desfile náutico memorável no Tamisa

Há muitos, muitos anos, aprendia-se nas nossas escolas primárias que a aliança luso-britânica assinada em 1373 e confirmada pelo Tratado de Windsor de 1386, era a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor. Com o correr dos anos e com a aprendizagem da História que fomos tendo ao longo do tempo, começamos a ver que essa aliança foi sempre mais vantajosa para os ingleses do que para nós e que eles, muitas vezes, não só não foram nossos aliados, como foram nossos intransigentes adversários, que nos atraiçoaram, nos combateram e nos humilharam. Assim aconteceu quando perdemos as praças da costa do Malabar para os holandeses, quando perdemos Baçaim e a Província do Norte do Estado da Índia para os maratas, quando nos ocuparam a Madeira e Goa com o pretexto das invasões napoleónicas ou quando nos humilharam com o Ultimato de 1891. Por todas estas razões e como republicano, não tenho especial atracção pelos ingleses e pela sua monarquia, embora goste de muitas coisas que eles têm para nos oferecer. Destaco, por exemplo, a sua língua universal, os museus de Londres, os grandes concertos e a Premier League. Além disso, admiro a solenidade com que a sociedade inglesa celebra os grandes momentos da Casa Real, de que é exemplo o conjunto de iniciativas que nestes dias assinalaram as Bodas de Diamante da Rainha e que a televisão nos mostrou. Destaco, em especial, o desfile náutico do Tamisa com mais de mil embarcações que escoltaram a Rainha e os milhões de pessoas que a ele assistiram, a lembrar ao mundo o simbolismo do poder naval inglês e a forma como a Família Real e os ingleses o evocam. Destaco, igualmente, a forma como os jornais de todo o mundo relataram esse memorável desfile náutico. Aqui, lamentavelmente, a nossa herança marítima é menos evocada do que devia e, nem o Tejo nem o Douro, têm servido para estas coisas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os jacarandás já florescem em Lisboa

Os jacarandás já florescem em Lisboa e, em poucos dias, a sua exuberância cromática transforma o espaço público, parecendo anunciar o Verão ou um tempo de maior confiança e optimismo para os lisboetas. Como sempre, a partir de fins de Maio e até meados de Junho, a cidade parece animar-se com a luminosidade e a intensidade que veste muitas das suas praças e ruas com o azul-lilás ou o rosa-lilás das flores dos jacarandás e com os mantos de pétalas que se estendem pelo chão, nos passeios e sobre os carros. Há jacarandás por toda a cidade e li que serão cerca de dois mil e duzentos, correspondendo a cerca de 6% da superfície arbórea da cidade, sobretudo nas avenidas 5 de Outubro e Dom Carlos I, nos Largos do Rato e do Carmo, no Parque Eduardo VII, no Príncipe Real, na Tapada das Necessidades, na Ajuda, no Restelo e em tantos outros locais. É bom saber que há coisas que são belas e que não mudam, que fazem parte das nossas memórias alfacinhas e da identidade da nossa cidade, que estão para além da ganância e da mediocridade de tantos personagens do nosso tempo, mas também da crise do euro, da nossa dívida, do desemprego, da justiça que não funciona, dos escândalos financeiros, das promiscuidades nas secretas, da tristeza das programações televisivas, dos exageros com o futebol e do triste espectáculo que continuamente nos oferecem os relvas, os borges, os gonçalves, as esteves, os catrogas e os moedas. Esqueçamos tudo isso por instantes, naveguemos pelas ruas onde florescem os jacarandás, paremos alguns momentos para os observar e verifiquemos como é um privilégio poder contemplar tão belo espectáculo em Lisboa. E lembremos José Craveirinha, o poeta moçambicano dos “Jacarandás de Saudade”: Tempo / de seus passos vindo / pelo tapete de roxas flores / dos jacarandás enfileirados na rua.

domingo, 3 de junho de 2012

Um país cheio de Borges

Portugal está cada vez mais ocupado por gente estranha e ambiciosa, que mistura política com negócios, que usa a coisa pública em proveito pessoal e que não olha a meios para atingir os seus fins. Muitos têm um ar estrangeirado, falam línguas e estudaram lá por fora. Não fizeram empresas, nem criaram riqueza. Penduraram-se no Estado, que apenas deveria abrigar gente vocacionada para servir o interesse nacional e o bem comum. Nunca como agora houve esta evidência. Enquanto a generalidade dos portugueses empobrece e sofre, ou emigra, andam por aí alguns abutres que, à sombra do Estado e à custa de todos nós, se vão enchendo descarada e abusivamente. Aqueles que nos governam devem merecer a nossa confiança e não podem trair o voto popular, mas todos os dias nos desapontam com as suas medidas insensíveis tomadas através dessa estranha gente. Agora decidiram dar poderes de consultor a um tal Borges, atribuindo-lhe uma milionária retribuição sem descontos, com o argumento de que é funcionário do FMI. Não é verdade. O homem foi mas já não é e, inclusive, até consta que foi despedido por incompetência. É ele que, com arrogância desmedida, defende a descida dos salários dos outros, que “manda” no governo, que vende o nosso património em nome de privatizações. Como é administrador de várias empresas privadas, ficam no ar muitas suspeitas sobre a forma como serve tantos interesses não convergentes. É um equilibrista. É assim. Vale tudo! Infelizmente o país está cheio de Borges, em vez de servidores do Estado e do interesse público. Os Borges que prescindem do salário para receber as reformas. Os Borges que estando no governo continuam a gerir os seus escritórios e seguramente a aumentar a sua clientela. Os Borges que vieram de Vancouver. Os Borges que sairam dos escritórios de advogados para a agricultura, o ambiente e o mar. É caso para dizer, parafraseando o manifesto anti-Dantas de José de Almada Negreiros: se o Borges é português eu quero ser espanhol!

sábado, 2 de junho de 2012

A temporada Gulbenkian de música 12/13

O programa da próxima temporada Gulbenkian de música já foi divulgado e pode ser consultado, mês a mês ou por tema, quer no sítio da Fundação Gulbenkian, quer na brochura em papel que a Fundação disponibiliza. A programação, tal como tem acontecido nos anos anteriores, dividir-se-à em ciclos de Piano, Música Antiga, Grandes Orquestras, Teatro/música, Músicas do Mundo e as transmissões da Metropolitan Opera House, de Nova Iorque. Alguns dos cerca de 130 eventos anunciados, que se dividem por 9 ciclos, despertam mais expectativas, como por exemplo as iniciativas enquadradas na celebração dos 50 anos da Orquestra Gulbenkian, a apresentação da famosa Filarmónica de Berlim, as doze transmissões de ópera do Metropolitan de Nova Yorque, as dez propostas incluídas no ciclo Músicas do Mundo e o Festival Jazz em Agosto. Está em curso o período de renovação das assinaturas, a que se seguirá o período de aceitação de novos assinantes. Para o público, a venda de bilhetes inicia-se a 2 de Julho. Se o leitor quiser ser um dos cerca de cem mil espectadores da temporada Gulbenkian de música de 2012/2013, estude o respectivo programa, escolha o que quer ver e, na data apropriada, reserve os seus bilhetes antes que esgotem.

Encontro de Culturas em Serpa

Inicia-se hoje em Serpa a nona edição do Encontro de Culturas em Serpa, uma iniciativa municipal que se realiza anualmente no mês de Junho e que este ano decorrerá até ao dia 17 de Junho, com o objectivo de promover a vida cultural, enquanto factor de desenvolvimento e de coesão social. O programa deste ano inclui diversas iniciativas culturais lusófonas ou ibero-americanas, designadamente um mercado cultural e duas exposições, mas são as duas dezenas de espectáculos de música que despertam mais atenção. No que respeita à música destaca-se a apresentação de grupos ou artistas vindos de Portugal, Brasil, Argentina, Chile, Cabo Verde, Espanha, Rússia e Estados Unidos da América. Estarão em destaque o cante alentejano (10 de Junho), assim como uma homenagem a Cesárea Évora que irá juntar quatro artistas cabo-verdianos (8 de Junho) e os concertos do brasileiro Zeca Baleiro (9 de Junho), do fadista Camané (15 de Junho), da espanhola Luz Casal (16 de Junho) e do cantor espanhol Pablo Alborán, que terá a participação especial da fadista Carminho (17 de Junho). É uma boa oportunidade para visitar Serpa, mas também é uma boa oportunidade para felicitar o Município de Serpa por esta iniciativa de grande qualidade, bem distinta da generalidade das iniciativas municipais que, no Verão e em articulação com a brejeirice de tipo baião da RTP, promovem o pimbismo musical lusitano e nos exibem a mais confrangedora das mediocridades.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A imoralidade de certas reformas

No passado mês de Abril o Correio da Manhã revelou que J. J. Gonçalves, o antigo presidente do BCP, tem desde finais de 2007 uma reforma mensal superior a 167 mil euros, além de outras regalias adicionais de que se destacam a possibilidade de viajar em aviões alugados, utilizar automóveis com motorista e de contar com cerca de 40 seguranças privados, tudo suportado pelo banco, em nome do seu “direito à segurança e à protecção na saúde”. É uma imoralidade e um verdadeiro escândalo, quando os portugueses passam por enormes dificuldades e quando os direitos adquiridos pelos trabalhadores e pelos pensionistas estão a ser diariamente violados. Mais uma vez, o pequeno contabilista Gaspar se mostra duro para com os fracos e se cala em relação aos abusos e aos escândalos que por aí campeiam, como sucede com a reforma e as mordomias deste Gonçalves que, talvez, merecesse uma auditoria à sua gestão no banco, como de resto exigiu o accionista Berardo. O BCP tem procurado corrigir esta imoralidade, mas o Tribunal de Sintra acaba de se considerar incompetente para julgar a pretensão do BCP. É realmente inacreditável a protecção de que esta gente goza até na Justiça e é uma vergonha para a nossa sociedade. Embora noutra escala, também é igualmente imoral e escandaloso o que se passa com o ex-presidente Paulo Teixeira Pinto que, aos 46 anos de idade e depois de ano e meio no cargo de presidente do BCP, recebeu uma indemnização de dez milhões de euros e uma reforma vitalícia de 500 mil euros anuais. Hoje, ao saber destas coisas, o arcebispo de Braga confessou que quase se engasgou quando esta manhã tomava o pequeno-almoço e leu que o antigo presidente do BCP, recebe uma reforma de cerca de 175 mil euros. Porém, eu ando engasgado há muitos meses e não percebo porque razão o Estado não actua. Em tempos, o Gonçalves disse que esta reforma não custava "um cêntimo ao banco". Então não há dúvidas: ele está a encher os bolsos à custa dos contribuintes. Pouca vergonha!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Campeões da solidariedade

No passado fim-de-semana de 26 e 27 de Maio os dezanove Bancos Alimentares Contra a Fome portugueses angariaram 2644 toneladas de alimentos numa campanha realizada em 1655 superfícies comerciais de todo o País, na qual participaram cerca de 37 mil voluntários. Quer as quantidades recolhidas quer o número de voluntários constituíram recordes absolutos. As quantidades recolhidas excederam em 13,7% as recolhas que se verificaram em Maio de 2011, o que é verdadeiramente surpreendente na actual situação económica das famílias e revela fortes sinais de solidariedade da sociedade portuguesa. O elevado número de voluntários mostra a generosidade dos portugueses e também confirma que esta iniciativa de voluntariado não tem, ao nível da dimensão, qualquer paralelo no nosso país. Como afirmou Isabel Jonet, a Presidente da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome, “quando os projectos são claros e mobilizadores, na medida das suas possibilidades, os portugueses querem e podem contribuir de uma forma construtiva, coesa, cívica e solidária para a resolução dos problemas”. Exactamente, digo eu! O primeiro Banco Alimentar contra a Fome foi criado em 1991 e em 2011, os dezanove Bancos Alimentares Contra a Fome existentes distribuíram um total de 30.252 toneladas de alimentos (equivalentes a um valor global estimado superior a 42 milhões de euros), ou seja, um movimento médio de 121 toneladas por dia útil. Os portugueses são realmente campeões da solidariedade e da generosidade e é caso para perguntar se a classe política que nos dirige merece um povo como este.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A transparência continua adiada

O hábito de fazer ajustes directos é antigo e está enraizado no Estado, que gasta 130 milhões de euros por mês, sem concurso, segundo revelou hoje o Jornal de Notícias. Desde meados de 2008, quando o registo arrancou de forma sistemática, até à semana passada, o Estado assinou mais de 262 mil ajustes directos, no valor total de cerca de 8 mil milhões de euros! Desde que a troika chegou a Portugal e foi iniciado o programa de ajustamento, há pouco mais de um ano, o valor dos contratos sem concurso baixou, mas mesmo assim continuou a um incompreensível ritmo de 130 milhões de euros por mês. As contas foram feitas pelo Jornal de Notícias com base nos dados do sítio onde são inscritos os ajustes directos formalizados entre as entidades públicas e os fornecedores de bens, serviços ou empreitadas. Só no corrente ano de 2012 já foram feitos 22.089 ajustes directos, sendo cerca de metade inferiores a 10 mil euros e, aproximadamente outra metade, entre 10 e 100 mil euros. No entanto, são de salientar os ajustes directos feitos pelo Ministério da Justiça (a nova sede da PJ por 85,8 milhões de euros), pela REFER (73,3 milhões de euros), pelo Banco de Portugal (19,8 milhões de euros) e por outras entidades públicas. Estas avultadas quantias são pagas por entidades públicas a fornecedores que elas próprias escolheram, muitas vezes apenas por serem amigos, familiares ou correligionários do decisor. O ajuste directo e sem concurso deveria ser a excepção, mas parece ser a regra. Assim, uns são favorecidos e engordam, enquanto outros não têm oportunidades. É o império da cunha. É o tráfico de influências. É a opacidade do Estado. É a pequena ou média corrupção. Ninguém pede responsabilidades a estes decisores. Lamentavelmente, a transparência continua adiada.

A utilidade de uma informação – II

Na chamada Zona Industrial do Casal da Areia, próximo de Alcobaça, situam-se as instalações da Veco Design - Fábrica de Parques Infantis e Mobiliário Urbano, uma empresa portuguesa a que já foi atribuído o prestigioso estatuto de PME Excelência. As suas instalações ocupam cerca de 10 mil metros quadrados e constam de uma fábrica e de um armazém, além de um show-room permanente, em que se destacam o colorido e o design dos equipamentos que a empresa comercializa, não só em Portugal, mas também em Angola, Espanha, França, Marrocos, Brasil e Alemanha. É uma empresa bem sucedida e, talvez por isso, cobiçada pelos amigos do alheio. Porém, num enorme cartaz colocado junto da sua porta principal, a empresa avisa os senhores ladrões que não temos telemóveis, portáteis ou dinheiro para roubar, “mas temos trabalho para dar!...” É uma informação útil que certamente desincentiva os ladrões, mas com o elevado desemprego que temos, a Veco Design corre o risco de ver milhares de desempregados à sua porta a procurar o trabalho que a empresa afirma ter para dar.

domingo, 27 de maio de 2012

Nem oito, nem oitenta

Organizado pela UEFA, vem aí o Campeonato da Europa de Futebol - o EURO 2012 - que se iniciará no próximo dia 8 de Junho em Varsóvia com o jogo entre a Polónia e a Grécia e, para quem gosta de futebol, este acontecimento está a gerar um enorme entusiasmo devido aos espectáculos que todos teremos oportunidade de ver pela televisão. Acresce o facto da equipa portuguesa – a nossa selecção - estar apurada para integrar o grupo de dezasseis finalistas que vão disputar a competição e, esse facto, constitui um factor adicional de interesse. No meio de tanto entusiasmo, é natural que a comunicação social dedique espaços informativos muito alargados ao acontecimento. Porém, está a verificar-se uma cobertura noticiosa absolutamente desproporcionada, que inclui a transmissão de imagens dos treinos e dos exames médicos, inúmeras entrevistas e muitas reportagens. Ficamos a saber quase tudo sobre os jogadores, sobre as suas famílias, os seus automóveis, os seus devaneios. Ouvimos discursos jornalísticos tão laudatórios, quanto ridículos. Os chamados jornalistas do futebol estão a endeusar os jogadores que, até agora, apenas asseguraram chorudos prémios. Nós somos inundados de "selecção", enquanto os jogadores se deslumbram com tanta atenção. É um exagero absoluto. A indústria da publicidade associa-se a este frenesim e, em vez de treinarem e de se concentrarem, os jogadores passam o tempo em sessões fotográficas. O povo gosta assim. Esquece-se a crise do euro, em nome do EURO. É demais. Nem oito, nem oitenta!

sábado, 26 de maio de 2012

A Espanha aqui tão perto

A Espanha é a 9ª potência económica mundial e é o segundo maior país da União Europeia, mas é também uma potência militar, cultural e desportiva, pelo que a grave crise que está a atravessar não pode ser apreciada da mesma maneira que as crises que atormentam os países médios como são a Grécia, Portugal ou a Irlanda. A economia espanhola entrou em recessão e o desemprego já atingiu 24,4%, o que significa que mais de 5 milhões e meio de pessoas estão sem trabalho, ao mesmo tempo que o desemprego jovem atinge os 52%. A austeridade é severa e a crise social já tem algumas características incontroláveis. O sector financeiro espanhol também passa por grandes dificuldades e a pressão dos mercados é intensa. Os juros da sua dívida têm disparado. O Estado interveio em vários bancos, um dos quais – o Bankia – acaba de pedir ao Estado uma ajuda pública de 19 mil milhões de euros para o saneamento das suas contas. Mas os problemas também afectam seriamente as autonomias regionais e algumas estarão próximo da insolvência. A Catalunha tem uma dívida de 13 mil milhões de euros para pagar este ano e decidiu pedir ajuda ao governo espanhol. São números que, vistos deste lado da fronteira, assustam. Segundo alguns analistas, a Espanha ainda não está sob resgate financeiro nem sob o controlo da troika, mas já existe de facto uma intervenção encoberta por parte da União Europeia, que não é publicitada pelos efeitos alarmistas e desastrosos que poderiam induzir na economia espanhola, na moeda única e no sistema financeiro internacional. E nós e os nossos problemas, aqui na costa oeste da Península Ibérica, pouco podemos fazer à margem da solução do processo espanhol.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Viagens presidenciais em tempo de crise

O Presidente da República chegou à Austrália, depois de já ter visitado Timor-Leste e a Indonésia, numa viagem de onze dias que ainda o levará a Singapura, o que constitui a mais longa viagem que até agora empreendeu. É sabido que o actual Presidente tem viajado muito menos que os seus antecessores e esse facto deve ser salientado positivamente, como também deve ser elogiada a ideia de disponibilizar informação ao público sobre as actividades presidenciais através do sítio da Presidência. Porém, essas informações são manifestamente insuficientes no momento por que estamos a passar, marcado pelo brutal aumento do desemprego e da pobreza, pela perda de direitos dos trabalhadores e dos pensionistas, mas também pela quebra dos níveis de confiança e de coesão nacional. Os sacrifícios que estão a ser impostos à generalidade dos portugueses, exigem muita clareza nas despesas do Estado. A começar por cima. E se é admissível que o grande público desconheça o interesse nacional destas viagens, já não é aceitável que seja desconhecida a composição das respectivas comitivas, habitualmente muito extensas e com turistas pelo meio, bem como os critérios utilizados para a sua formação. Obviamente que, quem perdeu os subsídios de Férias e de Natal ou está desempregado, quer saber se estas visitas se justificam, bem como a composição da comitiva e o valor da respectiva factura presidencial, incluindo os custos das viagens e dos hotéis. Em tempo de vacas magras e de aperto, estas viagens deixam-nos atolados na dúvida.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

As gorduras do Estado

Acaba de ser publicada a "Síntese de Execução Orçamental" elaborada pela DGO com a informação disponível até 23 de Maio. Quanto ao subsector Estado, a página 7 do documento mostra que de Janeiro a Abril a receita efectiva baixou e a despesa efectiva aumentou em relação ao mesmo período de 2011. Significa que, para além do desemprego, também não vamos bem nas contas. Entretanto, o Jornal de Notícias de hoje diz que "o governo não trava despesa e que a dívida é maior do que se diz". Ficamos perplexos. Há cerca de um ano, algumas individualidades com uma enorme avidez pelo poder ou com uma indisfarçável fome por dinheiro, anunciava diariamente que tinham soluções para a nossa crise. Um deles era o presidente do PSD que, segundo o Jornal de Notícias de 30 de Abril de 2011, disse “que fez as contas e está em condições de garantir que não será preciso cortar salários nem fazer despedimentos para consolidar as finanças públicas portuguesas". "Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro". E acrescentou que “o PSD quis "vasculhar tudo" para ter contas bem feitas e, "relativamente a tudo aquilo que o Governo não elucidou bem", procurou "estimar", preferindo fazê-lo "por excesso do que por defeito". "Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro, mas temos de ser efectivos a cortar nas gorduras", completou Passos Coelho. A tese das gorduras do Estado tornou-se moda e passou a ser propagandeada pelas vozes do sargento Catroga, do pequenino Moedas e do vaidosão do Nogeira. Afinal essa gente não estava preparada, nem era competente. Que ridículos!

domingo, 20 de maio de 2012

Volvo Ocean Race em Lisboa

Largou hoje de Miami em direcção a Lisboa, a sétima etapa da regata Volvo Ocean Race 2011-2012, que é considerada a volta ao mundo à vela e um dos cinco maiores certames desportivos a nível mundial. Nesta etapa serão percorridas em 11 dias as 3.590 milhas da travessia atlântica. A regata permanecerá depois na Doca de Pedrouços em Lisboa, entre os dias 31 de Maio e 10 de Junho, onde ficará instalado o Race Village da competição, que contará com uma programação especial de animação, de entrada livre. É a primeira vez que esta famosa regata, que está a cumprir a sua 11.ª edição, escala Lisboa que, desta forma, é a única capital europeia que faz parte deste prestigiado circuito mundial. A regata tem uma projecção mediática à escala planetária, sendo transmitida para um universo de mais de mil milhões de pessoas. São seis veleiros em prova tripulados por seis dezenas dos melhores velejadores de quinze países. Actualmente, a classificação é dominada pelos espanhóis da Telefónica, pelos franceses da Groupama e pelos neo-zelandeses da Camper. A 10 de Junho, a Volvo Ocean Race 2011-2012 seguirá para Lorient (França), antes da largada em direcção à meta final em Galway (Irlanda), completando-se um percurso de 39 mil milhas náuticas ou mais de 70 mil quilómetros, à volta do planeta. A presença da Volvo Ocean Race em Lisboa é um acontecimento muito prestigiante e é um importante contributo para a melhoria da imagem de Portugal no mundo e para a projecção de Lisboa como destino turístico. Durante vários dias Portugal será falado no mundo por causa da vela e não por causa de qualquer crise que atormente a nossa sociedade ou a nossa economia.

Taur Matan Ruak

Decorreram em Timor-Leste as festas comemorativas da passagem do décimo aniversário da restauração da sua independência, que se verificou no dia 20 de Maio de 2002. Numa altura em que ainda estão bem presentes na nossa memória as dolorosas etapas que, desde 1974 até à actualidade, levaram à construção do Estado timorense, a celebração desta efeméride tem todo o sentido no plano simbólico, quer em Timor-Leste, quer em Portugal. A história recente da ilha do crocodilo e do povo timorense é uma grande epopeia. Depois da turbulência do período de descolonização e do abandono português, aconteceu uma guerra civil a que se seguiu a brutal invasão e ocupação indonésia, com as cumplicidades americana e australiana. Embora martirizados pela guerra e pelos ocupantes, os timorenses resistiram nos meios urbanos e nas montanhas. Em Díli, no Matebian e no cemitério de Santa Cruz. Na rede clandestina e na luta armada. Com Nicolau Lobato e Konis Santana. Com Xanana Gusmão e Taur Matan Ruak. O referendo de 1999 premiou a tenacidade e a coragem timorenses e o povo escolheu o seu próprio destino, embora algumas forças reaccionárias tivessem então destruído quase todo o património edificado em território timorense. Disse-se, então, que não houvera uma tão extensa destruição desde a 2ª guerra mundial. A comunidade internacional percebeu nessa altura que, embora encaixados entre a Indonésia e a Austrália, os timorenses tinham direito à sua identidade e à sua dignidade. Assim, a efémera independência que tinha sido declarada em 1975 foi restaurada em 2002. Depois de Xanana Gusmão e José Ramos-Horta terem ocupado a Presidência da República, no dia em que se comemoraram dez anos sobre a restauração da independência, esta passou a ser ocupada por José Maria Vasconcelos, casado com Isabel da Costa Ferreira. Porém, Vasconcelos não usa o seu nome de baptismo e mantém o nome de guerra que usou durante a luta armada: Taur Matan Ruak.