sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Mubarak, a justiça egípcia e o BPN

A edição de 4 de Agosto do jornal Público apresenta uma fotografia a toda a largura da primeira página do ex-presidente egípcio Hosni Mubarak e destaca a seguinte legenda:
O velho faraó foi a tribunal, para espanto dos egípcios e aviso aos ditadores. A televisão mostrou-o ao povo, numa maca e atrás das grades.
Mubarak renunciou à presidência egípcia no dia 11 de Fevereiro, encontra-se em prisão preventiva desde 13 de Abril no hospital de Sharm-el-Cheik, acusado por abuso de poder e enriquecimento ilícito e, aparentemente, no dia 17 de Maio renunciou a todos os seus bens numa tentativa para ser posto em liberdade. Agora, menos de seis meses depois da sua renúncia, foi presente a tribunal e foi mostrado atrás das grades.
Durante anos, Mubarak foi elogiado no ocidente por ter assegurado o diálogo com Israel, mas a justiça egípcia limita-se a fazer o seu trabalho e, para quem não conhece o que se passou no Egipto, como é o meu caso, apenas se pode esperar que os tribunais sejam justos e céleres.
Ora é isso que me faz pensar em tantos longos processos que em Portugal se arrastam no tempo e a “desejar” que o exemplo da celeridade da justiça egípcia chegue a Portugal. O mau exemplo do julgamento do processo Casa Pia, que demorou quase oito anos, não pode repetir-se. As gigantescas fraudes do BPN são um caso de polícia e de má supervisão que fizeram evaporar 9.700 milhões de euros, conforme foi agora revelado na Assembleia da República. A justiça portuguesa tem que actuar com justiça e celeridade. Como no Egipto.
Sem contemplações, no Egipto as televisões mostram Mubarak atrás das grades e nos Estados Unidos mostraram DSK algemado. Aqui, os responsáveis do BPN são mostrados nas suas mansões, nas praias ou nas suas aparições sociais. E a nossa Comunicação Social e os nossos jornalistas assobiam para o lado...
Nota: No dia 12 de Maio o tema da justiça egípcia já aqui fora tratado.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Turning Japanese

A reputada revista The Economist avisa, na sua última edição, que os Estados Unidos e a Europa se estão a tornar japoneses, isto é, apresentam indicadores económicos que se aproximam dos indicadores japoneses.
Desde há vinte anos que a economia japonesa tem sido um case study e se encontra mergulhada numa crise para a qual não encontra saída, entalada entre a estagnação e a deflação. São apontadas diversas razões para esta prolongada crise, desde a quebra da produtividade até ao envelhecimento da população, passando pela não resolução do problema do crédito ou pelo generoso e prematuro sistema de reformas, entre muitas outras razões. O terramoto e o tsunami de Fukushima não ajudaram nada. Os governos japoneses têm procurado a revitalização do crescimento económico através dos gastos públicos e do investimento em obras públicas, muitas vezes desnecessárias, de que tem resultado uma brutal dívida pública, que já ultrapassa o dobro do PIB e é a maior do mundo.
As disparidades de rendimento são crescentes e o Japão perdeu o orgulho de ser uma sociedade igualitária, estando confrontada com um anormal desemprego e com um crescente número de pobres.
Diz-se que o Japão tem antecipado o que começa a acontecer nos Estados Unidos e na Europa, com o excessivo endividamento e os elevados défices públicos, a estagnação económica e o desemprego.
O alerta do The Economist já fora feito há cerca de um ano, quando o economista norte-americano Paul Krugman, que em 2008 recebeu o Prémio Nobel da Economia, assegurou que os Estados Unidos também estavam na senda da estagnação e da deflação, que o Japão vem percorrendo desde há duas dezenas de anos.
Na Europa, os últimos anos também estão a revelar que se está no mesmo caminho, pela via do endividamento, dos défices e do desemprego e, naturalmente, Portugal também está nessa onda global.
De facto, estamos todos no mesmo barco e a precisar de trabalhar mais para sermos mais autónomos e para não precisarmos do dinheiro dos outros!
No entanto, houve quem se deixasse instrumentalizar, alguns deles meus amigos, defendendo que o problema era do Sousa e que a solução estava ali a dois passos.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Sol quando nasce não é para todos!

A Agência Lusa noticiou que no primeiro semestre de 2011, relativamente ao período homólogo de 2010, os lucros dos cinco maiores bancos portugueses atingiram 479,6 milhões de euros. Este valor representa uma quebra de 417,8 milhões de euros em relação ao primeiro semestre de 2010, quando os mesmos bancos lucraram 897,4 milhões de euros, o que significa uma redução de cerca de 46 por cento. O jornal Público chama o assunto à sua primeira página e atribui essa quebra nos lucros aos efeitos da crise.
A lista dos melhores resultados é encabeçada pelo BES, que apresentou um lucro de 156 milhões de euros (menos 44,7 por cento face ao primeiro semestre do ano anterior). Na lista seguem-se o BCP, que apresentou um lucro de 88,4 milhões de euros (menos 45,8 %), o BPI com lucros de 79,1 milhões (menos 20,4 %) e o Santander Totta, com resultados positivos de 72,6 milhões de euros (menos 70 %). A Caixa Geral de Depósitos apresentou um lucro de 83,5 milhões de euros no primeiro trimestre do ano, devendo apresentar brevemente os resultados semestrais.
Em seis meses e no meio de uma enorme crise, de que não se vê a luz ao fundo do túnel, a Banca teve um lucro de 480 milhões de euros, o que significa 80 milhões de euros por mês e mais de dois milhões de euros por dia, sem fabricar nada, sem produzir nada e sem acrescentar valor a nada, mas tão só a manipular números, a fazer lobbying sobre o Governo, a especular, a explorar os clientes e a não financiar a economia.
Tudo isto acontece, num quadro fiscal escandalosamente protegido, com financiamentos e riscos avalizados pelo Estado ou pelo BCE, enquanto quem trabalha paga mais impostos, perde subsídios de Natal ou paga mais pelos transportes, pela energia e pelos serviços de saúde.
Ninguém acaba com esta imoralidade. Os portugueses continuam inquietos e desorientados perante este cenário, que é de austeridade para uns e de enriquecimento para outros. Realmente, o Sol quando nasce não é para todos!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ainda o desastre BPN

Através de um comunicado do Ministério das Finanças, o Governo anunciou que escolheu o BIC - um banco de capitais luso-angolanos - para negociar, em condições de exclusividade, a aquisição do BPN por 40 milhões de euros. O mesmo comunicado indica que foi efectuada uma prévia operação de recapitalização do banco no valor de 550 milhões de euros, o que é mais uma catástrofe financeira para os cofres públicos. Prevê-se que o BIC ficará apenas com 70% dos actuais balcões do BPN, que a marca BPN desapareça e que metade dos seus funcionários sejam despedidos, embora o Estado assuma os custos relativos à cessação dos vínculos laborais dos trabalhadores, num prazo máximo de 120 dias após as transmissões das acções. O Estado e o BIC têm agora 180 dias para fechar o negócio BPN, através da celebração do respectivo contrato.
Existia o compromisso de vender o BPN até 31 de Julho e a alternativa a esta solução era demasiado dolorosa – a liquidação do banco e o despedimento de 1580 pessoas. Talvez fosse a menos má e a que menos custaria aos contribuintes. Assim, a solução encontrada parece ter sido preparada para proporcionar uma boa compra a alguém e, por isso, no meu espírito estão por muitas coisas por esclarecer, como por exemplo:
Que responsabilidades já estão apuradas quanto ao desastre que foi o caso BPN? Está seriamente estudado se a sua nacionalização foi necessária? Esta venda ao BIC foi uma boa solução para os contribuintes portugueses que, desde a nacionalização do BPN, já gastaram cerca de 2,4 mil milhões de euros? Como foi calculado o preço de 40 milhões de euros para a venda do BPN? Porque razão foi aceite a proposta do BIC e foram rejeitadas as propostas do Montepio e do Núcleo Estratégico de Investidores (NEI), sendo que esta superava os 100 milhões de euros?
Os contribuintes merecem estas e outras explicações, que o comunicado do Ministério das Finanças não contempla.
De facto, há muita coisa por explicar neste imbróglio que tem sido o BPN!
Finalmente, cabe perguntar que punição tiveram ou terão os responsáveis pelo desastre BPN, muitos dos quais andam por aí ou estarão ainda dentro do Banco (à espera de serem indemnizados ou de serem absorvidos pela CGD), sem que lhe sejam pedidas responsabilidades criminais.

sábado, 30 de julho de 2011

O teatro popular está vivo

A Barraca é um grupo de teatro fundado em 1976, cujo repertório assenta essencialmente em temas da história e da cultura portuguesas e que, desde a sua criação, já apresentou quase uma centena de peças. Desde 1989 que, através de um protocolo assinado com a CML, o grupo está instalado no espaço Cinearte, no Largo de Santos, em Lisboa.
A Barraca tem agora em cena “D. Maria, a Louca” , uma peça do autor brasileiro António Cunha, cujo tempo dramatúrgico se localiza nas 48 horas que antecederam o desembarque da Rainha Dona Maria I no Rio de Janeiro e dos seus receios, nomeadamente por ter sido ela quem assinou a sentença de morte de Tiradentes, o homem que lutou em armas pela independência de Minas Gerais.
A Rainha saíra de Lisboa com o Príncipe Regente, futuro D. João VI, em Novembro de 1807, algumas horas antes da entrada na cidade das tropas napoleónicas.
A peça revela o estado de demência da Rainha, os seus temores e o fanatismo da sua religiosidade, mas é sobretudo um pedido de desculpas ao Brasil, por ter sido ela quem assinou a pena de morte de Tiradentes.
A encenação e a interpretação são da responsabilidade de Maria do Céu Guerra.
A encenação é sóbria mas adequada ao acompanhamento da peça, enquanto a interpretação que se estende a solo por cerca de 100 minutos, é verdadeiramente notável.
Em tempos da "ditadura do audiovisual", o teatro popular mostra que está realmente vivo e esta tão recomendável peça, é a prova disso!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os nossos ricos estão cada vez mais ricos

Em Portugal, mesmo em tempos de crise, os ricos estão mais ricos e, como não tem havido crescimento económico e a população tem aumentado, significa que os pobres estão mais pobres, ou ainda, que a riqueza é desigualmente distribuída.
Esta conclusão resulta do estudo da Revista Exame, que revela a sua lista anual das 25 maiores fortunas portuguesas, com base na contabilização de activos, nomeadamente cotações bolsistas. Em conjunto, esses activos aumentaram 17,8 por cento e somam 17,4 mil milhões de euros, equivalentes a cerca de 10% do PIB português em 2010.
O português mais rico, desde há quatro anos, é Américo Amorim, o rei da cortiça, cujos activos atingem 2,6 mil milhões de euros, através das suas participações accionistas na Galp Energia, na Corticeira Amorim, na Amorim Investimentos e Participações e em vários bancos.
O segundo mais rico, que saltou da quarta para a segunda posição, é Alexandre Soares dos Santos, que tem um património avaliado em 1,9 mil milhões de euros, explicado pelo crescimento da Galp e do grupo Jerónimo Martins/Pingo Doce.
O pódio dos portugueses mais ricos é completado com Belmiro de Azevedo, o patrão da Sonae, cuja fortuna é avaliada em 1,3 mil milhões de euros.
Estes homens são ricos e são muito poderosos e, porque têm poder, têm mais responsabilidades para com o país e para com os seus cidadãos. Por isso “não deverão perguntar o que pode o país fazer por eles, mas o que poderão eles fazer pelo país". Espera-se, por isso, que promovam o investimento, que estimulem a produção nacional, que criem emprego e que contribuam para o reforço da coesão social. Se assim fizerem, valerá a pena ser rico.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A CGD virou um grande aquário

A CGD tem um novo desígnio que concorre directamente com o Oceanário de Lisboa e com o Aquário Vasco da Gama – virou aquário!
A história é simples. Durante a campanha eleitoral houve a intenção de privatizar a CGD, mas essa ideia rapidamente caiu. Veio o Memorando da troika que no seu ponto 2.5 recomenda a racionalização do grupo CGD, a melhoria da sua governação e a privatização do negócio segurador, mas que não exige a privatização da actividade bancária central.
O novo governo tomou posse e não perdeu tempo, certamente para dar resposta à impaciência dos tubarões. Não havia razões objectivas para qualquer mudança na CGD, mas foi adoptado um novo modelo de governação que passa de 7 para 11 administradores, com um chairman e um presidente executivo, o que não faz sentido porque existe um único accionista que é o Estado, além de que este modelo já foi experimentado na CGD e falhou.
E com sofreguidão, começaram as nomeações da gente do costume, na base do seu cartão partidário.
Primeiro, foi o antigo presidente do Conselho Superior da SLN, a sociedade dona do BPN, para a Assembleia Geral do banco, o que é realmente curioso e demasiado triste.
A seguir, foi o arrogante homem de mão do grupo Mello, para vice-presidente da Comissão Executiva do banco, provavelmente para estar atento às privatizações.
Depois, foi o irmão do comentador do regime e antigo presidente do PSD.
É o descrédito para quem os escolheu, é uma mancha negra para a CGD e até para eles, que talvez nem precisassem do enxovalho que é esta escolha. E há os outros que se hão-de seguir.
Com tubarões como estes, que ao longo da vida acumularam muitos cargos, mordomias e fortuna, o maior banco português está a transformar-se num grande aquário.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Retratos em Barro

Retratos em Barro é uma exposição patente no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, que nos mostra uma parte da obra de Rafael Bordalo Pinheiro – o autor do famoso Zé Povinho e do seu gesto simbólico – como escultor em barro.
Trata-se de uma pequena exposição que pretende abordar essa vertente pouco conhecida e estudada da obra do artista, que habitualmente é mais identificado com a cerâmica decorativa e utilitária ou, noutra perspectiva, com o desenho e a crítica mordaz dos costumes da sociedade portuguesa de finais do século XIX.
Na via da escultura em barro, Bordalo Pinheiro modelou diversos bustos de personalidades como Eça de Queirós e o famoso médico Sousa Martins, mas também de alguns amigos e de diversas personagens anónimas de tipo popular, por vezes fruto de encomendas, outras de iniciativa pessoal.
A apresentação desta exposição recorreu à colecção do próprio museu, de onde foi seleccionado um grupo significativo de peças que desde 1985 não era mostrado em conjunto e apresenta várias versões do mesmo modelo de busto, estudos em barro, cartas manuscritas, fotografias e páginas litografadas das suas publicações, que testemunham o empenho do artista neste tipo de escultura, a partir de 1888.
A pequena exposição pode ser visitada de terça a domingo na Galeria de Exposições Temporárias do Museu Bordalo Pinheiro, no Campo Grande, 382, em Lisboa, mas é sobretudo uma boa oportunidade para visitar o Museu Bordalo Pinheiro.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Um herói brasileiro que nasceu no Chiado

Lisboa – Rua Garrett, nº 19
O grandioso incêndio acontecido em 25 de Agosto de 1988 no Chiado, devorou o edifício situado no princípio da rua Garrett, mas no seu 1º andar salvaram-se duas placas de bronze que, após o restauro do edifício, se conservam nos mesmos locais.
A primeira placa tem a seguinte inscrição:
NESTA CASA NO DIA 29-9-1804 NASCEU O ALMIRANTE FRANCISCO MANUEL BARROSO DA SILVA BARÃO DO AMAZONAS E HERÓI DA MARINHA DO BRASIL
A segunda placa foi colocada em 1965 e exibe a seguinte dedicatória:
AO ALMIRANTE BARROSO, GRATIDÃO DA MARINHA DO BRASIL
NO 1º CENTENÁRIO DA BATALHA DE RIACHUELO
O Almirante Barroso nasceu em Lisboa e foi para o Brasil em 1808 na comitiva da Família Real. Em 1821 ingressou na Academia de Marinha do Rio de Janeiro e em 1824, por força da nova Constituição brasileira, perdeu a nacionalidade portuguesa.
Serviu a Marinha do Brasil e em 1865 comandava a divisão naval que venceu as forças paraguaias na Batalha Naval de Riachuelo, durante a Guerra do Paraguai. Esta guerra é habitualmente considerada como o maior conflito armado ocorrido na América do Sul, tendo sido travada entre o Paraguai, que aspirava ter acesso ao mar, e a Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, Argentina e Uruguai.
O Almirante Barroso é um dos maiores símbolos da Marinha brasileira e um dos heróis nacionais do Brasil.

A herança portuguesa em Goa

O jornal Público iniciou ontem, dia 25 de Julho, a publicação de uma série de reportagens sobre a herança portuguesa em Goa, da autoria da jornalista Francisca Gorjão Henriques e do fotógrafo Miguel Manso.
O assunto é de grande interesse porque no contexto da herança cultural portuguesa no Oriente, nem Macau nem Timor, conseguem conservar uma marca tão forte, expressa através do património construído e da presença da língua portuguesa, como os antigos territórios do Estado Português da Índia, especialmente Goa e Damão.
No entanto, essa marca tende a esbater-se com o tempo, com a crescente globalização, com a indianização da sociedade goesa e com a ausência de uma política cultural de preservação da língua portuguesa, que seja mais objectiva e menos simbólica.
Estas reportagens do Público certamente que nos mostrarão a realidade socio-económica goesa e nos ajudarão a melhor compreender a sua vertente cultural e a forma como tem evoluído, mas também poderão abrir-nos algumas perspectivas no que respeita ao reforço dos laços culturais e, até económicos, entre Goa e Portugal.
A história comum de mais de quatro séculos justifica que as autoridades de ambas as partes se entendam em matérias de interesse mútuo e que reforcem a sua cooperação, até porque a marca portuguesa faz parte da identidade goesa, como sempre foi reconhecido.

domingo, 24 de julho de 2011

Um grande espectáculo televisivo

Terminou hoje a Volta à França de 2011. O grande espectáculo desportivo que se disputa desde 1903 e que, como nenhum outro, entusiasma os franceses até ao delírio, chegou-nos diariamente através de dois canais televisivos e de bons comentários.
Durante algumas dezenas de horas repartidas por 21 etapas, pudemos acompanhar os 3430 quilómetros da prova, etapa a etapa e quase metro a metro, graças a uma reportagem de excelência que só os modernos meios de reportagem possibilitam.
O Tour de France é um grande espectáculo desportivo de cor e movimento mas, nos últimos anos, transformou-se também num espectáculo televisivo, ao mostrar-nos as imagens aéreas dos mais belos cenários franceses, onde se incluem as altas montanhas alpinas e pirenaicas, as planícies e vales, as florestas, lagos e rios, mas também as cidades e as pequenas povoações alinhadas ao longo das estradas com os seus castelos, igrejas, palácios e pontes.
O Tour de France é, de facto, um grande espectáculo televisivo, mas no aspecto desportivo a corrida deste ano também foi muito disputada e teve um resultado incerto até ao fim.
Ganhou o australiano Cadel Evans, seguido pelos irmãos Schleck, do Luxemburgo.
Andy Schleck fez o 2º lugar pela terceira vez e o campeoníssimo Alberto Contador ficou-se pelo 5º lugar. O português Rui Costa ganhou a 8ª etapa mas terminou a prova em 90º lugar, enquanto o medalhado olímpico Sérgio Paulinho terminou em 81º lugar.
Porém, o que me fica na memória foi a excelência do espectáculo televisivo!

Até na máquina fiscal há corrupção

Na sua edição de hoje, o Correio da Manhã trata de uma importante faceta da corrupção – a corrupção na máquina fiscal.
Há cerca de um mês, um ex-autarca do Porto denunciou na televisão e nos jornais, que o Parlamento tem sido o "centro de corrupção" em Portugal, mais parecendo "um verdadeiro escritório de representações, com membros da comissão de obras públicas que trabalham para construtores e da comissão de saúde que trabalham para laboratórios médicos”.
Perspectiva diversa tem um estudo promovido em 2010 pela Procuradoria-Geral da República, que conclui que quase 90% da corrupção em Portugal envolve os órgãos de poder local, sobretudo as câmaras e as empresas municipais.
Estas apreciações têm por base a corrupção como conceito jurídico.
Porém, a corrupção também é um conceito social e é com ele que nos confrontamos diariamente em Portugal. Assume inúmeras formas e vai desde a pequena cunha, do jeitinho e do tráfico de influências, até ao suborno, ao grande negócio e ao enriquecimento ilícito.
O Correio da Manhã revela-nos que até na máquina fiscal há corrupção, que vale milhões, na linha do que há dias afirmara a directora do DCIAP, ao dizer que a fraude fiscal em Portugal é assustadora. As práticas corruptas que o jornal denuncia resultam do facto de haver trabalhadores dos impostos que colaboram com escritórios de contabilidade, com escritórios de advogados e com empresas, sem respeito pelo seu código de conduta e sem que nada lhes aconteça.
Há que combater exemplarmente essas práticas que não podem ficar impunes. A corrupção em Portugal não é apenas um problema jurídico porque é, também, um problema de cultura cívica, que urge combater, tal como se fez com o analfabetismo ou com o tabagismo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A máscara caiu demasiado depressa!

Nos últimos meses e especialmente durante a campanha eleitoral das últimas semanas de Maio, algumas individualidades desdobraram-se em críticas, por vezes muito severas, relativamente ao Estado e à gestão pública. Fizeram-se todas as acusações ao Governo e ao Primeiro-Ministro que, por vezes, chegaram ao limiar do insulto e da calúnia.
O autoritário sargento Catroga prometia solenemente que “o Estado gordo paralelo que o PS criou com clientelas” ia acabar e que, nesse aspecto, “iam muito mais longe do que a troika”. Ganhou as eleições.
Passou um mês e meio desde as eleições e um mês apenas desde a tomada de posse do governo.
Pela primeira vez abordo aqui este tipo de questões, pois nem na campanha eleitoral, nem neste primeiro mês de governação entrei por esse polémico caminho da análise da luta pelo poder e das guerrilhas partidárias.
Mas hoje não resisto a comentar, porque a máscara caiu demasiado depressa!
O número de gestores da CGD vai aumentar, anuncia o jornal i. Um dos eleitos ostenta o título de doutor conferido pela 72ª universidade do mundo e tanto alinha com o PS de Guterres, como com o PSD de Pedro Passos Coelho. Alterna. O seu currículo mostra que tem saltado de tacho em tacho e que os acumula. Questão de competência, certamente. Agora consegue levar o seu Grupo Mello para a CGD. Talvez seja por causa da alienação nas áreas dos seguros, da saúde e das participações financeiras na PT, EDP, ZON e outras. O que pode levar um homem destes a deixar o Grupo Mello para se encostar à CGD? Estejamos atentos.

A Europa respira de alívio

A cimeira extraordinária do Eurogrupo aprovou ontem um conjunto de medidas para travar a crise que ameaçava cada vez mais o euro e a própria União Europeia.
A imprensa europeia aplaude. Todos respiram de alívio porque, aparentemente, a Grécia foi salva da bancarrota, a Irlanda e Portugal aumentaram as hipóteses de sucesso dos seus programas de ajuda, a Espanha e a Itália viram os seus riscos de contágio atenuados e, finalmente, a coesão europeia e o euro saíram reforçados, pelo menos por alguns meses. A compreensão da situação pelo duo franco-alemão e a sua desistência de atitudes egoístas foram decisivas para ultrapassar a delicada situação.
A cimeira aprovou um novo pacote de ajuda para a Grécia com 109 mil milhões de euros, acordou a baixa dos juros a pagar pelos resgates financeiros da Grécia, Irlanda e Portugal e decidiu aumentar a maturidade desses empréstimos para 15 anos. Os líderes europeus terão percebido que a solução da crise das dívidas soberanas europeias passava pelo reforço e flexibilização do papel do Fundo Europeu de Estabilização Financeira, tendo decidido nesse sentido e deixado no ar a ideia de um Fundo Monetário Europeu.
Mas o sucesso ou o insucesso desta cimeira vai ser determinado pela reacção interna nos Estados-membros, pelos resultados das políticas nacionais de ajustamento e, de uma forma mais imediata, pela reacção dos mercados nos próximos dias. Os primeiros sinais são muito positivos: os juros das dívidas públicas começaram a descer em todos os prazos, incluindo a tendência de agravamento dos juros da Espanha e Grécia – que era um problema quase tão preocupante como a dívida grega.
A confiança foi restabelecida, as cotações da Bolsa subiram e os Bancos estão agora menos expostos. Porém, a solução dos nossos problemas continua a passar pela redução do défice e pelo crescimento da economia, que cria emprego, que reforça a coesão social e permite pagar as dívidas.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Promiscuidades

Na sua edição de hoje, o Jornal de Notícias publica um estudo em que conclui que um terço dos nossos deputados se envolveu em negócios com o Estado.
De acordo com o jornal, só nesta legislatura haverá 45 deputados que são advogados e 23 deputados que são juristas, calculando-se que um quinto dos 230 membros da Assembleia da República seja sócio ou colabore com os grandes escritórios de advogados.
Muitos destes escritórios e muitos destes advogados prestam serviços de consultadoria e assessoria ao Estado, às regiões autónomas, às autarquias e a outras pessoas colectivas públicas mas, também, quando para tal são contratados, os seus serviços são prestados a privados contra o Estado e o interesse público.
Lamentavelmente, o cargo de deputado é, para alguns, um "emprego" seguro e bem remunerado que promove influências, proporciona negócios e gera fortuna e, quando cessam essas funções, ainda têm direito a um subsídio de reintegração.
O Bastonário da Ordem dos Advogados já reagiu contra esta situação de acumulação de funções porque “dá azo às piores suspeitas sobre a casa da democracia” e abre a porta a “promiscuidades” e à “degradação da democracia”, insurgindo-se ainda contra o “escândalo” de haver deputados que, enquanto advogados, patrocinam empresas privadas contra o Estado.
Assim sendo, esta forma de clientelismo e de promiscuidade entre interesses públicos e privados tem que ser denunciada e condenada, pois constitui um exemplo do pior que tem a nossa comunidade política e da sua ganância de se servir em vez de servir.
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