terça-feira, 15 de agosto de 2023

As “mulheres invisíveis” do Afeganistão

O jornal austríaco Kleine Zeitung, que se publica na cidade de Graz, evocou na sua edição de hoje o segundo aniversário da retirada americana de Cabul e da tomada do poder pelos talibã, com uma reportagem sobre as “mulheres invisíveis” do Afeganistão e as condições de opressão a que são sujeitas pelo regime que governa o país. 
A fotografia da capa desta edição mostra várias mulheres afegãs, naturalmente vestindo a burka, uma vestimenta azul que cobre todo o corpo, incluindo o rosto, com uma pequena rede a cobrir os olhos para que a portadora possa usar a visão.
Essa situação conduz-nos a Outubro de 2001, quando à revelia das Nações Unidas, os Estados Unidos sob a liderança de George W. Bush e com o apoio do Reino Unido invadiram o Afeganistão com o objectivo de derrubar o governo dos talibã, capturar Osama bin Laden como responsável pelos atentados de 11 de Setembro de 1999 e desmantelar a Al-Qaeda. As forças americanas rapidamente tomaram Cabul, a capital do país, mas a resistência talibã continuou a sua guerra contra os ocupantes. Por isso, a partir de Agosto de 2003, também a NATO se envolveu militarmente no conflito, sem que se soubesse porquê.
O custo da guerra levou os americanos a equacionar a sua retirada desde 2011, mas só em 2020, após quase vinte anos do conflito, os Estados Unidos negociaram com os talibã um acordo de paz que previa a retirada americana do Afeganistão a partir de 2021. Os talibã iniciaram então uma ofensiva militar em larga escala, ocuparam grande parte do território e cercaram Cabul, tendo Hamid Karzai, o presidente da República Islâmica do Afeganistão, abandonado o país. No dia 15 de Agosto de 2021, os combatentes talibã tomaram a capital, enquanto as tropas americanas quase ficaram bloqueadas no aeroporto de Cabul, a lembrar a retirada de Saigão em 1975. Os talibã regressaram ao poder, declararam o Emirado Islâmico do Afeganistão e impuseram a lei islâmica – a sharia – que é interpretada pelos líderes religiosos e é implacável, sobretudo para as mulheres.
Porém, entre tanta gente que esteve envolvida na guerra do Afeganistão, alguém se lembra disto?

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

FIFA Women’s World Cup está a terminar

A 9ª edição do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino (FIFA Women’s World Cup) está a realizar-se na Austrália e na Nova Zelândia, tendo a sua final no próximo domingo. Pela primeira vez na sua história, a equipa portuguesa foi apurada e esteve na Nova Zelândia, integrando o Grupo E, no qual defrontou as equipas dos Países Baixos, dos Estados Unidos e do Vietnam. Ganhou ao Vietnam por 2-0, empatou por 0-0 com os Estados Unidos e perdeu por 1-0 com os Países Baixos. O seu comportamento foi positivo e surpreendeu-me, mas foi eliminada e ficou em 19º lugar entre 32 países. Foi bem bom! Das 32 selecções participantes, houve dezasseis que passaram aos oitavos-de-final e que depois jogaram os quartos-de-final. Nesta altura estão apuradas as equipas que vão disputar as meias-finais e lutar por um lugar na final: Austrália, Inglaterra, Suécia e Espanha.
A televisão portuguesa encheu-nos os olhos e os ouvidos com informações num estilo de euforia desproporcionada, mas logo que a equipa regressou nada mais noticiaram.
Sobre o FIFA Women’s World Cup, apenas aqui deixo algumas curiosidades. A equipa portuguesa, apesar de ser estreante nesta prova, esteve ao nível do Brasil, da Itália e da Alemanha. A equipa americana que triunfou em quatro dos oito campeonatos já disputados e que ainda é a campeã do mundo, foi eliminada. Finalmente, o jogo dos quartos-de-final entre a Austrália e França, terminou com um empate e houve necessidade de recorrer à marcação de pontapés de grande penalidade. Foram marcados vinte e as australianas foram mais felizes pois concretizaram sete, enquanto as francesas só marcaram seis. O jornal The Sunday Times de Perth, classificou esse jogo como épico, mas toda a imprensa australiana dedicou as suas primeiras páginas a este formidável jogo.

sábado, 12 de agosto de 2023

As eleições americanas e o apoio à Ucrânia

A guerra na Ucrânia dura há cerca de 18 meses e muita gente continua sem perceber como ainda não foi possível calar as armas e parar tanta morte, tanta destruição e tanta desgraça. Embora saibamos pouco sobre o que realmente se passa no terreno, vamos vendo como algumas personalidades que estiveram tão activas se calaram nos últimos tempos, como é o caso de Jens Stoltenberg, Ursula von der Leyen ou Josep Borrell. Da mesma forma, também os Macron, os Sunak e os Schulz têm estado calados, certamente porque a factura a pagar está a ser demasiado cara e os seus eleitores já não estão a gostar nada disso.
Nesse quadro, a última edição da revista Newsweek lançou o tema do envolvimento americano na guerra na Ucrânia e veio revelar que já se tornou o assunto central da campanha para as eleições presidenciais americanas de 2024. O actual presidente Joe Biden afirmou repetidamente que apoiará a Ucrânia “pelo tempo que for necessário”, enquanto o ex-presidente Donald Trump, seu provável adversário na corrida presidencial, tem afirmado que, logo que regresse à Casa Branca, acabará com a guerra “em 24 horas”. A divisão quanto ao envolvimento americano na Ucrânia e quanto ao papel dos Estados Unidos na liderança do mundo mostram diferentes posições de Biden e Trump, mas também dos campos republicano e democrata. Para uns “Biden não se pode dar ao luxo de deixar que os ucranianos percam esta guerra ou que a autocracia vença a democracia”, mas para outros o custo desta guerra está a ser insuportável e lembram os custos das guerras no Iraque e no Afeganistão.
A reportagem da Newsweek mostra a encruzilhada que divide os Estados Unidos, explora as diferentes posições americanas sobre a guerra e antevê o papel dos Estados Unidos no mundo nos próximos anos e, em última análise, também mostra como as eleições americanas podem determinar quem vencerá a guerra na Ucrânia.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Calor extremo na Comunidade Valenciana

O jornal Las Provincias que se publica na cidade de Valencia destaca na sua edição de hoje que, no aeroporto da cidade, foi registada ontem a temperatura de 46,8 graus. Foi a temperatura mais elevada que foi observada em todo o território espanhol e foi, também, o maior registo verificado desde 1869, o ano em que se anotaram os primeiros registos regulares. 
A cidade também pulverizou o recorde histórico de temperaturas com 44.7 graus e a população suportou temperaturas para que não estava preparada, mas o fenómeno também afectou outras cidades da Comunidade Valenciana, que registaram temperaturas superiores a 40 graus. A Generalitat de Valencia e muitas autarquias valencianas decidiram suspender muitos serviços públicos e actividades desportivas, excluindo as piscinas.
Os técnicos da Agência Estatal de Meteorologia (AEMet) explicaram que esta situação em que a temperatura esteve vários graus acima das temperaturas médias para esta época do ano, está a acontecer em todo o planeta e está relacionado com o aquecimento global. Significa que, como se tem visto, os efeitos das alterações climáticas estão a antecipar todas as previsões que têm sido feitas nos últimos anos.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Climate: who will stop Earth burning?

É muito raro que um meio de comunicação social seja tão objectivo e tão acusador, quanto ao que se faz ou não faz, no combate às alterações climáticas, como hoje fez a edição do Evening Standard, o famoso jornal tablóide que se publica em Londres e que é distribuído gratuitamente.
O jornal entrevistou o professor Jim Skea do Imperial College London, que preside ao Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), o programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Nessa entrevista, o entrevistado disse que os líderes políticos têm uma "responsabilidade particular" na liderança da batalha contra o aquecimento global, alertando que os seus efeitos podem estar a acontecer mais depressa do que se esperava. Sem quaisquer hesitações, o professor Jim Skea “acusou” o presidente dos Estados Unidos Joe Biden, o presidente chinês Xi Jinping, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o primeiro-ministro britânico Rishi Sunak, por não estarem a fazer tudo o que deviam para salvar o planeta, pois governam com demasiadas hesitações entre as pressões ecológicas e os respectivos ciclos eleitorais. Como salientou o professor Skea, o combate às alterações climáticas requer uma acção extensiva a "toda a sociedade", incluindo os governos, as empresas, os grupos comunitários e os cidadãos, "mas os líderes políticos têm uma responsabilidade particular, porque dão o tom de tudo", acrescentando que "eles são o tipo de mestres de ringue ou donas de anel que tentam coordenar as diferentes acções".
O jornal Evening Standard inspirou-se na entrevista de Jim Skea e chamou as alterações climáticas para a sua primeira página e pergunta “who will stop Earth burning”, respondendo com as fotografias de quatro líderes mundiais.
Aqui está como a capa de um jornal pode ensinar-nos muita coisa…

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Uma forte vaga de calor chegou a Portugal

Uma intensa vaga de calor está a afectar o território continental português, havendo notícias de grandes incêndios nas regiões de Castelo Branco, Ourém, Odemira, Mangualde e Proença-a-Nova, entre outras. Depois dos incêndios que devastaram extensas áreas do Canadá, da Califórnia e dos países da orla mediterrânica europeia, sobretudo a Grécia e o sul da Itália, parece ter chegado a vez de Portugal enfrentar esta situação que, entre outras coisas, mostra como se agravam os efeitos das alterações climáticas. Há muitas centenas de bombeiros e muitos meios aéreos envolvidos no combate aos incêndios, que resultam sempre em em enormes perdas para as comunidades e para o património natural.
O jornal el Periódico de Extremadura que se publica em Cáceres, destaca na sua edição de hoje o “fuego en la frontera portuguesa”, com uma fotografia que mostra a violência dos incêndios florestais, mas que também evidencia as preocupações do outro lado da fronteira.
Entretanto, anunciam-se temperaturas acima dos 40 graus e há seis distritos sob aviso vermelho, o mais grave de todos, pelo que são muito grandes as preocupações das autoridades portuguesas, havendo a hipótese de recorrerem à cooperação internacional. Assim, o Mecanismo Europeu de Protecção Civil já terá sido accionado e alguns meios aéreos já estarão posicionados em Portugal para cooperarem com os serviços nacionais de protecção civil.
Um verdadeiro sufoco!

domingo, 6 de agosto de 2023

O Papa Francisco voltou a apelar à paz

O Papa Francisco termina hoje a sua visita a Portugal, que está a constituir um extraordinário acontecimento não só para os católicos que estiveram em Lisboa, mas também para todos os portugueses que acompanharam a visita através dos meios da comunicação social. A popularidade do Papa, a alegria, o gesto e a sua palavra marcaram a visita papal, com a qual todos os portugueses se podem justamente orgulhar. A capacidade de organização foi notável e só foi possível num país que, apesar de muitas limitações, dificuldades e contradições, quando se decide a pensar e a planear, também mostra uma evidente maturidade, uma grande ambição e um insuperável poder de concretização. A visita do Papa Francisco ficará como uma marca importante da capacidade portuguesa para realizar grandes projectos de escala planetária, quando se juntam energias e vontades. Era difícil imaginar um acontecimento desta dimensão tão participado e com a presença ordenada e festiva de um milhão e meio de pessoas na missa celebrada hoje no Parque Tejo, muitos dos quais provenientes do estrangeiro.
Porém, a visita do Papa Francisco também trouxe um renovado apelo à paz na Ucrânia, uma palavra para que todos voltem à Igreja e um estímulo para que surja uma nova atitude da comunidade perante a Igreja Católica, ou um quase renascimento religioso, em que as velhas convicções e posturas dogmáticas, por vezes de inspiração medieval, estão a dar lugar a uma Nova Igreja de Roma, feita de alegria e de juventude, de festa e de diversão, de partilha e de sentido de comunidade, de procura do bem comum e de amor à paz.
Expresso a minha gratidão por esta missão do Papa Francisco e o meu aplauso às Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) e a todos os que, quase sempre anonimamente, contribuíram para construir esta página importante da história contemporânea portuguesa.

sábado, 5 de agosto de 2023

O Papa Francisco põe Lisboa em Festa!

O Papa Francisco está em Portugal a propósito das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) e, como mostram as televisões portuguesas, o país está em festa e mobilizou-se para receber o Sumo Pontífice nesta sua viagem apostólica. Aparentemente, tudo está a correr de forma exemplar e a merecer elogios, mostrando como a organização foi eficiente e competente no planeamento e na preparação de todos os actos da visita papal, que decorre entre os dias 2 e 6 de Agosto.
A presença do Papa Francisco em Portugal já é um grande acontecimento social, político e cultural. É uma lição para muita gente e que cada um veja "as carapuças que pode enfiar". O Patriarcado de Lisboa, o Governo da República e a Câmara Municipal de Lisboa estão de parabéns pois a visita papal está a ser um êxito e um momento de quase unanimidade nacional, como noutras ocasiões foram o entusiasmo popular com o 25 de Abril ou o apoio a Timor Leste.
Jovens de quase todos os países do mundo “invadiram” Lisboa que, nestes dias é, de facto, a capital do mundo e a capital da esperança num mundo melhor, com mais concórdia, mais diálogo e mais paz, enquanto o Papa insistiu que a Igreja é inclusiva e que é de todos. Segundo o jornal Diário de Notícias, o Papa criticou os políticos, a Europa e até a própria Igreja.
Neste grande acontecimento que nos inspira e nos estimula a pensar num mundo melhor, tem-se destacado o Presidente da República - que não é parte relevante neste acontecimento - mas que aparece e fala demasiadas vezes, a maior parte delas a despropósito, como se fosse mais que um peregrino na JMJ e fosse o comentador oficial daquilo que o Papa diz. Pois que haja quem avise o Supremo Magistrado da Nação de que não é este o seu papel na JMJ. Que se poupe e que nos poupe.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Trump foi acusado, a Democracia vencerá

Os acontecimentos de 6 de Janeiro de 2021 em Washington, foram tão importantes para os Estados Unidos e para o mundo, como o 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, o 30 de Abril de 1975 em Saigão ou o 6 de Agosto de 1945 em Hiroshima. Embora por razões diversas e nem todas da mesma importância, o que aconteceu nestas datas ficou gravado na história contemporânea dos Estados Unidos.
Relativamente ao dia 6 de Janeiro de 2021, o que aconteceu foi uma tentativa de alterar as normas da vida democrática americana após a derrota do presidente Donald Trump nas eleições presidenciais de 2020. Ao não ser reeleito, o presidente estimulou ou dirigiu uma multidão de apoiantes que assaltou o edifício do Capitólio em Washington, para impedir que o presidente eleito Joe Biden fosse declarado vencedor. Semelhante situação aconteceu no Brasil quando no dia 8 de Janeiro de 2023, o presidente Jair Bolsonaro apoiou actos de insurreição e vandalismo de grupos de manifestantes que invadiram os Palácios do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, para promover um golpe de estado contra o governo eleito de Lula da Silva.
Hoje o jornal USA Today informa que Donald Trump foi formalmente acusado de tentativa de corromper os resultados eleitorais das presidenciais de 2020 e, segundo a Justiça federal, é suspeito de “conspirar para defraudar os Estados Unidos”, “pressionar testemunhas”, “conspirar contra os direitos dos americanos” e “obstruir um acto oficial”. O procurador especial foi claro: o que aconteceu no Capitólio no dia 6 de Janeiro de 2021 não foi um acto espontâneo ou um evento isolado, mas antes “uma batalha de uma guerra mais ampla sobre a verdade e sobre o futuro da democracia americana”. 
A Justiça americana funciona e isso é bom para os Estados Unidos e para o mundo. Porém, Donald Trump é o favorito para a nomeação dos Republicanos para as eleições presidenciais de 2024 pois tem cerca de 54% das intenções de voto...

Escândalo e vergonha nos juros da banca

No passado sábado escrevemos aqui que os lucros da banca são uma obscenidade e, de facto, três dias depois, o jornal Público escreve na primeira página com grande destaque que “com subida das Euribor, 75% da prestação da casa são juros pagos ao banco”.
No artigo que serve de base a este título, a jornalista Rosa Soares escreveu que o “capital amortizado ‘encolhe’ de forma significativa com a subida das Euribor” e que, para muitas famílias se trata de “mais um aumento considerável na prestação da casa”. Tem toda a razão. O aumento das prestações é duplamente penalizador para as famílias, pois o valor pago em juros representa mais de três quartos da prestação, com apenas um quarto a corresponder ao pagamento do capital emprestado. Para explicar esta vergonha da exploração bancária, a jornalista apresenta uma simulação de empréstimo de 150 mil euros a 30 anos, associado à Euribor, a que corresponde actualmente uma prestação mensal de 818,95 euros.
Pergunta-se: quem tem salários em Portugal que possam pagar esta prestação? Se atentarmos que deste valor apenas 175,32 euros (21,3%) são para amortização do capital emprestado, concluímos que 643,64 euros (78,7%) correspondem a juros extorquidos pela gananciosa banca, que se serve da irresponsabilidade e da cegueira do Banco Central Europeu para apresentar os lucros obscenos a que antes nos referimos. Há um ano, a prestação mensal do empréstimo era de 553 euros, dos quais 304 euros (55%) representavam a amortização de capital e os restantes 249 euros (45%) ao pagamento de juros. Comparem-se os números: num ano, a prestação subiu 265,95 euros, mas o lucro extorquido pela banca subiu 294,64 euros. 
Se isto não é um escândalo, então a Terra não é redonda!

sábado, 29 de julho de 2023

Os lucros da banca são uma obscenidade

A imprensa portuguesa dá hoje grande destaque à banca e aos seus resultados do 1º semestre de 2023, com o Diário de Notícias a anunciar que os cinco maiores bancos a operar em Portugal - CGD, Millennium BCP, Novo Banco, Santander e BPI – tiveram um resultado líquido consolidado de 1,9 mil milhões de euros nos primeiros seis meses do ano, o que significa que desde Janeiro e até Junho, lucraram cerca de 11 milhões de euros por dia, o que, comparando com o igual período de 2022, reflecte uma melhoria de quase 60%. A banca costuma exibir-se com indicadores incompreensíveis para as pessoas comuns. Sempre foi assim, como nos lembramos dos tempos negros de Ricardo Salgado, Oliveira e Costa, Jardim Gonçalves ou João Rendeiro, parecendo agora que os tempos da euforia regressaram, como se vê por esta obscena apresentação de um lucro de cerca de 11 milhões de euros por dia.
Estes números nem sequer demonstram capacidade de gestão ou um papel relevante no apoio à economia produtiva, mas apenas uma enorme falta de escrúpulos da banca, pois resultam do agravamento das prestações pagas aos bancos pelos seus clientes, sobretudo através da armadilha do crédito à habitação, conjugada com a ridícula remuneração que a banca paga às poupanças dos depositantes. Daí que os seus lucros obscenos resultem, essencialmente, da diferença obtida entre os juros cobrados nos empréstimos e os juros pagos nos depósitos, mas também da habilidade recente de cobrar mensalmente uma verba pela manutenção das contas dos depositantes, que tem todas as características de um serviço não prestado e não ser mais do que um assalto ao bolso dos depositantes. Recordo aqui o Poemarma de Manuel Alegre, escrito em 1964:

    Que o poema assalte esta desordem ordenada
    que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!

Há dias, o Presidente da República pediu à banca “um esforçozinho” para pagar melhor os depósitos, mas a correcção desta imoral situação não se faz dessa maneira.

sexta-feira, 28 de julho de 2023

ONU: era of global boiling has arrived

António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, discursou ontem em Nova Iorque na sede da organização e, baseando-se nos dados mais recentes divulgados pela União Europeia e pela Organização Meteorológica Mundial, segundo os quais o corrente mês de Julho se observam as mais elevadas temperaturas de que há registo, afirmou que a “era of global boiling has arrived”.
O discurso de Guterres teve pouco destaque na imprensa internacional, talvez porque ela esteja muito comprometida com os poderes poluidores. Uma das excepções foi o jornal canadiano Toronto Star que destacou essa frase na sua edição de hoje, embora António Guterres tenha dito que “a era do aquecimento global acabou; a era da ebulição global chegou”.
Disse ainda Guterres que “para vastas partes da América do Norte, Ásia, África e Europa, o Verão está a ser cruel”, acrescentando que, “para todo o planeta, é um desastre”. As vagas de calor que estão a afectar diversos países por todo o mundo são causadas pelas alterações climáticas e, embora o fenómeno tenha sido previsto desde há muito tempo, “o ritmo da mudança é devastador”. As altas temperaturas e o calor escaldante estão a tornar-se o novo normal, provocando inundações, secas, tempestades e incêndios florestais. As evidências desta desordem climática são observáveis em toda a parte e a opinião é unânime, ao responsabilizar o homem e a sua ganância por esta destruição, mas segundo salientou Guterres, “isso não pode gerar o desespero, mas antes deve inspirar acção”.
Foi mais um duro aviso das Nações Unidas, pela voz respeitada de António Guterres.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

O Redondo e o regresso das Ruas Floridas

As ruas e o povo da vila alentejana do Redondo vão festejar mais uma vez as Ruas Floridas, isto é, a ornamentação de 24 ruas da vila com flores, figuras e outros motivos em papel colorido, que constituem um belíssimo espectáculo da cultura popular alentejana. Milhares de visitantes correrão para o Redondo desde o dia 29 de Julho (sábado) até ao dia 6 de Agosto (domingo) para assistir a uma festa, repartida por oito dias, que é considerada uma das mais importantes manifestações culturais do Alentejo. Em paralelo com o deslumbramento das ruas floridas, está sempre a qualidade e a autenticidade da gastronomia alentejana, que é apresentada por mais de duas dezenas de restaurantes.
As ruas são ornamentadas e os temas apresentados por cada rua são escolhidos pelos seus moradores, que são verdadeiros artistas populares e que, na maioria dos casos, participam num trabalho voluntário de criatividade e imaginação desde o início do ano, na produção das flores e dos outros elementos decorativos que abrangem os mais variados temas, mas que são mantidos em segredo até ao dia da apresentação do programa da festa. Muitas centenas de moradores participam na preparação desta grande festa popular em que são utilizadas algumas toneladas de papel, de cartão e de madeira para que as Ruas Floridas sejam uma verdadeira atracção.
Os registos escritos mais antigos indicam que a ornamentação das ruas do Redondo remontam a 1838, mas a sua periodicidade bienal só acontece desde 1998. Porém, devido à pandemia do covid-19, as festas de 2021 não se realizaram, regressando agora com redobrado entusiasmo.
A entrada é livre e, permitimo-nos deixar aqui uma recomendação: se nunca viu as Ruas Floridas, não perca esta oportunidade.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Um trágico inferno na Grécia e na Itália

A orla europeia do mar Mediterrâneo tem estado debaixo de uma intensa vaga de calor, sobretudo na Grácia e na Itália. Trata-se, sem dúvida, de mais um efeito das alterações climáticas por que está a passar o nosso planeta.
Na Grécia mais vinte mil pessoas foram retiradas da ilha de Rodes, devido a um gigantesco incêndio que lavra há mais de uma semana, mas há outros incêndios que lavram por todo o território grego. No caso da Itália sucedem, em simultâneo, duas ocorrências meteorológicas de características opostas, pois enquanto no Norte há inundações, tornados e granizo gigante, no Sul o calor é abrasador e os incêndios têm sido devastadores. Ambos já causaram vítimas e o jornal La Stampa, que se publica em Turim, destaca na sua edição de hoje o título Inferno Italia. O governo italiano anunciou que vai declarar o estado de emergência em várias regiões que têm sido mais afectadas por tempestades e incêndios, tendo pedido à Comissão Europeia o reforço da frota de aviões que já tinham sido enviados por Bruxelas para combater os incêndios.
Tudo isto acontece como se fosse uma situação imprevista, o que é lamentável. É caso para ficarmos muito preocupados com o que andam a fazer os líderes europeus que tantas vezes se reúnem e que não têm soluções para este grave problema ambiental, hoje na Grécia e na Itália, mas amanhã em Portugal.

França no negócio mundial do armamento

“Histórico e inédito”, são as duas palavras com que a revista francesa La Tribune classifica a notícia destacada na sua edição de hoje, na qual informa que a França exportou 27 mil milhões de euros em 2022, o montante máximo de sempre das suas exportações de armamento. Segundo a notícia, foram as vendas de aviões Rafale, sobretudo para os Emirados Árabes Unidos (EAU), que impulsionaram as exportações francesas em 2022, mas a Grécia, a Indonésia, a Polónia e Singapura estão entre os seus principais clientes. Era sabido que a Dassault Aviation conseguira ganhar a batalha comercial do Golfo ao vender o seu Rafale à Arábia Saudita e ao Qatar. Agora com a encomenda dos EAU, o Rafale bate comercialmente os americanos F-15 e os britânicos Tornado.
De acordo com o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os maiores exportadores de armas do mundo são os Estados Unidos (38,6%), a Rússia (18,6%) e a França (10,7%), enquanto os maiores fabricantes mundiais são os grupos americanos Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, Raytheon e a General Dynamics. Os produtos que dominam o mercado mundial do armamento são os aviões de combate da última geração, os helicópteros, os mísseis e os sistemas antimísseis, mas também outros sistemas de armas. Estes negócios alimentam as economias dos países exportadores, mas a concorrência parece não ter regras, como se viu na reviravolta australiana relativamente aos submarinos franceses, ou nos recentes e festivos acolhimentos feitos a Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia, em Washington e Paris.
Naturalmente, as guerras que abalam o mundo não poderão deixar de ser vistas, também, à luz destes negócios.