sexta-feira, 15 de julho de 2011

Grandes naus, grandes tormentas

O Ministério da Justiça tem 15 mil viaturas e 1100 imóveis, pagando anualmente 38 milhões de euros de rendas, segundo foi noticiado pela Agência Lusa com base em revelações do secretário de Estado da Administração Patrimonial e Equipamentos do Ministério da Justiça. Estranhamente, a imprensa não desenvolveu esta notícia do dia 13 de Julho e, com o seu silêncio, dá um implícito apoio ao não esclarecimento deste anúncio.
O governante informou, ainda, que aquele ministério tem 27 mil funcionários, 30 mil computadores e um orçamento que ronda os 1400 milhões de euros. São números verdadeiramente assustadores, até porque correspondem à manutenção da importante função social da justiça, que é lenta e cara ou, como por vezes se afirma, não funciona. Além disso, no contexto destes assustadores números, era desejável saber-se quanto nos custa a pequena élite de funcionários que, através de mordomias e privilégios, parece estar acima dos seus deveres de prestação de serviço público.
E fica a dúvida. Como será nas grandes naus, que é o caso dos Ministérios da Saúde, da Educação e do Trabalho e Solidariedade Social, cujos orçamentos são, pelo menos, cinco vezes maiores do que o do Ministério da Justiça?
São estes monstros criados ao longo dos anos que nos afundam. São eles que arrasam a nossa política orçamental e a nossa economia, mas também a possibilidade de sermos mais ricos e mais equitativos na distribuição da riqueza. Por isso, é necessário e urgente adoptar uma maior racionalidade financeira e uma melhor gestão destas naus, devendo os seus dirigentes ser responsabilizados pelas opções gravosas que tomarem relativamente à boa gestão dos recursos escassos que temos.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Euroconfusão

Há realmente uma grande confusão na Europa e os sinais da tempestade aumentam.
A Grécia está no centro desta intempérie, sem dar sinais de inverter os seus desempenhos financeiros e sem mostrar os consensos sociais mínimos para travar a crise. A agência Fitch classificou a sua dívida abaixo de lixo e avisa o mundo sobre os riscos de insolvência.
O FMI pressiona a Europa para que encontre uma solução rápida para a crise grega, mas a Alemanha bloqueia a cimeira proposta por Van Rompuy e os membros da Zona Euro não conseguem chegar a um acordo quanto a um novo plano de ajuda.
Na Irlanda e em Portugal, as respectivas dívidas foram classificadas pela agência Moody’s como lixo, apesar de estarem em curso programas de ajustamento/austeridade sobre a supervisão da EU, BCE e FMI.
As dívidas da Itália e da Espanha estão à mercê dos mercados e pagam juros recorde. Se a Espanha já está em austeridade há muitos meses, a Itália reage agora com um plano de austeridade avaliado em 79 mil milhões de euros, que congela pensões e privatiza empresas.
A Bélgica e a França não estão sossegadas.
É a euroconfusão e fala-se cada vez mais na agonia do Euro.
Entretanto, também os Estados Unidos, com a sua gigantesca dívida de 14 triliões de dolares (100% do PIB), estão na iminência de uma calamidade financeira e esse é um dado novo e inesperado.
Quem é que percebe isto?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Itália e Espanha na mira da especulação

A tempestade europeia não se atenua e a Grécia (défice=10,5% e dívida pública=142,8%) continua a ser a principal preocupação no actual contexto financeiro europeu e com riscos de incumprimento, mas não está isolada.
Recentemente, a Moody’s baixou o rating de Portugal (défice=9,1 % e dívida pública=93,0%) e, ontem, também baixou o da Irlanda (défice=32,4 % e dívida pública=96,2%), que viram ambos o seu rating entrar na categoria de lixo. Significa que as agências de rating não desistem dos seus ataques às economias periféricas e à moeda única e, dessa forma, perturbam gravemente as hipóteses de recuperação económica e financeira desses países.
Agora, os especuladores parece que alargaram os seus desígnios e os seus mercados apontaram para a Itália e a Espanha, a terceira e a quarta economias da Zona Euro. O diário El Pais refere-se hoje ao ataque à Espanha (défice=9,2 % e dívida pública=60,1%) e à Itália (défice=4,6 % e dívida pública=119,0%), que viram os juros das suas dívidas disparar nos prazos mais curtos e registar um novo máximo, desde que existe a moeda única europeia.
Na passada 2ª feira o alarme soou forte e deu origem a reuniões de emergência, no sentido de reagir, de evitar contágios e de anular as hipóteses de efeito dominó.
No entanto, o esse pânico teve a vantagem de deixar claro que não há soluções nacionais para a crise e que só existe uma solução global europeia. Para quem temia que a Grécia e Portugal pudessem cair num cenário de expulsão da Zona Euro, o ataque à Itália e à Espanha desanuviou algumas nuvens negras e mostrou que, por aqui, tem havido muita gente a falar demais apenas por interesses partidários.

domingo, 10 de julho de 2011

Uma inesperada coesão nacional

Depois do que por cá disseram Cavaco Silva, Alberto João Jardim, António Costa, Rui Rio, os sindicatos e os patrões, os banqueiros e os políticos e tantos comentadores, mas também o que lá por fora disseram Trichet, Juncker, Van Rompuy, Barroso e Lagarde, escondo-me na minha pequenez para não emitir opinião sobre a decisão da Moody’s de baixar o rating da dívida soberana portuguesa e, por arrastamento, das regiões autónomas, das grandes autarquias e das maiores empresas.
Trata-se de um “murro no estômago” e agora tudo se torna mais difícil para dominar a crise, apesar daquela decisão ter gerado um inesperado e raro momento de unidade nacional na sociedade portuguesa. Em 1890 foram os ingleses que nos humilharam com o famoso ultimato, agora é uma empresa privada americana - a Moody’s - que nos castiga severamente ao classificar as nossas dívidas como lixo e ao considerar muito elevada a probabilidade de incumprimento. Porém, nesses apertos, a história mostra-nos que costumamos reagir. Poucas vezes temos assistido a tão unânimes reacções de repúdio e de coesão nacional e, por isso, esta nova situação até pode ter efeitos positivos, porque o BCE, a EU e o FMI também reagiram com prontidão e ficou agora mais claro que são a moeda única e a unidade europeia que estão em causa. De facto, eles não desistem de provocar o efeito dominó na Zona Euro!
No entanto, a superação da nossa crise não depende apenas da evolução do ambiente externo e muito menos da visão da Moody’s, pois passa sobretudo pela correcção estrutural da nossa falsa prosperidade e da muita ganância havidas nas últimas duas décadas, através de soluções endógenas: mais inovação, mais trabalho, mais poupança, mais organização e mais consumo de produtos portugueses. Se assim fizermos, a Moody's deixará de ladrar.

O saco de dinheiro que se rompeu

O Correio da Manhã revela na sua edição de hoje o parecer do Tribunal de Contas sobre a Conta Geral do Estado de 2009.
Segundo informa essa notícia, o Estado pagou indevidamente nesse ano mais de 531 milhões de euros em prestações sociais, designadamente em Subsídio de Desemprego/Subsídio Social de Desemprego (181 milhões) e Rendimento Social de Inserção (81 milhões), mas também em subsídios de doença (69 milhões), pensões (49 milhões), subsídio familiar/abono de família (45 milhões), complementos por deficiência (8,9 milhões), complementos sociais (7,2 milhões) e subsídios de maternidade (5, 7 milhões).
No parecer é reconhecido que os beneficiários desses apoios sociais não irão devolver cerca de 462 milhões desse montante e que, por isso, já são considerados incobráveis. Estima-se que o total de encargos da Segurança Social com pensões seja da ordem dos 14 mil milhões de euros e, nesse caso, os pagamentos indevidos detectados pelo Tribunal de Contas correspondem a cerca de 3,8% daquele montante. Se em termos percentuais este desvio não é, aparentemente, muito significativo, já em termos absolutos é demasiado elevado e revelador de desleixo, má gestão e generalizadas práticas corruptas.
Parece que em 2009 o saco do dinheiro se rompeu sem que ninguém notasse, mas provavelmente o saco já estava roto há muitos anos e a servir os amiguismos, os porreirismos e os clientelismos, gerando vícios de difícil correcção e a acumulação de dívidas de difícil amortização.

sábado, 9 de julho de 2011

O fado como inspiração das Artes

No Pátio da Galé em Lisboa está patente ao público a exposição Ecos do Fado na Arte Portuguesa Séculos XIX-XX, que se enquadra na promoção da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade. O Pátio da Galé é um espaço polivalente que foi recentemente renovado no âmbito da requalificação do Terreiro do Paço, constituindo uma nova centralidade cultural para a cidade e para a atracção de turistas, com os seus restaurantes, esplanadas, gelataria, posto de turismo, loja de produtos portugueses e espaços para eventos e exposições.
A exposição está instalada na Sala do Risco, que é acessível pela porta 21 da rua do Arsenal, junto da Praça do Município, exibindo obras de Almada Negreiros, Roque Gameiro, Columbano, Amadeo de Souza-Cardoso, Júlio Pomar, Paula Rego, Joana Vasconcelos, Graça Morais e, mais simbolicamente, o “Fado”, o quadro de José Malhoa que retrata a famosa Severa.
O espaço expositivo está muito bem ocupado pela pintura e pelo desenho, mas também por outro tipo de obras, como as tapeçarias de Estremoz que reproduzem a “Nau Catrineta”, uma pintura mural de Almada Negreiros existente na Gare Marítima de Alcântara, a instalação de 2004 de João Pedro Vale intitulada “Barco Negro” e o exuberante “Coração Independente”, uma criação de Joana Vasconcelos.
A voz de Amália Rodrigues cria um ambiente de excelência à exposição que reúne 128 peças de diversas origens e pode (e deve) ser visitada até ao dia 17 de Setembro, entre as 10:00 e as 19:00 horas, todos os dias da semana.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O estranho mundo do futebol

O futebol é uma paixão, mas também é um negócio que movimenta muito dinheiro, através de transferências milionárias de jogadores e de treinadores. O tradicional “amor à camisola” perdeu-se e o mundo do futebol está cada vez mais dependente de engenharias financeiras e de interesses obscuros, que por vezes encobrem certo tipo de práticas criminosas, como a lavagem de dinheiro e a fraude fiscal.
Entretanto, a crise parece ter chegado a todo o lado, menos ao futebol. Em finais de 2010 o Jornal de Notícias anunciou que os clubes que integram as Ligas Profissionais de Futebol portuguesas tinham 816 milhões de euros de passivo e que os campeões da dívida eram o Benfica (398,8 milhões), o Sporting (172 milhões) e o F. C. Porto (157,5 milhões) que, em conjunto, representavam cerca de 90% da totalidade das dívidas dos clubes portugueses.
Entretanto, só nesses três clubes de futebol, os recentes negócios relativos às transferências de jogadores valeram 90 milhões de euros e, ao aeroporto de Lisboa, continuam a chegar os Enzo Pérez, os Garay, os Kléber e os Bojinov, além dos Nolitos, dos Iturbes e dos Witsel.
Com os tempos difíceis que se aproximam, prevê-se menos público nos estádios, menos merchandising, menos direitos televisivos e maiores dificuldades de crédito bancário para solucionar os crónicos défices de tesouraria, o que parece antecipar muitos problemas.
É neste quadro que, para os seus estágios, o Benfica escolheu a Suiça, o F.C. Porto a Alemanha e o Sporting a Holanda.
O futebol é realmente um espectáculo extraordinário, mas o mundo do futebol é muito estranho!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

As noites de fado em Goa

No próximo mês de Dezembro completam-se cinquenta anos sobre os acontecimentos que levaram à ocupação dos territórios de Goa, Damão e Diu pelas tropas da União Indiana.
Desde então, embora de forma não assumida, as autoridades indianas e, depois da constituição do Estado de Goa, as autoridades goesas, sempre procuraram a desportugalização do território e, na realidade, a língua e a cultura portuguesas têm perdido alguma importância na sociedade goesa. No entanto, há interesses de ordem diversa – identitários, culturais e emocionais – e, sobretudo, interesses turísticos, que persistem na preservação da herança cultural portuguesa.
Com cerca de dois milhões e meio de turistas que anualmente visitam Goa, a marca portuguesa tornou-se mais valiosa: cerca de 90% dos turistas são indianos que procuram a “Europa da Índia”, enquanto os restantes 10% são estrangeiros que procuram as praias e a “exótica simbiose luso-indiana”, que Goa oferece.
Por isso, o turismo apoia-se fortemente na herança cultural portuguesa. Um dos casos mais curiosos da preservação da memória portuguesa em Goa refere-se ao Hotel Cidade de Goa e ao seu Restaurante Alfama, onde regularmente há noites de fado, apresentadas por intérpretes goeses de grande talento. Assim vai acontecer, uma vez mais, no próximo dia 12 de Julho.

TP 1844

No nosso tempo, um voo de pouco mais de duas horas nada tem de incomum e é um acto rotineiro das nossas vidas.
Porém, no caso do voo TP 1844 que liga a ilha do Faial a Lisboa, pode haver lugar a uma agradável surpresa, que só depende da meteorologia e da vontade do piloto.
Poucos minutos depois da largada do aeroporto, quando ainda está na sua fase ascensional, o avião passa ao largo da ilha do Pico e dos seus imponentes 2351 metros de altitude.
Umas vezes o avião passa mais próximo e outras vezes menos próximo da montanha que, frequentemente, não está visível porque se encontra envolvida por densas nuvens ou está mergulhada nas chuvas e nas neblinas que são características das ilhas açorianas.
Nessas condições meteorológicas de menor visibilidade, a montanha raramente se apresenta descoberta, iluminada e bem próxima de nós. Mas quando isso acontece e à vontade da meteorologia se junta a vontade do piloto, a montanha surpreende-nos com a sua agreste beleza vulcânica e parece convidar-nos a uma subida até ao topo numa outra oportunidade.
Porém, mais do que qualquer texto, é a fotografia que melhor evoca a agradável surpresa de voar com o Pico ali tão perto.

sábado, 2 de julho de 2011

A longa luta do país do Sol Nascente

No princípio do ano de 2001, as ruas de Díli e a maioria das vilas e aldeias de Timor estavam destruídas devido à violência que se seguiu ao referendo de 1999. O diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Melo representava as Nações Unidas e as forças internacionais que ocupavam o território, consumiam muitos dos recursos de que o país carecia e, em geral, não estavam preparadas para ajudar os timorenses. Era um tempo de muita incerteza.
Na medida das minhas possibilidades, eu acompanhara os acontecimentos de 1975 e tudo o que se passara depois. Quando em 2001 fui a Timor, procurei saber mais sobre o país do crocodilo. Estudei os tempos de Celestino da Silva, a guerra do Manufai e os protagonismos de Dom Boaventura e de Filomeno da Câmara. Pesquisei sobre a ocupação japonesa e sobre as figuras de Dom Aleixo Corte-Real e de D. Jaime Garcia Goulart. Informei-me sobre os complexos acontecimentos de 1975, a guerra civil e a invasão indonésia de 7 de Dezembro de 1975. “Conheci” Nicolau Lobato, Xanana Gusmão, Ma’Huno e Konis Santana. Fui a alguns dos locais mais simbólicos da resistência timorense, desde a orla do Matebian até à igreja de Motael e ao cemitério de Santa Cruz. Estive em Balibó, Maliana, Batugadé, Manatuto, Baucau, Viqueque, Lospalos e Aileu. Conheci e convivi com alguns dos resistentes, com vários anos na prisão de Cipinang ou com muitos anos de exílio. Gente experimentada. Gente que se organizou e que hoje está a dar um futuro ao país.
Alguns têm raízes étnicas e culturais portuguesas. Um deles correu meio mundo a procurar apoios para a causa timorense e foi premonitório quando, em 1994, escreveu “Amanhã em Díli”. Depois foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz e, quando regressou a Timor, partilhou algumas das suas memórias e conversas com um discreto hóspede do já extinto Hotel Dom Aleixo. É o actual Presidente da República de Timor-Leste. Agora, uma vez mais, veio a Lisboa e, certamente, não deixará de visitar a sua casa paterna de Buarcos e de olhar o Tejo, de onde um dia o seu pai saiu como deportado por razões políticas.
Neste registo, deixo esta breve homenagem ao JRH.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sarkozy ou o pequeno falcão europeu

A guerra que ocorre na Líbia desde há alguns meses, tem sido um mau exemplo de unidade dos europeus, tal como já tinha acontecido há vinte anos com a guerra na antiga Jugoslávia, porque alguns países decidiram actuar sem um prévio consenso e à margem dos seus parceiros comunitários.
Então, alguns deles, intervieram na lógica do seu próprio interesse nacional, apoiando e armando os independentistas croatas, ou os separatistas da Krajina ou, ainda, as facções muçulmanas da Bósnia e do Kosovo. Cada qual fez o que quis.
Agora, na sequência da Resolução 1973 (2011) de 17 de Março do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que criou uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e que autorizou todas as medidas necessárias para proteger os civis sob a ameaça dos ataques governamentais, volta a aparecer um cenário de divisionismo e egoísmo europeus que nos recorda a guerra na ex-Jugoslávia. À sombra da NATO, cada qual está a fazer o que quer.
Indiferente às abstenções do Brasil, China, Alemanha, Índia e Federação Russa àquela Resolução, a França tornou-se o pequeno falcão europeu com os seus bombardeamentos aéreos e o fornecimento de armamento aos rebeldes líbios, em que se incluem munições, metralhadoras, lança-rockets e mísseis anti-tanque.
Nos Estados Unidos, a Câmara dos Representantes já “chumbou” a participação americana na guerra da Líbia, enquanto as críticas da China e da Rússia aumentam, por considerarem que se está a ir para além da Resolução da ONU. Ângela Merkel apenas pensa nos dinheiros que tem na Grécia. A ajuda francesa aos rebeldes que lutam contra o regime de Kadhafi veio mostrar que Sarkozi abandonou o seu velho amigo (e financiador?) e está a tornar-se o pequeno falcão europeu.
Faz-lhe jeito o petróleo, certamente.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um novo top de Paula Rego

Looking back, um quadro de Paula Rego, foi licitado num leilão realizado ontem na Christie's, em Londres, tornando-se o quadro da autora que até agora atingiu um valor mais elevado no mercado leiloeiro.
Enquanto num leilão organizado em 2008 pela leiloeira Sotheby's, o quadro Baying, de 1994, foi arrematado por 558 mil libras (740 mil euros no câmbio da altura), o leilão ontem realizado pela Christie's para Looking Back, de 1987, teve uma licitação final de 769 250 libras (866 175 euros).
Com esta venda, Paula Rego reforçou a sua posição no restrito número de autores portugueses contemporâneos com cotação no mercado internacional da arte que, aparentemente, continua a ter em Maria Helena Vieira da Silva o seu mais apreciado ícone. Recorde-se que em Junho de 2010 em Paris, a leiloeira Sotheby’s, vendeu o seu quadro Inverno, de 1960, por 1 095 150 euros.
Paula Rego vive em Londres mas expõe regularmente em Portugal, destacando-se as exposições realizadas na Fundação Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, para além da grande exposição organizada em 2005 pelo Museu de Serralves, que teve 160 mil visitantes. Actualmente a sua obra pode ser vista na exposição permanente do Museu Casa das Histórias, em Cascais, e ocasionalmente no Centro de Arte Manuel Brito, em Algés, além de estar representada nas exposições permanentes de vários museus portugueses.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A miragem de "dar tudo a todos"

O Estado tem diversas funções constitucionais e a função social é, seguramente, uma das mais importantes, ao assegurar diversos tipos de prestações a mais de um milhão de beneficiários, nomeadamente o Subsídio Social de Desemprego (SSD) e o Rendimento Social de Inserção (RSI).
Estas prestações são financiadas pelos impostos pagos pelos contribuintes e são um contributo solidário da sociedade para os mais desfavorecidos, servindo para minimizar situações sociais de dificuldade e para atenuar a pobreza. Este princípio de redistribuição da riqueza baseado nos impostos e nos subsídios ou na lógica “dos que podem aos que precisam”, é hoje incontestável nas sociedades modernas.
Porém, nos últimos anos, enraizou-se em Portugal a ideia de que o Estado pode "dar tudo a todos” e, nessa lógica, a política de subsídios foi longe demais, inclusive no que respeita às prestações sociais, havendo a convicção de que muitos desses benefícios sociais resultam de situações injustas ou fraudulentas.
Todos as conhecemos, mas não as denunciamos.
A televisão mostra-as, mas as autoridades não reagem.
Nuns casos, há beneficiários do SSD que não procuram ou recusam ofertas de trabalho, porque o valor do subsídio é superior ao salário, enquanto noutros casos há beneficiários do RSI cujo património e rendimentos são omitidos e que deveriam ser tributados.
Estes dois exemplos mostram como é necessário um estudo geral destas situações e a consequente adopção de medidas que evitem a falência da segurança social e que travem a crescente subsidiodependência dos portugueses, que acabem com o parasitismo institucionalizado e evitem os possíveis casos de injustiça social.
Com vontade política e com a ajuda da informática, estas situações podem ser resolvidas com alguma brevidade. Essa intenção está anunciada. Será que vai ter solução?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um apóstolo das Índias

Ribeirinha – Ilha do Pico
Na povoação da Ribeirinha, próximo da ponta leste da ilha do Pico, está colocada uma lápide na empena de uma casa muito modesta, que contém a seguinte inscrição:
NESTA CASA NASCEU A 5 DE FEVEREIRO DE 1898
D. JOSÉ VIEIRA ALVERNAZ PATRIARCA DAS ÍNDIAS
Nascido em 1898, D. José Vieira Alvernaz teve a sua ordenação sacerdotal em 1920, dirigiu diversas paróquias nos Açores e, depois, seguiu para Itália onde frequentou estudos superiores, tendo-se doutorado em Filosofia e Direito Canónico (Roma) e em Ciências Sociais (Bérgamo).
Em Agosto de 1941 o Papa Pio XII nomeou-o Bispo de Cochim, cargo que desempenhou até 1951 quando, na sequência da independência da Índia, foi extinto o Padroado Português do Oriente. Tornou-se, por isso, o último bispo português de Cochim, uma diocese criada em 1558 e que se estendia da costa do Malabar até à Birmânia.
D. José Vieira Alvernaz foi depois designado Arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais e, por ironia do destino, também veio a ser o último português a desempenhar esses cargos. Durante os acontecimentos que em 1961 levaram à queda da Índia Portuguesa, consta que a opinião do Patriarca das Índias foi decisiva na prudente atitude que o Governador Vassalo e Silva adoptou perante a invasão indiana. Como consequência da invasão e da ocupação indiana, D. José Vieira Alvernaz viu-se compelido a deixar o território da sua jurisdição episcopal, tendo regressado a Portugal. Depois de cerca de vinte anos de permanência na Índia, instalou-se em Angra do Heroísmo, onde faleceu em 1986.
Junto à casa onde nasceu, um grupo de amigos e admiradores promoveu a colocação de um busto em bronze em sua homenagem.

sábado, 25 de junho de 2011

Vulgaridades, brejeirices & boçalidades

A RTP 1 mantém um conjunto de programas ligeiros especialmente vocacionados para atrair audiências e, esse desígnio, parece justificar-lhe todas as concessões à qualidade e isentá-la do dever de ter uma programação de interesse público.
Assim, alguns programas como o Portugal no Coração, o Portugal sem Fronteiras, a Praça da Alegria, o Preço Certo ou Quem quer ser Milionário preenchem longas horas das emissões da RTP 1. Em geral, a receita é mais ou menos a mesma, com apresentadores de duvidoso talento, uma sala cheia de gente mais ou menos excitada para aplaudir e o habitual desfile de convidados, concorrentes, cozinheiros, artesãos, autarcas anónimos, cantores desconhecidos, grupos folclóricos, etc. Cada um desses programas gerou uma enorme e desproporcionada popularidade aos seus apresentadores que, em alguns casos, assumem o estatuto e são reconhecidos como vedetas. A partir daí, o desconchavo das suas prestações televisivas tende a aumentar. Ultrapassam-se em auto-convencimento.
Eu não aprecio especialmente nenhum desses programas e, certamente, o defeito é meu! Por isso, até pensei organizar uma votação inspirada no modelo das "7 Maravilhas", que se intitularia as "7 Maravilhas da Imbecilidade Televisiva". Pensei, mas decidi não ir em frente, pois ao acompanhar mais demoradamente o Portugal no Coração, a minha escolha ficou feita. O nível de vulgaridade, brejeirice e boçalidade com que os seus apresentadores conduzem o programa e a forma como os convidados são tratados, ridicularizados e, por vezes, quase humilhados, ultrapassam os meus limites de tolerância. Certamente, eles serão pessoas inteligentes e qualificadas, mas ultrapassam o senso comum, tornam-se atrevidos, caem num foleirismo primário e, porque são bem pagos pelo erário público, ainda gozam com o pagode. Insuportável para o meu gosto.