quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

R.I.P. Mário Miranda

Faleceu em Goa, na sua casa de Loutolim, uma das mais importantes personalidades da cultura goesa e, provavelmente, o goês mais conhecido no mundo: Mário João Carlos do Rosário de Brito Miranda ou Mário Miranda ou, apenas, Mário, como ficou conhecido artisticamente.
Mário Miranda nasceu em Damão no ano de 1926, mas pouco tempo depois a sua família instalou-se em Goa, onde foi educado nos parâmetros da cultura portuguesa e onde, desde muito cedo, revelou uma enorme criatividade artística. Em 1959 visitou Lisboa onde a Fundação Gulbenkian lhe atribuíu uma bolsa de formação artística que lhe abriu novos horizontes e o projectou para uma carreira internacional, através da apresentação da sua obra em diversas cidades indianas e em mais de duas dezenas de países.
Em três ocasiões realizou exposições em Lisboa: em 1986 na Galeria Almada Negreiros, em 1987 na Fundação Calouste Gulbenkian e em 2001 na Sociedade Nacional de Belas Artes, a convite da Fundação Oriente.
Mário Miranda era um homem bom e generoso, que nunca abdicou do uso da língua portuguesa, nem dos referenciais da nossa cultura. Não era um português de passaporte, mas era português de coração. Na sua casa de Loutolim havia sempre lugar para os amigos que o visitavam e, em especial, para os portugueses. Tive o privilégio de ser um deles.
O desaparecimento de Mário Miranda, que era comendador da Ordem do Infante D. Henrique, é uma enorme perda para a cultura goesa, mas também é um triste acontecimento para o espaço cultural português que continua a existir em Goa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A classe empresarial como problema

Numa interessante entrevista ao jornal i o empresário Filipe de Botton declarou que “o maior problema que existe em Portugal é a classe empresarial”.
Trata-se de uma verdade conhecida, mas que poucas vezes é assumida por ser mais cómodo atirar o ónus do nosso atraso económico para cima dos trabalhadores e das suas aptidões.
Até há poucos anos dizia-se que os portugueses, onde quer que estivessem, estavam sempre entre os melhores, os mais produtivos e os mais empenhados trabalhadores, mas na sua própria terra apresentavam índices de produtividade muito baixos. Daí resultava a tendência para atribuir as razões do nosso mau desempenho económico à baixa escolaridade e à menor qualificação profissional da população empregada.
Porém, há alguns anos as estatísticas revelaram que os nossos empresários possuiam uma média de escolaridade inferior a oito anos e que a sua qualificação era pior do que a dos trabalhadores. Muitos limitam-se a ser patrões e a sua falta de qualificação constitui um importante obstáculo ao desenvolvimento português e à recuperação do atraso do país. A maioria deles não possui as competências necessárias para enfrentar com êxito os desafios de uma concorrência cada vez mais global, nem para introduzir novos produtos, novos processos tecnológicos, novas formas de organização do trabalho ou novas estratégias de marketing - marca, distribuição, comunicação.
Portanto, parece que na economia portuguesa há muitos empresários que, devendo contribuir para a solução, são afinal "o maior problema" e, assim, no meio de tantas dificuldades, esta é apenas mais uma.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um submarino-museu em Cacilhas

A Marinha e a Câmara Municipal de Almada chegaram a acordo para a instalação do submarino “Barracuda” no espaço museológico da frente ribeirinha do Tejo, em Cacilhas. Será um submarino-museu. A cidade de Almada ou a Grande Lisboa passará a manter conservados e a exibir ao público alguns navios históricos, tal como acontece nas cidades portuárias de tradição marítima.
Essa instalação inscreve-se no plano de requalificação e valorização daquela zona ribeirinha do concelho de Almada, mas também na estratégia municipal de promoção turística do concelho, já que Cacilhas é uma das principais “portas de entrada” de turistas e visitantes.
O submarino ficará atracado na doca n.º 1 dos antigos estaleiros da Parry & Son, perto do farol de Cacilhas e nas proximidades da fragata “D. Fernando II e Glória”, estando previsto que em 2013 já seja possível visitar o “Barracuda”.
O antigo submarino da Marinha Portuguesa foi construído em Nantes e entrou ao serviço em 1968. De acordo com a informação disponibilizada pela Marinha, desde então e até Dezembro de 2001, o submarino efectuou um total de 38.143 horas de navegação, das quais 26.962 horas em imersão, tendo percorrido 790.545 milhas, o que equivale a cerca de 36 voltas à Terra.
Quando o “Barracuda” se juntar à fragata “D. Fernando II e Glória” em Cacilhas, ficará constituído um importante núcleo museológico marítimo e naval na frente ribeirinha da margem sul do Tejo e ficarão preservadas duas antigas unidades navais, representando duas épocas, duas memórias e duas tecnologias. A nossa herança marítima e a memória histórica do Tejo merecem este espaço cultural.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

De cimeira em cimeira, até...

Hoje começa em Bruxelas mais um Conselho Europeu e o jornal Público diz que “É a hora da verdade: zona euro reforça integração, ou entra em colapso”, enquanto numa linha a denunciar pouco optimismo e a preparar os portugueses para outras eventualidades, a revista Visão se interroga “E se o escudo regressa?”, enquanto o Jornal de Negócios pergunta “E se o euro acabar?”.
As expectativas quanto aos resultados desta Cimeira são muito moderadas. Ninguém espera o fim da crise. Alguns ainda falam na renovação do euro, outros já falam na sua derrocada, mas a maioria limita-se a dizer que, por agora, apenas se pretende recuperar um pouco da confiança e da credibilidades perdidas.
Uma investigação conduzida pela agência noticiosa Efe publicada pelo jornal espanhol El Mundo, concluiu que desde o colapso do Lehman Brothers – em Setembro de 2008 – houve 26 cimeiras europeias ordinárias e extraordinárias, nas quais foram gastos cerca de 234 milhões de euros. São cerca de 10 milhões de euros por cimeira, onde se incluem os gastos de organização do próprio Conselho Europeu, bem como as despesas com o destacamento policial e de segurança privada em Bruxelas, além das despesas de deslocação e de alojamento das delegações nacionais dos Estados-membros. São cimeiras a mais, que servem diversificados interesses marginais, mas que não têm resolvido o problema fundamental da Europa. Tornaram-se reuniões de amigos, em estilo "hollywoodesco", sempre hipocritamente sorridentes como se vivêssemos no melhor dos mundos. Está a faltar uma liderança europeia capaz, que dê um murro na mesa, que ponha na ordem as agências de rating, os eurocratas e os especuladores e que, sem equívocos, diga à chanceler alemã e ao presidente francês que, depois de 26 cimeiras inconclusivas, não foram competentes e que o seu tempo está esgotado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Incerteza e inquietação na Europa

A Europa está a viver uma situação de incerteza e de grande inquietação, por causa da crise financeira, mas também da falta de valores. Existe o risco de desagregação do projecto europeu, não apenas no que se refere à moeda única, mas também em relação a tudo o que já tinha sido conseguido num quadro de solidariedade europeia. Há optimistas que esperam soluções, mas há cépticos que já não acreditam. Diz-se muita coisa num sentido e diz-se o seu contrário. Fala-se em refundação ou até em reinvenção da Europa. Fala-se em duas Europas ou de uma Europa a duas velocidades.
Os ideais de Robert Schuman, Konrad Adenauer, Jean Monnet ou Paul Henri Spaak estão sem continuadores e a Europa está refém de interesses nacionais e de dirigentes sem chama, que se limitam a reflectir os interesses directos dos seus eleitorados para se manterem no poder. Sem visão nem desígnio. Sem perspectiva histórica.
Esta crise vem de longe, de muito longe, havendo muitas teorias explicativas para esta progressiva decadência que está associada ao envelhecimento demográfico, a um generoso modelo social e a uma escalada de consumo que não são sustentáveis, a uma indisciplina orçamental que desrespeita os compromissos de Maastrich e a muitos outros erros causados pela ganância e pela cegueira de políticos, eurocratas e financeiros.
Em Maio de 2010 tocaram os alarmes. Nessa altura The Economist abordou a crise da dívida pela primeira vez com o título Acropolis Now e, desde então, o tema passou a ter presença regular nas suas primeiras páginas, com frequentes notícias sobre as crises da Grécia e do euro. Significativamente, a crise portuguesa nunca despertou o interesse da primeira página do The Economist, vá-se lá saber porquê. Agora, a prestigiada revista pergunta: Is this really the end?
Por cá, houve muita gente que com arrogância, ignorância e ânsia de se encaixar (na Caixa Geral de Depósitos e noutras poltronas douradas) não quis ver nada disto.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Neste Natal, ofereça o que é nacional

O Licor Beirão lançou uma nova campanha publicitária protagonizada por duas caricaturas que representam o presidente francês e a chanceler alemã, às quais é oferecida uma garrafa do famoso licor produzido na serra da Lousã, como presente de Natal.
Os anúncios do Licor Beirão são politicamente inofensivos: cada uma das caricaturas sorri com a garrafa que acaba de receber e, colocado de forma bem visível, está um cartão natalício que diz:
"Querido Nicolas/Angela, Portugal está a dar o seu melhor. Boas Festas! ".
O slogan fecha os anúncios com uma frase dirigida aos portugueses, sugerindo-lhes que comprem produtos nacionais: "Neste Natal, ofereça o que é nacional."
A publicidade recorre frequentemente a figuras políticas e, neste caso, aproveitou o momento de grande evidência daqueles líderes para passar duas mensagens que promovem o produto mas que, simultaneamente, contribuem para a aumentar a nossa auto-estima e para estimular a produção nacional.
Este tipo de publicidade tem uma eficácia acrescida porque está em sintonia com o momento actual ao juntar a proximidade do Natal com a crise por que passamos e aproveita a notoriedade de Merkel e Sarkozy nos planos europeu e nacional.
A campanha do Licor Beirão assenta numa excelente ideia criativa e é muito sugestiva, pelo que certamente trará o esperado retorno ao anunciante. Porém, o conselho do anúncio é muito útil ao recomendar que "neste Natal, ofereça o que é nacional."

TAP eleita como a melhor da Europa

A TAP foi distinguida como a melhor companhia aérea europeia, numa eleição organizada pela revista americana Global Traveler, na qual participaram três dezenas de companhias de notoriedade internacional e em que votaram cerca de 36 mil passageiros frequentes e passageiros executivos, que fazem em média 16 viagens internacionais e 16 viagens domésticas por ano.
Este resultado acontece quando o processo de privatização da TAP já estará a avançar, nos termos do Memorando com a troika assinado em 17 de Maio que, no seu ponto 3.31, trata da privatização da TAP e estabelece que esta deve ser feita até ao final de 2011, se as condições do mercado o permitirem.
Porém, esta distinção vem lembrar a utilidade social e a importância estratégica da TAP para a unidade nacional, para a coesão territorial e para a economia portuguesa, mas também que é uma das marcas portuguesas mais conhecidas em todo o mundo.
A TAP emprega directamente cerca de 12 mil pessoas e dá emprego indirecto a alguns milhares; o seu impacto macroeconómico é enorme em termos de rendimento e de emprego, mas também em termos de exportações, pois calcula-se que estas representem cerca de 5% das exportações portuguesas (transporte de passageiros residentes no estrangeiro, carga e correio, serviços de manutenção e de handling, etc.).
A TAP é uma empresa estratégica para assegurar o interesse nacional, desde a defesa à economia, passando pela independência nacional e pela própria ideia de soberania. Apresenta uma rentabilidade social positiva e, desde 1997, apenas recebe do Estado as indemnizações compensatórias que lhe são devidas pelo serviço que assegura com as regiões autónomas, mas esse montante é cinco vezes menor do que aquele que recebe a RTP. Então, privatizar para quê?

sábado, 3 de dezembro de 2011

No topo: Cristiano Ronaldo (1)

Apesar do impacto que a Rádio e a Televisão têm na difusão das notícias, ao permitirem a recepção de sons e imagens em tempo real, a Imprensa ainda continua a desempenhar uma importante função junto do público, não só porque explica e comenta os acontecimentos, mas também porque define as agendas públicas, atribui relevâncias ou selecciona protagonistas.
A leitura da imprensa internacional é um ritual muito útil para compreender a relevância do que se passa no nosso próprio país, mas também para identificar os portugueses que se destacam no estrangeiro.
Nesse aspecto, o futebolista Cristiano Ronaldo é a grande referência nacional. Com 25 anos de idade, é o futebolista mais bem pago do mundo e tem recebido inúmeros prémios individuais, incluindo o de Melhor Jogador do Mundo em 2008 (FIFA) e a Bota de Ouro em 2008 e 2011 (UEFA).
Nenhum outro português é tão conhecido internacionalmente e as primeiras páginas dos jornais, sobretudo os jornais desportivos espanhóis, destacam-no frequentemente. Pode gostar-se ou não de futebol, mas o facto é que o português que o mundo conhece não é um político, nem um cientista, nem um homem da cultura: é um futebolista que marca muitos golos, que entusiasma multidões e que se chama Cristiano Ronaldo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Há relação entre a dívida e a corrupção?

Portugal apareceu hoje colocado na 32ª posição no Índice de Percepção da Corrupção relativo a 2011, divulgado pela Transparency International, uma organização não governamental que luta contra a corrupção e que desde 1995 ordena os países de acordo com "o grau com que é percebida a corrupção entre os funcionários públicos e políticos".
Este ano foram avaliados 183 países e Portugal manteve a posição que detinha no ano passado, com a 15ª pontuação entre os 27 estados-membros da União Europeia, que é uma classificação melhor do que as da Itália, Grécia, Malta e países de Leste. Este índice é calculado através de uma análise feita por peritos de vários países, que dão opinião sobre o grau de corrupção que percepcionam em cada uma das nações. As práticas de corrupção, tráfico de influências e abuso de poder são avaliadas de forma subjetiva e, por isso, esta classificação também é subjectiva.
Porém, o relatório da Transparency International informa que os "países da Zona Euro sofrem crises da dívida, em parte devido à falha das autoridades públicas em combater o suborno e a evasão fiscal que são motores fundamentais" dessa mesma crise e aponta a "corrupção no sector público" como o factor da crise da dívida também em Portugal. Por isso, o Jornal de Notícias conclui e titula que “a dívida do Estado é filha da corrupção”. Não sei que grau de parentesco têm a dívida pública e a corrupção, mas a minha percepção é que são realmente aparentados.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O vício do cartão de crédito

Apesar do clima de crise e de recessão que paira sobre o país, muitos portugueses continuam a endividar-se para ir de férias ou para fazer viagens. Esta é conclusão de um estudo realizado pela Marktest por encomenda da Mastercard, que mostra que mesmo num ano em que os consumidores resolveram cortar na adesão e no uso de cartões de crédito, o pagamento de férias e viagens foi a categoria de despesas que registou o maior aumento.
No entanto, em 2011 houve uma contracção generalizada do consumo, que se reflectiu quer nas compras a débito, quer nas compras a crédito. O número de cartões de crédito activos e o seu uso pelos consumidores portugueses, registaram os níveis mais baixos desde 2008 e o decréscimo acumulado desde então no uso desses cartões de crédito foi de cerca de 15%, o que significa que os portugueses estão a adoptar comportamentos mais racionais e mais responsáveis, ajustando os seus hábitos de consumo e mudando do crédito para o débito. Tudo muito racional.
O que realmente surpreende é o endividamento dos portugueses para fazer férias. Como se não bastasse o endividamento por compra de casa própria, de automóvel ou de outros bens de consumo duradouro, os portugueses endividam-se para fazer praia em Tenerife ou Cancun ou para fazer um cruzeiro no Mediterrâneo ou, ainda, passar uns dias na serra Nevada.
O slogan “faça férias e pague depois” que, ainda há poucos anos era abundantemente publicitado pela Banca, muito contribuiu para este vício do cartão de crédito e para a armadilha do dinheiro de plástico.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Afinal, o Mota é muito vulgar

Numa altura em que as notícias e os sinais da crise já assustam, com os transportes públicos cheios de pessoas inquietas e tristes, com o desemprego e a pobreza a aumentarem e com as lojas e os restaurantes sem clientes, a notícia do Correio da Manhã é um verdadeiro murro no estômago. O jovem ministro, que é um político profissional, quando era deputado deslocava-se para a Assembleia da República numa Vespa e utilizou esse mesmo transporte no dia da sua tomada de posse, mas deslumbrou-se e utiliza agora um luxuoso Audi A7 novo, avaliado em 86 mil euros.
Os serviços do ministério desculparam-se ao afirmar que o carro foi comprado por concurso lançado pelo anterior governo e que o ministro não dispunha de qualquer viatura desde que tomou posse. São tão ridículas essas justificações que nem merecem comentário.
O ministro deveria ter recusado esse carro novo que é uma afronta para os idosos, para os desempregados, para os funcionários públicos, enfim, para todos os contribuintes.
E este não é um ministro qualquer: é o Ministro da Solidariedade e Segurança e Social. Ele deveria dar o exemplo de sobriedade e de solidariedade, numa altura em que uma boa parte da população, começa a passar fome e a não ter dinheiro para os seus medicamentos, nem para fazer face às suas necessidades básicas.
Ao utilizar aquela luxuosa viatura no actual contexto social, o ministro Pedro Mota Soares passou "da jeropiga para o whisky velho" e surpreendeu, tornando-se uma personagem muito vulgar que não resistiu ao novo-riquismo que tanto tem contribuido para nos afundar.

domingo, 27 de novembro de 2011

O nosso fado como património cultural

A UNESCO adoptou em 2003 uma convenção sobre património cultural imaterial, onde se incluem as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões, assim como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados, que as comunidades, os grupos ou os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural.
Desde 2008, o primeiro ano em que a convenção se materializou, que a UNESCO já classificou 213 candidaturas que foram aprovadas e integradas na Representative List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity. Hoje, o Fado passou a integrar essa Lista, juntando-se, por exemplo, ao tango, ao flamenco e à ópera chinesa, o que constitui um facto relevante no panorama da cultura portuguesa.
A candidatura portuguesa foi muito bem preparada e foi muito apoiada pela comunicação social. Durante alguns dias a crise financeira e o orçamento para 2012 foram esquecidos. Falou-se de fado e ouviu-se fado a toda a hora, tendo sido produzidas inúmeras declarações que salientaram os benefícios da candidatura: o reconhecimento do que "já estava no coração das plateias internacionais", a “reconciliação nacional” com o fado, uma nova oportunidade para o “negócio das casas de fado”, a consagração das novas gerações de fadistas, entre muitos outros.
Porém, a mais surpreendente declaração surgiu da fadista Mariza ao defender que o fado deve passar a ser ensinado nas escolas, constituindo um factor de orgulho para os portugueses e defendendo a inclusão do fado na disciplina de História no 7º ou 8º ano de escolaridade. Podemos rejogizar-nos com a decisão da UNESCO, mas não nos podemos embriagar com tanto fado! Nem tanto ao mar, nem tanto à terra...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A crise financeira já chegou à Alemanha?

A imprensa europeia destacou hoje que o Tesouro alemão, num leilão da sua dívida realizado ontem, apenas colocou 61% de um pacote de 6 mil milhões de euros e sofreu a maior subida de juros desde a criação da moeda única. Disse-se, então, que aquele leilão foi um sintoma de que a crise financeira pode estar a chegar à Alemanha e que esta "provou um pouco do seu próprio veneno".
São apontadas três razões principais para este desinteresse dos investidores pela dívida alemã. Em primeiro lugar, a percepção de que a crise e as dificuldades financeiras estão a chegar à Alemanha por abrandamento económico, por contágio e por exposição às dívidas de vários países; em segundo lugar, o facto do juro de 2% representar um rendimento demasiado baixo para ser considerado atraente para os investidores, quando em alternativa têm aplicações com juros bem mais altos em outros países; em terceiro lugar, um eventual afastamento de investidores de fora da Zona Euro, que antes compravam dívida pública em euros.
Actualmente, a Zona Euro já estará em recessão e, previsivelmente, irá ampliar os seus défices orçamentais e enfraquecer ainda mais a qualidade dos activos bancários. O "aviso" agora feito à Alemanha pode abrir caminho a novas soluções. Por isso, começam a surgir vozes que exigem uma mudança no comportamento do governo alemão na condução da crise das dívidas soberanas europeias. Muitos consideram que a chanceler devia adoptar uma postura diferente, dando o seu acordo para a emissão conjunta de obrigações europeias (eurobonds) e para que o Banco Central Europeu actue como credor de último recurso. É preciso que a Alemanha mude de estratégia e, como afirmou Manuel Marin, o antigo vice-presidente da Comissão Europeia, "necesitamos una Alemania europea y no una Europa alemana".

A greve geral como protesto

Hoje, 24 de Novembro, há uma greve geral em Portugal promovida conjuntamente pelas duas maiores centrais sindicais, que afecta todo o tipo de transportes, as escolas e os hospitais, os serviços públicos e as repartições, enfim, transtorna a vida dos portugueses.
Foi anunciado que a greve contesta as recentes medidas de austeridade do governo, nomeadamente os cortes nos subsídios de férias e de Natal dos funcionários do sector público, mas também os "enormes e brutais sacrifícios" pedidos aos trabalhadores.
Segundo a teoria, a greve é uma arma dos trabalhadores contra os patrões que exploram a força de trabalho alheia, acumulam mais-valias e enriquecem à custa dos trabalhadores. Por isso, embora sob a capa de uma greve geral, na realidade estamos perante um quadro diferente de motivações que não são de reivindicação salarial mas que se traduz num protesto contra as políticas que nos estão a ser impostas e que o nosso impreparado governo segue fielmente.
No difícil momento por que passamos é necessário alertar este governo de maioria e acordá-lo para as realidades, porque tem sido incapaz de ir para além do caderno de encargos da troika e está a castigar o mundo do trabalho e os pensionistas com severidade, enquanto poupa a classe política, a banca e a especulação financeira. Sem dúvida que é preciso reduzir a dívida e o défice, mas isso não se consegue sem coesão social, nem com este empobrecimento material, nem com esta inquietação psicológica que estão a ser impostos aos portugueses. Esta espiral de austeridade e recessão que nos é imposta por uns contabilistas apoiados por numerosos e dispendiosos assessores, é uma cartilha suicida que nos pode levar ao desastre económico e à desordem social.
Por tudo isto, esta greve geral é justa e apenas se espera que tenha eco e produza efeitos nas instâncias internas e internacionais que nos governam ou nos financiam.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Visitemos os nossos faróis!

Os faróis são ajudas à navegação que, apesar das modernas tecnologias de posicionamento no mar, continuam a ser muito importantes na sinalização marítima e no auxílio aos navegantes. Porém, os faróis são também elementos caracterizadores da paisagem marítima e ligam-nos a muitas memórias das comunidades marítimas, evocando tempestades e naufrágios.
Por todo o mundo, os faróis estão a ser preservados devido ao seu valor simbólico e patrimonial e, por vezes, surgem associações de entusiastas que defendem a preservação dos faróis e alimenta-se alguma lighthousemania.
A Marinha não está alheia a este interesse e decidiu facultar visitas gratuitas aos faróis portugueses todas as quartas-feiras das 14.00 às 17.00 horas, numa iniciativa destinada a dar a conhecer a missão dos faróis e as funções dos faroleiros. Porém, esta iniciativa também constitui um forte incentivo para a aproximação ao mar e à cultura marítima da população portuguesa e, especialmente, dos jovens.
As visitas serão guiadas pelos respectivos faroleiros residentes que acompanharão os grupos de visitantes e explicarão a história das edificações e o funcionamento técnico dos equipamentos, ocorrendo às 14.00, 15.00 e 16.00 horas, sem necessidade de marcação previa. Os faróis abertos semanalmente a visitas localizam-se no Continente (17), na ilha da Madeira (1) e no arquipélago Açores (12).
Aproveite-se a oportunidade e, com os filhos ou com os netos, visitem-se os nossos faróis!