sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Há um cavaco que vai ficar na história

Aníbal Cavaco Silva, natural de Boliqueime, ex-funcionário do Banco de Portugal e doutor em Economia, continua a surpreender-nos quando faltam 112 dias para que abandone o Palácio de Belém e para nos vermos livres dele. Ainda falta muito tempo, a paciência está a esgotar-se,  mas temos que aguentar.
As sondagens mostram há muito tempo que nunca um Presidente da República Portuguesa teve tão baixos níveis de popularidade, resultantes da sua mediocridade cultural, mas também da sua falta de isenção política e da forma como se desculpa das coisas e como se envolveu ou falou do BPN e do BES.
Um dia destes, exibindo um desapropriado ar novo-riquista, afirmou que sabia muito bem aquilo que irei fazer e todos sabem que sou totalmente insensível a quaisquer pressões, venham elas de onde vierem”, mas no dia seguinte avisou que não iria comparecer às comemorações oficiais da implantação da República “porque tem de se concentrar na reflexão sobre as decisões que terá de tomar nos próximos dias". Em que ficamos? Então sabe muito bem (porque estudou todos os cenários) ou precisa de se concentrar (porque anda desconcentrado)?
Para uns é uma desculpa qualquer, para outros é uma falta de respeito, para outros é, simplesmente, o medo dos jornalistas e, sobretudo, o medo de monumentais e justas assobiadelas. Quando o Presidente da República decide não comparecer à cerimónia da Implantação da República, dá um mau exemplo de cidadania e, a 112 dias do fim da sua comissão presidencial, reafirma uma vez mais que quer ficar na História como o maior fiasco que tivemos no século XXI. Isto é um abcesso! Muita razão tinha a minha prima quando disse que "o rapaz deixou Boliqueime, mas Boliqueime nunca deixou o rapaz".

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Os ratos travestidos de comentadores

Hoje termina a campanha eleitoral em que fomos bombardeados por muitos jornais, muitíssimos jornalistas e alguns comentadores, cujo alinhamento politico-partidário envergonha os códigos éticos do jornalismo – rigor, objectividade, imparcialidade, verdade, independência. Muitas dessas tristes personagens, revelaram não ter qualquer ponta de dignidade e prestaram-se a papéis de uma confrangedora mediocridade.
Assistimos à publicação e à divulgação televisiva de demasiada “matéria encomendada”, muitas vezes para pagar os favores recebidos durante quatro anos e, asssistimos, também, a uma completa demissão do papel fiscalizador dos jornalistas – o quarto poder – pois aliaram-se ao governo e repetiram exaustivamente as suas mentiras, ignorando o tratamento dos temas sociais que tanto nos empobreceram. Essa postura é altamente reprovável e revela que a liberdade de imprensa e o direito a ser informado com rigor e objectividade já conheceu melhores dias entre nós. Porém, se essa atitude pode ser compreendida nos estagiários e nos jovens jornalistas que procuram assegurar o seu precário emprego, já o mesmo se não pode dizer dos pseudo-comentadores televisivos que, desde há muito tempo, aproveitaram a sua condição para fazer campanha partidária da forma mais grosseira e atrevida que lhes foi possível. Repetidamente, pouparam qualquer crítica substantiva ao passos e à sua dama de companhia portas e, repetidamente e durante longos tempos de antena televisivos, criticaram o candidato do maior partido da oposição. Cinicamente. Depois, ainda andaram na rua e nos comícios de bandeirinha na mão a repetir as suas atoardas contra o costa. Que triste figura! Que bandalheira! Que vulgaridade! Assim a política é uma vigarice. Afinal, eles não passam de uns pobres ratos do regime que se travestiram de comentadores. Há gente para tudo!

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A França atacou o jihadismo na Síria

A contínua chegada à Europa de milhares de refugiados, provenientes sobretudo da Síria e de outros países em guerra, parece ter acordado as autoridades europeias, depois de mais de quatro anos de destruição e morte, com o apoio não assumido de alguns países europeus, sobretudo no que respeita ao fornecimento de armas a todas as forças anti-Assad. Tal como Saddam Hussein ou Muammar al-Kaddafi, o presidente Bashar al-Assad não será um modelo de democrata mas tem uma educação ocidental, embora seja muito hostilizado pelo ocidente talvez porque esteja no centro de uma luta de interesses estratégicos e de um conflito étnico-religioso que ultrapassa as suas fronteiras. Lamentavelmente, os mesmos estrategas ocidentais que não perceberam que o desaparecimento de Saddam Hussein ou Muammar al-Kaddafi iria desequilibrar os seus domínios e levaria à grave anarquia e à ascensão de poderes tribais nesses países, também se voltaram a enganar em relação à Síria e levaram ao aparecimento do Daesh ou Estado Islâmico.
Durante mais de quatro anos, nem os Estados Unidos, nem a Rússia, nem os aliados de cada uma dessas potências, conseguiram parar a guerra, sobretudo porque os americanos e os europeus tinham como ponto de partida que Bashar al-Assad abandonasse o poder. Confrontados com males bem piores, os europeus têm vindo a suavizar a sua agressividade em relação a Bashar al-Assad e começam a aceitar discutir com ele um governo de transição. Hoje, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, Barack Obama e Vladimir Putin vão encontrar-se para falar da Síria e da Ucrânia.  
Entretanto, perante as repetidas ameaças de intervenção do Daesh em território francês, a França decidiu intervir em nome da sua segurança nacional e “em legítima defesa”, mesmo sem integrar a coligação internacional que combate o Daesh. Ontem, seis aviões franceses, cinco deles Rafale, atacaram e destruíram um campo de treino jihadista na Síria, depois de ter sido verificado que as populações civis não seriam molestadas e muitos jornais franceses destacaram e apoiaram esta acção. Esta intervenção tem, entre outros, o significado de que a França quer estar à mesa das negociações de paz. Então, que essas conversações venham depressa.

Catalunha: meia vitória ou meia derrota?

Realizaram-se ontem na Catalunha as eleições regionais e verificou-se uma participação histórica de 77% dos eleitores. Hoje, a generalidade dos jornais espanhóis tem nas suas primeiras páginas uma das duas frases seguintes: os independentistas catalães ganharam ou os independentistas catalães não ganharam. O diário El País sintetizou os resultados com a frase “os independentistas ganham as eleições e perdem o seu plebiscito”.
O Parlamento catalão tem 135 lugares e, por isso, a maioria é constituida por 68 deputados. A coligação independentista Juntos por Si (JxSi) teve 62 deputados, mas com os 10 deputados independentistas da Coligação de Unidade Popular (CUP) perfazem uma maioria independentista de 72 deputados. Nessas circunstâncias, os independentistas ganharam e dizem-se legitimados para “seguir em frente”.
Porém, as candidaturas independentes não alcançaram sequer 48% dos votos expressos e, nessa perspectiva, o sentido plebiscitário da votação não lhes foi favorável, isto é, houve 52% de catalães que “disseram não à aventura secessionista”. Além disso, nas quatro províncias da Comunidade Autónoma da Catalunha os resultados também não desequilibraram: os independentisrtas ganharam em Leide (63%) e em Girona (64%), mas perderam em Barcelona (44%) e em Tarragona (49%).
Estamos portanto perante uma meia vitória ou uma meia derrota dos independentistas catalães? O tempo o dirá.

domingo, 27 de setembro de 2015

A encruzilhada catalã e o futuro próximo

Hoje os catalães estão a votar e, como salienta o diário El Periódico de Barcelona, destas eleições-plebescito irão resultar sérias consequências para a Catalunha: a ruptura unilateral com a Espanha, uma reforma profunda dentro de uma Espanha unida ou a manutenção do actual status quo. Haverá vencedores e vencidos. A unidade da Espanha corre sérios riscos de entrar num processo de desmembramento que, numa primeira fase, pode vir a criar muita instabilidade social e muitos problemas económicos aos nossos vizinhos, mas também ao nosso país.
A Catalunha é uma região com um forte sentimento nacionalista e é uma nação reconhecida pela Constituição espanhola, com língua e cultura próprias. Com 7 milhões e meio de habitantes e fortemente industrializada, é a mais rica autonomia espanhola, contribuindo para a economia de Espanha com mais do que aquilo que recebe do governo de Madrid, o que contribui para o descontentamento dos sectores catalães tradicionalmente mais nacionalistas.
Apesar destas eleições autonómicas não terem sido convocadas por razões relacionadas com os desejos independentistas, exactamente para evitar os riscos de eventual inconstitucionalidade, a coligação independentista Juntos pelo Sim, que agrega vários partidos e forças políticas, nomeadamente a Convergência Democrática da Catalunha (CDC) de Artur Mas e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) de Oriol Junqueras, que já estão coligados no actual governo, são independentistas e são os favoritos nas eleições de hoje. Há quem tema que, ainda hoje, possam festejar a vitória e anunciar o início de um processo de separação da Espanha. É uma grande encruzilhada para os catalães e para o seu futuro próximo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Brasil e a desvalorização do real

A última edição da revista Veja mostra na sua primeira página um crocodilo de boca aberta pronto para abocanhar o Estado brasileiro, aproveitando a mandímbula superior para desenhar os gastos do governo (ascendentes) e a mandíbula inferior para desenhar o crescimento do PIB (descendente). Na sua simplicidade, o problema está bem apresentado, isto é, a despesa crescente do Estado não pode ser suportada por economia em recessão.
Acontece que nas sociedades modernas o Estado é chamado a cumprir as funções de soberania, mas também outras funções económicas e sociais, estando presente em todos os sectores da sociedade desde a segurança à defesa, passando pela justiça, saúde, educação, obras públicas, economia, solidariedade e segurança social, cultura, entre muitas outras. Para fazer face a todas estas funções o Estado faz muita despesa e, porque as necessidades tendem a aumentar, a despesa também tende a aumentar. É portanto necessário que a economia crie mais riqueza, para poder proporcionar ao Estado o recebimentro de mais impostos directos e indirectos.
Porém, o Brasil atravessa um período de recessão e, por isso, o PIB diminui em vez de aumentar. Vem a receita do costume: reduzir despesas e aumentar impostas e taxas. Além disso,  vem também a desvalorização da moeda, para que as importações sejam mais caras e as exportações sejam mais baratas. Assim está a ser feito. Há um ano o dólar valia R$ 2,39 e, conforme titulam os jornais de 23 de Setembro, agora o dólar ultrapassa os R$ 4,00: “Dólar atinge R$4,05, a maior cotação da história do Real (Estado de S. Paulo), “Dólar bate recorde e cai a R$ 3,99” (O Globo) ou “Dólar é vendido até R$ 4,56 na capital baiana” (A Tarde). Uma desvalorização de 67% em relação ao dólar, apenas num ano! Cerca de 5% ao mês.
Esta situação não pode deixar de causar apreensão aos portugueses pelas suas ligações familiares e emocionais ao Brasil, mas também obriga muita gente deste lado do Atlântico a pensar nas vantagens/desvantagens de estarmos integrados na Zona Euro e não podermos usar o mecanismo da desvalorização da moeda.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Uma luz portuguesa nos mares da China

A edição de hoje do jornal Tribuna de Macau – um dos quatro jornais macaenses que se publicam em português – assinala o 150º aniversário da entrada em funcionamento do farol da Guia que, segundo os registos, acendeu pela primeira vez no dia 24 de Setembro de 1865.
O farol da Guia foi o primeiro farol de características modernas que serviu no Extremo Oriente, tendo sido instalado na fortaleza da Guia que fora construida em 1622 quando os holandeses ameaçavam o território e que, poucos anos depois, veio a ser destruida por opção das autoridades macaenses.
O farol encontra-se sobre o monte da Guia que tem 108 metros de altitude, estando junto da capela de Nossa Senhora da Guia e assenta numa torre de alvenaria com 13,5 metros de altura e 7 metros de diâmetro, tendo sido electrificado em 1910.
O monte da Guia é um local arborizado e de grande tranquilidade, que contrasta com o ambiente citadino e com o intenso ritmo de vida que decorre à sua volta. A vista panorâmica que dele se desfruta é soberba e, em dias de boa visibilidade, podem avistar-se os territórios de Hong Kong. Significa que, para além da sua importância fundamental como ajuda à navegação, o farol da Guia se enquadra numa das mais belas paisagens de Macau. Desde 2005 que faz parte do conjunto patrimonial que foi classificado pela UNESCO como Património Mundial e a evocação da sua entrada em funcionamento há 150 anos  é muito oportuna e um sinal de que algumas boas memórias culturais portuguesas perduram em Macau.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

VW: afinal até a Alemanha tem batoteiros

Uma das maiores empresas mundiais do sector automóvel está a ser acusada pelas autoridades americanas de grosseira manipulação às emissões poluentes em vários dos seus modelos das marcas Volkswagen e Audi, que utilizam o gasóleo como combustível. Segundo foi relatado, os carros foram equipados com um dispositivo que fazia com que os mecanismos de redução de emissões fossem activados apenas quando o modelo estava a ser testado e que, na circulação normal, este dispositivo era desligado e, portanto, o carro poluía entre 10 a 40 vezes mais do que os limites permitidos por lei.
Foi um escândalo em larga escala e as acções do grupo automóvel alemão afundaram 23% na bolsa de Frankfurt num só dia. O jornal francês Le Télégramme chamou-lhe uma onda de choque, mas houve quem se lhe tivesse referido como um tsunami, como uma hecatombe ou como uma fraude, mas há suspeitas de que outros construtores de automóveis internacionais também estejam a actuar fora da lei.
Verifica-se, portanto, que não foi só a gananciosa banca que fez batota em vários países, pois a indústria automóvel parece ter seguido os mesmos princípios da ganância e do lucro a qualquer preço, sem que os poderes políticos tivessem prevenido essas situações que ameaçam agravar a crise mundial em que estamos desde 2008. O Papa tinha razão quando disse que "esta economia mata", tal como aqueles que criticam este vale tudo neoliberal, em que a ganância do dinheiro e do lucro estão acima da condição humana.
Porém, o que é mais chocante é o facto de ser a Alemanha, que se apresentava como a força da virtude, do rigor e da razão numa Europa sem rumo, a ser apanhada nas malhas desta monumental batota. Angela Merkel e Wolfgang Schäuble que tanto nos humilharam com a sua intransigência e arrogância, devem estar verdadeiramente envergonhados com tudo isto, tal como os seus submissos aliados lusitanos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Tsipras vence na Grécia e a luta continua

Nas eleições legislativas realizadas no passado mês de Janeiro, os gregos deram a vitória ao Syrisa com 36,34% dos votos (149 deputados), enquanto o seu principal adversário, que é a Nova Democracia, obteve 27,81%. Alexis Tsipras foi eleito com a promessa de acabar com a austeridade e foi nomeado chefe do governo, mas o país estava muito endividado devido à má gestão dos anteriores governos e da enorme corrupção que abala o país. Por isso, em Junho a Grécia deixou de pagar os seus compromissos junto dos credores internacionais. Estes fizeram depender a concessão de novos apoios da aceitação de mais austeridade, como a subida de impostos e os cortes nas pensões. Tsipras ficou “entre a espada e a parede”. Os bancos fecharam para evitar a corrida descontrolada aos depósitos e a Grécia esteve próximo do abismo. Pressionado interna e externamente, Tsipras convocou em Julho um referendo para que os gregos aceitassem ou rejeitassem o novo pacote de austeridade que lhes estava a ser imposto, tendo 61% do eleitorado rejeitado as imposições externas para receber ajuda financeira. Apesar disso, em face das ameaças, das circunstâncias e “para evitar um desastre”, Tsipras aceitou um acordo com os credores, com medidas ainda mais duras do que aquelas que o referendo rejeitara. Tsipras foi ridicularizado pelos seus parceiros europeus, pelas instituições e até por alguns dos seus companheiros de percurso, como Yanis Varoufakis. Sem apoio e com o seu partido dividido, em Agosto renunciou à chefia do governo. Os falcões da finança rejubilaram com a derrota de Tsipras e todos pensaram que tinha sido inventada uma vacina global contra a ameaça de novos syrisas, sobretudo na Europa do Sul. Num acto de gritante falta de solidariedade, os nossos governantes foram impiedosos na forma como hostilizaram a Grécia e Alexis Tsipras e, sem ponta de vergonha, trataram de trazer o humilhante caso grego para a nossa campanha eleitoral como factor de amedrontamento.
Ontem, nas eleições antecipadas, os gregos deram um voto de confiança a Alexis Tsipras, pois o Syrisa obteve 35,5% dos votos (145 deputados), enquanto a Nova Democracia se ficou pelos 28%. Alexis Tsipras já tomou posse como chefe do governo grego e disse que “hoje na Europa, a Grécia e o povo grego são sinónimos de luta pela dignidade”. Será que, mesmo com um sorriso amarelo, o nosso 1º Ministro já felicitou o seu colega Alexis Tsipras?

domingo, 20 de setembro de 2015

O Papa à procura da paz nas Américas

O Papa Francisco iniciou hoje uma visita de três dias a Cuba, a que se seguirão mais cinco dias nos Estados Unidos. Diz-se que é a sua viagem mais política e que também é uma das suas viagens mais difíceis e, de facto, alguns jornais americanos, caso do New Yok Post, ilustraram a sua primeira página com a fotografia do Papa a desembarcar no aeroporto de Havana com uma pasta na mão, o que sugere que vai numa viagem essencialmente de trabalho. Subjacente a esta viagem está o papel que o Papa teve no restabelecimento de relações diplomáticas entre Havana e Washington, facto que veio dar muito alento aos defensores na paz no mundo, mas também os seus esforços para que haja uma efectiva reconciliação entre Cuba e os Estados Unidos.
Em Cuba o Papa argentino procurará que a democratização do regime cubano se concretize rapidamente, que acabem as prisões e os presos políticos, que seja restaurada a liberdade de imprensa e que sejam respeitados os direitos dos cidadãos, pois essas são as condições prévias para o progresso económico e para a prosperidade do povo cubano. Depois, nos Estados Unidos, Francisco será o primeiro Papa a ser recebido na Casa Branca e, pela primeira vez também, um Papa discursará no Congresso, onde não deixará de criticar “uma economia que mata e cria desgraças”. Na sua agenda, vai levar uma mensagem de apelo ao fim do embargo americano contra Cuba que vigora desde 1962, mas também outros assuntos de grande sensibilidade e importância mundial, embora possa vir a ter a hostilidade de alguns sectores americanos mais conservadores que o têm criticado e acusado de ser terceiro-mundista, marxista e anticapitalista. De entre esses assuntos, estará certamente a crise dos refugiados que têm procurado abrigo na Europa mas, mais importante ainda, estará uma forte condenação das guerras na Síria e em outras regiões do mundo, assim como do tráfico internacional de armas praticado por países e organizações que dizem querer a paz. Parece que os Estados Unidos e a Rússia já começaram a discutir o assunto, agora mais a sério. Se necessário, o Papa que está em Havana e que vai a Nova York, também poderá ir a Moscovo, a Damasco e até a Teerão.

sábado, 19 de setembro de 2015

Por favor, livrem-nos dos banqueiros...

Durante muitos anos os bancos foram considerados como pilares do sistema económico pois prestavam serviços financeiros, isto é, captavam dinheiro dos clientes, ficavam devedores e depois restituiam-lhe capital e juros (operações passivas) e com esse capital concediam crédito a outros clientes, ficavam credores e depois recebiam deles capital e juros (operações activas). Depois, a banca passou a fazer outras operações a que chamou serviços bancários e envolveu-se nas mais diversas operações de gestão e de risco, com o objectivo de maximizar o seu insaciável lucro. Com o crescimento da economia mundial, a banca tornou-se poderosa e influente, passou a comandar o sistema financeiro e até o sistema político, muitas vezes através de actividades especulativas ou mesmo fraudulentas. Ao escândalo da falência do Lehmon’s Brothers seguiram-se outros escândalos e, segundo li, “só nos Estados Unidos faliram 380 bancos comerciais”. A falência do sistema bancário na Islândia fez com que meio milhão de depositantes perdessem as suas poupanças, enquanto na Irlanda, na Grécia, em Chipre e na generalidade dos países europeus, também muitos bancos faliram. Aqui tivemos o BPN, o BPP e o BES. Com este catastrófico desempenho da banca, era de admitir que os banqueiros se calassem e que se enchessem de vergonha. Porém, isso não está a acontecer e a sua interferência na vida política continua activa e passa as marcas do aceitável. Ontem tivemos a agência Standard and Poor’s (S&P) a melhorar o rating de longo prazo de Portugal, numa postura inoportuna, pois interfere com a campanha eleitoral. Hoje, a imprensa espanhola destaca que “a banca toma partido contra a independência” e ameaça retirar-se da Catalunha se a decisão eleitoral dos catalães no dia 27 de Setembro for no sentido da independência. Depois da vergonha que tem sido a especulação fraudulenta da banca, os banqueiros ainda têm o atrevimento de se manifestar. Ao menos calem-se!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

União Europeia está sem rumo e à deriva

São terríveis e muito dolorosas as imagens e as notícias que diariamente nos chegam sobre os refugiados que procuram fugir às guerras, de cujas responsabilidades os líderes europeus não estão isentos. É um retrato de uma Europa sem rumo, incapaz de sair da sua zona de conforto e definir uma estratégia comum de solidariedade para com os que procuram a paz, esquecendo um passado recente em que ela própria gerou milhões de refugiados. Essa incapacidade agora evidenciada de forma chocante nas fronteiras da Hungria, mas também nas medidas já tomadas pelas autoridades alemãs, austríacas, eslovacas, eslovenas e croatas, já se tinha revelado em relação à política internacional e, em especial, na forma desordenada como alguns dos seus membros actuaram militarmente no Iraque, na Líbia e na Síria. Da mesma forma, as suas posições na Ucrânia não auguram nada de bom. Além disso, a União Europeia não tem sido capaz de assumir políticas comuns viradas para o crescimento e para o emprego, estando cada um dos seus estados-membros a refugiar-se nos seus interesses nacionais e num absoluto egoismo, incompatível com o espírito do Tratado de Roma.
Paradoxalmente (ou não) os dirigentes da União Europeia têm-se mostrado muito activos em relação à crise financeira que tem penalizado gravemente os países do sul, mostrando-se intransigentes em relação às suas “dívidas soberanas”e aos juros especulativos que lhes são cobrados, que põem em causa a sua própria sobrevivência. Essa intervenção, em que se tem destacado o Eurogrupo e um tal Jeroen Dijsselbloem, tem sido um rotundo falhanço, uma constante manipulação do medo e da incerteza e uma permanente ameaça, principalmente para os gregos, mas também para os portugueses, os espanhóis, os italianos e os cipriotas. Porém, enquanto para tratar da governação, da dívida e do futuro da Grécia se fizeram maratonas de reuniões, o drama dos refugiados apanhou Bruxelas de surpresa e mostrou que a solidariedade europeia é uma farsa. É caso para perguntar a Durão Barroso, que tão activo esteve no apoio à invasão do Iraque, porque não pensou que as guerras que alimentou, ou não contrariou, haveriam de gerar a multidão de refugiados que estão a chegar à Europa. Ele e a sua corte de assessores não pensaram nisso.
A União Europeia está mesmo sem rumo e à deriva!

A pressão internacional sobre os catalães

Aproxima-se o dia 27 de Setembro em que se vão realizar as eleições regionais na Catalunha e em que, mais importante do que escolher o novo Parlamento e o futuro Chefe do Governo, os catalães vão expressar a sua vontade quanto à sua independência e à separação da Espanha. De acordo com o que se vai lendo na imprensa espanhola, em que uma parte está alinhada com o soberanismo catalão e outra parte com o centralismo madrilista, as intenções de voto nas duas correntes estão muito próximas e o resultado eleitoral é imprevisível.
Porém, a diplomacia espanhola tem estado muito activa e até Filipe VI visitou Barack Obama, sucedendo-se declarações dos maiores líderes ocidentais, como salientou na sua primeira página o diário conservador ABC, um dos periódicos que mais tem atemorizado os catalães com os riscos da sua deriva independentista. Ontem, o jornal juntou declarações de Barack Obama - “queremos uma Espanha forte unida”, Angela Merkel – “há que respeitar a legalidade internacional”, David Cameron - “quem se separa já não faz parte da União Europeia”, François Hollande – “desejamos uma Espanha forte e unida como agora” e Jean-Claude Juncker - “a Europa não aceita uma Catalunha independente”.
Não é habitual um jornal tomar uma posição editorial tão afastada da neutralidade, da verdade, do rigor, da isenção e da independência, que devem ser as normas jornalísticas por excelência. Porém, neste caso e como diria o nosso Luís de Camões, “cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro poder mais alto se alevanta”... Além disso, o jornal é frontal no seu posicionamento, não engana, não insinua, não usa a manha e não vende gato por lebre.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O preço da irresponsabilidade da banca

Um estudo do BCE hoje divulgado na imprensa, revela que entre 2008 e 2014, cada português já pagou 1950 euros para salvar bancos, isto é, o Estado já gastou 19,5 mil milhões de euros (11,3% do PIB) no apoio ao sector financeiro. É muito dinheiro! Embora este apoio seja menor do que aquele que foi concedido na Irlanda (31,1%), na Grécia (22,1%) e em Chipre (18,8%), o facto é que o BCE “dá nota muito negativa a Portugal”, sobretudo pela incapacidade que tem demonstrado para recuperar essa ajuda.
Este valor de 19,5 mil milhões de euros líquidos, engloba os diversos tipos de intervenção feitos pelo Estado ao longo da grave crise financeira nascida nos Estados Unidos com a vigarice dos subprimes e a falência do Lehman Brothers e que, em Portugal, se iniciou com a nacionalização do BPN, passou por outras intervenções no sistema bancário como o empréstimo de capital contingente ao BPI, CGD, BCP e Banif (que também teve uma injecção de fundos) e cujo capítulo final foi a intervenção no BES/Novo Banco, através do Fundo de Resolução.
A discriminação desses 19,5 mil milhões de euros é pouco transparente, vá-se lá saber porquê... Até finais de 2014 a factura real do BPN já atingia 2691 milhões de euros, enquanto 3900 milhões de euros eram emprestados ao Fundo de Resolução para resolver o Novo Banco. A execução de garantias do BPP já custou 450 milhões de euros. E há os empréstimos ao BPI (já integralmente devolvido), à CGD, ao BCP, ao Banif e  eu sei lá mais a quem, ou seja, são 19,5 mil milhões de euros, segundo o BCE!
O facto é que sabemos pouco disto, embora saibamos que no essencial a banca continua arrogante e “a comer e a beber” do melhor, como se nada tivesse acontecido. Porém, este estudo do BCE tem a virtude de provar que a difícil situação por que temos passado resulta desta irresponsabilidade da banca e de quem a geria e que não é, sobretudo, a consequência de má governação ou de termos vivido acima das nossas possibilidades, como nos últimos anos tem sido muito repetido.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Um mentiroso compulsivo e sem emenda

Uma das questões que tem provocado mais ruido na discussão pré-eleitoral em que a política portuguesa está envolvida é a de saber quem chamou a troika e quem assinou o Memorando de Entendimento. Se em relação ao Memorando assinado no dia 17 de Maio de 2011 todos nos lembramos de ver Eduardo Catroga a participar em reuniões acompanhado pelo actual Comissário Moedas e a afirmar que o nosso problema eram apenas as “gorduras do Estado”, já em relação à vinda da troika podia haver dúvidas. Sabemos que a Comissão Europeia de Durão Barroso e o BCE de Jean-Claude Trichet saudaram e apoiaram o PEC4, que teria permitido enfrentar as dificuldades, evitar o resgate e a vinda da troika com o seu programa que nos humilhou, mas esse documento veio a ser chumbado no Parlamento pela oposição. Sabemos que esse chumbo levou à queda do governo no dia 23 de Março de 2011. Hoje, ficamos a saber, através de uma carta divulgada pelo jornal Público que, no dia 31 de Março de 2011, Passos Coelho se dirigiu ao então Primeiro-Ministro já demissionário e lhe afirmou que o seu partido “não deixará de apoiar o recurso aos mecanismos financeiros externos, nomeadamente em matéria de facilidade de crédito para apoio à balança de pagamentos”. Para quem tem repetidamente afirmado nada ter a ver com a vinda da troika, nem com o conteúdo do Memorando, esta carta e as imagens da televisão de que nos recordamos, confirmam como este homem vive num mundo de continuada mentira. Fica demonstrado que, depois de chumbar o PEC 4 e a solução negociada que Barroso, Trichet e Merkel apoiavam, uma semana depois já afirmava que não deixaria de apoiar a vinda da troika, quando o governo já demissionário ainda estava atordoado pelo chumbo do PEC 4. Era seguramente o que ele queria. Parece, pois, que foi Passos quem primeiro falou do auxílio externo ou da vinda da troika. De resto, é evidente que a troika só viria para Portugal se os dois grandes partidos estivessem de acordo e até nem é importante saber qual foi o menino que primeiro levantou o dedo. O resto é conversa.