quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Pico exibe um ambiente primaveril

É sabido que a meteorologia dos Açores se altera depois do equinócio do Outono e que as chuvas se tornam mais frequentes, as ventanias muito mais fortes e a agitação marítima muito incómoda para aqueles que andam no mar. Nesta época, o famoso anticiclone dos Açores costuma deslocar-se para sul, deixando que predomine a influência das baixas pressões do Atlântico Norte, que tantas tempestades provocam nas costas ocidentais europeias. Porém, neste ano de 2015, talvez como consequência da desregulação global que atravessa tantas outras coisas deste mundo, o anticiclone dos Açores está preguiçoso e tem teimado em manter-se nas latitudes do costume, o que faz com que se esteja um tempo quase primaveril aqui nas ilhas.
No caso do grupo central do arquipélago, essa circunstância é bem visível no Pico que não se esconde nas núvens e parece divertir-se com elas, oferecendo-nos imagens de grande espectacularidade e beleza. Para os entendidos nestas coisas da meteorologia local, as núvens em volta do Pico têm um significado meteorológico preciso que eu desconheço. Sinal de bom tempo? Sinal de tempestade? Sinal de acalmia prolongada? Não sei.
Apenas sei que, com núvens ou sem elas, o Pico é sempre imponente e muito atraente.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Outros valores mais altos se alevantam

No passado dia 26 de Outubro o Parlamento da Catalunha elegeu Carme Forcadell para a sua presidência e, no seu discurso de posse, a nova Presidente declarou que “encerramos a etapa autonómica” e, sem nunca ter utilizado a palavra independência, fez a apologia dos seus valores e terminou o seu discurso com “Viva la democracia, viva el pueblo soberano y viva la república catalana”. Naturalmente, as suas palavras geraram o aplauso apoteótico de uma parte do Parlamento e um enorme silêncio da outra parte, significando que os independentistas não desistiram, antes acentuaram a luta pela independência da Catalunha e a sua separação da Espanha.
Uma vez mais, o orgulho espanhol e as instituições tremeram face à determinação dos deputados catalães e dos seus líderes, temendo pela unidade da Espanha. Por isso, houve reacções, designadamente dos líderes dos dois maiores partidos espanhóis que imediatamente se reuniram num almoço no Palácio de la Moncloa. Apesar de se irem confrontar nas eleições gerais espanholas já marcadas para o dia 20 de Dezembro, Mariano Rajoy (PP) e Pedro Sánchez (PSOE) deram público testemunho do seu acordo quanto à unidade da Espanha e quanto à rejeição do processo independentista catalão porque, como escreveu Camões em 1572 n'Os Lusíadas', “outros valores mais altos se alevantam”.
Este acto é exemplar e mostra que, mesmo em situação de acesa luta política e de disputa eleitoral, os espanhóis encontram espaço para acordos em questões estratégicas, como é a sua comum rejeição da aspiração independentista catalã. Lamentavelmente em Portugal, ao longo dos anos, não tem havido espaço para acordos de regime entre os dois maiores partidos portugueses e, provavelmente, esse será um dos grandes problemas do país. 

A Turquia já está ameaçada pela guerra

A instabilidade parece ser a característica principal da situação na Europa e nas suas vizinhanças e, como se já não houvesse tantos focos de justificada preocupação, os observadores internacionais estão agora a chamar a atenção para a Turquia e, como faz o Courrier International, pergunta se não estaremos perante uma nova Síria.
Durante muitos anos o Presidente Erdogan e o seu partido islamo-nacionalista AKP, adoptaram um modelo de democracia conservadora, aliando um capitalismo liberal com um islamismo moderado, fazendo crescer a economia e apostando na entrada na União Europeia. Porém, o que se tem passado nas suas vizinhanças e no próprio país alterou aquele quadro que aparentava estabilidade e progresso.
No próximo domingo, pela segunda vez este ano, os turcos vão às urnas para escolher o seu novo Parlamento numa altura em que o país está muito dividido e atravessa uma grave crise política e social, mas em que também está muito isolado no plano internacional por causa dos dossiers curdo e sírio. Muitos observadores não hesitam em classificar a situação de pré-guerra civil, com o Presidente Erdogan a reforçar o seu autoritarismo devido à sua obcessão com a questão curda e à perspectiva da criação de um Estado curdo nas suas fronteiras, mas também pela estagnação da economia, pelo peso dos refugiados e pelas graves dissensões internas do seu regime.
Além disso, as operações militares que tem desenvolvido contra o Estado Islâmico e contra os curdos, as manifestações da oposição ao seu regime e os violentos atentados que têm ocorrido, contribuem para um clima de grande tensão no país. Abandonada por americanos e russos, a Turquia parece à beira da implosão e o Courrier International pergunta se a Turquia não será a próxima Síria. Depois da Líbia, do Iémen, do Iraque e da Síria, iremos assistir ao colapso do Estado turco? Estaremos em vias de uma sirianização?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O futuro tão incerto dos portugueses

Há quem afirme que o maior problema português da actualidade é a Demografia e, na minha opinião, essas pessoas têm toda a razão. Na verdade, antes da Economia e das Finanças, da dívida pública e do défice orçamental, o grande desafio nacional está no nosso envelhecimento, na quebra brutal da natalidade, na emigração forçada de cerca de 400 mil jovens entre 2011 e 2014 e na incerteza do que espera cada português nos dias do futuro. Nos últimos anos, a intervenção da troika obrigou à revisão das leis laborais e os nossos governantes, obcecados com a ideia de serem bons alunos e de receberem alguns elogios do exterior, trataram de tudo aceitar, incluindo a liberalização quase total dos despedimentos e a crescente precaridade do trabalho, em nome da eficiência económica. Apesar do auto-elogio repetido até à exaustão durante a campanha eleitoral pelos seguidores do governo, o país não está melhor. A tentativa de resolver o problema estrutural das nossas finanças públicas foi inconsequente e a dívida aumentou algumas dezenas de milhar de milhões de euros. No aspecto social, a situação também é muito precária e a pobreza tem aumentado para níveis que até há bem pouco tempo eram impensáveis, como se vê nas ruas, nos autocarros e à porta dos supermercados.
Hoje o retrato social (e económico) do nosso país quase atinge algum dramatismo. Como se já não fosse grave a existência de cerca de 770 mil desempregados, o Jornal de Notícias veio revelar que há mais 700 mil trabalhadores com contratos a prazo e, ainda, 128 mil trabalhadores sem vínculo laboral, que são pagos com recibos verdes. Como é que toda esta gente tem condições para fazer uma vida digna, segura, estável e com condições para procriar? Os portugueses têm um futuro muito incerto, mas os governantes ignoram-no ou nada fazem para o resolver.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A triste herança europeia de Barroso

A Volkswagen foi acusada pelas autoridades americanas de manipular os testes relativos às emissões de óxido de azoto em vários dos seus modelos a gasóleo, uma vez que os testes escondiam que os veículos poluem entre 10 a 40 vezes mais do que os limites permitidos pela lei americana. A marca alemã admitiu esse facto e lamentou profundamente que a marca tivesse forjado os resultados desses testes, que afectam a credibilidade da marca e já se preparam para recolher 11 milhões de viaturas no início de 2016, das quais 8,5 milhões circulam na Europa. 
O escândalo rebentou em finais de Setembro, mas adquiriu agora novos contornos na sequência de uma investigação feita pelo jornal britânico  Financial Times, que é talvez o mais importante jornal económico mundial. Na sua edição de ontem, o jornal anunciou em primeira página que Bruxelas, isto é, a Comissão Europeia então presidida por Durão Barroso, foi alertada em 2013 para as “car emissions tests discrepancies”.
Segundo a investigação levada a efeito pelo jornal, o problema do confronto entre a indústria automóvel e os grupos ambientalistas não é novo e a informação revelada pelo jornal mostra que a Comissão Europeia tinha conhecimento de que as emissões verificadas nos testes em laboratório não correspondiam às emissões verificadas nos testes de estrada e que tal assunto era objecto de debate interno. Numa carta escrita em Fevereiro de 2013, o então comissário europeu do Ambiente, Janez Potocnik, informou o então comissário da Indústria, Antonio Tajani, que haveria “discrepâncias significativas” entre as emissões verificadas nos testes e as registadas em condução real. Porque não deram ouvidos a Janez Potocnik? Porque se calou Antonio Tajani? O que soube ou não soube disto o presidente da Comissão Europeia? Este caso levanta muitas suspeitas. Numa Europa desacreditada e em crise, aqui está mais um exemplo da má memória que foi a Presidência Barroso, que atirou a União Europeia para a crise, para a desorientação, para a desagregação e para o salve-se quem puder.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O perdão de Blair e o silêncio de Barroso

O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair foi entrevistado pela CNN e, apesar dessa entrevista ainda não ter ido para o ar, muitos jornais internacionais como o londrino Daily Mirror já estão a revelar alguns dos seus conteúdos mais surpreendentes e mais escandalosos. De facto, Tony Blair veio pedir desculpa pelo seu papel na guerra do Iraque, argumentando que utilizou informação errada, que não foi previsto o caos que se seguiria à queda de Sadam Hussein e que esse caos contribuiu para o aparecimento e consolidação do Estado Islâmico. A decisão da guerra contra o Iraque e Sadam Hussein foi tomada no dia 16 de Março de 2003, quando George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso se reuniram numa cimeira na Base das Lajes da qual resultou, quatro dias depois, o início da intervenção militar que conduziu à sua ocupação do Iraque e ao derrube do regime de Saddam Hussein, que viria a ser capturado, julgado e condenado à morte por enforcamento por um tribunal iraquiano.
Nesse dia, George W. Bush disse que “ou o Iraque se desarma ou é desarmado pela força", com base numa informação nunca provada de que o Iraque dispunha de armas de destruição maciça, nomeadamente químicas. Foi uma teimosia e uma obcessão americana a que aderiu com muitos sorrisos e aplausos o primeiro-ministro português Durão Barroso que, como prémio da sua indignidade e subserviência, chegou rapidamente a presidente da Comissão Europeia, onde aliás enriqueceu mas fez uma triste figura.
Na sua entrevista, Tony Blair declara-se preparado para “enfrentar o juizo da História” e destaca que outras intervenções internacionais posteriores também não deram resultados, referindo não só a intervenção com tropas no Iraque, mas também a intervenção sem tropas na Líbia e a não intervenção militar directa mas com um forte apoio à mudança de regime na Síria, concluindo que “se a nossa política não funcionou, as que se seguiram não foram melhores”.
Dez anos depois, Tony Blair pede perdão e reconhece os erros, mas o calculista Barroso guarda o silêncio e continua sem perceber o quanto nos envergonhou. Há dias, a televisão mostrou-o no congresso do PPE, a rir à gargalhada. Que tristeza! 

domingo, 25 de outubro de 2015

Os boys invadem o aparelho do Estado

O Jornal de Notícias anuncia hoje que o governo de Passos Coelho, que está em funções de gestão corrente, tratou esta semana de nomear uma centena de boys para cargos intermédios da administração pública, daqueles que não têm de passar pela Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP), designadamente cargos de director de serviço, chefe de divisão ou secretário-geral. Infelizmente, este tipo de comportamento desonesto não é um fenómeno novo porque, em maior ou menor grau, todos os governos procuraram sempre proteger os seus boys. Neste caso, a surpresa deriva destas nomeações ocorrerem já depois de conhecidos os resultados eleitorais e de se saber que o governo perdeu a maioria que o apoiava e que, provavelmente, vai para casa com o valente cartão vermelho que lhe foi mostrado pelo eleitorado. Além disso, na campanha difamatória que tem sido conduzida contra a alternativa governativa que se desenha, tem sido acentuada a credibilidade e a seriedade da dupla Passos & Portas, omitindo-se todas as suas mentiras, as ilegalidades e as práticas anti-constitucionais, a insensibilidade social e os resultados negativos da sua governação, que tanto tem afundado o país e empobrecido os portugueses. Daí que tivessem perdido quase um milhão de votos, mais de 12% dos seus eleitores e vissem os seus efectivos de deputados passar de 132 para 107, mas que pareça ainda não terem compreendido esta realidade.
Segundo revela o jornal, o Ministério da Defesa é o campeão das nomeações, o que confirma o perfil do tracinho Branco como traficante de interesses, seguindo-se o Ministério da Economia. Tudo isto é mesmo uma grande tristeza e só não dá para rir porque é tudo muito grave.

sábado, 24 de outubro de 2015

Ao qu’isto chegou!!!

Realizou-se em Madrid o congresso do Partido Popular Europeu (PPE), que reuniu os grandes líderes conservadores europeus e no qual estiveram cerca de três mil participantes, incluindo 14 chefes de Estado e de Governo. A análise dos discursos revela que houve uma troca geral de elogios e que a dois meses das eleições espanholas, este congresso foi uma ajuda de que Mariano Rajoy muito precisava para encarar as próximas eleições. As imagens televisivas mostraram algumas personalidades como o valente Nicolas Sarkozy que atacou a Líbia de Kadaffi, o estafado Silvio Berlusconi que se afogou em escândalos e o nosso José Barroso cuja incompetência deixou marcas em Bruxelas.
Angela Merkel esteve lá e, para além de pedir o voto em Mariano nas próximas eleições, exigiu que os portugueses tivessem menos férias e menos licenciados, dizendo ainda esperar que o “companheiro Pedro” possa formar governo. Mariano Rajoy foi mais longe e veio afirmar que “uma coligação de esquerda em Portugal seria negativa para os interesses de todos” e “não respeitaria” a vontade dos portugueses”, acrescentando que “seria a primeira vez na história – desde que a democracia regressou a Portugal – que não governaria o partido que ganhou as eleições”. O diário La Razón deu larga reportagem ao congresso conservador e destacou esses dois líderes em fotografia de primeira página. 
Acontece que todos se deviam preocupar mais com a desagregação da Europa, com a estagnação económica, com o desemprego, com a pobreza e a desigualdade social, com a ascensão das forças anti-democráticas, com os refugiados e a guerra na Síria, com o quadro de terror que se instalou na Líbia e com tantos outros graves problemas que afectam o nosso continente. Isso ficou em segundo plano. Angela Merkel preocupou-se com Portugal quando se devia preocupar com a Volkswagen e Mariano Rajoy preocupou-se com Portugal quando se devia preocupar com a Catalunha.
Aqui, só Manuel Alegre reagiu contra a inadmissível ingerência desta gente na nossa vida interna.
Ao qu’isto chegou!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Os jornais, os jornalistas e a propaganda

Nas últimas semanas, uma enorme quantidade de jornalistas e de comentadores, uns assalariados e outros contratados, vestiram a farda de caceteiros e atiraram-se ao PS e ao seu secretário-geral, papagueando insultos e insinuações. 
Durante a campanha eleitoral essa gente nunca questionou o Passos nem o Portas, nem as desgraças económicas e sociais a que conduziram o país, que com eles se tornou mais pobre e mais dependente. Obcecados, só lhes interessou confrontar o Costa com o seu programa, com os seus objectivos e com as suas intenções. Todos os dias, essa gente repetia os mesmos argumentos, as mesmas perguntas, as mesmas palavras e fazia as mesmas insinuações. Espalharam o medo e a incerteza no eleitorado. Alguns deles, acantonados nas televisões, no Observador, no Sol e em outros pasquins semelhantes, encheram páginas de artigos cirúrgicos contra o Costa e contra a mudança.
Vieram as eleições e os resultados retiraram a maioria a quem nos governava. Assim, era exigível que tendo perdido a maioria, eles procurassem um compromisso para se manterem no poder, assumindo com humildade a sua nova condição. As partes não chegaram a acordo porque quem tinha que ceder não cedeu, mas o ambiente foi uma vez mais perturbado pelos mesmos jornalistas e comentadores que se voltaram a mobilizar para criar uma onda de dúvida e de temor na opinião pública e para continuar a difamar o PS e o seu secretário-geral. E tantas vezes repetem as mesmas mentiras, as mesmas inverdades ou as suas maliciosas opiniões, que toda essa manipulação passa a ser uma verdade quase absoluta para a opinião pública cansada e anestesiada. Tudo isto é feito de uma forma perversa, porque essa gente aprendeu que uma mentira mil vezes repetida se torna numa verdade inquestionável, como lhes ensinou Joseph Goebbels. É isto que se passa, com esta miserável gente a perder toda a honorabilidade e sujeitar-se a este papel de caluniadores sem escrúpulos. A política não pode ser assim. E agora temos o paradoxo de ver quem esteve na Alameda em 1975, ser considerado como um perigoso esquerdista e a pôr em causa os nossos compromissos internacionais. Força António Costa!

Cavaco e um discurso que nos envergonha

Ontem, o indivíduo que  exerce as funções de Presidente da República Portuguesa anunciou a indigitação do actual primeiro-ministro para formar governo, pois o seu partido foi o mais votado nas eleições de 4 de Outubro. Foi uma decisão esperada e legítima, apesar de haver muitas vozes a afirmar que “foi uma perda de tempo”. Poderia ter ficado por aí, mas o homem que veio de Boliqueime quis ir mais longe ao renunciar ao seu papel de árbitro e ao acrescentar à sua mensagem algumas verdadeiras barbaridades. Como se costuma dizer, em vez de pacificar a complexa situação que atravessamos, lançou muita gasolina para a fogueira da disputa partidária. Foi um péssimo e lamentável serviço ao país. Tirou a máscara da neutralidade e da imparcialidade e, nesta hora difícil, revelou estar ao serviço do seu partido e refém dos seus ódios, que aliás já revelara no seu famoso discurso de posse.
O que Cavaco disse revelou a pequenez de um homem e a sua definitiva incompreensão quanto ao papel de moderador que os portugueses lhe confiaram. Sem disfarçar a sua fúria, Cavaco espumou e fez afirmações de grande gravidade contra a esquerda portuguesa, que contabiliza agora 62% dos votos do eleitorado, quase lançando para a “clandestinidade” o PCP e o BE e, como escreveu um comentador, só faltando mandar avançar as canhoneiras contra a Soeiro Pereira Gomes e a Rua da Palma e, cercar o Largo do Rato para vergar o PS, acrescento eu. O indivíduo não se ficou por aí e desatou a mostrar a sua fúria contra o PS por não ter chegado a acordo com o PSD e a sua sanguessuga. No seu partido só esses génios da boçalidade que são Marco António Costa e Luís Montenegro tinham ido tão longe. Depois, de uma forma grosseira, antidemocrática e anticonstitucional, decidiu intervir com uma desapropriada pressão sobre o Parlamento no sentido de aliciar ou convencer alguns dos deputados do PS a aprovar o programa do do PSD e da sua sanguessuga e a votar contra o seu compromisso eleitoral.
Foi um discurso desapropriado e que nos envergonha. E ainda teremos Cavaco por mais 91 dias!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A verdade do Eurostat e a propaganda

O Eurostat divulgou hoje o seu NewsRelease 186/2015 e a informação que nos dá é absolutamente preocupante e alarmante, sobretudo numa altura em que estamos rodeados de incertezas e perante um provável quadro de crise política. Ao longo dos últimos meses a desenfreada propaganda governamental e dos seus aliados da comunicação social garantia que estávamos no bom caminho, que tudo corria bem, que os cofres estavam cheios e até avisavam os eleitores para que tivessem cuidado para não se deitar a perder tudo aquilo que fora conquistado com o sacrifício dos portugueses. O governo até teve a ousadia e o atrevimento de defender que, em pouco tempo, estaríamos entre as dez economias mais competitivas do mundo. Muitas ilusões se venderam e muitas manipulações foram feitas para anestesiar e cativar o voto do eleitorado.
Hoje, o Eurostat veio dizer-nos a verdade e tirar-nos uma parte dessa anestesia com que o governo nos manipulou: a dívida pública e o défice público, que eram as bandeiras do governo e que se dizia tinham assegurado a retoma da credibilidade externa portuguesa, estão ao nível do pior que acontece na Europa. Mais de quatro anos de governação só agravaram estes problemas. A dívida pública portuguesa em finais de 2014 continuava a aumentar e aproximava-se dos 230 mil milhões de euros, o que significa que representa 130,2% do PIB e que só é ultrapassada pela Itália (132,3%) e pela Grécia (178,6%). Relativamente ao nosso défice público de 2014 que se fixou nos 7,2%, a situação também é muito grave, pois só o Chipre está pior do que nós (8,9%). Significa que, depois dos tais sacrifícios que os portugueses fizeram, estamos na mesma ou talvez pior. Dá que pensar.
Não sabemos o que vai acontecer politicamente nos próximos dias, mas é evidente que o resultado hoje anunciado pelo Eurostat recomenda que alguma ou muita coisa mude. 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Brasília sofre com o aquecimento global

No tempo do Presidente Juscelino Kubitschek, que entre 1956-1961 foi o 21º Presidente do Brasil e ficou conhecido por JK, iniciou-se a construção da nova capital federal brasileira que concretizava uma ideia antiga de promover o desenvolvimento do interior e a integração territorial e económica do país. JK convidou o urbanista Lúcio Costa e o arquitecto Oscar Niemeyer para projectarem a nova cidade e os seus principais edifícios públicos numa perspectiva moderna. Eles fizeram-no de uma forma inovadora que impressionou pela sua ousadia e o facto é que, em 1987, a cidade foi classificada como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO. Actualmente, a cidade é considerada um monumento a céu aberto e na sua área metropolitana concentram-se cerca de três milhões de pessoas. JK e a nova capital federal ficaram associados a um período de notável desenvolvimento do Brasil, de grande estabilidade política, de enorme dinamismo cultural e de acentuada aquisição de prestígio internacional, sobretudo pela construção de Brasília e pela conquista da sua primeira Copa do Mundo em futebol.
Porém, nem tudo são rosas na grande cidade, um pouco por culpa da meteorologia e das alterações climáticas. Segundo os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), as temperaturas máximas na cidade ocorrem em Outubro e a temperatura máxima absoluta historicamente registada em Brasília foi de 35,8 ºC e verificou-se no dia 28 de Outubro de 2008, seguido pelos 35,0 ºC registados no dia 15 de Outubro de 2014.
Ontem o Correio Brasiliense informava que a temperatura atingiu 36,4 ºC e acrescentava que “foi o dia em que Brasília ferveu”. Em nome do aquecimento global, o dia 18 de Outubro de 2015 entrou na história da cidade. Que os meus amigos brasilienses aguentem o melhor possível!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Rugby World Cup: o sul derrota o norte

A Rugby World Cup 2015 está a decorrer desde o passado dia 18 de Setembro em onze cidades inglesas e em Cardiff (Gales), com a presença de vinte selecções nacionais distribuidas por quatro grupos.
No fim da fase preliminar ficaram apuradas oito equipas e a grande surpresa foi a eliminação da equipa da Inglaterra, o país organizador. Depois, as oito equipas apuradas encontraram-se nos quartos de final e a Austrália, a Argentina, a Nova Zelândia e a África do Sul ficaram apuradas para as meias finais por terem eliminado, respectivamente, a Escócia, a Irlanda, a França e o País de Gales. Aconteceu, portanto, o inesperado: as equipas do sul do planeta eliminaram todas as potências do rugby europeu, aquelas que disputam o famoso Torneio das Cinco Nações.
Alguns escreveram que no rugby, tal como em muitas outras coisas, a Europa está em decadência, mas foi com os franceses que a situação foi mais dramática. A selecção da França perdeu com a Nova Zelândia por 62-13 e, a avaliar pela reacção da imprensa francesa, o país ficou em estado de choque, pois ontem os media não hesitaram na escolha dos títulos dos seus jornais – “L’humiliation” ou “La marée noire” ou “Le désastre” ou “Humiliés” ou “Comment rebâtir le XV de France?”. Não é caso para tanta mágoa dos franceses, porque uma derrota num jogo de rugby com a Nova Zelândia não é tragédia nenhuma, embora tenha havido e continue a haver outras tragédias por aí, sem que a imprensa francesa as tenha denunciado claramente.
No próximo fim de semana haverá o Argentina-Austrália e o África do Sul-Nova Zelândia, para escolher aqueles que, no dia 31 de Outubro, jogarão a final do Rugby World Cup 2015.

domingo, 18 de outubro de 2015

A guerra na Síria é um grande imbróglio

Na sua edição de ontem, o diário libanês L’Orient – Le Jour apresenta uma desenvolvida reportagem intitulada “Qui combat qui, et où, en Syrie”, na qual procurou recolher informação directa das partes sobre um conflito que desde 2011 já fez 250 mil mortos. E, sobre a guerra, o jornal pergunta: É uma revolta popular contra um regime autoritário? É uma guerra por procuração entre potências regionais? É uma luta contra o jihadismo internacional? É uma nova guerra fria entre as grandes potências? É uma guerra, se não mundial, pelo menos internacional com combatentes de diferentes nacionalidades no terreno? O jornal diz que, certamente, é um pouco de tudo isto, o torna muito complexa a compreensão do que se passa no terrreno. O último exemplo desta confusão são os raids aéreos russos que Moscovo afirma serem dirigidos contra o Estado Islâmico, enquanto os Ocidentais defendem que eles são dirigidos contra as forças da oposição ao regime de Bashar el-Assad.
Para clarificar a situação, o L’Orient – Le Jour fez um estudo com a identificação de quem combate quem e onde, com a informação tão detalhada quanto possível das forças pro e anti-regime de Bashar el-Assad actualmente presentes no território sírio. Essa lista “das principais forças presentes no terreno”, confirma a real complexidade da situação pois não há apenas dois campos que se combatem, havendo muitos outros que se combatem entre si.
Do lado do regime estão as Forças de Defesa Nacional Síria (100 mil soldados), o Hezbollah (8 mil combatentes), as forças pasdaran ou guardas da revolução iraniana (7 mil combatentes) e as milícias iraquianas xiitas (25 mil combatentes). Contra o regime de Assad estão a Frente al-Nosra, que é o ramo sírio da el-Qaëda (10 mil combatentes), o ISIS ou Estado Islâmico (50 mil), o Jaich el-Fateh (30 mil), o Ahrar el-Cham (15 mil), o Jaich el-Islam (10 mil), a Frente Sul (30 mil), a Saraya ahl el-Cham (efectivos não declarados ao jornal). Além destas, existem as forças do PYD (Partido da União Democrática Curda) com 35 a 60 mil combatentes, dos quais 40% são mulheres, que defendem a criação de um Estado Curdo e que, para isso, tanto combatem o ISIS (como aconteceu em Kobani), como o regime de Assad.
A guerra na Síria é realmente um imbróglio e a solução passa pelo entendimento, primeiro entre os Estados Unidos e a Rússia e, depois, entre, o Irão, a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar, entre outros.

sábado, 17 de outubro de 2015

A corrupção também existe na Alemanha

Todos temos presente a forma arrogante como a Alemanha trata e humilha os seus parceiros do Sul, sobretudo os gregos e os portugueses. As atitudes e os discursos alemães denotam um evidente preconceito de superioridade que julgávamos ultrapassado desde há muitos anos. Porém, em algumas ocasiões pudemos ver directamente através da televisão não só a agressividade dos seus principais dirigentes, mas também as atitudes subservientes de Vítor Gaspar e de Maria Luís Albuquerque perante o todo poderoso ministro Wolfgang Schäuble.
Há bem pouco tempo fomos surpreendidos pela grosseira batota da Volkswagen que demonstrou a todo o mundo que os alemães não têm qualquer superioridade moral sobre os seus parceiros europeus, designadamente sobre os países do Sul. Sabemos também que, enquanto maior fabricante mundial de submarinos e seu fornecedor a dezenas de países, incluindo a Grécia e Portugal, recaem as maiores suspeitas sobre a indústria alemã quanto à forma pouco transparente como decorrem esses negócios. A notícia agora divulgada pelo diário catalão La Vanguardia e por outros jornais mundiais é mesmo demolidora: a Alemanha subornou a FIFA para assegurar a realização do Mundial de Futebol de 2006. Este caso até nem admira porque Joseph Blatter, o homem que preside à FIFA desde 1998, parece estar envolvido em enormes esquemas de corrupção e até foi suspenso pelo Comité de Ética daquela organização. O que não se imaginava é que a Alemanha fosse tão longe na sua ambição e na sua ganância ou que lá houvesse tanta corrupção.