sábado, 3 de outubro de 2020

Trump brincou com o fogo e chamuscou-se

Passadas 24 horas sobre a declaração de Donald Trump de que estava infectado por covid-19, o assunto tornou-se tema de primeira página da imprensa mundial, mas não deixa de ser intrigante o facto dos jornais de referência americanos não terem divulgado ontem esta notícia, certamente porque duvidavam dela. Hoje, a questão parece mais clara, até porque Trump foi hospitalizado e começam a traçar-se cenários para o que possa acontecer até ao dia das eleições de 3 de Novembro. Joe Biden, o adversário de Trump fez uma elegante declaração a desejar a recuperação do Donald e da Melania e a alertar a sociedade americana para os riscos que corre por não cumprir os preceitos mínimos para evitar o contágio pelo covid-19.  
Algumas das notícias publicadas acentuam o desleixo e a fanfarronice do Donald e recordam as suas declarações erráticas sobre a crise pandémica. Um desses jornais é o britânico The Independent que reproduz em primeira página três das suas mais recentes declarações:

21 Setembro - It affects virtually nobody. It’s an amazing thing.

29 Setembro - I don’t wear a mask like him [Biden]. Every time you see him, he’s got a mask.

2 Outubro - Tonight… I tested positive for Covid-19

Significa, portanto, que Donald Trump brincou com o fogo e chamuscou-se. Porém, no aspecto político e em relaçâo à campanha eleitoral, ainda é cedo para saber como vai reagir o eleitorado americano, embora estejam preparadas estratégias para que o Donald tire partido da situação. Uma delas poderá ser a sua recuperação e outra poderá ser o aparecimento de uma milagrosa vacina, que tantas vezes anunciou para proteger do covid-19. Como alguém já disse, esta situação é apenas mais uma que mostra bem o declínio da América.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Donald Trump tem ou não tem covid-19?

A notícia de que Donald Trump e a sua mulher Melania estavam infectados por covid-19 não surpreendeu, embora possa não ser verdadeira. O fanfarrão é um mentiroso incorrigível e tem desafiado o bom senso em palavras e em comportamentos, não só quando sugeriu que se injectasse desinfectante para tratar o covid-19, mas também quando aparece em público sem máscara e critica jocosamente aqueles que a usam. Durante meses, o Donald desvalorizou a gravidade da pandemia que já matou mais de duzentas mil pessoas nos Estados Unidos e participou em comícios em que não foi respeitado o uso de máscara, nem o distanciamento social. Nas últimas semanas, em plena campanha eleitoral, tem dito que “a pandemia está próxima do fim” e que uma vacina está mesmo a chegar. Os efeitos desta notícia – que relata um facto verdadeiro ou não – são imprevisíveis. O mundo comunicacional e a esfera mediática estão altamente contagiados por fake news e há muita gente a duvidar da veracidade desta notícia. Hoje o New York Post e alguns outros jornais noticiam a infecção do Donald mas, surpreendentemente, as edições de hoje dos jornais The Washington Post, The Wall Street Journal e The New York Times não a referem, o que só pode significar que não acreditam ou que querem ter prova mais firme da sua veracidade. Em plena campanha eleitoral e a correr sérios riscos de não ser reeleito, este anúncio de Donald Trump gera muita desconfiança e tem boas probabilidades de ser mais uma das suas mentiras difundidas pela rede social Twitter. No entanto, há que esperar para saber o que diz a imprensa americana nos próximos dias. Ou será que o Donald e a Melania estão a encenar esta infecção para depois serem curados pela vacina que ele prometeu que iria aparecer antes de 3 de Novembro?

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Reacende-se o conflito na Catalunha

Depois que, no dia 27 de Outubro de 2017, o Parlamento da Catalunha aprovou a Declaração de Independência da Catalunha e declarou a fundação da República Catalã, o governo espanhol demitiu Carles Puigdemont que presidia à Generalitat de Catalunya, com base no artigo 155º da Constituição espanhola de 1978. Em vez de enfrentar a Justiça, Puigdemont escolheu a fuga e o exílio na Bélgica e o ambiente político catalão serenou. Vieram depois as eleições legislativas de 21 de Dezembro de 2017 que deram a maioria absoluta aos partidos independentistas com 47,5% dos votos, enquanto os partidos unionistas tiveram 43,5%. Apesar do partido mais votado ter sido o Ciudadanos com 25,35% dos votos, o independentista Quim Torra veio a ser empossado como presidente da Generalitat com o apoio dos partidos independentistas (Juntos pela Catalunha, Esquerda Republicana e Candidatura de Unidade Popular). 
Tal como o seu antecessor, também Quim Torra optou por uma presidência de confronto com o estado espanhol e hostilidade à Monarquia, tendo decidido não cumprir as ordens da Junta Eleitoral da Catalunha para que fossem removidos os símbolos independentistas dos edifícios públicos da Generalitat, designadamente os laços amarelos que simbolizam o movimento independentista catalão. Esta Junta condenou Quim Torra a um ano e meio de inabilitação por desobediência, que veio agora a ser confirmada pelo Supremo Tribunal que considerou que Torra mostrou uma “contundente, reiterada, contumaz e obstinada” desobediência às ordens da Junta Eleitoral Central. Naturalmente, Quim Torra pode e irá recorrer desta decisão, mas o que este caso vem mostrar é que o conflito catalão apenas tem estado adormecido.

O elogio ao modelo de combate à crise

Ursula Von der Leyen, a alemã que preside à Comissão Europeia, chegou ontem a Lisboa para a sua primeira visita oficial a Portugal e, durante essa visita de dois dias, já visitou diversas instituições e, hoje, participará na reunião do Conselho de Estado, a convite do venerando Chefe do Estado. A presidente da Comissão Europeia parece gostar de Portugal e nos seus discursos, sobretudo no Parlamento Europeu, tem-se referido várias vezes a Portugal como um exemplo em vários domínios. Ontem, elogiou Portugal por ter mudado eficazmente o seu mix de energia para um modelo mais sustentável e por se ter tornado uma referência no mundo digital, sobretudo a cidade de Lisboa. Porém, o que mais impressionou nas suas declarações foi o elogio feito por Ursula Von der Leyen ao “modelo português de combate à crise”, como salienta hoje o Diário de Notícias. Certamente que essas palavras foram estimulantes para o governo e, sobretudo, para a Direcção-Geral da Saúde (DGS), que tanto tem sido criticada por alguns dos especialistas que a SIC alimenta, dos quais distingo o pequeno Marques Mendes e o ideólogo interesseiro José Júdice. O comentador Marques Mendes tem criticado o governo e a DGS por “facilitismo” e afirmou que a DGS “anda a correr atrás do prejuízo”, enquanto o comentador JJ tem recorrido a uma narrativa fantasiosa para criticar toda a acção, para ele errada da DGS, reclamando mesmo a demissão de Marta Temido e de Graça Freitas. Com os elogios de Ursula Von der Leyen à estratégia portuguesa de combate à pandemia, estes dois comentadores foram desmascarados. Não passam de uns vulgares panfletários. Não merecem aparecer nos nossos televisores. Será que Júdice vai agora exigir a demissão da presidente da Comissão Europeia? E será que Marques Mendes baixa a voz e abandona os seus ridículos tiques de comentador televisivo?

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A incerteza domina o confronto americano

Estamos a trinta e poucos dias das eleições presidenciais americanas e, na sua última edição, a revista alemã Der Spiegel trata do show down (confronto) entre Donald Trump e Joe Biden ou entre o schamios (desavergonhado) e o harmios (inofensivo). No dia 3 de Novembro votam os chamados “pequenos eleitores” para escolher os delegados que formarão o colégio eleitoral de 538 membros ou “grandes eleitores”. As últimas sondagens nacionais continuam a ser favoráveis a Joe Biden com uma margem de cerca de oito pontos percentuais, mas os dois candidatos estão tecnicamente empatados nos principais swing states ou estados decisivos, isto é, a Califórnia, o Texas, a Florida e Nova Iorque, pelo que todos recordam que foi nesses estado que perderam Al Gore em 2000 e Hillary Clinton em 2016, apesar de terem tido mais votos que os seus adversários no apuramento global do país. Há apenas dois estados que são a excepção à filosofia de “quem vence leva tudo”, que são o Maine e o Nebraska, em que os delegados eleitos podem ser representantes de diferentes candidatos. Nas últimas semanas, para além dos sucessivos insultos que dirige a Joe Biden, o Donald tem sido confrontado com sérias acusações vindas da sua irmã que o considera mentiroso e cruel e vindas de uma investigação do New York Times que verificou que ele não pagou impostos em dez dos últimos quinze anos. Porém, todas as incertezas continuam presentes na corrida presidencial americana, que tão importante é para o mundo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Can you trust a covid vaccine?


A pandemia do covid-19 despertou uma verdadeira corrida para a descoberta de uma vacina que impeça o contágio pelo vírus e, por todo o mundo, a indústria farmacêutica e os laboratórios envolveram-se numa corrida contra o tempo para ganhar esse desafio. A importância desta corrida é incomensurável porque, para além dos aspectos sanitários que evitem a propagação da pandemia, também há enormes interesses económicos em jogo e os interesses políticos entraram em campo, sobretudo na corrida eleitoral americana, onde parece que a vacina ou a falta dela, irá determinar quem será o próximo presidente dos Estados Unidos que anunciou que ela aparecerá antes das eleições de 3 de Novembro. A Rússia e a China, por razões económicas e de prestígio, também têm feito tudo para se afirmar ao mundo nesta luta, anunciando ambos que a vacina aparecerá dentro de poucas semanas e informando que já têm reservas ou vendas de milhões de doses da vacina por que se espera. Algumas notícias que circulam referem mesmo que haverá 180 vacinas em teste em todo o mundo, mas as principais candidatas à invenção da vacina parecem ser a parceria entre a Universidade de Oxford e a farmacêutica britânica AstraZeneca, mais a farmacêutica americana Moderna, bem como a parceria entre as farmacêuticas americana Pfizer e alemã BioNTech, para além de vários laboratórios chineses e a já anunciada vacina russa, que já terá sido encomendada por vinte países. Até uma empresa de biotecnologia com sede no Parque Tecnológico de Cantanhede e que usa o nome Immunethep, anunciou a criação de uma vacina portuguesa. Tanto a OMS, como as agências nacionais que avaliam os medicamentos em cada país têm pedido cautelas e pressionado para que não haja precipitações até que os testes clínicos e outros estudos forneçam as evidências científicas que comprovem que a vacina é eficaz e segura, segundo os critérios cientificamente aceites. Por tudo isto, a revista Newsweek diz que, na presente conjuntura, a vacina é “um tiro no escuro” e deixa um aviso: podemos confiar numa vacina destas?

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O que dizem os comentadores da treta

Todas as estações televisivas portuguesas têm comentadores que, em princípio, são especialistas numa coisa qualquer, como a política, o futebol, o ambiente e outras matérias. Uns são mais apreciados e outros são menos apreciados pelo público, mas cada um deles esforça-se por agradar de forma a ter as audiências que lhe garanta o seu lugar de comentador que, segundo consta, é muito bem remunerado. Entre os comentadores contratados pela SIC, está o advogado José Júdice ou JJ que, sabe-se lá sabe por que razão, preenche um espaço de comentário na edição da noite da SIC Notícias a que dá o nome de “As Causas”. Podia ser interessante, mas não é. Com o seu auto-convencimento e a sua vaidade, o comentador JJ cansa quem o escuta porque recorre demasiadas vezes ao eu - eu disse, eu tinha dito, eu avisei. Além disso, fala sobre muitas coisas que não sabe, mas fá-lo sempre com um ar panfletário e de entendido, que muito o ridiculariza. A SIC merecia melhor. O comentador JJ é um demagogo e um manipulador. Não é independente nos seus comentários. Nos graves tempos de pandemia que atravessamos, tem criticado com severidade a Direcção-Geral da Saúde e os seus responsáveis, escondendo-se atrás de uma pseudo-barreira de anónimos epidemiologistas, médicos, estatistas, economistas, matemáticos, psicólogos e outros especialistas que, segundo diz, o contactam e o ajudam. Vai daí, passa a mostrar gráficos que nem sabe interpretar, mas que comenta como se soubesse, apenas para impressionar os mais distraídos. Este JJ é mesmo um verdadeiro comentador da treta. O antigo membro do MDLP e, por acaso, advogado ou ex-advogado de Isabel dos Santos, ainda tinha algum prestígio, mas com esta sua ânsia de protagonismo mediático resvalou para a valeta do ridículo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

A abençoada chuva que chegou a Brasília

Após 119 dias de seca absoluta, choveu na cidade de Brasília e foi uma festa, uma grande festa, porque foi atravessado o oitavo período mais longo de seca no Distrito Federal. O Correio Braziliense publicou uma interessante fotografia alusiva ao acontecimento e deu-lhe honras de primeira página. A população, na qual se incluem pessoas que nos são próximas, vinha sofrendo com o calor, a exposição solar e a carência de humidade, o que tornava o clima bastante penoso e quase insuportável, mas a forte chuva de ontem em toda a cidade foi uma benção que deu origem a uma euforia geral com grandes celebrações, até porque as previsões apontam para mais precipitação nos próximos dias. Naturalmente, a chuva também causou algumas inundações e perturbações no tráfego, com os habituais acidentes rodoviários que acontecem nestas circunstâncias, para além de ter alterado um pouco da paisagem urbana com as pessoas a fazer uso de guarda-chuvas e de casacos impermeáveis. Não surpreenderá que um dia destes apareça o Jair Bolsonaro a reclamar o mérito da chegada da abençoada chuva a Brasília e a dizer que ela resultou da sua acção. Agora é assim. Um pouco por todo o mundo, entrou-se numa perigosa deriva populista em que as coisas boas que acontecem se devem ao mérito dos líderes, enquanto as coisas más resultam do boicote ou da sabotagem dos outros. Só que, embora muitos alinhem nessa deriva populista, alguns exageram.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Madrid: trégua para enfrentar a pandemia

A Comunidad de Madrid é uma das 17 comunidades autónomas da Espanha, tem cerca de seis milhões e meio de habitantes e é governada desde Agosto de 2019 por Isabel Diaz Ayuso, que é militante do Partido Popular (PP). No dia 31 de Janeiro de 2020, menos de seis meses depois da sua tomada de posse, surgiu na Espanha o primeiro caso de covid-19 e, cerca de oito meses depois, a situação agravou-se com uma segunda vaga da epidemia em que o último registo assinala 14.389 novos casos num só dia! Porém, a crise pandémica não está igualmente distribuída pelo país e o vírus parece ter-se instalado na Comunidad de Madrid e na própria capital, que hoje são consideradas como uma das áreas mais afectadas da Europa, com um registo de 108.374 infectados e 8.546 óbitos (enquanto em Portugal estão assinalados 69.200 casos e 1.920 óbitos). 
O facto de Madrid ser, ao mesmo tempo, a sede do governo socialista de Pedro Sánchez e do governo popular de Isabel Ayuso, tem sido objecto de luta política entre o PSOE e o PP. No entanto, confrontados com a realidade, o primeiro-ministro espanhol (de esquerda) e a presidente da região de Madrid (de direita) acordaram no apaziguamento ideológico e no reforço da luta epidemiológica, tendo criado um grupo covid-19 para planear e coordenar as respostas necessárias ao controlo da pandemia. Acordaram numa trégua, como refere hoje o jornal ABC e Pedro Sánchez declarou que este grupo funcionará sob um princípio de coordenação e que não haverá lugar a disputas hierárquicas entre os representantes do governo nacional e do governo regional, ou entre o PSOE e o PP. Quem sabe se esta trégua ou este acordo não teria poupado muitas vidas se tivesse sido feito há mais tempo

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Uma estrela eslovena brilhou em França


O ciclista esloveno Tadej Pogacar completa hoje 22 anos de idade e ontem ganhou a 107ª edição da Volta à França. Desde 1904 que o Tour não tivera um vencedor tão jovem e a imprensa que acompanhou a prova não poupa nos adjectivos com que o classifica, pois Pogacar cometeu a proeza de bater o seu compatriota e super-favorito Primoz Roglic, mas também de ganhar três das quatro classificações importantes - a camisola amarela, a camisola branca e a camisola de líder da montanha – o que só o lendário ciclista belga Eddie Merckx tinha conseguido. Foram percorridos 3.482 quilómetros em 21 etapas, foram subidas muitas montanhas nos Pirinéus e nos Alpes, mas acabou por ser no contra-relógio do penúltimo dia e nuns escassos 36 quilómetros, que tudo se decidiu entre os dois eslovenos.

A Eslovénia está em festa e a partir de ontem tem um novo herói nacional.

Tadej Pogacar teve a sua primeira vitória como profissional em 2019 na Volta ao Algarve, que o seu compatriota Primoz Roglic vencera em 2017. Sucederam-se outras vitórias e esta ano estreou-se na Volta à França, vestindo a camisola da UAE Team Emirates. A cobertura televisiva esteve à altura do grande acontecimento desportivo e, apesar da agressividade da pandemia em toda a França, o público acorreu às estradas para ver a prova favorita dos franceses.

Terminaram a corrida 146 ciclistas e o português Nelson Oliveira foi muito discreto e, certamente, fez tudo o que os seus patrões lhe encomendaram. Chegou ao fim da prova no 55º lugar a três horas e um minuto de Tadej Pogacar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Boris Johnson e o Dis-United Kingdom

A saída do Reino Unido da União Europeia verificou-se no dia 31 de Janeiro de 2020 e, nessa altura, a população ficou dividida entre aqueles que apoiaram essa saída e os que lutaram até ao fim para que o país se mantivesse na União Europeia. Porém, nesse mesmo dia 31 de Janeiro, foi detectado o primeiro caso de covid-19 no Reino Unido e, esses dois acontecimentos – o brexit e o covid-19 – vieram transtornar um país politicamente dividido e que era governado pelo excêntrico e despenteado Boris Johnson. Talvez por descuido das autoridades, o Reino Unido tornou-se num dos países do mundo mais afectados pelo covid-19 e, até agora, estão registados mais de 40 mil óbitos. As consequências económicas também foram devastadoras e, pela primeira vez na última década, o Reino Unido entrou em recessão que corresponde à maior contração da actividade económica da história britânica, com uma queda de 20,4% do PIB no 2º semestre do ano, o que foi considerado “um desastre e um pesadelo” pelo próprio Boris Johnson. Quando da saída do Reino Unido da União Europeia, ficou por concluir um acordo comercial anexo ao acordo geral de saída, que deveria regular as relações entre ambas as partes e pudesse assegurar a continuação de boas relações comerciais. O assunto tornou-se muito conflitual, até porque o Reino Unido tem vindo a aprovar legislação que viola os acordos de saída. Por outro lado, as relações de Boris Johnson e do seu governo com a Escócia e com a Irlanda do Norte continuam tão tensas como antes e os cenários independentistas continuam activos. Daí que o jornal The Scotsman, que defende a independência escocesa, critique o governo britânico e fale num Dis-United Kingdom.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A batalha de Inglaterra foi há 80 anos


A batalha de Inglaterra aconteceu há oitenta anos e The Journal, que se publica em Newcastle upon Tyne, decidiu evocar essa efeméride na sua edição de hoje com um texto evocativo e com a fotografia de um caça Supermarine Spitfire na sua primeira página.
A batalha desenrolou-se entre Julho de 1940 e Junho de 1941 e nela intervieram como principais protagonistas os aviões da Luftwaffe e da Royal Air Force (RAF), sobretudo os caças Messerschmitt Bf 109 e os caças Supermarine Spitfire. Após muitos meses de confrontos aéreos nos céus da Grã-Bretanha e de intensos bombardeamentos diurnos e nocturnos sobre as cidades britânicas, com os quais os alemães visavam destruir o aparelho industrial britânico, desmoralizar a população e preparar a invasão das ilhas Britânicas, quando verificaram que as suas perdas se estavam a tornar demasiado pesadas em face da reacção da RAF, suspenderam os seus ataques, quando muitas cidades britânicas já tinham sofrido grandes destruições, sobretudo Londres e Liverpool. A RAF tinha perdido 1023 aviões de caça e 402 pilotos britânicos, 5 belgas, 7 checos, 29 polacos, 3 canadianos e 3 neozelandezes, mas tiveram 40 mil mortos entre a população civil. A Luftwaffe perdeu 1887 aviões, entre os quais 873 caças e 1014 bombardeiros, perdendo 2698 pilotos e tripulantes dos bombardeiros.
Foi uma impressionante vitória aliada sobre as investidas de Adolfo Hitler e essa batalha começou a alterar o rumo da guerra em desfavor da Alemanha. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill disse então que “nunca tantos deveram tanto a tão poucos” em nenhum conflito humano.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A tensão greco-turca e as armas francesas


Existe uma grande rivalidade e uma potencial conflitualidade entre a Grécia e a Turquia que tem raízes históricas, mas que se acentuou depois de 1832 quando a Grécia se tornou independente do Império Otomano. Os dois vizinhos do Mediterrâneo Oriental são distintos, tanto cultural como religiosamente, e têm passado por períodos de hostilidade, incluindo quatro guerras greco-turcas intercalados com períodos de reconciliação e cooperação. Em 1952 ambos entraram na NATO, não só como fronteira atlântica a oriente, mas também para encontrarem novas formas de relacionamento. 
Tudo corria bem, mas em 1974 a Turquia invadiu Chipre e a instabilidade voltou a ameaçar os dois países, embora o desejo turco de entrar na União Europeia tivesse atenuado essa tensão.
Porém, foram recentemente descobertas reservas de gás natural no Mediterrâneo Oriental, sobretudo na área marítima da ilha de Chipre, onde se cruzam interesses gregos, cipriotas e turcos, que se assumem como os defensores dos direitos da República Turca do Chipre do Norte.
A questão resulta da definição das plataformas continentais, pois os gregos entendem que devem ser calculadas com a inclusão das suas ilhas, enquanto os turcos rejeitam esse cálculo. A questão é polémica e apesar de haver países a querer arbitrar este conflito, os turcos avançaram para aquela área com um navio de investigação e dois navios militares de apoio “para defender os seus direitos de exploração de recursos”.
A Grécia tratou de afirmar que defenderá a sua soberania e os seus direitos soberanos, tendo pedido à Turquia que se retire da “plataforma continental grega” e tratou de enviar navios de guerra para monitorizar os turcos. Entretanto, entre muitas solidariedades que os gregos têm na União Europeia, está a França que, segundo anunciou hoje o jornal Le Figaro, acaba de vender 18 aviões de combate Rafale, helicópteros e fragatas à Grécia. Nestas situações os franceses nunca perdem tempo…  

domingo, 13 de setembro de 2020

A pandemia e o irresponsável Donald

A última edição da revista TIME dedica a sua capa e o seu principal artigo à crise pandémica que afecta os Estados Unidos e o mundo e, depois de afirmar que já morreram cerca de 200.000 americanos, que correspondem a cerca de 20% dos óbitos causados pelo covid-19 no mundo, pergunta quantas mais vidas serão perdidas até que o país acerte o caminho.
O texto é uma acusação a Donald Trump, responsabilizando-o por esta tragédia americana. Segundo aquele texto, o país está perante uma tragédia que poderia ter evitado milhares de mortos neste Verão, se as soluções da ciência e do bom senso tivessem sido seguidas, apresentando o exemplo de vários países que adoptaram medidas adequadas que tiveram bons resultados. O texto refere que os problemas sanitários americanos são generalizados a todo o país e “they start at the top”, constituindo um grave “catalog of Donald Trump’s failures” na sua incapacidade para controlar a pandemia, lembrando mesmo que até ao dia 11 de Julho ele se recusou a usar máscara em público. Terá sido essa atitude irresponsável que faz com que cerca de 66% dos americanos, isto é, cerca de 217 milhões de pessoas, continuem a não usar máscaras em público.
Outra revelação do estudo da TIME são as desigualdades da saúde pública americana, pois os americanos negros (onde se incluem as comunidades latinas e os americanos nativos) têm quase três vezes mais probabilidade do que os americanos brancos de contrair o covid-19, quase cinco vezes mais probabilidades de serem hospitalizados e duas vezes mais probabilidades de morrer. Porém, o que parece estar agora a preocupar as pessoas responsáveis é o número de americanos que afirmam estar hesitantes em receber uma eventual vacina de protecção ao covid-19, porque a sua confiança está abalada pelos sucessivos disparates que Trump tem repetido a propósito da vacina. Além disso, os especialistas temem que uma nova onda pandémica possa surgir no próximo Inverno, agravada pelo surto anual de gripe.
Porém, o que verdadeiramente surpreende, contra o que é habitual, é o desalinhamento da TIME com a política desastrosa de Trump.

sábado, 12 de setembro de 2020

A promiscuidade da política com o futebol

Expresso, edição de 12-09-2020

O semanário Expresso publicou hoje uma notícia de primeira página cujo título é “Costa e Medina na comissão de honra de Luís Filipe Vieira” e, após terem sido questionados pelo jornal, confirmaram a aceitação do convite e disseram que o fizeram na condição de adeptos. A presença do Primeiro-ministro e do presidente da Câmara Municipal de Lisboa na comissão de apoio a um candidato à presidência de um clube de futebol é um exemplo chocante da promiscuidade entre a política e o futebol, um caso de falta de senso e de paixão futebolística irracional, mas também de calculismo eleitoralista e de falta de ética republicana. Fiquei surpreendido com esta opção de António Costa e de Fernando Medina e, como cidadão eleitor, reprovo esta sua opção populista. Foi um valente tiro nos pés e num país a sério seria o seu suicídio político.
Acontece que o Benfica vai ter eleições em finais de Outubro e que já estão anunciados cinco candidatos à presidência, sendo que um deles é Luís Filipe Vieira (LFV), que governa o Benfica desde 2013 e se arrisca a tornar-se o presidente perpétuo do clube.
Porém, segundo diz o Expresso e outros jornais, nos últimos anos o Benfica e o seu presidente envolveram-se em casos de justiça, sendo LFV um dos arguidos na Operação Lex, podendo ser acusado em breve do crime de recebimento indevido de vantagem por alegadamente ter prometido cargos a um juiz desembargador no seu clube. Depois há o caso e-Toupeira, em que o Benfica foi ilibado, mas em que o seu assessor jurídico Gonçalves foi acusado dos crimes de corrupção activa e de violação do segredo de justiça pelo que foi afastado, embora continue a participar nos negócios do clube. Outro problema com LFV - que Costa e Medina apoiam - é a dívida do clube, do seu presidente ou do seu grupo ao Novo Banco, que uns jornais dizem ser de 656 milhões de euros e outros referem ser de 760,3 milhões de euros. Esse caso é muito grave porque está impune, enquanto os contribuintes estão a pagar. Hoje mesmo o Correio da Manha dizia que “Novo Banco empresta 20 milhões ao Benfica”.
Como conciliar isto tudo? Que ética é esta? A crise social e económica que temos pela frente é tão grave e tão incerta que bem precisávamos de gente sensata e de bons exemplos.
Hoje o Costa e o Medina desiludiram-me, até porque eu não acredito em almoços grátis.