terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A austeridade não é para todos!

O jornal Público informa na sua edição de hoje que o governo mandou fazer, por ajuste directo, uma centena de livros com o título “Compromisso para uma Nação Forte”, tendo pago 12 mil euros à Gráfica MaiaDouro, SA, com o dinheiro dos meus impostos, que tanta falta me faz. Segundo informa o jornal, que consultou o gabinete do ministro, o livro foi impresso em papel couché semimate e a capa tem um fundo em tons de cinza-prata com uma ilustração em alto-relevo.
A centena de luxuosos exemplares foi paga pelo gabinete do ministro Miguel Relvas e destina-se exclusivamente ao governo, provavelmente para que cada um dos seus membros possa exercitar o seu narcisismo.
Consequentemente, o livro custou 120 euros por exemplar, o que constitui uma despesa escandalosa e é um elucidativo exemplo do despesismo governamental, tanto mais grave quanto esses mesmos deslumbrados relvas, ainda há poucos meses reclamavam o corte das gorduras do Estado como solução para os nossos problemas.
Além disso, numa altura em que a austeridade se está tornar dolorosa para muitos portugueses, com mais desemprego, mais pobreza e maior desigualdade, estes maus exemplos servem apenas para aumentar o sentimento de injustiça da população e para a empurrar para o protesto.
Assim, não estamos todos no mesmo barco. Assim, a austeridade não é para todos!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa: plural como o universo

Fernando Pessoa, plural como o universo é o título de uma exposição sobre a vida e obra do poeta que a Fundação Calouste Gulbenkian apresenta, resultante de uma parceria com a Fundação Roberto Marinho e o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo.
A exposição foi inicialmente apresentada em São Paulo e, mais recentemente, esteve patente ao público no Rio de Janeiro, tendo sido visitada por cerca de 400 mil pessoas nas duas cidades brasileiras.
A exposição apresenta-se num quase labirinto espacial que destaca os heterónimos mais importantes de Fernando Pessoa - Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares – através de poemas, textos, documentos e fotografias, onde se incluem raridades como a primeira edição da Mensagem, além de outros documentos inéditos e exemplares de toda a obra de Fernando Pessoa, em português e noutras línguas. A componente multimédia da exposição é muito inovadora com filmes, vozes e sons, poemas ditos e páginas de livros que se folheiam com um só toque do visitante.
Como elementos centrais da exposição estão a arca onde Fernando Pessoa guardava os seus textos e alguns quadros, incluindo "Lisboa" de Carlos Botelho e o "Retrato de Fernando Pessoa" de Almada Negreiros, ambos pertencentes à colecção Gulbenkian. É uma exposição recomendável para todas as idades e que poderá ser visitada até ao dia 30 de Abril.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

World Press Photo 2011

O retrato de uma mulher coberta pelo véu integral a abraçar um ferido durante a revolta popular no Iémen, venceu o 55º World Press Photo, o mais importante concurso mundial de fotojornalismo. O fotógrafo espanhol Samuel Aranda foi o autor dessa fotografia publicada pelo jornal New York Times. A fotografia foi obtida no dia 15 de Outubro de 2011 em Sanaa, capital do Iémen, numa mesquita transformada em hospital pelos opositores do Presidente Ali Abdallah Saleh. O trabalho do fotojornalista espanhol foi escolhido entre as mais de 100 mil fotografias apresentadas a concurso por 5247 profissionais originários de 124 países.
Aquela fotografia tornou-se o símbolo da "Primavera Árabe", tendo sido largamente divulgada em todo o Médio Oriente e Norte de África, segundo informou o comunicado publicado pelo júri do prémio: "É uma fotografia que fala em nome de toda uma região. Representa o Iémen, o Egipto, a Tunísia, a Líbia, a Síria, por tudo o que aconteceu na Primavera Árabe e que mostra um lado mais íntimo do que se passou”.
Todas as fotografias premiadas vão integrar uma exposição itinerante a ser inaugurada no dia 20 de Abril em Amsterdão. A partir de Junho, a mostra percorrerá mais de 100 cidades em todo o mundo, incluindo Portugal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Síria: the perfect storm?

A situação na Síria agrava-se, internacionaliza-se e torna-se cada vez mais mais preocupante. O baluarte da oposição ao regime sírio é a cidade de Homs, que tem sido fortemente bombardeada, embora a contestação ao regime aconteça por todo o território. O Conselho de Segurança das Nações Unidas não conseguiu fazer aprovar uma Resolução que exigia que o Presidente Bashar al-Assad abandonasse o poder e que autorizaria uma intervenção externa para assegurar a protecção de civis, como sucedeu na Líbia. A Rússia e a China bloquearam essa Resolução e mantêm-se ao lado do regime sírio, enquanto há notícia de que 15 mil voluntários iranianos já estarão na Síria.
A Turquia mostra-se apreensiva e apela ao diálogo.
A situação geopolítica da Síria coloca-a na fronteira da moderna conflitualidade mundial – o petróleo, Israel e o Irão, o Hezbollah e o Iraque, as populações xiitas e sunitas, o estreito de Ormuz e o Mediterrâneo Oriental. O diálogo é cada vez mais necessário, sobretudo entre os sírios, mas também entre os ocidentais e os asiáticos, que parece terem encontrado uma causa ou um local para se confrontarem.
O Presidente Obama tem-se mostrado impaciente com o banho de sangue que está a acontecer mas, numa entrevista concedida ao diário Gulf News do Dubai, que é destacada em primeira página, o primeiro-ministro russo Vladimir Putin lançou um ameaçador aviso: Keep off Syria.
É um aviso que não era habitual desde os tempos da "guerra fria".
Será que no tabuleiro sírio se começa a desenhar the perfect storm?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Viagens presidenciais e perplexidades

Há cerca de dois anos um investigador da Faculdade de Economia do Porto realizou um estudo sobre as viagens organizadas pela Presidência da República e pela Presidência do Conselho de Ministros, que se baseou num inquérito e em entrevistas aos empresários convidados para integrarem as comitivas presidenciais. Esse estudo pretendia avaliar os resultados empresariais dessas viagens, mas concluia que os empresários convidados não aproveitavam para desenvolver negócios com empresários locais, mas tão somente com outros empresários da comitiva, defendendo que, tanto os empresários como o Estado, deviam repensar o modelo de participação nessas viagens presidenciais.
Todos os anos são realizadas algumas dezenas dessas viagens, por vezes com alargadas e muito dispendiosas comitivas, sem termos informação sobre a sua composição nem sobre os seus resultados empresariais. Tornaram-se rotineiras. Sem qualquer interesse para o Estado. Os próprios jornalistas convidados para integrar essas comitivas limitam-se a recolher declarações e não tratam dos resultados empresariais. Fazem uma cobertura mediática mínima e de encomenda. Nessas circunstâncias, a opinião pública desconfia do interesse de muitas dessas viagens e toma-as como um gasto desnecessário, supérfluo ou, até, um luxo de Estado.
Actualmente o Presidente da República encontra-se em visita oficial à Finlândia e na sua comitiva lá estão os habituais empresários, sem sabermos o número total de pessoas da comitiva. Entretanto, na agenda presidencial parece estar a promoção do investimento finlandês em Portugal, mas quando se começa por sugerir esse investimento à Nokia, que na véspera despedira 4 mil pessoas, ficamos na maior das perplexidades.
De facto, não consigo ver qualquer interesse nestas viagens presidenciais.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Uma quase carreira da Índia

Encontramo-nos pela primeira vez em Bombaim em Setembro de 1998 quando, por razões profissionais, seguíamos para Diu com outros companheiros. Desde então tornámo-nos amigos, por necessidades profissionais e por afinidades culturais, a que se juntavam a cumplicidade e a solidariedade que habitualmente unem aqueles que vivem ou trabalham em distantes longitudes. Representávamos instituições distintas e, entre outros, tínhamos como desafio profissional comum a defesa e a promoção da língua e da cultura portuguesas. Em Goa. Ali convivemos com a diferença religiosa e com o multiculturalismo locais. Com as cores, os odores e os sabores. Com o calor extremo e com a diluviana chuva da monção. Observamos a realidade e compreendemos o meio social. Andamos pelas Fontainhas, pelo Altinho, por Miramar e por Dona Paula. Vimos como persistem muitas saudades e nostalgias de um tempo que passou.
Depois, terminada a missão, a vida continuou no rectângulo. Em Lisboa. Aqui nos encontramos com frequência. As nossas conversas centram-se invariavelmente em Goa, nos nossos amigos comuns, nas notícias da terra, nos progressos e nos retrocessos que acontecem, no que fizemos e no que poderíamos ter feito e na amargura que sentimos pela acelerada perda de influência da matriz cultural portuguesa em Goa, Damão e Diu, sem que as nossas autoridades percebam que é preciso inverter essa tendência.
Sempre que as finanças pessoais o permitem, cada um de nós regressa entusiasmado àquelas terras. A rever os amigos. A recuperar memórias. A matar saudades. É uma quase carreira da Índia dos tempos modernos. Eu estive lá em Outubro e o JML chegou lá há cinco dias. Estou a desejar-lhe que passe bem, como bem merece, na terra que bem conhece.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Em 2011 até a banca tremeu

Os prejuízos dos três maiores bancos privados portugueses – BCP, BES e BPI - atingiram cerca de 1100 milhões de euros, quando em 2010 tinham contabilizado um lucro de 656 milhões de euros e, em 2009, de 922 milhões de euros. Segundo foi explicado, estes resultados negativos foram causados por factores recorrentes, nomeadamente relacionados com a transferência para o Estado de parte do fundo de pensões da banca, com o envolvimento nas dívidas soberanas grega e portuguesa e com as necessidades de recapitalização impostas pela troika.
Porém, se nos abstrairmos daquelas explicações técnicas, a realidade parece ser outra. De facto, facilmente verificamos que os resultados dos bancos reflectem a situação de crise económica do país, com a actividade económica a diminuir e o risco de crédito a aumentar. A concessão de crédito está a diminuir vertiginosamente, o que penaliza os proveitos dos bancos, enquanto o incumprimento está a aumentar, obrigando os bancos a reforçarem as provisões para absorver o crédito malparado.
Curiosamente, ninguém relaciona os prejuízos da banca com o que se viu nos anos mais recentes, caracterizados pela ganância dos banqueiros, por um deslumbramento irrealista dos bancários, pelo desregramento da oferta de crédito e da mensagem publicitária e, ainda, pelo imprudente estímulo ao consumo de tudo, desde a habitação até aos automóveis e às viagens.
No entanto, o nosso primeiro afirmou que os bancos portugueses estão em melhores condições do que a maioria dos bancos europeus e que não há problemas com o sistema financeiro português. Não sabemos se é um optimismo real ou se é apenas um discurso de circunstância para apaziguar os agentes económicos e os depositantes.
O facto é que em 2011 até a banca tremeu.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SOS Syrie

A revolução árabe chegou à Síria e está a desenvolver-se de uma forma muito violenta. O diário francês Libération alertou para a grave situação síria e lançou um SOS, informando que se combate em Damasco e em outras cidades sírias.
O movimento revolucionário sírio integra-se na chamada “primavera árabe”, que ocorreu na Tunísia, no Egipto, na Líbia e em outros países, embora as peripécias da mudança tivessem sido diferentes em cada um deles. Na maioria dos casos, a mudança fez-se, aparentemente, sem intervenção externa, mas houve excepções. Tal como já tinha acontecido em 2003 no Iraque, onde os Estados Unidos e os seus aliados decidiram derrubar Sadam Hussein, em 2011 as mesmas forças lideradas por franceses e ingleses decidiram derrubar Kadaffi. No caso do Iraque inventaram-se as armas de destruição maciça, no caso da Líbia arranjou-se o pretexto da protecção de civis. Ambos os países são importantes produtores de petróleo e essa circunstância levou à intervenção externa. Porém, as intervenções externas, com ou sem mandato das Nações Unidas, devem visar a separação dos beligerantes e a promoção de negociações, devendo ser acompanhadas por auxílios institucionais, políticos e económicos que criem um ambiente favorável ao entendimento das partes.
No caso da Síria está a chegar-se a uma situação dramática de guerra civil, com repressão muito violenta e mais de cinco mil mortos contabilizados, sem que o contestado presidente Bashar Al-Assad abandone o seu cargo como exige a oposição interna, a Liga Árabe, a União Europeia e os americanos. A União Europeia impôs um embargo ao petróleo sírio, apoiada pelos Estados Unidos, mas a intervenção externa – do tipo Iraque ou Líbia – tem estado bloqueada pelas posições da Rússia e da China, que apoiam e armam o regime sírio. A intervenção externa é urgente, mas terá que ser dirigida a partir das Nações Unidas, numa lógica de negociação, de entendimento e de separação de forças, que harmonize internamente o que for possível. Aquela área é muito perigosa. Altamente perigosa. A habitual lógica dos falcões não tem viabilidade na Síria. Negociação e diplomacia, sim. Guerra civil? Não, obrigado!

Vamos visitar a nossa Sagres!

A partir de amanhã e até ao dia 12 de Fevereiro, o Navio-Escola Sagres vai estar atracado no cais de Alcântara , em Lisboa, podendo ser visitado pelo público das 10.00 às 12.00 horas, das 14.00 às 19.00 horas e das 20.00 às 23.00 horas.
Esta iniciativa enquadra-se nas comemorações dos 50 anos do navio ao serviço da Marinha Portuguesa e de Portugal, constituindo uma boa oportunidade para o público conhecer um dos mais emblemáticos veleiros do mundo.
O navio foi construído em Hamburgo em 1937 e recebeu o nome de Albert Leo Schlageter. Depois da II Guerra Mundial foi incorporado na Marinha Brasileira com o nome de Guanabara, mas em 1961 foi adquirido pelo Estado Português com o objectivo de substituir o antigo navio-escola Sagres (actualmente baptizado como Rickmer Rickmers e que está atracado em Hamburgo como navio museu).
No dia 8 de Fevereiro de 1962 o navio içou pela primeira vez a bandeira portuguesa e, desde então, tem assegurado a formação marinheira dos futuros oficiais da Armada, tendo efectuado 155 viagens em que percorreu cerca de 600 mil milhas. De entre as suas missões destacam-se três viagens de circum-navegação e a sua presença como representante nacional em alguns importantes eventos internacionais. A visita ao Navio-Escola Sagres mobiliza sempre milhares de pessoas nos portos que visita, sobretudo nos Estados Unidos, no Japão e nos portos do norte da Europa. Agora são os portugueses e, em particular os lisboetas, que têm a possibilidade de visitar o mais simbólico navio português.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A crise, a vaidade lusa e os Porsche

De acordo com as estatísticas divulgadas pela ACAP – Associação Automóvel de Portugal, no passado mês de Janeiro foram vendidos 6949 veículos ligeiros de passageiros em Portugal, o que representou uma quebra de cerca de 47,4% em relação ao mês de Janeiro de 2011. Esta quebra é um dos sinais mais evidentes da grave crise económica por que passamos e é o mais baixo valor de vendas do sector automóvel dos últimos 24 anos.
A informação da ACAP revela que em Janeiro de 2012 houve 33 marcas automóveis que fizeram vendas em Portugal, das quais 29 tiveram quebras nas vendas em relação ao mesmo mês do ano anterior, enquanto verificamos que quatro marcas venderam mais unidades em Janeiro de 2012 do que em Janeiro de 2011 – Land Rover, Lancia, Jaguar e Porsche.
Parece um paradoxo, pois trata-se de quatro das mais caras marcas comercializadas em Portugal, sendo de salientar que a Land Rover teve um crescimento das vendas de 152%, enquanto a Porsche aumentou as suas vendas em 60%!
Em tempo de grandes dificuldades, estes casos são um retrato da desigualdade nacional, não ajudam ao reforço da coesão social, mostram que o sacrifício não é igual para todos e são um mau contributo para a nossa recuperação económica. Porém, as lusitanas vaidades e o novo-riquismo continuam tão vivos como nos tempos da euforia e, mesmo em época de crise, ainda há quem não dispense este sinal exterior de riqueza que é circular por aí a pilotar um Porsche. Ou serão casos de sofisticado investimento e de antecipação a uma qualquer ventania que se aproxima?

A EDP também já está no "lixo"

Desde que o Estado vendeu a sua participação na EDP à China Three Gorges Corporation, que a empresa passou a ser objecto de um redobrado interesse por parte dos meios de comunicação social. Esse interesse é compreensível, porque a entrada dos chineses no capital da EDP significa um elevado grau de confiança em Portugal, mas também a decisão de passarem a dispor de uma plataforma empresarial na Europa, com ligações a ambas as margens do Atlântico Sul. Em paralelo com esta decisão, os chineses também evidenciaram interesse em outros sectores da nossa economia, como a banca, a rede eléctrica ou a indústria automóvel.
Com esta alteração societária, a porta da EDP abriu-se para a entrada de novos membros para o seu Conselho Geral e de Supervisão e, entre outros, arranjaram novos e bem remunerados empregos naquela casa, até “porque eram amigos dos chineses”, os experientes Catroga, Cardona, Pinto, Vieira e Macedo.
Entretanto, a agência de notação financeira Standard & Poor's decidiu rever em baixa o rating da EDP em dois níveis (de BBB para BB+), colocando-a na categoria de "lixo", em linha com o recente corte do rating da República Portuguesa.
Foi uma grande surpresa. Não se imaginava que, com a entrada dos chineses, nem com a entrada de tão experientes gestores do sector eléctrico, isto pudesse acontecer à EDP.
Eu até pensava que a Standard & Poor's sossegava, só por ver o iluminado Catroga na EDP.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A corrida vai começar!

O jornal digital Dinheiro Vivo noticiou hoje que se inicia esta semana “a corrida aos mais de 400 lugares em aberto nos órgãos sociais do gigante que é o grupo Águas de Portugal (AdP)”, uma vez que lhe compete a nomeação dos novos administradores das empresas gestoras dos sistemas multimunicipais.
Segundo o referido jornal, das 32 empresas cujos relatórios e contas estão disponíveis, há 374 lugares dirigentes para nomear, ou mesmo mais. Entre remunerações e outras prestações acessórias, como carro, combustível, telefones, cartões de crédito e outras benesses a que terão direito, os futuros administradores custarão 8,3 milhões de euros por ano. Esta corrida começou há algumas semanas quando o Presidente da Câmara Municipal do Fundão, que é arguido num processo por uma dívida de 7.5 milhões de euros à AdP, foi escolhido como um dos novos administradores da mesma AdP, onde terá um salário de cerca de 150 mil euros anuais.
E agora, como será? Será que o Frexes-administrador da AdP vai exigir os 7.5 milhões de euros ao Frexes-autarca do Fundão? Esperemos para ver!
Entretanto, na passada semana (Expresso de 21 de Janeiro), num excelente artigo inserido na sua coluna Pluma Caprichosa e com base na informação de que havia 30 lugares disponíveis para distribuir cargos de administração "no mundo das Águas", Clara Ferreira Alves veio chamar a atenção benemérita da Dra. Cristas para que lhe concedesse um desses lugares. E salientava com sarcasmo: 30 lugares. É muito lugar. Lembrei-me de mim.
Afinal parece que não são três dezenas, mas serão quase quatro centenas de bons lugares a conquistar. Um apetitoso petisco para as pequenas e médias clientelas.
A corrida vai começar!

Teia de mais custos e de menos benefícios

Um amigo fez-me chegar uma extensa lista de pessoas que, directa ou indirectamente, receberam ou recebem avultadas quantias pagas pelo Estado, o mesmo Estado que nos encarcera numa teia com mais custos e menos benefícios, mas também de mais sacrifícios e de menos esperança.
São mais de três centenas de homens e mulheres que estão classificados como políticos ou como gestores. Foram ou são ministros, secretários de Estado, deputados, vereadores, presidentes disto e daquilo, entre muitas outras coisas. Têm rendimentos pagos pelo erário público verdadeiramente absurdos, entre salários, prémios de gestão, subsídios de reintegração, subsídios vitalícios, despesas de representação e outras mordomias. Muitas vezes conservam carro com motorista, cartão de crédito, gabinetes, telefones e sabe-se lá mais o quê.
São estas pessoas que têm gerido o país e que o conduziram ao estado a que chegou. Com quase absoluta impunidade. Alguns deles são respeitáveis pessoas e têm a noção de serviço público e de bem comum. Porém, a maioria não têm currículos académicos nem prestou serviços ao país que os recomendassem para esses cargos, antes pelo contrário. Não se lhes conhecem atitudes íntegras, nem decisões corajosas. Têm vivido encostados a qualquer coisa. Subiram à custa de uma repugnante viscosidade pessoal a que, por vezes, juntaram a legitimidade de um voto popular provavelmente pouco esclarecido. Alguns andam nisto há quase quarenta anos e ninguém os trava. Sempre a sacar!
E chegamos ao paradoxo máximo desta situação: o Presidente da República prescindiu do seu salário porque prefere as reformas - 10.042 euros, correspondentes às pensões de professor catedrático e de reformado do Banco de Portugal - ao mesmo tempo que a Presidente da Assembleia da República – reformada aos 42 anos de idade com 7.255,51 euros – também optou pela sua reforma.
Nem mesmo em Boliqueime ou em Valpaços serão compreendidos estes exemplos!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

BdP: primeiro o golfe, depois a supervisão

Como se não bastasse o escândalo em que o Banco de Portugal (BdP) se envolveu por não suspender o pagamento dos subsídios de férias e de Natal aos seus funcionários, com o argumento de que se rege pelas regras dos seus congéneres europeus - segundo explicou o nosso primeiro -, sabem-se agora outras peculiaridades daquela casa.
Assim, a entidade supervisora da banca nacional – que deveria ter estado atenta às trafulhices do BPN e do BPP – comprou em Setembro de 2010, por ajuste directo, equipamento de golfe avaliado em mais de cinco mil euros, segundo revela hoje o jornal i.
Em termos absolutos aquele facto não merece referência e seria irrelevante na generalidade das empresas. Porém, no caso do BdP, cujos funcionários conhecem como ninguém a situação dramática em que nos encontramos, seriam de esperar os bons exemplos de austeridade e contenção financeira. Ora a aquisição de equipamento de golfe é exactamente o contrário disso. Já não bastavam todas as mordomias que têm os funcionários do BdP, onde se incluem bons salários, imensos subsídios, facilidades de crédito e muitas outras compensações. Agora, mesmo em tempo de crise, até o golfe é subsidiado no BdP. Assim se compreende porque não supervisionaram a banca: andavam ocupados no golfe, provavelmente a pisar os green e a bater bolas com os oliveiras, os loureiros e os rendeiros.

O futuro da Europa

A Europa vive um período de grande turbulência e ansiedade que resulta da crise económica e financeira, do desemprego, da perda de competitividade, das debilidades estruturais, do elevado endividamento de alguns países e da incapacidade dos seus dirigentes, que têm conduzido a moeda única e o projecto europeu à maior crise da sua história.
A Europa parece estar sem rumo. Ainda há poucos meses havia por cá quem afirmasse que o problema português resultava de uma governação desastrosa e que um novo governo resolveria o problema através do corte das gorduras do Estado e da extinção de institutos. Ainda não tinham percebido. Afinal o problema era comum aos países do sul da Europa e, agora, parece que é de todos. Estas evoluções opinativas mostram como é enorme a desorientação e que, quer a nível interno, quer a nível europeu, não há líderes, nem ideias, nem soluções. O futuro da Europa precisa de ser debatido. Começa a generalizar-se a ideia de que as políticas de austeridade e a disciplina orçamental não bastam e que são necessárias políticas viradas para o crescimento e o emprego.
Como contributo para esse debate, os jornais El País, Le Monde, The Guardian, La Stampa, Gazeta Wyborcza e Süddeutsche Zeitung, líderes de audiência em Espanha, França, Reino Unido, Itália, Polónia e Alemanha, arrancaram hoje com um projecto comum de debate sobre o futuro de Europa. No seu primeiro suplemento inclui-se uma entrevista com Ângela Merkel e artigos subscritos por Felipe González, Gordon Brown, Anthony Giddens, Umberto Eco, entre outros. Todos tratam do futuro da Europa. Do nosso futuro. Da nossa esperança.
Os textos estão disponíveis na internet, mas o suplemento do El País parece que ainda não chegou a Portugal.