sábado, 12 de setembro de 2015

Sim ou não à independência da Catalunha

A Catalunha celebrou ontem a sua Festa Nacional, habitualmente conhecida como Diada Nacional de Catalunya, ou simplesmente Diada. A habitual festa popular que assinala a data mobilizou cerca de um milhão e meio de pessoas, tendo-se transformado numa monumental manifestação de apoio à independência da Catalunha e ocupado a grande Avenida Meridiana em Barcelona, como hoje mostra a primeira página do La Vanguardia.
O ideal independentista catalão está relacionado com o dia 11 de Setembro de 1714 quando,  depois de um cerco que durou 14 meses, a cidade de Barcelona caiu perante um exército de 40 mil homens. A queda de Barcelona determinou o fim da guerra da Sucessão (1702-1714) que tinha confrontado a Catalunha e Aragão com Castela, no contexto de um conflito à escala europeia que se tornara,  também, uma guerra civil em Espanha. Pouco tempo depois foram abolidas as instituições catalãs e iniciou-se um processo repressivo e de imposição do centralismo castelhano que durou até ao fim do franquismo. Porém, o orgulho catalão não desapareceu. Com a restauração da Monarquia e da Democracia foram restauradas as autonomias espanholas e a Catalunha recuperou as suas instituições e, sobretudo, o seu ideal independentista.
Nos últimos anos os partidos independentistas que recusam o centralismo e defendem a separação da Catalunha da Espanha ganharam muitos adeptos. Depois do governo de Madrid ter recusado às autoridades catalãs o direito de organizar um referendo como fez a Escócia, o governo da Catalunha forçou a realização de eleições regionais antecipadas para o próximo dia 27 de Setembro. As sondagens apontam para uma elevada probabilidade de vitória das forças independentistas, o que pode significar o início de um processo de separação ou mesmo de uma declaração unilateral de independência. Faltam apenas duas semanas para que as eleições catalãs se possam transformar numa autêntica e imprevisível caixa de Pandora. Ontem a Diada foi um acontecimento mobilizador. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Isabel II, o mais longo reinado britânico

A rainha Isabel II, cujo título oficial completo é Sua Majestade Elizabeth Alexandra Mary Segunda, com a Graça de Deus, da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte e territórios de Além Mar, Rainha da Comunidade Britânica e Defensora da Fé, torna-se hoje a monarca com o mais longo reinado da história britânica, ultrapassando o recorde da rainha Victoria, a sua trisavó, sendo esse facto assinalado por diversos jornais, como por exemplo The Daily Telegraph.
A rainha Victoria nasceu em 1819 e faleceu em 1901, tendo o seu reinado durado 63 anos e 7 meses e ficado conhecido como a era victoriana, que foi um período de grande mudança industrial, cultural, política, científica e militar na Grã-Bretanha, marcando a expansão e a hegemonia global do Império Britânico. Teve nove filhos e quarenta e dois netos que, através do casamento com membros de outras famílias reais e da nobreza europeia, a tornaram um referencial familiar para a Europa e lhe valeram a alcunha de “a avó da Europa”. Os maridos da rainha Victoria (Francisco Alberto) e da rainha D. Maria II de Portugal (Fernando) eram primos e membros da Casa de Saxe-Coburgo Gota, isto é, as casas reais inglesa (Windsor) e portuguesa (Bragança) tinham relações familiares.
À rainha Victoria sucederam Eduardo VII, Jorge V, Eduardo VIII, Jorge VI e Isabel II. A rainha Isabel II iniciou o seu reinado em 1952 e hoje é a rainha do Reino Unido e de quinze outros estados independentes, além de chefe da Commonwealth, que é constituída por 53 estados. Os seus biógrafos afirmam que ela conheceu 6 Papas, 10 Presidentes dos Estados Unidos e 12 Primeiros-Ministros britânicos.
Para quem não é monárquico e conhece muitas das mal-feitorias feitas pelos ingleses ao seu velho aliado lusitano, a longevidade da monarca não mereceria especial destaque, mas o seu serviço voluntário como simples motorista do Auxiliary Territorial Service durante a II Guerra Mundial e sob os bombardeamentos aéreos de Londres, foi um acto de coragem que sempre mereceu a nossa admiração.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Brasil protesta em dia de independência

O dia 7 de Setembro é, oficialmente, o Dia da Independência do Brasil. Nesse dia do ano de 1822 nas margens do pequeno rio Ipiranga, num local que hoje foi absorvido pela malha urbana da cidade de São Paulo, o Príncipe Regente do Brasil D. Pedro de Alcântara de Bragança tomou a decisão de liderar o processo de independência daquela colónia portuguesa. A História regista essa decisão como o chamado “grito do Ipiranga” e, cerca de um mês depois, o príncipe foi proclamado Imperador do Brasil com o nome de D. Pedro I. Assim começou a história do Brasil moderno que, daqui a sete anos vai celebrar o seu bicentenário.
Todos os países têm uma ou mais datas que marcam a sua História e que, juntamente com a bandeira, o hino, a língua e o território, reforçam a unidade e a identidade nacionais: os Estados Unidos têm o 4 de Julho (Dia da Independência), a França tem o 14 de Julho (Tomada da Bastilha), a Índia tem o 26 de Janeiro (Dia da República), Portugal tem o 10 de Junho (Dia de Camões) e o Brasil tem o 7 de Setembro.
Porém, este ano não houve festa no Brasil e, em vez dela, houve largo protesto e muita indignação porque a crise política é grave, a economia está em recessão com a inflação e o desemprego a subirem e a popularidade da Presidente Dilma Rousseff em níveis muito baixos. O tradicional desfile da independência que se realizou em Brasília foi pouco participado e não mobilizou a população, embora o discurso presidencial tivesse agradado a muita gente, como hoje salienta o Correio Braziliense ao destacar que Dilma “fez mea-culpa”. De facto, no seu discurso a Presidente disse que “se cometemos erros, vamos superá-los e seguir em frente”. Não é habitual que os governantes tenham a lucidez de admitir ter errado e, por isso, essa declaração deve dar esperança e ânimo aos brasileiros.
E, já agora, os meus parabéns pelos 193º aniversário do Brasil!

domingo, 6 de setembro de 2015

Refugiados sim, mas acabem com a guerra

As imagens que nos chegam pelas televisões e as fotografias que ilustram as primeiras páginas dos jornais são aterradoras e têm feito despertar a Europa que, desde há muito tempo, vinha revelando alguma indiferença perante a tragédia humanitária que a guerra na Síria e no Iraque está a provocar. Este “long walk to freedom” como ontem se lhe referiu o diário The Scotman, é uma das consequências de uma guerra, brutal com todas as guerras, que ocorre na Síria há quase cinco anos, na qual alguns Estados europeus, designadamente o Reino Unido, a Alemanha e a França, têm apoiado uma das partes do conflito com armamento e dinheiro, em vez de procurarem a paz, sem que as suas opiniões públicas questionem os respectivos governos sobre essa sua cegueira política e ausência de visão estratégica.
Tal como já acontecera no Iraque e na Líbia, a política europeia em relação à Síria, tem contribuido para a desagregação e a destruição do país e dado origem a uma tragédia humanitária com milhões de refugiados, não só internamente, mas também nos estados vizinhos e, agora, em direcção à Europa. A guerra civil que se trava entre o governo de Bashar al-Assad e as várias oposições tem sido cada vez mais “uma guerra por procuração”, em que se confrontam rivalidades religiosas e interesses económicos, representados de um lado pela Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar e, do outro lado, pelo Irão, o Líbano e uma parte do Iraque. Igualmente envolvidos nessa guerra, estão os Estados Unidos, a Rússia e os países europeus já referidos, enquanto a posição que o Estado Islâmico atingiu na região é relevante, embora com alguma cumplicidade ocidental, porque o negócio do armamento é vital para as suas economias.
É preciso que toda esta gente se entenda para acabar com a guerra e que os povos da Europa e dos Estados Unidos  se manifeste e exija esse caminho aos seus governos!
Um refugiado sírio de 13 anos de idade que chegou à Europa foi entrevistado pela Al Jazeera e, sem hesitação, disse: "Nós não queremos vir para a Europa. Só queremos que parem a guerra na Síria". Ele tem toda a razão.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Bodrum e a má consciência da Europa

Bodrum é uma cidade turca situada nas margens do mar Egeu que nos últimos anos se tornou numa das mais atraentes estâncias balneares, para onde se dirige a sociedade turca mais ocidentalizada e mais próspera. Ontem, nas areias de uma das suas praias mais procuradas apareceu o cadáver de Aylan Kurdi, uma criança síria de três anos de idade, cuja família fugia da guerra no seu país e procurava atingir a ilha grega de Kos, numa pequena embarcação que naufragou. A generalidade da imprensa mundial publicou nas suas primeiras páginas uma fotografia em que um militar turco recolhe o corpo de Aylan Kurdi. A imagem daquele menino tornou-se o símbolo da grave crise migratória que já provocou milhares de mortos entre a multidão de refugiados que foge à guerra e essa fotografia fez tremer a consciência de uma Europa que se tem mostrado incapaz de promover a paz no mundo e, em especial, nas suas fonteiras mediterrânicas. É a maior e mais grave crise de refugiados desde a 2ª Guerra Mundial e o influente jornal The Washington Post classificou aquela imagem como "o mais trágico símbolo da crise de refugiados do Mediterrâneo". No caso da Síria, mas não só, as grandes potências têm enormes responsabilidades nas tragédias humanitárias que estão a acontecer, pois foram elas que promoveram a instabilidade regional e que têm alimentado a guerra. Espera-se agora que, perante o dramatismo do que se viu no areal de Bodrum, a imprensa influencie, as opiniões públicas reajam e os dirigentes das grandes potências arrepiem caminho em nome dos ideais humanitários que os deveriam nortear, quando muitas das más memórias de um passado recente ainda estão vivas. A tragédia de Bodrum alerta-nos para os nossos deveres morais de apoiar os refugiados e exige que se ponha fim da guerra.
Nesta Europa tão egoísta e a revelar tanta falta de valores e tão má consciência, há entidades públicas e muitas organizações da nossa sociedade civil a dar mostras de grande solidariedade e humanidade e, desta forma, a honrar a tradição portuguesa de acolhimento a refugiados e, também, a memória de Aristides de Sousa Mendes.

É evidente que vamos pagar o Novo Banco

Todos nos lembramos do famoso diktat do homem do leme que em Julho de 2014, durante uma visita à Coreia do Sul, garantiu a partir de Seul que “os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo”, acrescentando que “o Banco de Portugal tem sido peremptório e categórico a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo dado que as folgas de capital são mais que suficientes para cumprir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa”. Duas semanas depois a bomba estoirou. Cavaco enganara os portugueses. No dia 3 de Agosto o Banco de Portugal anunciou uma injecção de capital de 4.900 milhões de euros e a criação de um "banco mau" e de um "banco bom", que passou a chamar-se Novo Banco. Nesse mesmo dia, através da ministra das Finanças, o governo garantiu que os contribuintes não teriam de suportar os custos relacionados com o financiamento do BES e que a nova instituição seria detida integralmente pelo Fundo de Resolução, uma pessoa coletiva de direito público criada em 2012, que funciona junto do Banco de Portugal.
Passou um ano e está tudo na mesma ou pior. Entre Agosto e Dezembro do ano passado o Novo Banco registou prejuízos de 467 milhões de euros e, no primeiro semestre de 2015, o prejuízo foi de 252 milhões de euros. É obra! Entretanto, o Banco de Portugal que, como alguém disse, sabe tanto da venda de bancos como o Jorge Jesus de literatura portuguesa, tratou de contratar assessores e consultores por ajuste directo e a respectiva factura já atinge 20 milhões de euros. Um regabofe!
Mesmo a poucas semanas das eleições legislativas, o governo quer vender tudo e depressa mas, como diz o ditado popular, “depressa e bem não há quem”. Além disso, nem a Anbang, nem a Fosun, nem a Apollo estão realmente interessadas num negócio em que são imprevisíveis os custos das litigâncias e das imparidades. Apesar da confidencialidade do processo de venda, é hoje evidente que o Estado não vai recuperar os 4.900 milhões de euros que, obviamente, serão pagos pelos contribuintes através das mais diversas formas. Ninguém tem dúvidas disso. Aqueles que disseram o contrário mentiram ou são absolutamente incompetentes. Alguns deles ainda têm o atrevimento de aparecer na televisão a embrulhar as suas responsabilidades. Que impunidade e que grande farsa!

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O pequeno caceteiro que veio de Bruxelas

O licenciado Paulo Rangel nasceu em 1968 e, segundo reza a sua biografia, entrou na política aos 33 anos de idade quando em 2001 lhe confiaram a redacção do programa de candidatura de Rui Rio à Câmara Municipal do Porto. Gostou da experiência, encostou-se aos amigos e, em vez de escolher uma carreira académica, optou por ocupar alguns bons tachos, misturando funções públicas com funções privadas. Em 2010 já se sentia alguém e decidiu disputar a liderança do PSD, mas como perdeu o confronto com Passos Coelho foi compensado com um tacho de eurodeputado muito bem remunerado em Bruxelas. Foi nessa condição que foi convidado para essa magna reunião de escoteiros sociais-democratas a que, pomposamente, chamam a universidade de verão do PSD.
Pois foi esta figurinha menor, este pateta e este verdadeiro caceteiro que nos veio dizer que foi o actual governo que tratou de confrontar um ex-primeiro-ministro e um banqueiro com a Justiça, ao afirmar com os dedos no ar que estes dois casos só estão a acontecer porque o PSD e o CDS estão no governo. Nestas condições e, ainda segundo o caceteiro-pateta Rangel, a acção da Justiça tem sido encaminhada e interpretada à luz dos desejos do PSD e do CDS, porque ninguém “acredita que se os socialistas estivessem no poder haveria um primeiro-ministro sob investigação”, isto é, a Justiça só investiga políticos quando os seus partidos não estão no governo e, portanto, a Justiça não passa de uma qualquer coisa comandada pelo governo. É triste vermos um jurista e eurodeputado, alucinado e fanático, a dizer isto. É um ignorante. É uma vergonha da nossa Democracia.
Assim, ainda segundo o referido caceteiro-pateta, temos Sócrates a ser investigado porque é do PS; temos Passos a não ser investigado no caso Tecnoforma e nas dívidas à Segurança Social porque é do PSD que está no governo; temos Portas a não ser investigado no “caso dos submarinos” porque o CDS também está no governo; temos Vara condenado no processo “Face Oculta” porque é do PS; temos Miguel Macedo a não ser constituído arguido no caso “vistos gold” porque é do PSD; temos Marco António Costa que ainda não foi constituído arguido no “caso Câmara de Gaia” porque o PSD está no governo ; e temos Dias Loureiro e toda a malta do BPN a circularem livremente por aí sem investigação, porque são do PSD. Das declarações do eurodeputado Rangel não se pode concluir outra coisa e, portanto, como diria o treinador Manuel Machado, “um imbecil é sempre um imbecil”.

Gibraltar e tanta economia paralela

Gibraltar é uma península situada a sul da península Ibérica e um rochedo a que os espanhóis chamam el Peñón, é um território britânico ultramarino e, também, um paraíso fiscal. Foi ocupado em 1704 por uma força anglo-holandesa durante a Guerra da Sucessão Espanhola e, no Tratado de Utrecht assinado em 1713, o território foi cedido à Inglaterra com a "a total propriedade da cidade e castelo de Gibraltar, junto com o porto, fortificações e fortes [...] para sempre, sem qualquer exceção ou impedimento”.
Está com este estatuto desde há 300 anos. Porém, as cedências ou as ocupações territoriais resultantes das guerras ou dos respectivos tratados de paz, mais tarde ou mais cedo geram processos de contestação, sobretudo quando não se verifica uma autêntica integração ou quando as correlações de forças se alteram. A Espanha tem reivindicado continuamente a devolução de Gibraltar e essa contestação até tem dado origem a alguma tensão diplomática. O Reino Unido já promoveu referendos em 1967 e em 2002, para que os cerca de 30 mil gibraltinos decidam do seu futuro, mas estes têm declarado quase unanimemente que querem ser colónia britânica. Parece um paradoxo, mas não é.
Gibraltar perdeu o valor estratégico de outros tempos, mas é um gigantesco shopping center, um verdadeiro mundo da economia paralela e a verdadeira capital do jogo on line, que é um dos seus grandes negócios.  Hoje o jornal ABC tenta mostrar o que Gibraltar esconde e afirma que “como todos los paraísos fiscales, Gibraltar está lleno de secretos”. Assim é de facto. Não se sabe quantos estrangeiros lá trabalham, mas estima-se que esse número se situe entre 3500 e 10 mil, sobretudo espanhóis residentes em Espanha. Porém, só 120 espanhóis têm emprego legal declarado pois os outros milhares que entram e saem todos os dias preferem ser “clandestinos e precários”, podendo ter outro emprego em Espanha ou receber qualquer tipo de subsídio, eventualmente de desemprego. As autoridades fiscais espanholas estão em vias de “cercar” esses milhares de espanhóis empregados nas companhias de jogo, nas empresas financeiras e de entretenimento, mas também os inúmeros profissionais liberais, sobretudo da área da saúde, que defraudam o fisco espanhol. Enquanto isto, como refere o ABC, os “colonialistas” gibraltinos exploram os seus “colonos” espanhóis.

O Brasil, a recessão e os dias cinzentos

O Brasil que é o país da alegria e do sol tropical, vive dias cinzentos, depois de ter sido anunciado que no 2º trimestre de 2015 o seu PIB caiu 1,9% e, como no 1º trimestre tinha caido 0,7%, em termos económicos o país entrou em recessão pois registou dois trimestres consecutivos em queda. Todos os jornais brasileiros destacaram esta notícia que é preocupante para a sociedade brasileira que, actualmente, passa por grandes dificuldades económicas e por alguma convulsão política, com muitas manifestações e muitos dos seus dirigentes a contas com a Justiça. O Correio Braziliense exagera e até diz que o Brasil está em queda livre! Porém, para quem está longe e não conhece as especificidades brasileiras, esta recessão (económica) também parece corresponder a uma depressão (psicológica), pois o país não é apenas afectado pela queda do PIB, pelo desemprego e pela inflação, mas também pela insatisfação política e pela corrupção.
Em relação ao PIB há que pensar no chamado ciclo económico, isto é, nas flutuações da actividade económica, em que aos períodos de crescimento se sucedem os períodos de estagnação ou mesmo de declínio. Esses ciclos são tão normais que foram teorizados e até receberam nomes - o ciclo de Kondratiev, o ciclo de Kitchin, o ciclo de Kuznets – consoante as suas características e a sua duração. Portanto, o Brasil está numa baixa a que se irá suceder, embora não se saiba quando, uma alta. É a lei da vida. Porém, o Brasil também vive um período político que não foi satisfatoriamente resolvido nas eleições presidenciais de 2014, porque a vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves foi escassa (51,29%), o que faz com que os brasileiros já levem mais de uma dúzia de anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT) e isso, provavelmente, cansa-os. Isto tudo acontece quando a China treme, quando a Europa se revela incapaz de resolver os seus problemas e quando o preço do petróleo cai e o comércio internacional desacelera. Finalmente, há a questão da corrupção e temos a Transparency International a classificar o Brasil como o 69º país mais corrupto do mundo, entre os 175 países avaliados. Mas, segundo a mesma agência a corrupção é muito maior, por exemplo, na Argentina, na Rússia, na Índia e na China e em mais de uma centena de outros países. Por tudo isso, se deseja que os brasileiros resistam aos títulos dos seus jornais que, por razões que só eles conhecem, estão a tender para o dramático. Vá-se lá saber porquê. Força Brasil!

sábado, 29 de agosto de 2015

A brutal destruição da memória do mundo

Embora alguns canais de televisão tivessem mostrado breves imagens da destruição do campo arqueológico de Palmyra ou de parte dele, poucos jornais destacaram esse episódio que a UNESCO já classificou como “crime de guerra” e como uma imensa perda para o povo sírio e para a Humanidade. Além disso, um dos mais importantes arqueólogos sírios responsável pelo campo de Palmyra foi assassinado porque não terá revelado os locais onde terá escondido algumas das mais valiosas relíquias históricas da cidade. Esta acção dos jihadistas do Estado Islâmico é mais um dos seus criminosos ataques a locais históricos e arqueológicos, com o fim de privar os povos das suas memórias históricas e da sua identidade, o que tem sido feito por este e por outros grupos radicais no Afeganistão, no Iraque e, agora, na Síria.
Trata-se de mais um exemplo da catástrofe e da desagregação que se verifica em diversas regiões bem próximas da Europa, não só mas também como resultado da ignorância ocidental e das suas intervenções punitivas, das suas alianças e das suas mesquinhas vinganças contra quem garantia estabilidade,  dos seus interesses menores e da sua hipocrisia.
A antiga cidade de Palmyra está classificada pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade e era um símbolo bem preservado da herança cultural greco-romana. A edição de ontem do jornal hojemacau destaca em primeira página e com grande relevância a destruição dessa memória do mundo que é o campo arqueológico de Palmyra, não deixando de ser curioso o facto de, aparentemente, nenhum outro jornal internacional ter dado semelhante destaque a essa notícia, como o fez um jornal macaense escrito em português.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

As grandes pontes ibéricas

Uma etapa da Vuelta a España ontem disputada entre Estepona e Vejer de la Frontera, na Andaluzia, levou os ciclistas a passar pela Puente de La Constituición de 1812, conhecida por Puente de la Pepa, que atravessa a baía de Cadiz e liga Puerto Real a Cadiz. A imponente ponte que será a maior de Espanha ainda não está concluida, mas foi ontem utilizada pela primeira vez como regista La Voz de Cadiz na sua edição de hoje. A imprensa espanhola, que muitas vezes trata o seu país como se não houvera mais países e mais mundo, tratou de destacar esta pré-inauguração, classificando esta ponte como uma das maiores do mundo, com os seus 3.082 metros de comprimento e com uma largura do tabuleiro variável entre 31 e 33 metros.
Acontece que a nossa Ponte Vasco da Gama tem 17,3 km de comprimento, dos quais 12 km sobre o estuário do rio Tejo, tendo uma largura de 30 metros que suporta 6 vias de rodagem. É reconhecida como a ponte mais longa da Europa e a nona mais extensa do mundo. Por isso, nesta matéria, ganhamos a Espanha e verificamos como eles são uns exagerados e quase tão chauvinistas como os franceses. Porém, o nosso problema não é o comprimento das pontes que é um tema menor e muito desinteressante. O nosso problema é não sabermos os exactos contornos financeiros que envolveram a construção da nossa ponte, isto é, quanto foi recebido do Fundo de Coesão da União Europeia, quanto foi emprestado pelo Banco Europeu de Investimentos e qual foi a participação do consórcio Lusoponte, que ficou com a concessão por 40 anos das portagens das duas pontes sobre o Tejo. Já passaram 17 anos sobre a inauguração desta tão importante obra, mas continua a haver uma densa neblina sobre o assunto, sem que saibamos a verdade sobre os negócios que lhe estão associados.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A TAP e a teimosia das privatizações

A Comissão Europeia lançou um balde de água fria sobre os privatizadores portugueses, ao declarar que não tinha jurisdição para avaliar o negócio da venda da TAP ao abrigo das regras europeias para as fusões, pelo que o processo deverá ser avaliado pelas autoridades nacionais competentes que, neste caso, é a Autoridade da Concorrência (AdC). Os nossos privatizadores não esperavam essa decisão e pensavam poder encostar-se a Bruxelas para se justificarem desta operação que vai contra o interesse nacional e o sentimento dos portugueses. Assim, a velha desculpa das imposições comunitárias foi desmascarada e a montanha pariu um rato. De facto, depois da troika ter imposto a privatização total ou parcial da TAP no Memorando que foi negociado com a participação activa de Catroga e Moedas – como bem vimos através da televisão - e depois de dois concursos internacionais realizados, esta decisão é ridícula, lamentável e deixa os privatizadores portugueses entregues à sua obcecada cruzada. Seria a altura adequada, embora tardia, para cancelar todo o processo, em vez de o entregar à AdC, cujo órgão máximo de decisão é um Conselho constituído por um presidente e dois vogais, todos escolhidos pelo actual governo, o que pode suscitar ainda mais dúvidas quanto à transparência das suas decisões.
A obcessão pela privatização da TAP é uma questão ideológica e uma farsa conduzida por fanáticos.
A TAP é uma das nossas “jóias da coroa” e não tem de passar por estes processos, contra a vontade da opinião pública e o interesse nacional. Depois de tantos elogios da Europa ao bom aluno lusitano e depois de ter sido dito que os nossos cofres estavam cheios, pergunta-se para quê e porquê esta teimosia privatizadora quando estamos a 5 semanas das eleições legislativas? A continuar esta operação, ainda irá correr muita tinta... 

O vendaval chinês pode chegar a Portugal

Desde há muitos anos que as bolsas deixaram de ser um instrumento de financiamento das empresas, para passarem a ser verdadeiras catedrais da especulação financeira e autênticos campos de batalha entre os grandes interesses capitalistas, onde se jogam as grandes variáveis económicas do comércio internacional, como o valor da moeda e o preço das exportações. É assim em todo o mundo.
Ontem foi uma “segunda-feira negra”, quando as bolsas chinesas entraram em queda, perderam 8,46% e arrastaram consigo as bolsas mundiais, isto é, a China tossiu e os mercados financeiros mundiais tremeram com as bolsas europeias a perder cerca de 5%. Desde 2008 que não se assistira a semelhante turbulência. Houve um pânico generalizado e a economia mundial viu serem ressuscitados os seus cenários mais negros. Afinal, tal como tinha acontecido em muitos outros países, também havia uma bolha chinesa.
Em Portugal, segundo informa o Público, a bolsa portuguesa desvalorizou 3 mil milhões, o índice PSI-20 registou uma queda de 5,8% que foi a pior desde Outubro de 2008 e o petróleo caiu para o preço mais baixo dos últimos seis anos. Acontece que este pânico tem pouco impacto directo em Portugal, que é uma economia pequena e periférica, sendo a sua bolsa ainda mais pequena e mais periférica, embora haja quem prometa “colocá-lo entre as dez economias mais competitivas do mundo”. Porém, houve tanto investimento chinês em Portugal e os nossos dirigentes fizeram tantas “visitas de Estado” à China que, por essas vias, até podemos estar à mercê de um qualquer vendaval que sopre daqueles lados, onde haverá muitos dos “nossos amigos” que mostraram uma pujança financeira que não corresponderá à realidade económica e que, agora, estarão a ser vítimas da sua própria especulação. Ou então, sou eu que não percebo nada disto e o que aconteceu em Xangai foi uma simples brisa. Como sabiamente disse o Papa Francisco, "esta economia mata".

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O ‘boom’ turístico e a desgraça alheia

Numa altura em que alguns países europeus, sobretudo a França, a Espanha e Portugal, vivem em clima de grande euforia com a verdadeira avalanche de turistas que neles passam as suas férias de Verão, o jornal DNA – Dernières Nouvelles d’Alsace de Strasbourg, publica hoje uma reportagem sobre a “ruine du tourisme” na Tunisía. Nesse país, tal como se verifica em todo o Magrebe, na Turquia e no Egipto, a instabilidade e a ameaça terrorista têm afastado o turismo europeu que prefere os destinos turísticos mais seguros. Como consequência, naquelas regiões da margem sul e oriental do Mediterrâneo, o sector turístico está absolutamente arruinado e muitos milhares de turistas cancelaram as suas reservas nestas regiões, escolhendo o sudoeste da Europa como destino de férias.
No caso da Tunísia, onde houve os atentados do Museu Nacional do Bardo na capital tunisina (24 mortos) e na praia de Port El Kantaoui (38 mortos), os turistas europeus desapareceram das praias e dos hotéis, onde apenas se vêem alguns tunisinos e argelinos de baixo poder económico, o que causa um grave problema económico e social ao sector do turismo que assegura 450 mil empregos e representa 7% do PIB.
Porém, enquanto os franceses e os espanhóis registam este boom turístico como resultado da situação de desgraça que está a passar pela orla sul e oriental do Mediterrâneo, nós temos a lamentável e mentirosa mensagem sublimar do irrevogável e dos seus seguidores, a insinuar que o crescimento do nosso turismo foi obra do governo. Para essa gente, sem pudor e sem vergonha, vale tudo! Gostam do poder e, por ele, fazem tudo.

sábado, 22 de agosto de 2015

Se nunca viu uma festa, vá a Campo Maior

Começam hoje em Campo Maior as mais famosas festas das ruas floridas que se realizam em Portugal, com mais de uma centena de ruas decoradas com flores de papel e outros ornamentos feitos pelos moradores de cada rua com papel e cartão. Para além da sua afirmação como símbolo maior da arte popular portuguesa, as Festas do Povo de Campo Maior representam o resultado de um enorme esforço colectivo e de um dedicado envolvimento dos campomaiorenses durante muitos meses de trabalho, de que resulta sempre um surpreendente espectáculo de arte, de cor e de imaginação. As festas não têm peridiocidade regular e realizam-se “quando o povo decide”, pelo que a festa de 2015 acontece depois das festas de 2004 e 2011, sendo sempre um acontecimento imperdível que, apenas numa semana, fará convergir para a pequena vila de Campo Maior cerca de um milhão de visitantes de ambos os lados da fronteira. Por isso, se nunca viu uma festa das flores das várias que se realizam no Alentejo, decida-se e vá a Campo Maior.
Porém, uma deslocação a Campo Maior durante as festas obriga a um planeamento muito rigoroso da visita para evitar as horas das grandes enchentes e do excesso de calor, mas há ter "coragem" e ter presente que nunca se sabe quando é que as festas se voltam a realizar e que, nessas condições, a oportunidade deste ano não pode ser desperdiçada. Por vezes, as visitas complicam-se, pois há algumas “personalidades” que gostam de se exibir nestes dias e nestes locais, entopindo a vila com os seus carros, as suas comitivas e os seus seguranças protectores, o que perturba seriamente o visitante comum. Não há bela sem senão, como diria a minha avó...
Pela sua estética artística e forte tradição popular os campomaiorenses têm a legítima aspiração de ver consagradas as suas Festas do Povo como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A candidatura a ser apresentada à UNESCO já está em preparação e os mais optimistas apostam que a classificação ocorrerá até 2017. Se eu tivesse direito a voto, obviamente que votava sim.