domingo, 1 de dezembro de 2019

A globalização do protesto e da incerteza


O diário catalão ara é publicado em Barcelona, tem apenas nove anos de idade, utiliza a língua catalã e tem tendências pró-independentistas. A sua edição de hoje é dedicada aos revoltats que, em diferentes locais do mundo e por razões sem qualquer relação directa entre si, se estão a manifestar de forma violenta. 
A insatisfação e a revolta explodem de repente, muitas vezes por razões insignificantes, com enorme violência nas ruas a que responde a repressão policial. Embora com origens e motivações diferentes, estes protestos têm características comuns e uma delas é não haver uma liderança clara da mobilização popular. Este "modelo" está a espalhar-se e a revolta local está a ter contornos de revolta global. Em França são os coletes amarelos e a sua reacção ao aumento do preço dos combustíveis; no Chile, que se tornou o laboratório da economia neo-liberal, o pretexto foi o aumento do preço dos transportes públicos; em Hong Kong tudo resultou de um decreto que permite a extradição de detidos para a  República da China.
Segundo o jornal, esta geografia da insatisfação inclui a França, a Catalunha e a Hungria (Europa), o Chile, a Bolívia, o Equador, a Bolívia e o Haiti (América Latina), a Argélia, o Sudão e a Guiné (África), o Líbano, o Iraque e o Irão (Médio Oriente) e a Caxemira, Hong Kong e a Rússia, mas nessa lista poderiam ser incluídas algumas outras áreas de grande insatisfação, de tensão ou de guerra.
O facto é que há um cenário de desconforto que alastra pelo mundo resultante da aceleração do processo de globalização, fazendo aumentar a indignação e o sentimento de desigualdade entre as pessoas, o que também contribui para a perda das suas referências culturais, morais e económicas. As instituições democráticas dão sinais de fadiga e de impotência, muitas vezes servidas por gente medíocre e atarefada pela pressão do quotidiano. Há uma crescente desconfiança nos dirigentes políticos e há uma angústia por um futuro cada dia mais incerto. Anunciam-se tempos de mudança, mas embora a história nos ensine que depois da revolta vem uma nova ordem, muitas vezes os resultados obtidos são bem diferentes daquilo que antes se imaginava.

sábado, 30 de novembro de 2019

O início da celebrações de Beethoven


O compositor alemão Ludwig van Beethoven nasceu na cidade de Bonn provavelmente no dia 17 de Dezembro de 1770 e, portanto, o 250º aniversário do seu nascimento será celebrado no próximo ano. Falta pouco mais de um ano, mas as iniciativas comemorativas já se iniciaram, não só para enaltecer internamente a sua obra musical, mas também para mostrar ao mundo que aquele génio era alemão.
Uma das iniciativas já concretizadas foi a edição de Beethoven – The New Complete Edition, um projecto que resultou de uma parceria entre a editora Deutsche Grammophon e a associação cultural Beethoven-Haus Bonn, que oferece “mais de 175 horas de música” em 118 CD, três discos blu-ray, dois DVD e 16 álbuns digitais, incluindo novas gravações em estreia mundial. O projecto junta gravações de mais de 250 intérpretes e distribui-se por nove volumes, cada um com um livro com notas sobre o repertório, alinhamentos, textos cantados e detalhes das gravações.
É um tipo de obra sem precedentes no campo da música e o preço anunciado ultrapassa largamente os trezentos euros, embora as grandes cadeias de lojas de retalho e de comércio online já venham anunciando preços da ordem dos 250 euros. O problema para os interessados será arranjar lugar para guardar os referidos nove volumes e ter tempo para ouvir tanta coisa.
Na sua edição de hoje, a revista Der Spiegel não só promoveu a iniciativa da Deutsche Grammophon como deu o pontapé de saída às celebrações que a Alemanha vai fazer em torno da figura e da obra de Ludwig van Beethoven. Certamente que muitos outros países europeus se unirão à Alemanha nesta celebração que, talvez, também possa servir para fortalecer um sentido de unidade mínima cultural e identitária de que a Europa e as suas nações tanto precisam.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Von der Leyen e a nova ambição europeia

O Parlamento Europeu aprovou ontem em Estrasburgo por 461 votos a favor, 157 contra e 89 abstenções, num total de 707 votos expressos, o colégio da nova Comissão Europeia liderado por Ursula von der Leyen. Neste executivo comunitário que vai iniciar funções no próximo dia 1 de Dezembro, Portugal está representado por Elisa Ferreira, ex-ministra e ex-deputada europeia, que será responsável pela pasta da Coesão e Reformas.
Para além da nova Comissão Europeia, no mesmo dia também iniciarão funções o novo presidente do Conselho Europeu, o belga Charles Michel, e o novo Alto Representante da União Europeia para a Política Externa, o espanhol Josep Borrell, que sucedem respetivamente ao polaco Donald Tusk e à italiana Federica Mogherini.
A União Europeia de Jacques Delors, Helmut Kohl e François Metterand parece que se esgotou, pois está a passar por uma fase muito difícil, sem uma liderança reconhecida e com problemas que ameaçam a sua coesão, como o Brexit e a hostilidade de Trump, o radicalismo de Nigel Farage e de Boris Johnson ou os discursos populistas de Matteo Salvini e de Viktor Orbán.
É um momento em que temos que depositar esperanças para a contrução de uma Europa mais unida e mais solidária, até porque pela primeira vez na sua história de mais de sessenta anos, a Comissão Europeia vai ser presidida por uma mulher. Ursula von der Leyen é alemã e vai substituir Jean-Claude Juncker, que substituira o oportunista e irrelevante cherne lusitano, que dá pelo nome de Durão Barroso.
Hoje, muito poucos jornais europeus destacaram a notícia da aprovação da nova Comissão Europeia nas suas primeiras páginas, a mostrar que a problemática europeia não lhes interessa. Em Portugal, nem um só jornal trouxe em primeira página a notícia da aprovação da Comissão von der Leyen, mas eu penso que, tal como o jornal económico francês Les Echos, a nova Comissão traz uma nova ambição para a Europa.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Chissano é um grande moçambicano


Joaquim Chissano, o antigo presidente da República Popular de Moçambique completou 80 anos de idade e foi homenageado na capital moçambicana, tendo o jornal O País dedicado uma alargada e elogiosa reportagem a esse feliz acontecimento.
Dizem as crónicas que em 1951 Joaquim Chissano foi o primeiro negro a matricular-se no antigo Liceu Salazar, na antiga cidade de Lourenço Marques, onde completou os seus estudos secundários. Em 1960 partiu para Portugal para frequentar a Faculdade de Medicina de Lisboa mas, devido à perseguição que lhe era feita pela polícia política (PIDE), abandonou o país em 1961. Em 1963, ainda antes do início da luta armada em Moçambique, juntou-se à Frelimo então liderada por Eduardo Mondlane.
Após o fim da guerra de libertação nacional firmada nos acordos de Lusaka de 7 de Setembro de 1974, tendo apenas 35 anos de idade, foi escolhido para chefiar o governo de transição que preparou a transferência de poderes de Portugal para a Frelimo. A independência da nova República Popular de Moçambique foi proclamada no dia 25 de Junho de 1975 e Joaquim Chissano foi o primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano. Em 1986, com a morte de Samora Machel foi escolhido para o substituir na presidência da República e, em 1994 e 1999, venceu as eleições presidenciais moçambicanas, tendo exercido a presidência até 2005, isto é, durante 19 anos.
Joaquim Chissano foi um notável dirigente político, um símbolo da luta do povo moçambicano pela independência nacional e um reconhecido amigo de Portugal, tendo sido condecorado pelos presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa, isto é, apenas essa figura menor que é Aníbal Cavaco Silva não o distinguiu.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Como o narcotráfico atravessa o Atlântico

Foi apresado ontem na costa galega, a poucas milhas da fronteira portuguesa, um submarino mais ou menos artesanal que transportava mais de três toneladas de cocaína, avaliadas em cerca de cem milhões de euros. Ainda há poucas notícias consistentes sobre o assunto, mas segundo revela La Voz de Galicia parece que o submarino encalhou numa praia do município de Cangas do Morrazo, na província de Pontevedra, devido ao mau tempo, à falta de combustível ou por outras razões ainda por esclarecer. Embora a actividade deste tipo de submarinos fosse conhecida, sobretudo pelo narcotráfico que fazem entre a Colômbia e o México, foi a primeira vez que um narcosubmarino foi apresado na Europa, como resultado da troca de informações e de uma operação em que intervieram diversas agências internacionais. A investigação está em curso mas a imprensa espanhola já revelou que o submarino tem 22 metros de comprimento, teria sido construído na Guyana, seria proveniente da Colômbia e na sua travessia atlântica teria feito escala em Cabo Verde. Depois aproximou-se da costa portuguesa, seguindo depois para a costa galega, tendo supostamente percorrido 7.690 quilómetros. Os  seus três tripulantes abandonaram  o submarino, mas dois deles de origem equatoriana foram capturados, enquanto o terceiro, provavelmente galego, logrou escapar à polícia. Esta captura constitui um acontecimento importante na luta contra o narcotráfico, mas só as investigações irão esclarecer o que de facto aconteceu com o narcosubmarino, porque é mínima a probabilidade dessa travessia atlântica ter sido feita sem o apoio de um ou mais navios. Porém, se se vier a apurar que aquela maquineta navegou como navio solto e sem apoio, eventualmente submersa, estaríamos perante um acontecimento náutico comparável às viagens de Cristóvão Colombo do século XV.

domingo, 24 de novembro de 2019

O mérito lusitano na vitória do Flamengo


Não tenho qualquer simpatia pelo treinador de futebol Jorge Jesus, nem pelo seu perfil cultural, nem pela vaidade que exibe em tudo o que faz e, por isso, quando raramente a ele me refiro faço-o sempre numa postura de superioridade intelectual e com apreciações de escárnio e maldizer. Porém, ontem ele deu-me uma valente bofetada de luva branca ao promover por todo o Brasil o nome de Portugal e o bom nome dos portugueses, como poucos o terão feito ao longo da história. Com a vitória do Flamengo sobre o River Plate na Taça Libertadores da América, o treinador Jorge Jesus tornou-se o mais famoso português que o Brasil conheceu, ultrapassando a notoriedade de Pedro Álvares Cabral, do Imperador D. Pedro I que em 1822 deu o grito do Ipiranga ou da dupla Cabral-Coutinho que em 1922 fez a primeira ligação aérea entre Portugal e o Brasil.
Jorge Jesus brilhou na final disputada em Lima, que foi emocionante e foi vista em todo o mundo. Aos 88 minutos o River Plate vencia por 1-0 e parecia que a sorte do jogo estava traçada, com os argentinos a conquistarem a sua quinta Taça Libertadores. Porém, deu-se o inesperado e, em três minutos, o Flamengo deu a volta ao resultado. Venceu por 2-1. O último golo foi marcado aos 90+2 minutos e deixou em delírio os adeptos do Flamengo, mas também todos os brasileiros e muitos portugueses que assistiram ao jogo pela televisão. O treinador fez os números do costume e até se embrulhou numa bandeira portuguesa, dedicando a vitória ao povo português e afirmando que “tenho muito orgulho em ser português”, uma frase que os brasileiros bem precisavam de ouvir porque, por vezes, usam de uma indesculpável arrogância para com os portugueses. 
Foi um acontecimento mediático inesquecível e o Rio de Janeiro vai ter um Carnaval antecipado. Quem imaginaria que um homem como o treinador Jorge Jesus iria colocar Portugal na agenda dos brasileiros e que o seu rosto iria “substituir” o de Jesus Cristo na estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro?

sábado, 23 de novembro de 2019

Nem o príncipe escapa aos mass media


O Príncipe André é um dos quatro filhos da Rainha Isabel II e do Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, sendo mais novo do que os seus irmãos Carlos e Ana e mais velho do que o seu irmão Eduardo. Quando nasceu em 1960 era o segundo elemento na linha de sucessão ao trono britânico e, só por isso, era um personalidade importante da Família Real Britânica.
Em 1978 ingressou na Royal Navy tornando-se piloto de helicópteros e em 1982 serviu a bordo do HMS Invencible durante a guerra das Falkland. Foi considerado um herói de guerra por ter tido activa participação nos combates. Continuou depois a servir a Royal Navy como piloto e como instrutor de voo, tendo atingido o posto de Capitão de Fragata, após o que separou do serviço. Em 2015 foi “promovido” a Vice-Almirante honorário. Consta que era o filho favorito da Rainha.
Enquanto membro da Família Real e supostamente o filho favorito da Rainha, o Príncipe André esteve envolvido em inúmeras actividades comerciais, culturais e filantrópicas, muitas vezes como representante especial do Reino Unido, mas parece que também teve ligações com Jeffrey Epstein, um reconhecido criminoso americano condenado por crimes sexuais e que, entretanto, faleceu. Recentemente, o Príncipe André foi entrevistado e o conteúdo da sua entrevista foi severamente criticado pelos mass media ingleses e americanos, que trataram imediatamente de o condenar pelo seu envolvimento no “escândalo Epstein”. O Príncipe não resistiu e tratou de pedir à Rainha, sua mãe, para se retirar da vida pública.
O assunto não é suficientemente interessante nem importante, mas o jornal New York Post dedicou-lhe a sua primeira página de forma bem sugestiva. Só por isso, aqui lhe fazemos referência como uma curiosidade da vida dos príncipes.

Um Brasil que hoje torce pelo Flamengo


O Estádio Monumental de Lima recebe hoje a final da Taça Libertadores da América em que se defrontam os brasileiros do Flamengo e os argentinos do River Plate, pelo que a imprensa brasileira não fala noutra coisa. O entusiasmo parece ser indescritível e a edição do jornal O Dia diz que hoje estão 40 milhões em campo, uma vez que o Flamengo é considerado como o único clube do mundo que tem 40 milhões de torcedores.
A Taça Libertadores da América disputa-se desde 1960 e é a principal competição entre clubes profissionais de futebol da América do Sul, correspondendo à Liga dos Campeões organizada pela UEFA na Europa. No seu já longo historial destacam-se as equipas dos países da costa atlântica – Argentina, Brasil e Uruguai – registando-se as vitórias do Independiente (7 vezes), do Boca Juniors (6 vezes), do Peñarol (5 vezes) e do River Plate (4 vezes), enquanto o Flamengo apenas conseguiu uma vitória em 1981.
Hoje encontram-se as equipas do River Plate e do Flamengo, mas enquanto o River Plate ocupa o 1º lugar no ranking de pontos da Taça Libertadores, o Flamengo ocupa a modesta 27ª posição, o que historicamente dá favoritismo aos argentinos. O Flamengo participou 13 vezes na prova que só venceu uma vez e, portanto, está há 38 anos sem conquistar aquele ambicionado troféu.
Hoje, sob a direcção do treinador português Jorge Jesus, o Flamengo aspira à vitória. A cidade do Rio de Janeiro e os 40 milhões de torcedores do Flamengo vivem este momento com grande entusiasmo e até o famoso monumento do Cristo Redentor foi vestido com as cores do Flamengo. Hoje, todo o Brasil torce pelo Flamengo e, deste lado do Atlântico, também nos juntamos à torcida.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

R.I.P. José Mário Branco

A inesperada notícia chegou ontem de manhã e anunciava que o músico e compositor José Mário Branco falecera aos 77 anos de idade.
Como resultado da sua actividade política contra a ditadura do Estado Novo foi perseguido e preso pela polícia política, escolhendo depois os caminhos do exílio e foi em Paris que, em 1971, gravou o seu primeiro álbum a solo, intitulado Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, um título que retirou de um soneto de Camões, a que juntou canções com textos de autores como Natália Correia e Alexandre O’Neill.
Pouco tempo depois, numa altura em que a dureza da guerra se acentuava na Guiné e em que o General António de Spínola procurava uma saída política para um conflito cada dia mais doloroso mas que o intransigente governo de Lisboa nunca aceitou, a voz de José Mário Branco “circulava” em gravações por alguns meios militares nos rios e matas da Guiné e não deixava ninguém indiferente.
José Mário Branco foi, por isso e por tudo o que sempre fez com convicção e coerência, um símbolo da resistência e da insatisfação ao regime político em que Portugal viveu até ao 25 de Abril de 1974. Seguramente, ele é uma referência maior da luta política de antes e depois da revolução de Abril, sem quaisquer cedências ao seu inconformismo político e cultural, seguindo sempre numa linha de intervenção em que revelava a sua inquietação e mostrava que a cantiga é uma arma. Era um inspirado músico, compositor e criador cultural num importante período histórico do nosso Portugal e a sua obra vai permanecer. 
Aqui lhe expresso a minha homenagem pelas suas inspiradoras canções e pela obra musical que nos deixou.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

No futebol a alegria do povo é a vitória


É verdade que o futebol é cada vez mais um produto muito pouco recomendável, porque a beleza do espectáculo vem sendo substituída por uma doentia alienação das pessoas alimentada pelos mass media; é verdade que os espaços que as estações televisivas dedicam às discussões sobre o futebol são longos, desinteressantes, pouco educativos e quase obscenos, constituindo um ataque à inteligência das pessoas; é verdade que à volta do futebol vive uma panóplia de interesses com transferências, patrocínios, comissões, transmissões televisivas, direitos de imagem e outras actividades assessórias que fazem daquele espectáculo um negócio.
É verdade tudo isso mas, apesar dessas realidades, eu gosto de ver aqueles “artistas” durante os 90 minutos em que “trabalham”, com os golos e os remates fora da área, os dribles e os livres directos, as defesas espectaculares, a ansiedade no momento do penalti e a alegria vibrante dos adeptos.
Ontem a selecção portuguesa de futebol - ou como certa imprensa costuma dizer Ronaldo & Companhia – ganhou ao Luxemburgo. O jogo não entusiasmou e até foi enervante, mas a vitória bastou para que todos ficassem contentes. O povo gosta mais de vitórias do que de bons espectáculos de futebol. A derrota, mesmo que num bom espectáculo não interessa, pois não alimenta as emoções. Ganhar é que é importante e Portugal apurou-se para o Euro 2020. Foi a 11ª vez consecutiva que isso aconteceu em Mundiais e Europeus, isto é, desde o ano de 2000 que a equipa portuguesa não falha uma grande competição internacional. Ora isso é uma grande alegria para o povo e eu partilho dessa alegria. Portugal sorri e eu aplaudo!

domingo, 17 de novembro de 2019

A crise boliviana e o risco de contágio

A crise boliviana surgiu na sequência das eleições de 20 de Outubro que deram a vitória a Evo Morales, mas que a Organização dos Estados Americanos denunciou terem sido fraudulentas, daí resultando a intervenção dos chefes militares que levou à renúncia e depois ao exílio de Evo Morales.
A imagem externa da Bolívia era de um país estável e que tinha em Evo Morales um presidente um pouco extravagante mas consensual, mas os acontecimentos dos últimos dias vieram mostrar um país dividido entre aqueles que denunciam a fraude eleitoral e os que acusam os chefes militares de um golpe de estado. O facto é que há quem fale em clima de pré-guerra civil e que as duas partes já se enfrentaram de forma muito violenta, tendo daí resultado algumas vítimas, embora diferentes sectores da sociedade boliviana, incluindo a Igreja, tenham iniciado campanhas com “marchas y oraciones” a pedir a pacificação da Bolívia, como hoje salienta El Diario, el decano de la prensa boliviana.
Hoje existe uma grande probabilidade de contágio do descontentamento nos países da América do Sul, onde existem problemas comuns de insatisfação das populações, de desigualdade social e de aspirações não satisfeitas e esse risco de contágio deve ser evitado, em nome da paz naquele continente.
Porém, logo que Evo Morales renunciou, a senadora Jeanine Añez apareceu a assumir a presidência e essa sucessão foi tão rápida, mesmo sem o apoio do parlamento boliviano, que muita gente desconfiou que ali havia algo de estranho. Realmente, há uma grande semelhança entre o que se passou na Bolívia (afastamento de Evo Morales) com aquilo que insistentemente se quer fazer na Venezuela (afastamento de Nicolas Maduro) e com o que já foi feito no Brasil (afastamento de Lula da Silva e de Dilma Roussef). O mesmo objectivo, embora o modus operandi seja um pouco diferente.

sábado, 16 de novembro de 2019

Alguma Espanha está muito desconfiada


A Espanha está suspensa do pré-acordo a que chegaram o PSOE e o Podemos para formar um governo de coligação, embora ainda lhes faltem alguns apoios parlamentares vindos dos pequenos partidos, seja por via de votos favoráveis, seja por via da abstenção.
Por uma questão de filosofia política, mas também para assegurar os apoios de que carece, o futuro governo vai certamente aumentar a despesa pública e, em especial, as despesas sociais. Os partidos da oposição e muitos agentes económicos vêm anunciando preocupações pelo ritmo insustentável do crescimento da despesa pública que se adivinha, cuja contrapartida terá que vir do aumento dos impostos. Além disso, consideram que o pré-acordo que foi assinado dá excessivos poderes ao Podemos de Pablo Iglésias, que quer controlar 16.500 milhões de euros da despesa pública, segundo revela o jornal el Economista.
Nos sectores políticos da direita afirma-se que “no hay suficientes ricos en España para los disparates de Podemos”, o que até está em linha com o pensamento expresso por Pedro Sánchez quando há poucos meses disse que  no dormiría tranquilo si tuviera en el Gobierno a Pablo Iglesias”. Portanto, com estes exercícios de malabarismo político de Sánchez e de populismo de Iglésias, há quem já chame ao governo em formação “un Gobierno Frankenstein de izquierdas”, um pouco ao estilo da geringonça portuguesa. Segundo o jornal já referido, milhares de contribuintes temem por uma forte subida dos impostos e há uma avalanche de consultas para levar as suas fortunas para Portugal. No entanto, como se costuma dizer por cá, a procissão ainda vai no adro e muita água ainda vai correr por debaixo das pontes.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Bilbau uma cidade cada vez mais cultural


A cidade basca de Bilbau alberga desde 1997 o Museu Guggenheim Bilbao, um dos cinco museus espalhados pelo mundo que pertencem à Fundação Solomon R. Guggenheim, tendo sido projectado por Frank Gehry, um famoso arquitecto canadiano naturalizado americano. Com este equipamento a cidade ritalizou-se e passou a atrair visitantes de toda a parte.
Agora, em consequência dos efeitos culturais gerados pelo Museu Guggenheim, a cidade decidiu apostar em novas iniciativas e uma delas é a colocação de uma artística cúpula na Plaza de Toros de Vista Alegre, que é a terceira praça mais importante da Espanha, depois de Madrid e Sevilha, podendo receber cerca de 15 mil espectadores.
Com a colocação da cúpula, a adaptação do espaço e a modernização das instalações, a empresa proprietária da Vista Alegre pretende atrair eventos de ócio e cultura entre Outubro e Junho, isto é, fora da época taurina, esperando dessa forma rentabilizar a praça de touros que deixou de ser sustentável apenas com a festa tauromáquica. A cúpula será uma estrutura semi-fixa que terá capacidade para cerca de 4.000 pessoas e poderá abrigar eventos como concertos, espectáculos, exposições ou feiras, “algo que Bilbau não tinha”.
O jornal Deia que se publica em Bilbau, destaca hoje na sua primeira página La nueva Vista Alegre, futurista y multiusos, que vai certamente tornar-se em mais um atractivo para a vida cultural de Bilbau e para o turismo. Entretanto, o Parque Mayer em Lisboa continua à espera que se faça qualquer coisa que o possa valorizar.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Veneza é vítima das alterações climáticas


Mais de 85% da cidade de Veneza está inundada e muitos jornais internacionais publicam hoje imagens da famosa Praça de São Marcos, coberta por uma toalha de água e sem turistas, enquanto uma estação televisiva até mostrou a insólita imagem de um homem nadando naquela praça. É a pior cheia dos últimos 50 anos, com o nível da água a atingir 1,87 metros, o que corresponde ao segundo maior nível de que há registo. Na cripta da Basílica de São Marcos a água subiu até à altura de 1,20 metros, tendo sido a sexta vez em 1200 anos que a basílica sofreu uma inundação e a quarta vez que isso aconteceu nos últimos 20 anos.
A cidade de Veneza tem uma configuração geográfica sui-generis e o seu centro histórico fica situado sobre várias ilhas de uma grande lagoa da costa do mar Adriático, estando servido por 177 canais e mais de quatrocentas pontes, sendo uma cidade absolutamente pedonal onde o transporte é assegurado por embarcações.
A lagoa de Veneza tem três ligações ao mar e está sujeita a grandes variações do seu nível de água devido às marés, sobretudo as marés vivas do Outono, conhecidas por acqua alta e que habitualmente inundam parte da cidade histórica. É o que está a acontecer agora. O jornal La Repubblica destaca a sigla SOS e as autoridades locais declararam o estado de emergência, ao mesmo tempo que exigem que o projecto Mose, constituído por uma rede de barreiras destinadas a proteger a lagoa e impedir a subida do nível da água através das suas três ligações ao mar, que foi anunciado em 2003 e que está orçamentado em 5,5 mil milhões de euros, seja terminado. 
As alterações climáticas são a causa das inundações de Veneza, mas também dos maiores incêndios florestais de sempre que estão a acontecer na Austrália, que podem durar meses e que já se aproximam de Sydney. Porém, o Donald e alguns outros Donalds, nem sequer subscrevem o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas de 2015...

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Um abraço que põe a Espanha a respirar


Poucas horas depois de serem conhecidos os resultados das eleições espanholas e quando todos os comentadores políticos apontavam para uma situação ainda mais difícil do que aquela que lhes dera origem, aconteceu uma enorme surpresa quando o PSOE e o Podemos anunciaram um pré-acordo de coligação para governar e a fotografia de um abraço entre Pedro Sánchez e Pablo Iglesias encheu a capa dos jornais espanhóis. O acordo que não tinham conseguido em Julho, foi agora conseguido em poucas horas, porque ambos sabiam que estavam condenados a entender-se e porque a continuação do impasse levaria a novas eleições e à continuação da subida da direita espanhola. Pedro Sánchez cedeu a sua intransigência do passado Verão e trocou a sua sobrevivência política por uma coligação – a primeira da história democrática espanhola como hoje se lhe refere o La Vanguardia – em que, segundo se soube, o Podemos ocupará uma vice-presidência e três pastas no futuro governo.
O preacuerdo entre o PSOE e o Podemos consta de dez pontos que, entre outras matérias, tratam do emprego, da economia, das alterações climáticas e da cultura, mas sobretudo do problema da Catalunha. O ponto 9 do preacuerdo salienta que o governo espanhol terá como prioridade garantir a convivência na Catalunha e a normalização da sua vida política e, com esse fim, fomentará o diálogo, procurando fórmulas de entendimento e encontro, sempre dentro da Constituição.
Este acordo foi um passo importante para a estabilidade política espanhola e foi um alívio para muita gente, dentro e fora da Espanha. Porém, os deputados do PSOE (120) e os deputados do Podemos (35) não são suficientes para assegurar a maioria no Parlamento espanhol (350), pelo que Pedro Sánchez, agora com Pablo Iglesias, vai precisar de conversar e de negociar com os pequenos partidos e com os partidos independentistas, isto é, a Espanha apenas começou a respirar e a ver uma solução no horizonte.