terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O sim de Marcelo: habemus candidato!

Marcelo Rebelo de Sousa anunciou ontem que era candidato a um novo mandato na Presidência da República e com essa declaração acabou com um tabu que se arrastava há vários meses. O país ficou aliviado! 
No entanto, não houve surpresa nenhuma com este anúncio, excepto no que respeita ao local que escolheu para o fazer. Não foi uma universidade ou uma biblioteca, nem um jardim ou um local histórico, ou mesmo uma praia de que tanto gosta, tendo optado pela pastelaria A Chique de Belém, que agora se travestiu e se chama Versailles
Provavelmente Marcelo Rebelo de Sousa quis mostrar que tal como a pastelaria é contígua ao palácio que ocupa, também o seu anúncio naquele lugar está ligado ao palácio que vai continuar a ocupar. Porém, em vez de atravessar a Calçada da Ajuda e gastar um minuto a fazer uns 20 metros, tratou de atravessar a Praça Afonso de Albuquerque e mostrar-se às câmaras durante alguns minutos. A simplicidade da encenação foi estudada, como são quase todos os passos presidenciais, mas ao preferir A Chique de Belém em vez da Leitaria da Junqueira que fica bem próximo, quis mostrar a sua faceta populista e cosmopolita. 
Todas as sondagens mostram que o Presidente da República vai ser reeleito à primeira volta por uma confortável maioria, pois tem feito uma boa presidência, embora com demasiados exageros populistas, sobretudo na sua relação com as câmaras que mobiliza para os seus tiques narcisistas. Ninguém esquece, porque tudo foi filmado pelas televisões, a cena em que foi vacinado contra a gripe, nem o salvamento de duas jovens na praia do Alvor, ou a publicidade que deu à sua visita privada a Porto Santo. Talvez que Marcelo Rebelo de Sousa no seu próximo mandato possa acabar com este tipo de cenas ridículas, com o exagero de selfies e com o gosto de falar sobre tudo o que deve e não deve. 
Naturalmente, a pastelaria A Chique de Belém, aliás Versailles, vai continuar a ter um cliente certo. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Maduro e a farsa eleitoral venezuelana

A Venezuela é um país onde vivem cerca de meio milhão de portugueses e luso-descendentes e, por isso, o que se passa no país governado por Nicolás Maduro é um tema importante para Portugal. 
Ontem decorreram as eleições para a Assembleia Nacional da Venezuela que elegeram os 277 deputados, cujo mandato decorrerá de 5 de Janeiro de 2021 a 5 de Janeiro de 2026, mas as eleições foram muito contestadas, tanto interna como internacionalmente. 
A generalidade da oposição decidiu-se por um boicote que deu origem a uma grande abstenção e, dessa forma, o chavismo de Nicolás Maduro ganhou nas urnas, mas de uma forma duvidosa e nada convincente. De um total de cerca de 20,7 milhões de eleitores inscritos terão votado apenas 5.264.104. Segundo os dados fornecidos pelo Consejo Nacional Electoral a participação eleitoral foi da ordem dos 30%, tendo o Gran Polo Patriótico Simón Bolivar (GPP), uma coligação chavista que inclui o Partido Socialista Unido de Venezuela (Psuv), obtido 3.558.320 votos e conseguido eleger 177 deputados. 
A recusa da oposição e dos seus principais líderes em participar nas eleições, bem como as suspeitas de fraude eleitoral desacreditam os resultados anunciados, mas também nada abonam a favor dos que desistiram das eleições sem lutar, inclusive para denunciar o regime chavista que, dessa forma e no meio de uma gigantesca crise económica e social, passa a dominar a Assembleia Nacional. 
A partir de Janeiro, Nicolás Maduro tem todos os poderes políticos na Venezuela, numa altura em que os Estados Unidos passarão a ter Joe Biden na Casa Branca. Abre-se, então, uma oportunidade para o Diálogo, para a Democracia e para o Progresso, mas para tal é necessário que os líderes da oposição venezuelana, como os Capriles, os Guaidós e outros, se mostrem capazes do desafio de enfrentar o ditador, sem alinhar, como têm feito até agora, na acção radical de Donald Trump e do seu radicalismo contra mexicanos, venezuelanos e outros sul-americanos. Por alguma razão, nem o aparelho judicial nem os militares acreditam nesta oposição venezuelana que se encostou a Trump, mas agora surge uma nova oportunidade.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A nova vacina é uma luz ao fundo do túnel

Foi há cerca de um ano que apareceu o novo coronavírus que depressa se estendeu pelo planeta e a que a OMS deu a designação de covid-19. Esse vírus revelou-se muito letal e era desconhecido da Ciência, mas de imediato mobilizou o conhecimento e a inteligência em diversos locais do mundo, numa corrida que tornou possível esse acontecimento de extraordinária importância científica que foi a descoberta de uma vacina em tão pouco tempo. 
Esse deve ser um motivo de grande satisfação para o mundo e, depois de tempos de ansiedade e de incerteza, surgem no horizonte tempos de esperança. 
A pandemia já causou quase cinco mil óbitos em Portugal e gerou uma grande incerteza quanto ao futuro, mas as notícias dos últimos dias desanuviaram o ambiente e deram um novo olhar sobre o futuro, permitindo ver a luz ao fundo do túnel. Já foi apresentado o Plano Nacional de Vacinação contra a covid-19 que vinha a ser preparado por quem sabe e que visa reduzir a mortalidade causada pela pandemia e aliviar o Serviço Nacional de Saúde. É uma janela de esperança que veio mostrar que, ao contrário do que dizem os arautos da desgraça que são os inúmeros júdices que por aí andam, as nossas autoridades sanitárias estão atentas e a merecer a nossa total confiança. 
No âmbito da aquisição conjunta de vacinas pela União Europeia, há seis contratos assinados com os fabricantes e o nosso país vai receber 22 milhões de doses de vacinas, sendo 6,9 milhões de doses da AstraZeneca/Universidade de Oxford, mais 4,5 milhões de doses da BioNTecn/Pfizer e a mesma quantidade da Johnson&Johnson, mais 1,9 milhões da Moderna e quatro milhões de doses da CureVac. 
As vacinas serão universais, gratuitas e facultativas, sendo distribuídas nos 1200 pontos de vacinação ou centros de saúde, enquanto o plano de vacinação terá três fases para atender a população, de acordo com os grupos definidos no próprio plano. Vai ser demorado e vai exigir muita disciplina, muita determinação e muita competência, mas tudo parece estar pensado e estruturado. O que é curioso é que já tenham aparecido os críticos do costume, que julgam saber de tudo e desconhecem que vivemos num país de recursos limitados.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Em Goa ouve-se o fado e dança-se o mandó

A crise pandémica está a afectar seriamente a Índia, que é o segundo país com mais casos de covid-19 no mundo depois dos Estados Unidos, sendo o terceiro país com mais óbitos depois dos Estados Unidos e do Brasil. Apesar disso, a classe média indiana parece que está a fugir das grandes cidades e da pandemia, dirigindo-se para o estado de Goa que ainda não tem o bulício de outras regiões indianas e é a principal região turística do país. Sempre foi assim e este ano parece não ter havido alterações. Goa está a entrar na sua época alta de turismo e, segundo algumas informações de que dispomos, a hotelaria e a restauração estão a ter índices de ocupação semelhantes aos anos anteriores, embora seja sobretudo devido ao turismo interno. 
Nesse quadro, no próximo sábado em Panjim, a cidade capital do estado de Goa, a Madragoa – casa de fado e mandó, retoma a sua actividade com duas sessões de fado e de mandó na voz de Sonia Sirsat e com o acompanhamento musical de Orlando de Noronha e Carlos Menezes, estando referido no respectivo programa que “as máscaras e a distância social são obrigatórias”. 
Independentemente dos aspectos comerciais da actividade da Madragoa, realça-se aqui o esforço que tem sido feito pelos dinâmicos promotores do fado, para preservar a cultura portuguesa em Goa, neste caso através de uma casa onde se ouve o fado, se fala português e até se podem provar algumas especialidades portuguesas. O nosso mais vivo aplauso!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

R. I. P. Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço deixou-nos ontem aos 97 anos de idade, mas a sua notável obra vai permanecer entre nós, tal como o seu exemplo de pensador, de democrata e de amante da liberdade. Ao contrário de tantas pessoas que aparecem na televisão e que afirmam tê-lo conhecido e com ele ter convivido, eu nunca me cruzei com ele, nem o conheci pessoalmente, mas devorei em devido tempo algumas das suas obras, de que destaco O Fascismo nunca Existiu (Publicações Europa-América, 1976) e O Labirinto da Saudade (Publicações Europa-América, 1978), de que resultou ter ficado admirador do seu pensamento e das suas análises sobre o momento político que se vivia em Portugal. 
Eduardo Lourenço viveu mais de metade da sua vida em França onde foi professor e se tornou um convicto europeu, sem nunca ter esquecido as suas raízes rurais de São Pedro de Rio Seco, no concelho raiano de Almeida. No seu percurso de vida como pensador, professor, filósofo e ensaísta, foi amplamente reconhecido, tendo sido distinguido com condecorações portuguesas e francesas e com quatro doutoramentos honoris causa, além de muitos prémios, de que se destacam o Prémio Camões em 1996 e o Prémio Pessoa em 2011 que são, certamente, os mais prestigiados prémios da cultura portuguesa. 
Era administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1999, foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade em 2014 e, desde 2016, era Conselheiro de Estado, designado pelo actual Presidente da República. 
Não há muitos portugueses cujo currículo académico e exemplo de cidadania se equipare ao de Eduardo Lourenço.

domingo, 29 de novembro de 2020

A língua portuguesa é uma enorme janela

Vivemos num tempo em que estamos sob uma intensa pressão da esfera mediática, embora o paradigma – a rádio anuncia, a televisão mostra e os jornais explicam – continue a prevalecer, apesar da ameaça que vem constituindo o aparecimento da internet e das redes sociais. 
Porém, a confiança nos meios de comunicação ditos tradicionais está a ficar abalada. Como explicam as teorias do agenda-setting e da tematização, a lógica (económica e política) na escolha dos temas e na construção das notícias, tendem a impor-nos os temas em que devemos pensar. Procuram gerar os chamados efeitos cognitivos da comunicação de massa, que pretendem moldar a opinião pública e que nos enrolam naquilo a que se vem chamando a “espuma dos dias”, isto é, somos informados com ou sem verdade sobre aquilo que os mass media querem e não sobre aquilo que nos interessa. Vem isto a propósito do 18º Concurso de Eloquência em Língua Portuguesa que foi organizado pelo Departamento de Português da Universidade de Macau e que decorreu nas instalações da mesma universidade de Macau, que teve justificado destaque no jtmJornal Tribuna de Macau. O vencedor foi um jovem oriundo da Mongólia Interior que, ao ser entrevistado, declarou que a língua portuguesa é uma enorme janela para o mundo, o que não deixa de ser um grande elogio para a nossa língua. 
Macau é realmente um exemplo no que respeita à língua portuguesa que parece ter agora mais apoio do que no tempo da administração portuguesa. O que aqui se salienta é que estes temas que estão vivos lá longe, estão ausentes da nossa comunicação social. As questões da língua e da cultura estão cada vez mais afastadas da tematização da nossa comunicação social, que anda demasiado ocupada com as coisas do futebol e com outros assuntos menores.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

R.I.P. Diego Armando Maradona

O famoso futebolista argentino Diego Armando Maradona morreu ontem em Buenos Aires aos 60 anos de idade, na sequência de uma paragem cardiorrespiratória e quando estava a recuperar de uma operação a que foi sujeito a um coágulo no cérebro. Hoje, a morte de Maradona é notícia em toda a imprensa mundial, com a sua fotografia publicada num incontável número de periódicos mundiais. 
A Argentina está de luto nacional durante três dias pelo futebolista que era considerado um génio ou mesmo um Deus, enquanto todo o mundo presta homenagem ao talento futebolístico daquele que, por vezes, tem sido considerado o melhor jogador da história do futebol. Jogou no Boca Juniors, no Barcelona e no Nápoles, mas o seu momento de maior glória terá sido no Mundial de 1986 no México, no jogo dos quartos-de-final contra a Inglaterra, em que marcou dois golos que eliminaram os ingleses e ficaram famosos. O primeiro foi marcado com a mão, ou “a meias com o divino”, ou ainda, com “a mão de Deus”, tendo suscitado uma polémica que nunca foi esquecida; o segundo resultou de uma arrancada fulgurante em que Maradona ultrapassou vários adversários até ao vitorioso remate final, o qual veio a ser considerado o “golo do século” numa votação realizada pela FIFA em 2002. Porém, a par do seu talento futebolístico, Diego Maradona teve também uma vida de excessos, em que o álcool e a droga estiveram presentes e lhe fragilizaram a saúde. 
Numa sua autobiografia intitulada Eu sou El Diego, cuja tradução foi publicada em Lisboa em 2001, ele próprio trata desse assunto: 

- A mim, a droga tornou-me pior jogador, não melhor. Têm noção do jogador que teria sido se não tivesse seguido os caminhos da droga? Teria sido durante muitos, muitos anos, aquele que fui no México. Foi o meu momento de maior felicidade em cima de um relvado”. 

Como antes se referiu, a morte de Maradona é notícia em toda a imprensa mundial e a sua fotografia aparece num incontável número de periódicos, mas na ilustração deste texto nós optamos pela capa da revista hondurenha diez que nos parece uma das mais sugestivas de todas. 
R.I.P.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

O Donald perde e a transição vai começar

Alguns jornais de referência americanos destacam hoje que começou a transição da administração de Donald Trump para a administração de Joe Biden e essa é a notícia de primeira página do The New York Times. Para além das notícias relativas à euforia em torno das vacinas que nos vão proteger da epidemia do covid-19 e das notícias nacionais sobre a outra epidemia que nos assalta que é o futebol que se está a tornar na coisa mais importante da sociedade portuguesa, a grande notícia do dia é mesmo o início da transição das administrações nos Estados Unidos. 
A Administração dos Serviços Gerais dos Estados Unidos apurou que Joe Biden foi o vencedor das eleições de 3 de Novembro. As acusações televisivas com que o Donald procurou criar uma onda generalizada de apoio às suas mentiras não resultaram, assim como as impugnações de resultados que tinha tentado por via judicial vieram a ser derrotadas na Pensilvânia e na Geórgia e, agora, no Michigan. Depois de derrotado nas urnas, o Donald está a ser derrotado em todas as instâncias judiciais e, perante essas evidências, deu finalmente instruções para que a sua equipa iniciasse o processo de transição, embora continue a considerar fraudulentos os resultados que o derrotaram. Com esta decisão foi aberta a porta para que Joe Biden possa aceder às agências e fundos federais necessários para constituir a administração que, a partir de 20 de Janeiro e durante quatro anos, vai governar os Estados Unidos. 
Já muito foi dito sobre a personalidade assimétrica daquele que durante quatro anos dirigiu os Estados Unidos e a forma desprestigiante como conduziu a política externa americana. Os americanos rejeitaram o Donald, mas o mundo também estava farto dele. Faltam menos de dois meses para que o mundo possa voltar a olhar os Estados Unidos com mais confiança, com mais vontade de cooperação e com mais respeito.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A “cunha” é uma instituição nacional

A revista Sábado inclui na sua última edição uma interessante e bem documentada reportagem assinada por Marco Alves sobre a rede de cunhas e favores de Salazar que, como é sabido, foi o “dono disto tudo” durante a vigência do regime do Estado Novo (1926-1974). Os mais desatentos poderão pensar que a cunha foi um pecado criado pelo salazarismo, mas há que lembrar que a cunha é uma instituição nacional que, embora tenha florescido com Salazar e o seu regime, sempre foi uma marca poderosa da nossa sociedade e da nossa história. Porém, a reportagem da revista é sobre as cunhas no tempo de Salazar e o seu autor escreveu: 

Os pobres pediam-lhe dinheiro, mas as elites (médicos, engenheiros, deputados, juízes, militares, empresários, padres e condes) queriam colocações em bancos, aumentos, cargos e comendas. 

Durante 36 anos o ditador acedeu a centenas de cunhas. Os mais velhos recordam-se bem dessa realidade e das voltas que era preciso dar para ser servidor do Estado pois, como refere o historiador Fernando Rosas, o Estado Novo vivia assente numa pirâmide de cunhas de que Salazar era o topo. 
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” escreveu Camões no século XVI, mas depois de Salazar mudaram-se os tempos, mudaram-se muitas vontades, mas a cunha continuou, embora “tomando sempre novas qualidades”. Hoje já não se mandam cartões ou se escrevem cartas a Salazar, nem aos dignitários do Estado Novo. Hoje usa-se o cartão partidário e outras redes de relações muito diversas, com as quais se alimentam teias de interesses, se arranjam empregos, se obtém diplomas, se assinam contratos, se forjam carreiras e se progride na vida. O mérito parece ser, cada vez mais, um aspecto secundário. Como se costuma dizer, o que é preciso é ter um bom padrinho.
Portanto, o meu desejo é que o autor Marco Alves possa agora estudar a rede de cunhas e favores dos tempos pós-Salazar, para que os seus leitores possam ver quão importante têm sido para construir carreiras de esferovite e ajudar carreiristas, preguiçosos, atrevidos e outros oportunistas. Será um grande serviço à comunidade e ao esclarecimento público, mas também a possibilidade de vermos como funciona uma boa parte da nossa sociedade.

domingo, 22 de novembro de 2020

A teimosia mentirosa de um incendiário

A edição de hoje do jornal novaiorquino Daily News dedica a sua capa a Donald Trump e, quase três semanas depois das eleições, retrata-o como um incendiário que continua a ignorar a calamidade que é a pandemia do covid-19, que afasta aqueles que dele discordam e que mostra “espasmos de raiva” por ter perdido as eleições. Acontece que Trump sempre disse que Joe Biden e os Democratas só venceriam as eleições pela fraude e na noite eleitoral, muito antes de serem conhecidos os resultados, já o Donald punha em prática o seu maquiavélico plano ao declarar vitória e, pouco depois, ao denunciar fraudes sem quaisquer evidências ou provas. As contestações começaram na esfera mediática com teorias da conspiração, boatos sobre fraudes e pressões sobre juízes e políticos, passando depois para a esfera judicial, onde as teses enunciadas pelo Donald e pelo seu advogado Rudy Giuliani têm sido rejeitadas, ao mesmo tempo que as recontagens de votos têm sido favoráveis a Joe Biden. 
O comportamento irresponsável e mentiroso do Donald tem divertido o mundo, que não compreende a sua teimosia em não reconhecer a derrota e a vitória de Joe Biden, o que vai contra a tradição americana. Donald e a sua equipa sabem que perderam nas urnas, mas construíram uma farsa desonesta e mentirosa que está a fragilizar os Estados Unidos, apenas porque não aceitam o princípio democrático da alternância do poder e da soberania do voto popular. Alguns especialistas pensam que a recusa do Donald em reconhecer a vitória da dupla Joe Biden-Kamala Harris é uma táctica para manter a sua base eleitoral activa e mobilizada, possivelmente para criar no seu partido a ideia de voltar a ser escolhido para concorrer às eleições presidenciais de 2024. Porém, com este espectáculo que já é demasiado ridículo, o Donald vai certamente perder adeptos todos os dias e, provavelmente, vai ser esquecido ou passará a figura secundária da política americana. 
O facto é que ninguém imaginava que as eleições americanas fizessem correr tanta tinta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A cultura voltou às manchetes dos media

Quando meio mundo anda atordoado com a crise pandémica e com a eficácia das vacinas, há outro meio mundo que olha incrédulo para o que se passa nos Estados Unidos com o comportamento impróprio e indecente de Donald Trump. 
No meio dessa avalanche de preocupações, a cidade de Bilbau e o seu Museo Guggenheim decidiram promover uma grande exposição sobre a obra de Vasily Kandinsky (1866-1944), um artista russo que foi um dos pioneiros da abstracção na pintura. 
A exposição foi inaugurada hoje e vai manter-se até ao dia 23 de Maio, mostrando 62 das 152 obras que constituem a colecção de Kadinsky que a Fundação Solomon R. Guggenheim possui em Nova Iorque. O percurso do artista passou por Moscovo, Munique e Paris, tendo sido decisivo na sua carreira o apoio que teve do industrial Solomon R. Guggenheim que desde 1929 começou a coleccionar a sua obra, que depois doou à Fundação que constituiu em Nova Iorque em 1937. 
A notícia da inauguração desta exposição foi destacada pela imprensa basca como um importante evento cultural, nomeadamente no jornal El Correo de Bilbau, para o qual o director do museu declarou em entrevista que, apesar das visitas serem limitadas devido ao contexto pandémico que atravessamos, espera com confiança que esta situação seja ultrapassada. 
O que aqui se destaca é que, depois de tanto tempo com notícias decepcionantes, a cultura voltou às manchetes dos mass media, onde uma iniciativa cultural aparece destacada na primeira página dos jornais generalistas, coisa que não se via há muito tempo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A pandemia, as vacinas e as incertezas

A pandemia do covid-19 está muito activa em todo o mundo e esta segunda onda que estamos a atravessar, está a bater todos os máximos no que respeita ao número de novos infectados e de óbitos. 
A situação é preocupante e as medidas tomadas ameaçam a vida, penalizam a economia e afectam a saúde mental das pessoas. No caso português, o ambiente está turvo e tenso. Não só pela realidade objectiva, mas também pela ignorância de dezenas de opinion makers que nos massacram todos os dias com comentários e interpretações sobre o que nos espera, uns mais optimistas e outros bem pessimistas, mas quase todos sem fundamentação credível e com evidentes objectivos políticos. 
De repente uma empresa germano-americana anunciou que vinha aí uma vacina cuja eficácia era de 90%, mas logo uma outra empresa russa informou que também tinha uma vacina com 92% de eficácia, a que se seguiu outra empresa americana ainda com mais eficácia: 94.5%. Vai daí, a primeira empresa corrigiu e veio afirmar que a eficácia da sua vacina afinal é de 95% e não de 90% como anunciara alguns dias antes. Os chineses não quiseram perder tempo e já vieram dizer ao mundo que a eficácia da sua vacina é de 97%! Até onde chegaremos nesta corrida pela eficácia da vacina? Das várias dezenas de vacinas que se encontram actualmente em ensaios clínicos, haverá mais de uma dezena que já estão na sua fase final, não havendo dúvidas que todos esses laboratórios estão envolvidos em campanhas de marketing à escala planetária e, por isso, temos algumas razões para estar algo confiantes, mas também temos razões para desconfiar destas eficácias todas. 
Assim, quando olhamos para o mapa de Portugal que o jornal Público ontem publicou, não podemos deixar de ficar assustados com a dimensão da pandemia que nos afecta e, se cruzarmos essa informação geográfica e sanitária com as incertezas que ainda pairam sobre a chegada e a eficácia das vacinas, o nosso optimismo terá que ser muito moderado. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Lewis Hamilton no topo da Fórmula 1

O piloto britânico Lewis Hamilton triunfou ontem no Grande Prémio da Turquia e, aos 35 anos de idade, sagrou-se campeão mundial de Fórmula 1 pela sétima vez, o que iguala as setes vitórias conseguidas pelo piloto alemão Michael Schumacher. 
Hamilton iniciou a sua carreira na Fórmula 1 em 2007 e tornou-se campeão mundial no ano seguinte. Disputou até agora 263 provas correndo pela McLaren e depois pela Mercedes, tendo ganho o título mundial mais seis vezes e tornando-se o recordista de quase tudo na Fórmula 1, incluindo o maior número de vitórias em Grandes Prémios (94), o maior número de pole positions (97) e o maior número de pódios (162).
Hoje é homenageado pelo jornal francês L’Équipe e é considerado um dos maiores pilotos de todos os tempos, figurando no topo de uma galeria onde, além de Michael Schumacher, se encontram Juan Manuel Fangio, Alain Prost, Sebastian Vettel, Jackie Stewart, Niki Lauda, Nelson Piquet, Ayrton Senna e outros grandes nomes da Formula 1. 
O campeonato do mundo de Formula 1 disputa-se desde 1950 e apenas quatro pilotos portugueses tiveram acesso àquela prova, respectivamente Mário Araújo Cabral, Pedro Matos Chaves, Pedro Lamy e Tiago Monteiro, tendo este subido ao pódio uma única vez em 2005 quando obteve o 3º lugar no Grande Prémio dos Estados Unidos, embora num contexto de elevado número de desistências. No entanto, o que aqui se regista é apenas a consagração de Lewis Hamilton que passou a figurar na galeria dos grandes nomes do desporto mundial.

domingo, 15 de novembro de 2020

O regresso da guerra ao Saara Ocidental

O jornal El Día que se publica na cidade de Tenerife, anuncia hoje que o estado de guerra voltou ao Saara Ocidental, isto é, voltou a um território que dista cerca de cem quilómetros das ilhas Canárias e, portanto, fica situado às portas da União Europeia. O Saara Ocidental é uma antiga colónia espanhola situada na costa africana a sul de Marrocos, ocupa uma área territorial de cerca de 266 mil km2 de superfície, ou seja, é cerca de três vezes maior do que Portugal e estima-se que tenha menos de 500 mil habitantes, na sua maioria nómadas, islamizados e não alfabetizados. O seu território é árido e quase desértico, mas tem cerca de mil quilómetros de costa, além de um mar territorial e uma zona económica exclusiva que são muito apetitosos economicamente. 
No ano de 1975, quando se estava no auge das descolonizações tardias, a Espanha abandonou aquele território que, por acordo, veio a ser ocupado por Marrocos (dois terços) e pela Mauritânia (um terço). Porém, invocando a representatividade da população, em 1976 a Frente Polisário declarou a independência do território com o nome de República Árabe Saaraui Democrática (RASD), que foi reconhecida por mais de cinquenta países. A partir de então, a Frente Polisário ou o governo da RASD instalado no seu exílio argelino, iniciaram uma guerra contra os dois países ocupantes. A Mauritânia foi derrotada e desistiu das suas pretensões, mas a guerra com Marrocos continuou com dureza até que, por intervenção da ONU, em 1991 se chegou a um cessar-fogo e a um acordo para a realização de um referendo que nunca se realizou. 
Este prolongado cessar-fogo que dura há 29 anos não tem agradado à Frente Polisário que por várias vezes ameaçou retomar a guerra contra Marrocos. O pretexto surgiu no dia 21 de Outubro junto do posto de Guerguerat, na fronteira do Saara Ocidental com a Mauritânia, quando activistas saarauis bloquearam uma estrada e foram atacados pelo exército marroquino, o que levou a Frente Polisário a anunciar que a trégua que vigorava desde 1991 chegara ao fim. Durante o tempo de guerra de 1976 a 1991 terão morrido 7000 soldados marroquinos e 2000 soldados mauritanos, enquanto da parte saaraui se estima que tenham morrido entre um e quatro milhares de combatentes.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

E de repente, a luz ao fundo do túnel

As grandes revistas internacionais têm andado envolvidas no noticiário sobre as eleições americanas, mas na sua mais recente edição a revista The Economist destaca os esforços em curso para conseguir uma vacina eficaz contra o covid-19 e diz que, de repente, chegou a esperança. Isto acontece quando a pandemia está a atingir as maiores proporções de sempre e quando o número de casos no mundo atinge 52 milhões de pessoas e o número de mortos se aproxima de um milhão e trezentos mil. 
Diz a revista que decorreram nove longos anos desde o isolamento do vírus do sarampo em 1954 até ao licenciamento de uma vacina e que o mundo esperou vinte anos entre os primeiros testes de uma vacina contra a poliomielite e a primeira licença americana em 1955. Por isso, The Economist considera uma maravilha a forma como os cientistas mundiais estão a caminho de produzir uma vacina eficaz contra o sars-cov-2, o vírus que causa o covid -19. Em menos de um ano! A notícia causou uma onda de optimismo e de esperança no mundo, porque de facto se vê uma luz ao fundo do túnel. Porém, até ao momento não foi aprovada a comercialização de nenhuma das 163 vacinas em desenvolvimento para o combate ao covid-19 e, por vezes, até é referido que são 175 vacinas que estão em fase experimental. 
A vacina desenvolvida pela BioNTech que foi anunciada com uma taxa de sucesso de 90% e que a Pfizer vai fabricar e distribuir, parece ter-se antecipado nesta corrida e a União Europeia anunciou a encomenda de 300 milhões de doses. Porém, três dias depois, a Rússia anunciou que a sua vacina a que chamou Sputnik, tem uma taxa de sucesso de 92%, enquanto se espera a divulgação dos resultados clínicos que estão em curso com algumas das outras vacinas. 
Há, portanto, uma luz ao fundo do túnel, mas mais do que uma guerra da Ciência para descobrir a forma de vencer o covid-19, parece que estamos perante uma guerra comercial entre as grandes multinacionais ou as grandes potências económicas e científicas.