sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O regresso à diplomacia das canhoneiras

É costume utilizar-se a expressão diplomacia das canhoneiras ou gunboat diplomacy  para classificar as exibições de poderio militar-naval em que, perante situações de conflito de interesses, há uma parte que pressiona, intimida ou ameaça a outra parte. Essa prática, a que por vezes se chama demonstração naval, foi um instrumento da política internacional muito utilizado na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, especialmente pela Grã-Bretanha e, depois, pelos Estados Unidos, mas não foi um instrumento utilizado apenas por estes países. Hoje continua a ser utilizado por esses e por muitos outros países, pretendendo ser a razão dos fortes e dos poderosos para humilhar e vergar os mais fracos.
É o que está a suceder em Gibraltar, em que a diplomacia das canhoneiras regressou com toda a força e a edição de hoje do  jornal madrileno La Gaceta destaca essa realidade, com uma fotografia a lembrar os negros anos da 2ª Guerra Mundial. Porém, ninguém imaginava que no século XXI houvesse dois Estados-membros da União Europeia, que são duas monarquias e que são governados por dois governos conservadores, entrassem neste jogo que é ridículo e muito perigoso. Era necessário mais bom senso e mais razoabilidade. Com tantos problemas que existem na Europa e nestes dois países, não vem nada a propósito arranjar mais este. Ingenuamente, eu até pensava que os nossos políticos eram fracos e irresponsáveis, mas afinal os Cameron e os Rajoy são farinha do mesmo saco.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

As práticas feudais foram ressuscitadas

A ser verdade aquilo que diz a última edição do jornal luso-canadiano Correio da Manhã – o jornal português de maior circulação no Canadá, que se publica às terças-feiras em Toronto e tem uma tiragem de 25 mil exemplares - é absolutamente ridículo que quatro políticos ocupem 100 polícias no Algarve. Meia dúzia deles ainda se poderia aceitar, mas um cento... só por exibicionismo ou má consciência. Assim, com este tipo de despesismo, não há país que aguente e nunca haverá impostos suficientes para custear esta aparatosa ou discreta comitiva que acompanha e serve Suas Excelências, como se uma estadia nas praias algarvias fosse um assunto de Estado. Provavelmente, nem Ceausescu, nem Mobutu, nem Kadaffi foram tão longe.
Por vezes, Suas Excelências deixam-se fotografar com ar descontraído e em atitude de passeio, chegando a parecer-se com pessoas como nós, mas com este tipo de comitiva ficamos a saber que é tudo uma encenação. Afinal, mesmo na praia, esta gente não está de consciência tranquila e provavelmente tem medo do povo, pois só assim se compreende a mobilização de tantos polícias e, provavelmente, de outros tantos súbditos a servir de motoristas, assessores, talvez cozinheiros e eu sei lá que mais. Até parece que regressamos à Idade Média, uma vez que Suas Excelências escolhem comportar-se como verdadeiros senhores feudais. Queixamo-nos que não temos policiamento suficiente e que andar pelas nossas ruas é um exercício de risco. Pudera, a polícia que pagamos com os nossos impostos está ocupada com Suas Excelências. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Um filme popular, divertido e comovente

Depois do êxito que teve em França, onde em seis semanas registou mais de um milhão de espectadores, o filme A Gaiola Dourada ou La cage dorée (na sua versão original), foi estreado em Portugal. Realizado por Ruben Alves, um jovem realizador luso-descendente, o filme conta com leveza, alegria e humor, a história de um casal de emigrantes portugueses em França. A mulher é porteira e o marido é trabalhador da construção civil, sendo esses protagonistas interpretados por Rita Blanco e Joaquim de Almeida. São a Família Ribeiro.
Ora, nós temos vivido por aqui um tempo de incerteza e de grande preocupação, com os cortes nos salários e nas pensões, com o desemprego e o aumento da pobreza, com o aumento enorme de impostos e com o descrédito, a mentira e a falta de pudor de quem nos governa. Ora nós temos aguentado tudo isto, desde há dois anos, suportando gente que nos prometeu facilidades e que tanto criticou os outros, mas que tem revelado incompetência e amadorismo e não vemos maneira de sair disto. Há mais insegurança nas ruas, há menos confiança no amanhã, há cada vez maior risco de ruptura social, há uma crescente degradação do espaço público, há uma contínua ameaça governamental ao Estado social e ao nosso modelo de vida, sem qualquer consideração por quem trabalhou. Andamos preocupados e tristes. Sem esperança e sem vontade de rir.
Então, se há um filme que nos diverte, que nos faz rir e até nos comove, não hesitemos em vê-lo, até porque todos temos dentro de nós um pouco (ou muito) da Família Ribeiro. É bem divertido!
 

domingo, 4 de agosto de 2013

Gibraltar como manobra de diversão

Os principais jornais diários espanhóis de tendência conservadora, respectivamente o La Razón e o ABC, mas também o social-democrata El País, destacaram o rochedo de Gibraltar nas suas edições de hoje: “El Gobierno despliega un plano de mano dura contra Gibraltar”, “se acabó el recreo en Gibraltar” ou “La Armada volverá al Peñon”.
Gibraltar é uma colónia ou território ultramarino britânico situado no extremo sul da península Ibérica que foi ocupado militarmente em 1704, mas que a Espanha cedeu definitivamente à Grã-Bretanha em 1713 pelo Tratado de Utrech.
Os tempos correram e a Espanha tem reivindicado o “peñon” mas, nos referendos realizados em 1967 e em 2002, os 30 mil gibraltinos escolheram maciçamente permanecer sob a soberania britânica. O problema é muito complexo e a reivindicação espanhola sobre Gibraltar não pode ignorar as reivindicações marroquinas sobre Ceuta e Melilla ou os direitos portugueses sobre Olivença.
Porém, de vez em quando, certamente para distrair a opinião pública espanhola, é agitada a bandeira do nacionalismo e acentua-se a reivindicação por Gibraltar. Agora, numa altura em que o partido do governo e o seu líder Mariano Rajoy estão a ser acusados de corrupção, o pretexto para lembrar Gibraltar foram as descargas de entulho feitas em águas espanholas e os privilégios de 7 mil gibraltinos que vivem em Espanha e que pagam impostos muito moderados em Gibraltar. O governo espanhol que suporta tantas dificuldades, decidiu disfarçá-las e até encara a possibilidade de recorrer à Marinha espanhola para “cercar Gibraltar” como resposta às “provocações britânicas”. Só pode ser uma manobra de diversão, a mostrar como vão as coisas pela União Europeia.

sábado, 3 de agosto de 2013

Alto Douro Vinhateiro


A UNESCO classificou o Alto Douro Vinhateiro como Património da Humanidade em 2001, na categoria de paisagem cultural, o que premeia a região vinícola demarcada mais antiga do mundo, decretada em 1756 pelo Marquês de Pombal. Foi uma decisão muito apreciada e muito justa, porque consagrou uma região cuja paisagem natural é muito bela, mas que a acção do homem transformou e valorizou, primeiro ao actuar sobre as montanhas e, depois, ao intervir no próprio rio Douro, que atravessa a região.
Ao longo dos séculos o xisto maciço foi removido daquelas íngremes e estéreis encostas, foram construídos socalcos quase inacessíveis, plantaram-se vinhas e nasceu o vinho do Porto. O seu transporte em barcos rabelo até aos armazéns em Vila Nova de Gaia, foi uma grande epopeia até há bem poucos anos, quando foi decidido o aproveitamento hidroeléctrico da bacia hidrográfica do Douro e foram construídas diversas barragens que tornaram o rio navegável. A paisagem duriense alterou-se, enriqueceu-se e a região tornou-se um pólo turístico de grande valor económico e que hoje atrai actividades e recursos para a região. Uma visita ao Alto Douro Vinhateiro é um verdadeiro deslumbramento e eu, que agora tive a oportunidade de revisitar a região, não só enchi o peito de ar bem puro, como ofereci aos meus olhos uma visão de grande espectacularidade, lembrando-me de alguns filhos da terra como Miguel Torga, Aquilino Ribeiro e Guerra Junqueiro

 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A vida está má para todos

A revista GQ é uma revista mensal para homens, luxuosa e sofisticada - segundo ela própria se classifica - que trata de moda e de estilos, com artigos sobre temas que lhes interessam como por exemplo a alimentação, cinema, fitness, sexo, música, viagens, desporto, tecnologia e livros.
A foto de capa dessa revista tende a ser apelativa e serve dois objectivos porque, por um lado, pretende atrair compradores para a revista e, por outro, proporciona a promoção da figura fotografada e permite-lhe ganhar algum dinheiro.
Ora, na sua última edição a revista contratou a apresentadora, actriz e letrista Catarina Furtado – é assim que a senhora é apresentada – para posar em estilo de “matadora”, com o pretexto de ter sido eleita Mulher do Ano. Não se sabe que título é esse, nem quem participa nessa eleição. É um evidente exagero de marketing!
O que sabemos é que, segundo revelam as redes sociais, a senhora ganharia 30 mil euros mensais que lhe eram pagos pela nossa RTP e que, generosamente, no ano passado aceitou fazer um desconto de 20%, o que significa que a mesma RTP lhe abona mensalmente 24 mil euros. Pessoalmente, acho que a senhora não tem actividade nem méritos que justifiquem os obscenos montantes que lhe são pagos com dinheiros públicos, isto é, dos meus impostos, pois que o seu grande atributo é o nome do pai. Apesar disso e porque a vida está má para todos, a senhora decidiu fazer umas fotografias insinuantes para se manter com popularidade e “sacar” mais umas massas para o seu pecúlio. Em fase descendente de uma carreira profissional incaracterística de animadora televisiva, ela aproveitou esta oportunidade e não se saiu bem. Naturalmente, a senhora pode tirar as fotografias todas que quiser, mas desta vez, mesmo vestidinha, deu um tiro no pé. Basta olhar para a capa da revista e apreciar o estilo de Madame Furtado.

 

O imparável dinamismo chinês


O canal do Panamá tem 82 quilómetros de extensão, faz a ligação entre o oceano Atlântico e o oceano Pacífico e por ele passam, anualmente, cerca de 13 mil navios que correspondem a 4% do comércio mundial. O canal começou a ser construído em 1880 sob a direcção do engenheiro francês Ferdinand de Lesseps, com base na sua própria experiência na construção do canal do Suez, que havia sido concluído em 1869, mas depois de vicissitudes e interrupções diversas, o canal só veio a ser concluído em 1914. É usualmente aceite que, durante a sua construção, terão morrido 5.609 trabalhadores vitimados sobretudo por doenças tropicais. O canal que foi uma maravilha tecnológica no seu tempo e que tem sido modernizado, já não pode corresponder às necessidades actuais. Assim, a China não perdeu tempo e entrou em acção, tendo estudado várias alternativas para a construção de um novo canal na Nicarágua. O novo canal já está escolhido, terá uma extensão de 200 quilómetros e será mais profundo e mais largo do que o canal do Panamá. Segundo informa o diário La Prensa de Manágua, o Congresso nicaraguense acaba de aprovar a concessão da construção do canal a um grupo de Hong Kong e, além do canal, o grupo deverá construir dois portos de águas profundas, um oleaduto, uma linha férrea e um aeroporto internacional, podendo explorar o canal nos próximos cem anos. Tudo para começar em finais de 2014 e para ficar concluído em 2019! As autoridades nicaraguenses acreditam que este projecto irá tirar o país e os seus 6 milhões de habitantes da pobreza e do subdesenvolvimento.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Nasceu um líder mundial: Francisco

A viagem do Papa ao Brasil revelou a consagração de um líder mundial cuja dimensão ultrapassa largamente a sua condição de líder religioso. Os mass media de todo o mundo, mas em especial os brasileiros, mostraram as multidões e o Correio Braziliense foi apenas um deles, ao exibir na sua primeira página a memorável fotografia de uma multidão de 3 milhões de pessoas na praia de Copacabana. As ventos de contestação que sopram em todo o mundo e que tinham chegado ao Brasil, parece terem cessado de repente perante a espectacular onda de entusiasmo, confiança, alegria e esperança que varreu a sociedade brasileira, especialmente os mais desfavorecidos.
O mundo que vive numa paz podre e precária, com inúmeros conflitos regionais um pouco por todo o lado, com o  fosso entre ricos e pobres a alargar-se e com muitas revoltas contra a injustiça e a corrupção, pareceu surpreendido. Nos tempos de incerteza que vivemos, já não estávamos habituados a ouvir vozes mundiais verdadeiramente respeitadas, cujas atitudes aproveitem ao homem e à Humanidade. Perante tudo isso, todos ficamos admirados com a grandeza de um homem e do seu discurso a apelar à procura do bem comum e de uma visão humanista da economia, a revelar como são pequenos e vulgares os líderes políticos que por aí andam, vergados pelo egoísmo e pela corrupção (como o Papa denunciou), mas também sem outro projecto que não seja a defesa dos seus próprios interesses. Nasceu, de facto, um líder mundial que apela para a construção de um mundo melhor e mais solidário!

domingo, 28 de julho de 2013

Sob o signo de Amadeo, um século de arte

O Centro de Arte Moderna (CAM) é um dos mais antigos e prestigiados centros de arte moderna da Europa e está a comemorar os seus 30 anos de idade com uma extensa exposição de mais de 350 obras, de entre as cerca de 10 mil da sua colecção, que ocupam pela primeira vez a totalidade dos seus espaços expositivos. Até ao fim do ano, vai ser possível observar as obras-primas do modernismo português e algumas peças-chave da arte do século XX que habitualmente se encontram nas reservas da Fundação Calouste Gulbenkian.
A exposição intitula-se "Sob o Signo de Amadeo" - porque o ponto de partida é Amadeo de Souza-Cardoso e a sua obra – sendo mostradas cerca de 170 obras do autor, isto é, a totalidade do seu acervo, em que às suas pinturas se juntam diversos desenhos em papel e uma enorme colecção de brasões. Porém, a exposição não se limita à obra de Amadeo, mas percorre o que de melhor foi feito ao longo do último século na pintura portuguesa e, assim, encontramos obras de Almada Negreiros, Sarah Afonso, Vieira da Silva, Vespeira, Paula Rego, Júlio Pomar e muitos outros artistas modernos e contemporâneos. A exposição estarará patente ao longo de seis meses e poderá ser vista até ao dia 19 de Janeiro de 2014.
É uma oportunidade para revisitar a obra pioneira de Amadeo de Souza-Cardoso, o genial modernista que é a maior referência da arte portuguesa do século XX e que faleceu por doença em 1918, quando tinha apenas 30 anos de idade.

 

Uma voz para ouvir!

Termina hoje no Rio de Janeiro a viagem que o Papa Francisco fez ao Brasil a propósito da 28ª Jornada Mundial da Juventude, que é também a primeira viagem internacional do seu pontificado.
A visita tem tido repercussão mundial e tem constituído uma grande jornada de afirmação da Igreja Católica não só na América Latina, mas também pelo mundo. Nas suas intervenções, o Papa dirigiu-se especialmente aos jovens e apelou ao seu protagonismo na construção de um mundo melhor, tendo dado razão àqueles que “deixaram de ter confiança nas instituições políticas porque vêem muito egoísmo e corrupção”, numa alusão a todos os que no mundo estão insatisfeitos com os seus políticos e com as suas promessas mentirosas, mas também àqueles “que perderam a fé” ao verem os erros dos padres e dos crentes que não seguem a palavra do Evangelho. Uma das mensagens mais repetidas pelo Papa foi a denúncia da pobreza, enquanto violação dos Direitos Humanos, tendo afirmado que “a ninguém falte o necessário e que a todos seja garantida dignidade, fraternidade e solidariedade: este é o caminho a seguir.”
Ontem, o Papa esteve no Theatro Municipal do Rio de Janeiro para um encontro com as lideranças políticas, culturais e empresariais brasileiras e, no seu discurso, afirmou que “o futuro exige a reabilitação da política, uma visão humanista da economia, uma sociedade mais justa e uma política que consiga cada vez mais e melhor participação das pessoas, que evite o elitismo e erradique a pobreza”. Muitos jornais mundiais destacaram essas afirmações e o diário espanhol La Gaceta é apenas um deles. Bom seria que a voz de Jorge Mario Bergoglio, o argentino que se tornou no 226º Papa da Igreja Católica,  chegasse à Europa para sobressaltar os eurocratas e, também a Portugal, para acordar os herdeiros do passos-gasparismo. Imitem-no!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Temos ou não temos um novo governo?

Há três semanas atrás o ministro Gaspar atirou a toalha ao chão e, de imediato, o irrevogável ministro Portas bateu com a porta. O governo tremeu. Anunciaram-se outras demissões. A crise estava instalada. Falou-se em eleições antecipadas. Porém, o ministro Portas deu o dito por não dito e as coisas acalmaram. Belém hesitou na aceitação desta solução e duvidou que os amuados se tivessem realmente reconciliado. Então, atirou uma bóia a pedir um acordo de salvação nacional. Todos entraram tacticamente nessas negociações em que havia dois caminhos muito distintos em confronto e, por isso, não houve acordo. Assim, tudo voltou ao ponto anterior e, por falta de alternativa, em Belém passou a acreditar-se na bondade da reconciliação entre os amuados e ficou tudo na mesma. Deixou de ser necessária a salvação nacional. O irrevogável ministro Portas foi promovido, vieram dois ou três novos ministros e passou a haver 42 secretários de Estado. Desde então, temos assistido a uma campanha de propaganda na tentativa de fazer passar a ideia de que temos “um novo governo” e “um novo ciclo”, esquecendo-se os desastrosos resultados dos dois últimos anos, em que o ex-ministro Gaspar reconheceu ter falhado e estar desacreditado, com 127% de dívida pública, 10,6% de défice, 4% de recessão e quase 18% de desemprego. Por isso, nenhuma renovação de caras, nenhuma revisão orgânica, nenhuma redistribuição de poder poderá apagar estes dois anos de falhanço, de desastre económico e de tragédia social que ocorreram sob a responsabilidade do primeiro Passos e com a cumplicidade do ministro Portas. Agora, o vice-primeiro Portas recebeu a coordenação económica, as relações com a troika e a diplomacia económica. Provavelmente, é muito poder para um só homem, a quem o seu imprevisto sucessor, chamou recentemente hipersensível e com comportamento errático. Se ele é a chave do nosso futuro, como sugere o Jornal de Notícias, fico preocupado.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

As Ruas Floridas regressam ao Redondo


Integradas nas Festas de Agosto, as Ruas Floridas vão animar as ruas da vila alentejana do Redondo entre os dias 3 e 11 de Agosto e, tal como tem acontecido nos anos anteriores, o evento irá constituir certamente uma grande manifestação de cultura popular. As Ruas Floridas realizam-se bienalmente e consistem na decoração das ruas da vila do Redondo com flores e outros objectos manufacturados com papel. Trata-se de uma tradição que remonta à primeira metade do século XIX, mas que se perdeu quando, há cerca de sete dezenas de anos, surgiu a novidade da iluminação eléctrica pública que, naturalmente, deslumbrou a população. Depois de 1974 a iniciativa e o dinamismo populares tentaram recuperar a tradição das ruas floridas, mas não tiveram sucesso. Só a partir de 1994, quando a Câmara Municipal do Redondo se envolveu nessa iniciativa e apoiou o espírito de participação e o envolvimento cívico da população, é que renasceu a tradição de enfeitar as ruas e nasceram as Ruas Floridas, integradas nas Festas de Agosto. Muitos meses antes do evento, os moradores de cada rua organizam-se, escolhem um tema que mantém em sigilo e trabalham diariamente na produção de milhares de flores. É um caso raro de imaginação, de criatividade e de estética mas, sobretudo, é um exemplo da dedicação de muita gente, cujo prémio é apenas o reconhecimento dos visitantes. Não costumo faltar e, desta vez espero, voltar ao Redondo, até porque a gastronomia da terra também se recomenda.

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sopram bons ventos de Espanha

Dizia-se antigamente que “de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”, mas os tempos mudaram. Desde que os dois países adoptaram a democracia como sistema político e que ambos se integraram na União Europeia, as respectivas economias também se têm integrado cada vez mais. Hoje a Espanha é o principal destino das exportações portuguesas e Portugal é o terceiro maior destino das exportações espanholas.
A Espanha é a 5ª maior economia da União Europeia e a 15ª maior economia do mundo. Depois de mais de uma dezena de anos de crescimento acima da média europeia, a economia espanhola começou a desacelerar em finais de 2007 e entrou em recessão em 2008. Em 2009 o produto contraiu 3,7%, em 2012 o défice público cifrou-se em 10,6% e em Janeiro de 2013 o desemprego atingiu 26,7%. A dívida pública espanhola, entre 2009 e 2012, passou de 53,9% para 84,2% do PIB. A juntar às suas dificuldades económicas e ao aumento substancial da pobreza, o problemas das soberanias agudizou-se e até a estabilidade da Casa Real já não é o que era. Porém, há alguns sinais de mudança. As exportações de Espanha cresceram 7,3% em Maio face ao mesmo mês de 2012, prenunciando que a economia anima e que o país está a recuperar da pior crise económica da sua história democrática. Hoje é a edição do jornal ABC que destaca que a próxima EPA (Encuesta de Población Activa) será “a melhor desde que começou a crise” e que, no segundo trimestre deste ano, mais de cem mil pessoas tinham saido do desemprego e que a taxa de desemprego baixara para os 27%. Embora seja uma notícia de um jornal conservador, provavelmente para dar ânimo ao Primeiro-Ministro espanhol, não há dúvida de que estes ténues sinais de retoma também são uma boa notícia para Portugal.

 

sábado, 20 de julho de 2013

Rui Costa, o herói dos Alpes

Inesperadamente e três dias depois de ter triunfado em Gap na 16ª etapa da 100ª edição da Volta à França, o ciclista português Rui Costa fez história e voltou a vencer, desta vez na 19ª etapa que terminou em Le Grand-Bornand. Foi uma longa etapa de mais de duzentos quilómetros no terreno montanhoso dos Alpes, com várias contagens de montanha de categoria extra e de primeira categoria e que, na sua fase final, decorreu debaixo de condições climatéricas adversas, que tornaram muito perigosas as descidas, feitas com má visibilidade e com o piso molhado.
Com este triunfo, Rui Costa tornou-se no segundo ciclista português a ganhar duas etapas na mesma edição da Volta à França, depois de Joaquim Agostinho o ter feito em 1969, isto é, há 44 anos. A forma confiante e segura como desenvolveu a sua corrida, que pudemos acompanhar em directo pela televisão, mostram que Rui Costa é um grande atleta e que, definitivamente, já é um dos melhores ciclistas do mundo.
Desta vez, porém, a imprensa desportiva portuguesa reagiu de maneira diferente daquilo que acontecera com a anterior vitória de Rui Costa e o diário A Bola destaca o seu feito em manchete e classifica o ciclista como “o herói dos Alpes”. É este reconhecimento e este estímulo que são necessários para que os nossos atletas se internacionalizem.

Viagem presidencial às Ilhas Selvagens

O Presidente da República decidiu efectuar uma visita às Ilhas Selvagens, tal como tinham feito dois dos seus antecessores, mas ao contrário do que sucedera com Mário Soares e Jorge Sampaio, decidiu passar uma noite na Selvagem Grande.
Durante dois dias, esteve nas ilhas numa visita que coincidiu com o 50º aniversário da primeira expedição científica e que pretendeu assinalar a "importância científica, ambiental e estratégica" daquele pequeno arquipélago.
As Ilhas Selvagens são o local mais remoto do território português, encontram-se integradas administrativamente na Região Autónoma da Madeira e têm uma área aproximada de 4 Km2. Constituem dois pequenos grupos de ilhas – a Selvagem Grande (153 metros de altitude) com dois pequenos ilhéus que formam o grupo mais a norte e a Selvagem Pequena (49 metros de altitude) que, com o ilhéu de Fora e os ilhéus adjacentes, forma o outro grupo, estando separados por um profundo canal com cerca de 10 milhas de largura.
Desde 1971 que foi constituída a Reserva Natural das Ilhas Selvagens. A importância destas ilhas é enorme, não só pelas suas características ambientais, mas principalmente porque determinam os contornos da Zona Económica Exclusiva portuguesa (ZEE) e a sua extensão. Acontece que tem havido em Espanha quem interprete que as Ilhas Selvagens, localizadas a apenas 82 milhas do arquipélago das Canárias e a 163 milhas da Ilha da Madeira, são ilhéus e que, por isso, não poderiam ser consideradas na delimitação de uma ZEE de duzentas milhas.
A viagem presidencial tem por isso uma grande importância simbólica e é um acto de soberania que merece o aplauso dos portugueses. Porém, aconteceu numa altura inoportuna devido à crise que se vive em Lisboa e, além disso, a reportagem televisiva que pudemos observar, mostrou uma verdadeira multidão na comitiva presidencial, para além da fragata Vasco da Gama, do navio patrulha oceânico Viana do Castelo, do navio hidrográfico Gago Coutinho e de um helicóptero EH101. Tanta gente e tanta despesa em tempo de crise deixam muito a desejar e são lamentáveis.