domingo, 7 de fevereiro de 2016

Orçamento, TAP e dignidade nacional

A última semana foi politicamente dominada por dois importantes temas. Por um lado, a apresentação do Orçamento do Estado em Bruxelas e, por outro, o fim das negociações a respeito da privatização da TAP.
A questão do Orçamento gerou uma injustificável dramatização conduzida pelos jornalistas e comentadores do costume, a que se associaram alguns deputados da antiga maioria. Porém, o governo português teve uma clara vitória formal e política, pois foi possível garantir um orçamento equilibrado de acordo com os critérios da União Europeia mas, também, alinhado com as promessas eleitorais do governo e com as normas constitucionais e que, além disso, não abdica das medidas que lhe garantem o apoio dos partidos que formam a actual maioria e a sua aprovação na Assembleia da República. Significa que nesse braço de ferro com Bruxelas houve negociação e, naturalmente, houve cedências das duas partes, não tendo havido as imposições arrogantes de outros tempos a um Portugal submisso. A síntese desse processo foi dita publicamente pelo primeiro-ministro Costa, quando com um sorriso disse à chanceler alemã que se preocupasse unicamente com o seu próprio orçamento, o que tanto nos fez lembrar as humilhantes posturas de Vítor Gaspar e de Maria Luís perante Wolfgang Schäuble. Há muito, muito tempo, que não assistiamos a uma tão subtil e eloquente afirmação da dignidade nacional.
O outro tema da semana foi a reversão do processo de privatização da TAP, que fora assinado entre o consórcio Atlantic Gateway e um governo que tinha sido demitido na véspera. Foi uma decisão muito estranha e apressada do anterior governo. Porém, essa decisão sempre foi contestada pelo actual governo e foi agora cumprida através de negociações chegadas a bom porto. Humberto Pedrosa, um dos empresários do consórcio, afirmou que “a boa vontade e o diálogo permitiram o casamento”, enquanto o primeiro-ministro disse que “como nós dizemos em Portugal, é a falar que a gente se entende. E falando, a gente entendeu-se”.
Significa que, quer no caso do Orçamento, quer no caso da TAP, prevaleceram o diálogo e a negociação que defenderam o interesse e a dignidade nacionais. Lamentavelmente, os jornalistas e os comentadores do costume não viram isso.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A imbecilidade do euro-deputado Rangel

Aconteceu ontem e a televisão mostrou: durante um debate no Parlamento Europeu sobre as consequências da eventual saída britânica da União Europeia, o euro-deputado Paulo Rangel exibiu o seu habitual radicalismo e imbecilidade, atirando-se ao governo do seu próprio país e rotulando-o de extremista. O fulano assumiu o vergonhoso papel de lacaio e de porta-voz das mais reaccionárias instituições internacionais e revelou-se um reles sabujo. Mostrou ser uma vergonha nacional. O seu agressivo discurso, proferido numa altura em que o governo português e a Comissão Europeia discutiam o conteúdo do Orçamento do Estado para 2016, revela a falta de carácter, a arrogância, a inteligência enviezada e a cegueira política deste verdadeiro imbecil que insultou e difamou os portugueses perante os deputados e os jornalistas de toda a Europa.
Em Novembro passado, já este deputado-imbecil chamara a atenção da Comissão Europeia para o facto de “todo o esforço que a população portuguesa fez nos últimos quatro anos, com resultados tão prometedores e tão inspiradores”, estar agora “comprometido” devido ao “acordo de forças da extrema-esquerda com o PS, que põe em causa o equilíbrio que até agora tem sido seguido em Portugal”.
Conforme é do conhecimento público, este deputado-imbecil tem aproveitado o palco de Bruxelas para se promover e para enriquecer, porque além das mordomias de que beneficia como deputado, ainda dá umas aulas, integra uma sociedade de advogados e é comentador televisivo. Porém, apesar dessas actividades todas, Rangel ainda tem tempo para ter este comportamento abjecto de lacaio.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O inaceitável comportamento europeu

Desde há alguns dias que o governo está debaixo de fogo cruzado relativamente ao Orçamento do Estado para 2016, com críticas e ameaças internas e externas. Por um lado procura cumprir as suas promessas eleitorais e os compromissos que acordou com os partidos que lhe dão suporte parlamentar, mas por outro tem que cumprir as exigências da Comissão Europeia que constam do Tratado Orçamental ou, mais precisamente, do Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária (TECG), que entrou em vigor no dia 1 de Janeiro de 2013. O TECG exige que os orçamentos nacionais sejam equilibrados, isto é, que o défice global se situe abaixo dos 3% e que, para os países com dívidas acima de 60% do PIB, o défice estrutural se situe abaixo de 0,5%.
Tanto quanto vamos sabendo, depois de filtrarmos a informação que nos chega através de uma monumental campanha de propaganda interna e externa, o défice global apresentado de 2,6% não levantou quaisquer problemas aos burocratas de Bruxelas. O problema está no défice estrutural que resulta da diferença entre as receitas e as despesas públicas, excluindo os efeitos temporários e conjunturais, que é um indicador que ninguém sabe exactamente o que é, nem como se calcula. Aqui é que parece residir a polémica quanto à natureza, temporária ou não, dos cortes de salários e pensões que o governo decidiu reverter. Estamos, portanto, perante um braço de ferro político que, como hoje titula o Diário Económico, vale cerca de 500 milhões de euros e vale, veja-se bem, cerca de 0,2% do PIB. Significa que o tratamento dado ao orçamento português revela a vontade da troika de continuar a humilhar o nosso país e de assegurar que as mudanças políticas em curso não contagiem outros países, como por exemplo a Espanha. Este comportamento europeu é inaceitável.
As ameaças que desrespeitam o eleitorado português e a sua vontade expressa de recuar com a receita da austeridade, não podem ser ignoradas, embora seja a soberana Assembleia da República que virá a aprovar ou a rejeitar a proposta governamental. Os tempos mudaram e melhor era que a Comissão Europeia se preocupasse com os refugiados, com o brexit, com os independentismos, com o desemprego jovem e com tantos outros problemas europeus.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A nossa juventude adere a boas causas

No último quartel do século XIX e nos primeiros anos do regime republicano, a recolha de fundos através de subscrições públicas de âmbito nacional foi uma prática muito frequente em Portugal, para financiar as mais diversas iniciativas. Assim, foi através desse tipo de subscrições que se adquiriram navios de guerra, se compraram aeroplanos, se criaram obras de assistência social, se construiram alguns monumentos e se ergueram muitas estátuas. Habitualmente, eram os grandes periódicos, como por exemplo O Século, o Diário de Notícias e O Comércio do Porto, que organizavam e dinamizavam essas acções de recolha de fundos que se enquadravam no comemorativismo ou no campo da benemerência e de que resultaram, por exemplo, as estátuas do Marquês de Pombal e de Camões, em Lisboa, a estátua equestre de D. Pedro IV no Porto e o Monumento aos Restauradores em Lisboa.
Os tempos são hoje bem diferentes e esse tipo de subscrições públicas de carácter nacional deixaram de ter os periódicos como seus dinamizadores, embora existam outros tipos de iniciativas muito beneméritas, como a recolha de alimentos do Banco Alimentar contra a Fome ou os peditórios nacionais da Cruz Vermelha Portuguesa e da Liga Portuguesa contra o Cancro.
Foi nessa linha de intervenção pública e ao abrigo da lei do mecenato que o Museu Nacional de Arte Antiga iniciou uma campanha de recolha de fundos para adquirir a “Adoração dos Magos”, considerada a obra-prima de Domingos Sequeira, pintada em 1828 e que pertence a colecionadores privados. Em boa hora o Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira, de Leiria, convidou os 2.800 alunos das suas 16 escolas a participar na campanha de angariação de fundos, ao mesmo tempo que conheciam e davam a conhecer o pintor-patrono da sua escola. Em boa hora, o jornal Região de Leiria se associou a esta iniciativa de grande impacto educativo, cívico e cultural, dando-lhe uma dimensão regional, neste caso exemplar de mobilização da juventude por uma boa causa.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

As muitas poucas-vergonhas da política

A vida política é uma actividade difícil que exige muita dedicação, muito estudo e, sobretudo, muita vocação para servir a comunidade. Nessa lógica de serviço que poucos praticam e de que muitos se servem de forma perversa e ignóbil, é necessária uma forte sensibilidade social que assegure igualdade de oportunidades mas, também, harmonia e coesão social.
Por isso, num tempo em que se acrescentaram dificuldades à população, que se mandaram emigrar as pessoas, que se empobreceu o país e se retiraram rendimentos aos portugueses, em simultâneo com uma criminosa passividade face à fraudulenta falência de alguns bancos e à apressada e desnecessária venda das melhores empresas nacionais a quem apareceu por aí com um maço de notas, a notícia de hoje do Jornal de Notícias é absolutamente chocante.
No passado mês de Outubro, quando o governo de P & P estava a arrumar os seus papéis para se ir embora, ainda tratou de algumas mal-feitorias que não foi apenas a venda da TAP fora de horas e num vão de escada. Foi, então, que decidiu que os administradores que ele próprio nomeara para a ANAC, a entidade reguladora da aviação civil, fossem aumentados com direito a retroactivos desde Julho. Assim, o presidente passou de 6030 euros para 16075 euros; o vice-presidente passou de 5499 euros para 14.468 euros; a vogal subiu de 5141 euros para 12.860 euros. E quem são os administradores? Os seus currículos estão na internet e revelam verdadeiros boys, daqueles que usam a bandeirinha na lapela, que foram assessores deste e daquele, que frequentaram acções de formação nisto e naquilo. No caso da girl, para além do tempo que passou em gabinetes ministeriais, é notável a sua formação de base em "estudos europeus" que, naturalmente, tem muito a ver com a regulação da aviação civil. Certamente pela sua militância, a licenciada Lígia foi nomeada pelo Sérgio Monteiro e aos 35 anos de idade tem os tais 12.860 euros mensais, mais as mordomias que o cargo lhe dá. Boa menina!
Este caso mostra o desvario que tomou conta da vida política e partidária, evidenciando uma das formas mais subtis da corrupção em Portugal, isto é, o favorecimento dos amigos e dos companheiros de partido. Bom seria que António Costa e o seu governo não entrassem nessa onda e pusessem fim a esta pouca-vergonha.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Por onde já anda a nossa pobre soberania

As relações de Portugal com a União Europeia evoluiram num sentido que é lamentável, pois a humilhação e a perda de soberania já envergonham um país com nove séculos de história.
Os portugueses votaram no dia 4 de Outubro e fizeram uma escolha política que vai em sentido diferente da receita única de austeridade que vigorou desde o início da crise do euro e tão maus resultados teve, não só em Portugal, mas também nos outros países do Sul da Europa. Como é natural, em função das suas promessas eleitorais e dos acordos parlamentares realizados, não era de esperar que o novo governo preparasse um Orçamento do Estado de mera continuidade em relação ao anterior. Porém, quando o governo enviou para Bruxelas o esboço desse mesmo Orçamento, de imediato apareceram muitas críticas, quase todas no mesmo sentido. O Orçamento ficou sob "fogo cerrado" como titulou o Diário Económico. A Comissão Europeia veio dizer que o esboço não cumpria alguns critérios obrigatórios e, depois, foi o Conselho de Finanças Públicas, a UTAO e algumas agências de rating a deixar ameaças. Alguns partidos políticos que ainda não engoliram a sua derrota parlamentar e muitos comentadores rejubilaram com esta situação porque, dominados por uma cegueira ideológica, ainda não perceberam que não podemos estar de cócoras perante os mercados, as agências de rating e os burocratas de Bruxelas, que ninguém elegeu e ninguém sabe quem são. Tenhamos vergonha! Tenhamos dignidade!
Até à sua aprovação pela Assembleia da República o Orçamento é um documento aberto e susceptível de alterações. Não é aí que está o problema e não são os números, nem o carácter das previsões mais ou menos optimistas que estão em causa. O que está em causa é uma prática cada vez mais arrogante da Comissão Europeia e dos seus aliados internos, que se mostra incapaz de resolver os gravíssimos problemas que estão a ameaçar a coesão económica e social europeia, que se cala perante os comportamentos orçamentais franceses e italianos e que se atira a Portugal, entre outras coisas ridículas porque prevê um crescimento de 2,1%, quando aceitara um crescimento de 2,0% do anterior governo.
O caminho seguido nos últimos anos empobreceu o país, aumentou a dívida e desertificou o território. Votamos noutra coisa. O governo garante que os compromissos eleitorais e os acordos parlamentares são para cumprir, ao mesmo tempo que negoceia com a Comissão Europeia o esboço de Orçamento para 2016.  Esperemos que António Costa chegue a bom porto.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Um novo mundo para a aviação comercial

A recente encomenda de 118 aviões feita pelo Irão ao consórcio Airbus, na mesma semana em que uma companhia japonesa encomendou três novos A380, veio animar a indústria aeronáutica francesa, mas veio lembrar também as previsões para o sector aeronáutico para os próximos vinte anos: duplicação do tráfego aéreo e duplicação da frota de aviões.
De acordo com as previsões dos grandes construtores (Airbus e Boeing) e da própria IATA, o crescimento anual de passageiros será de 5% nos próximos vinte anos, esperando-se que duplique até 2032 e se aproxime dos sete mil milhões. Para absorver toda esta procura e de acordo com essas previsões, a frota mundial deverá também duplicar e atingir 40 mil aviões em 2032.
É um enorme desafio para a indústria aeronáutica, para o sector aeroportuário, para a gestão do tráfego aéreo, mas também para a formação de pilotos e de outros profissionais da aviação.
Um sinal desse futuro foi a recente entrada ao serviço de novos aviões da Airbus e da Boeing, mas também de outros construtores incluindo a Bombardier e a Embraer, enquanto os construtores russos e chineses também se posicionam nesta autêntica competição comercial. Estima-se que serão necessários 37.700 novos aviões para aumento e renovação das actuais frotas, dos quais 2500 aviões regionais (70 a 100 passageiros), 26.700 aviões de médio curso (100 a 200 passageiros) e 8500 aviões de longo curso (até 550 passageiros).
O mercado asiático e em especial o mercado interno chinês, assim como as classes médias emergentes da Índia e da América do Sul estão na primeira linha deste crescimento da procura mundial de transporte aéreo. Como hoje refere o jornal Ouest France, todos querem a sua parte neste negócio de grandes proporções e, por isso, quer os construtores, quer as companhias aéreas, vão estar muito activos nos próximos anos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O desastre do Challenger 30 anos depois

No dia 28 de Janeiro de 1986, cerca de 73 segundos depois do seu lançamento no Centro Espacial John F. Kennedy, na Florida, o vaivém espacial Challenger explodiu com sete tripulantes a bordo e desintegrou-se sobre o oceano Atlântico.
O mundo que assistia a este acontecimento pela televisão, tal como cerca de 50 milhões de cidadãos americanos, comoveu-se com a brutalidade das imagens a que assistia em directo. Além dos seus seis tripulantes astronautas, participava naquela missão uma mulher chamada Christa McAuliffe, que era professora e não tinha formação específica como astronauta, estando previsto que desse aulas a partir do espaço para interessar a juventude no projecto espacial.
A circunstância de pela primeira vez participar nesse voo uma mulher como voluntária, tinha despertado a curiosidade dos americanos e contribuiu para acentuar o efeito emocional da tragédia. Como consequência deste desastre, foi nomeada uma comissão especial para o investigar e o programa espacial americano esteve suspenso durante 32 meses.
Provavelmente, a América e o orgulho americano nunca recuperaram deste choque!
Trinta anos depois, muitos jornais americanos evocaram nas suas edições de hoje a tragédia do Challenger, designadamente o diário The Denver Post, publicado na cidade de Denver no estado do Colorado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Vêm aí os Estados Unidos da Austrália

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Não há provas inequívocas sobre quem foram os primeiros europeus que chegaram à Austrália, isto é, se foram os portugueses como defende o investigador australiano Kenneth Gordon McIntyre no seu livro “A descoberta secreta da Austrália”, ou se foram os holandeses que em 1606 deram áquelas terras o nome de Nova Holanda. O facto é que os ingleses se estabeleceram na parte oriental da ilha e aí criaram uma colónia penal em 1778, que deu origem à cidade de Sydney. Ao longo do século XIX estabeleceram-se outras colónias no território australiano governadas autonomamente, até que em 1901 as seis colónias existentes formaram uma federação, adoptaram o sistema político democrático e assumiram-se como um reino da Commonwealth, com capital em Camberra. Hoje a Austrália é formada por seis estados e dois territórios e as suas principais cidades são Sydney, Melbourne, Brisbane, Perth, Adelaide e Darwin. O processo histórico transformou a Austrália numa sociedade multicultural e a ligação tutelar e afectiva à Coroa britânica faz cada vez menos sentido, tal como o facto do chefe do Estado australiano ser a Rainha de Inglaterra. Por isso, de vez em quando a opinião pública australiana é confrontada com este paradoxo e, inclusive, os australianos já decidiram num referendo realizado em 1999, não adoptarem de imediato o regime republicano. Agora foram os governadores de cinco estados e dos dois territórios australianos que assinaram uma declaração conjunta para expressar a sua vontade no sentido do país adoptar o regime republicano e o chefe do Estado ser um cidadão australiano, como destacou em Sydney o The Daily Telegraph. Porém, tal como aconteceu de outras vezes em que o tema foi discutido, todos parecem concordar que a mudança de regime só deverá feita depois da morte de Isabel II, que é muito popular na Austrália. Depois, provavelmente, teremos os Estados Unidos da Austrália com a Nova Gales do Sul, o Queensland, a Austrália do Sul, entre outros estados.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Uma tempestade como há muito não se via

Nos últimos dias a costa leste dos Estados Unidos esteve sob uma grande tempestade de neve como há muito não se via, com ventos quase ciclónicos e nevoeiros intensos que paralisaram as principais cidades, como Nova Iorque, Washington, Filadélfia e Baltimore. Mais de uma dezena de estados declararam o estado de emergência e, de acordo com o Serviço Meteorológico Nacional, tratou-se da segunda maior tempestade de neve desde que há registo, isto é, desde 1869. Em muitas regiões, as autoridades apelaram à população para que não saisse de casa, proibiram o trânsito de veículos e fecharam pontes e túneis, enquantos os aeroportos foram encerrados. Apesar dessas precauções, milhões de cidadãos foram afectados nas suas vidas e permaneceram nas suas casas durante dois dias, em algumas regiões sem electricidade. No sentido de rapidamente ser desbloqueada a situação e ultrapassar aquela emergência, os serviços de protecção civil e os carros limpa neves trabalharam em todas as cidades, partilhando os trabalhos de limpeza das ruas e das estradas com os moradores, para que a normalidade da vida pudesse ser rapidamente recuperada. Naturalmente, a notícia dominante da imprensa americana foi a tempestade de neve e os jornais tiveram uma singular oportunidade para ilustrar as suas edições com imagens das ruas e dos automóveis soterrados, embora o New York Post tivesse preferido usar a imagem de uma voluntária que, indiferente ao frio, deu uma ajuda na remoção da neve nas ruas de Nova Iorque, onde atingiu 68 centímetros de altura. Na América é assim: qualquer pretexto serve para que as pessoas apareçam e se promovam, neste caso através de um trajo muito insólito para aquelas temperaturas.

MRS é o novo Presidente da República

As eleições presidenciais ontem realizadas deram a vitória ao candidato Marcelo Rebelo de Sousa com 52% dos votos e, por isso, ele tomará posse como Presidente da República Portuguesa no próximo dia 9 de Março. Não votei nele mas, tal como disse Sampaio da Nóvoa, “a partir de hoje, Marcelo é o meu Presidente”.
Marcelo teve 2.403.874 votos e não precisou de campanha, nem de comícios, nem de cartazes. As suas características pessoais eram bem conhecidas dos portugueses, porque durante muitos anos apareceu semanalmente na televisão e, esse facto, foi determinante para adquirir uma expressiva notoriedade que tanto contribuiu para esta vitória. Marcelo é, sobretudo, um produto da televisão, a tal “caixa que mudou o mundo” e que, como alguém disse, tanto vende sabonetes como Presidentes da República. Durante muitos anos, o comentador Marcelo falou de tudo e disse tudo, mas também o seu contrário. Foi um fala-barato, um catavento e um entertainer. O povo gostou da sua imagem televisiva, mas muitos dirigentes da sua área política não o queriam, porque nunca gostaram da sua irreverência, nem da sua insubmissão. A essa gente, Marcelo deu uma grande lição.
Porém, Marcelo na Presidência da República é uma incógnita, embora vá levar consigo o cosmopolitismo, os valores culturais e a sensibilidade social que estiveram ausentes de Belém nos últimos dez anos. Esse facto é muito animador. A sua inteligência, a sua experiência e a sua perspicácia vão ser essenciais para moderar e pacificar a sociedade portuguesa, os partidos políticos e a sociedade civil. Por isso ele falou da unidade nacional e da coesão social, em vez de ameaçar com os mercados e de vomitar banalidades macroeconómicas como sempre fez o seu antecessor. Como disse e bem no seu discurso de ontem, “o povo é quem mais ordena” e essa citação de José Afonso ficou-lhe bem. Que tenha um bom mandato e que possa unir os portugueses!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Há uma crise, mas o Brasil não vai parar

O ano de 2015 foi muito duro para os brasileiros, mas todos os especialistas afirmam que o ano de 2016 não vai ser melhor. A imprensa brasileira diz que os sinais de deterioração da situação económica e social são evidentes e que esses sinais são percepcionados pelo homem comum, além de serem ampliados por uma situação política com alguma instabilidade e pelos muitos escândalos de corrupção que se vão conhecendo. Na sua edição de hoje o Correio Braziliense diz que a crise está a empurrar o Brasil para os anos 90 – um retrocesso de 20 anos – e que a hipótese de uma convulsão social em larga escala é uma real possibilidade, devido ao agravamento da situação económica, à quebra do produto nacional e do investimento estrangeiro, ao aumento da inflação e do custo de vida. O desemprego tem aumentado, tal como o número de famílias endividades e daí deriva uma enorme instabilidade social. A recessão brasileira tem situações semelhantes na Argentina e na Venezuela, que revelam a existência de uma crise mais geral, que a América Latina não conhecia desde os anos 80 e da qual é mais difícil sair.
Porém, o Brasil não vai parar, nem os brasileiros se vão deixar dominar pelo desânimo. Os ventos hão-de soprar de feição e, a seguir a esta tempestade, virá a bonança. No próximo Verão, entre os dias 5 e 21 de Agosto, a cidade do Rio de Janeiro vai receber o maior evento desportivo do mundo que pela primeira vez na sua história se realiza na América do Sul. A preparação dos Jogos Olímpicos vai ajudar a melhorar a auto-estima dos brasileiros e vai ajudar na recuperação da sua economia. É o que se deseja aconteça desde já.

As eleições presidenciais em Portugal - II

Hoje foram publicadas diversas sondagens relativas às eleições presidenciais do próximo domingo e todas elas apresentam previsões muito semelhantes que apontam para a vitória do candidato da Direita logo à primeira volta, com cerca de 52% dos votos, enquanto os outros votos dos portugueses se distribuem pelos diversos candidatos da Esquerda, destacando-se entre eles o candidato Sampaio da Nóvoa que recolhe 22% das intenções de voto.
As sondagens são recolhas de opiniões – espontâneas ou induzidas – com maior ou menor credibilidade técnica, que quantificam variáveis sociais e não são coisas do domínio das ciências exactas, apresentando intervalos de confiança bastante largos. Por isso, os 52% de intenções de voto que as sondagens atribuem ao televisivo Marcelo, consagrado como o Catavento, ainda não são “favas contadas”. É exactamente isso que dizem as sondagens, apesar dos jornalistas e comentadores do costume aproveitarem esse número para manipular a realidade a favor do seu “colega da televisão”. Porém, serão os votos e não as sondagens que, no domingo, vão determinar se teremos um presidente que não deixará de estar alinhado com o seu companheiro de partido que veio de Boliqueime, com o “cherne” Barroso e com a dupla P&P ou se, alternativamente, teremos uma segunda volta para apurar qual dos dois professores catedráticos da Universidade de Lisboa será o melhor presidente para Portugal.
Obviamente, eu voto António Sampaio da Nóvoa!

As eleições presidenciais em Portugal - I

As eleições presidenciais portuguesas realizam-se no próximo domingo e parece que não estão a interessar os eleitores que revelam alguma indiferença, talvez porque há vários candidatos de grande credibilidade para a função. Não tem havido crispações nem ânimos exaltados. Não tem havido ataques pessoais. A democracia está a funcionar. Assim, cada português pode escolher com tranquilidade o candidato que melhor se ajuste aos seus desejos, porque sabe que o seu futuro presidente vai ser melhor do que aquele que esteve em Belém nos últimos dez anos.
Essa realidade é básica e muito animadora, isto é, estamos em vias de nos vermos livres de alguém que nunca percebeu o que era a função presidencial e cujo estilo boliqueimístico enervava muita gente. Naturalmente que ninguém no mundo se interessa pelas eleições presidenciais portuguesas, até porque há muitos outros assuntos bem mais preocupantes um pouco por todo o lado. Por isso, é bem curioso o que faz hoje o jornal moçambicano O País ao destacar as eleições portuguesas na sua primeira página, com a fotografia dos principais candidatos.  Não se trata apenas de valorizar editorialmente um acontecimento político no quadro da Lusofonia, mas também de revelar interesse pelo que se passa em Portugal, que tão fortes afinidades históricas e culturais tem com Moçambique.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

R.I.P. David Bowie

David Bowie faleceu no passado dia 10 de Janeiro em Manhattan, Nova Iorque, com 69 anos de idade e muitos jornais de todo o mundo encheram as suas primeiras páginas com a fotografia do cantor inglês, que também foi compositor, actor e produtor musical.
Como a música, a excentricidade e a personalidade de David Bowie nunca me interessaram especialmente, não percebi a verdadeira dimensão dessa figura que, ao longo da sua carreira, vendeu o astronómico número de 136 milhões de álbuns e que, só no Reino Unido e nos Estados Unidos, ganhou 14 discos de platina, 18 de ouro e 8 de prata.
Porém, verifico agora que David Bowie foi realmente uma figura importantíssima no panorama musical contemporâneo, tendo influenciado o meio artístico, o comportamento e os gostos dos seus próprios públicos, sobretudo as novas gerações, com a sua criatividade e a sua capacidade de inovação. Durante cinco decénios foi um dos mais populares músicos mundiais, tendo recebido dois Grammy e dois Brit Awards, foi condecorado por alguns governos e recebeu doutoramentos honoris-causa. Numa pesquisa organizada em 2002 pela BBC para identificar “os 100 maiores britânicos de sempre”, David Bowie ficou em 29º lugar, enquanto outra pesquisa realizada em 2004 pela revista Rolling Stones lhe atribuiu a 23ª posição na lista dos melhores cantores de todos os tempos.
A importância de David Bowie como figura importante da cultura mediática dominante do nosso tempo, também foi reconhecida na mais recente edição da revista TIME que também se associou às homenagens que lhe têm sido tributadas e a que, embora tardiamente, também nos associamos.