sexta-feira, 5 de abril de 2019

E depois do incêndio do Rio de Janeiro

No passado dia 2 de Setembro ocorreu um enorme incêndio que destruíu o Palácio de São Cristóvão no Rio de Janeiro, em que estava instalado o Museu Nacional. Era um dos mais emblemáticos edifícios históricos da cidade, ocupava uma área de 13 mil metros quadrados e, em termos culturais, o incêndio destruíu um património museológico único e provocou uma verdadeira calamidade cultural.
A peritagem que tem vindo a ser efectuada já concluíu que a causa do incêndio foi um curto-circuito num aparelho de ar condicionado do auditório, localizado no primeiro andar do edifício, mas também apurou que o Museu Nacional não dispunha de estruturas de combate a incêndios, que houve falhas no sistema de prevenção, que o sistema de controlo dos detectores de fumo não estava accionado e que não existiam portas corta-fogo que poderiam ter retardado a propagação das chamas e do fumo. Houve, portanto, demasiado descuido.
A temperatura durante o incêndio ultrapassou os mil graus e a maior parte do acervo do Museu foi destruído. Foi um desastre para o património cultural do Brasil, mas as autoridades “arregaçaram as mangas” e começaram o trabalho que havia de ser feito. Assim, segundo hoje relata o jornal O Globo, foi logo contratada uma empresa para fazer algumas obras de emergência, sobretudo a estabilização das estruturas e a execução de uma cobertura provisória do edifício, bem como a remoção de entulhos e a recuperação de peças do acervo museológico que ainda pudessem ser salvas. Cerca de 85% do trabalho já está concluído e já foram removidas 1500 toneladas de entulho, assim como as vigas metálicas e outros materiais destruídos pelo incêndio.
Hoje, o jornal O Globo não só publicou uma reportagem sobre os resultados da peritagem às causas do incêndio, como também publicou uma fotografia de primeira página a quatro colunas das ruinas do Museu, a alertar os seus leitores para que esta tragédia não fique esquecida. 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A guerra e a "geração perdida" da Síria

Embora não se conheça a verdadeira situação em que se encontra actualmente a Síria, parece que a guerra acabou depois de oito anos de combates que causaram cerca de 450 mil mortos e mais de dez milhões de deslocados e refugiados, o que representa cerca de metade da população do país. Parece, também, que o regime de Bashar al-Assad venceu com o apoio dos seus aliados russos e iranianos, que o Daesh foi derrotado por uma aliança entre as forças democráticas sírias, as forças curdas e a aviação americana e que, finalmente, o califado morreu em Bagouz, depois de ter chegado a ocupar um terço do território da Síria e um terço do território do Iraque. Parece, ainda, que o Irão e a Turquia passaram da situação de rivais a grandes amigos, com a Rússia de permeio. Estes "parece" significam, portanto, que a informação que nos chega é ocasional, pontual, pouco esclarecedora e, provavelmente, manipulada.
O que não há dúvida é que a Síria está confrontada com uma grave crise humanitária. Agora é necessária a urgente assistência às populações e em especial às crianças, a todas as crianças da Síria e não só aos filhos dos militantes do Daesh, pois todas sofreram a guerra e viveram vários anos sem escola e sem educação, viram as barbaridades cometidas e as escolas destruídas, aprenderam a usar armas e foram preparadas para uma guerra sem regras. Só no campo de Al Hol, no leste da Síria, estarão 25.000 crianças em idade escolar que foram instruídas para servir o Daesh. Estas crianças representam uma pequena parte daquilo que já foi chamado a “geração perdida da Síria”, isto é, os dois ou três milhões de crianças em idade escolar que perderam parte ou a totalidade de sua educação formal durante os oito anos da guerra, umas em território sírio e outras que se estão refugiadas em campos de internamento no Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque e Egipto.
O jornal Los Angeles Times destaca em primeira página esta grave situação humanitária de que poucos falam. Porém, é a altura de perguntar quem são os responsáveis por esta guerra e de saber quem quis levar a primavera árabe para a Síria e quem estimulou e armou todos aqueles grupos que destruíram a Síria.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A desertificação e as assimetrias ibéricas

No próximo dia 28 de Abril realizam-se eleições legislativas em Espanha e as sondagens que vão sendo conhecidas estão a indicar que nenhum partido vai conseguir a maioria e que vai ser difícil formar coligações de governo. Depois, no dia 26 de Maio realizam-se as eleições para o Parlamento Europeu.
Perante este quadro eleitoral, muitas associações da chamada Espanha rural, agora também chamada La España vaciada, decidiram manifestar-se ontem no centro da capital espanhola para, em tempos de campanha eleitoral, exigirem dos poderes públicos mais investimento nas províncias mais desfavorecidas e mais atenção para travar o seu despovoamento. A iniciativa que juntou algumas dezenas de milhar de pessoas serviu para unir as reivindicações das províncias do interior da Espanha “desde León a Murcia y desde Cáceres a Huesca” e, segundo o jornal el Periódico de Aragón, a cidade de Madrid foi ocupada, o que significa que a mensagem dos manifestantes passou.
A Espanha está confrontada com o despovoamento do interior e a aglomeração populacional nas grandes cidades, de que resultam graves problemas económicos e sociais, que se traduzem em assimetrias regionais cada vez mais acentuadas. Embora em menor escala, também Portugal padece da acentuada desertificação do interior. É um problema que está diagnosticado e para o qual todos os políticos fazem promessas, sem que se note qualquer inversão da situação, até porque essas regiões “não dão votos”. Os poderes públicos fazem pouco para resolver a situação e calam-se perante o encerramento de tribunais, linhas ferroviárias, agências bancárias, estações dos correios, repartições públicas, esquadras da polícia, escolas secundárias e tudo o mais que não resiste à cegueira dos critérios financeiros da avaliação custo-benefício e que não olha a critérios sociais. 
Os espanhóis reclamaram ontem, mas os portugueses estão calados.

domingo, 31 de março de 2019

A guerra de Espanha terminou há 80 anos

A guerra civil de Espanha foi um conflito de grande violência que aconteceu em Espanha entre 1936 e 1939, de que terão resultado 500 mil mortos. A sociedade portuguesa desse tempo acompanhou esse drama, que gerou muitos refugiados e em que muitos portugueses atravessaram a fronteira para combater dos dois lados. 
A guerra civil espanhola tem sido considerada como um ensaio preparatório da 2ª Guerra Mundial e terminou há 80 anos, sendo hoje evocada pelo jornal catalão ara, que se publica em Barcelona com uma linha editorial pró-independentista e que, sugestivamente, faz a pergunta (a Franco) : ainda cá estás?
A guerra civil de Espanha começou no dia 17 de Julho de 1936, quando ocorreu um pronunciamento militar na praça de Melilla, no norte de África, tendo terminado no dia 1 de Abril de 1939, quando o general Franco anunciou o fim da guerra, depois das suas tropas terem entrado em Madrid. De um lado esteve a Frente Popular, que agregava os movimentos da esquerda e os nacionalistas galegos, bascos e catalães que apoiavam o governo legítimo da Espanha, o regime republicano instalado em 1931 e os estatutos de autonomia; do outro lado estiveram os Nacionalistas conservadores, em que se integravam os monárquicos, os falangistas, os carlistas e outros movimentos da direita espanhola. Porém, a guerra internacionalizou-se e, enquanto a Frente Popular teve o apoio da União Soviética e das Brigadas Internacionais compostas por militantes socialistas e comunistas de todo o mundo e de numerosas voluntários, os Nacionalistas tiveram o apoio do Corpo Truppe Volontarie enviado por Mussolini, da Legião Condor enviada por Hitler e dos Viriatos organizados pelo regime de Salazar.
A guerra civil espanhola polarizou toda a Espanha e deu origem a execuções, massacres e campanhas de terror praticadas pelos dois lados e, por isso, é um assunto muito sensível na nossa vizinha Espanha, porque muitas das suas feridas ainda estão por sarar. A ditadura instaurada pelo general Franco, que foi o vencedor da guerra, durou até à sua morte em 1975, mas a lição desse tempo e dessas circunstâncias não pode estar ausente do pensamento nem da acção dos responsáveis políticos do país vizinho e das suas regiões autónomas, para que a História não se repita.

sábado, 30 de março de 2019

O incerto futuro das crianças da jihad

O noticiário internacional tem sido mobilizado em torno do fiasco do Brexit, da contínua instabilidade política na Venezuela ou das devastações causadas por ciclones e cheias em Moçambique, enquanto os nomes de Theresa May, Juan Guaidó, Donald Trump, Nicolas Maduro, Jair Bolsonaro ou Benjamin Netanyahu estão a ser os protagonistas do momento e enchem páginas dos jornais.
Apesar disso, nos últimos dias, vários jornais internacionais, sobretudo franceses e americanos, têm vindo a tratar do problema das crianças do Daesh que se encontram internadas em campos de refugiados em território sírio.
Com a derrota militar das forças do Daesh, as mulheres que se juntaram à jihad islâmica e que viveram no califado, muitas delas de origem europeia, bem como as suas crianças, encontram-se agora em campos de refugiados em diversos locais da Síria, na maior parte dos casos controladas pelas forças curdas. A pressão para que sejam repatriadas é enorme por evidentes razões humanitárias, mas as opiniões públicas ocidentais parecem resistir. Essas mulheres traíram os seus países e juntaram-se ao radicalismo e ao terrorismo. Eventualmente, cometeram crimes ou foram coniventes com eles. Muitas das suas crianças já estão instrumentalizadas pela propaganda do Daesh, já participaram em acções terroristas, já viram muitos crimes hediondos e foram preparadas para ser combatentes e para actuar como kamikazes e, se não forem acolhidas e reeducadas, serão em breve um verdadeiro material explosivo sempre pronto a ser accionado por um qualquer Abu Bakr al-Baghdadi. É um dossier muito delicado. Por isso, em diversos países, incluindo Portugal, se tem feito a pergunta sobre o que deverá ser feito, isto é, se o apoio ao regresso dessas mulheres e crianças, ou o seu exílio e abandono nos campos de internamento.

sexta-feira, 29 de março de 2019

O impensável naufrágio do Reino Unido

O eleitorado britânico votou no dia 23 de Junho de 2016 sobre a permanência ou não permanência do Reino Unido na União Europeia e quase 33 milhões de votantes escolheram: 51,8% votaram no leave, enquanto 48,2% votaram no remain. Depois de 43 anos de permanência na União Europeia, o eleitorado escolheu a saída. David Cameron, o primeiro-ministro conservador que organizou o referendo e que fez campanha pela permanência demitiu-se e, no dia 13 de Julho, cedeu o seu lugar a Theresa May.
Apesar de Theresa May ter defendido a permanência, decidiu cumprir o mandato para que foi escolhida e tratou de iniciar o “processo de divórcio”, ao enviar uma carta ao Conselho Europeu a activar o artigo 50 do Tratado de Lisboa. Iniciaram-se depois as  conversações com Bruxelas que deveriam ficar concluídas e ratificadas até ao dia 29 de Março de 2019.
Por razões de política interna, no dia 8 de Junho de 2017 realizaram-se eleições legislativas antecipadas e Theresa May e o seu partido perderam a maioria na Câmara dos Comuns. Apesar disso, as negociações avançaram e no dia 8 de Dezembro foi anunciado um primeiro pré-acordo sobre as modalidades e temas do “divórcio”, entrando-se na segunda fase das negociações.
Nesta segunda fase das negociações começaram os problemas e o primeiro, que veio a ficar conhecido por backstop, pretendia evitar o regresso da fronteira física e do controlo aduaneiro entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. Depois sucederam-se as discussões em torno do tipo de acordo a celebrar, as dissidências no governo britânico, as manifestações a favor e contra o Brexit, a hipótese de realizar um segundo referendo e uma verdadeira implosão no seio do Parlamento britânico. Theresa May foi incapaz de evitar a confusão e a incerteza, conduzindo o Reino Unido para um impensável patamar de desprestígio e de desconfiança.
Hoje deveria ser concretizado o Brexit, mas foi adiado. Na sua edição de hoje, o Courrier International dedica a sua primeira página com uma sugestiva ilustração alusiva ao naufrágio do Reino Unido, afirmando ser um país ingovernável e com a sociedade mais dividida do que nunca.

quinta-feira, 28 de março de 2019

O regresso triste e inoportuno do Aníbal

Instalou-se no espaço mediático nacional, no contexto da luta política e eleitoral em que já estamos envolvidos, um enorme ruído de fundo sobre os familiares dos políticos que ocupam lugares no governo ou próximo dele, parecendo que a questão é nova e que foi inventada agora. Não é verdade! A generalidade da classe política portuguesa sempre foi uma casta que se soube proteger e que sempre foi mais interessada em servir os seus interesses pessoais ou de grupo, do que em servir o interesse público, a comunidade ou o bem comum. Daí que, muitos jovens aprendam, desde muito cedo, que a melhor maneira de subir na vida é alistarem-se nesse trampolim que são as jotas, porque já sabem que é a militância partidária que dá poder, emprego, mordomias, negócios e influência, mesmo sem que haja qualidade ou qualificação, embora alguns ainda arranjem uns canudos à pressa e subam na vida como verdadeiros relvas. São eles que se instalam, que dominam os aparelhos e que mandam nisto tudo, por vezes como serventuários de outros interesses.
É através dessa forma de ver a política que se arranjam lugares para maridos, mulheres, filhos e filhas, genros e noras, enteados, sogros, primos e primas, amigos e amigos dos amigos e por aí adiante. No caso de algumas autarquias são famílias inteiras e, em certas empresas públicas, era quase a mesma coisa. Nunca faltaram lugares para governantes, deputados, assessores, autarcas e gestores, nem outros lugares para troca de favores. Sempre houve cardonas e estrelas. Sempre foi assim! Por isso, não há que admirar por aquilo a que assistimos actualmente e até é ridículo que haja quem faça o  papel de virgem ofendida e que se deixe engodar por esta questão, que faz parte da tradição cultural portuguesa de procurar colocar os amigos onde mais convém.
Porém, a minha surpresa foi o aparecimento do Aníbal, que devia estar calado em Boliqueime ou na Quinta da Coelha, para não nos recordar o seu triste legado político de mesquinhez e incultura, ao vir atirar um pouco de gasolina para uma fogueira que não passa de um episódio de campanha eleitoral ou de imprensa cor-de-rosa. Ou será que está com ciúmes de MRS que, cada vez mais, o está a apagar da História?

terça-feira, 26 de março de 2019

Airbus ou Boeing: as escolhas da China

Numa altura em que a Boeing atravessa uma grave crise em consequência dos acidentes com o seu modelo 737 Max, a China avançou com a maior encomenda alguma vez feita ao construtor europeu Airbus.
O avião Boeing 737 Max parecia dominar o mercado aeronáutico e a Boeing já tinha registada uma carteira de 4316 encomendas, mas porque apenas foram entregues 86 aviões, havia uma lista de espera de 4230 unidades. Entretanto, aconteceram os acidentes com o voo Lion Air 610 que se despenhou no mar de Java, na Indonésia, e mais recentemente, com o voo ET 302 da Ethiopian Airlines. Os voos do 737 Max foram suspensos, muitas encomendas foram canceladas e as acções da empresa tiveram uma brutal queda na Bolsa.
Foi nesse contexto que foi assinado em Paris, na presença de Emmanuel Macron e de Xi Jinping, que está em visita oficial a França, o contrato para a aquisição de 300 aviões para treze companhias aéreas chinesas. Os aviões serão construídos na fábrica da Airbus em Tianjin, a norte de Pequim e, a preços de catálogo, a encomenda custará mais de 32 mil milhões de dólares (custo unitário da ordem de 100 milhões de dólares). Assim, os franceses aproveitaram a tensão comercial que o Donald criou com os chineses e, segundo o jornal La Dépêche du Midi, bateram o seu próprio record de encomendas.
Tal como a recente encomenda de submarinos pela Austrália animou a região da Bretanha, também esta encomenda entusiasmou a região de Toulouse, até porque se estima que até 2037 a China terá necessidade de 7400 aviões de passageiros e carga.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Realmente, parece haver duas Venezuelas

É muito incerta a situação que se vive na Venezuela, sobretudo depois de 23 de Janeiro de 2019, quando Juan Guaidó se auto-proclamou Presidente do país. A partir de então intensificou-se uma campanha internacional contra Nicolas Maduro e o seu regime, apoiada nos mass media internacionais que se mobilizaram em torno da ajuda humanitária e da ocupação do poder pelos chavistas de Maduro, que é considerada ilegítima pela oposição. A intensidade dessa campanha faz-nos desconfiar, até porque a leitura da imprensa venezuelana revela que ainda é plural, sem parecer estar enfeudada a Maduro ou a Guaidó, pois veicula as diferentes posições dos partidos venezuelanos e insiste que “urge buscar acuerdo politico en el país”.
Há uma crise séria, mas os militares e os juízes continuam com Maduro. Porém, há novos episódios todos os dias. Um deles foi a prisão de um colaborador próximo de Guaidó, alegadamente envolvido em operações de financiamento de um grupo paramilitar que iria desencadear atentados terroristas para destabilizar, ainda mais, o país. O outro foi a vitória do vino tinto, isto é, a equipa nacional de futebol sobre a Argentina de Messi, o que elevou a auto-estima venezuelana.
Ontem a notícia, veiculada por toda a imprensa venezuelana, incluindo o jornal El Clarín de la Victoria para Aragua, foi a chegada ao aeroporto de Maiquetía de dois aviões da Força Aérea Russa, um gigante Antonov An-124 carregado com 35 toneladas de material e um Ilyushin Il-62 com 99 militares comandados por um general. É uma notícia preocupante porque os objectivos desta missão são desconhecidos, embora tivesse sido adiantado que resultam de compromissos relativos aos contratos de carácter técnico-militar existentes entre a Rússia e a Venezuela.
Esta notícia não vai agradar nada ao Donald. Realmente, parece haver duas Venezuelas: uma que a Rússia apoia e outra com que o Donald sonha. Além disso, a notícia mostra uma realidade diferente daquela que nos tem sido mostrada, nomeadamente pelos chamados enviados especiais portugueses que se deslocaram à Venezuela e que não tiveram o cuidado ou o profissionalismo de mostrar as duas faces da história.

domingo, 24 de março de 2019

Marinha de Espanha e unidade nacional

O jornal espanhol ABC destaca na primeira página da sua edição de hoje uma fotografia das longas filas de visitantes que no porto basco de Getxo quiseram ver o porta-aviões Juan Carlos I, “el buque insignia de la Armada”. Da mesma forma, também o Diario de Cádiz também destaca hoje a visita que a fragata Blas de Lezo fez ao porto de Cádiz, na Andaluzia, onde foi visitado por muita gente. Na passada semana, a fragata Cristóbal Colón estivera no porto asturiano de Avilés, onde esteve aberto a visitas do público, o que foi relatado pelo jornal La Voz de Avilés.
Significa que, em três diferentes regiões espanholas, estiveram três navios da Marinha de Espanha em visitas de cortesia e abertos ao público para visitas, factos de que a imprensa fez eco, o que não deixa de ter uma leitura política.
Com estas visitas a diferentes portos do seu território, os navios da Marinha espanhola dão um forte contributo para o reforço dos sentimentos de unidade nacional do país vizinho, onde existem 17 comunidades autónomas, algumas das quais com tendências separatistas. Por outro lado, os milhares de visitantes que estiveram no Juan Carlos I, mas também nas duas outras fragatas, puderam apreciar a capacidade tecnológica da Marinha de Espanha e dos seus profissionais, o que é um estimulante tributo de reconhecimento por parte da sociedade civil espanhola. Finalmente, a cobertura que a imprensa deu a estes acontecimentos mostra como os espanhóis se interessam pela sua Marinha. Assim fosse em Portugal.

A queda de Baghouz não é o fim do Daesh

Alguma imprensa britânica e francesa, caso do Le Monde, anunciou a queda de Baghouz , o último reduto do Daesh, situado nos confins da parte leste da Síria, junto da fronteira com o Iraque. Há alguns dias, também Donald Trump anunciara o fim do Daesh. Significa que o califado que adoptou o nome de Estado Islâmico do Iraque e da Síria durou cinco anos e que, depois de em 2017 ter perdido as suas capitais de Mossul (Iraque) e Rakka (Síria), tinha um fim anunciado.
Porém, a queda de Baghouz não é o fim do Daesh, pois a organização chefiada por Abu Bakr al-Baghdadi criou ramificações e células em vários países e é natural que continue a sua actividade, agora com uma diferente estratégia, que não passa pela ocupação de território, mas que continua com a prática contínua de atrocidades, assassínios em massa, execuções arbitrárias, roubos, saques e violações, isto é, o terror.
Nas últimas semanas, as forças curdas e sírias capturaram algumas centenas de combatentes do Daesh, muitos deles originários de países europeus, mas agora ninguém sabe o que fazer com eles, nem sequer com as suas famílias.
O assunto está na ordem do dia e um dos seus aspectos mais curiosos acontece com as chamadas noivas do Daesh, que tendo aderido ao movimento terrorista, parecem reivindicar agora todos os direitos sociais que tinham nos seus países, antes de se juntarem ao grupo jihadista islâmico. Em alguns casos essas pessoas já estão a reivindicar o direito de serem libertadas, repatriadas e apoiadas pelos seus países de origem, o que é verdadeiramente paradoxal. Muitas dessas mulheres têm agora crianças o que torna o problema mais complexo por razões humanitárias, mas o Le Monde chama a atenção para essa gente que pode aparecer como “des bombes à retardement”.

Um Reino Unido cada vez mais desunido

A confusão é total e são cada vez menos aqueles que se interessam pelo Brexit e pelo futuro da Grã-Bretanha. O poderoso Reino Unido que ”governou o mundo durante o século XIX”, que no século XX se afirmou sem equívocos em duas guerras mundiais e que, mais recentemente, navegou pelo Atlântico Sul em defesa das ilhas Falklands, está agora sem rumo e o que vier a acontecer será sempre um desastre. Ficar ou sair, com ou sem acordo, representará sempre e por muitos anos, um símbolo de decadência que colocará o Reino Unido num patamar de inferioridade em relação à comunidade internacional. Quem pensou que o Reino Unido se transformaria numa República das Bananas? Ninguém imaginou este cenário de confusão, nem este futuro de incerteza. A força e a determinação de Winston Churchill ou de Margareth Tatcher são coisas do pasado. Theresa May revelou-se uma personagem incapaz, dominada por uma obcecada teimosia e sem ter a noção da importância do momento histórico que lhe caiu nas mãos.
O Brexit, enquanto decisão soberana do eleitorado britânico falhou, mas o que é mais surpreendente é que Theresa May deixou arrastar o problema e parece nunca ter tido a intenção de se demitir. Agora, é a União Europeia que, cansada deste processo, impõe as suas regras e encosta o Reino Unido à parede.
Porém, ainda ontem em Londres, um milhão de pessoas reclamou contra a incapacidade dos seus políticos e exigiu que seja realizado um novo referendo, defendendo que o Reino Unido permaneça na União Europeia. Foi uma manifestação histórica diz hoje o jornal espanhol La Razón.
Se ao menos adiassem a decisão por um ano, para formar um novo Parlamento e para amadurecer ideias, por certo que se encontraria a solução mais desejada e mais consensual. Assim, tudo se conjuga para que o proceso corra mal, que ocorra uma grave crise económica e social e que não tardem as reivindicações da Escócia e da Irlanda do Norte a desunir e a enfraquer ainda mais o Reino Unido.

sábado, 23 de março de 2019

O porta-aviões simboliza prestígio e poder

O porta-aviões espanhol Juan Carlos I visitou pela primeira vez o Euskadi ou Comunidade Autónoma do País Basco, estando atracado no porto de Getxo, situado na margem nascente da ria de Bilbau.
Hoje, o diário El Correo publica na sua primeira página uma fotografia a seis colunas daquele “castillo de acero” que desloca 27 mil toneladas, que tem 231 metros de comprimento e que é operacionalizado por 400 tripulantes. A visita do navio ao Euskadi e o destaque que lhe é dada pela imprensa basca, são reveladores da sua importância simbólica para a afirmação externa e interna da Espanha.
O Juan Carlos I também tem sido classificado como navio de protecção estratégica ou como navio de assalto anfíbio, embora apareça mais vezes classificado como porta-aviões. É um navio muito caro, mas é um símbolo de poder e de prestígio, que serve para múltiplas funções e tarefas e, em especial, para afirmar um país no contexto internacional. Segundo consta dos seus registos, o Juan Carlos I tem ou pode ter 25 caças-bombardeiros AV-8 Harrier II como principal equipamento, mas pode receber helicópteros, 1200 fuzileiros, 46 tanques Leopard 2E, quatro barcaças de desembarque e quatro lanchas pneumáticas de desembarque. 
Portugal não tem porta-aviões, mas bem precisava de um navio polivalente que pudesse projectar poder, influência e solidariedade, sobretudo em tempos de crise ou de calamidade, não só nas suas regiões insulares, como também nas áreas atlânticas a que historicamente está ligado. Porém, as opções políticas têm sido outras...

sexta-feira, 22 de março de 2019

Sobre um futuro mais promissor da CPLP

A propósito da comemoração do seu 39º aniversário, a última edição do Jornal de Letras dedica um alargado espaço à CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), uma organização internacional criada no dia 17 de Julho de 1996 que integra os países lusófonos. O seu principal objectivo é o aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre os seus membros e, como o seu nome indica, a língua portuguesa é o elemento essencial dessa comunidade que visa congregar afectos e interesses.
Jorge Carlos Fonseca, o Presidente da República de Cabo Verde e que actualmente preside à CPLP, assina nessa edição um texto muito optimista sobre as perspectivas de evolução da organização e da língua portuguesa.
Porém, apesar de levar mais de vinte anos de vida, a CPLP ainda não conseguiu afirmar-se internacionalmente, sobretudo no que respeita ao reconhecimento do português como língua de trabalho nas Nações Unidas e em outras organizações internacionais. Por outro lado, também a cooperação entre os diversos membros da CPLP, que é um ponto importante dos seus estatutos, tem estado muito abaixo do que é desejável.
Com os traumas de um passado colonial e em alguns casos de guerra cada vez mais distantes, o futuro da CPLP é agora mais promissor, pois começam a ser melhor compreendidas as vantagens de uma cooperação que pode beneficiar os seus povos. A recepção feita recentemente em Angola ao Presidente da República Portuguesa ou a pronta solidariedade portuguesa para com a tragédia que passou por Moçambique, são apenas dois exemplos da amizade entre os povos lusófonos e que mostram o potencial de cooperação que está por concretizar. A maré é agora mais favorável do que antes e o Presidente Jorge Carlos Fonseca é um excelente timoneiro para conduzir essa nau que é a CPLP.

quinta-feira, 21 de março de 2019

O apoio dos portugueses a Moçambique

Cada nova notícia que nos chega de Moçambique e, sobretudo, cada nova imagem que recebemos, ajudam-nos a compreender a dimensão da enorme tragédia que se vive naquele país a que nos ligam raízes históricas e tão fortes sentimentos de fraternidade.
A edição de hoje do jornal O País noticia que estão 60 mil pessoas penduradas em tectos e árvores e que tendem a aumentar as zonas inundadas na província de Sofala, devido à subida dos caudais dos rios Púngué e Búzi.
Como ontem foi afirmado “Portugal estará na linha da frente do apoio internacional humanitário e técnico a Moçambique nesta hora muito difícil” e, nesse sentido, uma força de reacção rápida portuguesa constituída por quarenta militares dos quais 25 são fuzileiros especiais equipados com botes de borracha, duas equipas cinotécnicas da GNR com cães especializados em busca e salvamento, além de médicos e de enfermeiros, já partiu para Moçambique para ajudar no socorro às populações vítimas do ciclone Idai. Entretanto, com o incentivo do Presidente da República, que considera Moçambique a sua segunda Pátria, e com a acção do governo que está a mobilizar todos os meios possíveis de auxílio, a solidariedade portuguesa não vai faltar aos moçambicanos neste tempo de grande tragédia. Da mesma forma, diversas iniciativas de recolha de ajudas estão em curso, não só promovidas pelo governo português, mas também por diversas entidades da sociedade civil, com destaque para a Cruz Vermelha Portuguesa e para a Cáritas Portuguesa.
A solidariedade portuguesa não faltará e Moçambique vencerá!