quinta-feira, 22 de agosto de 2024

EUA: a questão de Gaza e a luta eleitoral

A propósito da Convenção Nacional do Partido Democrata que hoje se encerra e que escolheu Kamala Harris como candidata à presidência dos Estados Unidos, as notícias televisivas têm mostrado unanimidade, muito entusiasmo e um enorme apoio que lhe tem sido dado, nomeadamente por Oprah Winfrey, Nancy Pelosi, os Clintons, os Obamas e outros dignitários. Porém, a edição de hoje do jornal Chicago Sun Times revela que os Democratas estão divididos pelo problema de Gaza. 
De acordo com aquele jornal, no exterior da Convenção estiveram muitos activistas a protestar contra a ofensiva israelita em Gaza, enquanto no interior da Convenção se manifestou um pequeno mas expressivo contingente de delegados democratas que suspendeu o apoio a Kamala Harris, até que ela “se comprometa a cortar o fornecimento de armas a Israel”. Muitos destes delegados estão alinhados com o movimento de protesto que tem apelado a Joe Biden para cortar o fluxo de armas americanas para Israel, destacando-se Abbas Alawich, delegado do Michigan, que disse da dificuldade em contactar as bases do partido, quando “vemos o assassinato em massa de crianças e bebés em Gaza usando armas dos Estados Unidos”. Durante o discurso de Joe Biden foi desfraldada uma faixa no salão da Convenção pedindo-lhe que “pare de armar Israel”, embora essa faixa tivesse sido imediatamente retirada por outros delegados. Num outro discurso, o senador Bernie Sanders, antigo candidato presidencial, afirmou que “devemos acabar com esta guerra horrível em Gaza” e, dirigindo-se a Kamala Harris, disse-lhe para que “traga os reféns para casa e exija um cessar-fogo imediato”.
Muitos delegados e congressistas Democratas alertaram que esta questão “pode inclinar a votação de 5 de novembro para o candidato republicano”, mas o que é significativo é o facto do conflito israelo-palestiniano e o apoio americano ao radicalismo israelita estarem no centro da luta eleitoral americana. De facto, ainda vai correr muita água debaixo das pontes durante a corrida eleitoral.

EUA: Kamala já chegou e Donald já treme

A Convenção Nacional do Partido Democrata termina hoje em Chicago com a oficialização da candidatura de Kamala Harris para defrontar Donald Trump, cuja candidatura fora oficializada há pouco mais de um mês em Milwaukee. Na sua edição de hoje o jornal francês Libération, destaca em manchete que “Kamala chega, Donald treme”, enquanto vários analistas têm referido que a campanha vai agora começar.
Nunca em Portugal se falou tanto de um país estrangeiro ou de umas eleições que nele se realizam, como tem acontecido nas últimas semanas, sobretudo devido à programação da CNN Portugal, um canal televisivo que dedica tanto tempo às eleições americanas que até parece que os portugueses vão votar, ou que Portugal é o 51º estado dos Estados Unidos. É um exagero e, como consequência, não se trata de Informação mas antes de uma prática a que se vem chamando Desinformação.
Os americanos irão escolher o seu presidente, homem ou mulher, mas qualquer que seja a sua escolha, o modo de vida americano continuará, a solidez das suas instituições políticas manter-se-à, os grupos de pressão serão os mesmos  e a sua política externa e as suas alianças não se vão alterar significativamente. O estilo presidencial pode mudar, mas com republicanos ou com democratas no poder, o mundo continuará a olhar para os Estados Unidos da mesma forma.
O sistema político americano assenta na alternância do poder e, nos últimos anos, viveram na Casa Branca, fazendo dois mandatos presidenciais, os presidentes Bill Clinton (D), George W. Bush (R) e Barack Obama (D). Em 2017 seguiu-se Donald Trump (R) que não foi reeleito e em 2021 foi eleito Joe Biden (D) que desistiu da sua recandidatura. O que vier a acontecer será uma novidade, quer seja o regresso de Trump à Casa Branca, quer seja uma mulher pela primeira vez na presidência. O que não há dúvidas, como o Libération hoje sugere, é que Kamala chegou e Donald treme.

sábado, 17 de agosto de 2024

EUA: até parece que vale tudo na política

As eleições presidenciais americanas vão realizar-se no próximo dia 5 de novembro e são um dos grandes acontecimentos mundiais dos próximos meses, porque vão influenciar o futuro do mundo. Faltam apenas 80 dias para uma disputa eleitoral que, em todo o mundo, é estudada pela comunidade académica, através da Sociologia, da Comunicação e do Marketing, com a análise detalhada das frequentes sondagens e das estratégias de comunicação utilizadas pelos candidatos para influenciar os eleitores e conquistar votos. Dizem os especialistas que nenhuma disputa eleitoral é tão dura como as eleições presidenciais americanas e, em breve, os americanos vão ter de escolher entre os candidatos Republicano e Democrata, ou entre Donald Trump e Kamala Harris, cada qual com os seus discursos mais ou menos aliciantes para o eleitorado.
A campanha eleitoral americana é sempre personalizada e muito agressiva, utilizando muitas vezes o insulto pessoal, a crítica ao passado dos candidatos e os seus escândalos próprios ou das suas famílias, enquanto os projectos para o futuro não são discutidos. Tudo isto decorre num ambiente de manipulaçáo comunicacional e num quadro de concorrência mediática que envolve muito dinheiro, daí resultando que as televisões e os jornais não costumam ser neutrais e declaram apoio a um dos candidatos. Assim sucede, por exemplo, com o New Yok Post, um tablóide nova-iorquino que é o 13º jornal mais antigo e o 7º de maior divulgação nos Estados Unidos, que apoia Donald Trump e que há dias publicava em primeira página a fotografia de Kamala Harris com o título Kameleon, mas que hoje publica a fotografia de Kamala Harris com o título Kamunism
Até parece que do lado de lá do Atlântico vale tudo… Nós não estamos habituados a este tipo de agressividade política e de insulto pessoal nas nossas campanhas eleitorais.

Tragédia: mais de 40.000 mortos em Gaza

A imprensa árabe do Golfo, nomeadamente o jornal The National que se publica em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, destaca nas suas edições de hoje que o número de mortos em Gaza já ultrapassa os 40.000 e que, segundo as autoridades sanitárias palestinianas, desde outubro de 2023, o número de feridos já ascende a 92.400. Estes números são chocantes e se os juntarmos às imagens da brutal destruição do território de Gaza, ficamos com a dimensão de uma tragédia e de um crime contra a humanidade, que muitos dirigentes mundiais e até os mass media parecem ignorar.
A acção do Hamas de 7 de outubro de 2023 foi um acto de natureza terrorista, cometido com barbaridade contra civis indefesos, que se enquadra na tipologia do crime de guerra e do crime contra a humanidade. Houve centenas de mortos, centenas de reféns israelitas e, naturalmente, Israel reagiu para punir o Hamas.
Porém, depressa adoptou uma estratégia que vem sendo classificada como de genocídio do povo palestiniano, pois tratou de todos massacrar sem cuidar de saber se eram ou não eram do Hamas. A Faixa de Gaza foi destruída pela brutalidade israelita e está em curso uma tragédia humanitária, mas o governo israelita tem ignorado todas as recomendações da comunidade internacional para se moderar e parar com a sua vingança que se manifesta todos os dias sobre hospitais e escolas, com o pretexto de que alojam terroristas. O Tribunal Penal Internacional acusou Netanyahu por crimes de guerra mas, como se viu recentemente, ele atravessou o Atlântico e foi recebido apoteoticamente nos Estados Unidos, regressando a Israel com a garantia de todo o apoio militar de que necessita.
Entretanto, a Espanha, a Noruega e a Irlanda reconheceram o Estado da Palestina para abrir caminho para a solução de dois Estados na região (Israel e Palestina), o que desde sempre foi defendido pelas Nações Unidas. O cessar-fogo é necessário, mas as inúmeras viagens de Antony Blinken ao Médio Oriente nada fizeram pela paz e apenas asseguraram o apoio americano ao regime de Netanyahu.
Por cá pouco se comenta esta tragédia humanitária e os espaços televisivos estão dominados por gente que serve Israel e que até confunde palestinianos com terroristas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Código Civil português inspira lei indiana

A Índia é uma união de 29 estados e 7 Union territories, que tem 1.441 milhões de habitantes e é o mais populoso país do mundo. Herdeira de uma civilização milenar, é hoje um grande país com uma complexa teia de diversidades religiosas, culturais e linguísticas e, com 22 línguas oficiais, centenas de dialectos e vários tipos de escritas.
Depois de muitos anos em que a “dinastia” de Jawaharlal Nehru e o Congress Party estiveram no poder, em 2014 as eleições parlamentares foram ganhas pelo Bharatiya Janata Party (BJP). Com este resultado, o nacionalismo hindu subiu ao poder e Narendra Modi tornou-se primeiro-ministro, com a oposição a acusá-lo de grande radicalismo religioso e de deriva ditatorial.
Ontem, dia 15 de agosto, a Índia celebrou com a pompa do costume, o 77º aniversário da sua independência e Narendra Modi presidiu ao habitual e imponente desfile militar em Nova Delhi e discursou, tendo salientado que a India tem necessidade de “a new ‘secular’ civil code”, como hoje destaca o jornal Hindustan Times e toda a imprensa indiana de referência.
Acontece que as leis indianas têm códigos específicos para as diferentes regiões e religiões, sobretudo muçulmanas e hindus, mas também para as diferentes castas. Porém, os antigos territórios portugueses do Estado da Índia, nomeadamente Goa e Damão são a excepção, pois os goeses e os damanenses têm um único Código Civil Uniforme (UCC), copiado do Código Civil português de 1867 e que abrange todas as religiões, com leis que regem tudo, desde a igualdade de género no casamento, até à herança pessoal.
É realmente espantoso como, depois de terem sido hostilizados muitos daqueles que defenderam a extensão do Código Civil português como modelo para um UCC para toda a Índia, venha agora Narendra Modi dizer que “o UCC já existe no estado de Goa e todos vivem felizes lá”, mas sem nunca referir que o código que existe em Goa e Damão foi criado pelos portugueses. Se fosse vivo, o advogado goês Manohar Usgaocar, de quem fui amigo, haveria de sorrir. Afinal, os portugueses que são atacados por terem levado a Inquisição para Goa, fizeram por lá muitas coisas respeitáveis e que ainda são modelares.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

As Festas de Nossa Senhora da Agonia

Gabriela Sampaio e o cartaz de 2024
Começam hoje em Viana do Castelo e vão decorrer até ao dia 22 de agosto as Festas de Nossa Senhora da Agonia, que são a maior romaria que se realiza em Portugal, mas não cabe neste breve texto a descrição estética e cultural deste acontecimento popular único, que atrai mais de um milhão de pessoas àquela cidade minhota, seduzidas por um espectáculo sem paralelo no noso país. Durante os oito dias da romaria há um pouco de tudo o que acontece nas festas populares portuguesas, incluindo muita música, fogo-de-artifício, bandas filarmónicas, gastronomia e feiras de artesanato, mas nas Festas de Nossa Senhora da Agonia há muito mais, destacando-se o deslumbrante Desfile da Mordomia, o Cortejo Histórico e Etnográfico, a Procissão Solene em honra de Nossa Senhora da Agonia, o Festival de Concertinas e Cantares ao Desafio, o Desfile de Grupos de Bombos e Cabeçudos e a Procissão ao Mar, que é um dos mais emblemáticos momentos da romaria. Nesta procissão, os pescadores carregam até ao cais os andores de Nossa Senhora da Agonia, de Nossa Senhora de Monserrate, de Nossa Senhora dos Mares e de São Pedro, que são embarcados e transportados nas embarcações embandeiradas em desfile, ou procissão marítima, ao longo do rio Lima, a que se sucede o desembarque e o regresso dos andores que percorrem as ruas cobertas de tapetes de flores.
Tudo o que nestes dias se vai passar em Viana do Castelo é um deslumbramento! Além de tudo isto, nas festas de 2024 há duas grandes novidades. A primeira é que a Mordoma das Festas de Nossa Senhora da Agonia que se chama Gabriela Sampaio foi, pela primeira vez, escolhida através de um concurso tendo ficado com o direito a figurar no cartaz da Romaria d’Agonia. A segunda novidade é a participação no Cortejo Histórico e Etnográfico, envergando trajes tradicionais minhotos, do campeão olímpico Iúri Leitão e da sua noiva, ambos minhotos.
Neste quadro festivo, aqui deixo uma mensagem de grande admiração pela cultura popular minhota e um abraço ao meu amigo FSM, um orgulhoso vianense que é fiel às suas raízes e está sempre com a Romaria d’Agonia.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Mais tensão entre a Ucrânia e a Rússia

Terminaram os Jogos Olímpicos de Paris e a cerimónia de encerramento foi caracterizada pela criatividade, espectacularidade e perfeita harmonia entre a estética e a tecnologia. A imprensa referiu-se-lhes como “deslumbrantes” e o elogio à organização foi unânime. Porém, nessa grande festa, merece um especial destaque o discurso final de Thomas Bach, o presidente do Comité Olímpico Internacional, pelo seu apelo à paz e à concórdia entre todos os países do mundo, estivessem ou não ali representados.
Porém, o mundo vai regressar ao seu normal, incluindo a continuação das diversas crises que estão a perturbar o planeta, designadamente o conflito da Ucrânia, onde se registaram novos e surpreendentes acontecimentos, como revelou no sábado a edição do jornal inglês The Independent.
De acordo com aquele jornal, as forças militares ucranianas entraram em profundidade no território russo e ameaçam a cidade de Kursk que fica situada a pouco mais de cem quilómetros da fronteira, afirmando que esta acção é uma humilhação para Putin, que tratou de retaliar com novos bombardeamentos sobre a cidade de Kiev. Independentemente de se saber se os russos vão ou não vão travar esta ofensiva, ou de se saber se os ucranianos vão continuar a avançar, se conservam as suas posições ou se recuam, esta acção significa um sério agravamento da situação militar.
Naturalmente, uma acção militar destas já desencadeou as mais diversas análises feitas pelos comentadores e comentadoras das nossas televisões, mas parece não haver dúvidas de que se trata de um inesperado sucesso militar ucraniano que vem reforçar o ânimo dos seus combatentes e dos seus aliados, embora haja quem defenda que esta acção se enquadra numa movimentação preparatória de um cessar-fogo, como é cada vez mais reclamado pelo mundo.
O conflito em causa é histórico, cultural e político e, como aqui escrevemos várias vezes, não tem solução militar, pelo que é preciso que a Diplomacia avance para encontrar as melhores soluções.

domingo, 11 de agosto de 2024

Paris 2024: finalmente o ouro chegou!

Os Jogos da XXXIII Olimpíada, ou os Jogos Olímpicos de Paris 2024, terminam hoje e a televisão mostrou-nos como foram um grande acontecimento desportivo e cultural, mas também político. O presidente Emmanuel Macron pode sentir-se aliviado pela forma como tudo correu, pela imagem de grandeur que a França transmitiu ao mundo, pelos resultados desportivos dos seus compatriotas e até por ver nas bancadas muitas bandeirinhas agitadas pelos mesmos franceses que, duas semanas antes, muito o contestaram, muito protestaram e muito tinham vandalizado o espaço público. Durante duas semanas foram esquecidos os males dos franceses e todos os males do mundo, ao mesmo tempo que as gentes de todos os continentes compreendiam como é bom viver em paz e harmonia universal.
Portugal conquistou quatro medalhas olímpicas, tantas como em Tóquio 2020. Podia ter sido melhor, mas foi bom. Patrícia Sampaio (cobre), Iúri Leitão e Pedro Pichardo (prata) já sido tinham medalhados, mas ontem o mesmo Iúri Leitão e o seu parceiro Rui Oliveira participaram na prova ciclista de madison, uma corrida em pista muito difícil de acompanhar. Lutaram, brilharam e ganharam a medalha de ouro. Foi uma enorme emoção e uma festa extraordinária. Foi a 32ª medalha olímpica que veio para Portugal desde que em 1912 começamos a participar nos Jogos Olímpicos e a 6ª medalha olímpica de ouro do desporto português.
Depois de muitos dias sem medalhas e com algumas frustrações, Iúri Leitão e Rui Oliveira resgataram o nosso orgulho desportivo e colocaram Portugal no 50º lugar do medalheiro olímpico, um ranking em que entraram 84 dos 206 países ou organizações participantes, como os AIN – Atletas Individuais Neutros e a EOR – Equipa Olímpica de Refugiados.
Com a vitória de ontem, vieram para Portugal quatro das 1044 medalhas distribuídas nos Jogos de Paris 2024. Hoje, a edição do jornal A Bola destaca em primeira página o inesquecível feito desportivo dos dois jovens ciclistas portugueses. Foi uma grande alegria e daí o nosso entusiástico aplauso.

sábado, 10 de agosto de 2024

Pichardo, a prata e a nossa auto-estima

Ao 14º dia de provas em Paris a delegação portuguesa conquistou a sua terceira medalha olímpica na prova do triplo salto, na qual o atleta Pedro Pichardo saltou 17,84 metros e ficou apenas a dois centímetros do vencedor. Foi um alívio para os desportistas portugueses, porque as três medalhas já conquistadas em Paris igualam o resultado de Los Angeles 1984 e de Atenas 2004, aproximando-se do nosso melhor resultado olímpico de sempre, isto é, quatro medalhas em Tóquio 2020.
Pedro Pichardo ganhara a medalha de ouro em Tóquio e, agora em Paris 2024, voltou a subir ao pódio com uma medalha de prata, o que significa que com estas duas medalhas igualou o melhor resultado olímpico português de sempre, que passa a repartir com o famoso fundista Carlos Lopes, que em 1984 tinha trazido para Portugal a primeira medalha olímpica de ouro.
A edição de hoje do jornal Diário de Notícias deu grande destaque à proeza atlética de Pichardo e publicou a sua fotografia exibindo uma enorme bandeira portuguesa, mas um outro jornal português escreveu que “Paris viveu a hora P” do atletismo português: P de Portugal, P de Paris, P de prata e um quádruplo P de Pedro Pablo Pichardo Peralta.
Naturalmente, aqui fica o nosso aplauso pela medalha de Pedro Pichardo e o nosso agradecimento pelo seu contributo para a elevação da nossa auto-estima desportiva.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

O ciclista Iúri Leitão é mesmo um campeão

Depois de muitos dias em que os portugueses esperaram com ansiedade e expectativa os resultados dos seus olímpicos em Paris, ao 13º dia de provas o ciclista Iúri Leitão deu-nos uma grande alegria ao conquistar a medalha de prata em ciclismo de pista, na modalidade de omnium. Com esta medalha, que se junta à medalha de bronze conquistada pela judoca Patrícia Sampaio, a equipa olímpica portuguesa soma, por agora, duas medalhas. É pouco, sobretudo quando nos comparamos com países europeus semelhantes ao nosso que “se fartam de ganhar medalhas”, como os Países Baixos (25), a Hungria (11), a Suécia (9), a Suiça, a Grécia e a Irlanda (7), ou a Bélgica e a Croácia (6).
Por isso, o sucesso de Iúri Leitão entusiasmou-nos, serviu para levantar a nossa auto-estima desportiva e até levou o jornal A Bola a dedicar-lhe a sua primeira página na edição de hoje, o que é realmente justo e curioso, exactamente porque hoje se inicia a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e "um poder mais alto se alevanta".
Portugal participou em todas as edições dos Jogos Olímpicos realizadas desde 1912 em Estocolmo e, nas suas 26 participações, conseguiu conquistar 30 medalhas olímpicas, a última das quais aconteceu ontem através de Iúri Leitão, a quem aqui deixamos o nosso aplauso pelo seu sucesso desportivo e pela sua medalha.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Cabo Verde brilha nos jogos de Paris 2024

A competição olímpica dá visibilidade a cada um dos países participantes e, para os mais pequenos, é um factor de afirmação da identidade nacional e de prestígio internacional, mas também um sinal de resistência aos atropelos por que vai passando o ideal olímpico. A maioria desses países participa nas Olimpíadas apenas pela vontade de se mostrar ao mundo e sem que os resultados desportivos ou as medalhas sejam o seu objectivo principal, isto é, segue o lema do Barão Pierre de Coubertin - “O importante não é vencer mas competir… com dignidade".
Porém, por vezes acontecem excepções, como aconteceu agora em Paris com a participação do atleta cabo-verdiano David de Pina, que se tornou o primeiro atleta do seu país a ganhar uma medalha olímpica. Aconteceu no boxe na categoria de menos de 51 kilos, em que venceu um tailandês e um zambiano, mas perdeu nas meias-finais com um uzbeque que fora campeão olímpico em 2016. Ficou com a medalha de bronze e tornou-se o primeiro medalhado cabo-verdiano em Jogos Olímpicos.
David de Pina vive em Portugal desde há vários anos e, há poucos meses, viu-se forçado a deixar de treinar para trabalhar na construção civil, “porque a bolsa que recebe todos os meses é insuficiente para ser atleta e sustentar a família”. Voltou a dedicar-se ao boxe a tempo de competir em Paris e protagonizar este “feito histórico”, fruto de “muito trabalho, dedicação e sacrifício”, como se lhe referiu a Embaixada de Cabo Verde em Portugal. 
O semanário Expresso das Ilhas, que se publica na cidade da Praia, dedicou-lhe a sua primeira página na edição de hoje e, porque “a nação cabo-verdiana está em festa”, a Embaixada de Cabo Verde em Portugal “convida todos os cabo-verdianos a acolher o jovem herói cabo-verdiano David de Pina no aeroporto de Lisboa no dia 12 de Agosto, pelas 22:30, com ‘a morabeza de sempre’ dos cabo-verdianos.
Um grande aplauso para David de Pina.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

EUA: a corrida eleitoral vai agora começar

Após a desistência de Joe Biden da sua corrida para a presidência dos Estados Unidos, a candidatura de Kamala Harris não só veio travar a acelerada queda reputacional dos democratas, como permitiu o relançamento e a unidade do Partido Democrata, trazendo para a campanha novos e generosos apoios, um novo entusiasmo dos eleitores, um novo discurso político e uma outra agressividade em relação ao seu adversário, o candidato republicano Donald Trump.
O entusiasmo em torno de Kamala Harris fez com que, antes da convenção democrata que vai acontecer entre 19 e 22 de agosto, tivesse havido uma votação online que decorreu durante cinco dias, na qual os delegados democratas à convenção anteciparam a sua escolha, o que permitiu que, na noite do dia 5 de agosto, o Partido Democrata tivesse nomeado oficialmente Kamala Harris como a sua candidata presidencial. No dia seguinte, a candidata escolheu Tim Walz, o governador do Minnesota, como candidato do seu partido à vice-presidência. Os jornais americanos, designadamente o The New York Times, destacaram essa escolha na sua edição de hoje que, aparentemente, veio valorizar a candidatura democrata.
A partir de agora, se do lado republicano já havia o par Trump-Vance, do lado democrata apareceu o par Harris-Walz.
A verdadeira luta eleitoral vai agora intensificar-se quando faltam apenas noventa dias para uma eleição presidencial que é importante para os Estados Unidos e para o mundo. O nosso futuro também depende das próximas escolhas políticas americanas. Nesta altura há sondagens e previsões para todos os gostos, ao mesmo tempo que as televisões portuguesas dedicam alargados espaços ao momento político americano, quase parecendo que Portugal é o 51º estado dos Estados Unidos.
Noventa dias é pouco tempo, mas também é muito tempo. 
A Terra continuará a girar em torno do sol...

Cuba e o seu pentacampeão olímpico

Nos Jogos Olímpicos que estão a decorrer em Paris participam 206 países e 10.714 atletas que competem em 32 modalidades desportivas e, naturalmente, vão acontecendo proezas invulgares protagonizadas por muitos dos atletas participantes, que vão justificando o lema olímpico Citius, Altius, Fortius, isto é, mais rápido, mais alto, mais forte.
O caso do lutador cubano Mijaín López Núñez que, aos 41 anos de idade, acaba de vencer a final olímpica de luta greco-romana na categoria de peso superpesado (até 130 kilos), merece ser destacado porque, pela primeira vez, um atleta olímpico conquistou cinco medalhas de ouro consecutivas na mesma categoria. O atleta Mijaín López Núñez já era pentacampeão pan-americano e pentacampeão mundial de luta greco-romana, mas agora tornou-se pentacampeão olímpico, pois venceu a mesma prova em Pequim 2008, em Londres 2012, no Rio 2016, em Tóquio 2020 e, agora, em Paris 2024, onde bateu os seus adversários do Azerbaijão, do Irão, da Coreia do Sul e do Chile, sempre de forma expressiva. É um caso único na história das modernas Olimpíadas e o jornal Granma, o “organo oficial del Comité Central del Partido Comunista de Cuba”, destacou esta proeza do atleta cubano com fotografia e com a frase “Mijain es Cuba”. Por sua vez, o atleta reconhecido afirmou “sentirse orgulloso de ser cubano, de darle a Cuba todo lo que me enseñó”, pois “cada medalla olímpica y mundial lleva ese sentimiento”.
Esta intimidade cubana entre Desporto e Política, que ressalta da notícia do Granma, só aparentemente impressiona, porque o ideal olímpico está cada vez mais adulterado e a generalidade dos atletas olímpicos de todos os países do mundo beneficia de substanciais apoios governamentais para a sua preparação, embora poucos mostrem a gratidão de Mijaín López Núñez.
Sim, o desporto olímpico já não é o que era…

Caças F-16 chegaram à Ucrânia. E agora?

Volodymyr Zelensky e a imprensa internacional anunciaram que os primeiros caças F-16 de fabrico americano, há muito pedidos pelo governo ucraniano, já se encontram no país, embora também tenha sido revelado que este número é insuficiente para as necessidades e que há falta de pilotos habilitados para os operar.
Apesar de meio mundo andar anestesiado com os Jogos Olímpicos, a edição de hoje do jornal La Dépêche du Midi, que se publica em Toulouse, dá notícia deste acontecimento e pergunta de estaremos perante um ponto de viragem na guerra. Eu respondo: não sei se é ponto de viragem, mas é certamente um sinal de agravamento do conflito e, portanto, aumentam os riscos da guerra alastrar aos países vizinhos ou mesmo aos aliados da NATO. De facto, depois dos tanques alemães Leopard e dos tanques americanos M1 Abrams, a seguir aos mísseis dos mais diversos tipos e aos sistemas de defesa aérea, agora a aposta é feita nos caças F-16, o que parece dar razão aos observadores que têm afirmado que “a NATO já está na Ucrânia e está cada vez mais alinhada com a política externa americana”. A chegada destes primeiros dez aviões F-16 tem um significado essencialmente simbólico, mas levanta uma questão abundantemente divulgada na internet: “if the F-16’s fail, what is the next wonder weapon the West can send to Ukraine?”. Daí que o uso de armas nucleares tácticas seja uma permanente ameaça e possa ser o passo seguinte.
Ao fim de tanto tempo, tanta tragédia humana e tanta destruição, continua a ser incompreensível a lógica de guerra que partilham ambas as partes, bem como os seus aliados e amigos. Entretanto, o governo chinês apresentou uma proposta para acabar com a guerra na Ucrânia que tem o apoio de 110 países e, segundo revela a imprensa, “mais de metade dos ucranianos quer negociações com a Rússia para acabar a guerra”, enquanto “a maioria dos russos defende a abertura de negociações de paz para a guerra da Ucrânia”. Com este quadro informativo pode perguntar-se porquê se insiste tanto na guerra, ou que interesses estão por detrás dela.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Biles, Marchand, Evenepoel e… Duplantis

Como se esperava, os Jogos Olímpicos de Paris têm sido uma grande festa e as reportagens televisivas têm-nos mostrado um enorme envolvimento da cidade e da sua população, mas também grandes espectáculos desportivos, em que se têm destacado verdadeiras estrelas
A imprensa dos diversos países tem acompanhado as competições e anunciado os feitos dos seus atletas, escolhendo aqueles que se destacam pelas suas proezas, que passam a ser idolatrados nos seus países como símbolos do orgulho nacional ou, até, como  exemplos de uma qualquer superioridade.
A imprensa americana tem destacado Simone Biles, a ginasta de 1,42 metros de altura, que desde Tóquio tem sido a figura maior da ginástica artística e já ganhou mais de uma dezena de medalhas olímpicas. A imprensa francesa encontrou o seu ídolo nas proezas do nadador León Marchand que já ganhou quatro medalhas de ouro, estabelecendo recordes olímpicos nas quatro provas em que participou. Os belgas rejubilaram eufóricos com as medalhas de ouro ganhas no contrarelógio e na prova de estrada pelo ciclista Remco Evenepoel. O entusiasmo no Brasil concentrou-se nas vitórias da judoca Beatriz Sousa e da ginasta Rebeca Andrade, esta porque se tornou a mais medalhada atleta olímpica brasileira de todos os tempos e, também, porque ganhou a Biles. Em sentido inverso, vimos a imprensa espanhola resignada e triste com os insucessos de Rafael Nadal e de Carlos Alcaraz, que viram o seu rival sérvio Novak Djokovic ganhar a medalha de ouro do ténis aos 37 anos de idade. Porém, o caso porventura mais sensacional que até agora aconteceu em Paris terá sido a vitória de sueco Armand Duplantis, que ganhou com invulgar brilho a prova do salto à vara e com um novo recorde mundial.
Simone Biles, León Marchand, Rebeca Andrade, Remco Evenepoel e alguns outros campeões foram excepcionais, mas… Duplantis terá sido ainda mais excepcional.
O diário sueco Nagens Nyheter, que se publica em Estocolmo, não costuma trazer o desporto para a sua primeira página, mas na sua edição de hoje homenageou Duplantis e o seu salto de 6,25 metros, com uma bela fotografia.