quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Um patrão português do futebol mundial

A edição de hoje do diário francês Libération destaca na sua primeira página a fotografia de um homem de fato azul e o título “Le vrai patron du foot mondial”, dedicando-lhe uma desenvolvida reportagem nas páginas interiores. Esse homem chama-se Nélio Lucas, tem 36 anos de idade, é português e é originário de famílias humildes da região de Coimbra. Estudou Comunicação e Marketing nos Estados Unidos, fala fluentemente cinco línguas (português, espanhol, inglês, francês e italiano) e, há menos de uma dezena de anos, entrou com grande sucesso no mundo do futebol. O jornal considera-o “o símbolo do liberalismo mais absoluto no futebol moderno” e afirma que ele domina a opacidade do negócio do futebol.
Nélio Lucas dirige a Doyen Sports, um fundo de investimento que está presente no universo do futebol e, segundo o jornal, é ele que “desenha o mapa do futebol” e é tudo naquela organização: investidor, banqueiro, empresário, agente de imagem, olheiro e recrutador.
A reportagem permite-nos imaginar o ambiente que caracteriza este negócio da compra e venda de jogadores de futebol e das margens de lucro que envolve, através do relato dos encontros havidos entre empresários e dirigentes no Hotel Sheraton da Avenida da Boavista no Porto, antes do recente jogo entre o FC Porto e o Chelsea. A velha ideia do amor à camisola já tinha morrido, mas agora consolida-se a ideia de que cada equipa de futebol é uma unidade de negócio que existe para ser rentabilizada financeiramente.
Neste negócio sempre ouvi falar em Jorge Mendes, mas graças ao Libération ficamos a saber que também há o Nélio Lucas e, provavelmente, haverá outros todo-poderosos neste mundo do futebol. Assim, são cada vez mais ridículos aqueles indivíduos que passam horas a discutir futebol na televisão por causa de um penalti ou de um golo anulado. 

A escolha do próximo Primeiro-Ministro

As eleições legislativas realizaram-se no dia 4 de Outubro mas continuamos sem saber quem será o futuro Primeiro-Ministro. Porém, ao contrário do que dizem alguns protagonistas que andam por aí, por agora isso não é um problema, até porque os dias continuam a ter 24 horas, os rios continuam a correr para o mar e a lei de Lavoisier continua viva, isto é, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Estes dias de incerteza e de curiosidade quanto ao nome do próximo Primeiro-Ministro têm servido para que na televisão, na rádio e nos jornais, tenham aparecido centenas de cidadãos a expressarem a sua fundamentada opinião e a mostrar que há saídas constitucionais para todos os gostos, ou seja, Sua Excelência - que já pensou em todos cenários - vai ouvir os partidos representados na Assembleia da República e, tendo em conta os resultados eleitorais, vai nomear um Primeiro-Ministro, cujo programa essa mesma Assembleia da República irá aceitar ou rejeitar. Depois se verá...
No meio desta silenciosa algazarra que nos envolve, já há algumas coisas que se devem salientar. A primeira é que a maioria absoluta acabou e que a estabilidade e a governabilidade exigem humildade e compromisso a quem aceitar a incumbência de formar governo.  A segunda é que são os portugueses, através dos seus deputados, que aprovam ou reprovam o programa do governo, o que significa que essa tarefa não cabe aos comentadores. A terceira é que aquela ideia do arco da governação é uma treta inventada pelo portismo e que caiu por terra, pois os governos dependem do Parlamento e para apoiar um governo não há deputados de primeira e deputados de segunda.
Para além destas realidades, há uma novidade na política portuguesa que nunca se vira antes com tal intensidade, a lembrar os tempos sombrios do Diário da Manhã e da União Nacional. Trata-se da intervenção de alguns indivíduos que, disfarçados de jornalistas ou de comentadores, dão um triste espectáculo de servilismo e de preconceito à mudança, que difamam, que insultam e que nos envergonham a todos. O que eles fazem não é jornalismo. É uma repugnante propaganda. É a arruaça. Moram nas televisões, mas também no Observador e no Correio da Manha, entre outros locais que lhes dão abrigo e lhes pagam. Esse Fernandes e essa Bonifácio...

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Cristiano Ronaldo ou o grande ganhador

Há muito poucos portugueses que brilham além-fronteiras, mas Cristiano Ronaldo é um deles. Nem Saramago, nem Paula Rego, nem Guterres e muito menos Barroso, atingiram a sua notoriedade e fama. Ele é o mais famoso futebolista português de sempre e recebeu ontem a sua quarta Bota de Ouro. Nunca nenhum outro jogador de futebol tinha vencido aquele troféu tantas vezes e, por isso, o tema foi destacado na imprensa desportiva internacional, assim sucedendo hoje, por exemplo, com o diário espanhol MARCA que o classifica com o título El Único. A Bota de Ouro é um prémio atribuido pelo European Sports Media para distinguir o futebolista que tenha marcado mais golos nos diferentes campeonatos europeus. Criado em 1967 pela revista francesa L’Équipe, o prémio já foi conquistado por três futebolistas portugueses, a mostrar que em matéria futebolística somos um país muito competitivo. Assim sucedeu com Eusébio (1967-68 e 1972-73), com Fernando Gomes (1982-83 e 1984-85) e, mais recentemente, com Cristiano Ronaldo (2007-08, 2010-11, 2013-14 e 2014-15).
Em 47 anos que já tem de existência, o prémio veio para Portugal oito vezes, o que significa que 17% dos premiados foram portugueses. É um caso surpreendente. O prémio já foi conquistado por argentinos, holandeses e romenos (4 vezes cada), por brasileiros, uruguaios e búlgaros (3 vezes cada), por alemães, jugoslavos, austríacos, franceses, italianos, galeses e escoceses (2 vezes cada) e, curiosamente, nunca foi ganho por espanhóis. Com oito troféus conquistados os portugueses destacam-se nas artes futebolísticas e Cristiano Ronaldo mostra que é realmente um caso único no futebol europeu.

domingo, 11 de outubro de 2015

A crueldade do mar é a mesma de sempre!

O cargueiro americano El Faro de 224 metros de comprimento, navegava de Jacksonville na Florida para San Juan de Porto Rico com 33 tripulantes a bordo, tendo desaparecido no mar das Bahamas durante a passagem do furacão Joaquin. Esta dramática ocorrência aconteceu há dez dias e, apesar das intensas buscas que têm sido efectuadas, apenas foram recuperados um bote salva-vidas sem ninguém a bordo e outros destroços menores. Embora ainda não se saiba exactamente o que se passou, terá havido 28 americanos e cinco polacos que perderam a vida, quando o navio desapareceu no meio de uma violenta tempestade, com ondulação muito forte, mar agitado e ventos estimados da ordem dos 215 quilómetros por hora.  O navio era do tipo Ro/Ro, especialmente destinado ao transporte de veículos, estando ao serviço desde 1975. Era, portanto, um navio velho que nesta viagem transportava centenas de contentores e veículos automóveis, mas terá sofrido avarias devido ao mau tempo e perdido capacidade de propulsão, acabando por ser “engolido” pelo mar. A edição de hoje do Miami Herald evoca a última viagem do El Faro com uma ilustração na sua primeira página que reconstitui, ou pelo menos ajuda a compreender, o que se terá passado com o navio.
A National Transportation Safety Board (NTSB) em cooperação com a Tote Maritime, a empresa proprietária do navio, estão a investigar as razões porque o navio deixou Jacksonville e, aparentemente, se dirigiu directamente para o olho do furacão Joaquin, apesar de dispor de todas as informações meteorológicas necessárias e de se tratar de uma situação bem conhecida das gentes do mar e sem qualquer imprevisibilidade. Em tempos de tanta tecnologia, como é possível que aconteçam estes casos de desafios ao mar cruel, em que se perdem tantas vidas?

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A situação na Síria vai de mal a pior

Há uma teoria segundo a qual a 3ª Guerra Mundial já começou e o Papa Francisco foi uma das primeiras pessoas que avançou com essa ideia, quando há mais de um ano falou dos crimes, massacres e destruições que se verificam na Síria e no Iraque e apelou à paz e ao fim da “loucura bélica”. Outras personalidades têm referido que já se vive um clima de 3ª Guerra Mundial, não só pelo agravamento da situação militar, mas também pela situação humanitária que gerou milhões de refugiados. A última edição do semanário francês L’OBS, o antigo e famoso Le Nouvel Observateur, trata deste grave problema.
No passado dia 30 de Setembro de 2015 a Rússia decidiu intervir directamente na Síria e logo apareceram vozes a dizer que esse dia marcava o início da 3ª Guerra Mundial, tal como o dia 28 de Junho de 1914 marcou o início da 1ª Guerra Mundial, quando aconteceu o atentado de Serajevo.
Os Estados Unidos, a França e o Reino Unido condenaram imediatamente a intervenção russa por ter atacado opositores ditos moderados de Bashar-al-Assad que são financiados pelos americanos, mas ignoram o ataque ao hospital afegão dos Médicos sem Fronteiras em Kunduz, que causou a morte a pelo menos duas dúzias de doentes, médicos e pessoal civil.
A Síria de Bashar-al-Assad será uma caricatura de democracia, mas tem um regime laico e todas as confissões religiosas são toleradas. Ao contrário de Sadam Hussein e de Kadaffi, Assad resistiu à intervenção militar externa, mas enfrenta o jihadismo do EI e da Al-Qaeda, mas também outras forças financiadas pela Arábia Saudita, pela Turquia e até pelos Estados Unidos, que apoiam tudo e o seu contrário. É o que acontece com a Arábia Saudita que é apoiada pelos Estados Unidos e pela França, mas que oprime e reprime mais de metade da população, que não permite que as mulheres se desloquem sozinhas, nem que conduzam, nem que sejam médicas, nem que vão ao cinema, que semanalmente executa presos, que não permite a um cristão ir a uma igreja e que condena à morte um muçulmano que pretenda deixar de o ser.
A Síria é hoje um laboratório no mundo multipolar, no meio de uma extensa região que ameaça desintegrar-se. Os turcos preferem o EI a qualquer autonomia curda; os sauditas preferem o EI à minoria alauita; o Irão quer a minoria alauita no poder. Os EUA, tal como a França e o Reino Unido, não sabem o que querem.
Assad terá lançado uma grande ofensiva no terreno com o apoio do Hezbollah libanês, das forças especiais iranianas e da aviação russa. Os russos estarão em vias de intervir no terreno a pedido de Assad, enquanto se anuncia que a China já tem um porta-aviões nas águas sírias e mil fuzileiros no terreno. A NATO foi surpreendida e diz-se pronta a enviar tropas e aviões para a Turquia. Há muitos aviões a voar sobre a Síria, uns russos, outros do regime sírio, outros da coligação liderada pelos americanos. Não sei se a 3ª Guerra Mundial já começou, mas sei que isto vai de mal a pior.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Timor evoca a chegada dos portugueses

O jornal semanal timorense Matadalan que se publica em tétum na cidade de Dili, anuncia na sua última edição hoje divulgada, que o Estado timorense vai comemorar os 500 anos da chegada dos portugueses à ilha de Timor. De facto, desde Julho de 2015 que está constituída uma comissão organizadora presidida por Dionísio Babo Soares, que tem por missão a organização das Comemorações dos 500 Anos da Afirmação da Nova Identidade Timorense, devendo as cerimónias oficiais decorrer na Região Administrativa Especial de Oe-Cusse Ambeno no dia 28 de Novembro de 2015, que é o dia da proclamação da independência nacional em 1975.
É no enclave do Oe-Cusse que se situa a povoação de Lifau, que foi o ponto onde os portugueses terão desembarcado pela primeira vez no dia 18 de Agosto de 1515, conforme está assinalado num obelisco que existe em Lifau e resistiu aos 25 anos de ocupação indonésia, que o jornal Matadalan reproduziu na sua primeira página. As autoridades timorenses pretendem assinalar a longa caminhada histórica de Timor-Leste na construção da sua identidade nacional, marcada pelo primeiro contacto com os portugueses há 500 anos e, ao mesmo tempo, promover um sentimento de unidade nacional num território repartido por muitos reinos, muitos grupos etno-linguísticos e muitas mestiçagens culturais, sendo de salientar que a memória da chegada dos portugueses a Timor, seja um contributo tão importante para a afirmação da unidade nacional do país.

Um enorme bando de papagaios escribas

O resultado das eleições de 4 de Outubro traduziu-se numa meia vitória do governo, porque embora tivesse obtido o maior número de votos, perdeu a maioria absoluta. Agora, se quiser governar, a ex-maioria constituida por PSD+CDS tem que perder a sua arrogância, negociar, ceder e, provavelmente, até tem que pedir desculpas pelos repetidos insultos que fez ao líder do PS, especialmente esse tal Portas, um valentão que se destacou pela sua demagogia, populismo e agressividade verbal. Ontem, os dois parceiros da ex-maioria foram a correr assinar um acordo político de governo, que não é mais do que uma bóia de salvação para esse grupúsculo de pequenos políticos chamado CDS, que se tornou numa lapa ou numa sanguessuga para o PSD.
Durante a campanha eleitoral, com a descarada cumplicidade de muitos jornalistas, o PS teve que explicar o seu programa, sem que o governo fosse denunciado pelos resultados desastrosos das suas políticas, nem pelo facto de não ter sequer apresentado um programa eleitoral. Agora que a ex-maioria precisa totalmente do PS, os mesmos jornalistas voltam a pressionar o PS para se acomodar aos diktats da ex-maioria, sem perceberem que é a ex-maioria que tem de se acomodar ao programa do PS. É o jornalismo que temos, feito por autênticos papagaios sem ética nem deontologia profissional, muitos deles com assento na televisão, que se repetem, repetem, repetem!
Porém, não será o homem de Boliqueime nem os jornalistas que escolherão a solução de governo para o nosso país. Essa tarefa caberá aos partidos com assento parlamentar e aos deputados eleitos. Acontece que, como tem sido repetidamente dito, os votos dos portugueses expressaram outras hipóteses de maioria, tendo havido 62% de eleitores que rejeitaram a aliança PSD+CDS. Por isso, como não há deputados de primeira e deputados de segunda, há várias maiorias possíveis resultantes da vontade dos deputados portugueses, que foram escolhidos por eleitores portugueses. Por isso, já temos o PCP a anunciar a sua disposição para dar expressão institucional à "vontade de mudança" manifestada pelos portugueses nas últimas eleições e o BE a reclamar uma aliança de governo à esquerda. É realmente uma grande embrulhada como salienta hoje a revista Visão, mas que certamente vai ser resolvida com a ponderação que as circunstâncias aconselham. A Democracia vencerá. Abaixo os papagaios que escrevem e falam.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Semearam ventos, vão colher tempestades

Ainda estão gravadas nos nossos ouvidos as repetidas afirmações da propaganda do governo de que tudo estava a correr bem, que as exportações batiam recordes, que os turistas inundavam o nosso país, que a economia tinha começado a crescer, que os cofres estavam cheios. Da mesma forma, ainda nos lembramos do optimismo reinante, das atoardas contra os adversários, dos inúmeros avisos para que não voltássemos para trás. Agora, passada a fase do vale tudo e da propaganda anestesiante, começam a aparecer as facturas para pagar e, logo no dia seguinte, essas sinistras figuras do Schäuble e do Dijsselbloem, já se permitiam exigir que lhes fosse enviado o nosso orçamento até ao próximo dia 15 e até as agências de rating se permitiram mandar avisos. Afinal, quando ainda estão por apurar os resultados do círculo eleitoral da emigração, já se pode verificar que o governo levou uma boa tareia e perdeu cerca de 800 mil votos e cerca de 25 deputados. O Portas e o seu partido deixaram de ser precisos ao PSD e, mais dia menos dia... Como é que se pode falar em vitória e como é que se pode ter tanto optimismo, quando a situação que temos pela frente é bem grave?
Ontem, quando ainda faltam 107 dias para deixar Belém, tivemos mais uma prova da mediocridade política e da completa ausência de neutralidade do homem que veio de Boliqueime. Antes de ter “ouvido os partidos políticos” como manda a Constituição que jurou cumprir, o homem que faltou às comemorações do 5 de Outubro resolveu encarregar o chefe do seu partido de “desenvolver diligências” para conseguir uma solução com “estabilidade política e governabilidade”, ao mesmo tempo que ignorava a existência dos outros partidos com representação parlamentar. Que habilidoso! Que chico-esperto! Então o homem esqueceu-se de que há mais partidos no Parlamento, os  quais se afirmaram contra a política que tem sido seguida e até representam cerca de 62% do eleitorado? Porém, o PS que tão insultado foi durante a campanha eleitoral e passou de 73 para 85 deputados (mais 16%), já veio dizer que rejeita essa ideia do “arco da governação” e que vai negociar com todos os partidos com expressão parlamentar. Faz muito bem. Eles semearam ventos, vão colher  tempestades.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Eleições: continuidade venceu a mudança

O resultado das eleições de ontem foi inequívoco e os eleitores escolheram a continuidade em vez da mudança, embora o caminho agora seja bem mais estreito do que aquele que o governo tinha percorrido desde 2011. O governo levou um cartão amarelo, quando se esperava que levasse um cartão vermelho, bem merecido pelas suas malfeitorias e manipulações dos últimos quatro anos. Acabou-se o tempo da arrogância da maioria e do desprezo pela oposição. A partir de agora, a cultura da negociação e do compromisso tem que ser a norma. No entanto, alguns símbolos desse tempo de treva que disseram ser de luz, como o Ministro..., o Secretário de Estado... e o Deputado... vão continuar a atravessar-se no nosso caminho e a incomodar o nosso quotidiano.
Os portugueses são um povo bonzinho que se deixou levar, mas que depois não se pode queixar. A sua vontade democrática surpreendeu, mas a vida é assim e o povo é quem mais ordena. A austeridade não passou por cá. Nem as mentiras, o brutal aumento de impostos, o enorme desemprego, a emigração em massa, o corte nas pensões, o aumento da dívida, o corte nos salários, a submissão à Europa, o engano sobre a solidez do BES, as privatizações ideológicas, o aumento colossal da pobreza, os atrasos nas escolas, a confusão nos hospitais, a desmoralização nas polícias, a triste memória do Relvas ou o irrevogável que se vendeu por um cargo e não foi capaz de fazer a reforma do Estado. Os portugueses parece terem perdoado quase tudo a esta gente.
Embora o melhor resultado tivesse sido uma votação que permitisse a escolha de um governo de maioria absoluta que garantisse a estabilidade política necessária para enfrentar a carga de trabalhos que aí vem, os portugueses escolheram outra solução e o resultado são várias maiorias e minorias que se cruzam, ou não cruzam. Vêm aí tempos politicamente muito difíceis e, qualquer dia, lá teremos novas eleições, porque a história que nos venderam de que estamos no bom caminho é uma treta. Isto não está nada bem. A nossa dívida aumentou muito nos últimos quatro anos, não houve investimento, nem há uma efectiva criação de emprego. Agora que acabaram a campanha eleitoral e a propaganda, acordemos para o estado da nação. Enfrentemos pois a difícil realidade que 38% dos portugueses escolheram, num Portugal mergulhado numa Europa sem rumo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Há um cavaco que vai ficar na história

Aníbal Cavaco Silva, natural de Boliqueime, ex-funcionário do Banco de Portugal e doutor em Economia, continua a surpreender-nos quando faltam 112 dias para que abandone o Palácio de Belém e para nos vermos livres dele. Ainda falta muito tempo, a paciência está a esgotar-se,  mas temos que aguentar.
As sondagens mostram há muito tempo que nunca um Presidente da República Portuguesa teve tão baixos níveis de popularidade, resultantes da sua mediocridade cultural, mas também da sua falta de isenção política e da forma como se desculpa das coisas e como se envolveu ou falou do BPN e do BES.
Um dia destes, exibindo um desapropriado ar novo-riquista, afirmou que sabia muito bem aquilo que irei fazer e todos sabem que sou totalmente insensível a quaisquer pressões, venham elas de onde vierem”, mas no dia seguinte avisou que não iria comparecer às comemorações oficiais da implantação da República “porque tem de se concentrar na reflexão sobre as decisões que terá de tomar nos próximos dias". Em que ficamos? Então sabe muito bem (porque estudou todos os cenários) ou precisa de se concentrar (porque anda desconcentrado)?
Para uns é uma desculpa qualquer, para outros é uma falta de respeito, para outros é, simplesmente, o medo dos jornalistas e, sobretudo, o medo de monumentais e justas assobiadelas. Quando o Presidente da República decide não comparecer à cerimónia da Implantação da República, dá um mau exemplo de cidadania e, a 112 dias do fim da sua comissão presidencial, reafirma uma vez mais que quer ficar na História como o maior fiasco que tivemos no século XXI. Isto é um abcesso! Muita razão tinha a minha prima quando disse que "o rapaz deixou Boliqueime, mas Boliqueime nunca deixou o rapaz".

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Os ratos travestidos de comentadores

Hoje termina a campanha eleitoral em que fomos bombardeados por muitos jornais, muitíssimos jornalistas e alguns comentadores, cujo alinhamento politico-partidário envergonha os códigos éticos do jornalismo – rigor, objectividade, imparcialidade, verdade, independência. Muitas dessas tristes personagens, revelaram não ter qualquer ponta de dignidade e prestaram-se a papéis de uma confrangedora mediocridade.
Assistimos à publicação e à divulgação televisiva de demasiada “matéria encomendada”, muitas vezes para pagar os favores recebidos durante quatro anos e, asssistimos, também, a uma completa demissão do papel fiscalizador dos jornalistas – o quarto poder – pois aliaram-se ao governo e repetiram exaustivamente as suas mentiras, ignorando o tratamento dos temas sociais que tanto nos empobreceram. Essa postura é altamente reprovável e revela que a liberdade de imprensa e o direito a ser informado com rigor e objectividade já conheceu melhores dias entre nós. Porém, se essa atitude pode ser compreendida nos estagiários e nos jovens jornalistas que procuram assegurar o seu precário emprego, já o mesmo se não pode dizer dos pseudo-comentadores televisivos que, desde há muito tempo, aproveitaram a sua condição para fazer campanha partidária da forma mais grosseira e atrevida que lhes foi possível. Repetidamente, pouparam qualquer crítica substantiva ao passos e à sua dama de companhia portas e, repetidamente e durante longos tempos de antena televisivos, criticaram o candidato do maior partido da oposição. Cinicamente. Depois, ainda andaram na rua e nos comícios de bandeirinha na mão a repetir as suas atoardas contra o costa. Que triste figura! Que bandalheira! Que vulgaridade! Assim a política é uma vigarice. Afinal, eles não passam de uns pobres ratos do regime que se travestiram de comentadores. Há gente para tudo!

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A França atacou o jihadismo na Síria

A contínua chegada à Europa de milhares de refugiados, provenientes sobretudo da Síria e de outros países em guerra, parece ter acordado as autoridades europeias, depois de mais de quatro anos de destruição e morte, com o apoio não assumido de alguns países europeus, sobretudo no que respeita ao fornecimento de armas a todas as forças anti-Assad. Tal como Saddam Hussein ou Muammar al-Kaddafi, o presidente Bashar al-Assad não será um modelo de democrata mas tem uma educação ocidental, embora seja muito hostilizado pelo ocidente talvez porque esteja no centro de uma luta de interesses estratégicos e de um conflito étnico-religioso que ultrapassa as suas fronteiras. Lamentavelmente, os mesmos estrategas ocidentais que não perceberam que o desaparecimento de Saddam Hussein ou Muammar al-Kaddafi iria desequilibrar os seus domínios e levaria à grave anarquia e à ascensão de poderes tribais nesses países, também se voltaram a enganar em relação à Síria e levaram ao aparecimento do Daesh ou Estado Islâmico.
Durante mais de quatro anos, nem os Estados Unidos, nem a Rússia, nem os aliados de cada uma dessas potências, conseguiram parar a guerra, sobretudo porque os americanos e os europeus tinham como ponto de partida que Bashar al-Assad abandonasse o poder. Confrontados com males bem piores, os europeus têm vindo a suavizar a sua agressividade em relação a Bashar al-Assad e começam a aceitar discutir com ele um governo de transição. Hoje, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, Barack Obama e Vladimir Putin vão encontrar-se para falar da Síria e da Ucrânia.  
Entretanto, perante as repetidas ameaças de intervenção do Daesh em território francês, a França decidiu intervir em nome da sua segurança nacional e “em legítima defesa”, mesmo sem integrar a coligação internacional que combate o Daesh. Ontem, seis aviões franceses, cinco deles Rafale, atacaram e destruíram um campo de treino jihadista na Síria, depois de ter sido verificado que as populações civis não seriam molestadas e muitos jornais franceses destacaram e apoiaram esta acção. Esta intervenção tem, entre outros, o significado de que a França quer estar à mesa das negociações de paz. Então, que essas conversações venham depressa.

Catalunha: meia vitória ou meia derrota?

Realizaram-se ontem na Catalunha as eleições regionais e verificou-se uma participação histórica de 77% dos eleitores. Hoje, a generalidade dos jornais espanhóis tem nas suas primeiras páginas uma das duas frases seguintes: os independentistas catalães ganharam ou os independentistas catalães não ganharam. O diário El País sintetizou os resultados com a frase “os independentistas ganham as eleições e perdem o seu plebiscito”.
O Parlamento catalão tem 135 lugares e, por isso, a maioria é constituida por 68 deputados. A coligação independentista Juntos por Si (JxSi) teve 62 deputados, mas com os 10 deputados independentistas da Coligação de Unidade Popular (CUP) perfazem uma maioria independentista de 72 deputados. Nessas circunstâncias, os independentistas ganharam e dizem-se legitimados para “seguir em frente”.
Porém, as candidaturas independentes não alcançaram sequer 48% dos votos expressos e, nessa perspectiva, o sentido plebiscitário da votação não lhes foi favorável, isto é, houve 52% de catalães que “disseram não à aventura secessionista”. Além disso, nas quatro províncias da Comunidade Autónoma da Catalunha os resultados também não desequilibraram: os independentisrtas ganharam em Leide (63%) e em Girona (64%), mas perderam em Barcelona (44%) e em Tarragona (49%).
Estamos portanto perante uma meia vitória ou uma meia derrota dos independentistas catalães? O tempo o dirá.

domingo, 27 de setembro de 2015

A encruzilhada catalã e o futuro próximo

Hoje os catalães estão a votar e, como salienta o diário El Periódico de Barcelona, destas eleições-plebescito irão resultar sérias consequências para a Catalunha: a ruptura unilateral com a Espanha, uma reforma profunda dentro de uma Espanha unida ou a manutenção do actual status quo. Haverá vencedores e vencidos. A unidade da Espanha corre sérios riscos de entrar num processo de desmembramento que, numa primeira fase, pode vir a criar muita instabilidade social e muitos problemas económicos aos nossos vizinhos, mas também ao nosso país.
A Catalunha é uma região com um forte sentimento nacionalista e é uma nação reconhecida pela Constituição espanhola, com língua e cultura próprias. Com 7 milhões e meio de habitantes e fortemente industrializada, é a mais rica autonomia espanhola, contribuindo para a economia de Espanha com mais do que aquilo que recebe do governo de Madrid, o que contribui para o descontentamento dos sectores catalães tradicionalmente mais nacionalistas.
Apesar destas eleições autonómicas não terem sido convocadas por razões relacionadas com os desejos independentistas, exactamente para evitar os riscos de eventual inconstitucionalidade, a coligação independentista Juntos pelo Sim, que agrega vários partidos e forças políticas, nomeadamente a Convergência Democrática da Catalunha (CDC) de Artur Mas e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) de Oriol Junqueras, que já estão coligados no actual governo, são independentistas e são os favoritos nas eleições de hoje. Há quem tema que, ainda hoje, possam festejar a vitória e anunciar o início de um processo de separação da Espanha. É uma grande encruzilhada para os catalães e para o seu futuro próximo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Brasil e a desvalorização do real

A última edição da revista Veja mostra na sua primeira página um crocodilo de boca aberta pronto para abocanhar o Estado brasileiro, aproveitando a mandímbula superior para desenhar os gastos do governo (ascendentes) e a mandíbula inferior para desenhar o crescimento do PIB (descendente). Na sua simplicidade, o problema está bem apresentado, isto é, a despesa crescente do Estado não pode ser suportada por economia em recessão.
Acontece que nas sociedades modernas o Estado é chamado a cumprir as funções de soberania, mas também outras funções económicas e sociais, estando presente em todos os sectores da sociedade desde a segurança à defesa, passando pela justiça, saúde, educação, obras públicas, economia, solidariedade e segurança social, cultura, entre muitas outras. Para fazer face a todas estas funções o Estado faz muita despesa e, porque as necessidades tendem a aumentar, a despesa também tende a aumentar. É portanto necessário que a economia crie mais riqueza, para poder proporcionar ao Estado o recebimentro de mais impostos directos e indirectos.
Porém, o Brasil atravessa um período de recessão e, por isso, o PIB diminui em vez de aumentar. Vem a receita do costume: reduzir despesas e aumentar impostas e taxas. Além disso,  vem também a desvalorização da moeda, para que as importações sejam mais caras e as exportações sejam mais baratas. Assim está a ser feito. Há um ano o dólar valia R$ 2,39 e, conforme titulam os jornais de 23 de Setembro, agora o dólar ultrapassa os R$ 4,00: “Dólar atinge R$4,05, a maior cotação da história do Real (Estado de S. Paulo), “Dólar bate recorde e cai a R$ 3,99” (O Globo) ou “Dólar é vendido até R$ 4,56 na capital baiana” (A Tarde). Uma desvalorização de 67% em relação ao dólar, apenas num ano! Cerca de 5% ao mês.
Esta situação não pode deixar de causar apreensão aos portugueses pelas suas ligações familiares e emocionais ao Brasil, mas também obriga muita gente deste lado do Atlântico a pensar nas vantagens/desvantagens de estarmos integrados na Zona Euro e não podermos usar o mecanismo da desvalorização da moeda.