sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A agonia de Alepo é a derrota americana

Há um imenso drama que está a ser vivido na cidade síria de Alepo, a que o diário ABC dedica hoje a sua primeira página. A cidade agoniza e as forças rebeldes que a dominaram durante quatro anos, estão agora cercadas pelas forças governamentais, depois de algumas semanas de duros combates. Alguns jornais internacionais dizem mesmo que “a batalha por Alepo parece estar a aproximar-se do fim” e que na próxima semana “as forças do regime de Bashar Al-Assad poderão declarar vitória”. Porém, é preciso muito cuidado na apreciação das notícias que nos chegam da Síria, pois elas parece estarem ao serviço das várias propagandas ao tratarem uns beligerantes como bons e outros como maus, quando na realidade todos eles são maus. A guerra é a guerra. Sempre foi assim.
Se acontecer a queda de Alepo, será a pior derrota das forças rebeldes que ficarão reduzidas a alguns redutos disseminados pelo território sírio e, portanto, demasiado vulneráveis e mais à mercê do regime sírio, até porque Bashar al-Assad já declarou que a tomada de Alepo não significará o fim da guerra. Contudo, será uma humilhação e uma grande derrota para a estratégia americana e dos seus aliados franceses e ingleses que, na sua obstinação pelo derrube de Bashar al-Assad, financiaram, armaram e conduziram a oposição síria para a derrota que se aproxima. Quem poderá afirmar que o envolvimento desta "coligação de interesses" não resultou da pressão das respectivas indústrias de armamento?
Entretanto, haverá cerca de 150 mil civis encurralados com as forças rebeldes que precisam de ajuda humanitária com urgência. Essa situação é um bom pretexto para que cessem os combates. Depois de tanto terem conversado nos últimos anos, John Kerry, o secretário de Estado americano, e Sergei Lavrov, o chefe da diplomacia russa, estarão agora em contacto permanente para encontrar uma solução para os problemas da ajuda humanitária, da evacuação de doentes e, de uma forma mais geral, para acabar com a guerra. Porém, agora Kerry é um homem derrotado, enquanto Lavrov se pode sentar à mesa como um vencedor. Os erros pagam-se.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A última viagem de um navio simbólico

O diário inglês The Times publica hoje na sua primeira página uma fotografia do porta-aviões HMS Illustrious que, depois de 32 anos de serviço, largou de Portsmouth com rumo à Turquia para ser desmantelado e acabar na sucata. O navio de 22.000 toneladas pertenceu à classe Invincible, serviu na guerra das Falklands e na guerra do Golfo, tendo sido abatido ao efectivo em 2014. A partir de então a Royal Navy deixou de ter qualquer porta-aviões, embora esteja prevista para 2020 a recepção de duas unidades da nova classe Queen Elizabeth – o HMS Queen Elizabeth e o HMS Prince of Wales.
O desmantelamento do “Lusty”, nome por que era conhecido pelos seus tripulantes, causou grande mágoa nos milhares de membros da Royal Navy que nele serviram e não queriam vê-lo transformado em lâminas de barbear, panelas ou latas de cerveja. A Primeira-Ministra Theresa May foi sensível aos apelos dos “velhos marinheiros”, suspendeu a operação e esperou pelo resultado de uma campanha pública destinada a salvar o HMS Illustrious. Surgiram três propostas, destacando-se a de um consórcio que oferecia 3 milhões de libras para transformar o navio numa unidade hoteleira e museológica, para além daquela que pretendia  transformar o navio num memorial da Royal Navy, um pouco à semelhança do que acontece com cinco velhos porta-aviões americanos.
Todas as negociações falharam e o HMS Illustrious acabou por ser vendido para a sucata por 2,1 milhões de libras, tendo já iniciado a sua viagem para a Turquia. Parece que o Tesouro inglês precisava de dinheiro.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A dramática situação da guerra em Alepo

No contexto da guerra civil que se trava na Síria, a cidade de Alepo – que foi a segunda maior cidade síria e a sua capital económica – tem sido palco de uma batalha muito violenta entre os apoiantes e os opositores de Bashar al- Assad. Os confrontos começaram em 19 de Julho de 2012 e a cidade rapidamente ficou sob o domínio das forças da oposição, também designadas por "rebeldes". A situação manteve-se com avanços e recuos das duas partes até que, no passado Verão, as forças governamentais apoiadas pelos seus aliados russos, iranianos e pelos combatentes da milícia libanesa do Hezbollah, iniciaram uma operação em larga escala para recuperarem Alepo, que a imprensa internacional tem relatado através de dolorosas imagens. Porém, as notícias das últimas horas, nomeadamente do diário libanês L’Orient-Le Jour, confirmam que as forças governamentais sírias têm conseguido grandes avanços e já controlam cerca de dois terços do leste de Aleppo, a parte que outrora esteve nas mãos dos rebeldes, incluindo a Cidade Velha que é classificada como Património da Humanidade pela UNESCO, enquanto prossegue a sua ofensiva para recuperar toda a zona oriental da cidade. Muitos milhares de sírios têm conseguido fugir da cidade, mas muitos mais continuam sujeitos aos bombardeamentos efectuados por ambas as partes. A situação no terreno é catastrófica e os rebeldes estão totalmente cercados, pelo que a luta se vai acentuar e afectar ainda mais a população civil encurralada na cidade onde a destruição é total. Uma catástrofe humanitária está à vista e os rebeldes estão em vias de ser esmagados.
Nesta emergência, as Nações Unidas apresentaram um plano para uma trégua de sete dias por razões humanitárias que foi rejeitado pela Rússia e pela China, com o argumento que ela apenas serviria para que os rebeldes se reagrupassem. Depois, foram os Estados Unidos, o Canadá, a Alemanha, a França, a Itália e o Reino Unido que hoje pediram um cessar-fogo imediato perante a eminência de uma catástrofe humanitária em Alepo, exortando a Rússia e o Irão a utilizarem a sua influência sobre a Síria para travarem a sua ofensiva. No meio desta catástrofe, é caso para perguntar quem entusiasmou, financiou e armou as forças da oposição síria e as levou para esta eminente derrota, pedindo agora um cessar-fogo imediato.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um grande livro que nos fala de Goa

Era uma vez em Goa, o romance publicado em Fevereiro de 2015 por Paulo Varela Gomes e editado pelas Edições Tinta da China, ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela de 2015 atribuido pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), em parceria com a Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. O prémio foi criado em 1982 e, nesta sua 34ª edição a que concorreram 104 obras, o júri de cinco membros deliberou a atribuição do prémio por unanimidade.
Paulo Varela Gomes faleceu no dia 30 de Abril de 2016 e não teve a satisfação de ver a sua obra premiada com tão importante galardão, antes atribuído a figuras de grande relevo na literatura portuguesa como José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís, Mário Cláudio, António Lobo Antunes, David Mourão-Ferreira, João de Melo, José Saramago, Lídia Jorge e Vasco Graça Moura, entre outros escritores.
Na memória dos seus amigos, nos quais me encontro, não fica apenas a recordação de um historiador e de um crítico de arte, nem a lembrança da sua inteligência, do seu inconformismo e da sua qualidade intelectual e académica, mas também a fulgurante prosa de um grande escritor.
Era uma vez em Goa é um livro irresistível devido ao engenho e ao talento do autor, cuja liberdade narrativa é muito viva no tratamento da herança cultural portuguesa em Goa, com a sua perspicácia e a sua observação bem humorada a atrair o leitor que se sente a percorrer aquele território, devido às abundantes referências às suas paisagens, às suas artes e ao seu património cultural.
O Grande Prémio de Romance e Novela de 2015 foi entregue ontem na Fundação Calouste Gulbenkian à sua mulher Patrícia pelo Ministro da Cultura, por acaso amigo de longa data de Paulo Varela Gomes. Aos leitores deste meu texto deixo apenas uma recomendação: leiam Era uma vez em Goa.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Património Imaterial da Humanidade

No ano de 2003 a UNESCO adoptou uma Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Humanidade, que complementa a Convenção do Património Mundial adoptada em 1972. Enquanto esta cuida dos bens tangíveis e até ao momento classificou 1052 sítios, a Convenção de 2003 regula o tema do património oral e imaterial da Humanidade, tendo aprovado até agora apenas algumas dezenas de inscrições.
Nos termos da Convenção, o Património Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e as tradições que as comunidades, os grupos ou os indivíduos recebem dos seus antepassados, bem como a forma como as preservam e as transmitem aos seus descendentes, estando agrupadas em cinco categorias: espaços culturais, saberes tradicionais, tradição oral, artes cénicas e rituais e festas.
No âmbito da Convenção de 2003, o nosso país viu serem inscritos nas Listas do Património Imaterial da Humanidade, primeiro o Fado (2011) e, depois, o Cante Alentejano (2014) e a Arte Chocalheira (2015). Este ano, durante a 11ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO que decorreu em Adis Abeba, foram aprovadas duas candidaturas portuguesas. Assim, no dia 29 de Novembro foi aprovada a inscrição da Olaria de barro negro de Bisalhães, cuja candidatura foi apresentada pela Câmara Municipal de Vila Real e, no dia 1 de Dezembro, foi aprovada a inscrição da Arte da Falcoaria, cuja candidatura foi apresentada pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos.
Estas duas inscrições nas Listas do Património Imaterial da Humanidade, que se juntam às três inscrições anteriores, têm um grande significado cultural pelo reconhecimento destas actividades de cariz popular, mas também significam que o poder local não está apenas envolvido nas expressões da cultura mediática “que dão votos” e que animam o Verão, mas que está atento à preservação das formas da autêntica  cultura popular nas suas áreas de jurisdição.
A Voz de Trás-os-Montes que se publica em Vila Real não deixou de assinalar o novo estatuto do barro de Bisalhães que, aliás, se vende à beira de algumas estradas próximas da cidade.

Os deputados-viajantes brasileiros

Ontem todo o Brasil se comoveu com a dor que se abateu sobre a cidade de Chapecó, no interior do Estado de Santa Catarina, quando viu regressar as urnas dos jogadores do Chapecoense vitimados pelo trágico acidente aéreo ocorrido nas proximidades de Medellín. A imprensa brasileira associou-se a essa homenagem e assim fez também o jornal Folha de S. Paulo, que hoje destaca na sua primeira página a cerimónia da chegada das urnas.
Na mesma edição o jornal paulista informa que os “deputados federais viajam ao exterior a cada dois dias”. De acordo com uma investigação feita pelo jornal, desde 2010 a Câmara dos Deputados pagou 1283 viagens de congressistas ao exterior, o que em média corresponde à saída de um deputado cada dois dias. Os motivos invocados para essas viagens são, naturalmente, o trabalho político que varia desde o “conhecimento in loco das realidades diversas no estrangeiro”, até ao “estabelecimento ou estreitamento de parcerias com estrangeiros”. A análise efectuada pelo jornal mostra que as viagens dos congressistas tiveram 69 países como destino e, sobretudo, os Estados Unidos, a França e a Suiça, o que certamente não tem nada a ver com turismo, nem com controlo de contas bancárias no exterior. Além disso, verificou-se haver casos de deputados que visitaram 21 países. O jornal denunciou estes abusos e procurou saber o montante dos gastos com essas viagens, assim como o número de acompanhantes dos deputados-viajantes, mas essa informação não lhe foi fornecida.
Há alguns anos, também em Portugal se verificavam este tipo de abusos e, se não me falha a memória, até houve um deputado que, em trabalho político, deu uma volta ao mundo. Nunca mais se falou nisso, mas era interessante que algum jornal fizesse essa pesquisa objectiva às viagens dos deputados portugueses para sabermos se ainda fazem viagens turísticas à conta dos contribuintes.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O regresso do feriado da Restauração

Rua 1º de Dezembro, 107, em Lisboa (Restaurante Leão d'Ouro)
Quando no dia 21 de Junho de 2011 tomou posse o XIX Governo Constitucional de Passos Coelho e de que faziam parte Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque e Assunção Cristas, entre outras figuras que por aí andam, decidiu adoptar um programa de austeridade que ia para além da troika.
Os nossos rendimentos foram reduzidos e a incerteza quanto ao futuro passou a pairar sobre as nossas vidas. Todos nos lembramos do que foi subserviência às missões da troika que nos visitava e a arrogância de Bruxelas que tudo fazia para nos humilhar. Numa afirmação de servilismo gratuito a interesses diversos e de ignorância cívica, em 2012 esse governo de Passos, Portas, Albuquerque e Cristas decidiu acabar com quatro feriados, incluindo o 1º de Dezembro de 1640, o dia da Restauração da nossa independência. Uma medida incompreensível e sem qualquer sentido, mas que o homem de Boliqueime apoiou.
Porém os tempos mudaram e, por iniciativa do XXI Governo Constitucional, a Assembleia da República decidiu repor os feriados suspensos por Passos, Portas, Albuquerque e Cristas.
Ontem, o Presidente da República e o Primeiro-ministro estiveram em Lisboa nas cerimónias da comemoração oficial do Dia da Restauração da Independência, dando um bom exemplo ao país que tem orgulho na sua História. Os seus discursos foram eloquentes. António Costa afirmou que "houve quem menosprezasse a importância desta data maior na história da nossa pátria" e Marcelo Rebelo de Sousa acentuou que "este feriado nunca deveria ter sido suspenso", assumindo ambos uma crítica directa ao governo de Passos Coelho, que tinha suprimido esse feriado em 2012.
Passos Coelho, que continua a ser um “patriota de bandeirinha na lapela”, tal como o seu partido, não aceitaram o convite para participar na cerimónia. Engoliram o sapo e até mostraram algum pudor. Porém, num exercício de absoluta falta de vergonha e mostrando que para ela vale tudo, pudemos ver Assunção Cristas que votara a supressão do feriado, a aplaudir agora a sua reposição. E, com espanto, todos vimos isso em directo pela televisão. Ela quer falar de tudo e estar em todo o lado. Diz uma coisa e o seu contrário. É uma personagem medíocre. Não vai longe.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Revivendo histórias e memórias em Goa

Depois de uma viagem aérea de muitas horas, um amigo muito estimável chegou ontem a Goa para passar algumas semanas de férias. Sei que o esperam muitas amizades, muitos antigos alunos, muitas boas memórias e uma meteorologia excepcional que lhe vai permitir ir às boas praias goesas e usar roupas leves. Sei que vai rever muitos dos traços arquitectónicos da herança cultural portuguesa, sobretudo em Velha Goa, mas que também vai reapreciar a paisagem luxuriante dos coqueirais de onde parecem emergir as torres brancas das igrejas e as várzeas verdejantes de arrozais a perder de vista. O meu amigo não deixará de visitar as peculiares feiras de Mapuçá e de Anjuna, apesar de estarem cada vez mais descaracterizadas, nem deixará de ir ao Mum’s Kitchen, ao Sher-e-Punjab, ao Coqueiro ou ao La-Goa Azul, entre tantos outros restaurantes de que gosta e onde a comida goesa tem um gosto singular. Também não perderá a oportunidade de ir até à Kala Academy, uma obra do arquitecto Charles Corrêa (que também foi o autor do edifício da Fundação Champalimaud), para ver o mandó e o tiatr, que são duas das mais interessantes expressões da cultura goesa. Naturalmente, o meu amigo não faltará às festas que vão ser muitas, nas quais se apresentará com o rigor e a solenidade das circunstâncias. Muitas vezes vai falar em português, até porque ele próprio tem dado uma boa ajuda para a sobrevivência da nossa língua em Goa.
Neste quadro de interesses e de expectativas, procurei na imprensa de Goa pela notícia da chegada do meu estimável amigo. Porém, nem o The Navhind Times, nem o Herald falaram do assunto. Estranhei e fui procurar no The Goan. Nada. O meu amigo chegou incógnito. Na realidade, o JRL que é um especialista em coisas goesas, sabe quanto vale estar incógnito em Goa, porque dessa forma pode resistir melhor às inúmeras homenagens que os amigos lhe gostam de prestar e às respectivas jantaradas que as acompanham. Pois que, incógnito ou não, passe um bom tempo em Goa!

terça-feira, 29 de novembro de 2016

União de forças e de interesses ibéricos

Apesar de durante séculos termos trocado princesas com os espanhóis, o processo histórico gerou uma enorme rivalidade entre os dois países ibéricos, que muitas vezes se guerrearam e quase sempre viveram de costas um para o outro. Dizia-se mesmo que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. A herança de Tordesilhas que orientou os espanhóis para a América Latina e os portugueses para a África e o Oriente, a juntar à vocação de cada um dos países, mais marítima a portuguesa e mais continental a espanhola, acabou por determinar percursos históricos distintos, embora muitas vezes bem mais próximos do que parece.
O facto é que, actualmente, sob os pontos de vista demográfico e económico, mas também sob o ponto de vista cultural, os dois países ibéricos têm um lugar destacado no mundo, com os seus idiomas a serem falados por muitos milhões de pessoas. Porém, os poderes hegemónicos europeus não têm compreendido essa realidade e daí que esteja a nascer uma vontade ibérica de cooperação mais efectiva, como reacção à arrogância do norte e do centro da Europa, que é independente das cores partidárias que governam cada um dos países. Para além da vizinhança geográfica, das raízes culturais comuns e da semelhança das suas crises conjunturais, os dois países parecem querer afirmar-se cada vez mais como uma comunidade de interesses e querem mostrar que a união faz a força. O tempo em que os espanhóis nos consideravam demasiado pequenos e em que os portugueses não esperavam de Espanha nem bom vento nem bom casamento, já pertence ao passado. Republicanos ou monárquicos, mais à esquerda ou mais à direita, o futuro ibérico passa por uma união de forças e de interesses.
Os Reis de Espanha vieram visitar oficialmente Portugal e estão a ser recebidos com um invulgar afecto por parte dos portugueses e o diário ABC destaca na sua edição de hoje essa visita, fazendo referência exactamente a essa necessária união de forças e de interesses ibéricos perante a Europa e a América. 

domingo, 27 de novembro de 2016

Lágrimas de dor e lágrimas de crocodilo

Fidel de Castro morreu ontem com 90 anos de idade e a sua morte foi noticiada em todo o mundo de uma forma pouco habitual, pois a sua fotografia encheu as primeiras páginas de muitas dezenas de jornais da Europa e da América Latina, mas também nos Estados Unidos como sucedeu com o diário nova-iorquino Daily News.
A imprensa chamou-lhe líder histórico, último revolucionário e ícone do século XX, mas também ditador e tirano. A sua morte foi celebrada por uns, mas foi chorada por muitos mais, alguns com sentidas lágrimas de dor e, outros, com lágrimas de circunstância ou lágrimas de crocodilo.
Nascido em 1926 e licenciado em Direito pela Universidade de Havana, comandou no dia 26 de Julho de 1953, com apenas 26 anos de idade, o assalto de 165 homens o assalto ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba, numa tentativa para derrubar o governo do ditador Fulgêncio Baptista. A maioria dos assaltantes foi morta e Fidel de Castro foi preso. Tendo assumido pessoalmente a sua defesa no julgamento, terminou o seu depoimento com a frase “a história me absolverá”. Depois de libertado exilou-se no México mas dois anos depois regressou a Cuba  a bordo do iate Granma com 82 homens, incluindo Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raul de Castro, tendo desembarcado na ponta oriental da ilha no dia 2 de Dezembro de 1956. Dirigiu depois a luta contra o regime cubano a partir da Sierra Maestra e, no dia 8 de Janeiro de 1959, a revolução cubana triunfara. Fidel de Castro entrou em Havana e o ditador Baptista deixou o país. Tinha apenas 32 anos de idade! A sua epopeia guerrilheira foi saudada pelos jovens de todo o mundo.
Durante mais de 50 anos El Comandante  “mandou” em Cuba, promovendo grandes avanços sociais e resistindo a várias tentativas de assassinato, ao bloqueio económico americano e às pressões contra-revolucionárias. Como ele próprio profetizou no julgamento de Moncada, a história o absolverá, ou não, mas certamente que lhe guarda um lugar de destaque como um símbolo de um sonho revolucionário e de um homem controverso que dividiu o mundo entre paixões e ódios.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Um impressionante dilúvio sobre Darwin

A Austrália é um estado federal com seis estados federados e três territórios autónomos, um dos quais é o Northern Territory cuja capital é Darwin, que é a cidade australiana mais próxima de Timor Leste. Aquela região do litoral norte australiano foi visitada em 1838 por John Clements Wickham, o comandante do HMS Beagle, quando fazia o seu levantamento hidrográfico e que decidiu baptizar a baía onde fundeou com o nome de Port Darwin, em homenagem ao famoso naturalista Charles Darwin que era seu amigo e que, entre 1831 e 1836, embarcara naquele mesmo navio.
O Northern Territory tem uma extensão de 1420 km2 (15 vezes maior que Portugal) e apenas 200 mil habitantes, sendo uma região de clima tropical e, portanto, muito sujeita a tempestades e ciclones.
Segundo o jornal NT News que se publica em Darwin, no corrente mês de Novembro têm-se sucedido chuvas torrenciais e a precipitação média que em Novembro é de 141 mm, já esta semana tinha atingido 185 mm, quando ainda faltava mais de uma semana para acabar o mês.
O jornal publicou na sua primeira página uma impressionante imagem captada pelo fotógrafo amador Thomas Peck, que tendo viajado por todo o mundo “nunca viu nada que se comparasse ao dilúvio que se abateu sobre Darwin” há dois dias. Também nós, mesmo quando andamos por regiões tropicais, nunca vimos uma trovoada como aquela que nos mostra a bela fotografia de Thomas Peck.

Marcelo e Costa têm inspirado confiança

A edição de hoje do jornal Público destacou as fotografias sorridentes de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa, tendo escolhido como título a frase “Marcelo elogia primeiro ano de Costa”.
O Presidente da República e o Primeiro Ministro nunca esconderam que, embora sejam oriundos de partidos políticos diferentes, sempre se deram bem e, por si só, esse facto transforma a nossa vida política. O ambiente de confiança, de paz social e até de alegria que hoje se vive na sociedade portuguesa, contrasta com o pessimismo, a crispação permanente e o conformismo dos tempos da parelha Cavaco-Passos, sem esquecer o irrevogável Portas, que agora anda a facturar aquém e além fronteiras, numa ânsia/ganância por dinheiro.
O improvável aconteceu em Portugal, isto é, constituiu-se uma maioria parlamentar que suporta um Governo que acabou com aquela coisa do “arco da governação” e elegeu-se um Presidente da República que nem fez campanha e de quem muitos desconfiavam quanto à sua estabilidade emocional para ocupar o Palácio de Belém. Ao fim de um ano, ninguém tem dúvidas sobre o bom andamento do país, com a economia a crescer, o desemprego a diminuir, o défice orçamental controlado abaixo dos 3%, os problemas do sistema financeiro em vias de resolução e com uma baixíssima taxa de conflitualidade social. Como dizia o 1º Ministro do Luxemburgo “tudo vos corre bem e até ganham o Europeu de Futebol, elegem um dos vossos para Secretário-Geral das Nações Unidas e organizam a Websummit 2016 em Lisboa”.
Naturalmente que há problemas em Portugal, mas os resultados obtidos em contra-ciclo com a Europa são notáveis. Apesar das incertezas do mundo, a confiança e a estabilidade social parecem estar firmes neste canto ocidental da Europa e, ao contrário do que sucedia há um ano, hoje temos muitos mais optimistas do que cépticos. Marcelo Rebelo de Sousa não se esquivou como fazia o seu antecessor de triste memória e elogiou o governo e os resultados que obteve. Que assim se mantenham por muito mais tempo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Há uma revolução fiduciária na Índia

No passado dia 10 de Novembro à noite, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi anunciou ao país pela televisão que as notas de 500 e de 1000 rupias (6,76 e 13,52 euros), deixavam de ser aceites, como medida para lutar contra a corrupção e o mercado negro. Muitos milhões de  indianos foram apanhados desprevenidos por esta medida imprevista e radical. Segundo afirmou na sua mensagem televisiva, “o dinheiro negro e a corrupção são os maiores obstáculos à erradicação da pobreza”, mas o objetivo das autoridades indianas vai mais longe e visa travar as práticas de lavagem de dinheiro, numa sociedade onde a maior parte das transações são feitas em dinheiro vivo. Até ao fim do ano os possuidores das notas retiradas de circulação ainda poderão depositá-las nos bancos para serem trocadas pelas novas notas, mas quem apresentar uma quantidade avultada das mesmas tornar-se-á alvo de investigação pelas autoridades fiscais indianas.
As pessoas assustaram-se, mas as autoridades esperam que a decisão traga muitos milhões à economia e ao sistema fiscal indiano, que têm sido muito afectados por estes fenómenos. A medida revelou-se uma verdadeira revolução fiduciária e gerou uma imediata falta de dinheiro vivo num país de quase 1300 milhões de habitantes, dos quais pouco mais de 10% possuem uma conta bancária onde possam depositar o dinheiro que ficou inutilizado a partir daquela noite. Por isso, as filas nos bancos e nas caixas multibanco tornaram-se intermináveis.
A medida provocou dois tipos de reacções opostas: 1) os que a defendem em nome do combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e aos mercados negros; 2) os que a condenam por não ter previsto os seus efeitos sobre as comunidades rurais e sobre as classes mais pobres da sociedade indiana que constituem a maioria da sua população.
O assunto é tratado com grande detalhe por todos os mass media indianos. A revista Outlook é apenas um deles e trata o assunto como um pesadelo.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Economia cresce mas a dívida permanece

No próximo ano de 2017 a economia portuguesa vai entregar 4,3% do seu Produto Interno Bruto apenas para pagar juros da sua dívida pública. São mais de 8 mil milhões de euros e, em termos relativos, ninguém na Zona Euro é tão castigado como os portugueses.
O maior devedor europeu que é a Grécia pagará em juros apenas 3,2% do seu PIB, não só porque ainda está sob resgate das instituições internacionais, mas também porque já beneficiou de uma significativa reestruturação da sua dívida em prazos de pagamento e em redução de juros e montantes. A Itália que tem uma dívida maior do que a portuguesa em 2017 irá pagar cerca de 3,7% do seu PIB em juros da dívida pública. Verifica-se, portanto, que os contribuintes portugueses são os que mais pagam em juros da sua dívida entre os países da Zona Euro e que em 2017 o nosso país será um dos poucos que não conseguirão baixar a sua dívida que, em Setembro de 2016, atingiu o valor record de 133% do PIB, isto é, cerca de 244,4 mil milhões de euros. Paralelamente os juros da dívida têm subido e chegaram aos 3,9%, embora já tivessem recuado para os 3,71%. O jornal de Negócios trata hoje deste assunto.
Esta situação revela que não existe uma solidariedade europeia equitativa e que os abutres financeiros continuam a rondar o nosso país, apesar da grande estabilidade social e dos bons resultados económicos da actual governação, como a Comissão Europeia já reconheceu. Porém, quando questionado sobre a hipótese de ser renegociada a dívida portuguesa, um tal Dijsselbloem que usa o título de presidente do Eurogrupo, veio dizer que não há mais discussão quanto a uma possível renegociação dos juros da dívida portuguesa, alegando que Portugal e Grécia são casos diferentes.
Então não há quem cale este e todos os outros dijsselbloems que por aí andam, que não se cansam de nos extorquir a riqueza que produzimos?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Pódio em português no Macau Grand Prix

O Grande Prémio de Macau, ou Macau Grand Prix como é conhecido nos meios automobilisticos internacionais, é uma competição motorizada que se realiza em Macau desde 1954 e que teve este ano a sua 63ª edição. Todos os anos, no mês de Novembro, muitos milhares de entusiastas pelas corridas de automóveis e motociclos, incluindo a Fórmula 3, dirigem-se para o território de Macau para assistir às provas do circuito da Guia que duram quatro dias. O circuito percorre as ruas da pequena cidade, intercalando algumas rectas mas, sobretudo, muitas e apertadas curvas, constituindo uma das maiores atracções turísticas de Macau.
Habitualmente mais de três centenas de pilotos participam nas diferentes provas do Grande Prémio de Macau que, na sua galeria de vencedores, inclui os nomes dos lendários Ayrton Senna e Michael Schumacker, entre outros ases do automobilismo mundial.
Ao longo do seu já longo historial apenas um português triunfara numa prova macaense, mas este ano aconteceu o inesperado, pois as duas principais provas do Grande Prémio de Macau foram ganhas por pilotos portugueses.
António Félix da Costa de 25 anos de idade, ao volante de um Dallara Volkswagen, repetiu o seu triunfo de 2012 na prova de Fórmula 3 e Tiago Monteiro de 40 anos de idade, ao volante de um Honda, triunfou na Corrida da Guia para Carros de Turismo. A comunidade portuguesa de Macau deve ter sentido uma enorme alegria com a vitória dos nossos compatriotas e, naturalmente, os jornais portugueses que se publicam em Macau também rejubilaram com este surpreendente resultado, tendo o jornal Tribuna de Macau dedicado a sua primeira página aos dois pilotos portugueses. Embora não seja fã destas provas, associo-me à satisfação dos portugueses de Macau por este resultado desportivo.