sábado, 12 de dezembro de 2020

Benjamin e Mohamed ou que bons amigos

O presidente cessante dos Estados Unidos, que está a pouco mais de um mês de abandonar a Casa Branca, voltou a cometer mais um atropelo ao direito internacional ao reconhecer a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, em troca do início do pleno estabelecimento de relações diplomáticas com Israel. Desta forma, depois dos Emirados Árabes Unidos, do Bahrein e do Sudão, o reino de Marrocos torna-se o quarto país árabe a normalizar as suas relações com Israel, não porque esses países o desejem, mas apenas porque o Donald os chantageou, imaginando que isso lhe traria dividendos eleitorais. 
Porém, o Saara Ocidental está na lista das Nações Unidas de territórios não autónomos desde o início dos anos 1960, quando era uma colónia espanhola, pelo que a decisão de Donald Trump faz dos Estados Unidos o único país ocidental que reconhece a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, em violação das orientações das Nações Unidas. De forma irresponsável, ele fez o que não tinha feito nenhum dos três presidentes democratas e quatro republicanos que os Estados Unidos tiveram desde 1976, violando as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Com esta decisão, o previsto referendo sobre a autodeterminação do povo saharaui que faz parte do acordo de cessar-fogo assinado em 1991 entre Marrocos e a Frente Polisário, sob a mediação das Nações Unidas, bem como a MINURSO (Mission des Nations Unies pour l’Organization d’un Référendum au Sahara Occidental) têm os seus objectivos fortemente comprometidos. 
O controlo do território saharaui é disputado por Marrocos e pela Frente Polisário, que é o movimento independentista fortemente apoiado pela Argélia. Por isso, na sua edição de hoje o jornal Le Quotidien d’Oran utiliza as palavras choque e indignação perante este casamento de conveniência entre Benjamin Netanyahu e Mohamed VI, apadrinhado por Donald Trump.

Memória de Iwo Jima e a desejada vacina

Na fase final da guerra do Pacífico os americanos decidiram ocupar Iwo Jima, uma pequena ilha de 21 km2 de superfície, estrategicamente localizada entre as ilhas Marianas e as ilhas japonesas. A batalha pela posse da ilha iniciou-se no dia 19 de Fevereiro de 1945 e durou trinta e cinco dias, tendo sido uma das mais duras batalhas da guerra, com pesadas baixas de ambos os lados. Dos 21 mil soldados japoneses que guarneciam a ilha terão morrido 18 mil e apenas 216 foram feitos prisioneiros, enquanto cerca de três mil se esconderam nos dezoito quilómetros de túneis subterrâneos, a partir dos quais atacaram as forças americanas com acções de guerrilha durante algumas semanas. 
A ilha só ficou definitivamente dominada pelos americanos no fim da guerra, mas alguns japoneses foram adiando a sua rendição, a última das quais se verificou em 1949! Na fase final da batalha os americanos ocuparam simbolicamente o monte Suribachi, o ponto mais elevado da ilha com 166 metros de altitude e que se situa na sua extremidade sul, onde seis fuzileiros içaram a bandeira americana. O fotógrafo Joe Rosenthal da Associated Press captou esse momento, essa imagem correu mundo e tornou-se uma das fotos mais conhecidas da 2ª Guerra Mundial. 
A revista brasileia Veja, a propósito da vitória histórica que foi a descoberta de uma vacina contra o covid-19 em apenas onze meses, que considerou “a mais fascinante aventura científica do nosso tempo”, criou uma sugestiva ilustração para a capa da sua mais recente edição inspirada exactamente na foto de Joe Rosenthal.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Como vai ser o mundo depois da pandemia

Na sua última edição a revista francesa Le Point pergunta quem dominará o mundo depois da pandemia que nos continua a afectar, utilizando uma fotomontagem em que alguns líderes mundiais correm numa prova para alcançar o primeiro lugar nessa corrida atlética. A pergunta da revista é pertinente, até porque a História nos mostra que depois das grandes crises nada fica como antes. Assim, depois do centro do mundo ter estado na Europa e depois ter passado para os Estados Unidos, quase sempre em situações de acentuada bipolaridade, pergunta-se o que vai acontecer na competição entre os grandes espaços – América, Ásia e Europa – para a relocalização do centro do mundo, embora cada vez mais se pareça caminhar para um mundo multipolar que, certamente, será mais instável e mais perigoso. 
A fotomontagem é muito sugestiva e mostra cinco atletas em prova atlética: Emmanuel Macron (França), Angela Merkel (Alemanha), Joe Biden (Estados Unidos), Tsai Ing-wen (Taiwan) e Xi Jinping (China). Porém, se coubessem nessa fotomontagem, talvez lá pudessem ser incluidos outros atletas, como Vladimir Putin (Rússia), Boris Johnson (Reino Unido), Narendra Modi (Índia), Yoshihide Suga (Japão) ou Recep Erdoğan (Turquia). 
No actual contexto pandémico que sugere naturais mudanças na ordem mundial, a análise da geopolítica e da geoestratégia mostram como se confrontam as ambições das grandes e das médias potências, como se constroem alianças e como a paz e o progresso são demasiado vulneráveis à actuação dos líderes que vão controlando o mundo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A vacinação já começou. Viva a Pfizer!

Margaret Keenan, uma mulher inglesa de 90 anos de idade, foi a primeira pessoa do mundo a receber a vacina contra a covid-19, que foi desenvolvida pelo grupo farmacêutico americano Pfizer e pela empresa alemã BioNTech, tendo sido inoculada no University Hospital, Coventry. 
Foi, de facto, um acontecimento extraordinário, que assinala uma grande vitória da Ciência, enquanto a fotografia de Margaret Keenan a ser saudada pelo pessoal do hospital foi publicada em diversos jornais ingleses e internacionais, como por exemplo The Times. Já foi chamado o dia V, pois abre o caminho à vacinação da população britânica que, até agora, foi uma das mais afectadas com a pandemia, pois já contabiliza mais de 61 mil mortos e mais de 1,7 milhões de pessoas infectadas. O Reino Unido torna-se, assim, no primeiro país do mundo a utilizar esta vacina e o seu plano de vacinação dirige-se aos mais vulneráveis e às pessoas com mais de oitenta anos, bem como aos funcionários dos lares e do NHS, o serviço de saúde nacional britânico. O país encomendou 40 milhões de doses da vacina Pfizer/BioNTech, o que permite proteger 20 milhões de pessoas, uma vez que esta vacina se administra com duas doses.
As especificidades desta vacina, que necessita de uma conservação a 70 graus negativos, representam um desafio logístico, salientaram as autoridades sanitárias britânicas, que indicaram que as doses têm de ser transportadas por uma empresa especializada e que o respetivo descongelamento demora várias horas. 
Aqui podemos aprender com a experiência britânica. Espera-se que a chegada das vacinas e o início do programa de vacinação em Portugal aconteçam nos primeiros dias de Janeiro e, aparentemente, tudo está a ser devidamente preparado.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O sim de Marcelo: habemus candidato!

Marcelo Rebelo de Sousa anunciou ontem que era candidato a um novo mandato na Presidência da República e com essa declaração acabou com um tabu que se arrastava há vários meses. O país ficou aliviado! 
No entanto, não houve surpresa nenhuma com este anúncio, excepto no que respeita ao local que escolheu para o fazer. Não foi uma universidade ou uma biblioteca, nem um jardim ou um local histórico, ou mesmo uma praia de que tanto gosta, tendo optado pela pastelaria A Chique de Belém, que agora se travestiu e se chama Versailles
Provavelmente Marcelo Rebelo de Sousa quis mostrar que tal como a pastelaria é contígua ao palácio que ocupa, também o seu anúncio naquele lugar está ligado ao palácio que vai continuar a ocupar. Porém, em vez de atravessar a Calçada da Ajuda e gastar um minuto a fazer uns 20 metros, tratou de atravessar a Praça Afonso de Albuquerque e mostrar-se às câmaras durante alguns minutos. A simplicidade da encenação foi estudada, como são quase todos os passos presidenciais, mas ao preferir A Chique de Belém em vez da Leitaria da Junqueira que fica bem próximo, quis mostrar a sua faceta populista e cosmopolita. 
Todas as sondagens mostram que o Presidente da República vai ser reeleito à primeira volta por uma confortável maioria, pois tem feito uma boa presidência, embora com demasiados exageros populistas, sobretudo na sua relação com as câmaras que mobiliza para os seus tiques narcisistas. Ninguém esquece, porque tudo foi filmado pelas televisões, a cena em que foi vacinado contra a gripe, nem o salvamento de duas jovens na praia do Alvor, ou a publicidade que deu à sua visita privada a Porto Santo. Talvez que Marcelo Rebelo de Sousa no seu próximo mandato possa acabar com este tipo de cenas ridículas, com o exagero de selfies e com o gosto de falar sobre tudo o que deve e não deve. 
Naturalmente, a pastelaria A Chique de Belém, aliás Versailles, vai continuar a ter um cliente certo. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Maduro e a farsa eleitoral venezuelana

A Venezuela é um país onde vivem cerca de meio milhão de portugueses e luso-descendentes e, por isso, o que se passa no país governado por Nicolás Maduro é um tema importante para Portugal. 
Ontem decorreram as eleições para a Assembleia Nacional da Venezuela que elegeram os 277 deputados, cujo mandato decorrerá de 5 de Janeiro de 2021 a 5 de Janeiro de 2026, mas as eleições foram muito contestadas, tanto interna como internacionalmente. 
A generalidade da oposição decidiu-se por um boicote que deu origem a uma grande abstenção e, dessa forma, o chavismo de Nicolás Maduro ganhou nas urnas, mas de uma forma duvidosa e nada convincente. De um total de cerca de 20,7 milhões de eleitores inscritos terão votado apenas 5.264.104. Segundo os dados fornecidos pelo Consejo Nacional Electoral a participação eleitoral foi da ordem dos 30%, tendo o Gran Polo Patriótico Simón Bolivar (GPP), uma coligação chavista que inclui o Partido Socialista Unido de Venezuela (Psuv), obtido 3.558.320 votos e conseguido eleger 177 deputados. 
A recusa da oposição e dos seus principais líderes em participar nas eleições, bem como as suspeitas de fraude eleitoral desacreditam os resultados anunciados, mas também nada abonam a favor dos que desistiram das eleições sem lutar, inclusive para denunciar o regime chavista que, dessa forma e no meio de uma gigantesca crise económica e social, passa a dominar a Assembleia Nacional. 
A partir de Janeiro, Nicolás Maduro tem todos os poderes políticos na Venezuela, numa altura em que os Estados Unidos passarão a ter Joe Biden na Casa Branca. Abre-se, então, uma oportunidade para o Diálogo, para a Democracia e para o Progresso, mas para tal é necessário que os líderes da oposição venezuelana, como os Capriles, os Guaidós e outros, se mostrem capazes do desafio de enfrentar o ditador, sem alinhar, como têm feito até agora, na acção radical de Donald Trump e do seu radicalismo contra mexicanos, venezuelanos e outros sul-americanos. Por alguma razão, nem o aparelho judicial nem os militares acreditam nesta oposição venezuelana que se encostou a Trump, mas agora surge uma nova oportunidade.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A nova vacina é uma luz ao fundo do túnel

Foi há cerca de um ano que apareceu o novo coronavírus que depressa se estendeu pelo planeta e a que a OMS deu a designação de covid-19. Esse vírus revelou-se muito letal e era desconhecido da Ciência, mas de imediato mobilizou o conhecimento e a inteligência em diversos locais do mundo, numa corrida que tornou possível esse acontecimento de extraordinária importância científica que foi a descoberta de uma vacina em tão pouco tempo. 
Esse deve ser um motivo de grande satisfação para o mundo e, depois de tempos de ansiedade e de incerteza, surgem no horizonte tempos de esperança. 
A pandemia já causou quase cinco mil óbitos em Portugal e gerou uma grande incerteza quanto ao futuro, mas as notícias dos últimos dias desanuviaram o ambiente e deram um novo olhar sobre o futuro, permitindo ver a luz ao fundo do túnel. Já foi apresentado o Plano Nacional de Vacinação contra a covid-19 que vinha a ser preparado por quem sabe e que visa reduzir a mortalidade causada pela pandemia e aliviar o Serviço Nacional de Saúde. É uma janela de esperança que veio mostrar que, ao contrário do que dizem os arautos da desgraça que são os inúmeros júdices que por aí andam, as nossas autoridades sanitárias estão atentas e a merecer a nossa total confiança. 
No âmbito da aquisição conjunta de vacinas pela União Europeia, há seis contratos assinados com os fabricantes e o nosso país vai receber 22 milhões de doses de vacinas, sendo 6,9 milhões de doses da AstraZeneca/Universidade de Oxford, mais 4,5 milhões de doses da BioNTecn/Pfizer e a mesma quantidade da Johnson&Johnson, mais 1,9 milhões da Moderna e quatro milhões de doses da CureVac. 
As vacinas serão universais, gratuitas e facultativas, sendo distribuídas nos 1200 pontos de vacinação ou centros de saúde, enquanto o plano de vacinação terá três fases para atender a população, de acordo com os grupos definidos no próprio plano. Vai ser demorado e vai exigir muita disciplina, muita determinação e muita competência, mas tudo parece estar pensado e estruturado. O que é curioso é que já tenham aparecido os críticos do costume, que julgam saber de tudo e desconhecem que vivemos num país de recursos limitados.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Em Goa ouve-se o fado e dança-se o mandó

A crise pandémica está a afectar seriamente a Índia, que é o segundo país com mais casos de covid-19 no mundo depois dos Estados Unidos, sendo o terceiro país com mais óbitos depois dos Estados Unidos e do Brasil. Apesar disso, a classe média indiana parece que está a fugir das grandes cidades e da pandemia, dirigindo-se para o estado de Goa que ainda não tem o bulício de outras regiões indianas e é a principal região turística do país. Sempre foi assim e este ano parece não ter havido alterações. Goa está a entrar na sua época alta de turismo e, segundo algumas informações de que dispomos, a hotelaria e a restauração estão a ter índices de ocupação semelhantes aos anos anteriores, embora seja sobretudo devido ao turismo interno. 
Nesse quadro, no próximo sábado em Panjim, a cidade capital do estado de Goa, a Madragoa – casa de fado e mandó, retoma a sua actividade com duas sessões de fado e de mandó na voz de Sonia Sirsat e com o acompanhamento musical de Orlando de Noronha e Carlos Menezes, estando referido no respectivo programa que “as máscaras e a distância social são obrigatórias”. 
Independentemente dos aspectos comerciais da actividade da Madragoa, realça-se aqui o esforço que tem sido feito pelos dinâmicos promotores do fado, para preservar a cultura portuguesa em Goa, neste caso através de uma casa onde se ouve o fado, se fala português e até se podem provar algumas especialidades portuguesas. O nosso mais vivo aplauso!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

R. I. P. Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço deixou-nos ontem aos 97 anos de idade, mas a sua notável obra vai permanecer entre nós, tal como o seu exemplo de pensador, de democrata e de amante da liberdade. Ao contrário de tantas pessoas que aparecem na televisão e que afirmam tê-lo conhecido e com ele ter convivido, eu nunca me cruzei com ele, nem o conheci pessoalmente, mas devorei em devido tempo algumas das suas obras, de que destaco O Fascismo nunca Existiu (Publicações Europa-América, 1976) e O Labirinto da Saudade (Publicações Europa-América, 1978), de que resultou ter ficado admirador do seu pensamento e das suas análises sobre o momento político que se vivia em Portugal. 
Eduardo Lourenço viveu mais de metade da sua vida em França onde foi professor e se tornou um convicto europeu, sem nunca ter esquecido as suas raízes rurais de São Pedro de Rio Seco, no concelho raiano de Almeida. No seu percurso de vida como pensador, professor, filósofo e ensaísta, foi amplamente reconhecido, tendo sido distinguido com condecorações portuguesas e francesas e com quatro doutoramentos honoris causa, além de muitos prémios, de que se destacam o Prémio Camões em 1996 e o Prémio Pessoa em 2011 que são, certamente, os mais prestigiados prémios da cultura portuguesa. 
Era administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1999, foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade em 2014 e, desde 2016, era Conselheiro de Estado, designado pelo actual Presidente da República. 
Não há muitos portugueses cujo currículo académico e exemplo de cidadania se equipare ao de Eduardo Lourenço.

domingo, 29 de novembro de 2020

A língua portuguesa é uma enorme janela

Vivemos num tempo em que estamos sob uma intensa pressão da esfera mediática, embora o paradigma – a rádio anuncia, a televisão mostra e os jornais explicam – continue a prevalecer, apesar da ameaça que vem constituindo o aparecimento da internet e das redes sociais. 
Porém, a confiança nos meios de comunicação ditos tradicionais está a ficar abalada. Como explicam as teorias do agenda-setting e da tematização, a lógica (económica e política) na escolha dos temas e na construção das notícias, tendem a impor-nos os temas em que devemos pensar. Procuram gerar os chamados efeitos cognitivos da comunicação de massa, que pretendem moldar a opinião pública e que nos enrolam naquilo a que se vem chamando a “espuma dos dias”, isto é, somos informados com ou sem verdade sobre aquilo que os mass media querem e não sobre aquilo que nos interessa. Vem isto a propósito do 18º Concurso de Eloquência em Língua Portuguesa que foi organizado pelo Departamento de Português da Universidade de Macau e que decorreu nas instalações da mesma universidade de Macau, que teve justificado destaque no jtmJornal Tribuna de Macau. O vencedor foi um jovem oriundo da Mongólia Interior que, ao ser entrevistado, declarou que a língua portuguesa é uma enorme janela para o mundo, o que não deixa de ser um grande elogio para a nossa língua. 
Macau é realmente um exemplo no que respeita à língua portuguesa que parece ter agora mais apoio do que no tempo da administração portuguesa. O que aqui se salienta é que estes temas que estão vivos lá longe, estão ausentes da nossa comunicação social. As questões da língua e da cultura estão cada vez mais afastadas da tematização da nossa comunicação social, que anda demasiado ocupada com as coisas do futebol e com outros assuntos menores.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

R.I.P. Diego Armando Maradona

O famoso futebolista argentino Diego Armando Maradona morreu ontem em Buenos Aires aos 60 anos de idade, na sequência de uma paragem cardiorrespiratória e quando estava a recuperar de uma operação a que foi sujeito a um coágulo no cérebro. Hoje, a morte de Maradona é notícia em toda a imprensa mundial, com a sua fotografia publicada num incontável número de periódicos mundiais. 
A Argentina está de luto nacional durante três dias pelo futebolista que era considerado um génio ou mesmo um Deus, enquanto todo o mundo presta homenagem ao talento futebolístico daquele que, por vezes, tem sido considerado o melhor jogador da história do futebol. Jogou no Boca Juniors, no Barcelona e no Nápoles, mas o seu momento de maior glória terá sido no Mundial de 1986 no México, no jogo dos quartos-de-final contra a Inglaterra, em que marcou dois golos que eliminaram os ingleses e ficaram famosos. O primeiro foi marcado com a mão, ou “a meias com o divino”, ou ainda, com “a mão de Deus”, tendo suscitado uma polémica que nunca foi esquecida; o segundo resultou de uma arrancada fulgurante em que Maradona ultrapassou vários adversários até ao vitorioso remate final, o qual veio a ser considerado o “golo do século” numa votação realizada pela FIFA em 2002. Porém, a par do seu talento futebolístico, Diego Maradona teve também uma vida de excessos, em que o álcool e a droga estiveram presentes e lhe fragilizaram a saúde. 
Numa sua autobiografia intitulada Eu sou El Diego, cuja tradução foi publicada em Lisboa em 2001, ele próprio trata desse assunto: 

- A mim, a droga tornou-me pior jogador, não melhor. Têm noção do jogador que teria sido se não tivesse seguido os caminhos da droga? Teria sido durante muitos, muitos anos, aquele que fui no México. Foi o meu momento de maior felicidade em cima de um relvado”. 

Como antes se referiu, a morte de Maradona é notícia em toda a imprensa mundial e a sua fotografia aparece num incontável número de periódicos, mas na ilustração deste texto nós optamos pela capa da revista hondurenha diez que nos parece uma das mais sugestivas de todas. 
R.I.P.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

O Donald perde e a transição vai começar

Alguns jornais de referência americanos destacam hoje que começou a transição da administração de Donald Trump para a administração de Joe Biden e essa é a notícia de primeira página do The New York Times. Para além das notícias relativas à euforia em torno das vacinas que nos vão proteger da epidemia do covid-19 e das notícias nacionais sobre a outra epidemia que nos assalta que é o futebol que se está a tornar na coisa mais importante da sociedade portuguesa, a grande notícia do dia é mesmo o início da transição das administrações nos Estados Unidos. 
A Administração dos Serviços Gerais dos Estados Unidos apurou que Joe Biden foi o vencedor das eleições de 3 de Novembro. As acusações televisivas com que o Donald procurou criar uma onda generalizada de apoio às suas mentiras não resultaram, assim como as impugnações de resultados que tinha tentado por via judicial vieram a ser derrotadas na Pensilvânia e na Geórgia e, agora, no Michigan. Depois de derrotado nas urnas, o Donald está a ser derrotado em todas as instâncias judiciais e, perante essas evidências, deu finalmente instruções para que a sua equipa iniciasse o processo de transição, embora continue a considerar fraudulentos os resultados que o derrotaram. Com esta decisão foi aberta a porta para que Joe Biden possa aceder às agências e fundos federais necessários para constituir a administração que, a partir de 20 de Janeiro e durante quatro anos, vai governar os Estados Unidos. 
Já muito foi dito sobre a personalidade assimétrica daquele que durante quatro anos dirigiu os Estados Unidos e a forma desprestigiante como conduziu a política externa americana. Os americanos rejeitaram o Donald, mas o mundo também estava farto dele. Faltam menos de dois meses para que o mundo possa voltar a olhar os Estados Unidos com mais confiança, com mais vontade de cooperação e com mais respeito.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A “cunha” é uma instituição nacional

A revista Sábado inclui na sua última edição uma interessante e bem documentada reportagem assinada por Marco Alves sobre a rede de cunhas e favores de Salazar que, como é sabido, foi o “dono disto tudo” durante a vigência do regime do Estado Novo (1926-1974). Os mais desatentos poderão pensar que a cunha foi um pecado criado pelo salazarismo, mas há que lembrar que a cunha é uma instituição nacional que, embora tenha florescido com Salazar e o seu regime, sempre foi uma marca poderosa da nossa sociedade e da nossa história. Porém, a reportagem da revista é sobre as cunhas no tempo de Salazar e o seu autor escreveu: 

Os pobres pediam-lhe dinheiro, mas as elites (médicos, engenheiros, deputados, juízes, militares, empresários, padres e condes) queriam colocações em bancos, aumentos, cargos e comendas. 

Durante 36 anos o ditador acedeu a centenas de cunhas. Os mais velhos recordam-se bem dessa realidade e das voltas que era preciso dar para ser servidor do Estado pois, como refere o historiador Fernando Rosas, o Estado Novo vivia assente numa pirâmide de cunhas de que Salazar era o topo. 
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” escreveu Camões no século XVI, mas depois de Salazar mudaram-se os tempos, mudaram-se muitas vontades, mas a cunha continuou, embora “tomando sempre novas qualidades”. Hoje já não se mandam cartões ou se escrevem cartas a Salazar, nem aos dignitários do Estado Novo. Hoje usa-se o cartão partidário e outras redes de relações muito diversas, com as quais se alimentam teias de interesses, se arranjam empregos, se obtém diplomas, se assinam contratos, se forjam carreiras e se progride na vida. O mérito parece ser, cada vez mais, um aspecto secundário. Como se costuma dizer, o que é preciso é ter um bom padrinho.
Portanto, o meu desejo é que o autor Marco Alves possa agora estudar a rede de cunhas e favores dos tempos pós-Salazar, para que os seus leitores possam ver quão importante têm sido para construir carreiras de esferovite e ajudar carreiristas, preguiçosos, atrevidos e outros oportunistas. Será um grande serviço à comunidade e ao esclarecimento público, mas também a possibilidade de vermos como funciona uma boa parte da nossa sociedade.

domingo, 22 de novembro de 2020

A teimosia mentirosa de um incendiário

A edição de hoje do jornal novaiorquino Daily News dedica a sua capa a Donald Trump e, quase três semanas depois das eleições, retrata-o como um incendiário que continua a ignorar a calamidade que é a pandemia do covid-19, que afasta aqueles que dele discordam e que mostra “espasmos de raiva” por ter perdido as eleições. Acontece que Trump sempre disse que Joe Biden e os Democratas só venceriam as eleições pela fraude e na noite eleitoral, muito antes de serem conhecidos os resultados, já o Donald punha em prática o seu maquiavélico plano ao declarar vitória e, pouco depois, ao denunciar fraudes sem quaisquer evidências ou provas. As contestações começaram na esfera mediática com teorias da conspiração, boatos sobre fraudes e pressões sobre juízes e políticos, passando depois para a esfera judicial, onde as teses enunciadas pelo Donald e pelo seu advogado Rudy Giuliani têm sido rejeitadas, ao mesmo tempo que as recontagens de votos têm sido favoráveis a Joe Biden. 
O comportamento irresponsável e mentiroso do Donald tem divertido o mundo, que não compreende a sua teimosia em não reconhecer a derrota e a vitória de Joe Biden, o que vai contra a tradição americana. Donald e a sua equipa sabem que perderam nas urnas, mas construíram uma farsa desonesta e mentirosa que está a fragilizar os Estados Unidos, apenas porque não aceitam o princípio democrático da alternância do poder e da soberania do voto popular. Alguns especialistas pensam que a recusa do Donald em reconhecer a vitória da dupla Joe Biden-Kamala Harris é uma táctica para manter a sua base eleitoral activa e mobilizada, possivelmente para criar no seu partido a ideia de voltar a ser escolhido para concorrer às eleições presidenciais de 2024. Porém, com este espectáculo que já é demasiado ridículo, o Donald vai certamente perder adeptos todos os dias e, provavelmente, vai ser esquecido ou passará a figura secundária da política americana. 
O facto é que ninguém imaginava que as eleições americanas fizessem correr tanta tinta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A cultura voltou às manchetes dos media

Quando meio mundo anda atordoado com a crise pandémica e com a eficácia das vacinas, há outro meio mundo que olha incrédulo para o que se passa nos Estados Unidos com o comportamento impróprio e indecente de Donald Trump. 
No meio dessa avalanche de preocupações, a cidade de Bilbau e o seu Museo Guggenheim decidiram promover uma grande exposição sobre a obra de Vasily Kandinsky (1866-1944), um artista russo que foi um dos pioneiros da abstracção na pintura. 
A exposição foi inaugurada hoje e vai manter-se até ao dia 23 de Maio, mostrando 62 das 152 obras que constituem a colecção de Kadinsky que a Fundação Solomon R. Guggenheim possui em Nova Iorque. O percurso do artista passou por Moscovo, Munique e Paris, tendo sido decisivo na sua carreira o apoio que teve do industrial Solomon R. Guggenheim que desde 1929 começou a coleccionar a sua obra, que depois doou à Fundação que constituiu em Nova Iorque em 1937. 
A notícia da inauguração desta exposição foi destacada pela imprensa basca como um importante evento cultural, nomeadamente no jornal El Correo de Bilbau, para o qual o director do museu declarou em entrevista que, apesar das visitas serem limitadas devido ao contexto pandémico que atravessamos, espera com confiança que esta situação seja ultrapassada. 
O que aqui se destaca é que, depois de tanto tempo com notícias decepcionantes, a cultura voltou às manchetes dos mass media, onde uma iniciativa cultural aparece destacada na primeira página dos jornais generalistas, coisa que não se via há muito tempo.