quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Nicolás Maduro e o imbróglio venezuelano

As eleições presidenciais venezuelanas realizadas no dia 28 de julho tiveram resultados que foram contestados interna e externamente, tendo gerado muita instabilidade política e social desde então e que continua activa, quando já são passados quase quarenta dias. 
As ruas de muitas cidades, como a capital Caracas, encheram-se de manifestantes a constestar a fraude eleitoral e o resultado anunciado, ou a apoiar o presumível vencedor das eleições, que o actual presidente Nicolas Maduro anunciou ser ele próprio.
Houve confrontos e muitas centenas de cidadãos foram agredidos pela polícia, daí resultando 27 mortos, 192 feridos e cerca de 2.400 detenções. A generalidade da comunidade internacional continua sem aceitar os resultados anunciados pelo regime chavista e tem reclamado a consulta das actas que registaram o apuramento das votações em cada mesa eleitoral. Entretanto, segundo vem sendo deunciado nos meios de comunicação de diversos países, tem aumentado a repressão sobre a oposição venezuelana e sobre os seus dirigentes, tendo o jornal Perú 21 anunciado na sua edição de hoje que foi emitida uma ordem de detenção contra o ex-diplomata Edmundo González Urrutia, que foi o candidato que enfrentou o ditador Nicolas Maduro. 
Porém, Edmundo González continua a afirmar que venceu as eleições, mas está escondido desde há um mês, pois não confia no aparelho repressivo chavista, nem no sistema de justiça venezuelano que está ao serviço de Nicolás Maduro. Perante a gravidade crescente da situação, os presidentes Lula da Silva do Brasil e Gustavo Petro da Colômbia manifestaram “profunda preocupação” pela decisão de deter Edmundo González e esperam encontrar-se com Nicolás Maduro nas próximas horas para encontrar uma solução pacífica para o imbróglio venezuelano. 
Se já há demasiadas tensões no mundo, porquê sustentar mais uma?

O Papa Francisco em Timor é uma festa!

O Papa Francisco chegou ontem à Indonésia para uma visita apostólica, tendo a edição de hoje do jornal The Jakarta Post destacado esse acontecimento que ocorre no maior país muçulmano do mundo. Trata-se da viagem mais longa do pontificado do Papa Francisco, em que percorrerá 32 mil quilõmetros com 44 horas de voo, com passagens por quatro países.
A Indonésia é constituída por milhares de ilhas entre a Ásia e a Austrália, sendo esta visita papal considerada um facto muito importante no actual contexto mundial, como afirmou Joko Widodo, o presidente da Indonésia, que convidou o Papa a visitar o país. Segundo as fontes do Vaticano, trata-se de construir pontes entre universos culturais diferentes e de estimular o diálogo interreligioso, tendo o Papa Francisco associado a “unidade na multiplicidade indonésia” à unidade das diferentes religiões, que perseguem o bem comum, a justiça social e a paz no mundo.
Depois da visita à Indonésia, o Papa Francisco seguirá para a Papua Nova-Guiné, Timor-Leste e Singapura.
No que respeita a Timor-Leste, um país onde se fala português e em que 95% da população é católica, a chegada do Papa Francisco acontecerá no dia 9 de setembro e, depois de cerca de 48 horas em Dili, seguirá para Singapura no dia 11 de setembro. A visita papal a Timor-Leste vai ser uma grande festa para a população e tem um significado especial porque a Igreja Católica foi um referencial de liberdade para os timorenses durante a violenta ocupação indonésia do território (1975-2002), tendo sido essencialmente através dela que se processou a comunicação interpessoal que permitiu a luta da resistência timorense.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O treino das Marinhas latino-americanas

O diário chileno El Mercúrio que se publica em Santiago do Chile, destaca na sua última edição a realização do UNITAS LXV (65), um exercício naval multinacional que se enquadra nos propósitos do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, ou Tratado do Rio, um pacto de defesa mútua interamericano assinado em 1947 no Rio de Janeiro.
No exercício do corrente ano, que vai decorrer até 12 de setembro, participam 25 países, com 17 navios, dois submarinos, 20 aeronaves e mais de 4.000 marinheiros e fuzileiros navais e, entre os países participantes, estarão “delegaciones europeas y del Asia Pacifico”.
Diz a organização que o UNITAS é o exercício naval mais antigo do mundo, pois realiza-se anualmente desde 1960 sob a orientação operacional dos Estados Unidos e com a participação de várias Marinhas latino-americanas, com o objectivo de treinar, capacitar e estabelecer vínculos de confiança entre si. Nessa altura, o exercício destinava-se à preparação das Marinhas para fazer frente à ameaça soviética no contexto da Guerra Fria mas, com o tempo, os seus objectivos foram-se ampliando para novos aspectos da guerra no mar e para os novos cenários mundiais. A partir de 1999 o UNITAS passou a dividir-se em três fases que se realizam alternadamente no Atlântico, no Pacífico e nas Caraíbas. 
O exercício UNITAS LXV (65) vai decorrer na costa chilena do Pacífico e terá como bases os portos de Valparaíso e de Punta Arenas, no estreito de Magalhães.

sábado, 31 de agosto de 2024

Evocação do referendo de 1999 em Timor

Por diversas razões, incluindo as anomalias da descolonização portuguesa e a guerra civil timorense, no dia 28 de novembro de 1975 a Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) proclamou unilateralmente a independência daquele território que ocupa a parte oriental da ilha de Timor, mas essa declaração não foi reconhecida por Portugal, nem pelas Nações Unidas, nem pela comunidade internacional.
Por isso, no dia 7 de dezembro de 1975, quando as tropas portuguesas se limitavam a uma presença simbólica na pequena ilha de Ataúro, a vizinha e poderosa Indonésia invadiu a antiga colónia portuguesa da ilha de Timor que, de jure, ainda tinha soberania portuguesa, decretando a sua anexação. A repressão indonésia foi violenta e gerou uma resistência armada que lutou nas montanhas e criou dificuldades aos ocupantes. Estima-se que tenham morrido quase duzentos mil timorenses. Apesar de alguns países, como a Austrália e os Estados Unidos, terem aceite a ocupação indonésia, os sucessivos governos portugueses defenderam a causa timorense e mobilizaram a comunidade internacional para respeitar o direito do povo timorense a escolher o seu destino. Depois de um longo e complexo processo diplomático, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, conseguiu que os governos da Indonésia e de Portugal estabelecessem negociações e chegassem a um Acordo sobre a Questão de Timor-Leste, que previa a realização de um referendo, que veio a ser realizado no dia 30 de agosto de 1999. Foi há 25 anos e a generalidade dos mass media portugueses estiveram distraídos e não evocaram esse dia histórico, tanto para Portugal como para Timor-Leste. Uma das honrosas excepções foi o Et cetera, o suplemento semanal do Jornal Económico, cuja primeira página evoca a figura de Xanana Gusmão, ex-comandante da guerrilha timorense, ex-presidente eleito da República e actual primeiro-ministro de Timor-Leste.
Nesse dia 30 de agosto de 1999, sob a supervisão das Nações Unidas, houve 78,5% de timorenses que rejeitaram a proposta de autonomia especial de Timor-Leste, o que significava a independência e a separação da Indonésia.
A independência chegou no dia 20 de maio de 2002. Foi um dia memorável em Portugal. Quem se recorda desse dia?

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Israel radical também ataca a Cisjordânia

O território palestiniano situado a oeste do rio Jordão que é designado por Cisjordânia, ou West Bank, está ocupado militarmente por Israel, o que é ilegal à luz do Direito Internacional e das Resoluções das Nações Unidas.
O território é governado pela Autoridade Nacional Palestiniana presidida por Mahmoud Abbas mas, para além do seu controlo militar, o governo de Netanyahu decidiu agora lançar operações aéreas e terrestres em grande escala a que chamou operações antiterroristas. Assim, invadiu as cidades de Jenin, Nablus, Tubas e Tulkarem e outras áreas cisjordanas, com o apoio da aviação, de helicópteros e de veículos armados. Segundo os relatos de alguma imprensa internacional trata-se de “um dos ataques mais violentos em décadas na Cisjordânia” e o jornal Kuwait Times escreveu em título de primeira página que “Zionist terror hits West Bank”, o que significa que o terror atingiu a Cisjordânia. O insuspeito jornal The Washington Post escreveu ontem em primeira página que “massive Israeli raids kill at least 10”.
Alguns podem compreender a luta contra o Hamas que governa a Faixa de Gaza, como um direito de resposta israelita aos massacres e raptos de 7 de outubro, embora todos considerem injusto, excessivo e cruel o que tem sido feito ao povo palestiniano.
Outros podem compreender a reacção de Israel perante a ameaça do Hezbollah, uma organização política e paramilitar fundamentalista islâmica instalada no sul do Líbano.
Porém, ninguém compreende as acções israelitas nos territórios cisjordanos governados pela Autoridade Nacional Palestiniana onde já morreram mais de 650 palestinianos, desde o dia 7 de outubro. E ninguém compreende os silêncios de Joe Biden, de Ursula von der Leyen, de Emmanuel Macron, de Olaf Scholz e de tantos líderes que se comportam como cúmplices do massacre ao povo palestiniano.

Perda de um F-16: golpe para a Ucrânia

A edição de hoje do The Wall Street Journal publica na sua primeira página uma notícia com o título “Ukrainian Pilot Dies in F-16 Crash”, um facto que terá acontecido na passada segunda-feira, mas que só foi revelado quatro dias depois, certamente porque foi um duro golpe para as aspirações ucranianas.
A notícia avançada por diferentes agências diz que “a Ucrânia perdeu o primeiro dos seus caças F-16 de fabricação norte-americana durante o enorme ataque com mísseis e drones da Rússia na segunda-feira, matando o piloto, tenente-coronel Oleksiy Mes, um dos primeiros do país a ser qualificado para pilotar os caças avançados”. As autoridades militares ucranianas “não acreditam que um erro do piloto esteja por trás do acidente” e também afirmaram que "não parece ter sido resultado de fogo russo".
A longa pressão conduzida por Volodymyr Zelensky para que os seus aliados e amigos lhe cedessem caças F-16 tinha sido bem sucedida e as primeiras unidades tinham chegado à Ucrânia há poucas semanas, provenientes da Bélgica, Dinamarca, Países Baixos e Noruega. Havia a expectativa de que os F-16 poderiam desequilibrar a balança operacional a favor da Ucrânia, pelo que este acontecimento veio arrefecer os ânimos belicosos de muita gente e mostrar que a solução do problema ucraniano está na diplomacia, na negociação, no fim da destruição de vidas e bens, isto é, no cessar-fogo e na paz entre russos e ucranianos, mas também veio mostrar que aqueles que defendem o envolvimento de mais meios militares e até de tropas europeias, estão errados.
Haverá ainda quem pense que a guerra serve para solucionar algum problema?

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

O paradoxo dos negócios do armamento

Os negócios do armamento sempre foram muito lucrativos e a sua prosperidade depende das tensões internacionais e das guerras que delas derivam. 
Os aviões de combate são apenas um subconjunto nesse negócio e é sobre ele que trata a edição de hoje de La Tribune, um jornal económico e financeiro francês. A sua primeira página é dedicada ao avião de combate Dassault Rafale, construído pela Dassault Aviation, a propósito de uma possível nova encomenda de 12 unidades por parte da Sérvia que, dessa forma será, além da França, o oitavo país a escolher “os aviões de combate tricolores”.
No campo da aviação militar, tal como na área da aviação comercial, há uma enorme rivalidade entre construtores e, no caso dos aviões de combate, concorrem vários construtores europeus, designadamente com o Dassault Rafale (projecto da França), o Eurofighter Typhoon (projecto do Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha) e o Saab JAS 39 Gripen (projecto da Suécia). Neste negócio de muitos milhões, é caso para dizer “amigos, amigos… negócios à parte”.
O Dassault Rafale já equipa as forças aéreas da França, India, Egipto, Qatar, Croacia, Grécia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia; o Eurofighter Typhoon foi adoptado pelas forças aéreas do Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha, mas também pela Áustria, Arábia Saudita, Omã, Qatar e Kuwait; o Saab JAS 39 Gripen equipa as forças aéreas da Suécia, África do Sul, República Checa, Hungria, Tailândia e Brasil.
Há, portanto, uma verdadeira disputa por este riquíssimo nicho de mercado e de poder, sendo que cada um destes aviões custa cerca de cem milhões de euros, dependendo o preço da configuração escolhida pelo comprador. Significa que éste negócio se fundamenta num paradoxo terrível, pois é preciso que haja guerras, ou a ameaça de as haver, para alimentar a prosperidade ou a sobrevivência dos negócios do armamento.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

EUA: Donald, Kamala e tudo por decidir

Depois de uma caminhada de muitos meses, a corrida eleitoral americana entrou agora na sua fase final com dois candidatos já oficializados pelos seus partidos que são, respectivamente, Donald Trump, republicano e ex-presidente com 78 anos de idade, e Kamala Harris, democrata e actual vice-presidente com 59 anos de idade.
O candidato democrata começou por ser o actual presidente Joe Biden, que demorou a reconhecer que estava diminuido física e cognitivamente. Tardou a passar o testemunho a Kamala Harris, mas ao desânimo que assolava as hostes democratas, sucedeu um novo alento na sua campanha, que gerou uma onda de euforia em torno da nova candidata, a que uma revista francesa chamou a kamalamania
Os americanos estão perante duas personalidades bem diferentes e, como referiu um jornal belga, são “duas visões totalmente opostas da América”. Como destacou, o jornal francês Le Parisien, na sua mais recente edição, “rien n’est joué”, ou nada está decidido. A verdadeira luta eleitoral vai agora começar e serão os temas internos – o emprego, a inflação, a saúde, os impostos, os imigrantes e o controlo das fronteiras, entre outros – que irão ser decisivos nas escolhas dos americanos. Porém, porque se trata da nação mais poderosa do planeta, as eleições nos Estados Unidos interessam a todo o mundo e, de forma especial, é sobre a política externa americana que todos se interrogam.
Nesse domínio, os republicanos e os democratas têm visões distintas, mas nem uns nem outros parecem ter soluções para os conflitos em curso, pois não é credível afirmar que se acaba com as guerras em 24 horas, mas também não é aceitável que tanta bomba americana esteja a destruir o povo palestiniano, nem que as nove viagens de Antony Blinken ao Médio Oriente não tenham chegado à paz ou à moderação de Netanyahu.
Quanto a sondagens há-as para todos os gostos.

domingo, 25 de agosto de 2024

A História é uma moeda com duas faces

A revista francesa L’Express foi criada em 1953 e entre os seus fundadores estava o famoso jornalista Jean-Jacques Servan-Schreiber que, pelo seu prestígio, tornou aquela revista num sucesso da comunicação social francesa e europeia, tendo inspirado muitos projectos jornalísticos em vários países que, por vezes, até o seu nome copiaram. Ao longo da sua vida o L’Express passou por diferentes proprietários, modelos de gestão e orientações editoriais situadas no campo da esquerda democrática, mas a partir de 1980 a sua orientação tem-se situado claramente à direita e, como se vê na última edição, assume características panfletárias. 
A revista entrou pelos caminhos da História e escolheu como capa da sua última edição, uma galeria dedicada a cinco tiranos encartados – Josef Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel de Castro, Pol Pot e Nicolas Maduro – classificando-os como “dictateurs qui ont tant fasciné la gauche”, com a curiosidade de incluir essa figura exótica e caricata que é Nicolas Maduro. Não sei se estes indivíduos fascinaram a esquerda, ou que sector das muitas esquerdas que existem, mas a História regista que estes homens aterrorizaram muitos outros homens, que foram tiranos e despóticos, que perseguiram, torturaram e mandaram matar muitos dos seus adversários, sem qualquer observância dos princípios que vieram a ser classificados como direitos humanos.
Porém, essa galeria é enganadora sob o ponto de vista histórico. O bem e o mal existem tanto à esquerda como à direita. Daí que nessa galeria poderiam ser incluídos muitos outros tiranos e tiranetes da nossa História recente, como Adolfo Hitler, Benito Mussolini, Francisco Franco, Augusto Pinochet e Benjamin Netanyahu que, como sabemos, também fascinam muita gente.
A História é como uma moeda e tem sempre duas faces. Não há meias Histórias como aquela que o L'Express nos quer contar.

sábado, 24 de agosto de 2024

Aste Nagusia, a grande festa de Bilbau

Estão a decorrer na cidade de Bilbau as Fiestas de Bilbao ou, utilizando a sua designaçáo em língua basca, a Aste Nagusia, que é o acontecimento cultural mais importante da cidade que se realiza anualmente.
As tradicionais festividades da cidade aconteciam no mês de agosto, mas com o fim do franquismo e o reconhecimento da identidade basca, a partir de 1978 foi criada a Aste Nagusia como uma importante celebração da cultura basca, das suas tradições e dos seus costumes, em que se estimulava a participação popular, mas também se divulgavam as actividades culturais de raíz basca.
As festividades são organizadas pelo Ayuntamiento de Bilbao e pelos Bilboko Konpartsak, que são grupos populares de voluntários organizados para apoiar a preparação das actividades. Diz a organização que “durante 9 dias, quienes se acercan a Bilbao pueden participar de cientos de actividades de todo o tipo: festivas, culturales, artisticas, deportivas”, das quais “más de 300 actividades programadas por el Ayuntamiento de Bilbao son gratuitas”, podendo destacar-se as dezenas de concertos de todos os tipos de música, as oito corridas de touros na Plaza de Toros de Vista Alegre e várias exposições, designadamente no Guggenheim Bilbao Museum.
Este ano, a Aste Nagusia teve uma novidade que foi assinalada na primeira página do jornal El Correo, com a visita, ou “o regresso a casa”, do navio-escola Guayas, uma barca da Marinha do Equador. Esta barca foi construída nos Astilleros Celaya de Erandio, na ria de Bilbao, os mesmos estaleiros que em 1967 construíram a barca colombiana Gloria e, em 1982, a barca mexicana Cuauhtemoc
O navio-escola Guayas deixara Bilbau em 1977 para a sua primeira viagem e, 47 anos depois, regressou ao porto onde foi construído para assistir à Aste Nagusia 2024.

Continua a crise política na Venezuela

Os resultados das eleições venezuelanas realizadas no dia 28 de julho foram anunciados dando a vitória a Nicolas Maduro com 51,2% dos votos, mas foram fortemente contestados desde a primeira hora, tanto pelo candidato derrotado Edmundo González Urrutia, como pela oposição venezuelana e pela generalidade da comunidade internacional. Desde logo, surgiram acusações de fraude e foi exigida a divulgação das actas das mesas eleitorais, para demonstrar, ou não, que houve manipulação na sua transcrição para o registo de apuramento final. 
Nas ruas surgiram manifestações de contestação aos resultados anunciados, mas também outras manifestações de apoio a Maduro e ao chavismo. No entanto, vários países reconheceram González como vencedor e muitos outros países exigiram a divulgação das actas eleitorais, mas Maduro conseguiu que as Forças Armadas lhe manifestassem apoio. Até ver…
Maduro controla todas as instâncias de poder na Venezuela e há dois dias, sem surpresa, ouviu-se a voz da Caryslia Beatríz Rodrígues, a presidente do Tribunal Supremo de Justicia (TSJ), a certificar de forma “inobjetable” os resultados eleitorais, conforme anunciou o jornal El Periodiquito que se publica na cidade de Maracay, no estado de Aragua. Com esta validação da sua reeleição por um TSJ, que é “um braço armado do chavismo”, Nicolas Maduro endureceu o seu discurso e as suas ameaças. Porém, tanto a Organização dos Estados Americanos como a União Europeia recusam reconhecer a vitória de Maduro até à verificação das actas eleitorais e há onze países americanos, incluindo os Estados Unidos, a Argentina, o Chile e o Perú, que se recusam aceitar a decisão do TSJ, enquanto o vizinho Brasil se mostra dialogante com Maduro para ultrapassar a crise política na Venezuela.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

EUA: a questão de Gaza e a luta eleitoral

A propósito da Convenção Nacional do Partido Democrata que hoje se encerra e que escolheu Kamala Harris como candidata à presidência dos Estados Unidos, as notícias televisivas têm mostrado unanimidade, muito entusiasmo e um enorme apoio que lhe tem sido dado, nomeadamente por Oprah Winfrey, Nancy Pelosi, os Clintons, os Obamas e outros dignitários. Porém, a edição de hoje do jornal Chicago Sun Times revela que os Democratas estão divididos pelo problema de Gaza. 
De acordo com aquele jornal, no exterior da Convenção estiveram muitos activistas a protestar contra a ofensiva israelita em Gaza, enquanto no interior da Convenção se manifestou um pequeno mas expressivo contingente de delegados democratas que suspendeu o apoio a Kamala Harris, até que ela “se comprometa a cortar o fornecimento de armas a Israel”. Muitos destes delegados estão alinhados com o movimento de protesto que tem apelado a Joe Biden para cortar o fluxo de armas americanas para Israel, destacando-se Abbas Alawich, delegado do Michigan, que disse da dificuldade em contactar as bases do partido, quando “vemos o assassinato em massa de crianças e bebés em Gaza usando armas dos Estados Unidos”. Durante o discurso de Joe Biden foi desfraldada uma faixa no salão da Convenção pedindo-lhe que “pare de armar Israel”, embora essa faixa tivesse sido imediatamente retirada por outros delegados. Num outro discurso, o senador Bernie Sanders, antigo candidato presidencial, afirmou que “devemos acabar com esta guerra horrível em Gaza” e, dirigindo-se a Kamala Harris, disse-lhe para que “traga os reféns para casa e exija um cessar-fogo imediato”.
Muitos delegados e congressistas Democratas alertaram que esta questão “pode inclinar a votação de 5 de novembro para o candidato republicano”, mas o que é significativo é o facto do conflito israelo-palestiniano e o apoio americano ao radicalismo israelita estarem no centro da luta eleitoral americana. De facto, ainda vai correr muita água debaixo das pontes durante a corrida eleitoral.

EUA: Kamala já chegou e Donald já treme

A Convenção Nacional do Partido Democrata termina hoje em Chicago com a oficialização da candidatura de Kamala Harris para defrontar Donald Trump, cuja candidatura fora oficializada há pouco mais de um mês em Milwaukee. Na sua edição de hoje o jornal francês Libération, destaca em manchete que “Kamala chega, Donald treme”, enquanto vários analistas têm referido que a campanha vai agora começar.
Nunca em Portugal se falou tanto de um país estrangeiro ou de umas eleições que nele se realizam, como tem acontecido nas últimas semanas, sobretudo devido à programação da CNN Portugal, um canal televisivo que dedica tanto tempo às eleições americanas que até parece que os portugueses vão votar, ou que Portugal é o 51º estado dos Estados Unidos. É um exagero e, como consequência, não se trata de Informação mas antes de uma prática a que se vem chamando Desinformação.
Os americanos irão escolher o seu presidente, homem ou mulher, mas qualquer que seja a sua escolha, o modo de vida americano continuará, a solidez das suas instituições políticas manter-se-à, os grupos de pressão serão os mesmos  e a sua política externa e as suas alianças não se vão alterar significativamente. O estilo presidencial pode mudar, mas com republicanos ou com democratas no poder, o mundo continuará a olhar para os Estados Unidos da mesma forma.
O sistema político americano assenta na alternância do poder e, nos últimos anos, viveram na Casa Branca, fazendo dois mandatos presidenciais, os presidentes Bill Clinton (D), George W. Bush (R) e Barack Obama (D). Em 2017 seguiu-se Donald Trump (R) que não foi reeleito e em 2021 foi eleito Joe Biden (D) que desistiu da sua recandidatura. O que vier a acontecer será uma novidade, quer seja o regresso de Trump à Casa Branca, quer seja uma mulher pela primeira vez na presidência. O que não há dúvidas, como o Libération hoje sugere, é que Kamala chegou e Donald treme.

sábado, 17 de agosto de 2024

EUA: até parece que vale tudo na política

As eleições presidenciais americanas vão realizar-se no próximo dia 5 de novembro e são um dos grandes acontecimentos mundiais dos próximos meses, porque vão influenciar o futuro do mundo. Faltam apenas 80 dias para uma disputa eleitoral que, em todo o mundo, é estudada pela comunidade académica, através da Sociologia, da Comunicação e do Marketing, com a análise detalhada das frequentes sondagens e das estratégias de comunicação utilizadas pelos candidatos para influenciar os eleitores e conquistar votos. Dizem os especialistas que nenhuma disputa eleitoral é tão dura como as eleições presidenciais americanas e, em breve, os americanos vão ter de escolher entre os candidatos Republicano e Democrata, ou entre Donald Trump e Kamala Harris, cada qual com os seus discursos mais ou menos aliciantes para o eleitorado.
A campanha eleitoral americana é sempre personalizada e muito agressiva, utilizando muitas vezes o insulto pessoal, a crítica ao passado dos candidatos e os seus escândalos próprios ou das suas famílias, enquanto os projectos para o futuro não são discutidos. Tudo isto decorre num ambiente de manipulaçáo comunicacional e num quadro de concorrência mediática que envolve muito dinheiro, daí resultando que as televisões e os jornais não costumam ser neutrais e declaram apoio a um dos candidatos. Assim sucede, por exemplo, com o New Yok Post, um tablóide nova-iorquino que é o 13º jornal mais antigo e o 7º de maior divulgação nos Estados Unidos, que apoia Donald Trump e que há dias publicava em primeira página a fotografia de Kamala Harris com o título Kameleon, mas que hoje publica a fotografia de Kamala Harris com o título Kamunism
Até parece que do lado de lá do Atlântico vale tudo… Nós não estamos habituados a este tipo de agressividade política e de insulto pessoal nas nossas campanhas eleitorais.

Tragédia: mais de 40.000 mortos em Gaza

A imprensa árabe do Golfo, nomeadamente o jornal The National que se publica em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, destaca nas suas edições de hoje que o número de mortos em Gaza já ultrapassa os 40.000 e que, segundo as autoridades sanitárias palestinianas, desde outubro de 2023, o número de feridos já ascende a 92.400. Estes números são chocantes e se os juntarmos às imagens da brutal destruição do território de Gaza, ficamos com a dimensão de uma tragédia e de um crime contra a humanidade, que muitos dirigentes mundiais e até os mass media parecem ignorar.
A acção do Hamas de 7 de outubro de 2023 foi um acto de natureza terrorista, cometido com barbaridade contra civis indefesos, que se enquadra na tipologia do crime de guerra e do crime contra a humanidade. Houve centenas de mortos, centenas de reféns israelitas e, naturalmente, Israel reagiu para punir o Hamas.
Porém, depressa adoptou uma estratégia que vem sendo classificada como de genocídio do povo palestiniano, pois tratou de todos massacrar sem cuidar de saber se eram ou não eram do Hamas. A Faixa de Gaza foi destruída pela brutalidade israelita e está em curso uma tragédia humanitária, mas o governo israelita tem ignorado todas as recomendações da comunidade internacional para se moderar e parar com a sua vingança que se manifesta todos os dias sobre hospitais e escolas, com o pretexto de que alojam terroristas. O Tribunal Penal Internacional acusou Netanyahu por crimes de guerra mas, como se viu recentemente, ele atravessou o Atlântico e foi recebido apoteoticamente nos Estados Unidos, regressando a Israel com a garantia de todo o apoio militar de que necessita.
Entretanto, a Espanha, a Noruega e a Irlanda reconheceram o Estado da Palestina para abrir caminho para a solução de dois Estados na região (Israel e Palestina), o que desde sempre foi defendido pelas Nações Unidas. O cessar-fogo é necessário, mas as inúmeras viagens de Antony Blinken ao Médio Oriente nada fizeram pela paz e apenas asseguraram o apoio americano ao regime de Netanyahu.
Por cá pouco se comenta esta tragédia humanitária e os espaços televisivos estão dominados por gente que serve Israel e que até confunde palestinianos com terroristas.