terça-feira, 4 de março de 2025

A Europa unida, desunida ou confundida?

A política internacional está a desenvolver-se a um ritmo alucinante e, todos os dias, somos confrontados com novas narrativas e novos episódios que confundem os cidadãos comuns, que é a categoria em que nos situamos. O triste encontro da Sala Oval entre Trump e Zelensky, que aconteceu apenas há quatro dias, produziu efeitos demolidores e afectou seriamente os caminhos que conduzirão à paz na Ucrânia, mas também mostrou que os interesses económicos estão acima de todas as considerações.Alguns líderes europeus reuniram-se imediatamente em Londres, agora sob a liderança de Keir Starmer, que parece ser bem mais capaz do que o excêntrico Boris Johnson, daí tendo nascido um plano para levar ao reencontro de Trump e Zelensky, de forma a garantir uma paz justa e duradoura na Ucrânia. Uma parte da imprensa europeia, como sucedeu com o jornal holandês Algemeen Dagblad (AD) que se publica em Roterdão, tratou de mostrar a “fotografia de família” desses líderes e anunciar que, no apoio à Ucrânia, a Europa estava unida. Porém, as declarações produzidas pelos diferentes líderes que estiveram em Londres, mostram que não há unanimidade e que uns apoiam a Ucrânia como podem e outros como lhe convém. De entre essas declarações destaca-se o que diz Ursula von der Leyen que reafirma que “temos que rearmar a Europa” e que “a Europa deve estar preparada para investir mais em armamento”, avançando-se com um plano de 800 mil milhões de euros. A ser assim, o projecto europeu nascido em Roma em 1957, parece ser de guerra e não ser de paz, além de ser demasiado irrealista em termos financeiros. É mesmo um paradoxo que, tendo a União Europeia sido criada para que não houvesse mais guerras na Europa, seja a actual presidente da Comissão Europeia que se apresente, não como defensora da paz, mas como uma persistente defensora do investimento em armas. Provavelmente, como mostra o Eurobarómetro, os europeus não querem perder os seus direitos sociais ou, como diria Paul Samuelson, não querem trocar manteiga por canhões. Recorde-se que, no corrente ano de 2025, o Orçamento da Comissão Europeia é de 193 mil milhões de euros e que o Orçamento do Estado em Portugal é de 133 mil milhões de euros, mas que a senhora von der Leyen quer dispor de 800 mil milhões de euros!
Os tempos estão realmente difíceis e o cidadão comum anda cada vez mais desorientado e confundido com o que dizem e fazem muitos dirigentes políticos.

segunda-feira, 3 de março de 2025

“Ainda estou aqui” distingue o Brasil

Pela primeira vez na história do cinema houve um filme brasileiro e, por consequência, um filme falado em português, que conquistou um dos The Academy Awards ou Oscares, atribuidos desde 1929 pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Nesta 97ª edição da cerimónia “que todo o mundo aguarda”, que se realizou no Dolby Theatre em Hollywood, foram anunciados e entregues os Oscares relativos ao ano cinematográfico de 2024, nas 23 categorias em apreciação.
O filme Anora, uma comédia dramática produzida e realizada nos Estados Unidos, foi o grande vencedor do ano com cinco prémios, incluindo o prémio que distingue o Melhor Filme. O filme brasileiro Ainda estou aqui, dirigido por Walter Salles, disputou três prémios, incluindo o prémio para a Melhor Actriz, mas o júri não escolheu Fernanda Torres, o que deixou muito entristecido o povo e a cultura cinematográfica brasileiros. O filme Ainda estou aqui retrata a vida de uma família perseguida pela ditadura militar brasileira (1964-1985), ganhou o prémio destinado ao Melhor Filme Internacional e o “Brasil fez história”, como destacou a edição de hoje do Correio Braziliense.
Toda a imprensa brasileira destacou a vitória do filme de Walter Salles e uniu-se no elogio ao realizador e à sua equipa, mas o aspecto porventura mais importante terá sido o entusiasmo com que o Brasil acolheu o seu primeiro Oscar cinematográfico, mas também algum desapontamento geral por Fernanda Torres não ter sido premiada. 
A cultura brasileira, a indústria cinematográfica e a memória histórica do Brasil estão de parabéns! A alegria dos brasileiros vai muito para além do carnaval e do futebol.                                                                 

domingo, 2 de março de 2025

O grave encontro entre Trump e Zelensky

O dia 28 de Fevereiro de 2025 vai ser lembrado na história da Diplomacia e das Relaçóes Internacionais como um lamentável e insólito acontecimento, cujas consequências ainda são imprevisíveis. Na Sala Oval da Casa Branca, perante as câmaras televisivas das grandes agências noticiosas mundiais, aconteceu um encontro entre Donald Trump, o vice-presidente JD Vance e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky – que deveria ter acontecido em ambiente reservado – e que deu origem a uma grosseira troca de palavras, insultos e humilhações, conforme escreve hoje o jornal El País, bem como toda a imprensa internacional.
Volodymyr Zelensky tinha atravessado o Atlântico e, provavelmente, esperava os salamaleques a que foi habituado. Porém, parece ter caído numa “emboscada” e em vez de um amigo, arranjou um adversário. A incontinência verbal e a grosseria do DT são bem conhecidas, mas imaginava-se que se contivesse, devido ao seu declarado interesse em acabar com a guerra e ao acesso privilegiado às famosas “terras raras” ucranianas.
Porém, a conversa pouco mais foi do que uma troca de palavreado grosseiro, com o DT a acusar Zelensky de “ingratidão” e desrespeito para com o povo americano, embora a CNN Internacional tenha apurado que o presidente ucraniano já agradeceu pelo menos 33 vezes aos Estados Unidos.
Perante este insólito acontecimento, a situação altera-se muito e, certamente, não é no melhor sentido. De repente, a Europa ficou mais isolada e mais fraca. Os líderes europeus correram para Londres e, curiosamente, pela primeira vez desde há três anos, começaram a falar em cessar-fogo e em paz, quando até agora só falavam de aviões, de tanques, de artilharia e de misseis. Pedem unidade no apoio à Ucrânia, sugerem que Zelensky “esqueça” a humilhação do DT e afirmam que o DT é essencial para negociar a paz. Keir Starmer "calou" Macron, Costa e von der Leyen e todos viram que sem os Estados Unidos não haverá paz na Ucrânia. Porém, ainda há quem pense na derrota da Rússia e pedem o reforço das despesas militares. Depois de três anos de insignificância, até pode ser que o episódio da Sala Oval de 28 de Fevereiro lhes abra os olhos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

A nova orientação política da Alemanha

O dia de hoje foi muito intenso no que respeita a acontecimentos e ao respectivo noticiário internacional. Em Washington encontraram-se Donald Trump e Emmanuel Macron e, em Kiev, o presidente Zelensky recebeu os líderes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia. Noutro plano, também de Roma chegaram notícias um pouco mais animadoras sobre o preocupante estado de saúde do Papa Francisco. Todos esses acontecimentos, cada qual à sua maneira, foram muito importantes.
Porém, os resultados das eleições antecipadas que se realizaram na Alemanha e o seu significado no contexto europeu, também foram um acontecimento relevante, numa altura em que a Europa anda muito desorientada, pois trata-se do mais populoso país da União Europeia e a sua maior potência económica. A democracia funcionou e aconteceu a alternância no poder, isto é, ao governo do SPD vai suceder o governo da CDU e a Olaf Scholz vai suceder Friedrich Merz, qualquer deles com necessidade de coligações.
As sondagens acertaram e os conservadores da CDU de Friedrich Merz venceram com 28,52% dos votos e 208 mandatos, seguidos pela extrema-direira do AfD de Alice Weidel com 20,8% dos votos e 152 mandatos e dos sociais-democratas do SPD de Olaf Scholz com 16,41% e 120 mandatos. Estes números são indicados na edição de hoje do Bild, o antigo Bild Zeitung, que é o maior jornal da Alemanha.
Foi significativa a subida da AfD e a queda do SPD mas, sobretudo, parece que a Alemanha pode voltar a ter um protagonismo europeu como tinha nos tempos de Angela Merkel, em que se sabia quem mandava na Europa.
Neste tempo de tanta incerteza no mundo, com Trump, com Putin e com Zelensky, é preciso que a Europa se afirme unida, afirmativa, solidária, com rosto e sem as vaidades pessoais e os egoismos nacionais que a têm caracterizado nos últimos tempos. Pode ser que a Alemanha de Merz seja diferente da Alemanha de Scholz...

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Zelensky marginalizado, isolado e traído?

O famoso estratega prussiano Carl von Clausewitz escreveu em 1832 que “a guerra nada mais é que a continuação da política por outros meios” e, assim sendo, se a guerra é muito cruel, também a crueldade faz parte da política.
Nos últimos anos a crueldade da guerra tem destruido uma boa parte da Ucrânia oriental e, neste espaço, sempre defendemos que, independentemente das razões das partes, era necessário parar com o sofrimento do povo e a brutal destruição do património ucraniano.
A guerra intensificou-se com a invasão russa de 24 de Fevereiro de 2022, mas logo em 29 de Março foram realizadas negociações em Istambul entre a Rússia e a Ucrânia para resolver o conflito. Porém, os acordos alcançados à mesa das negociações não foram implementados por não terem sido aceites por Volodymyr Zelensky, a quem Joe Biden, Boris Johnson e outros dirigentes europeus asseguraram apoio pelo “tempo que for preciso”. Até Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa repetiram essa frase e foram a Kiev apoiar Zelensky! 
A ideia de que a Ucrânia iria vencer a guerra foi largamente afirmada, por exemplo por Ursula von der Leyen e Emmanuel Macron. Em Fevereiro de 2024 apenas 10% dos europeus acreditava que a Ucrânia ia vencer a guerra, segundo revelou um estudo do Conselho Europeu. Apesar disso, a retórica de apoio a Zelensky e de fé na vitória continuou apoiada numa contínua acção de propaganda e o facto é que no Verão de 2024, as sondagens indicavam que os ucranianos acreditavam que iriam ganhar a guerra. Em Outubro, ainda Zelensky apresentou o seu “plano de vitória”. Porém, com a chegada de DT ao poder em Washington, a crueldade da política revelou-se, tão semelhante à crueldade da guerra. A retórica e a arquitectura de suporte à Ucrânia está a ruir e, na sua edição de ontem, a revista alemã Der Spiegel não destaca as importantes eleições na Alemanha, tendo escolhido a fotografia de Zelensky para ilustrar a sua capa, com a palavra “verraten”, isto é, “traído”.
Tal como aqui se escreveu há quatro dias, podemos perguntar: quem enganou Zelensky dizendo-lhe que ia ganhar esta guerra?

sábado, 22 de fevereiro de 2025

A Ucrânia é um pesadelo para a Europa

A mais recente edição do The Economist, a prestigiada revista inglesa de notícias e assuntos internacionais, destaca na sua capa uma ilustração em que se vê uma enorme mesa rodeada de cadeiras, em que apenas há duas que estão ocupadas pelas personagens do actual momento político - Donald Trump e Vladimir Putin – enquanto o vazio de todas as outras cadeiras inspirou a escolha do título principal desta edição - “o pior pesadelo da Europa”.
O título refere-se à Ucrânia que está em guerra e é um enorme país com mais de 600 mil quilómetros quadrados, com a questão ucraniana a ser de facto um grande pesadelo para a Europa, porque nos obriga a repensar o modelo que saiu da 2ª Guerra Mundial, bem como a criação da NATO e do Pacto de Varsóvia, a guerra fria, a reunificação alemã, a implosão da União Soviética e o alargamento para oriente da União Europeia e da NATO.
Neste processo histórico, a Europa esteve deslumbrada com a sua prosperidade, engordou e envelheceu, enquanto os seus líderes se deixaram enrolar pelas mordomias com que Bruxelas os distinguia e que satisfaziam as suas vaidades. Sujeitos aos seus interesses nacionais, não repararam no dinamismo que corria pelo mundo e na crescente irrelevância que tinham no panorama internacional. Foram esses líderes que, sem cuidar de saber o que pensavam as suas opiniões públicas, foram a correr para Kiev e enganaram Zelensky com promessas de amor eterno.
Agora, que começou a soprar uma ventania dos Estados Unidos, a Europa foi marginalizada e nem a sentaram naquela enorme mesa. Já está sob temporal e até ameaçada por um naufrágio porque, como é evidente, está sem timoneiros. 
A Ucrânia é realmente um pesadelo para a Europa.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Graves acusações pesam sobre Bolsonaro

No dia 30 de Outubro de 2022 realizou-se a 2ª volta das eleições presidenciais brasileiras e Luiz Inácio Lula da Silva obteve 50,90% dos votos, enquanto a votação do então presidente Jair Bolsonaro se ficou pelos 49,10%. Apesar de todas as contestações das hostes bolsonaristas, no dia 1 de Janeiro de 2023 o candidato vencedor tomou posse em Brasília como o 39º presidente da República Federativa do Brasil. Porém, a contestação bolsonarista não parou e no dia 8 de Janeiro ocorreram graves incidentes em Brasília, sobretudo na Praça dos Três Poderes, o espaço público onde se localizam os edifícios que representam os três poderes brasileiros - o Palácio do Planalto (poder executivo), o Congresso Nacional (poder legislativo) e o Supremo Tribunal Federal (poder judicial) - onde alguns milhares de fanáticos apoiantes de Bolsonaro rejeitaram a democracia brasileira e tudo vandalizaram. A gravidade do que se passou deu origem a investigações judiciais, com destaque na averiguação do papel que Bolsonaro e os seus aliados tiveram no processo pós-eleitoral que culminou em Brasília, com os acontecimentos do dia 8 de Janeiro de 2023.
Agora, conforme noticiou o jornal O Globo, o Procurador-Geral do Brasil que é o juiz Paulo Gonet, acusou Jair Bolsonaro e alguns dos seus antigos ministros de uma tentativa de golpe de estado após as eleições de 2022 e de ter concordado com um plano criminoso que visava matar o presidente Lula da Silva, mas que também visava a abolição violenta do Estado de Direito democrático e que, além disso, constituiu uma grave ameaça contra o património nacional.
Agora vai caber ao Supremo Tribunal Federal fazer a avaliação do processo e aceitar ou rejeitar esta denúncia que, a ser aceite, transformará Bolsonaro e os seus mais próximos colaboradores em arguidos e réus. Vai decorrer muito tempo porque estes processos são demorados, mas a acusação que pesa sobre o Jair é bem grave...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

DT e a irrelevância dos líderes europeus

As tensões entre os Estados Unidos e a Ucrânia, ou entre o DT e o VZ, intensificaram-se nas últimas horas, são altamente lamentáveis e muito preocupantes. Diz a edição de hoje do jornal la Repubblica, que se publica em Roma, que Trump insultou Zelensky, ao chamar-lhe ditador e ao responsabilizá-lo pela guerra na Ucrânia, ao que Zelensky respondeu dizendo que Trump vivia numa bolha de desinformação. Ambas as declarações são insensatas, irrealistas e fazem parte de uma irresponsável retórica que, nestes tempos difíceis, não aproveitam a ninguém e apenas servem para agitar o mundo. Perante esta agravada tensão, uma vez mais a Europa mostra a sua incapacidade para lidar com estas situações, tal como aconteceu há três anos, tratando de insistir em mais guerra, mais soldados, mais aviões e mais mísseis, em vez de procurar integrar-se – como mediadora e não como parte do conflito – nas tentativas em curso para acabar com esta malvada guerra que continua a assustar o mundo. As reuniões convocadas por Emmanuel Macron, sem ninguém saber a que título, são um evidente exercício de vaidade pessoal, sem quaisquer consequências para a solução do conflito, enquanto são de lamentar os silêncios, ou as declarações vazias de conteúdo, de António Costa, Ursula von der Leyen e Kaja Kallas. Como aqui escrevi há uma semana, “pobre e irrelevante Europa que não tem quem a comande” e que, todos os dias, acentua o seu desprestígio e a sua irrelevância no seio da comunidade internacional, tal qual as antigas aristocracias europeias que os actuais líderes parecem ainda querer imitar, sem perceber que os tempos são outros.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Há uma luz para resolver a crise ucraniana

O encontro ontem acontecido em Ryade entre Marco Rubio e Sergei Lavrov para encontrarem uma solução para a guerra na Ucrânia, tem que ser saudado porque representa um passo muito importante para o restabelecimento do diálogo entre as duas maiores potências nucleares do globo. Depois de meses de muita tensão, ou mesmo de alta tensão, este encontro reintroduz alguma sensatez e muito alívio na política internacional, até porque se falou de paz, coisa de que os obcecados líderes europeus nunca falavam. Porém, ao excluirem agora a Europa e a Ucrânia deste encontro, americanos e russos foram pragmáticos mas levantaram um coro de críticas, sobretudo dos marginalizados, especialmente Macron e Zelensky, que queriam ter algum protagonismo na solução deste problema.
A imprensa internacional destaca hoje a marginalização de uma Europa dividida e sem liderança, a “ressureição” de Putin e o muito provável afastamento de Zelensky de todo o processo, talvez porque venha falando demais. O jornal El País diz que “EE UU rehabilita a Putin en el primer contacto sobre Ucrania”, o La Vanguardia escreve “El nuevo orden de EE UU y Russia”, o Le Monde destaca que “Trump et Poutine à l’initiative, l’Europe divisée” e o Daily Telegraph prevê que "Zelensky could fall as price of peace”. Do outro lado do Atlântico o tom é semelhante e o The Wall Street Journal refere que “Not invited: Zelensky sidelined in negotiations”. No entanto, o mais surpreeendente é o destaque de primeira página do jornal The Washington Post ao escrever que “Trump blames war on Ukraine” e que “Kyiv should have never started it”.
A declaração de Trump de que “nunca deveriam ter começado o conflito com a Rússia” representa uma nova narrativa para este conflito, ao remeter as suas origens para os tempos da reunificação alemã e do “acordo” para que a NATO não se estendesse para oriente, o que não aconteceu e veio a provocar a reacção russa.
Quem enganou Zelensky dizendo-lhe que ia ganhar esta guerra?

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Montreal: viver sob tempestades de neve

A cidade de Montreal é a maior cidade da província canadiana do Quebec, localiza-se sobretudo na ilha de Montreal, na confluência dos rios São Lourenço e Otawa, com o seu porto na extremidade da via marítima que liga os Grandes Lagos ao Atlântico. É classificada, muitas vezes, como a capital cultural do Canadá, tendo recebido os Jogos Olímpicos em 1976. Com quase dois milhões de habitantes na sua área municipal, é considerada a cidade francófona mais populosa do mundo, depois de Paris, sendo conhecida como uma das cidades com melhor qualidade de vida do mundo.
A cidade situa-se sobre o paralelo dos 45 graus Norte e tem um clima continental húmido, com um inverno muito frio, muito ventoso e com muita neve que, geralmente, cobre a cidade, desde a primeira ou segunda semana de Dezembro até a última semana de Março - cerca de 4 meses de neve! As temperaturas médias mínimas na cidade são de -12,4 graus C em Janeiro e de -10,6 graus C em Fevereiro, mas a temperatura mais baixa já registada na cidade aconteceu no dia 15 de Janeiro de 1957, quando os termómetros registaram -37,8 graus C.
A natureza, ou as condições climáticas, são muito mais generosas para as cidades da península Ibérica, que se situam em latitudes aproximadas da latitude de Montreal, mas não suportam o frio daquela cidade canadiana. No passado fim-de-semana os termómetros marcaram um mínimo de -13 graus C em Montreal, uma tempestade cobriu a cidade com mais de meio metro de neve e paralisou-a. Na sua última edição o Journal de Montreal mostra uma fotografia de uma rua bloqueada pela neve e com um aviso para os seus leitores: restez chez vous! Um outro jornal local  - The Gazette - refere-se ao "unprecedented snow" de 70 centímetros de altura e aos oito dias que vão ser necessários para a limpeza das ruas.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Macron e a sua ânsia de protagonismo

Hoje em Paris, segundo anuncia o jornal ABC, vão reunir-se (ou já estão reunidos), os líderes europeus (ou alguns líderes europeus), quando já se anuncia o primeiro encontro entre americanos e russos na Arábia Sáudita, para tratar do fim da guerra na Ucrânia. Com esta reunião “convocada” supostamente para “não deixar cair a Ucrânia”, Emmanuel Macron quer uma vez mais afirmar-se como o Napoleão ou o De Gaulle da modernidade francesa, embora ele e os seus convidados estejam vergados pelo peso das promessas e das juras que fizeram a Zelensky de “apoiar a Ucrânia enquanto for preciso”. Esta frase foi repetida por todos eles, mas também por Joe Biden e até por Marcelo Rebelo de Sousa. Porém, enganaram-se e enganaram os ucranianos, porque o conflito não tem solução militar, ao contrário do que disseram repetidas vezes.
Os números do conflito são desconhecidos até porque ambas as partes usam a arma da informação e da propaganda, quer quanto ao número de mortos de ambos os lados, quer quanto aos milhões de ucranianos que perderam as suas casas, quer ainda quanto aos recursos já gastos nesta guerra que já destruiu cidades, infraestruturas, vidas, sonhos e que o DT diz que podia ter sido evitada se ele estivesse na Casa Branca. Contudo, todos dizem que nunca houve tantos mortos numa guerra.
Ainda antes de tomar posse como presidente dos Estados Unidos, o DT tinha afirmado que “demasiadas pessoas estão a ser mortas” e que Zelensky “deve estar preparado para chegar a um acordo”. Apesar de ser um homem controverso e até perigoso, como se viu no apoio que no dia 6 de Janeiro de 2021 deu à invasão do Capitólio, a sua iniciativa de procurar o princípio do fim do sofrimento ucraniano tem que ser apoiada e está em curso. Com esta urgente reunião, Macron quer ter um papel na História e quer ser protagonista, mas esta sua iniciativa já foi classificada como “uma terapia de grupo” e bem podia dar origem a um comunicado conjunto a pedir desculpas a Zelensky e aos ucranianos, porque à revelia das suas opiniões públicas e dos seus eleitorados, lhes foi prometido o que não podiam prometer.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

R.I.P. Jorge Nuno Pinto da Costa

Faleceu ontem, com 87 anos de idade, o homem que durante mais de 42 anos dirigiu o Futebol Clube do Porto (FCP) e, por isso, o clube e a cidade do Porto estão de luto. Chamava-se Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa.
Eleito pela primeira vez em 1982, soube imprimir uma dinâmica à gestão do seu clube e à prática competitiva das suas equipas das diversas modalidades desportivas, conseguindo muitos êxitos que colocaram o FCP no topo dos grandes clubes portugueses e mundiais. Dizem as notícias publicadas que os portistas festejaram 2.591 conquistas desportivas durante a presidência de Pinto da Costa, levando o FCP a sagrar-se Campeão da Europa e do Mundo em várias modalidades e escalões.
A presidência de Pinto da Costa fez do FCP o clube português com mais títulos oficiais no futebol, ao vencer 23 Campeonatos Nacionais, 22 Supertaças, 15 Taças de Portugal, duas Taças Intercontinentais, uma Taça dos Clubes Campeões Europeus e outra Liga dos Campeões, uma Taça UEFA e uma Liga Europa, uma Supertaça Europeia e uma Taça da Liga. A notoriedade da cidade do Porto cresceu em ligação com a notoriedade do FCP e da gestão desportiva de Pinto da Costa, que se tornou uma figura representativa da cidade do Porto e da região norte do país. 
A notícia da morte do antigo presidente do FCP encheu as páginas dos jornais, tanto desportivos como generalistas, mas também ocupou largas horas da programação de todos os canais televisivos, em que foram destacadas as suas qualidades de líder carismático e gestor desportivo, mas também a sua inteligência e o seu elevado estatuto cultural. Como sempre acontece com os grandes homens, a sua vida suscita aplauso e reconhecimento, mas também crítica e controvérsia.
Como hoje alguém escreveu, na história do FCP há um antes e um depois de Jorge Nuno Pinto da Costa.

O Canadá e os apetites de Donald Trump

A nova política americana imposta pelo DT (Donald Trump), que vem sendo traduzida pela expressão MAGA (Make America Great Again), está a causar muita preocupação mundial e a aumentar as incertezas quanto ao futuro, o que se vem acentuando nos últimos anos. Uma das vertentes dessa política tem um carácter expansionista e revela-se na forma atrevida e irresponsável como o DT quer fazer do Canadá o 51º estado americano.
O Canadá, ou Federação do Canadá, é o segundo maior país do mundo, foi colonizado por franceses e ingleses, resistiu ao movimento que criou os Estados Unidos da América e, embora só em 1982 tenha adquirido a sua completa independência do Reino Unido, conserva o estatuto de monarquia constitucional federal e parlamentar, isto é, Carlos III é o rei do Canadá, sendo representado por um governador-geral do Canadá, que é nomeado pelo rei sob proposta do primeiro-ministro canadiano. Assim, para além dos formalismos resultantes da tradição e da Constituição do país, o Canadá é efectivamente governado e representado pelo primeiro-ministro, que é eleito pelos canadianos e que actualmente é Justin Trudeau.
Apesar destas ligações históricas e tradicionais, em 1964 foi escolhida uma nova bandeira para o Canadá, que extinguiu a bandeira colonial britânica. Essa bandeira apareceu pela primeira vez no dia 15 de Fevereiro de 1965, que passou a ser celebrado como o Dia da Bandeira Nacional. Ontem, a bandeira do Canadá fez 60 anos e a imprensa aproveitou para afirmar a sua firme oposição às propostas do DT. Assim fizeram o National Post ao escrever que “a folha de bordo”, o nome que é dado à bandeira, é para sempre, mas também o jornal The Free Press, que se publica em Winnipeg, a capital da província de Manitoba, que escreve que a bandeira, still flying, strong and free, after 60 years.
Parece, portanto, que os canadianos não aceitam as propostas do DT. 
Como era de esperar.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

A Europa sem voz no conflito da Ucrânia

A conversa telefónica da passada quarta-feira entre Trump e Putin parece ter apanhado de surpresa a União Europeia e os seus estados-membros, pois a reacção foi muito lenta. Os primeiros relatos mostraram que os europeus, mas também os ucranianos, foram totalmente marginalizados pelos interesses de Washington e de Moscovo. Porém, passadas as primeiras horas, já se começaram a ouvir algumas vozes a reagir e a exigir a presença da Europa e de Zelensky nas conversações que foram anunciadas, nas quais estão a ser arredados e que se afirma irão ser muito demoradas… e difíceis. No entanto, o complexo quadro negocial que se vai apresentar parece não fazer sentido sem a participação ucraniana, embora a eventual presença europeia servirá apenas para perturbar e para agravar as clivagens entre Trump e os europeus.
Aqueles que mais apostaram na vitória da Ucrânia, casos de Ursula von der Leyen e Mark Rutte, ou a União Europeia e a NATO, têm avisado que o expansionismo russo vai continuar a ameaçar a Europa e defendem o seu rearmamento, mesmo à custa dos direitos sociais dos europeus, chegando mesmo a parecer vendedores das empresas de armamento e a fazer declarações atentatórias da soberania de cada um dos estados-membros.
A situação é muito complexa e preocupante. O facto é que a administração Trump veio baralhar toda a gente e dar esperança aos que desejam que a guerra acabe e com ela o morticínio e a destruição, o que parece ser cada vez mais a posição das opiniões públicas nacionais que estão cansadas da guerra e do discurso da guerra. Na Europa das Pátrias, de muitas línguas e muitas culturas, demograficamente envelhecida e tecnologicamente atrasada, vacilam os valores e faltam os líderes capazes enfrentar com realismo a complexa situação em que está a Europa. Como hoje mostra a capa do jornal Libération, parece que Putin e Trump estão sós no mundo…
Pobre e irrelevante Europa que não tem quem a comande. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Foi aberto o caminho da paz na Ucrânia?

Donald Trump e Vladimir Putin conversaram ontem por telefone e, entre outros assuntos, trataram da guerra na Ucrânia que o presidente americano tem dito, repetidas vezes, que não se teria iniciado se ele estivesse na Casa Branca e que seria capaz de lhe pôr fim, apenas com uma chamada telefónica para Putin e para Zelensky
Qualquer destas afirmações devem ser entendidas como metáforas, mas o facto é que Trump e Putin conversaram ontem e que essa conversa pode ter aberto o caminho ao fim da guerra na Ucrânia.
Depois de mais de dez anos de conflito e de quase três anos de guerra, de milhares de mortos, de incontáveis fornecimentos de armamento e de uma intensa propaganda destinada a iludir as opiniões públicas com a ideia de que alguém podia vencer a guerra, Donald Trump veio atirar uma pedrada no charco e falou com Putin, como era desejável, pois pode ser o início de um período de maior contenção mundial.
Dessa conversa que “foi longa e muito produtiva”, resultou que “as negociações sobre a guerra na Ucrânia vão começar imediatamente” e que ambos concordaram em “visitarmo-nos nos nossos países”. Trump falou depois com Volodymyr Zelensky, a quem terá anunciado que a adesão à NATO “não era realista” e que as fronteiras de 2014, com a Crimeia e o Donbass, seriam para esquecer. Os falcões europeus foram completamente desautorizados e ficaram mudos, enquanto Zelensky parece ter sido posto de lado e estará agora a pensar como tem sido enganado. A imprensa internacional ainda mostra prudência no acolhimento das propostas de Trump, embora o jornal Público publique uma fotografia de arquivo na primeira página da sua edição de hoje, em que Trump e Putin sorriem como se já estivessem a negociar.
Os líderes europeus, bem como os nossos comentadores alinhados, estão desorientados porque não queriam a paz e nunca deixaram de exigir mais e mais armamento. Porém, tudo parece caminhar no sentido da paz e não no sentido que muitos deles vaticinaram. Vamos esperar para ver...