quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Parece que vamos de mal a pior... ou não?

O relatório global do World Economic Forum, que acabou de ser divulgado, mostra que Portugal caiu quatro lugares na lista dos países mais competitivos em termos económicos, passando de 45.º em 2011 para 49.º em 2012. O mesmo relatório refere que a queda de competitividade portuguesa se deveu à crise da dívida soberana e à consequente deterioração do ambiente macroeconómico, não só de Portugal, mas em todas as economias do Sul da Europa. Embora estas listas ou rankings não tenham grande significado, não deixam de revelar situações bem curiosas. A primeira é que estamos a viver numa crise que é europeia ou mesmo global, mas não foi esse o diagnóstico dos assessores nogeira e catroga, antes de se encaixarem na Caixa e na EDP. A segunda é que já não bastava a dívida e o desemprego que aumentam, ou o défice que não desce, ou o investimento que está parado, ou a preocupante crise da banca e a atrofia do pequeno comércio, ou até esta melancolia que se apossou dos portugueses. Agora verificamos que até a competitividade piorou. Tudo isto é muito preocupante. A tarefa é muito difícil porque o mal já vem de muito longe, mas não foram eles a anunciar que não era necessário cortar subsídios e subir impostos, pois bastaria cortar gorduras? Afinal, embora falem de ajustamento, eles fazem um esmagamento e sufocam-nos. Não acertam. Parece que vamos de mal a pior... ou não? Por isso, recordo cada vez mais vezes o episódio do “velho do Restelo” do Canto IV d’Os Lusíadas:
Ó glória de mandar! ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!
………………….
A que novos desastres determinas / De levar estes Reinos e esta gente?

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Médicos privados ou privados de médicos

Os graffiti são inscrições caligrafadas ou desenhos pintados em paredes que, por todo o mundo, se enquadram na paisagem urbana das grandes cidades. Antigamente constituíam contravenções às normas estabelecidas, mas actualmente são aceites e até são considerados como uma expressão de arte pública ou da novíssima street art.
Em Portugal os graffiti invadiram o espaço público a partir de 1974, constituindo um suporte para inscrições de carácter político, muitas das quais estão conservadas nas nossas memórias e ficaram registadas fotograficamente em algumas edições, incluindo algumas obras clássicas de História de Portugal.
Porém, nos últimos anos os graffiti têm degenerado e têm servido de expressão a grafiteiros e tribos urbanas que causam uma verdadeira poluição gráfica nas nossas cidades, não poupando sequer o património histórico-cultural. No entanto, alguns grupos militantes ainda utilizam o graffiti de conteúdo político que, para ser eficaz, costuma ter algum humor.
Numa discreta rua secundária de Sintra está um graffiti com a seguinte mensagem:
Os ricos com médicos privados
Os pobres privados de médicos
Numa altura em que o acesso aos cuidados de saúde está mais dificultado devido às restrições orçamentais em vigor, a mensagem é não só curiosa mas também prenunciadora de um novo e preocupante aperto social.

sábado, 1 de setembro de 2012

A catástrofe dos incêndios em Espanha


O mês de Agosto revelou-se catastrófico para a Espanha em termos ambientais devido aos incêndios florestais, que foram os mais graves que aconteceram na última década. O país confronta-se com a pior seca dos últimos setenta anos e, desde Janeiro, já arderam mais de 132 mil hectares de floresta e vegetação. A persistente seca, combinada com uma vaga de calor vinda de África e com a incúria dos homens, tem feito eclodir numerosos focos de incêndio e há centenas de bombeiros, ajudados por militares e civis, que lutam contra as chamas, sobretudo na Galiza, Catalunha, Alicante, Ilhas Canárias e Costa do Sol. Arderam ou estão a arder milhares de hectares, muitas zonas habitadas foram invadidas pelas chamas e já há alguns milhares de desalojados. A situação parece ter atingido maior gravidade na Costa do Sol e, especialmente, em Málaga, onde os especialistas afirmam que serão necessários cinquenta anos para superar os danos ecológicos que já aconteceram. Nos últimos dias, os jornais espanhóis parece terem ignorado a grave crise económica e financeira espanhola para se concentrarem no drama dos incêndios, especialmente os jornais da Andaluzia, que chamam o assunto às suas primeiras páginas e escrevem: “Arde o coração turístico de Espanha”, “O fogo cerca a Costa do Sol”, “As chamas devoram Málaga” ou, simplesmente, “Catástrofe”, como titula a edição de hoje do Málaga Hoy. Aqui, também temos as mesmas vulnerabilidades, pelo que há que evitar situações como a que se verificou no passado mês de Julho no Algarve, quando arderam cerca de 25 mil hectares de floresta e mato, ficando muitas dúvidas quanto à eficiência do combate.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Os lucros da RTP são uma ficção

Desde que o assessor Borges foi à televisão para fazer um frete a outros ou, simplesmente, para alimentar a sua própria vaidade, que o tema da privatização da RTP se fixou na agenda política e passou a suscitar opiniões muito diversas.
A RTP tem sido irresponsavelmente tutelada e gerida desde há muitos anos. Habituou-se a gastar o que tinha e o que não tinha. A contratar quem precisava e quem não precisava. A pagar salários milionários e mordomias de luxo. A viver com uma exploração cronicamente deficitária. Perdeu a guerra das audiências e a maior fatia do bolo publicitário para a TVI e a SIC. Endividou-se e nem os milhões das injecções de capital, das indemnizações compensatórias e da taxa audiovisual, têm chegado para travar aquela desgraça de gestão.
Ainda ontem em Londres, o nosso primeiro afirmou que a RTP “custa ao Estado mais de 300 milhões de euros”, enquanto o ministro da tutela passeia por Timor e nada diz. Porém, têm sido divulgadas notícias muito imprecisas quanto à gestão da RTP e até tem sido escrito que a empresa é lucrativa. É uma maneira de branquear aquela velha nódoa de gestão e de atirar poeira para os olhos dos contribuintes. Tal como existe, a empresa não é nem pode ser lucrativa, mesmo que uma contabilidade criativa valorize o seu Activo e desvalorize o seu Passivo. Desejavelmente, poderia ao menos ter uma conta de exploração equilibrada, mas com tantas “estrelas” a encherem-se e com a publicidade em crise, isso não é possível. Por isso, como bem refere o Jornal de Notícias, os lucros da RTP são uma ficção. O que aconteceu foi que em 2011 houve uma receita extraordinária pela venda do arquivo histórico da RTP ao Estado e a alienação dos estúdios do Lumiar. Foram 200 milhões de receita que não se voltarão a repetir. Foram lucros “só para inglês ver”.
A nossa democracia precisa da RTP, mas não precisa desta RTP, despesista e esbanjadora e, ainda por cima, com uma qualidade quase sempre medíocre.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Ponte da Ajuda merece uma visita

A Ponte de Nossa Senhora da Ajuda ou simplesmente Ponte da Ajuda atravessa o rio Guadiana a cerca de 12 quilómetros a jusante de Elvas e está em ruínas há mais de trezentos anos, tendo em 1967 sido declarada como monumento de interesse nacional pelo Estado português.
A ponte é uma construção que conserva uma imponência que impressiona o visitante, com os seus dezanove arcos ao longo de 380 metros de comprimento, fortificada e com um torreão a meio, fazendo a ligação entre as terras de Elvas e as terras de Olivença. Foi mandada construir pelo rei D. Manuel I a fim de assegurar a operação das forças militares portuguesas na margem esquerda do rio Guadiana e o apoio à praça de Olivença, tendo sido destruída e recuperada várias vezes. Em 1709 foi dinamitada pelo exército espanhol, ficando interrompida a única ligação entre Elvas e Olivença, pelo que o acesso português a esta vila só passou a ser possível através do território espanhol. No início da chamada Guerra Peninsular, em 1801 a isolada praça de Olivença foi entregue sem resistência às tropas espanholas de Manuel Godoy que invadiram e ocuparam o Alto Alentejo, no incidente militar que durou 18 dias e ficou conhecido como a Guerra das Laranjas. A paz foi restabelecida pelo Tratado de Badajoz e as praças de Juromenha, Arronches, Portalegre, Castelo de Vide, Barbacena, Campo Maior e Ouguela foram restituídas à coroa portuguesa, mas o mesmo não aconteceu com Olivença. Mais tarde, o Congresso de Viena de 1815 decidiu a restituição de Olivença a Portugal, mas as autoridades espanholas nunca cumpriram essa determinação.
Na cimeira luso-espanhola de 1994, o governo português recusou a construção de uma ponte transfronteiriça sobre o rio Guadiana, assumindo todos os encargos e responsabilidades pela construção dessa ponte, assim evitando quaisquer formas de reconhecimento tácito de um traçado de fronteira sobre a linha do Guadiana e qualquer cedência do território de Olivença. A nova ponte foi inaugurada em 2000 a curta distância para jusante da antiga Ponte da Ajuda. Se visitar Elvas, visite também a Ponte da Ajuda e, se atravessar a nova ponte, não deixe de apreciar a antiga.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Viagens de Estado... em tempo de crise

Os nossos governantes desdobram-se em viagens de Estado, naturalmente para melhor desempenhar as suas importantes funções. Essas viagens são missões de sacríficio, são obrigações indeclináveis e, mesmo em tempo de austeridade, só podem ser, como antigamente, a bem da Nação. Não se imagina outra coisa!
O ministro Portas tem sido o campeão e ninguém se lhe compara. O homem embarca, desembarca, discursa, fotocopia, posa, orienta e corre. Este ano, já tem na sua bagagem pelo menos duas visitas aos Estados Unidos e viagens à Turquia, ao Brasil, à China  e, agora, a Moçambique. Falta dinheiro para o Instituto Camões, mas não falta dinheiro para as viagens do ministro Portas e das suas comitivas. Que exemplo!
O ministro Portas está em Moçambique para “dar ânimo aos empresários portugueses”. Em tempo de crise, é uma decisão controversa e cara. Hoje visitará a FACIM-2012 e, em particular, o Pavilhão de Portugal. Ontem terá estado num encontro informal com os empresários portugueses e, amanhã, estará na recepção alusiva ao Dia de Portugal na FACIM. Um programa muito apertado e cansativo!
O ministro Relvas inicia amanhã uma visita a Timor-Leste para “reiterar o apoio de Portugal à consolidação política e económica do país”. Em tempo de crise, é uma decisão controversa e cara. O ministro vai na esteira da viagem do ministro Mota e espera ser aplaudido em Dili e não voltar a ser vaiado, como aconteceu em Mafra na abertura dos Jogos da CPLP.
Eu pergunto se, em tempo de grande sacrifício e de pouca esperança, os meus impostos são para pagar viagens destinadas a dar ânimo aos empresários portugueses” e para “reiterar o apoio de Portugal à consolidação política e económica do país”. O que é que estes ministros-figurões podem fazer em Timor-Leste ou Moçambique que os nossos embaixadores residentes não possam ou não devam fazer?

domingo, 26 de agosto de 2012

Espanha: a hora do "patrioptimismo”

A edição de hoje do diário madrileno La Razón apresenta uma capa muito simbólica para os seus leitores que estão a regressar de férias e que se vão reencontrar com uma situação política dominada pela dúvida e pela incerteza, lançando-lhes um desafio muito mobilizador:
 "La hora del patrioptimismo".
De facto, a Espanha passa por um período muito crítico e enfrenta sérias dificuldades: é o desafio do futuro do euro e a possível necessidade de um resgate internacional, é a questão  da unidade nacional e das soberanias regionais, é o grave problema do desemprego e a ameaça sindical de “tomar las calles”. Sob o peso das dificuldades económicas, há quem pense que os desafios nacionalistas se vão acentuar como nunca, pelo menos no País Basco e na Catalunha, mas também que se agrave a tendência espanhola para extremarem posições e passarem rapidamente da euforia à depressão.
Por isso, a edição veicula uma mensagem de unidade nacional e de esforço repartido, porque só um país unido e com esperança pode superar os erros do passado e os excessos do Estado social. A edição refere a necessidade de um patriotismo moderno, que se estenda a todos os sectores da sociedade como acontece com o desporto, critica a obsessão financeira alemã e recorda que o projecto europeu é, sobretudo, um projecto de solidariedade e de paz para acabar com os enfrentamentos bélicos e os nacionalismos que condenaram a Europa. O jornal também destaca a importância do optimismo para vencer as dificuldades, através do trabalho e da determinação para mudar as coisas que estão mal e, evidenciando esperança na resolução da situação, afirma que “o optimismo vende”. Finalmente, com a receita patriotismo + optimismo, até o La Razón se mostra optimista e acredita que "os bons políticos e as grandes nações emergem nos momentos complicados".
Aqui no rectângulo, as coisas não são muito diferentes do que se passa em Espanha, mas há a sensação de que, neste momento complicado, não temos políticos à altura das circunstâncias e que em vez de cumprirem uma missão de serviço público, têm um emprego e usam-no como trampolim.

RTP: o atrevimento do assessor Borges

Aproxima-se o dia em que o governo se propõe desfazer-se da RTP, o que constitui uma decisão muito controversa, porque embora precisemos de uma televisão pública, não é desta que necessitamos. Nós precisamos de uma RTP, mas não desta RTP!
A RTP que temos é um poço sem fundo onde se enterram e desperdiçam milhões de euros provenientes dos nossos impostos e, além disso, é frequentemente um aborto de qualidade e um atentado à inteligência das pessoas. A situação arrasta-se desde há muitos anos, mas tem havido uma gravíssima cobardia das tutelas e das administrações que, ao longo dos anos, foram incapazes de resolver os graves problemas daquela casa, do seu sobredimensionamento, do excesso de pessoal e de dirigentes, das mordomias e dos carros de luxo, dos despesismos, do pluriemprego, da obscenidade dos altos salários que são pagos às “estrelas”, do culto do amiguismo corporativo e, em síntese, daquele escandaloso regabofe. Só nos últimos quatro anos a RTP custou mil milhões de euros aos cofres públicos em indemnizações compensatórias (488 milhões) e em transferências de capital (597 milhões), a que se devem somar as contribuições do audiovisual que os portugueses pagam mensalmente com a factura eléctrica (cerca de 500 milhões). É mais do que um milhão de euros todos os dias!
Agora o governo parece querer livrar-se rapidamente da RTP e entregá-la aos tubarões. Segundo revelou o assessor Borges, esse emissário da Goldman Sachs em Portugal que é ele mesmo um tubarão, o cenário mais provável para o futuro da RTP é o da concessão da empresa a investidores privados, com a garantia de continuarem a receber a taxa audiovisual que é de cerca de 140 milhões de euros anuais. Que grande ideia tem esse assessor Borges: entregar o que é nosso e querer que continuemos a pagar! O assessor Borges gosta muito de falar e ninguém no governo o manda calar. O assessor Borges é um atrevido e um espertalhão, ou se quiserem, um chico-esperto. Porque não se dedica apenas ao Pingo Doce, que até lhe dá emprego na Polónia? Quanto à RTP, entre privatização e concessão, porque não uma valente vassourada naquele regabofe, começando pela venda em leilão dos 57 carros de luxo?

sábado, 25 de agosto de 2012

Tesouros escondidos do nosso património

O nosso país tem uma forte identidade nacional assente em quase novecentos anos de história e pelo território nacional estão disseminadas fortificações e castelos, palácios e conventos, igrejas e pontes, que constituem um importante património monumental de grande valor histórico e simbólico.
A UNESCO reconheceu essa realidade e já distinguiu mais de uma dezena de monumentos, sítios arqueológicos ou paisagens naturais com a classificação de Património da Humanidade. Essas escolhas da UNESCO fazem parte dos nossos roteiros culturais e são locais conhecidos e visitados, não só pelo seu valor patrimonial, mas também pelas histórias que encerram.
No entanto, há muitos “tesouros escondidos do nosso património” e, na sua última edição e numa reportagem muito interessante, a revista Visão apresenta 25 desses sítios de grande interesse histórico e cultural, que ainda não foram reconhecidos pela UNESCO e que aconselha vivamente a serem visitados. Esses sítios encontram-se por todo o país, mas enquanto a localização de alguns não estimula uma visita, há outros que ficam bem próximos de locais por onde passamos com frequência.
Belmonte e Almeida, Penedono e Evoramonte, Idanha-a-Velha e Tibães são, apenas, alguns dos monumentos ou sítios que a Visão aconselha a descobrir. A partir de agora e depois deste alerta da revista, espero estar mais atento para descobrir ou redescobrir alguns desses locais.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Os nossos contabilistas são uns teimosos!

Com títulos diversos e em vários jornais, estamos a ser fustigados com a notícia que, apesar da austeridade, as coisas não estão a correr bem devido à quebra nas receitas fiscais, o que deixa o objectivo do défice de 4.5% para 2012 mais longe de ser alcançado. Embora a despesa com a administração pública tenha caído quase mil milhões de euros devido sobretudo ao corte de subsídios aos funcionários e pensionistas, verificou-se uma brutal quebra na receita fiscal, estimando-se que o desvio atinja três mil milhões de euros, que é um montante superior a 1,5% do PIB e que “atira” o défice para 6.0%.
A execução orçamental de 2012 está pressionada pela subida da despesa com prestações sociais e subsídios de desemprego e com a quebra das contribuições para a Segurança Social, que são consequência desta austeridade. O governo já em Maio alertara para o aumento dos "riscos e incertezas" que ameaçavam o cumprimento da meta do défice, devido aos resultados da execução orçamental do lado da receita. O que é que esperava o gaspar e os contabilistas que nos governam? Conhecem o país e a economia reais? Provavelmente, não! Toda a gente sabe que quando se espreme um limão, a partir de certa altura já não dá sumo. O caminho adoptado não está a resolver o nosso problema e são precisas novas ideias. Talvez novas pessoas. Talvez menos viagens. Talvez menos austeridade. Assim, isto é um naufrágio, não é um ajustamento.
Aqueles que há dezasseis meses afirmavam que não seriam cortados subsídios e que tudo seria resolvido com a saída do pinto de sousa e com o corte de gorduras, em vez de assumirem que erraram e que não são competentes, já nos ameaçam com mais austeridade. Os nossos contabilistas e os seus assessores são mesmo uns teimosos!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O fascínio lusitano por bons automóveis

A Associação do Comércio Automóvel de Portugal (ACAP) divulga mensalmente as estatísticas das vendas de veículos automóveis em Portugal. São muito poucas as entidades públicas ou privadas que são tão céleres na divulgação de um tipo de informação que, como esta, nos ajuda a perceber melhor a real situação económica e social em que nos encontramos e, por isso, a ACAP merece elogios.
Pois, segundo o seu boletim mensal, entre Janeiro e Julho deste ano, o mercado automóvel caíu em todos os sectores – ligeiros de passageiros, comerciais ligeiros e veículos pesados. Em sete meses foram vendidos 72.760 veículos que, relativamente ao mesmo período de 2011, representa uma queda de 41%. São os sinais da crise e da sua dimensão!
A análise das estatísticas é deveras curiosa, pois mostra-nos que os portugueses compram menos mas que continuam a comprar do melhor, não prescindindo de motores com desempenho acima da média, nem dos emblemas de maior prestígio. Assim, as marcas mais vendidas foram a Renault, a Volkswagen, a Peugeot, a BMW e a Audi e, nos 62.661 veículos ligeiros de passageiros vendidos nos primeiros sete meses do ano de 2012, encontram-se 4000 BMW, 3807 Audi e 3192 Mercedes, embora o modelo mais vendido tivesse sido o Renault Mégane, que custa 28.100 euros. A lista das vendas informa-nos, ainda, que nesses sete meses foram vendidos 167 Porsches (apenas 10% menos do que em 2011), 78 Jaguares (mais unidades do que em 2011), 6 Ferraris, 3 Aston Martin, 3 Bentley e um Lamborghini. Quem serão e qual a origem dos rendimentos desta gente?
A conclusão é óbvia: a crise não é igual para todos, há quem continue a ter privilégios injustificados e imorais e, evidentemente, não há justiça fiscal nenhuma. O nosso contabilista gaspar continua a ter medo dos fortes e a malhar nos fracos.

domingo, 19 de agosto de 2012

Um jornalismo de vão de escada?

Nos últimos tempos tem sido ouvida a voz de gente muito corajosa que, sobretudo através da televisão, tem denunciado o compadrio e a promiscuidade que, simultaneamente, domina o aparelho de Estado e os interesses empresariais, havendo algumas dessas vozes que não hesitam em utilizar a palavra corrupção para descrever o estado a que chegamos. Ninguém tem dúvidas quanto às dificuldades por que passamos e, por isso, é exigível mais rigor na gestão pública e mais equidade nos sacrifícios pedidos à população. A austeridade é realmente necessária, mas os sacrifícios têm que ser equitativamente repartidos. Porém, não tem sido assim e isso é uma chocante evidência, que deve ser denunciada pela imprensa.
Os relatos que circulam na blogosfera, verdadeiros ou não, são muito preocupantes. Somos frequentemente confrontados com informações relativas a admissões nos quadros do Estado de assessores, especialistas, motoristas e gestores, aparentemente amigos e até familiares do poder. É verdade ou não? Haverá governantes que viajam demais e que levam consigo grandes comitivas. É verdade ou não? Dizem que há serviços e fornecimentos adjudicados aos amigos e sem concurso. É verdade ou não? Dizem que há demasiadas excepções à supressão dos subsídios dos assalariados e pensionistas do Estado. É verdade ou não? A imprensa e os jornalistas raramente tratam esses temas. Estarão dependentes dos poderes que dominam a sociedade? Estarão amedrontados? Será uma questão de preguiça ou de obediência à lei do menor esforço?
A generalidade dos jornalistas perde muito tempo com o futebol e com os pequenos escândalos sociais, esquecendo a sua função de formar e de informar sobre os assuntos importantes e, sobretudo, está a perder a prática da reportagem de investigação que traga para o conhecimento público os casos de desgoverno, de abuso de poder, de despesismo, de favorecimento ilícito e de corrupção, que possam eventualmente constituir notícia com interesse relevante. O jornalismo que vamos tendo parece de vão de escada ou, como se diz na gíria, é um jornalismo de corta e cola.

sábado, 18 de agosto de 2012

Que faire pour la Syrie?

O jornal francês Libération dedica a sua última edição ao problema sírio e revela que o violento conflito que opõe o regime de Bashar al-Assad às forças da oposição e seus aliados, parece que está para durar. Depois da mediação de Kofi Annan ter sido infrutífera, foi agora pedido a Lakhdar Brahimi, um diplomata argelino, o mesmo esforço para encontrar uma solução para o conflito.
Desde há alguns meses que a Síria está envolvida numa guerra civil e é urgente que se encontre uma solução, porque o povo sírio não merece tanta violência, nem tanta destruição, nem aquela tão sensível região do Médio Oriente, por onde passam os grandes interesses internacionais, suporta tanta instabilidade.
Nas duas últimas dezenas de anos o mundo assistiu a algumas guerras civis, destacando-se especialmente as que ocorreram na Jugoslávia, no Sri Lanka e na Líbia. Embora nesses casos tenha havido algum envolvimento externo em homens, material e dinheiro, tratou-se principalmente de um feroz conflito interno entre grupos étnicos ou facções políticas, que se caracterizou pelas violentas atrocidades praticadas por todos os contendores. Os relatos e as imagens que então nos chegaram de Sarajevo, de Jaffna ou de Benghazi, mostraram que não havia bons de um lado e maus do outro, mas que todos se tinham tornado maus. É exactamente o que se está a passar na Síria. São todos igualmente maus e só com base nessa realidade é que se pode encontrar uma boa solução, sem a interferência da imprensa internacional e de quem a manipula e controla.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Romaria da Senhora da Agonia

A grande romaria começa hoje em Viana do Castelo! É costume dizer-se que é uma das mais afamadas de quantas se realizam no norte de Portugal, mas também no resto do país e até na vizinha região da Galiza, pois tem aspectos etnográficos de grande beleza. Durante quatro dias a cidade acolhe milhares de visitantes para ver os desfiles, os tapetes floridos, as procissões, os concertos, a animação de rua e o fogo-de-artifício, mas também para conviverem com a rica tradição artesanal e gastronómica minhota. Como pontos mais altos da romaria destacam-se o cortejo histórico-etnográfico que se realiza no dia 18 de Agosto, e os festejos do dia 20, quando a cidade irá acordar com as suas ruas cobertas com tapetes floridos por onde passará a tradicional procissão que sai da igreja da Senhora da Agonia, que vai até à margem do rio Lima e que depois volta à igreja.
Naturalmente, ocorrem-nos a voz de Amália e os versos de Pedro Homem de Mello:
Se o meu amor não me engana / como engana a fantasia 
Havemos de ir a Viana / ó meu amor algum dia 
A Romaria da Senhora da Agonia é uma manifestação extraordinária da cultura popular portuguesa que decorre em Viana do Castelo, num belo enquadramento paisagístico entre o rio Lima e o monte de Santa Luzia. Por isso é sempre aliciante voltar a Viana ou, como sugere a canção, ir a Viana algum dia. Porém, em tempo de austeridade e para os que estejam em Lisboa e se queiram deslocar a Viana do Castelo, não podem deixar de pensar nos 400 quilómetros de distância, nas portagens e nas despesas de alimentação e alojamento. São os sinais dos tempos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A tentação da chanceler e o seu plano B

A Europa está em férias e, aparentemente, nada acontece de relevante na sua vida política e económica. Porém, a prestigiada revista The Economist revela que a chanceler alemã está tentada a ultrapassar o actual impasse, mesmo que seja necessário desmembrar a zona euro. De facto, a equipa económica de Angela Merkel parece que tem trabalhado no sentido de resolver o problema grego e, também, os problemas económicos e financeiros de vários países que integram a moeda única. Apesar de sempre ter afirmado o interesse alemão na unidade dos 17 e na preservação da moeda única, a chanceler alemã está agora a considerar uma estratégia alternativa ou um plano B. Esse plano pretende salvar o euro através de uma intervenção selectiva, destinada a afastar os países que se têm revelado incapazes de cumprir as regras da moeda única e tem duas alternativas: uma considera apenas a saída da Grécia da zona euro, mas outra considera uma saída mais alargada de países, designadamente os que já foram ou estão em vias de ser intervencionados, isto é, os PICS (Portugal, Irlanda, Chipre e Espanha). Segundo o estudo feito, todos estes países falharam no seu projecto de integração na moeda única e têm perdido competitividade, aumentado o desemprego e reduzido o seu produto nacional. Apesar da austeridade e das reformas adoptadas, são muito reduzidas as perspectivas de melhorar o desempenho económico desses países no curto/médio prazo. A análise do The Economist e a referência ao plano B alemão são angustiantes, porque revelam que a solidariedade europeia já não existe e contrariam o recente discurso do nosso primeiro que, cheio de optimismo, afirmou que em 2013 o nosso ciclo económico seria invertido. Talvez o mês de Setembro já nos revele novidades, mas é evidente que também precisamos de um Plano B, para o que der e vier.