sábado, 25 de junho de 2022

Uma obra ímpar: os painéis de S. Vicente

Na História de Portugal há alguns assuntos menos esclarecidos que têm suscitado dúvidas e incertezas, dando origem a algumas teorias explicativas, mas que permanecem como enigmas. Os painéis de S. Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves, são um desses casos sobre o qual já se escreveram centenas de monografias e muitos milhares de páginas com hipóteses e interpretações múltiplas e discordantes.
O facto é que o famoso políptico que consta de seis painéis e que terá sido concluído por volta de 1470, é a mais importante pintura da arte portuguesa, representando a Corte e os vários estratos da sociedade portuguesa quinhentista, impressionando quem a vê em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Os painéis foram acidentalmente descobertos em 1882 no Paço Patriarcal de São Vicente de Fora e, depois de restaurados, foram expostos pela primeira vez em 1910 na Academia de Belas Artes de Lisboa. Desde então surgiram inúmeras teses sobre os painéis e a sua origem, sobretudo em relação à iconografia e à identidade das 58 personagens cujos retratos constituem o essencial da obra, havendo centenas de propostas quanto à sua identificação. Os painéis tiveram duas operações de restauro global e várias intervenções pontuais ou selectivas, mas urgia estudá-los, conservá-los e restaurá-los.
A oportunidade do estudo e do restauro do políptico surgiu com a assinatura de um protocolo mecenático entre o MNAA, o Grupo de Amigos do MNAA, a Direcção-Geral do Património Cultural e a Fundação Millennium bcp, que vem sendo desenvolvido desde há dois anos com a coordenação de Joaquim Caetano, o director do MNAA. De acordo com o que já se sabe, os painéis que vão sair desta intervenção serão mais próximos dos originais e quanto à identificação das personagens, terão ficado dissipadas as dúvidas sobre a identidade do homem de chapéu à moda da Borgonha, que será mesmo o infante D. Henrique.
Em boa hora, a E - Revista do Expresso deu a conhecer esta iniciativa de grande interesse cultural e que, certamente, será inspiradora de muitos mais projectos desta natureza.

A Ucrânia e a sua adesão à União Europeia

A actual União Europeia nasceu no dia 25 de Março de 1957 com o Tratado de Roma, que instituiu a Comunidade Económica Europeia e tinha apenas seis membros. Depois, com os sucessivos alargamentos chegou aos 28 membros mas, com a saída do Reino Unido, são agora 27. Desde 1986 que Portugal faz parte desse espaço de prosperidade, de tolerância e de ambiguidade, onde têm cabido diferentes culturas, línguas, histórias, religiões e níveis de desenvolvimento muito diversos. 
Porém, o projecto inicial de Jean Monnet e de Robert Schuman, que foi consolidado por homens como Konrad Adenauer, François Mitterrand, Helmut Kohl e Jacques Delors, sobredimensionou-se, atravessa evidentes dificuldades de coesão e vem-se desenvolvendo a várias velocidades. 
Para além dos 27, há actualmente cinco candidatos reconhecidos para a adesão, respectivamente a Turquia desde 1987, a Macedónia do Norte desde 2004, o Montenegro desde 2008 e a Albânia e a Sérvia desde 2009, havendo ainda dois países com o estatuto de potenciais candidatos: a Bósnia-Herzegovina e o Kosovo. Na sequência da invasão russa da Ucrânia e da teimosia com que as partes em conflito persistem naquela guerra, os 27 aprovaram o estatuto de candidatos à adesão da Ucrânia e da República da Moldávia o que, segundo o jornal catalão La Vanguardia, deu origem à frustração entre os líderes dos Balcãs ocidentais por verem os seus processos de adesão ultrapassados. 
Esta medida do Conselho Europeu tem natureza exclusivamente política, é demagógica e apenas pretende enganar os ucranianos, pois todos os 27 líderes europeus, incluindo o português António Costa, sabem que a entrada da Ucrânia na União Europeia iria alterar todo o actual contexto de equilíbrio, pois seria grande demais e o seu maior país, acrescentaria 40 milhões de habitantes com um produto per capita de 28,9% em relação à média europeia, o que tornaria a Ucrânia a principal beneficiária das ajudas comunitárias de pré e de pós-adesão. Mesmo que sejam solidários, muitos europeus dificilmente aceitariam que possam deixar de ser beneficiários das ajudas comunitárias de que agora beneficiam. Talvez daqui a trinta anos...

Aproximam-se as eleições gerais no Brasil

Faltam cerca de cem dias para a realização da primeira volta das eleições gerais no Brasil que estão agendadas para o dia 2 de Outubro e estima-se que 148 milhões de brasileiros irão às urnas, o que significa que este país é uma das maiores democracias do mundo.
Nessas eleições serão escolhidos o presidente, o vice-presidente e os deputados do Congresso Nacional, mas também os governadores, os vice-governadores e os deputados das assembleias legislativas estaduais, mas o interesse das eleições centra-se sobretudo na escolha do presidente da República. Nesta altura estão anunciadas doze pré-candidaturas, embora todas as sondagens indiquem que a luta eleitoral será entre o actual presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De entre as inúmeras sondagens divulgadas destaca-se a que é regularmente apresentada pela Datafolha, o instituto de pesquisas do Grupo Folha a que também pertence o jornal Folha de S. Paulo, que na sua última edição revelou que actualmente Lula recolhe 47% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro se fica por 28%, o que mostra que Lula poderá ser eleito logo à primeira volta. No entanto, uma outra sondagem realizada pela PoderData, um instituto do grupo de comunicação Poder360, indica que na hipótese de uma segunda volta, o candidato Lula da Silva tem 52% de intenções de voto, contra 35% do actual presidente.
Porém, há outras sondagens como a do Instituto de Pesquisas Gerp de Niterói-RJ, que indica que os dois candidatos estão tecnicamente empatados com 39 e 37% das intenções de voto. Significa, portanto, que há sondagens para todos os gostos, embora pareça que Luiz Inácio Lula da Silva se encaminha para regressar ao Palácio do Planalto e volte a presidir aos destinos do Brasil.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

BRICS falam para o mundo a uma só voz

Os BRICS são um grupo de cinco países ditos emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – que foi constituído em 2009, embora a África do Sul só nele tenha ingressado em 2011, os quais realizam uma cimeira anual em que cada um dos países participa através dos respectivos líderes de governo. O grupo não constitui um bloco económico nem uma associação de comércio, mas sobretudo um “clube político” ou uma "aliança", que visa converter o seu crescente poder económico numa maior influência geopolítica à escala mundial.
Actualmente, os BRICS são detentores de mais de 21% do PIB mundial, formando o grupo de países que mais crescem no planeta. Além disso, representam 42% da população mundial, 45% da força de trabalho e o maior poder de consumo do mundo, destacando-se também pela abundância dos seus recursos naturais e das condições favoráveis que atualmente apresentam para a sua exploração.
Este ano, a XIV Cimeira dos BRICS realizou-se em Pequim e ontem lá estiveram Xi Jinping, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro, Narendra Modi e Cyril Ramaphosa. No actual quadro de guerra e de envolvimento euro-americano no conflito resultante da invasão russa da Ucrânia, esta "aliança" tem uma enorme importância. Pela primeira vez desde que ordenou a invasão da Ucrânia, Vladimir Putin encontrou-se com grandes líderes mundiais que, aparentemente, não o criticaram. Nenhum dos 75 pontos da Declaração de Pequim desta XIV Cimeira dos BRICS faz referências à invasão russa, nem critica Vladimir Putin. Naturalmente, o jornal chinês Global Times dá um grande destaque a esta Cimeira, à qual todos os agentes da geopolítica devem estar atentos.

Ainda as festas de São João e as fogueiras

A noite de São João decorreu com grande animação e, através de longas transmissões televisivas, todos puderam acompanhar os festejos que ocorreram no Porto e em Angra do Heroísmo. Em tempos de grande preocupação pela crise económica que se desenha e da agitação social que sempre a acompanha, mas também pelo prolongamento da guerra e da tensão nas fronteiras europeias e das suas imprevisíveis consequências, é caso para dizer que “tristezas não pagam dívidas” e daí que o povo se tenha divertido a ver as marchas e os fogos-de-artifício, a bater com martelinhos e com alhos-porros, a comer sardinhas assadas e outros petiscos, sempre a cantar e a dançar. Foi, segundo pudemos ver na televisão, uma grande festa popular, que até levou ao Porto o senhor Presidente da República para se divertir e conviver com o seu povo.
Porém, os festejos de São João são diferentes em todas as comunidades mas, no imaginário popular, as fogueiras são um elemento essencial e são mesmo o traço comum de todos os festejos joaninos, sobretudo nas pequenas comunidades rurais que ainda sabem conservar as tradições ancestrais. Curiosamente, sabe-se lá porquê, as fogueiras de São João são pouco mencionadas no noticiário português, ao contrário do que acontece na Galiza, onde a imprensa publica fotografias e textos alusivos. 
Hoje na sua primeira página, o jornal Faro de Vigo publica uma fotografia a quatro colunas de “La noche más corta… y esperada”, acrescentando que “las hogueras atraen a miles de personas y plantan cara al mal tiempo en el primer San Xoan multitudinario desde que estalló la pandemia”.
Ainda bem que as memórias das fogueiras de São João da nossa infância não se perdem, ao menos na vizinha Galiza!

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Sanjoaninas 2022, a grande festa de Angra

Amanhã, dia 24 de Junho, é o Dia de São João e a próxima noite é a Noite de São João.
O nascimento de João Baptista é uma festa cristã que celebra aquele que profetizou o advento ou a chegada do Messias na pessoa de Jesus Cristo, tendo-o baptizado. É uma festa religiosa marcada por grande devoção e por missas e procissões, mas que evoluiu para um festival pagão de características populares, com práticas diferentes em cada comunidade. Alguns desses festivais enraizaram-se no gosto popular e tornaram-se elementos identitários de algumas comunidades, como por exemplo as festas das cidades do Porto, de Braga ou de Angra do Heroísmo.
É muito ingrato escrever sobre estas festas, sobretudo porque têm características muito diferentes, mas atrevo-me a salientar as famosas Sanjoaninas, que se realizam na cidade de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, que envolvem, com grande entusiasmo, uma cidade e uma ilha. Durante alguns dias as Sanjoaninas têm de tudo, incluindo torneios desportivos e mostras de artesanato, concertos e espaços gastronómicos, desfiles de filarmónicas, fogo-de-artifício, bailes populares e muitas outras iniciativas em que participam milhares de pessoas. Porém, são as touradas de praça e à corda e, sobretudo, as marchas de São João, que mais caracterizam as Sanjoaninas de Angra do Heroísmo, a competir em criatividade e entusiasmo popular com as Festas da Senhora da Agonia e com tantas outras festas populares em que Portugal é rico.
O desfile das marchas de São João é realmente uma manifestação de grande animação e criatividade popular e a televisão nunca deixa de as transmitir em directo.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Chuvas e inundações a perturbar a China

A edição de hoje do jornal Shanghai Daily publica uma impressionante fotografia da parte inundada da cidade de Shangrao, na província chinesa de Jiangxi. Esta província, tal como o sul e o leste da China, sobretudo as províncias de Guangdong e Fujian, estão a ser afectadas pelas mais intensas chuvas dos últimos decénios, tendo provocado inundações, deslizamentos de terras e forçando à evacuação de centenas de milhares de pessoas. As chuvas fortes e persistentes atingiram o nível mais alto desde 1961 e têm continuado a encher os rios que transbordam e inundam vastíssimas áreas.
A extensão das áreas inundadas e os prejuízos económicos levaram o governo chinês a destinar fundos de emergência para apoiar os governos locais no controlo das inundações e no socorro às populações que foram desalojadas das suas casas.
Esta ocorrência veio juntar-se a muitas outras que vêm afectando o nosso planeta, algumas das quais aqui temos referido, que resultam das alterações climáticas. Assim, em diferentes partes do mundo sucedem-se as anomalias climáticas sob diversas formas, pelo que as inundações na China são mais um alerta para que sejam universalmente tomadas as medidas políticas necessárias para “salvar o nosso planeta”, enquanto é tempo.  

A retoma do turismo de navios de cruzeiro

As cidades portuárias das orlas atlânticas e mediterrânicas europeias têm beneficiado da indústria do turismo dos cruzeiros que se desenvolveu nos últimos decénios, mas esse tipo de turismo esteve inactivo devido às restrições sanitárias que foram adoptadas durante a pandemia de covid que surgiu em 2019. 
Neste ano de 2022, essa actividade parece ter recuperado todo o seu dinamismo e a procura parece estar a ultrapassar as melhores expectativas e a superar a procura dos tempos anteriores à pandemia. O jornal El Correo que se publica em Bilbao, a capital da comunidade autónoma do Euskadi ou País Basco, na sua edição de hoje dá notícia da presença simultânea de três navios de cruzeiro de grandes dimensões no Puerto de Getxo, na periferia da cidade de Bilbao, respectivamente o MSC Virtuosa (331 metros), o Enchanted Princess (330 metros) e o Seabourn Ovation (221 metros). Segundo o jornal, “la estampa inusual de los tres barcos juntos ne se volverá a repetir hasta el 4 de octubre” e houve oito mil pessoas, das quais cinco mil eram turistas e três mil tripulantes, que estiveram no porto de Getxo.
Um elevado número de autocarros recolheu os passageiros que se inscreveram para as várias excursões, com destaque para a visita ao Museu Guggenheim e à cidade de Bilbau, mas também para outros circuitos, como Gernika e San Sebastian.
As autoridades portuárias e turísticas bascas estão eufóricas. Este ano, houve 32 navios que já visitaram o Euskadi, mas até ao fim do ano esperam-se oito dezenas de navios de cruzeiro que, a verificar-se, baterá o recorde histórico de 59 navios de cruzeiro que, num só ano, atracaram no Puerto de Getxo.

terça-feira, 21 de junho de 2022

A reforma do Serviço Nacional de Saúde

Nos últimos tempos o espaço mediático português tem sido dominado pelas notícias relativas ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), com manchetes sensacionalistas em que é destacado o encerramento de serviços de urgência hospitalares de várias especialidades.
O SNS foi criado em 1979 na sequência de um preceito constitucional aprovado em 1976, que garantia o direito à proteção da saúde, a prestação de cuidados globais de saúde  e o acesso a todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica e social. O SNS tem sido referido como um dos maiores sucessos da Democracia portuguesa e há quem o considere um dos melhores da Europa, mas é uma grande nau que navega por águas nem sempre mansas, apesar de nunca ter tido tantos profissionais nem tantos recursos como tem actualmente. Porém, as coisas não correm bem nos hospitais públicos e vários serviços de urgência têm estado encerrados, o que significa que não há um regular funcionamento destas instituições democráticas, enquanto os hospitais privados engordam.
Desde há muito tempo que é sabido que o SNS precisa de reformas, porque tanto os profissionais como os utentes mudaram muito nos últimos anos. Todo o mundo é composto de mudança e, enquanto utentes, “vemos, ouvimos e lemos” e não podemos ignorar, como se acentuam as diferenças entre os serviços hospitalares públicos e privados. O SNS está debilitado devido à péssima gestão hospitalar, à enorme promiscuidade entre o serviço público e o privado, à baixa produtividade de alguns hospitais e serviços, à concorrência dos hospitais privados, ao absentismo de algumas classes profissionais da área da saúde e aos incontornáveis interesses corporativos envolvidos.
Nada disto é novo, mas tudo isto tem demorado muito tempo a ser corrigido, sem se saber exactamente porquê. Tal como na Justiça, na Educação e noutras funções sociais, é necessário reformar e adaptar aos novos tempos, mas os sucessivos governos e os grandes partidos preferem fazer como a avestruz e esconder a cabeça na areia. 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

A democracia e a alternância de poder

Ontem realizaram-se importantes eleições em Espanha, na França e na Colômbia, todas elas a mostrar que, como um dia disse Winston Churchill, “a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros". De facto, ao contrário da Autocracia e da Oligarquia, a Democracia permite que, através do voto, os cidadãos escolham periodicamente aqueles que os devem representar no exercício do poder, o que significa que “o povo é quem mais ordena” ou a possibilidade da alternância e da moderação desse poder. Assim aconteceu ontem em três diferentes países.
Na Andaluzia, que é a segunda maior comunidade autónoma espanhola e a mais populosa com quase nove milhões de habitantes, realizaram-se as eleições regionais e o Partido Popular conseguiu eleger 59 deputados, o que lhe garante a maioria absoluta no parlamento andaluz, onde têm assento 109 deputados. Foi claramente derrotado o PSOE, o partido tradicionalmente mais votado e que governou a Andaluzia desde 1982 até 2018, pois apenas conseguiu eleger 30 deputados. A democracia funcionou e houve alternância de poder.
Em França realizaram-se as eleições parlamentares para eleger os 577 deputados para a Assembleia Nacional, com a coligação Ensemble!, que apoia o presidente Macron, a conseguir a maioria ao eleger 245 deputados, mas ficando longe da maioria absoluta de 289 deputados. As surpresas vieram da NUPES, a coligação de esquerda de Mélenchon que elegeu 131 deputados e da União Nacional de Marine le Pen, que elegeu 89 deputados. Por isso, os próximos tempos não serão fáceis para Macron. A democracia funcionou e houve alternância de poder.
Na Colômbia realizou-se a 2ª volta das eleições presidenciais e mais de 22 milhões de colombianos deram a vitória a Gustavo Petro, um economista e ex-combatente do grupo armado M-19 que obteve 50,47% dos votos e que, dessa forma, se tornou o primeiro presidente de esquerda do país. A democracia funcionou e houve alternância de poder.
Para ilustrar estas vitórias da Democracia escolhemos a capa do jornal el Colombiano que se publica em Medellin, a segunda maior cidade da Colômbia.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Scholz, Macron, Draghi e a visita a Kiev

Como hoje alguém escrevia no jornal Expresso e embora seja cruel afirmá-lo, “já estamos todos fartos da guerra na Ucrânia”, bem como das aparições diárias de Zelensky a pedir armas, das professoras-comentadoras que falam nas televisões e dos repetitivos serviços dos enviados especiais dos diferentes canais televisivos. Porém, a visita que os líderes da Alemanha, da França e da Itália ontem fizeram a Kiev veio lembrar-nos que a guerra continua e que os riscos de uma escalada bélica persistem. A deslocação de Scholz, Macron e Draghi foi um acontecimento político importante, não só porque aparenta ser a retoma da iniciativa europeia neste conflito, mas também porque significa “a homenagem da Europa à coragem ucraniana”, como salientava hoje o jornal Le Figaro.
Naturalmente que a deslocação destes três líderes não foi apenas para mostrar solidariedade e para prometer apoio militar e à reconstrução do país, além do seu acordo para uma futura adesão à União Europeia. A sua missão teve um outro objectivo que não foi revelado. Eles foram os porta-vozes dos europeus, cujos pontos de vista eles necessariamente conhecem, através de uma sondagem feita pelo European Council on Foreign Relations (ECFR) que foi realizada em dez países europeus. Essa sondagem foi divulgada na edição de 15 de Julho do jornal Público e mostra que existe um grande consenso entre os europeus na identificação do principal responsável pela guerra na Ucrânia. Assim, para 73% dos inquiridos o principal responsável pelo conflito é a Rússia, embora 15% considerem que o principal responsável pela guerra é a própria Ucrânia, ou a União Europeia, ou os Estados Unidos. 
No que respeita ao desejável fim do conflito na Ucrânia, a sondagem mostra que a Europa está dividida entre uma paz rápida (ou campo da paz) com 35%, ou a punição da Rússia pela guerra (ou campo da justiça) com 20%. Nos limites extremos encontram-se a Itália com 52% dos inquiridos no campo da paz e 16% no campo de justiça e a Polónia com 16% dos inquiridos no campo da paz e 41% no campo da justiça, enquanto em Portugal há 31% de inquiridos no campo da paz e 21% no campo da justiça.
Certamente que a sondagem da ECFR, que traduz as posições da opinião pública europeia, esteve presente no encontro de Olaf Scholz, Emmanuel Macron e Mario Draghi com Volodymyr Zelensky. 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Os efeitos das alterações climáticas

Nas suas edições de hoje, diversos jornais franceses e espanhóis destacam em primeira página a vaga de calor que está a afectar estes países do sudoeste da Europa, com temperaturas da ordem dos 40 graus. Esta vaga de calor é a maior que a Europa enfrenta nos últimos vinte anos e, no caso de Espanha e da França, esperam-se recordes históricos com temperaturas bem acima dos 40 graus.
Nos jornais espanhóis há títulos como “la peor ola de calor en décadas”, ou “trabajar a 40 grados” ou, ainda, “a 43 grados el sábado”, enquanto nos jornais franceses se podem ler títulos como “qu’il va faire chaud!”, ou “chaleur: attention à la vague” ou, também, “toujours plus chaud, toujours plus tôt”.
Na sua edição de hoje o jornal La Dépêche de Toulouse destaca que “o pior está para vir” e refere que aumentam a seca com todos os seus efeitos e os riscos de incêndios florestais, mas também salienta as medidas que devem ser tomadas pelas autoridades e por cada pessoa para melhor suportar esta situação.
Hoje já ninguém duvida que as alterações climáticas estão a ameaçar o nosso planeta e a “testar os limites da capacidade de sobrevivência humana”. As notícias do sudoeste da Europa juntam-se a outras de igual natureza, como por exemplo as que chegaram da Índia e do Paquistão, onde no passado mês de Maio foram enfrentadas ondas de calor recorde desde que há registos. Da mesma forma, também a Austrália atingiu em Janeiro deste ano a maior temperatura da história do país e do hemisfério sul.
Estas notícias são realmente alarmantes, pois mostram como as alterações climáticas continuam por atenuar ou regredir, o que significa que o Acordo de Paris de 2015 que visava a redução da emissão de gases que intensificam o efeito de estufa originado por algumas actividades humanas a fim de conter o aquecimento global, não estão a produzir resultados, como mostram as ondas de calor mais recentes um pouco por todo o mundo.

terça-feira, 14 de junho de 2022

Sobre a escolha política dos franceses

No passado domingo realizou-se a primeira volta das eleições parlamentares francesas, a que concorreram cerca de 6.000 candidatos com idades compreendidas entre os 18 e os 92 anos, que procuravam ser escolhidos para os 577 lugares de deputados na Assembleia Nacional francesa. Havia cerca de 48,7 milhões de eleitores inscritos, mas houve uma abstenção de 52,5%, que foi a maior de sempre em eleições parlamentares.
O imprevisto aconteceu: a coligação Ensemble! que agrega os aliados centristas do presidente Emmanuel Macron e a NUPES (Nova União Popular, Ecológica e Social), uma frente unida de esquerda liderada por Jean-Luc Mélenchon, obtiveram ambos 25,7% dos votos, pelo que ambos reclamaram vitória. O Rassemblement National, o partido de Marine Le Pen, obteve 18,95% dos votos, enquanto a coligação de direita moderada que inclui os Republicanos, conseguiu 10,5% dos votos.
Na segunda volta, que vai ser disputada no próximo domingo, o presidente Macron não tem garantida a maioria parlamentar de 289 deputados para o apoiar nos próximos cinco anos e esse será um facto político surpreendente, pelo que Mélenchon até já veio afirmar que vai ser o próximo primeiro-ministro de França.
Hoje o jornal Le Monde publica um mapa com os resultados eleitorais da primeira volta, onde se vê como a França está dividida e desinteressada da política, não só pelo nível histórico da abstenção, mas também por ameaçar a maioria absoluta do presidente Emmanuel Macron, o que pode gerar instabilidade em França e alterar o quadro político da União Europeia, sobretudo num tempo de grandes incertezas. 

Os roteiros de Marcelo são uma roda-viva

Marcelo Rebelo de Sousa, o nosso venerando Chefe do Estado, tem andado numa roda-viva e em ambiente de euforia, como ele tanto gosta. Nos últimos dias encheu as nossas televisões com discursos, declarações e comentários sobre tudo, informou sobre o estado de saúde de António Costa e irradiou satisfação como se tudo estivesse a correr bem no país e como se os tempos que aí vêm não fossem muito preocupantes. É saudável que o país tenha um presidente que irradia felicidade e que procura incentivar a autoestima da “arraia miúda”, mas tem que haver proporcionalidade e contenção nos beijinhos, nas selfies, nas gargalhadas e nos elogios que faz aos seus concidadãos. Somos bons, sim senhor, mas talvez não sejamos os melhores do mundo, como o nosso presidente gosta de repetir e até haja quem acredite nisso.
No dia 10 de Junho, Marcelo Rebelo de Sousa esteve em Braga a celebrar o Dia de Portugal, mas no dia 12 à noite já estava em Lisboa nos festejos de Santo António. Entre estes dois eventos que lhe deram um enorme tempo de antena como ele tanto gosta, ele visitou a comunidade portuguesa de Londres, onde conviveu com “as várias centenas de cristianos-ronaldos que Portugal enviou para a Inglaterra” e condecorou o enfermeiro Luís porque, por mero acaso, foi ele que tratou o Boris quando ele teve covid-19, mas essa visita não teve qualquer impacto nos media ingleses. Depois, o supremo magistrado da Nação voou para Andorra, onde anunciou coisas que não lhe competem, como por exemplo o estabelecimento de um consulado-geral em Andorra la Vella e a desejável activação de um voo directo entre Lisboa e o principado. O jornal El Periòdic d’Andorra foi apenas um dos jornais que destacaram a visita do Presidente da República de Portugal, com fotografia de primeira página
Tudo isto me parece um exagero e faz-me lembrar um provérbio popular português: Quem não aparece esquece, mas quem muito aparece, tanto lembra que aborrece.

domingo, 12 de junho de 2022

O trumpismo também ameaça o Canadá

As recentes revelações feitas pela comissão parlamentar de inquérito, que está a investigar as responsabilidades de Donald Trump no assalto ao Capitólio, em Washington, ocorrido no dia 6 de Janeiro de 2021, parecem ter deixado a opinião pública americana muito apreensiva e na expectativa do que poderá vir a seguir, não só no curto prazo, mas também quanto à possibilidade de Trump voltar a candidatar-se à Casa Branca.
A apreensão pelo trumpismo e pelo seu significado anti-democrático, populista e com ligações à extrema-direita americana violenta, ultrapassou as fronteiras americanas e, segundo hoje mostra a edição dominical do jornal The Toronto Star, a ameaça do trumpismo já paira sobre o Canadá. Na sua primeira página, aquele jornal mostra a sombra de Trump sobre o território canadiano e diz que “Donald Trump não é apenas o líder, mas a personificação de uma marca política de extremismo direitista, que está presente no seu mundo mediático e ideológico”, acrescentando que o trumpismo também pode ser em breve um problema sério para o Canadá.
Quando a Europa estás a passar por uma crise muito séria e de imprevisível solução, as notícias que se esperava que chegassem do outro lado do Atlântico deveriam ser um sinal de estabilidade, mas estão a ser um sinal de alguma preocupação. As revelações que têm sido tornadas públicas, a propósito do comportamento de Trump nos acontecimentos de 6 de Janeiro de 2021, mostram que o impensável podia ter acontecido e que os Estados Unidos, tal como o Canadá, ainda não estão livres do trumpismo.