quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Afonso de Albuquerque, o Leão dos Mares

Assinalam-se hoje cinco séculos sobre a data da morte de Afonso de Albuquerque, ocorrida a bordo do seu navio na barra de Goa, na manhã do dia 16 de Dezembro de 1515. O cronista Fernão Lopes de Castanheda descreveu esse acontecimento nos seguintes termos:
E dali por diãte se achou de cada vez peor, de maneira que sabado quinze dias de Dezembro á noyte que foy surgir na barra de Goa […] &  hũa hora antes que falecesse se lhe tornou a fala. E estandolhe lendo a paixão de que era muyto devoto, & em que dizia que levava sua esperança de salvação, deu a alma a nosso senhor domingo ante manhaã dezaseys de Dezembro de mil & quinhentos & quinze, vestido em ho abito de Santiago, de cuja ordem era cavaleyro […] pedio perdão de seus pecados antes de seu falecimto. E falecido foy posto na tolda da nao…
Afonso de Albuquerque foi uma das mais proeminentes figuras da História de Portugal e foi o verdadeiro fundador do Estado Português da Índia, ao assegurar-lhe uma base territorial. Tendo nascido em Alhandra de família fidalga no ano de 1453, adquiriu experiência militar desde muito jovem nas conquistas do norte de África e na batalha de Toro. Em 1506 seguiu para a Índia como capitão-mor da costa da Arábia no comando de uma frota de cinco navios da armada de dezasseis navios de Tristão da Cunha. Em 1507 conquistou Ormuz à entrada do golfo Pérsico, em 1510 conquistou Goa na costa ocidental da península Industânica e em 1511 conquistou Malaca, situada na península Malaia e na passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. Em 1509 tinha sucedido a D. Francisco de Almeida como 2º vice-rei e governador Estado Português da Índia, tendo desempenhado esse cargo até à sua morte em 1515. Morreu mal com el rey por amor dos homens, & mal com os homens por amor del rey.
Afonso de Albuquerque não está livre de acusações de desumanidade e barbaridade, mas é realmente uma das grandes figuras da História de Portugal e daí que seja aqui evocado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A enorme incerteza da política francesa

Os resultados das eleições regionais francesas, que tiveram a sua 1ª volta no dia 6 de Dezembro e a 2ª volta no dia 13 de Dezembro, traduziram-se numa vitória dos Republicanos de Nicolas Sarkozy em 7 regiões e da União da Esquerda de François Hollande em 5 regiões, conforme assinala hoje edição do Le Monde na sua primeira página. Estavam inscritos nos cadernos eleitorais cerca de 45 milhões de franceses, mas apenas 26 milhões votaram e destes apenas foram validados cerca de 25 milhões de votos, o que mostra que em França, tal como em muitos outros países da Europa, os cidadãos confiam cada vez menos nos políticos que têm e consideram a participação eleitoral e a democracia participativa cada vez mais desinteressante.
Nas eleições francesas os votos nacionais distribuiram-se pela União da Direita ou Republicanos (40,2%), pela União da Esquerda ou Socialistas (28,8%) e pela Frente Nacional (27,1%), embora estes resultados não tenham quaisquer consequências imediatas a nível nacional, salvo no que respeita a uma primeira perspectiva das eleições presidenciais de 2017.
Nicolas Sarkozy recuperou na sua ambição de regressar ao Eliseu, enquanto a Frente Nacional que na 1ª volta tinha vencido em seis regiões e se esperava que pudesse vencer em duas ou três regiões, sucumbiu ao apelo ao voto útil feito pelos seus adversários e a uma maior participação eleitoral. Apesar disso, o partido de Marine Le Pen que privilegia o discurso anti-imigração e anti-Europa, teve cerca de 6,8 milhões de votos e esse resultado preocupa a França e a Europa, pois  lança uma enorme incerteza na política francesa.
A propósito, poder-se-à perguntar onde se encontram em Portugal os amigos de Marine Le Pen...

Paris: um acordo para salvar o planeta

A Cimeira de Paris aprovou um acordo que envolve 195 países e que vai dar origem a um novo tratado internacional destinado a conter o aquecimento global do nosso planeta. Depois de vários anos de negociações e de hesitações, o novo o acordo é visto como um passo histórico, pelo seu carácter universal e por ultrapassar divergências que até agora tinham impedido que se encontrasse um substituto do Protocolo de Quioto. Se o conteúdo do acordo for cumprido, na segunda metade deste século o mundo terá praticamente abandonado os combustíveis fósseis e as emissões que restarem de gases com efeito de estufa serão anuladas pela sua absorção por florestas ou pela sua captura e armazenamento. O novo acordo foi possível por ter resultado de uma abordagem inovadora, pois não há metas impostas aos países e são eles que têm que decidir o que fazer. Portanto, a base do acordo são planos nacionais a apresentar a cada cinco anos por todos os países, nos quais prestarão contas do que fizeram ou explicarão qual o seu contributo para a luta contra o aquecimento global. Todos os países têm de participar e não apenas os países desenvolvidos, embora estes tenham de liderar os esforços na redução de emissões de gases com efeito de estufa. O objectivo declarado do acordo é conter a subida dos termómetros a um valor “muito abaixo de 2ºC” e prosseguir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Além disso, os países desenvolvidos comprometem-se a continuar a financiar as nações em desenvolvimento nas suas políticas de adaptação e mitigação climática. A Cimeira de Paris foi considerada um êxito e Laurent Fabius, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, recebeu o unânime aplauso. A imprensa mundial deu larga cobertura à Cimeira de Paris e aos seus resultados: o The Sydney Morning Herald foi apenas um deles.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Espanha vai a votos no domingo

As eleições legislativas em Espanha realizam-se no próximo domingo e todos os dias a imprensa publica sondagens. Hoje, também o El País publica a sua sondagem: PP de Mariano Rajoy (25%), PSOE de Pedro Sánchez (21%), Podemos de Pablo Iglesias (18%) e Ciudadanos de Albert Rivera (18%).
Como se vê, a Espanha está embrulhada numa situação governativa semelhante à que aconteceu em Portugal depois das eleições de 4 de Outubro, isto é, nenhuma força política terá maioria para governar e daí que sejam necessárias coligações ou alianças. A imprensa hoje apresenta as duas alternativas que lhe parecem mais prováveis: um pacto entre o PP e o C’s ou uma aliança entre PSOE, Podemos e C’s. Em qualquer dos casos, haverá uma nítida rejeição da actual política de Mariano Rajoy e da sua subordinação aos baronetes neoliberais da Europa. É bem possível que nos próximos dias os espanhóis falem da solução portuguesa, aquela que tanto surpreendeu e deixou engasgados o par Passos & Portas e os jovens radicais que os seguem. Independentemente dos resultados eleitorais que se verificarem em Espanha, não é de prever que alguém faça o ridículo discurso da vírgula que Portas fez e que os seus telmoscorreias repetiram exaustivamente. Observados daqui do rectângulo, parece que nem Rajoy, nem Sánchez, nem Iglesias, nem Rivera, têm o despudor e nem a falta de vergonha exibida durante várias semanas pelos inconsoláveis políticos que perderam o poleiro e pelos seus ideólogos-comentadores do tipo fernandes+marquesmendes.
Atentemos, pois, nas eleições espanholas ou no 20-D, como eles gostam de se lhes referir.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Angela Merkel - person of the year 2015

Desde 1927 que a revista TIME escolhe a Personalidade do Ano e, numa atitude de auto-promoção, a própria revista afirma que, para o melhor ou para o pior, esta escolha influencia o mundo. É um exagero publicitário, até porque no fim do ano se fazem inúmeras escolhas deste tipo sem que alterem o curso da Humanidade. No entanto, esta escolha é uma curiosidade que se repete há 89 anos e que desperta o interesse das pessoas. A escolha deste ano recaiu em Angela Merkel, na linha do que aconteceu com a revista Forbes que a classificou como a segunda pessoa mais poderosa do mundo, numa lista em que, à cabeça, surgem sempre Vladimir Putin, Barack Obama, Xi Jinping e o Papa Francisco.
De acordo com os critérios da popular revista americana, a escolha de Angela Merkel é acertada, não só pela posição que ocupa desde 2005 como chanceler da poderosa Alemanha, mas também pela forma como se tornou a incontestada líder da Europa, cilindrando Barroso e Juncker, Sarkozy e Hollande, entre muitas outras figuras que ocasionalmente aparecem no palco europeu, como Jeroen Dijsselbloem ou Christine Lagarde. As suas posições tornam-se sempre as posições da Europa. É conhecida a sua atitude intransigente em relação à dívida dos países do sul, mas também o seu apoio aos refugiados sírios. É sabido, também, como olha para os problemas da Ucrânia e da Síria sem o radicalismo dos seus parceiros ocidentais, da mesma forma que recusou entrar na cruzada anti-Kadaffi.
Pode concordar-se ou não com a prática política de Angela Merkel, mas há que reconhecer que tem pensamento próprio, o que é uma coisa que desapareceu do “mundo ocidental” e até do pequeno mundo que tomou conta da política no nosso Portugal, onde proliferam papagaios e papagaias que repetem, repetem, repetem ou, se quisermos, mentem, mentem, mentem.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Afinal de que lado está a Turquia?

A revista semanal italiana Tempi que se publica em Milão aborda como tema principal da sua última edição a situação na Turquia e, em especial, o comportamento do seu Presidente Recep Tayyip Erdoğan que, depois de ter sido primeiro-ministro durante cerca de onze anos, foi eleito para a presidência do país em Agosto de 2014.
Não é preciso dominar fluentemente o idioma italiano para perceber que o título Bottino di guerra, que significa despojos ou prendas de guerra, nos conduz à triste realidade de perceber que a Turquia está a tirar vantagens da situação que ela própria ajudou a criar, com a sua oposição a Bashar el-Assad e a sua aliança com a Arábia Saudita. O subtítulo esclarece ainda mais: “protegida pelo guarda-chuva da NATO, a Turquia de Erdoğan pratica o saque na Síria, trafica com o ISIS e pratica a extorsão aos refugiados. E a União Europeia ainda a premeia com três mil milhões de euros”. Realmente...
É sabido que a Turquia tem sido o principal apoio das forças anti-Assad e que é pelo seu território que é feito o contrabando do petróleo que financia o ISIS. Sabe-se, também, que sendo os curdos o grupo que mais tem combatido o radicalismo do ISIS, como se viu em Kobani, tem sido fortemente bombardeado pelos turcos sem que a NATO trave essas acções que, objectivamente, favorecem o ISIS e o jihadismo. O recente abate de um avião russo na fronteira turca, também mostrou que a Turquia não quer ver estranhos a observar o que se passa nas suas fronteiras.
Erdogan tem sido acusado de autoritarismo e de ter a família envolvida em negócios duvidosos, para além de estar a seguir uma orientação islâmica, no país que há muitas décadas tinha sido transformado num Estado secular por Ataturk. Afinal quem é e o que quer Recep Tayyip Erdoğan? A revista Tempi desconfia e eu também. Será que ele é muito diferente de Sadam Hussein e de Bashar el-Assad e de tantos outros lideres daquela região?

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Venezuela cansou-se do chavismo

As eleições legislativas venezuelanas realizadas no passado domingo tiveram um resultado que, não sendo inesperado surpreendeu, porque depois de 16 anos no poder, o chavismo foi derrotado.
As eleições realizaram-se num quadro de dificuldades económicas devidas à quebra da receita do petróleo e num ambiente de grande perturbação nacional e de quase revolta popular, com uma enorme escassez de alimentos e de medicamentos no mercado, com altas taxas de inflação, com perseguições políticas, muita insegurança e raptos e atentados. O eleitorado polarizou-se em torno de duas grandes coligações: de um lado o GPP ou Gran Polo Patriótico Simón Bolívar, liderado por Nicolas Maduro, o actual presidente da República Bolivariana da Venezuela e herdeiro político de Hugo Chavez e, do outro, o MUD ou Mesa de la Unidad Democratica liderado por Henrique Capriles. Embora se tratasse de duas grandes coligações, cada uma delas com um largo leque de partidos e movimentos, o GPP era classificado de centro-esquerda, enquanto o MUD era classificado de centro-direita. Os quase vinte milhões de eleitores deram a vitória ao MUD, o que aconteceu pela primeira vez em 16 anos. Nicolas Maduro reconheceu a derrota e afirmou que venceu a paz.  Depois de novos ventos em Cuba, de mudanças na Argentina e de ambiente tenso no Brasil, está em curso a mudança na Venezuela.
As eleições venezuelanas têm uma grande importância para Portugal, porque depois do Brasil, a Venezuela é o segundo país da América Latina com mais emigrantes portugueses. Os números oficiais apontam para cerca de quinhentos mil, embora os luso-descendentes possam ultrapassar um milhão. Por isso, tudo o que acontece na Venezuela interessa aos portugueses.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Um galeão para resgatar 300 anos depois

O Presidente da Colômbia Juan Manuel Santos anunciou na passada sexta-feira que os restos do galeão espanhol San José tinham sido encontrados a cerca de 10 milhas do porto de Cartagena das Indias e ontem, numa conferência de imprensa na Base Naval de Cartagena, afirmou: “Estoy muy complacido como jefe de Estado de informar a los colombianos que sin lugar a dudas, sin ningún tipo de duda, hemos encontrado 307 años después de su hundimiento el galeón San José”.
O galeão San José, guarnecido por 60 canhões, foi afundado no dia 8 de Junho de 1708 por navios ingleses quando largava daquele porto em direcção a Espanha, com mais de seiscentos marinheiros a bordo e com um tesouro que incluia ouro do vice-reino de Nova Granada (hoje Colômbia), prata do Perú e pedras preciosas, além de muitos outros objectos religiosos. A partir da documentação coeva existente, foi estimado pelos arqueólogos marítimos colombianos que o valor da carga do San José estaria entre 5 e 10 mil milhões de dólares, caso fosse vendido a colecionadores. Porém, o Presidente Santos anunciou de imediato que os tesouros a resgatar seriam musealizados num edifício apropriado a construir na cidade de Cartagena. A imprensa colombiana destaca este acontecimento e o El Colombiano ilustra a sua primeira página com uma gravura do galeão.
A localização do navio naufragado foi feita em 1991 pela empresa americana Sea Search Armada e levantou-se então um conflito entre o Estado colombiano e a empresa que reclamava metade do valor do tesouro a resgatar. Porém, um tribunal americano já decidiu a favor do Estado colombiano com base na lei colombiana que regulamenta a propriedade do património cultural submerso e que estabelece mecanismos para o resgate das centenas de naufrágios históricos que se encontram em águas colombianas, entre os quais se incluia o galeão San José. A descoberta deste galeão é um grande acontecimento cultural para a Colômbia e os colombianos souberam proteger-se atempadamente dos caça-tesouros.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Iraque, Síria, Líbia… e o Afeganistão

A ignorância e incompetência com que as potências ocidentais, os seus dirigentes máximos e os seus gabinetes de estratégia trataram as chamadas primaveras árabes, levaram ao afastamento de alguns dos seus líderes mais contestados como Saddam Hussein e Muammar Kadaffi, enquanto agora se procura abater Bashar al-Assad. Com o vazio político criado, o poder caiu na rua e a desordem impôs-se nesses países. Na ausência do poder que o ocidente abateu ou desautorizou, surgiu a guerra no Iraque com base numa mentira e a guerra na Síria com base numa teimosia e, daí, surgiu um radicalismo terrorista consubstanciado no ISIS. Apesar de todas as acções militares em curso, o jihadismo está a alastrar e, embora por formas diferentes, atingiu interesses russos, feriu a França com enorme crueldade e, aparentemente, até chegou aos Estados Unidos.
A Líbia é agora o novo foco onde se concentram as atenções jihadistas porque fica na encruzilhada da Europa, África e Médio Oriente. Aí, o ISIS não só dispõe do arsenal militar que sobrou da guerra contra Kadaffi como tem engrossado as suas fileiras com novos combatentes. Sabe-se que está a treinar pilotos na base aérea de Sirte e que a travessia do Mediterrâneo demora menos de uma hora. É a nova ameaça para a Europa, como Kadaffi avisara.
Entretanto, como hoje revela o jornal londrino The Times, o ISIS invadiu o Afeganistão, isto é, um grupo de 1600 combatentes islâmicos internou-se na zona leste do Afeganistão, junto da fronteira com o Paquistão. É o Wilayat Khurasan, a versão afegã do ISIS. Ocupou quatro distritos a sul da cidade de Jalalabad, a pouco mais de uma centena de quilómetros da capital Kabul, tendo instalado um campo de treino militar e procedido a julgamentos corânicos e a decapitações públicas.
Não sei o que mais é preciso para Obama, Putin, Xi Jinping, Hollande, Cameron, Merkel e não sei quem mais, se entenderem.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Haverá aviões a mais nos céus da Síria?

O Parlamento britânico decidiu ontem à noite o envolvimento na campanha aérea em curso na Síria contra o ISIS por uma maioria de 174 votos, depois de 397 deputados terem votado a favor e 223 deputados terem votado contra. Segundo refere a imprensa inglesa, designadamente The Herald, apenas 57 minutos depois dois Tornado GR4 largaram da sua base de Akrotiri em Chipre e regressaram três horas depois sem bombas.
Há três dias também o Parlamento alemão tinha aprovado o envolvimento da Alemanha no conflito sírio, com a participação de seis aviões Tornado que estacionarão na base turca de Incirlik, para além de um aparelho para reabastecimento aéreo, uma fragata que irá participar na protecção do porta-aviões francês Charles de Gaulle, que já está a actuar no Mediterrâneo oriental, para além de um total de 1200 efectivos terrestres que ainda não se sabe o que irão fazer.
Tal como acontece com a coligação liderada pelos Estados Unidos e com os russos, também a França tem uma assinalável presença aérea na região. Além disso, há os aviões do regime de Bashar al-Assad, mais os aviões turcos e os aviões chineses. É muito avião a voar por ali e não estará longe o dia em que alguns desses aviões se envolvam em tiroteio.
A acção militar implica sempre um correcto planeamento e muita coordenação. No caso da Síria/Iraque não se sabe quem coordena, nem o que coordena, o que se traduz por menor eficácia, maior custo e um elevado risco de incidentes do tipo daquele em que recentemente estiveram envolvidos aviões russos e turcos. É caso para perguntar se não serão aviões a mais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A bela Goa para quem tem frio em Lisboa

Um bom amigo decidiu deixar esta cidade de Lisboa por uns tempos e voar até Dabolim, que é o aeroporto que serve Goa, para fugir ao frio atlântico-europeu e para aproveitar o calor e a amizade dos muitos amigos que tem naquela bela terra virada para o mar Arábico. O meu amigo tem uma enorme notoriedade e prestígio cultural naquela terra e, provavelmente, é o português mais ilustre que nos próximos tempos andará a circular por Caranzalém, Dona Palma, Fontainhas, Altinho, Miramar e outros bairros da cidade de Pangim. Por isso, fui consultar os jornais de Goa para verificar se tinham dado notícia da sua chegada, porque esta sua visita é um facto que merece notícia. Porém, desapontado, verifiquei que ele tem mantido a discrição de que tanto gosta.
No entanto, aproveitei e fiz uma breve leitura do The Navhind Times, um dos mais populares jornais goeses. Na sua edição de hoje, o jornal reflecte na sua primeira página os tempos que se vivem em Goa e a sua rapidíssima entrada na era do consumo de massa, com anúncios de vários modelos de automóveis Chevrolet e de Instant Winter Holidays por 29.000 rupias (400 euros), publicitação do Shopping Festival em Chicalim e da Trade Fair cum Food Festival e de uma Singing Competition em Mapuça. Há dinheiro e vontade de o gastar. Como o mês de Dezembro é o mês em que milhares de goeses da diáspora visitam as suas famílias, sucedem-se todo o tipo de festas, sobretudo as festas religiosas dos católicos e os casamentos, sempre com muitas centenas de convidados. Para esses, também o jornal anuncia as ofertas do Señor, the suit people: um complete wedding package por 4999 rupias (70 euros) e a feitura de fatos simples por 2499 rupias (35 euros), com delivery in 3 to 4 hours.
Seguramente, o meu amigo JML vai estar em vários casamentos e não deixará de ir de fato novo. É só ir ao Señor, ali na Rua Heliodoro Salgado. E aprecie bem essa terra e essa gente!

UNESCO reconheceu a arte chocalheira

Com a surpresa que resulta da minha ignorância nesta matéria, tive ontem conhecimento que a arte chocalheira foi inscrita pela UNESCO na sua lista do Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente. Informei-me ccom a leitura do Público – talvez o único jornal que tratou do assunto  – e passei da surpresa para o aplauso do trabalho pelo feito pela comissão de candidatura, isto é, por aqueles que com entusiasmo, competência e discrição, fazem alguma coisa pelo nosso país. Segundo foi anunciado, a arte chocalheira foi iniciada há mais de dois mil anos, como testemunham os chocalhos celtiberos do século I a.C. que são semelhantes aos que são feitos actualmente. É, portanto, uma arte milenar que tem no território alentejano a sua maior expressão a nível nacional, especialmente nos concelhos de Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, com especial destaque para a freguesia de Alcáçovas.
O chocalho português é um instrumento de percussão munido de um só batente interno, que funciona da mesma maneira que um sino e que, habitualmente, é suspenso no pescoço dos animais com a ajuda de uma correia em couro. O chocalho está intimamente associado à pastorícia, sendo utilizado pelos pastores para localizar e dirigir os rebanhos, mas daí também resulta uma paisagem sonora única e característica. A inscrição do fabrico de chocalhos na Lista do Património Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente implica um Plano de Salvaguarda, uma espécie de “caderno de encargos" que visa reverter a tendência de desaparecimento desta arte, garantindo a transmissão do saber-fazer e a sustentabilidade futura da actividade. Daí que tenham sido propostas um conjunto de medidas para promover o ensino do ofício. Depois do cante alentejano e do fabrico de chocalhos que mais nos reservará o património cultural alentejano?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Falta de seriedade de quem nos governou

O Orçamento do Estado é o documento que traduz a actividade financeira do Estado, onde se incluem as receitas previstas e as despesas máximas autorizadas para o período de um ano ou, dito de outra forma, que trata de fixar a utilização anual a dar aos dinheiros públicos, tendo em vista a satisfação das necessidades colectivas. Trata-se do mais importante instrumento da acção governativa que é elaborado pelo Governo depois de ouvidos os parceiros sociais, sendo a respectiva proposta apresentada à Assembleia da República até ao dia 15 de Outubro, para ser discutida e votada. Este ano não vai ser assim.
O cumprimento do calendário constitucional recomendava que as eleições legislativas tivessem sido realizadas em Maio ou Junho, porque haveria vários meses para preparar o Orçamento do Estado para 2016. Porém, o Presidente tomou outra decisão  e, como se vê agora, decidiu mal.
No entanto, o processo de preparação do Orçamento começa habitualmente em Junho quando os Serviços recebem as instruções de orientação governamental e enviam para os escalões superiores as suas propostas com a explicitação das suas necessidades mínimas orçamentais para o ano seguinte, como por exemplo a despesa salarial prevista tendo em conta a despesa do ano corrente, as previsíveis despesas correntes de funcionamento e as despesas de investimento previstas.
Nada disto foi feito e, segundo a edição de hoje do Diário de Notícias, o novo governo socialista encontrou tudo por fazer no que respeita à preparação da proposta de Lei do Orçamento para 2016. Diz o jornal que “o trabalho produzido na anterior administração foi zero - mesmo aquele trabalho orçamental que não tem nada que ver com opções políticas de fundo”. Portanto, teremos o país sem Orçamento do Estado para 2016 durante vários meses porque houve falta de seriedade de um Presidente que marcou eleições fora de tempo e de um Governo que tratou da sua propaganda eleitoral em vez de cumprir com os seus deveres.

domingo, 29 de novembro de 2015

A enorme tragédia ambiental de Mariana

Mariana é uma cidade histórica brasileira do Estado de Minas Gerais que foi fundada por bandeirantes portugueses em finais do século XVII e cujo nome homenageia a rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa do rei D. João V. Situa-se numa região que é objecto de intensa exploração mineira e, para acomodar os materiais inertes provenientes da extracção do minério de ferro, foram construidas algumas barragens. Foi em duas dessas barragens, respectivamente Fundão e Santarém, pertencentes à empresa mineira Samarco, que no passado dia 5 de Novembro ocorreu uma tragédia que deixou um rasto de morte e de destruição, com graves danos para a sua população e para o meio-ambiente, em consequência de uma avalancha de lama que resultantou do rompimento das duas referidas barragens. Apesar desta lama não ter um teor marcadamente tóxico, o facto é que devastou e pavimentou mais de quinhentos quilómetros no seu percurso até ao mar.
Esta tragédia que ficou conhecida como o desastre de Mariana, é considerada o maior desastre ambiental da história de Minas Gertais e, para muitos observadores, é um retrato do Brasil contemporâneo, tendo servido para mostrar a negligência e a inoperância dos órgãos governamentares para enfrentar acontecimentos desta gravidade, mas também a enorme promiscuidade que prevalece entre as grandes empresas multinacionais, como é o caso da Samarco, e as instâncias políticas estaduais e federais.
Hoje o diário Estado de Minas de Belo Horizonte publica uma extraordinária fotografia do mar de lama a entrar no oceano e alerta para os “crimes contra o Brasil” e informa que a “tentativa de sabotar investigação de corrupção revolta o país”.

sábado, 28 de novembro de 2015

O vendedor de serviço para o Novo Banco

A Direcção Geral de Economia e Finanças da Comissão Europeia advertiu há umas semanas atrás, para a possibilidade dos contribuintes portugueses virem a suportar eventuais prejuízos do Novo Banco, depois de ter sido detectado um enorme buraco financeiro e de ser necessário reforçar o seu capital em 1398 milhões de euros no prazo de nove meses. A ministra Albuquerque afirmou então: “Digo o que sempre disse: os contribuintes não serão chamados a suportar eventuais perdas do Novo Banco”.
O assunto não ficou esquecido e a pressa para o vender acentuou-se. Assim, foi agora anunciado que o principal rosto da política de privatizações do governo de Passos & Portas tinha sido contratado pelo Banco de Portugal para vender o Novo Banco. A contratação do supracitado indivíduo de nome Sérgio Monteiro, que é um antigo funcionário da CGD, envolve uma remuneração mensal da ordem dos 30 mil euros, segundo noticiou o Público. O seu currículo revela que o referido Monteiro tem sido contemplado com alguns tachos a premiar a sua militância partidária, que assinou alguns contratos swaps, um dos quais gerou perdas de 152 milhões de euros ao Estado e, ainda, que esteve envolvido nas privatizações das lucrativas e estratégicas ANA e CTT, mas também da CP Carga e, por duas vezes, da TAP. Este currículo mostra que Monteiro tem mexido em muita massa, mas não garante que o tenha feito da melhor maneira, nem com salvaguarda do interesse nacional. Segundo diz o jornal, o montante que vai receber mensalmente está “a gerar perplexidade quer na CGD, quer no supervisor”, mas eu também fico perplexo por lhe pagarem tanto dinheiro, quando anda o país todo com o cinto tão apertado. E não deixarei de ficar perplexo quando souber que, ao contrário do que eles juraram, ainda teremos de pagar o Novo Banco