domingo, 6 de março de 2016

Adeus Aníbal. Não nos deixas saudades!

Vai terminar o seu mandato o mais impopular presidente da democracia portuguesa e alguns milhões de cidadãos vão sentir-se aliviados depois de um longo tempo presidencial marcado pelo sectarismo, pela arrogância, pela insensibilidade social, pelo novo-riquismo e pela pequenez cultural e mediocridade cívica.
A impopularidade do filho do Teodoro de Boliqueime vinha de longe, quando falava com a boca cheia de bolo-rei e quando criou a doutrina do bom aluno, da submissão a Bruxelas e do deslumbramento pelos milhões dos fundos comunitários, que gerou a euforia cavaquista que o catapultou da Travessa do Possolo para o Palácio de Belém. Aí, Aníbal deslumbrou-se completamente e começou por abdicar da dignidade do seu salário para se encostar às suas pensões. Encheu-se de assessores, rodeou-se de gorilas e fartou-se de viajar. Nunca foi capaz de fazer um discurso cultural, nem soube revelar preocupações com a pobreza ou com a desigualdade. Distinguiu um agente da PIDE e ostracizou Salgueiro Maia. Falou das cagarras das Selvagens, das vacas que sorriem e do sabor da banana da Madeira. Lamentou-se pela reforma da mulher, faltou ao funeral de Saramago, disse que o BES não corria riscos e nunca se cansou de dizer, sobre tudo e mais alguma coisa, que já tinha avisado.
Durante cerca de dez anos optou por não ser o Presidente de todos os portugueses e ninguém esquece o seu discurso de posse, vingativo, sectário e divisionista. Não percebeu a sua função de garante da unidade e da coesão nacionais, assistiu passivamente à intervenção da troika e não teve uma palavra de conforto para as vítimas da austeridade, nem para os milhares de jovens que foram obrigados a emigrar.
Recentemente, Aníbal empunhou a bandeira do seu partido e fez tudo para não empossar o actual Primeiro-Ministro, mas o experiente e inteligente António Costa decidiu convidá-lo para simbolicamente presidir a um Conselho de Ministros. Fez bem, mas não deixou de ser uma valente bofetada de luva branca.
Aníbal acumulou fortuna e não vai regressar a Boliqueime porque tem agora uma nova mansão na famosíssima Praia da Coelha, enquanto em Lisboa vai ocupar um gabinete novo no Convento do Sacramento, sem se saber para quê. Aníbal foi um mau sonho que passou. Não vai deixar saudades nenhumas e, provavelmente, também não vai ter um lugar na História.

quinta-feira, 3 de março de 2016

A triste opção da deputada Albuquerque

Foi hoje anunciado pela própria, que a partir da próxima 2ª feira a ex-ministra das Finanças vai ser administradora não-executiva da Arrow Global, uma empresa inglesa especializada na angariação e recuperação de dívida pública e privada. Depois de Gaspar e de Moedas, temos Madame Albuquerque a safar-se em grande, enquanto o amigo Passos fica por cá a ver navios e a dizer baboseiras.
A Arrow Global actua em Portugal desde há alguns anos e, entre outros, fez vários e muito lucrativos negócios com o Banif, exactamente quando Madame Albuquerque exerceu funções governativas relacionadas com a gestão de dívida pública nacional e com a salvaguarda do sector financeiro
Quer dizer que a ex-ministra das Finanças vai ser administradora de uma empresa que adquire activos detidos pelas empresas financeiras portuguesas, que especula e que depois os vende com mais-valias exorbitantes. Há quem diga que Madame Albuquerque vai trabalhar com um fundo "abutre", que lucra com a fragilidade do sistema financeiro português e com os activos tóxicos que estão na posse do Estado e que os contribuintes vão ter que pagar. Há também quem diga que esta fraqueza de Madame Albuquerque é uma ilegalidade e uma incompatibilidade, um caso de falta de ética e de promiscuidade, ou uma situação de escandalosa ganância pessoal. Há quem exija a clarificação dos “negócios” da Arrow Global.
As coisas, de facto, não soam bem. Apesar de ter dito que não é incompatível ser deputada e ser administradora de uma empresa sedeada em Londres, há quem diga que é uma irresponsabilidade política e uma desonestidade pessoal que uma deputada portuguesa sentada na última fila do Parlamento, passe o tempo a tratar dos assuntos da britânica Arrow Global. Dizem que é falta de senso, mas Madame Albuquerque tem bom senso. Olá se tem! Então qual é o problema de passar a ter dois empregos que lhe dão bom dinheirinho, de ter passaporte diplomático e de ter imunidade parlamentar? 

Há um mau jornalismo que envergonha

Hoje, a capa do jornal i é um exemplo de muito mau jornalismo, ao anunciar com grande destaque que a TAP é a quinta pior companhia do mundo e que a SATA é a pior, o que não é apenas um disparate mas é, também, uma falta de respeito para com os leitores do jornal e para com os trabalhadores e os passageiros daquelas companhias. Os quatro cidadãos que, no cabeçalho do jornal, colocam os seus nomes com o pomposo título de directores estavam distraídos ou são incompetentes.
Todos sabemos que são frequentes as comparações internacionais entre companhias aéreas e que, anualmente, são publicados rankings das melhores e das piores, das mais seguras, das mais pontuais ou das mais confortáveis, mas os jornais respeitáveis só divulgam esses rankings como curiosidades, porque essas classificações são subjectivas e muitas vezes manipuladas, pelo que não têm qualquer credibilidade. São, isso mesmo, curiosidades. Recentemente, houve três dessas curiosidades em que aparece a TAP.
[1] A Skytrax World Airline Awards anunciou que as melhores companhias aéreas estavam na Ásia e no Pacífico e que os World Airline Awards, considerados os “óscares da aviação comercial” tinham distinguido a Qatar Airways, a Singapore Airlines e a Cathay Pacific. Na lista das Top 100 airlines a TAP aparecia em 70º lugar, à frente de algumas companhias europeias e note-americanas.
[2] Na passada semana a Jet Airline Crash Data Evaluation Centre (JACDEC), uma organização alemã que analisa a segurança da aviação comercial, divulgou o seu relatório sobre segurança aérea e, entre sessenta companhias aéreas mundiais, colocou a TAP no 10º lugar do seu JACDEC Safety Index 2016.
[3] Há poucos dias, a revista norte-americana Fortune publicou um estudo que o Diário de Notícias divulgou que, entre setenta companhias aéreas, considera a TAP a quarta companhia “mais amada” do mundo nas redes sociais.
Nenhum jornal português deu relevo a essas curiosidades, o que é normal. O que não é normal é a capa da edição de hoje do jornal i que é sensacionalista, disparatada e envergonha o jornalismo.

quarta-feira, 2 de março de 2016

As eleições americanas estão na estrada

As eleições presidenciais americanas vão realizar-se no próximo dia 8 de Novembro para eleger o sucessor de Barack Obama, mas o processo eleitoral americano é tão complicado e, por vezes, tão diferente de estado para estado, que não me atrevo a tentar percebê-lo. A minha primeira dificuldade começa logo na constatação que, num país com mais de 300 milhões de habitantes, só haverá cerca de 70 milhões de eleitores recenseados. Até faz lembrar o Portugal de antes de 1974!
A campanha eleitoral dos candidatos Republicanos e Democratas arrasta-se durante alguns meses em eleições primárias que se realizam em todos os estados para escolher os delegados às convenções republicana e democrata, mas também os delegados ao colégio eleitoral que elegerá o Presidente. Ontem aconteceu a chamada Super Terça-feira, assim designada devido ao grande número de eleições estaduais que se realizaram e ao elevado número de delegados que foram eleitos para tomarem parte nas convenções nacionais dos partidos que escolherão o seu candidato.
Na corrida presidencial havia mais de duas dezenas de candidatos, mas depois de muitas desistências estão na corrida apenas cinco candidatos republicanos e dois candidatos democratas. Ontem, Ronald Trump pelos Republicanos e Hillary Clinton pelos Democratas acumularam vitórias que os posicionam muito favoravelmente para serem escolhidos como candidatos pelos respectivos partidos. Hoje, toda a imprensa americana como por exemplo o USA Today, destacam os resultados eleitorais da Super Terça-feira e publicam as fotografias de Trump e Clinton que, depois dos resultados de ontem, provavelmente se defrontarão no dia 8 de Novembro para ocupar o lugar que vai ficar vago na Casa Branca.

terça-feira, 1 de março de 2016

O Brexit é um desafio para muita gente

A decisão do governo britânico de realizar no próximo dia 23 de Junho um referendo para que o Reino Unido escolha se deve permanecer ou abandonar a União Europeia é, porventura, o mais grave acontecimento a afectar a coesão e o futuro de um projecto que se aproxima dos sessenta anos de idade. De facto, os tempos mostram-se difíceis para um projecto que já agrega 28 Estados-membros, com muitas línguas e muitas culturas, com percursos históricos e interesses bem diversos, cujas economias estão a passar por grandes dificuldades. A Europa está em crise profunda, sem liderança, sem solidariedade, sem rumo e à mercê de uma burocracia mais ou menos corrupta que se instalou em Bruxelas.
Embora a adesão do Reino Unido ao projecto europeu tivesse acontecido em 1973, o facto é que a sua integração tem sido um processo muito complicado, que agora se agudizou com a exigência britânica de reformas que devolvam competências aos Estados-membros, que travem ou limitem o processo de  integração europeia e que imponham restrições aos direitos dos imigrantes comunitários. Esta atitude britânica de afrontamente à tirania burocrática de Bruxelas corre o risco de ser seguida por outros Estados-membros, insatisfeitos pelo rumo que a Europa segue, com países com e sem o euro, que pertencem ou não pertencem à NATO, que estão integrados ou não nos Acordos de Schengen, isto é, provavelmente com mais factores de divergência do que de convergência.
Nesta altura, segundo as sondagens, equivalem-se os que dizem Sim e os que dizem Não à permanência do Reino Unido na União Europeia. Aos poucos, vão surgindo estudos que apoiam uma ou outra alternativa e um desses estudos foi divulgado pelo The Economist que, na capa da sua última edição, diz que o Brexit é mau para o Reino Unido, para a Europa e para o Ocidente. Outros estudos asseguram que a vida de dois milhões de cidadãos britânicos que vivem na Europa será muito afectada durante muitos anos, tal como o fabrico de automóveis, a agricultura e os serviços financeiros. Há estudos para todos os gostos, mas não restam dúvidas que o que vier a acontecer em Junho no Reino Unido vai afectar toda a Europa e pode ser a caixa de Pandora europeia que muitos temem.

Os jornais e os jornalistas da treta

Qualquer semelhança entre isto e um jornalista económico...
No passado dia 25 de Fevereiro a agência de notação financeira Moody's deu nota positiva à versão revista do Orçamento do Estado para 2016, considerando que a sua aprovação mostra "a capacidade e vontade do Governo em reverter o curso dos acontecimentos e apresenta um rumo fiscal mais realista que o apresentado no primeiro esboço do Orçamento". Esta opinião da Moody’s mostra que a negociação do Orçamento satisfez todas as partes envolvidas ou, dito de outra forma, foi bem negociado. Andávamos tão habituados a ver a Moody’s baixar o rating da dívida pública portuguesa e a prenunciar mais e piores desgraças financeiras, que este raríssimo e inesperado elogio nos surpreendeu, sobretudo depois da intensa campanha, por vezes caluniosa e insultuosa, que foi feita contra o Orçamento e contra o governo de António Costa.
Fiquei à espera de ver o que a imprensa ia dizer e, em especial, a imprensa económica. Porém, salvo duas ou três excepções que de forma ligeira trataram o assunto, não vi manchete, nem notícia, nem editorial, nem artigo de opinião. É certo que não li tudo, mas o que li foi suficiente para ver que os Gomes Ferreiras, os Antónios Costas, os David Dinizes e os Josés Manuel Fernandes se calaram. A notícia terá passado em algumas televisões mas, ao contrário do que aconteceu quando a agência canadiana DBRS poderia ter descido o rating da dívida portuguesa, agora ninguém tomou a iniciativa de ligar para a Moody’s para se perceber melhor esta sua surpreendente posição.
Hoje, o jornalista Nicolau Santos destacou-se uma vez mais como um profissional de excepção ao denunciar no Expresso este comportamento sectário da nossa imprensa e ao sugerir que aguardemos pelas futuras posições menos favoráveis das outras agências de rating, casos da Standard & Poor’s, da Fitch e da DBRS. Nem foi preciso esperar: hoje o Conselho de Finanças Públicas fez comentários ao Orçamento e os telejornais esqueceram tudo para abrir os noticiários com essa informação. Que tristeza!

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Preservar faróis para guardar memórias

Ao longo de muitos anos os faróis foram a luz humanitária e fraterna que apoiou os navegantes a encontrar abrigo da tormenta e porto seguro. No século XIX, com o incremento do comércio marítimo, a descoberta da navegação a vapor e a utilização da electricidade como fonte luminosa, os faróis tornaram-se elementos indispensáveis na paisagem marítima. Porém, enquanto marca que pode facilmente ser observada do mar, de dia ou de noite, os faróis perderam na actualidade a importância que tiveram no passado, porque os sistemas electrónicos de posicionamento, designadamente o radar e o GPS, os tornaram simples testemunhos de uma outra era. Assim, os faróis já não exibem aquele "olhar humanitário na distância da noite muito escura", de que falou Fernando Pessoa. Porém, embora tenham perdido uma parte da sua utilidade prática, o seu significado simbólico acentuou-se e, um pouco por todo o mundo, há um movimento generalizado, sobretudo nas nações marítimas, no sentido de preservar essas memórias históricas que são os faróis.
Um desses países é a França, onde existe a SNPB – Société pour le Patrimoine des Phares et Balises, que dinamiza os movimentos de preservação dos faróis e a sua adaptação a novas funções, designadamente museus, restaurantes, pequenos hotéis ou centros culturais. No entanto, há inúmeras situações em que a adaptação a novas funções não tem viabilidade económica nem desperta interesse de ninguém, sobretudo quando se situam sobre ilhéus ou rochedos isolados e distantes. No sentido de chamar a atenção das autoridades e de mobilizar a sociedade civil para esta causa, o seu presidente Marc Pointud decidiu iniciar ontem uma estadia solitária de dois meses no Farol de Tévennec, um farol que desde 1875 está situado sobre um ilhéu rochoso e inóspito ao largo da ponta du Van, na Bretanha. A iniciativa de Marc Pointud resultou de imediato e Le Télégramme dedica-lhe hoje a sua primeira página.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Austrália: geopolítica e geoestratégia

No quadro da crescente influência chinesa no mar da China e na sua periferia meridional, mas também considerando a tensão na península coreana, o governo australiano do Primeiro-ministro Malcolm Turnbull apresentou um ambicioso “Defence’s White Paper shopping list”, hoje revelado pelo The Sydney Morning Herald. Trata-se, de facto, de um plano de rearmamento militar que prevê um investimento de 195 mil milhões de dolares australianos ($195 billion AUD) nos próximos dez anos. Ao câmbio actual e sem considerar as variações do valor do dinheiro ao longo desse período, esse investimento corresponde a cerca de 127 mil milhões de euros, o que é uma coisa só possível de acontecer num país muito rico.
A lista de material a adquirir é muito extensa e, para além de incluir 9 fragatas anti-submarinas, 12 navios-patrulha costeiros, 72 aviões F-35 e outros tipos de aviões e helicópteros, inclui 12 submarinos. Esses submarinos deverão ser construidos na Austrália e custarão $50 billion AUD (32 mil milhões EUR), estimando-se que os respectivos custos de manutenção ao longo da sua vida útil até meados do século XXI atinjam o dobro daquele valor, ou seja, o anunciado programa de novos submarinos custará cerca de $150 billion AUD.
Não deixa de ser curioso comparar o que se passou em Portugal com a compra de dois submarinos e o que está a acontecer na Austrália com a compra de doze submarinos para juntar à frota de doze unidades que já possui. Por cá foi a crítica e até a chacota da imprensa e da opinião pública, enquanto na Austrália se assiste ao elogio da decisão e a uma  manifestação de orgulho nacional.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As curiosidades e os riscos de Beirute

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A brutal guerra que tem destruido a Síria e o Iraque, que se anuncia poder ter amanhã um cessar-fogo, passa pelas grandes capitais mundiais mas, também, em menor escala, por outras cidades da região. Uma dessas cidades é Beirute, a capital do Líbano. Beirute fica apenas a 85 quilómetros de Damasco, a capital da Síria, enquanto a destruida cidade de Homs, que foi a terceira maior cidade síria e “berço” da rebelião que conduziu à guerra, está apenas a 40 quilómetros da fronteira libanesa.
O Líbano é um país com uma economia e uma cultura muito abertas, que depende em larga escala do comércio com os seus vizinhos e das remessas dos seus emigrantes no Golfo e em Israel. Assim, o Líbano sofre muito com a guerra ali ao lado, para além de ter os seus próprios problemas, desde as sequelas das guerras civis de 1982 e 2006, até à existência no seu território do partido Hezbollah, classificado como terrorista, que está envolvido na guerra da Síria.
Provavelmente, a melhor informação sobre o que se passa na região é de origem libanesa, pois estará muito menos condicionada do que a informação produzida e veiculada pela generalidade dos intervenientes na guerra. O jornal diário الأخبار ou al-akhbar, tem uma edição online em inglês, que informa sobre as vissicitudes da guerra, os refugiados que estão por todo o território libanês, as ameaças sauditas contra os seus emigrantes, as atrocidades da Frente Al-Nusra, a filial síria da Al-Qaeda, entre outras informações. Porém, na edição de hoje o jornal não destaca as desgraças da guerra, mas tão só o risco dos cafés, das esplanadas e dos restaurantes que podem ser perigosos para a saúde, pois lançam açucar no sangue, isto é, “vendem diabetes”. Curiosamente, trata-se da notícia de primeira página do al-akhbar e é ilustrada com uma imagem do café COSTA, um dos mais famosos franchising de café do mundo. Grande trademark!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O FCP na liderança do negócio do futebol

O futebol é cada vez mais um grande negócio que movimenta muitos milhões com a compra e venda de jogadores, com a publicidade nas camisolas e nos estádios e com as receitas das transmissões televisivas. Esse negócio já tem carácter mundial e, nos últimos anos, nele participam activamente alguns países que ainda estavam fora do universo futebolístico, como a China, os Estados Unidos ou a India.
A faceta mais evidente do negócio são as contratações das grandes estrelas do espectáculo do futebol e o facto é que há treinadores e jogadores portugueses um pouco por todo o mundo. Hoje, o diário desportivo Cancha que se publica na Cidade do México, apresenta com destaque de primeira página, uma desenvolvida reportagem intitulada “El club Midas”, um título inspirado no Rei Midas que, segundo a mitologia grega, transformava em ouro tudo aquilo em que tocava.
A reportagem refere que o FCP (Futebol Clube do Porto) “es el único club del mundo que puede presumir ganancias por venta de jugadores de 436,96 miliones de euros en las últimas 12 temporadas, en gran parte a su técnica de adquirir bueno e barato”, promover os jogadores, ganhar títulos e vender.
A capa do jornal é ilustrada com imagens de alguns dos seus mais famosos jogadores oriundos da América do Sul que, depois de terem sido campeões pelo FCP foram vendidos a peso de ouro, o que aconteceu com Hulk, Falcão, James Rodriguez, Lisandro Lopez e Jackson Martinez. Porém, o jornal mexicano salienta que o FCP decidiu apostar “por el talento mexicano con las compras de Héctor Herrera, Miguel Layún, Jesús Corona y Raúl Gudiño”. Será que o FCP e o seu Presidente continuarão a transformar em ouro estes jogadores para depois serem vendidos por muitos milhões? Certamente que não. Isso já foi chão que deu uvas...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Orçamento e os jornalistas-papagaios

A Assembleia da República aprovou ontem o Orçamento do Estado para 2016. O Orçamento é um documento que fixa o limite das despesas autorizadas e faz uma previsão das receitas, que indica as fontes de financiamento, que orienta a actividade financeira do Estado e gere a dívida pública, que assegura a gestão eficiente e racional dos dinheiros públicos, que integra as medidas de política económica, que fixa a política fiscal e que, de uma forma geral, visa contribuir para a coesão da sociedade e para o bem-estar da população. É o documento mais importante para a gestão do Estado. Pela primeira vez na nossa história democrática, o Orçamento do Estado foi aprovado por alguns partidos políticos que até agora se tinham auto-excluido do processo orçamental e essa circunstância deve ser destacada como um exemplo de inclusão, que vem mostrar que não pode haver portugueses de primeira e portugueses de segunda. Além disso, o Orçamento agora aprovado foi viabilizado pela Comissão Europeia, está de acordo com a Constituição da República, cumpre as promessas eleitorais e respeita os acordos parlamentares que viabilizam a actual maioria parlamentar.
Porém, apesar destas garantias a que não estávamos habituados, nunca um Orçamento suscitou tanta polémica em Portugal. Os mesmos jornalistas e comentadores que tudo fizeram para assustar os eleitores antes do 5 de Outubro e que tanto combateram a formação de um governo que acabou com o arrogante conceito de “arco da governação”, têm estado activíssimos contra o Orçamento e contra a actual solução governativa democrática. As nossas televisões perderam completamente o pluralismo que deveriam ter e têm estado vergonhosamente ao serviço do combate ao Orçamento. É mesmo um caso de atropelo à lei e à ética jornalística. A TVI, por exemplo, atingiu o máximo ridículo ao juntar em horário nobre quatro jornalistas-papagaios que, sem qualquer contraditório, puderam repetir-se e vomitar sem qualquer pudor as suas críticas ideológicas ao Orçamento e ao governo. Isto assim não é democracia. Felizmente que a fotografia que ilustra a capa do Diário Económico mostra a confiança que anima os nossos governantes.

Elizabeth Line em honra de Isabel II

A Rainha Isabel II que foi o primeiro monarca reinante que utilizou o Metro de Londres quando em 1969 inaugurou a Victoria Line, visitou ontem os trabalhos que decorrem na estação de Bond Street, uma das principais estações da Crossrail Line, tendo sido informada que essa linha será rebaptizada como Elizabeth Line, quando for inaugurada em Dezembro de 2018.
A nova Elizabeth Line constitui o maior projecto de construção e/ou modernização de qualquer rede de metropolitano europeu, prevendo-se que seja utilizada diariamente por meio milhão de passageiros e que melhore a qualidade de vida de muita gente. O projecto arrancou em Maio de 2012, tem um custo estimado de 14,8 mil milhões de libras e concluiu agora a “maratona” dos trabalhos de perfuração e alargamento de túneis, realizados por uma máquina perfuradora com o nome de Victoria. A nova linha atravessará a cidade de Londres no sentido Este-Oeste, terá cerca de 136 quilómetros de comprimento, cerca de 40 estações, novas ou modernizadas, permitindo a circulação rápida de composições de carruagens com 200 metros de comprimento.
A edição de hoje do diário londrino The Times destaca esta notícia, embora também dê importância “à nação dividida” e ao referendo que se vai realizar no próximo dia 23 de Junho, no qual os britânicos vão dizer se querem ou não pertencer à União Europeia. Curiosamente, foi Boris Johnson, o mayor de Londres, quem convidou a Rainha para visitar a obra em Bond Street e lhe anunciou que a nova linha se chamará Elizabeth Line. Só que Boris Johnson é a principal figura do “não” à permanência do Reino Unido na União Europeia. Será que Isabel II também defende que o Reino Unido abandone a União Europeia?

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Aviões canadianos já regressaram a casa

Na sua edição de hoje, que inclui uma sugestiva capa, o jornal National Post de Toronto faz um balanço da intervenção da aviação canadiana na guerra contra o ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant), também conhecido por ISIS (Islamic State of Iraq and Syria) ou, ainda, como ultimamente se vem generalizando chamar-se, o Daesh.
A capa do jornal destaca que os aviões McDonnell Douglas CF-18 Hornet da Força Aérea do Canadá estiveram envolvidos nos teatros operacionais do Iraque e da Síria desde Novembro de 2014, tendo realizado 1378 saídas operacionais, 251 ataques a 267 posições e lançado 606 bombas, sobretudo na área da cidade iraquiana de Mosul. No território sírio os CF-18 canadianos fizeram apenas cinco acções e lançaram 27 bombas. Entretanto, os seis aviões canadianos regressaram a casa e reivindicam que nos seus 251 ataques não causaram quaisquer baixas civis. O fim da participação canadiana na coligação liderada pelos Estados Unidos gerou controvérsia e muito debate na esfera política, mas também na opinião pública canadiana, pois houve quem entendesse este regresso como uma quebra na solidariedade aliada.
Porém, o que é mais interessante nesta notícia é o debate público sobre a participação canadiana nas operações aéreas contra o ISIS, com apreciação crítica dos meios envolvidos e dos resultados obtidos. Por isso, o jornal pergunta o que significaram 606 bombas canadianas no contexto de mais de 32.000 bombas lançadas pela coligação internacional e se essas 606 bombas fizeram alguma diferença na guerra contra o ISIS. Em síntese, a guerra já não é o que era e os contribuintes já não aceitam pagar facturas tão avultadas como esta.

O cemitério português de Richebourg

O jornal La Voix du Nord que se publica em Lille, destaca hoje em primeira página que vão ser propostos para apreciação e classificação pela UNESCO um conjunto de 19 sítios – cemitérios e memoriais – localizados na região administrativa francesa de Nord-Pas-de-Calais, junto da fronteira belga. A proposta será apresentada pela associação “Paysages et sites de mémoire de la Grande Guerre” e inscreve-se na evocação do 1º centenário da Grande Guerra, tendo como objectivo fazer com que os inúmeros cemitérios militares da região integrem a lista de bens culturais da UNESCO. Esses sítios simbólicos já são uma atracção turística, mas as autoridades pensam que a sua classificação poderá potenciar mais visitas à região e, dessa forma, valorizar a sua economia. Numa primeira recolha o comité científico da associação apreciou 138 sítios e bens, sobretudo necrópoles e cemitérios militares, entre os quais alguns cemitérios de tropas expedicionárias portuguesas, indianas e canadianas, além de cemitérios de tropas alemãs, francesas e inglesas, tendo seleccionado cinco no Nord e catorze no Pas-de-Calais.
Entre os sítios selecionados está o cemitério militar português de Richebourg, situado na comuna de Richebourg, onde foram recolhidas as sepulturas de 1831 soldados portugueses mortos durante a 1ª Guerra Mundial, que se encontravam dispersas por diversos cemitérios franceses e belgas. Este cemitério foi inaugurado em 1928 e, poucos anos depois, foi construido um muro de protecção e uma porta monumental com materiais importados de Portugal. Em 1976 o sítio foi valorizado com a construção de uma capela da invocação de Nossa Senhora de Fátima.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

R.I.P. Umberto Eco

Aos 84 anos de idade faleceu ontem em Milão o sociólogo Umberto Eco, uma das mais importantes figuras da cultura italiana dos últimos 50 anos, sobretudo como romancista e como académico. Os seus livros tornaram-no conhecido em todo o mundo e, de entre eles, destacou-se O Nome da Rosa, que se transformou num best-seller internacional traduzido em todo o mundo e que vendeu milhões de exemplares, tendo sido adaptado ao cinema. Para além desse romance, também O Pêndulo de Foucault e A Ilha do Dia Anterior constituiram grandes êxitos editoriais.
Porém, o nome de Umberto Eco também se tornou uma referência para a comunidade académica e, em especial, para os muitos milhares de licenciandos, mestrandos e doutorandos portugueses que encontraram no seu livro Como se faz uma Tese em Ciências Humanas, o apoio científico necessário para redigirem as suas dissertações académicas. Através desse livro tornei-me um grande admirador de Umberto Eco que, actualmente, era presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha.
Por todo o mundo surgiram louvores aos méritos intelectuais de Umberto Eco e o  jornal Público homenageou muito justamente na sua edição de hoje o académico e o romancista, com uma fotografia na sua primeira página.