terça-feira, 12 de abril de 2016

Feria de Sevilla, a grande festa andaluza

A Espanha teve eleições legislativas no dia 20 de Dezembro de 2015 mas, quase quatro meses depois, os seus líderes ainda não se entenderam quanto à chefia e composição do futuro governo, pelo que há quem aposte que terão que ser realizadas novas eleições. Porém, a vida corre com normalidade por todo o país e a cidade de Sevilha é bem o exemplo disso. Ainda não se fecharam as cortinas da Semana Santa e aí está a Feria de Sevilla ou Feria de Abril, para divertir os sevilhanos e os muitos milhares de turistas durante a corrente semana. 
No seu actual formato a feira realiza-se desde meados do século XIX num enorme recinto na margem ocidental do rio Guadalquivir. À entrada desse recinto é montado o pórtico da luz, uma fachada coberta com milhares luzes que todos os anos é diferente e que é o ex-libris da festa, com que a edição de Sevilha do diário ABC ilustra hoje a sua primeira página.  Depois surgem muitas centenas de casetas devidamente decoradas que constituem o elemento central da festa, onde as pessoas convivem, comem, bebem e dançam. O ambiente da feira é caracterizado pelo traje "obrigatório" das sevilhanas adornadas de colares, pulseiras e brincos e com uma flor na cabeça, mas também pelo estilo dos tratadores de gado e dos ganaderos, que se passeiam pelo recinto da feira a cavalo ou nas suas tradicionais carroças puxadas por cavalos.
No entanto, o outro ponto alto da festa são as corridas de touros que, todos os dias, se realizam na famosa Plaza de toros de la Real Maestranza de Caballeria de Sevilla, em que participam os mais famosos diestros da festa brava. Modernamente também o futebol entrou na festa, até porque o Real Bétis Balonpié e o Sevilha Fútbol Club moram ali ao lado.
A Feria de Sevilla foi inaugurada ontem à meia noite. Hoje e amanhã, a festa vai ficar suspensa pelo futebol, pois todos querem ver o Real Madrid-Wolfsburgo e o Atlético de Madrid-Barcelona.

domingo, 10 de abril de 2016

Panama papers: uma grande tristeza

A história dos Panama papers é uma grande tristeza por muitas razões, apesar de ser um assunto que ainda está por esclarecer. Porém, há muita coisa que já está a acontecer na Islândia, na Grã-Bretanha, na Espanha, na Itália, na Colômbia e noutros países, relacionado com esse escritório ou lavandaria que dá pelo nome de Mossak Fonseca. Muito já se escreveu e muito já se disse sobre o assunto, mas o facto é que dos “mais de 240 portugueses nas offshores” que o Expresso ontem anunciou, o jornal apenas indicou três nomes, os quais já declararam não estar a cometer nenhuma ilegalidade. Vamos a ver quem são os outros 237 e se também eles cumprem todas as boas regras fiscais e se afinal nada de anormal se passa. O sensacionalismo do Expresso pode ser um caso de manipulação e de mau jornalismo. Ou a procissão ainda vai no adro? Esperemos para ver!
Entretanto, os jornalistas portugueses que têm acompanhado a investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, que pertencem aos quadros do Expresso e da TVI, parece que estão a anunciar nomes a conta-gotas, provavelmente para alimentar as suas audiências e fazer o jeito aos seus patrões. Se é assim, isso não é jornalismo. Esses jornalistas, ou não sabem mais nada sobre o assunto e, nesse caso, a montanha pariu um rato ou, então, sabem algo mais e esconderam o que sabem numa qualquer offshore jornalística até que seja mais conveniente para alimentar as audiências.
Paralelamente, as televisões encheram-se de sábios e de especialistas a comentar o escritório de Mossak Fonseca. Muitos deles têm aparecido a dizer que não há ilegalidade nenhuma nas offshores e deixam no ar a ideia de que afinal não há rapazes maus na nossa terra., isto é, antes de saberem o que se passa, já estão a branquear os eventuais depositantes no Panamá. Tudo isto é realmente uma grande tristeza!

sábado, 9 de abril de 2016

Cristiano Ronaldo, um português no topo

A edição de hoje do diário desportivo francês L’Équipe inclui o seu habitual magazine de fim-de-semana, que é dedicado ao futebolista Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, nascido na cidade do Funchal no ano de 1985. A capa da revista utiliza uma imagem estilizada do futebolista português, a sugerir que estamos perante uma figura que não pertence ao mundo real, mas que Cristiano Ronaldo já é uma peça de um imaginário de lenda. A revista poderia ter escolhido uma fotografia do atleta ou do artista da bola, mas preferiu participar na construção antecipada de uma lenda e de lançar uma espécie de Che Guevara do futebol.
Goste-se ou não de futebol, o facto é que nunca um português foi tão conhecido no mundo e que o futebolista Cristiano Ronaldo é, desde há vários anos, o maior ex-libris do nosso país. O espaço que lhe dedicam os jornais e as televisões, mas também o merchandising que associou ao seu nome, deram-lhe uma notoriedade universal. Em Portugal não há políticos, nem artistas, nem escritores, nem cientistas, que alguma vez fossem tão conhecidos no mundo. Poderá parecer injusto que alguns portugueses com longas carreiras dedicadas ao serviço do progresso e do bem comum, não tenham o apreço nem o reconhecimento público que o mundo atribui a um futebolista de talento, que finta os adversários, que cabeceia a bola e que faz remates que os guarda-redes não conseguem deter. Pode parecer pouca coisa para tão grande fama, mas a vida moderna é cada vez mais um espectáculo em que Cristiano Ronaldo é, seguramente, o melhor actor português de sempre.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Uma lição de Economia vinda de França

O jornal PresseOcéan de Nantes anunciou hoje que o armador italo-suiço MSC oficializou uma encomenda de quatro grandes paquetes aos estaleiros franceses de STX em Saint-Nazaire, num contrato que ascende a 4 mil milhões de euros de investimento e que vai assegurar trabalho directo a 3.500 pessoas durante dez anos. O contrato é de tal dimensão que o Presidente François Hollande não abdicou de presidir à cerimónia da sua assinatura, a mostrar a sua importância económica para a França.
Portanto, os estaleiros de Saint-Nazaire vão construir quatro navios com mais de 200 mil toneladas de arqueação bruta, com 335 metros de comprimento e 47 metros de largura, que começarão a ser entregues ao armador a partir de 2022. É um investimento gigante, daqueles que enchem de “inveja” qualquer país que tenha desemprego persistente ou tenha capacidade instalada não aproveitada. Portugal vive uma situação de desemprego estrutural e de não criação de emprego que é, cada vez mais, uma ameaça para as futuras gerações. A falta de investimento é dramática e não podemos iludir-nos com o aumento das exportações de sapatos, da pera rocha e do vinho alentejano. O problema é muito sério e muito difícil de ultrapassar, pelo que há necessidade de juntar as forças da imaginação e da inteligência para captar investimento, que não seja apenas o imobiliário e a especulação que lhe está associada. A diplomacia económica tem que ser outra coisa, porque a que temos visto é uma pequenina feira de vaidades  que não tem dado os resultados necessários.
A notícia que hoje nos chega de Nantes é mais um soco no estômago dos portugueses que, cada vez mais, estão fora dos circuitos internacionais de investimento sem saberem exactamente os porquês dessa situação. A falta de investimento em Portugal começa a ser um problema de sobrevivência nacional e é preciso que os políticos percebam isso. Começa  a ser uma emergência nacional.

Os luso-ricos e a lavandaria do Panamá

O escândalo dos Papéis do Panamá foi denunciado há vários dias e, ao contrário da imprensa portuguesa que está silenciosa ou quase silenciosa sobre este caso, os jornais de referência ingleses, franceses e espanhóis mostram-se muito atentos no acompanhamento do caso. A investigação iniciada pelo jornal alemão Suddeutsche Zeitung e depois continuada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ, sigla em inglês) inclui 11,5 milhões de documentos, tendo encontrado um enorme volume de depósitos em paraísos fiscais, pertencentes a dezenas de políticos ou personalidades de destaque, que revelam um esquema de fuga aos impostos à escala global. A lista de clientes do escritório de advogados Mossack Fonseca, com sede no Panamá, inclui presidentes e primeiros-ministros em exercício ou já fora de funções e, ainda, muitas celebridades, que vão do futebolista Lionel Messi à irmã do rei Juan Carlos de Espanha. É a maior fuga de informação de sempre, em volume, que mostra como os ricos e os poderosos usam os paraísos fiscais para esconder fortunas e a sua origem, que pode ou não ser duvidosa. Assim, não se tratará apenas de fuga aos impostos, mas também de verdadeiras lavagens de dinheiro.
Nesta lavandaria panamiana pouco se sabe sobre os portugueses, mas parece haver 244 empresas e 34 cidadãos portugueses envolvidos no caso. Também se diz que haverá 36 mil milhões de euros depositados na Suiça por cidadãos portugueses. E consta que a totalidade ou quase totalidade das empresas do PSI20 têm sede e pagam impostos na Holanda. Se nos lembrarmos o que aconteceu com o BPN, com o BES e com o BANIF, de onde voaram muitos milhões para destino incerto perante o olhar distraído dos reguladores, mas também das apressadas e duvidosas privatizações da EDP, da REN, dos CTT, da ANA e de outras das nossas empresas, ficamos com um desolador e inimaginável quadro, que envergonharia D. Afonso Henriques, o rei D. João II ou o Marquês de Pombal. É uma vergonha que as nossas autoridades fiscais se preocupem em saber se o meu barbeiro passa ou não passa recibo do meu corte de cabelo ou se eu incluo a factura da pasta de dentes como despesa de saúde na minha declaração de IRS, enquanto tudo isto se passa sem que ninguém actue. Estamos nas mãos da justiça-espectáculo, do fisco de vão de escada e de políticos subalternos que, embora gritando no Parlamento, se encolhem perante tudo isto.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A preocupante radicalização do Brasil

O Brasil está a passar por uma situação muito complexa, sobre a qual é difícil emitir opinião, sobretudo quando não se é brasileiro e se está separado por 7.376,32 quilómetros, que é a distância que separa as cidades de Lisboa e de Brasília. As notícias que atravessam o Atlântico são muito contraditórias e parciais e, cada vez mais, revelam a gravidade da situação e a dificuldade para se encontrar uma saída política. Tudo isto acontece num quadro mundial de grande perturbação e de persistente crise, mas também de luta entre modelos de sociedade e de interesses financeiros globais, a que o Brasil e a sua dimensão estratégica não escapam. Nessas condições, todas as contradições culturais da sociedade brasileira emergem, convergindo nos mensalões e nas operações lava-jato, num esquema que directa ou indirectamente beneficiou muita gente, sobretudo das classes dominantes de todos os partidos políticos, com a propina e a lavagem de dinheiro a tornarem-se prática generalizada, em paralelo com a pobreza que ainda não foi irradicada e que afecta muitos milhões de brasileiros. Essa é uma realidade que está a corroer o ambiente e a coesão nacionais, com o povo a sofrer como sempre com as incertezas do futuro. Daí nasce a luta política em que vale tudo e em que aparece a questão do impeachment, que não resulta de uma acusação pessoal contra a Presidente Dilma Rousseff, mas que é um verdadeiro instrumento de luta de uma parte do Brasil contra a outra parte.
A criativa capa da edição do passado fim de semana do Zero Hora de Porto Alegre sintetiza a situação brasileira como o encontro entre a corrupção e a ”roubalheira que corrói as instituições” e o radicalismo político e a escalada de intolerância. Vamos ver como os brasileiros vão ultrapassar este imbróglio.

Brest, capital europeia das festas do mar

O jornal bretão Le Télégramme anuncia hoje o j-100, isto é, os cem dias que faltam para o início das Fêtes Maritimes que se realizarão em Brest entre os dias 13 e 19 de Julho, durante as quais são esperados mais de 1200 navios no porto.
Este festival, que a organização classifica entre les plus grands rendez-vous maritimes de la planète, realiza-se de quatro em quatro anos desde 1992. Concebido inicialmente como um festival específico para a vela tradicional, o festival tem alargado o seu âmbito e, actualmente, acolhe todo o tipo de navios, incluindo veleiros oceânicos, navios de guerra, navios de investigação científica e até quebra-gelos, para além dos mais modernos iates que a tecnologia tem criado. A própria base naval de Brest, apesar das questões de segurança que se levantam, aderiu a este festival e abrirá as suas instalações e os seus navios à curiosidade do público. Este ano esperam-se cerca de cinco dezenas de grandes veleiros de mais de 30 metros e, entre eles, o L'Hermione, que voltará a Brest depois do seu périplo americano do ano passado e cuja imagem serviu para o Le Télégramme ilustrar a sua edição de hoje, mas também les plus beaux voiliers russes, hollandais et portugais. Durante uma semana os nove quilómetros de cais serão transformados numa enorme floresta de mastrosque serão percorridos diariamente por cerca de 100 mil visitantes.  No festival deste ano, haverá cinco países e regiões com historial na navegação que serão particularmente destacadas como convidados de honra: os Países Baixos, Portugal, Rússia, Reino Unido e a Polinésia.
Segundo referiu a organização, o elevado custo do festival terá contrapartidas asseguradas e promoverá a notoriedade e a imagem de Brest como grande centro mundial das actividades marítimas ou como "capital europeia das festas do mar". Talvez pudéssemos aprender com as autoridades de Brest.

domingo, 3 de abril de 2016

Argentinos nas Malvinas 34 anos depois

A guerra das Falklands (para os britânicos) ou guerra das Malvinas (para os argentinos) também têm sido designadas como a “guerra das dez semanas”, pois teve início no dia 2 de Abril de 1982 com a entrada das tropas argentinas em Port Stanley e terminou quando, nessa mesma povoação, o general Mario Benjamín Menéndez se rendeu ao general Jeremy J. Moore às 23 horas e 59 minutos do dia 14 de Junho. Nessas dez semanas tinham morrido 649 argentinos, muitos dos quais foram sepultados num cemitério especialmente construído para o efeito em Port Darwin, a cerca de 90 quilómetros de Port Stanley, o qual se conserva impecavelmente tratado e limpo, como sempre acontece com os cemitérios militares ingleses.
Todos os anos, no dia 2 de Abril, os argentinos costumam homenagear os seus mortos na guerra das Malvinas, um pouco por todo o país. Porém, este ano, o governo da província de San Juan decidiu promover uma visita às ilhas e, pela primeira vez, um grupo de 25 ex-combatentes visitou o cemitério de Darwin. De acordo com a notícia do Diário de Cuyo, o principal jornal da cidade de San Juan, o grupo de 25 ex-militares que combatera naquela mesma área há 34 anos, esteve em peregrinação emocional no cemitério de Darwin, onde passou quatro horas e fotografou, filmou e rezou. Durante a homenagem aos seus camaradas ali sepultados, o grupo exibiu uma bandeira argentina e cantou o hino nacional argentino, acto que as autoridades só permitem naquele local, nos termos de um acordo a que se chegou em 1999, ou seja, “este es en el único de las islas donde los argentinos pueden darse el permiso de expresar lo que sienten por Malvinas”.
Porém, o facto é que os argentinos se aproximam das Falklands, enquanto os navios ingleses se afastam das Malvinas...

sábado, 2 de abril de 2016

A defesa das Falklands não escapa à crise

As ilhas Falklands, a que os argentinos chamam Malvinas, estiveram em 1982 na origem de uma guerra em que se envolveram britânicos e argentinos, quando estes, então governados por uma Junta Militar e reivindicando direitos soberanos sobre as ilhas, decidiram avançar com uma invasão e a sua ocupação militar.
O governo de Margaret Thatcher reagiu e preparou uma força militar que se dirigiu para o Atlântico Sul e que em pouco tempo e depois de duros combates, reocupou as ilhas. A guerra durou dez semanas e traduziu-se num balanço de 904 mortes e 2432 feridos de ambos os lados, 11.313 prisioneiros argentinos e elevadas perdas materiais, incluindo o afundamento de vários navios, designadamente um cruzador, dois destroyers, duas fragatas e um submarino, mas também a destruição de 49 helicópteros e de 45 aviões de combate, além de muitas outras aeronaves e embarcações. A Grã-Bretanha impôs-se com notável rapidez e eficácia e a sua soberania sobre as ilhas foi rapidamente reposta.
Desde então, a presença naval britânica nas Falklands tem sido contínua, quer como factor de dissuasão, quer como elemento de apoio às autoridades e à população das ilhas. Porém, no passado mês de Novembro, alegadamente devido a problemas nos motores dos destroyers e depois de 34 anos de continuada presença naval nas Falklands, uma fragata britânica regressou às ilhas Britânicas e não foi substituída. Aparentemente, até o governo britânico considerou inaceitável esta decisão da Royal Navy, mas o facto é que esse mesmo governo de David Cameron tem procedido a “cortes selvagens” nos orçamentos militares, em nome da crise. A edição de hoje do britânico i - national newspaper of the year - trata desse assunto, que não deve ser nada agradável para o espírito imperial britânico.

Viva a Constituição da nossa República!

A Constituição da República Portuguesa comemora hoje o seu 40º aniversário, pois foi aprovada pela Assembleia Constituinte no dia 2 de Abril de 1976.
Apesar do percurso cheio de dificuldades que tem sido seguido pela sociedade portuguesa ao longo destes quarenta anos, em que se têm intercalado governos de diferente orientação partidária, a Constituição da República Portuguesa tem sido um farol-guia e um ponto de convergência das principais correntes de opinião nacionais. 
O texto constitucional foi preparado num contexto político e social muito complexo, tendo sido aprovado por todos os partidos, com excepção do CDS que votou contra. Os 250 deputados constituintes tinham sido eleitos no dia 25 de Abril de 1975 nas primeiras eleições livres com sufrágio universal realizadas em Portugal, tendo-se registado uma excepcional participação de 91,66%, que elegeu 116 deputados do PS (37,8%), 81 do PPD (26,3%), 30 do PCP (12,4%), 16 do CDS (7,6%), 5 do MDP/CDE (4,1%), um da UDP (0,8%) e um da ADIM-Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (0,03%).
Ao longo de quarenta anos, a Constituição já teve sete emendas, com as quais se procurou adaptar à própria evolução da realidade nacional e aos contextos internacionais em que o país está inserido, mas tem mantido os grandes princípios orientadores consagrados com a revolução do 25 de Abril de 1974.
Hoje, vivemos um tempo de muitas incertezas. Os horizontes estão carregados de nuvens que se vão acumulando sobre uma Europa à deriva e sobre um mundo cada vez mais desregulado. O nosso futuro é demasiado incerto, muito inseguro e cada vez mais condicionado por variáveis que já não estão nas nossas mãos, pois estamos sujeitos às regras da União Europeia e temos uma dívida colossal que nos mina o crescimento e o nosso modo de vida. Nessas circunstâncias, bem precisamos de gente capaz para nos governar e de um texto constitucional que nos ajude a manter princípios mínimos de soberania e de dignidade.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Disputas em jogo no Mar do Sul da China

A edição de hoje do The New York Times destaca em primeira página uma reportagem intitulada “Shadowboxing with China in Disputed Waters”, a propósito das ilhas Spratly que se localizam no Mar do Sul da China. Estas ilhas constituem um enorme arquipélado desabitado com mais de sete centenas de ilhéus, recifes e atóis cuja área emersa total é inferior a quatro quilómetros quadrados, dispersos por uma vasta região oceânica. Porém, por razões económicas e militares, há diversos países com interesses e reivindicações sobre estas ilhas, nomeadamente a China, o Vietnam, as Filipinas, Taiwan e a Malásia. Todos estes países afirmam os seus direitos sobre aqueles espaços e, nesse sentido, já dispõem de pistas de aviação nas ilhas, embora a China tenha em construção uma grande pista para fins militares, o que a todos perturba. Enquanto potência global, os Estados Unidos também têm interesses na região e têm alianças que os obrigam a manter uma presença naval e um estado de alerta permanente naquelas águas, onde há sempre hipóteses de haver situações de conflitualidade.
A ilustrar a reportagem do The New York Times encontra-se uma fotografia alusiva a esta disputa de sombras, obtida na ponte do cruzador USS Chancellorsville em patrulha no Mar do Sul da China, em que se vê o comandante do navio Capt. Curt A. Renshaw, provavelmente a observar os movimentos de uma qualquer fragata ou helicóptero chinês.
Pois observem-se todos, mas observem-se com cuidado e contenção.

terça-feira, 29 de março de 2016

Palmira foi libertada. Será restaurada?

As forças governamentais sírias com o apoio das milícias libanesas do Hezbollah e da aviação russa recuperaram a cidade e o sítio arqueológico de Palmira, que esteve ocupada pelas forças do Estado Islâmico desde Maio de 2015. A recuperação da cidade apresentava-se como um grande objectivo para o governo de Bashar al-Assad e para os seus aliados, pois parece corresponder a uma inversão da sorte da guerra que lhes está  a ser favorável, sobretudo depois da intervenção da aviação russa.
Palmira foi um dos primeiros locais a ser declarado Património da Humanidade pela UNESCO e, desde então, tornou-se um grande centro turístico, até que chegou a guerra. Com a ocupação pelas forças extremistas, alguns dos mais simbólicos monumentos do sítio arqueológico foram destruídos, assim acontecendo com o Arco do Triunfo e com alguns templos, colunas e estátuas, enquanto o seu museu arqueológico foi pilhado.
A recuperação de Palmira permitiu verificar o seu grau de destruição, sucedendo-se declarações mais ou menos animadoras quanto à extensão do que foi destruído e sobre a vontade de restaurar o espaço arqueológico e os seus monumentos. Alguns jornais internacionais, como o americano The Wall Street Journal, dedicam alargados espaços à reconquista de Palmira e, através de entrevistas a especialistas, estimam que o restauro de Palmira pode durar entre cinco anos a “muito, muito tempo”. Será preciso muito dinheiro e muita cooperação internacional para concretizar este projecto mas, primeiro, tem que acabar a guerra.

domingo, 27 de março de 2016

A Europa que nos desgoverna e desorienta

Um pouco por toda a Europa sucedem-se as declarações de muita gente sobre a necessidade de se afastar o medo e de se encararem com coragem os tempos de terror que estão a ser impostos aos europeus, mas também a outros povos, por uma ideologia radical, totalitária e intolerante. Os acontecimentos de Bruxelas, tal como os de Paris, mas também de Londres, de Madrid, de Bagdad, de Damasco, de Nova Iorque e de tantos outros locais, são demasiado perturbadores. Os tempos estão realmente difíceis e são cada vez mais aqueles que hesitam em frequentar uma praia ou entrar num estádio de futebol, numa estação do metropolitano ou num aeroporto. O nosso modelo de vida está seriamente ameaçado. A nova imagem de uma Europa policial e securitária já faz parte do nosso quotidiano, como mostra a capa do The Economist. Soldados e polícias mascarados e armados de metralhadora passaram a fazer parte da paisagem humana da Europa. Ao ambiente de incerteza económica e social reinante, juntou-se um ambiente de desconfiança e de medo.
Neste quadro, é evidente que ninguém confia nos dirigentes europeus que têm pouco estatuto e que, depois da casa roubada, põem trancas na porta. Durante alguns anos, muito poucos pensaram na ameaça que agora se revela e vimos os que então deviam ter pensado e actuado, a cometerem erros de enorme gravidade, pelos quais ninguém lhes pede responsabilidades.
É realmente lamentável e muito ridículo o que tem acontecido numa Europa desgovernada e desorientada, desde que um grupo de mentirosos, incluindo políticos e jornalistas que por aí andam, decidiram criar a teoria das armas de destruição maciça e acabar com Saddam Hussein, por vingança ou por ignorância, mas com a ajuda dessa figura inesquecível de mediocridade que foi George W. Bush. Foi então que tudo começou. É bom lembrar esta realidade. Ponto final.

quinta-feira, 24 de março de 2016

A enorme azia do rapaz da bandeirinha

Antigamente não tinhamos dúvidas sobre a natureza da actividade bancária e das operações financeiras pois quase tudo se resumia à recolha depósitos dos clientes e ao pagamento ao depositante de um juro (operações passivas) e à concessão de créditos ao cliente que pagava um juro (operações activas).
Os tempos mudaram e a banca transformou-se numa coisa que o homem comum não sabe o que é, muitas vezes ocupada por gente sem escrúpulos e de duvidosa reputação. Um pouco por todo o mundo as consequências têm sido desastrosas e, em Portugal, também temos sido atingidos por essa hecatombe.
No sentido de prevenir mais surpresas e defender os depositantes e os contribuintes portugueses, o governo autorizou a empresária angolana Isabel dos Santos a entrar no capital do BCP, banco em que a também angolana Sonangol já é a maior accionista. O acordo foi comunicado pessoalmente pelo próprio primeiro-ministro à empresária angolana. Caiu o Carmo e a Trindade!
Pela boca do deputado Amaro, o PSD veio imediatamente exigir esclarecimentos para saber so o governo tinha tido intervenção no negócio, deixando no ar algumas suspeitas. Depois, foi o próprio presidente do PSD, aquele que vendeu a EDP aos chineses, a ANA aos franceses e a TAP a não se sabe quem, que veio desejar “ver tudo em pratos limpos”.
A resposta veio de Belém com o Presidente da República a confirmar um total alinhamento com o governo e a lembrar que, como Chefe de Estado, lhe cumpre respeitar a Constituição. E foi em nome desse dever e da respectiva defesa do "interesse nacional" que considerou "natural" a intervenção do primeiro-ministro para garantir algum equilíbrio na origem dos capitais estrangeiros que entram na banca portuguesa. Foi um soco de luva branca de certos indivíduos que por aí andam, com o Passos à frente. É caso para dizer que o rapaz vai de mal a pior e que nem a bandeirinha na lapela lhe evita o total descrédito, nem um confrangedor isolamento. Com toda esta azia o rapaz vai mesmo precisar de muito Kompensan.

Bruxelas: mais um passo na brutalidade

Os terríveis acontecimentos de Bruxelas, tal como os que já aconteceram em Madrid, em Londres e em Paris, mostram que a barbárie entrou no coração da Europa e que o nosso modo de vida está ameaçado. Não é apenas a crise económica e a falta de solidariedade comunitária que tornam incerto e inseguro o nosso futuro, mas é sobretudo a instabilidade que o terrorismo está a trazer para a Europa, que  está velha, enfraquecida e é vítima da mediocridade das suas lideranças. De facto, os líderes europeus revelam-se incompetentes e incapazes para tratar dos grandes problemas que acontecem para lá das suas fronteiras e de não terem previsto o que poderia ter acontecido no interior do seu território e nas suas cidades, como consequência das suas desastrosas intervenções no Iraque, na Líbia e agora na Síria.
Em Março de 2011, quando Nicolas Sarkozy decidiu acabar com o líder líbio Muammar Kadafi, este deu uma entrevista a um jornal francês e avisou que “milhares de pessoas irão invadir a Europa a partir da Líbia e não haverá ninguém para detê-las”. E acrescentava que “haverá uma jihad islâmica diante de vocês. Os homens de Bin Laden vão cobrar resgates em terra e no mar. Será realmente uma crise mundial e uma catástrofe para todo o mundo. Eu não deixarei isso ser feito”.
Porém, ninguém o ouviu e, pelo contrário, os aviões americanos, ingleses e franceses condenaram-no e abriram as portas a uma das maiores ameaças que pesa sobre a Europa.
Neste quadro desolador e de grande apreensão, é com tristeza que assistimos às negociações entre a Turquia e a Comissão Europeia sobre os indefesos refugiados que são tratados com absoluta desumanidade, mas também às ridículas discussões e diktats da Comissão Europeia sobre o défice orçamental português e sobre se o seu valor deve ser de 2,6% ou 2,4% do PIB, o que mostra como a Europa é incapaz de se governar e tratar do que é importante, preferindo exibir o seu autoritarismo burocrático sobre as coisas assessórias. Além disso, muito pouco é feito para acabar com o fornecimento de armas e a compra de petróleo, operações de que vive o terrorismo, certamente porque esse negócio serve a finança especuladora europeia. 
O banho de sangue que aconteceu em Bruxelas e que a imprensa de todo o mundo relatou, lembram-nos que muita coisa corre mal na Europa da fartura, do dinheiro e da hipocrisia.