domingo, 6 de novembro de 2016

A difusão da língua portuguesa no mundo

O título da última edição do jornal Tribuna de Macau é muito interessante e sugestivo ao salientar que a “língua portuguesa atrai centenas para 20 vagas”. De facto, o Programa de Aprendizagem de Tradução e Interpretação de Chinês e Português promovido pelos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP) de Macau atraiu 287 candidatos para 22 vagas e, segundo foi afirmado por alguns responsáveis macaenses, esse interesse resultou de uma campanha pública e de muita discussão sobre a importância do ensino do português. Ao mesmo tempo, outros salientam a provável influência das declarações do Primeiro-Ministro chinês Li Kequiang, que recentemente visitou o território de Macau e que vincou a importância da língua portuguesa no quadro das relações entre a China e os países lusófonos.
O programa tem a duração de dois anos e integra-se no quadro de cooperação em Formação de Tradução e Interpretação das Línguas Chinesa e Portuguesa entre a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) da República Popular da China e a União Europeia, cuja primeira edição decorreu em 2011.
A iniciativa merece aplauso. No entanto, era desejável que a problemática do ensino do português e de outras áreas afins como a tradução, a interpretação ou a tradução simultânea, constituissem uma prioridade do governo português. Essa é a missão do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I. P., e é a tarefa desempenhada por cerca de duas dezenas de Centros Culturais e por cerca de quatro dezenas de Centros de Língua Portuguesa que existem no estrangeiro, mas são necessários mais Centros e, sobretudo, mais professores qualificados. Tem prevalecido o princípio económico que nos diz que as necessidades são ilimitadas mas que os recursos são escassos e, por isso, a difusão e o ensino da língua portuguesa não têm merecido o devido apoio em recursos orçamentais. Num tempo em que se espera que o português venha brevemente a ser uma língua oficial nas Nações Unidas conforme vai ser proposto pela CPLP, pode ser que essa circunstância venha a gerar um maior interesse no apoio orçamental à difusão da nossa língua.

O próximo Presidente dos Estados Unidos

Estamos a pouco mais de 30 horas das eleições americanas e, embora se trate de um assunto interno dos Estados Unidos da América, o facto de se tratar da eleição do Presidente da mais poderosa nação do mundo, dá a esse acontecimento uma relevância planetária. A personalidade que for eleita e que vai suceder a Barack Obama não vai governar o mundo, mas vai influenciar muito do que nele irá acontecer nos próximos anos. Os mass media americanos, mas também em muitos outros países, apoiaram um ou outro dos candidatos, publicando textos a enaltecer as suas virtudes e merecimentos ou a divulgar suspeitas sobre o adversário. As suas fotografias ilustraram a capa dos jornais de todo o mundo e a sua presença nas televisões foi permanente. A América, mas também o mundo que não vota, ficaram a conhecer Hillary Clinton e Donald Trump.
Porém, nesta longa caminhada que são as campanhas eleitorais nos Estados Unidos, os programas dos candidatos não foram suficientemente discutidos e a campanha derivou para contínuas acusações que ultrapassaram o que seria uma campanha normal, muitas delas sobre a vida sexual dos candidatos ou dos seus familiares, mas também sobre as suas posições xenófobas, o desrespeito pelas mulheres, as relações com o fisco ou a forma como acumularam fortuna. Em vez da apresentação de figuras nacionais a apoiar os candidatos, as campanhas utilizaram várias mulheres que se prestaram a fazer depoimentos sobre as agressões sexuais de que teriam sido vítimas por parte de Donald Trump ou do marido de Hillary Clinton.
O resultado das sondagens têm evoluido ao longo do tempo e hoje mostram que o resultado é imprevisível, mas parece haver uma certeza que o Der Spiegel revelou, isto é, foi a campanha mais suja da história americana e as suas consequências poderão ser trágicas e prolongar-se no tempo. De resto, a fotografia que ilustra a capa da sua edição de ontem é elucidativa ao mostrar Trump e Clionton cobertos de lama. Veremos se os eleitores americanos escolhem o menos enlameado dos candidatos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Renasceu a polémica em torno do Brexit

A inesperada notícia surpreendeu o Reino Unido e hoje todos os jornais britânicos dela fazem manchete: a questão do Brexit/Remain que tanto dividiu a população britânica no passado Verão, voltou a estar em cima da mesa devido à acção de uma senhora chamada Gina Miller, nascida na Guyana mas que sempre viveu na Inglaterra. Casada com um milionário inglês e com 51 anos de idade, a Senhora Miller dedica-se, entre outras actividades, a causas filantrópicas e a actividades cívicas.
Perante as dúvidas e as incertezas que se têm acumulado desde o referendo de 23 de Junho em que o Brexit venceu por escassa margem, deixando muita gente a temer pelo futuro e muitas vozes a reclamar por um novo referendo, a Senhora Miller avançou com um processo contra a Primeira Ministra Theresa May, com o argumento de que nem o governo britânico nem os seus membros tinham poderes para accionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa para abandonar a União Europeia, sem a prévia autorização do Parlamento.
Ontem foi conhecida a decisão do High Court que deu razão à petição da Senhora Miller e nas redes sociais ela passou a ser tratada como uma heroína nacional. Assim, o Parlamento terá que votar e Theresa May terá que esperar.
Tal como acontecera durante a campanha pelo Brexit ou pelo Remain, os jornais britânicos realinharam-se de imediato. O Daily Mail veio dizer que os juizes foram “enemies of the people” por terem decidido contra a vontade popular expressa no referendo, enquanto outros jornais destacam a fotografia de Gina Miller que se tornou uma figura nacional ao defender que o poder democrático está no Parlamento. O governo de Theresa May já anunciou que vai contestar a decisão judicial, mas o facto é que renasceu a polémica em torno do Brexit. E já agora é caso para perguntar qual o jornal português que teria coragem para chamar "inimigos do povo" aos nossos juízes?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A batalha de Mossul já chegou à cidade

De acordo com a generalidade das notícias que estão a ser difundidas no ocidente, a batalha por Mossul intensifica-se e, ao mesmo tempo, também aumentam as preocupações quanto ao que pode acontecer ao milhão de residentes que vivem naquela cidade, que é a terceira maior cidade do Iraque. Ocupada pelo Daesh desde Junho de 2014, foi aí que Abu Bakr al-Baghdadi instalou o seu quartel-general e, portanto, o seu valor estratégico é muito importante.
Na passada terça-feira foi anunciado que as forças iraquianas entraram em Mossul ou em alguns dos seus bairros periféricos, um facto que tem um importante efeito simbólico. Muitos jornais europeus têm reproduzido fotografias das tropas iraquianas e dos peshmergas curdos na sua vitoriosa aproximação à cidade, mas também de elementos que têm conseguido fugir da cidade, como mostra a expressiva fotografia publicada pelo diário espanhol ABC.
Segundo os serviços de informação militares, crê-se que Abu Bakr al-Baghdadi esteja em Mossul e que tem instruido os seus combatentes para resistirem e para não cederem à tentação de retirar para o deserto. Além disso crê-se, também, que tem havido muitas execuções indiscriminadas, que estão preparadas muitas acções suicidas e que a população vai ser utilizada como escudo humano.
Há notícias que referem que a queda de Mossul pode estar por poucos dias e há notícias que afirmam que a batalha por Mossul será longa e dura. O que vai certamente acontecer é o sofrimento de milhares de pessoas indefesas e inocentes e um grave problema humanitário.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Lutero e o Papa Francisco: a mesma luta?

O Papa Francisco esteve na Suécia no início desta semana para comemorar Martinho Lutero, mas sobretudo para dar o seu contributo para ultrapassar a secular divisão entre as duas grandes igrejas da Cristandade, quando estão a ser celebrados cinco séculos da Reforma luterana, que é o tema destacado na capa da última edição da revista Der Spiegel.
O Cristianismo não é uma religião homogénea e, ao longo de dois mil anos, gerou três ramos principais, com muitas diferenças, mas também com muitas afinidades. Hoje, haverá cerca de 2,25 mil milhões de cristãos no mundo, sendo 1.100 milhões de católicos (50%), 900 milhões de protestantes (40%) e 260 milhões de ortodoxos (10%). No caso do Protestantismo, o movimento iniciou-se na Europa Central no início do século XVI por iniciativa de Martinho Lutero, como reacção às doutrinas e práticas da Igreja Apostólica Romana.
Lutero foi um monge agostiniano alemão que questionou os poderes do seu tempo e desestabilizou o mundo medieval, ao contestar tanto o Papa como o Imperador romano que eram os mais poderosos seres do planeta. Nas questões de fé, Lutero não aceitava a subordinação àqueles poderes, mas apenas ao poder da própria consciência, colocando em dúvida a infalibilidade do Papa e recusando-se a obedecer ao soberano mais poderoso da Europa. Portanto, ele não foi um divisor da Igreja como foi considerado por muita gente, mas um rebelde conservador que apenas queria a reforma da própria Igreja e o retorno às origens do Cristianismo.
Por tudo isto, não surpreendente este gesto de aproximação do Papa Francisco a Martinho Lutero, sobretudo depois de já ter visitado sinagogas e mantido encontros com representantes de religiões muito diferentes de todo o mundo. De resto, muitos dos vícios que Lutero condenou nas práticas do catolicismo são idênticos aos que o Papa Francisco vem condenando. Talvez não estejam muito longe um do outro e hoje, certamente, o Papa não excomungaria Martinho Lutero como fez o Papa Leão X em 1521.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

As modernas cidades da milenar India

Narendra Modi, o Primeiro-Ministro da Índia, visita hoje a cidade de Naya Raipur, a nova capital do Estado de Chhattisgarh na Índia Central, tendo o governo local decidido dar-lhe as boas vindas através de um anúncio que ocupa toda a primeira página da edição do Hindustan Times.
Por vezes, os jornais indianos parecem ser uma simples plataforma publicitária e não um veículo de notícias, tal a frequência com que vendem as suas primeiras páginas a todo o tipo de anúncios e anunciantes, incluindo mensagens de boas vindas, campanhas eleitorais, felicitações a personalidades, promoção de automóveis, de telemóveis e de imobiliário, serviços financeiros e outros produtos e serviços. Nesse sentido, o facto de um jornal destacar na sua primeira página um anúncio-mensagem de boas vindas a Narendra Modi é um acontecimento normal na Índia, mas que seria uma anormalidade no ocidente.
A milenar Índia é um país de contrastes únicos, muitos dos quais chegam a ser chocantes para os ocidentais, mas tem feito um grande esforço para se modernizar e para melhorar as condições de vida da sua população. O desafio é gigantesco e levará várias gerações para ser resolvido, mas essa melhoria já é hoje visível em algumas regiões e em alguns sectores económicos, tecnológicos e culturais. Foi nesse quadro de modernização que algumas cidades foram construídas de raiz e que hoje constituem as “brasílias da Índia”, vocacionadas para a centralização da modernidade e da tecnologia,  através das universidades, dos hospitais, dos transportes e das novas indústrias. Uma dessas cidades é Naya Raipur que é a capital do Estado de Chhattisgarh e que a publicidade diz ser a “India’s first modern and green capital of 21st century” e uma “Land of infinite opportunities”. É nessa nova cidade que o Primeiro-Ministro Narendra Modi inaugurará hoje novas infraestruturas.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A quebra no turismo inquieta a França

A França foi o primeiro destino turístico mundial em 2015 com 84,5 milhões de visitantes mas, depois dos atentados de Novembro de 2015 em Paris e de Julho de 2016 em Nice, o movimento turístico entrou num processo de regressão sem precedentes, com uma quebra global de visitantes estimada em 7%. O diário Libération analisa hoje com muito detalhe o sector turístico francês, que é habitualmente considerado um valor muito seguro da economia francesa com os seus dois milhões de empregos e um volume de negócios anual da ordem dos 170 mil milhões de euros – praticamente igual ao PIB português. O jornal classifica a situação do sector turístico como inquietante e em “estado de urgência”, a necessitar de ser reinventado para resistir aos tempos difíceis que atravessa.
Geograficamente o choque tem sido mais severo nas regiões da Île-de-France e da Côte d’Azur, que são os dois pilares do turismo francês e que concentram metade da actividade do sector, sendo exactamente os locais onde o terrorismo actuou.
Qualquer estatística de turismo que se analise é inquietante. No primeiro semestre de 2016 o número de turistas japoneses diminuiu 46% na região de Paris (Île-de-France), mas também o número de visitantes chineses e russos endinheirados diminuiu na mesma proporção. O Museu do Louvre que é o museu mais visitado do mundo com cerca de 9 milhões de visitantes por ano, dos quais cerca de 75% são estrangeiros, perdeu 20% de visitas no 1º semestre de 2016. No inquérito promovido pelo Libération junto de hotéis, restaurantes, galerias de arte, boutiques, bares, grandes armazéns e casas da moda, entre outras actividades de referência parisiense, verifica-se que a quebra dos seus chiffres d’affaires se situa por vezes na ordem dos 50%.
Como consequência desta situação economicamente muito inquietante para os franceses, estão os portugueses a tirar partido do turismo como nunca se vira e, quem sabe se, como diz o povo, não estão a dar um passo maior que a perna.

sábado, 29 de outubro de 2016

Um abraço português para o povo de Cuba

No dia 26 de Outubro a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma Resolução que pede o fim do embargo económico a Cuba, com 191 votos a favor, nenhum voto contra e duas abstenções (Estados Unidos e Israel). Foi um grande acontecimento político para Cuba e para o mundo, pois foi a 25ª vez consecutiva que foi analisada uma Resolução com igual conteúdo, o que significa que a questão do fim do embargo a Cuba já era assunto velho e que a teimosia americana anti-castrista já não se justificava.
Curiosamente ou não, no mesmo dia chegava a Cuba o Presidente da República Portuguesa para uma visita oficial e, embora com destaques bem diferentes, esses dois acontecimentos são destacados pelo Granma, o “órgano oficial del Comité Central del Partido Comunista de Cuba”.
Granma é o nome do pequeno iate que em 1956 transportou Fidel de Castro e os seus companheiros desde o México até às praias do sopé da Sierra Maestra, de onde foi iniciada a caminhada revolucionária até Havana, que veio a ser ocupada no dia 2 de Janeiro de 1959 pelas forças de Che Guevara e de Camilo Cienfuegos. É, por isso, um nome cheio de simbolismo para a revolução cubana, que durante muitos anos desafiou a América Latina e, em certa medida, os próprios Estados Unidos. Porém, as mudanças acontecidas no mundo também influenciaram o regime cubano e, aos poucos, o país caminha para a Democracia.
Com esta visita a Cuba o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa voltou a mostrar a sua sensibilidade cultural e o sua compreensão do processo histórico cubano, em absoluto contraste com o seu antecessor. Esteve em Cuba sem receio de apanhar caspa ou contrair qualquer constipação, esteve com Fidel de Castro mais de uma hora, teve conversações com Raúl de Castro, proferiu uma conferência na Universidade de Havana, recebeu a comunidade lusófona na Embaixada de Portugal, inaugurou exposições e participou em fóruns empresariais. Levou Cultura e Economia na bagagem, mas também levou consigo a Política de apaziguamento, o não seguidismo em relação aos interesses americanos e, quem sabe, se não levou também algum sentimento emocional por se encontrar face a face com alguns dos símbolos das lutas que tanto entusiasmaram a sua geração por todo o mundo e que se traduziram na utopia guevarista. Mais uma chapelada a Marcelo Rebelo de Sousa!

Na linha da frente contra o Daesh

A revista mensal francesa L’Histoire dedica o seu último número aos curdos – mil anos sem Estado - e centra a sua análise num povo que tem uma identidade, uma língua, uma literatura e uma história, que ocupa um território muito extenso mas pouco definido, mas que não tem o seu próprio Estado. O Curdistão é a maior nação do mundo sem Estado e os cerca de 30 milhões de curdos distribuem-se pela Síria, Iraque, Irão e Turquia. Depois da 1ª Guerra Mundial e da derrota do Império Otomano os territórios do Médio Oriente dominados pelo sultão turco foram divididos, surgindo novos países como a Síria, o Líbano e a Palestina, mas os vencedores da guerra terão hesitado na criação de mais um país soberano e não criaram um Estado curdo.
Porém, a ambição de serem independentes nunca abandonou os curdos e ao longo de muitos anos têm desenvolvido grandes lutas para atingir esse objectivo, apesar da repressão de que têm sido vítimas, sobretudo pelo regime iraquiano de Sadam Hussein e, mais recentemente, pelo regime turco de Recep Tayyip Erdoğan. Nos tempos conturbados que afectam a região,  os curdos têm sido os principais adversários do Daesh no terreno, através da acção do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e das Unidades de Defesa do Povo (YPG) constituídas pelos peshmerga – os combatentes curdos que enfrentam a morte. Os peshmerga constituem as forças armadas do Curdistão, existem desde a queda do Império Otomano, incluem mulheres nas suas fileiras e são a expressão militar dos sentimentos independentistas curdos. Têm estado na linha da frente na luta contra o Daesh, como se verificou na defesa da cidade fronteiriça de Kobani, defendida sobretudo pelas Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) e como se verifica hoje no assalto a Mossul. A revista L’Histoire reconhece a importância e o valor dos peshmerga ao referir que “la bataille de Mossoul a commencé lundi 17 octobre quand les forces kurdes ont attaqué la ville irakienne fief de l’état islamique.
Certamente que, quando a chamada guerra da Síria terminar, a comunidade internacional não deixará de reconhecer o povo curdo como soberano e o Curdistão como um Estado.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Reformados europeus escolhem Portugal

La Voix du Nord, o diário de Lille que foi fundado em 1941 pela clandestina Resistência francesa e que na actualidade tem grande difusão nacional, destaca hoje uma reportagem com um sugestivo título em português:
Bem-vindo a Portugal”.
Segundo o jornal, Portugal é o novo destino favorito dos reformados franceses devido a factores diversos como a proximidade geográfica, a amenidade do clima, as facilidades fiscais, a segurança no espaço público, o atraente custo de vida, a cultura e a gastronomia, o preço do imobiliário e, até, a cordialidade e simpatia dos portugueses, bem como a sua facilidade de integração nas comunidades locais. Atraidos por estas condições e pela possibilidade de terem uma reforma tranquila ao sol, mas estimulados também pela promessa de um regime fiscal vantajoso, depois de 2013 mais de 25 mil franceses instalaram-se em Portugal.
Portugal tornou-se o destino privilegiado dos reformados franceses e um estudo recentementre revelado sobre os seus destinos preferidos, colocam Portugal à frente da Tailândia, Marrocos, Maurícias, Espanha, Bali, República Dominicana, Tunísia, Senegal e Brasil. Nesse estudo, Portugal e especialmente o Algarve, são classificados como a “Califórnia europeia”.
Porém, as facilidades fiscais para estes franceses “não residentes habituais” implicam uma permanência mínima de 183 dias no país, ou seja, que Portugal se torne a sua “residência principal”. Quando hoje, em muitas regiões do país, designadamente no Oeste ou nos Açores, se entra num restaurante ou num supermercado, é cada vez mais frequente encontrar reformados franceses, mas também de outros países europeus a consumir produtos e serviços portugueses e, por essa via, a ajudar o crescimento e o emprego no nosso país. Como diz hoje o jornal de Lille, que sejam bem-vindos!

domingo, 23 de outubro de 2016

O regresso da política da canhoneira

Nos tempos em que vivemos há grande interdependência entre os países, daí resultando a boa cooperação mas também algumas rivalidades e choques de interesses políticos, económicos e religiosos, que se traduzem em frequentes tensões no plano internacional. A política externa dos países está, portanto, com um nível alto de atenção e sucedem-se cimeiras e reuniões para resolver os inúmeros contenciosos que hoje atormentam o mundo.
A política externa de um país visa a defesa dos chamados interesses nacionais, sejam da paz ou da guerra, do comércio externo, da promoção cultural ou da defesa dos seus nacionais residindo fora do país. Os seus instrumentos de actuação passam pela diplomacia e incluem embaixadas, consulados e centros culturais, mas também outras formas de representação, onde até se incluem visitas de Estado, delegações desportivas, missões militares e visitas de navios, entre outras.
No século XIX muitos países adoptaram a política ou a diplomacia da canhoneira, em que se procuravam resultados políticos e submissões de povos através da exibição de poder militar e, sobretudo, pela apresentação das canhoneiras nas costas ou nos rios do território a dominar. A ocupação dos territórios africanos pelos europeus ao longo da segunda metade do século XIX, com as canhoneiras a disparar sobre as margens dos rios, tornou-se a imagem de marca da política ou diplomacia da canhoneira.
Passou mais de um século e a edição de hoje do The Scotsman veio relembrar a gunboat diplomacy, agora com os porta-aviões em vez de canhoneiras. Agora já não se dispara para as margens a impor respeito às populações, mas exibem-se os porta-aviões e os seus aviões para impressionar e mostrar o poder de cada um aos outros poderes. De facto, há notícias de porta-aviões americanos, russos e franceses no Mediterrâneo Oriental e no Golfo Pérsico, mas também de outros países, o que provavelmente não facilita a chegada da paz àquelas regiões.

O caos líbio está às portas da Europa

O mundo está a passar por situações que estão a gerar muita angústia e muita incerteza. O aumento da tensão internacional é uma realidade de que já ninguém tem dúvidas e o clima dos tempos da guerra fria começa a estar expresso nos jornais e nas declarações de alguns dirigentes mundiais. Há demasiados conflitos onde as grandes potências estão envolvidas e, na Europa ou na periferia da Europa, os próprios europeus parece terem deixado de ser uma voz activa. As batalhas de Allepo ou de Mossul fazem parte desse cenário de confrontação e dessa enorme incerteza. Todos os dias há acusações de crimes de guerra vindas de todos os lados.
Na Líbia a situação não é menos dramática e centenas de grupos armados vagueiam pelo país, enquanto na última semana a aviação americana executou mais de três dezenas de ataques contra a cidade de Sirte, dominada pelos jihadistas do Daech. O jornal católico francês La Croix veio alertar para essa crítica situação, que é pouco falada, talvez para não lembrar as graves culpas ocidentais neste drama aqui às portas da Europa.
Tudo isto acontece cinco anos depois da morte de Muammar Kadafi e da intervenção militar da NATO na Líbia que teve o aval das Nações Unidas e que, supostamente, pretendeu travar (por razões humanitárias) a ofensiva das tropas governamentais contra a revoltada cidade de Bengasi. Essa intervenção foi apenas uma das várias intervenções americanas ou aliadas para apoiar as Primaveras Árabes de que, quase sempre, resultaram resultados catastróficos.
Porém, as esperanças ocidentais associadas à queda de Kadafi, para construir uma sociedade livre e democrática na Líbia, não resultaram, sobretudo por ignorância dos falcões ocidentais que desconheciam a realidade sociológica do país. Tudo tem corrido exactamente ao contrário e a Líbia está afundada no caos. Não há um governo funcional e, em vez disso, há vários governos paralelos que lutam pelo comando do país. Centenas de grupos armados rivais deambulam pelo país e confrontam-se. As condições de vida dos líbios deterioraram-se depois da queda de Kadafi e os seus antigos arsenais abastecem agora os terroristas nigerianos do Boko Haram.
O caos na Líbia tem responsáveis e, entre eles, estão certamente Nicolas Sarkozy, David Cameron e Barack Obama.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mossul: a batalha como nunca aconteceu

No passado domingo o Primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi anunciou o início de importantes operações militares visando a recaptura da cidade de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, que tinha sido ocupada pelo Daesh no início de 2014. Foi exactamente em Mossul que Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Daesh, declarou em Junho de 2014 o estabelecimento de um califado.
Mossul tem, por isso, um valor simbólico e estratégico para o Daesh, pois transformou a cidade num santuário experimental do seu radicalismo, onde impõe a sua brutalidade e a sua tirania através de inúmeras e bárbaras execuções públicas de elementos da população ou até dos seus combatentes, uns acusados de colaboracionismo com os “infiéis” e outros de falta de combatividade ou de tentativa de deserção. Mossul tornou-se um centro de terror e, por isso, é um desafio para o Iraque e para os seus aliados. Daí esta grande ofensiva que também foi anunciada e é patrocinada por Barack Obama.
Segundo refere a imprensa internacional, designadamente o diário inglês The Independent, as forças iraquianas têm avançado pelo sul com o apoio aéreo americano e de forças especiais americanas, inglesas e francesas, enquanto as forças curdas, conhecidas por peshmerga, avançam por leste em direcção à cidade, que se supõe dispor de cerca de cinco mil combatentes jihadistas. Embora estejam anunciados progressos das forças que convergem para Mossul, teme-se que a cidade esteja minada, que estejam montadas muitas armadilhas e que a população possa ser utilizada como escudo humano, o que irá dificultar e demorar a recaptura da cidade. Por isso, há grandes preocupações humanitárias em relação ao milhão e meio de habitantes da cidade. O que parece não haver dúvidas é que a batalha por Mossul vai ser uma operação ou uma batalha como nunca aconteceu.

A estabilidade democrática açoriana

As eleições para escolher os 57 deputados que vão integrar a Assembleia Regional dos Açores realizaram no domingo e tudo decorreu com total normalidade democrática, embora tivesse havido uma abstenção de quase 60%, isto é, houve 134.971 eleitores inscritos que se abstiveram.
Embora a abstenção açoriana seja habitualmente superior a 50%, nestas eleições subiu consideravelmente. Há muitas explicações para esta abstenção: cadernos eleitorais desactualizados, falta de incentivo depois de quatro vitórias consecutivas do Partido Socialista e da sua boa governação e o elevado número de eleitores inscritos que não são residentes na região e que não se deslocaram dos Estados Unidos, do Canadá ou do Continente para votar. O facto é que numa região de grande estabilidade e maturidade políticas, o nível de participação se situa muito aquém do desejável.
O Partido Socialista renovou a sua maioria absoluta como destacou o Açoriano Oriental, o jornal que se publica em Ponta Delgada e que é mais antigo jornal português, ao conseguiu eleger 30 deputados, enquanto o PSD se ficou pelos 19, seguindo-se o CDS-PP com quatro, o BE com dois, o PCP com um deputado e o PPM também com um deputado. Em relação às anteriores eleições de 2012, o PS e o PSD perderam um deputado cada um, enquanto o CDS-PP e o BE ganharam um deputado cada. O PCP e o PPM mantêm um deputado cada.
Como sempre acontece, nenhum partido se declarou derrotado e cada qual veio afirmar-se mais fortalecido com os resultados alcançados e mais confiante no futuro. Neste tipo de eleições há sempre quem queira extrapolar os resultados para o plano nacional, mas isso não tem qualquer sentido, pois os resultados estão mais associados à notoriedade local dos candidatos do que aos programas partidários. Foi exactamente por isso que na ilha do Corvo, a mais pequena da região, foi reeleito um deputado do “inexistente” PPM com 82 dos 248 votos expressos, isto é, com 32,03% dos votos.

domingo, 16 de outubro de 2016

Cimeira coloca Goa no centro do mundo

O Estado de Goa recebeu este fim de semana a 8ª Cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul), a que se juntaram como convidados os sete países membros do BIMSTEC (Bay of Bengal Initiative for Multi-Sectorial Technical and Economic Cooperation), isto é, Bangladesh, Butão, India, Myanmar, Nepal, Sri Lanka e Tailândia.
Significa que, durante dois dias, Goa recebeu doze Chefes de Estado ou Primeiros-Ministros mundiais e que, portanto, esteve no centro do mundo. O primeiro-Ministro indiano Narendra Modi escolheu Goa para receber Vladimir Putin e Xi Jinping, mas também Michel Temer e Jacob Zuma e, de entre as várias hipóteses  para instalar tão importante reunião internacional, decidiu-se pelo Hotel Taj Exotica, em Benaulim, no sul de Goa, um hotel de cinco estrelas cuja entrada é decorada com azulejos de inspiração portuguesa, produzidos localmente pela firma "Azulejos de Goa".
Numa altura de grande tensão internacional, provavelmente este encontro não tratou apenas de questões de cooperação económica, dos efeitos da globalização ou das alterações climáticas. De resto, os jornais goeses anunciaram que Modi e Putin decidiram lutar juntos contra o terrorismo e que a China e a Índia também trataram do mesmo tema.
O mais antigo jornal de Goa – oHeraldo – dedicou a sua edição de ontem a esta Cimeira que, de facto, colocou o antigo território português de Goa no centro do mundo, com a curiosidade deste encontro se ter realizado na região de Margão que é, provavelmente, a zona de Goa onde a herança cultural portuguesa permanece mais viva. Não deixa de ser curioso, também, que entre tantas regiões da Índia seja escolhido o Estado de Goa para receber esta Cimeira, a mostrar que 451 anos de presença na costa do Concão deixaram uma marca identitária de cosmopolitismo, de progresso e de harmonia social. Viva Goa!