sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O futebol está a colonizar a informação

Na passada quarta-feira a equipa de futebol do Benfica foi jogar a Portimão e perdeu por 2-0, porque aconteceu o facto pouco comum de dois jogadores benfiquistas terem metido golos na sua própria baliza. No dia seguinte, a derrota do Benfica foi exaustivamente comentada nas televisões como se fosse uma catástrofe, a revelar a mediocridade ridícula daquilo a que chamam jornalismo desportivo e a mostrar como o futebol colonizou os mass media portugueses. Esta situação nem mereceria comentário, mas ontem foi anunciado que o treinador do Benfica tinha sido despedido... como se fosse ele que tivesse marcado os golos na própria baliza em Portimão.
A notícia do despedimento do Mr. Vitória deu origem a uma completa histeria televisiva, com todas as televisões cheias de comentadores, com directos do estádio da Luz, com palpites e preocupações sobre o futuro do treinador, bem como sobre quem o poderá substituir. A programação anunciada nos diferentes canais foi suspensa para abrir espaço ao tratamento a esta notícia e foram horas seguidas de emissão, sem conteúdo e sem nexo nenhum. Uma vergonha para os canais televisivos e para quem os dirige, gente vulgar que não passa de mercenários sem escrúpulos e que se comporta como servos das audiências.
Eu gosto de futebol, mas o futebol não merece tanto espaço televisivo, em que jornalistas, estagiários e comentadores se repetem durante horas a fio, sem qualquer interesse noticioso. Até o jornal Público, que devia ser uma referência, escolheu o Mr. Vitória para a sua capa, esquecendo a notícia da chegada chinesa à face escura da Lua e muitas outras notícias de destaque nacionais e internacionais. Uma tristeza!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Brasil: ainda a posse de Jair Bolsonaro

O Brasil é um grande país que, pela história, pela língua e pela cultura, é o país-irmão de Portugal. Embora estejam enquadrados por geopolíticas diferentes, os caminhos dos dois países também são naturalmente diferentes, mas o facto de se poderem entender na mesma língua e sem intérpretes, permite-lhes potenciar muitos interesses comuns, o primeiro dos quais é a integração das comunidades brasileiras em Portugal e das comunidades portuguesas no Brasil.
Por isso, a posse de um novo presidente do Brasil, que anuncia grandes mudanças, não pode deixar de interessar os portugueses e justificar tanta cobertura mediática em Portugal, até porque Marcelo Rebelo de Sousa foi o único presidente europeu que esteve na cerimónia de investidura presidencial em Brasília.
Porém, a análise da imprensa europeia mostra que os europeus não se interessaram pela posse do novo presidente do Brasil, isto é, nem Bolsonaro nem o Brasil foram notícia importante, talvez devido à presença entusiástica de Benjamin Netanyahu e de Viktor Orbán. No entanto, a análise da imprensa europeia mostra que houve algumas excepções e a mais notória terá sido o Dagens Nyheter, o maior jornal da Suécia, que deu um grande destaque à posse de Jair Bolsonaro, publicando uma interessante fotografia da transmissão de poderes, bem diferente daquelas que ilustraram a imprensa brasileira.
Agora, em relação a Jair Bolsonaro e ao seu governo, é esperar para ver. Parece haver muita serenidade, sem grande festa, nem grande contestação, mas tão somente muita expectativa e muita esperança quanto aos dias que virão.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Brasil: novo Presidente e nova esperança

Brasília assistiu ontem à tomada de posse de Jair Bolsonaro como o 38º Presidente da República Federativa do Brasil e, naturalmente, há uma enorme curiosidade no mundo sobre o que vai acontecer no Brasil, que é o maior país da América do Sul e da América Latina, o quinto maior país do mundo em área territorial, o sexto maior em população e, segundo o FMI, está entre as dez economias mais fortes do planeta.
Portugal esteve presente através de Marcelo Rebelo de Sousa, que foi o único presidente europeu a assistir à cerimónia de investidura de Bolsonaro. E fez bem, porque por razões históricas e emocionais, o Brasil continua  a ser o “país-irmão” e nenhum português é indiferente ao que se passa no Brasil.
Jair Bolsonaro chegou à Presidência depois de uma vitória eleitoral expressiva, embora o seu discurso radical tenha surpreendido aqueles que acompanham a vida política do Brasil, pelas suas repetidas insinuações e afirmações a respeito do valor da democracia. Os brasileiros esperam ter encontrado em Bolsonaro a resposta para a grave crise social que atravessam, marcada pela corrupção, pela criminalidade e pela insegurança, agravadas por uma persistente crise económica. A cerimónia foi transmitida pela televisão portuguesa e os portugueses puderam ouvir um discurso nada conciliador, em que Bolsonaro salientou a frase -  "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos", a lembrar o "America first" de Donald Trump. Além disso,  também repetiu algumas frases marcadamente ideológicas retiradas da sua campanha eleitoral, ao afirmar que foi eleito "para restabelecer a ordem no país", que a bandeira do Brasil "jamais será vermelha" e que os movimentos sociais terão de se habituar a respeitar "a propriedade privada".
A tarefa de Bolsonaro é muito difícil e há dúvidas se vai unir ou se vai dividir o Brasil. Os 210 milhões de brasileiros, tal como os seus amigos portugueses, vão esperar para ver o que vai fazer o capitão.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

MRS: personalidade portuguesa do ano

Como é habitual, a comunicação social está a fazer um balanço do ano que hoje termina, escolhendo os acontecimentos internos e internacionais mais relevantes e elegendo as personalidades que no seu entendimento mais se destacaram. São coisas subjectivas, mas no que respeita à personalidade portuguesa do ano parece haver uma unanimidade em torno da figura de Marcelo Rebelo de Sousa.
O jornal i fez um curioso estudo que intitulou “por onde andou Marcelo em 2018” e publicou-o com uma infografia apropriada e sugestiva.
O actual Presidente da República é conhecido por estar em todo o lado e, de facto, ele tem sido uma presença assídua e frenética nos locais e circunstâncias mais ou menos difíceis, como na tragédia de Borba, nos incêndios de Monchique ou nos funerais das vítimas do acidente com o helicóptero do INEM. Fala com Trump e com Putin, recebe Xi Jimping e abraça João Lourenço e Filipe VI. Visita escolas, hospitais e centros de terceira idade, vai a concertos, passa férias no interior do país e é uma presença diária na televisão, onde fala de tudo como se ainda fosse comentador. Está-lhe no sangue e não consegue resistir quando vê um microfone à sua frente, mas por vezes fala demais e embaraça o governo, com o qual deveria ser solidário. É certo que Marcelo Rebelo de Sousa diz sempre o que o povo gosta de ouvir e que é cada vez mais o seu provedor, mas também é verdade que com as selfies, os abraços e os beijos que distribui por todos, é cada vez mais um caso raro de popularidade ou talvez mesmo de populismo, sobretudo quando as câmaras e os microfones estão por perto. 
Se em relação à nomeação da procuradora-geral da República ou no caso de Tancos conseguiu vencer a ondulação social e os ventos que sopravam, a sua recente espécie de veto ao orçamento do Estado, por causa das reivindicações dos professores, é um desafio ao governo. Esperemos que “o caldo não se entorne” porque, no nosso sistema constitucional, o governo e o presidente não têm que estar de acordo... mas não podem estar em desacordo.  
Em suma, eu também elejo Marcelo Rebelo de Sousa como personalidade portuguesa do ano e até lhe dou uma boa nota, não só por mérito dele, mas também por contraste com o traste que o antecedeu.

As televisões são as gazetas das aldeias

Na próxima noite o nosso calendário vai deixar cair o ano de 2018 e abre a página do novo ano de 2019. Como sempre, as nossas televisões irão mostrar o fogo de artifício em Sydney, mais algumas corridas de São Silvestre e tratarão de mandar os seus estagiários para a porta do Hospital de São José para saber o nome da primeira criança que vai nascer no novo ano. Há dias, esses mesmos estagiários ao serviço das suas televisões, andaram pela estação de Santa Apolónia a entrevistar emigrantes que tinham vindo passar o Natal a Portugal para saber das suas emoções ou andaram pelas ruas de Coimbra a interrogar os transeuntes que tinham deixado as compras de Natal para a última hora. Tudo notícias bem dignas de uma renascida Gazeta das Aldeias, desta vez em formato televisivo.
É realmente lamentável o estado de decadência a que, no campo da sua função noticiosa, chegaram as nossas televisões, porque simplesmente não dão notícias e estão instrumentalizadas pela mediocridade e pelo provincianismo. Todas, sem excepção, alinham no mesmo grau de vulgaridade e ninguém percebe o que fazem aqueles que nas redacções se dizem jornalistas. Os directos são fantasias de estagiários sem qualquer interesse, em que não há respeito pela privacidade de ninguém e vale tudo em nome do espectáculo. As discussões sobre futebol são uma verdadeira obscenidade televisiva, tal como as ridículas conferências de imprensa dos treinadores de futebol. Os debates políticos com os comentadores residentes parecem combinados e são uma tortura para o telespectador. Os comissários políticos estão cada vez mais infiltrados na programação televisiva, por vezes disfarçados de pivots de telejornais. O noticiário internacional quase não existe ou aparece como informação marginal, enquanto o noticiário cultural ou científico desapareceu. É triste e desmoralizante ver e ouvir os longos noticiários destas gazetas das aldeias e o seu rol de banalidades, alimentadas por redacções que não querem investigar, em que as pseudo-notícias são repetidas dezenas de vezes ao longo do dia e que são lidas por papagaios como se fossem novidade. As nossas televisões são, cada vez mais, uma tragédia cultural. E, como dizia o outro, mais não digo...

domingo, 30 de dezembro de 2018

Greves, protagonismos e acção política

O actual governo, que foi constituído através de uma coligação que acabou com aquela coisa sectária e anti-democrática que era o arco da governação, já está em funções há mais de três anos e nunca precisou de orçamentos rectificativos para manter o equilíbrio das Finanças Públicas, nem para reduzir o défice público e recuperar o rendimento dos trabalhadores ou para criar as condições de confiança necessárias à criação de emprego.
Enquanto alguns países da Europa vivem situações de grande instabilidade política e social, neste canto ocidental da Europa parecia reinar a calma, a harmonia e o progresso. Costa e Marcelo pareciam um dupla feliz.
Porém, como vamos ter eleições em 2019, os partidos, os sindicatos e outras forças sociais começaram a perder a cabeça e a criar uma das maiores crises da história da democracia portuguesa, recorrendo a inúmeras greves que não são feitas contra o patrão explorador na lógica sindicalista, mas apenas numa lógica do bota-abaixismo contra o governo, que representa o Estado ou que somos todos nós. Os directórios partidários e sindicais não olham a meios para atingir os seus fins e decidiram que vale tudo. Querem poder. Então, temos enfermeiros, professores, bombeiros, guardas prisionais, juízes, funcionários judiciais, tecnicos de diagnóstico e por aí adiante, a mostrar ter mais olhos que barriga e a revelar que têm uma ganância e um egoísmo ilimitados, tornando-se facilmente instrumentalizados para estas situações. Querem dinheiro.
Aí temos uma aliança entre os que querem poder e e os que querem dinheiro, em que esquerdas e direitas se aliam. Há motivos para alarme quando a paz social é perturbada por protagonistas como Jaime Marta Soares, António Ventinhas, Ana Rita Cavaco, Mário Nogeira, Arménio Carlos e outros dirigentes, que tudo põem em risco por causa dos seus interesses pessoais, corporativos ou eleitorais. Há motivos para alarme quando os grevistas são pagos por fundos anónimos. Há motivos para alarme quando são os utentes dos serviços públicos os mais prejudicados com as greves. Há motivos para alarme quando as hostes fundamentalistas da Cristas se aliam a tudo o que mexe contra o governo, inclusive aos coletes amarelos portugueses. Naturalmente, o governo terá que dar respostas a esta gente, uns com razão e outros sem razão, esperando-se que não decida ir até Belém para entalar muita gente e entregar as soluções ao voto do povo.

sábado, 29 de dezembro de 2018

A ascensão da China como marca global

A forma errática como a Administração Trump tem conduzido a sua política externa tem sido aproveitada pela China que, em cada dia, reforça as suas posições como potência económica global. Daí tem nascido uma crescente rivalidade e uma guerra comercial entre as duas potências que prossegue em escalada, com o Donald a aumentar as taxas aduaneiras sobre os produtos chineses e Xi Jimping a retaliar com impostos sobre os produtos americanos. Muitos analistas consideram que a disputa já atingiu níveis perigosos e o Der Spiegel diz mesmo que o conflito com a China já é uma ameaça, enquanto ilustra a sua última edição do ano com uma sugestiva imagem em que a China aparece a tomar o lugar dos Estados Unidos.
O Donald tem-se conduzido com base na ideia de que os Estados Unidos são os donos do mundo e daí as grosseiras polémicas que tem levantado com muitos líderes mundiais e até no seio da sua própria administração. Agora veio declarar que “chegou a hora de fazer frente à China” para que esta permita uma balança comercial mais equilibrada, abra os seus mercados e garanta o respeito pela propriedade intelectual, mas afirma-se com tal arrogância e falsa de senso que a sabedoria chinesa não se assusta.
Noutro plano, o Donald também não vê com bons olhos o protagonismo económico chinês em ascensão e a sua estratégia de investimento estrangeiro. Depois das ondas de investimentos na própria China, na Europa e na América (em que Portugal foi uma das escolhas do dragão chinês) e na África (onde a sua presença em Angola e Moçambique é relevante), a China prepara uma quarta onda de investimentos na América Latina, que faz parte da Nova Rota da Seda chinesa e onde vê um enorme potencial de recursos e de mercado. Além disso, a presença chinesa na América Latina é crescente nos planos científicos e culturais e a generalidade dos países sul-americanos já trocou Taipé por Pequim. A República Popular da China afirma-se cada vez mais como uma marca global e, nem o Donald, nem os americanos, estão a gostar nada disso.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Os falsos amigos que traem o Curdistão

A recente declaração de Donald Trump sobre a retirada das tropas americanas da Síria, veio recolocar o problema curdo no primeiro plano da problemática do Médio Oriente.
Os curdos constituem uma nação com cerca de 30 milhões de habitantes que ocupa uma área aproximada de 500 mil km2, distribuída pelo território da Turquia, Síria, Iraque e Irão, mas por circunstâncias históricas diversas nunca possuiram um Estado independente, reconhecido pela comunidade internacional. Dito de outra maneira, o Curdistão é um imenso território ocupado pela Turquia, pela Síria, pelo Iraque e pelo Irão e todas as tentativas que fizeram para unir os vários curdistões foram reprimidas por Sadam Hussein, por Bashar al-Assad, por Recep Tayyip Erdoğan ou pelos ayatollah iranianos.
Na complexa questão que é a guerra na Síria, através das suas Unidades de Protecção Popular ou YPG, os curdos sírios assumiram-se como os principais adversários do Daesh, beneficiando de apoios externos, nomeadamente dos Estados Unidos e da França, mas tiveram sempre a hostilidade da Turquia.
Recentemente, entre o apoio aos curdos e as boas graças do aliado turco, os Estados Unidos escolheram a Turquia. Agora são os franceses que, pressionados pelos turcos, hesitam entre a continuação do apoio a um parceiro que tão bons serviços prestou no terreno contra o Daesh ou o alinhamento com os turcos, cuja intenção não declarada é calar as aspirações independentistas curdas no seu próprio território.
O jornal católico francês La Croix analisa hoje o dilema com que está confrontada a França em relação aos curdos e à Turquia. Se Macron disse de Trump que "um aliado deve ser confiável", que dirá o mundo se o Emmanuel seguir as pisadas do Donald e abandonar os curdos?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A voz do Papa que condena o consumismo

Apesar de todas as controvérsias que nos últimos tempos têm atormentado a Igreja Católica, a voz do Papa continua a ter uma enorme força sobre toda a Humanidade.
Com 82 anos de idade, o cidadão argentino Jorge Mario Bergoglio que é o 266º Papa da Igreja Católica e o actual Presidente da Cidade Estado do Vaticano, tem enfrentado grandes dificuldades internas e externas em relação ao seu pontificado, mas tem procurado governar a Igreja com muita prudência, o que lhe tem permitido manter-se como uma voz que defende os mais desfavorecidos e que ninguém consegue ignorar.
Ontem, durante a missa do Galo, que é celebrada na noite de Natal, o Papa Francisco apelou para que não se caísse no consumismo e no egoísmo e para que “as pessoas reflectissem sobre o que realmente precisam e, assim, possam prescindir do que é supérfluo e partilhar o seu pão com os que não têm”. Depois, na missa do Natal voltou ao mesmo tema e criticou o consumismo e a ganância na época do Natal, bem como a “voracidade insaciável” dos homens. O jornal francês Le Figaro foi um dos periódicos que, na sua edição de hoje, destacou as palavras do Papa Francisco.
Porém, esta visão franciscana e solidária do Papa que os homens de boa vontade aplaudem, confronta-se com a lógica económica que estimula o consumo, que incentiva a produção, que cria emprego e que promove o equilíbrio social. Se houver menos consumo, haverá menos produção, menos emprego e mais instabilidade social. Por isso, a questão do consumo é um verdadeiro dilema.
Nas suas intervenções natalícias, o Papa também pediu para se estabeleça o diálogo para que os grandes conflitos que perturbam a Humanidade tenham soluções justas e citou a Palestina, a Síria, o Iémen, a península coreana, a Venezuela e a África.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

A tradição do Natal já não é o que era

Hoje foi o Dia de Natal e, segundo a tradição cristã, celebrou-se por todo o mundo o nascimento de Jesus Cristo. Trata-se de uma das mais importantes datas da liturgia da Igreja Católica, mas nas últimas décadas a festa religiosa tem-se transformado numa festa profana em que os tradicionais símbolos do presépio e do Menino Jesus foram acrescentados ou substituídos pelas luminosas árvores de Natal “made in China”, pelo Pai Natal que viaja de trenó e já não desce pela chaminé, assim como por outros símbolos natalícios, sobretudo gastronómicos, que têm alterado o significado do Natal. 
No entanto, o Natal ainda permanece como a festa das famílias e dos amigos, dos votos pela paz no mundo e da solidariedade para com os mais desfavorecidos, embora venha derivando cada vez mais para um sentido consumista e mercantil, de que a troca de presentes muito bem embrulhados, muitas vezes sem que satisfaçam qualquer necessidade dos presenteados, seja o seu aspecto mais visível. Criou-se uma verdadeira indústria do Natal com base no culto do desperdício e da inutilidade, em que as pessoas cedem aos mais primários instintos consumistas sob a capa da festa do Natal e, sobre a pressão dos interesses comerciais, deixou de ser uma festa eminentemente religiosa. Hoje, o Natal é celebrado pelos cristãos e pelas outras religiões, porque a lógica consumista é realmente um fenómeno global.
Por tradição, no Dia de Natal não são publicados jornais, mas a generalidade da imprensa americana e francesa não segue esta regra e aproveita este dia para saudar os seus leitores com os seus votos de Boas Festas. Porém, o que é curioso é o que acontece na Malásia que, sendo um país muçulmano, também adoptou o Natal do consumo e do desperdício com grande intensidade. Assim, a edição de hoje do jornal Star que se publica em Kuala Lumpur, publica a fotografia de animados Pais Natais malaios a toda a largura da sua primeira página. Até parece um paradoxo.
Efectivamente, a tradição do Natal já não é o que era.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Os tsunamis que perseguem a Indonésia

No passado sábado ocorreu um tsunami no estreito de Sunda que separa a ilha de Samatra da ilha de Java e, segundo os dados já apurados, registaram-se 373 mortos e mais de 1400 feridos, havendo ainda mais de uma centena de desaparecidos. Uma vez mais a Indonésia está de luto. Na memória do mundo ainda está a grande catástrofe de 2004, quando um sismo na região de Aceh, na ilha de Samatra, gerou um tsumani que afectou todo o oceano Índico e matou cerca de 230 mil pessoas.
A Indonésia fica situada sobre o chamado anel de fogo do Pacífico, uma extensa área em forma de ferradura de cerca de 40 mil quilómetros onde se regista intensa actividade geológica, que dá origem a sismos e vulcões e, por vezes, a tsunamis. Nenhum outro país tem sido vítima dos tsunamis como a Indonésia.
Habitualmente um tsunami está associado a um sismo, mas neste caso resultou da erupção do Anak Krakatoa, uma ilha-vulcão cujo historial inclui algumas das mais mortíferas erupções que se conhecem, designadamente a que ocorreu em 1883 e que foi a mais dramática de todas. Nessa altura a ilha de 882 metros de altitude desapareceu e deu lugar a uma cratera de 16 quilómetros de comprimento, onde se formou um lago. Depois, nessa cratera e nesse lago nasceu uma formação rochosa chamada Anak Krakatau, o filho de Krakatoa, que actualmente já possui mais de 324 metros de altitude e que cada ano aumenta cerca de cinco  metros.
Foi exactamente no Anak Krakatoa que ocorreu a erupção que provocou o tsunami. Curiosamente, apenas alguns jornais espanhóis, caso do El Corréo de Bilbau, publicaram a impressionante fotografia do Anak Krakatoa em erupção.

domingo, 23 de dezembro de 2018

"El Gordo" fez feliz toda a Espanha

Costuma dizer-se em Espanha que sem El Gordo não há Natal e, de facto, há um enorme entusiasmo sobre tudo o que se relaciona com a maior lotaria do mundo que se realiza no país vizinho desde 1812 e cujo primeiro prémio é conhecido por El Gordo, embora esse termo também designe a própria lotaria do Natal.
Neste ano os espanhóis terão gasto cerca de 3400 milhões na compra da lotaria do Natal, o que significa que cada um gastou em média 67,56 euros na lotaria.
Ontem, a Lotería y Apuestas del Estado fez o sorteio em directo pela televisão e distribuiu 70% do dinheiro arrecadado com a venda dos bilhetes, o que corresponde a 2380 milhões de euros, que vão ser entregues a 14.008 premiados. É mesmo uma grande festa para muita gente.
O primeiro prémio de 680 milhões de euros coube ao número 03347, que vai ser dividido por 170 vencedores dispersos por todo o país, que irão receber quatro milhões de euros cada um. Como titula o jornal ABC, foi “un Gordo que hace feliz a toda España”. Não há memória de El Gordo ter tido uma tão grande dispersão geográfica pois beneficiou quase todas as províncias espanholas e só deixou de fora Ceuta, Melilla, Álava, Palencia, Guadalajara e Castellón.
A imprensa deu eco do entusiasmo em volta do El Gordo e os jornais regionais anunciaram os prémios que contemplaram as suas regiões, enquanto o ABC destacou fotograficamente os festejos que aconteceram em várias cidades espanholas.

sábado, 22 de dezembro de 2018

O solstício e o banho de mar nocturno

Ontem, dia 21 de Dezembro, aconteceu o solstício, isto é, o momento em que durante o seu movimento aparente, o Sol mais se afasta do Equador ou, como se diz em astronomia, tem a sua máxima declinação.
Com o solstício, no hemisfério norte começou o Inverno e tivemos a maior noite do ano, enquanto no hemisfério sul começou o Verão e, por exemplo, os brasileiros tiveram o maior dia do ano. No hemisfério norte, independentemente das alterações climáticas, nós temos o frio e a neve. No hemisfério sul, eles têm o calor e a atracção pelo mar e pelas praias.
O jornal O Globo, que se publica no Rio de Janeiro, destacou a ocorrência do solstício e a chegada do Verão, tendo publicado uma interessante fotografia da praia de Copacabana, na qual se pode observar uma multidão de banhistas a aproveitar uma noite de luar para usufruir dos 25 graus de temperatura das águas, sem ter que suportar o calor tórrido que ocorre durante o dia.
Parece que estes banhos, que sempre aconteceram, se estão a tornar uma nova moda nas praias do Rio de Janeiro, sobretudo nas noites de luar. São, naturalmente, a nossa inveja.

Madrid e Barcelona voltam ao diálogo

A questão catalã teve alguns desenvolvimentos nos últimos dias, com destaque para o encontro entre Pedro Sánchez e Quim Torra, isto é, o presidente do governo de Madrid e o presidente da Generalitat de Barcelona, como resultado de um convite feito por Pedro Sánchez, aproveitando a realização de um Conselho de Ministros em Barcelona. Neste encontro, que Madrid classificou como encontro informal e Barcelona considerou uma reunião bilateral, os dois políticos e as suas equipas conversaram sobre um plano para melhorar os canais de diálogo entre as duas partes no sentido de minimizar o radicalismo independentista e levá-lo para um patamar de discussão democrática.
Como se esperava, pouca coisa saíu deste encontro para além do reconhecimento de que existe realmente um conflito com diferentes perspectivas sobre a sua origem e sobre as vias de solução. Porém, a vontade de continuar a conversar ficou bem expressa e isso abriu um novo capítulo deste processo, que tinha sido encerrado com Rajoy e Puigdemont. Isso é muito positivo.
O encontro teve reacções bem diversas e extremadas: para uns foi início de um processo de diálogo democrático sobre o futuro da Catalunha e a unidade da Espanha, mas para outros foi uma cedência e uma humilhação perante “um fascista e um golpista como é Torra”. Daí que, Albert Rivera e Pablo Casado, os líderes dos Ciudadanos e do Partido Popular se tivessem unido contra “este acto de traição à Espanha”.
A fotografia de Sánchez e Torra ilustrou a imprensa espanhola, nomeadamente o conservador ABC, e ficará a marcar o futuro do processo catalão. No entanto, Pedro Sánchez "invadiu" o território da Catalunha e até lá realizou uma reunião do Conselho de Ministros, coisa que Mariano Rajoy nunca ousara fazer.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Os americanos retiram tropas da Síria

Com alguma solenidade e muita demagogia, pudemos ver ontem Donald Trump a anunciar que os cerca de dois mil militares americanos que se encontram na Síria iriam regressar a casa, porque o Daesh tinha sido derrotado e não havia razões para que lá se mantivessem. O jornal USA Today foi um dos jornais americanos que destacou essa notícia, com a qual o Donald espera melhorar a sua reputação interna.
A surpresa por esta declaração foi enorme e provocou reacções do Pentágono e de alguns aliados dos Estados Unidos, que a consideram irrealista e prematura. Não é preciso conhecer a actual situação política e militar na Síria - um tema que foi abandonado pela imprensa ocidental - para saber que o Daesh ainda não foi derrotado, nem militar nem ideologicamente. Ao anunciar a derrota do Daesh no território sírio, o Donald mentiu aos americanos e, seguramente, tem qualquer coisa "escondida na manga". De facto, num país onde se cruzam tantos e tão divergentes interesses, em que Bashar al-Assad resistiu a oito anos de guerra e em que os russos têm sido decisivos, a decisão do Donald é enigmática e terá resultado de um acordo com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. A ser assim, em vez de tensão no terreno entre turcos e americanos, a retirada americana pode ser uma jogada de reaproximação à Turquia e, ao mesmo tempo, um apoio claro para que os turcos lancem uma ofensiva contra os curdos. Como tantas vezes aconteceu ao longo do processo histórico, parece que estamos em presença de uma situação em que o interesse do mais forte sacrifica e deixa à sua sorte o interesse do mais fraco. Parece, de facto, que o Donald escolheu trair os curdos. Veremos o que vai acontecer.