quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O independentismo catalão a arrefecer

Ontem celebrou-se a Diada Nacional de Catalunya ou Dia Nacional da Catalunha que é a festa nacional catalã e que, todos os anos, recorda a resistência popular ao cerco da cidade de Barcelona, que terminou no dia 11 de Setembro de 1714. Este episódio da resistência catalã ocorreu durante a Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714), que envolveu diversas monarquias europeias em torno dos direitos de sucessão à coroa espanhola. Aquele episódio e aquela data tornaram-se o símbolo da Catalunha e a sua oposição ao centralismo de Madrid.
Durante a ditadura franquista a celebração da Diada esteve proibida, mas com a reinstalação da democracia, recomeçou a ser celebrada em 1977 e, em 1980, o Parlamento da Catalunha veio a proclamar o dia 11 de Setembro como o Dia Nacional da Catalunha.
Nos últimos anos a Diada tem constituído uma grande jornada de luta, ao concentrar os protestos contra o governo espanhol de Madrid e as reivindicações independentistas catalãs. Segundo os registos existentes, desde 2012 mais de um milhão de pessoas têm estado nas ruas de Barcelona no dia 11 de Setembro, tendo havido um pico de 1,8 milhões de manifestantes em 2014. Ontem foram 600 mil manifestantes que vieram para a rua e esse número foi o mais reduzido desde que se intensificou a reivindicação independentista, segundo hoje informa o El Periódico de Catalunya. Nem a aproximação da sentença judicial relativa ao procés e à declaração unilateral de independência feita no Parlamento da Catalunha em Outubro de 2017, conseguiram mobilizar o povo. Talvez que a dureza da sentença que se aproxima, possa servir para ressuscitar os catalães para o ideal independentista que, sendo legítimo, não é nada oportuno numa Europa em dificuldade.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Subir ao topo dá mesmo muito trabalho

Na Sala Cid dos Santos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa assisti hoje às provas públicas de doutoramento de um amigo de há muitos anos e tive a grande alegria de presenciar a forma como foi justamente reconhecido e elogiado pelos seuspares. Foi, por isso, um dia memorável para o meu amigo, para a sua família e para aqueles que, como eu, prezam aquele jovem médico tão devotado à carreira que escolheu.
Não costuma ser aconselhável que se fale dos amigos, porque há sempre uma natural tendência para o exagero no elogio e no uso do adjectivo, mas este caso é realmente incontornável porque, se não é único, é mesmo um caso muito raro e, por isso, aqui lhe deixo uma breve mensagem.
O meu amigo, que entrou naquela sala como candidato, apresentou-se perante o meretíssimo júri depois de mais de vinte anos de estudo e de trabalho hospitalar e após ter adquirido experiências e saberes em alguns centros de referência mundial, desde os Estados Unidos ao Japão, para além de um longo período de investigação clínica no mais conhecido hospital de Barcelona.
Porém, para atingir o patamar de excelência a que chegou, não confiou apenas na sua privilegiada inteligência, nem nas suas superiores qualidades de trabalho e de metódica organização. Venceu todas as barreiras com a humildade, a solidariedade e a esmerada educação que o caracterizam. Definiu um objectivo e uma estratégia, não dando tréguas à sua avidez pelo conhecimento científico, nem pela sua valorização profissional. Durante mais de vinte anos estudou com determinação e persistência, adiou outros projectos e privou-se de muitas coisas, mas tornou-se um bom médico, daqueles que acompanham e se interessam pelos seus pacientes.
A sua tese intitilou-seNon-tumoral portal vein thrombosis in patients with and without cirrhosis – Clinical significance, natural history of varices and efficacy of anticoagulation”. No fim, os elogios foram unânimes e o júri aprovou-o com distinção e louvor, por unanimidade. É a mais alta classificação que pode ser atribuida a um doutoramento. Fiquei orgulhoso. Parabéns ao CNF.

domingo, 8 de setembro de 2019

Gales também já está contra o Brexit?

A barafunda política em que está envolvido o Reino Unido continua a agravar-se e a tornar-se ridícula, não só pela obcessão que alguns manifestam pelo Brexit, com ou sem acordo, mas também porque as alternativas são cada vez mais improváveis e, sobretudo, não são nada claras. Os problemas económicos e sociais que se avizinham estão estudados e são muito preocupantes, não só para o governo de Londres, mas também para a União Europeia.
Porém, o problema da fragmentação territorial do Reino Unido parece estar cada vez mais próximo e esse problema é muito sério, até do ponto de vista militar devido à dispersão das bases britânicas pelas diferentes regiões das Ilhas Britânicas.
É sabido que a Escócia e a Irlanda do Norte votaram contra o Brexit (62% e 56% respectivamente) e, por isso, não admira que a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon já tenha declarado que, a concretizar-se o Brexit, vai realizar um novo referendo sobre a independência da Escócia, enquanto os irlandeses de Belfast já ameaçaram que a unificação das Irlandas é o seu futuro mais provável.
Entretanto o País de Gales, que tinha sido a região em que apenas 47,5% dos eleitores tinha votado contra a saída da União Europeia, começou a dar mostras de ter invertido o seu ponto de vista e que, afinal, já não quer que o Reino Unido abandone a União Europeia, juntando-se, assim, aos escoceses e aos irlandeses do norte. O jornal escocês The National, que se afirma apoiante da independência da Escócia, decidiu dar publicidade às aspirações galesas e veio agora afirmar-se como “the newspaper that supports an independent Wales”. Portanto, as coisas agravam-se cada vez mais "em terras de Sua Majestade", até porque no nº 10 de Downing Street está um perigoso fanático, aliás como insinuou o seu irmão Jo Johnson, que acaba de se demitir do governo e do Parlamento.

sábado, 7 de setembro de 2019

O dia da Eslovénia na região da Cantabria

Está a decorrer a volta ciclista à Espanha, a famosa La Vuelta, cujo traçado inclui muitas etapas montanhosas nos seus 3290 quilómetros de extensão. Ontem, a partir de Bilbao, realizou-se a 13ª etapa na distância de 166 quilómetros, que incluia sete contagens para o Prémio da Montanha (!), a última das quais no Alto de Los Machucos, na região da Cantabria, que coincidia com o final da etapa. Esta subida tem sido considerada desumana porque tem um gradiente médio de 9,2% mas que em alguns troços chega aos 25%, mas também porque aparece aos ciclistas depois de mais de 150 quilómetros de corrida entre vales e montanhas e quando as suas forças já estão muito enfraquecidas.
Os ciclistas espanhóis, mas também os colombianos e os franceses, estão na primeira linha dos grandes ciclistas que andam a disputar a Vuelta, mas ontem os louros foram para dois eslovenos, o que de certa forma é uma anormalidade, uma vez que a pequena Eslovénia não tem tradição ciclista.
Tajed Pogacar e Primoz Roglic destacaram-se na difícil subida e mostraram um grande espírito de entre-ajuda apesar de serem de equipas diferentes, tendo chegado isolados à meta instalada no Alto de Los Machucos. Na Eslovénia os dois atletas devem ter sido bem festejados e, em termos desportivos, o caso não é para menos. Foi o jovem Pogačar, de 20 anos de idade, que cortou a meta em primeiro lugar, certamente uma condescendência do seu compatriota como sinal de gratidão pela ajuda que lhe dera, enquanto Roglič, de 29 anos de idade, não só manteve a camisola vermelha de líder, como aumentou a sua vantagem sobre os seus mais directos adversários. Hoje, o jornal Alerta de Santander dedicou a sua primeira página ao “dia da Eslovénia na Cantabria” e, também hoje, os ciclistas pedalam pelas Astúrias em direcção a Oviedo. Só no dia 15 termina a Vuelta com a chegada a Madrid.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O fim da guerra e o futuro da Síria

Depois de alguns meses em que a imprensa internacional esteve calada e não falou da Síria, apareceu agora a revista The Economist com um artigo a reconhecer a vitória de Bashar al-Assad e do seu regime, embora considere que se tratou de uma vitória oca. De resto, o título do artigo está em linha com a fotografia de Assad sobre um monte de destroços, que é elucidativa quanto aos resultados da guerra, isto é, que Assad ganhou mas que o país ficou destroçado.
Quando no ano de 2011 Assad decidiu resistir à primavera árabe que chegara às suas fronteiras, enfrentou as ameaças e até alguns bombardeamentos ocidentais, tendo pedido ajuda à Rússia e ao Irão. Depois de oito anos de violência, de milhões de refugiados e de meio milhão de mortos, parece que só a província de Idlib ainda resiste. “Contra todas as probabilidades, o monstro venceu”, escreveu o anónimo autor do artigo da revista, deixando no ar a ideia de que era um artigo encomendado.
Começa agora a pensar-se no futuro. A Síria está destruída, enquanto a pobreza, a corrupção e as desigualdades sociais são enormes. O que resta do país corre o risco de colapsar. Aproximam-se tempos ainda mais difíceis para os sírios porque o país não tem dinheiro, nem quadros, nem mão-de-obra para a reconstrução. A Rússia e o Irão são credores de uma enorme dívida da Síria e, certamente, esperam vir a ser pagos com juros. Diz The Economist que “para os sírios, a vitória de Assad foi uma catástrofe”, mas acrescenta que os seus “adversários estão exaustos”.
Outro dos grandes problemas sírios são os refugiados que saíram do país, fugindo destes e daqueles, mas que agora não querem regressar da Jordânia, do Líbano ou da Turquia, onde não são desejados porque consomem recursos, ocupam empregos e geram agitação social.
Lamentavelmente, o artigo não contribui para o desanuviamento nem para a reconciliação nacional, atacando Bashar al-Assad como se ele e os seus aliados fossem os maus desta fita, enquanto os seus adversários, locais ou internacionais, fossem uns bonzinhos e que as suas bombas eram inofensivas, o que não é verdade. E, para mostrar o seu alinhamento ideológico, o artigo diz que “os sírios sofreram terrivelmente. Com a vitória de Assad, a miséria deles continuará”. O artigo não engana, revela muito radicalismo e mostra aquilo a que se chama um mau perder. Só pode ser publicidade paga.

Moçambique em festa com a visita papal

O Papa Francisco está em Moçambique e esta visita papal, que acontece pouco tempo depois da assinatura do acordo de paz e reconciliação entre a Frelimo e a Renamo, coloca o país na primeira página da imprensa mundial. Muita gente vê nesta visita o apoio do Papa a uma paz estável e duradoura, que permita o progresso económico e social dos moçambicanos.
Moçambique é um grande país da costa oriental africana e recebeu o Papa Francisco em festa, tendo exibido a sua diversidade religiosa nas cerimónias de recepção no aeroporto, o que mostra o carácter pacificador desta visita. Acontece que o país já está em campanha eleitoral para as eleições de 15 de Outubro e muitos temem que o partido do governo aproveite esta visita para se promover, mas muitos outros acreditam que a mensagem de reconciliação papal supera tudo o resto. Outros, também lamentam que a visita papal tenha sido limitada à cidade de Maputo e deixasse de lado as províncias de Sofala e da Zambézia que recentemente foram devastadas por ciclones, bem como a província de Cabo Delgado onde se tem verificado uma onda de violência fundamentalista islâmica. Mas, evidentemente, o Papa não pode ir a todo o lado e terá que ser a comunicação social a dar notícia desta visita e da sua importância para a paz, como bem tem feito o diário O País, que se publica em Maputo.
Amanhã, antes de partir para Madagáscar e para a Maurícia, o Papa Francisco celebrará missa no Estádio Nacional do Zimpeto, sendo esse o momento mais grandioso desta sua visita que enche de orgulho os moçambicanos e reforça a ideia de paz e de reconciliação nacional.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Alterações climáticas a afectar Brasília

A edição de hoje do Correio Braziliense destaca o notícia de que o Distrito Federal registou ontem o dia mais quente do ano e o valor mais baixo da humidade relativa neste século e que, na cidade de Brasília, esse valor atingira os 8%, acrescentando que o tempo seco deverá continuar e que hoje se espera que a humidade tenha um valor semelhante ao de ontem.
Se isso acontecer, isto é, se se verificarem dois dias seguidos com humidades abaixo dos 12%, segundo os critérios da Defesa Civil significa uma situação de emergência.
A Organização Mundial de Saúde indica o valor de 60% como o valor ideal da humidade relativa e, perante esta situação, as autoridades trataram de avisar a população e, entre outras recomendações, alertam para que suspenda a prática de actividades físicas e trabalhos ao ar livre, para que se aumente a ingestão de líquidos e para que se procure vaporizar o ambiente doméstico com vaporizadores ou toalhas molhadas.
Segundo o jornal, não chove no Distrito Federal desde há 94 dias e essa situação torna-se crítica pelo desconforto das pessoas e pelas consequências sobre a saúde da propagação de vírus que circulam no ar e que provocam muitas doenças respiratórias e outras. Por outro lado, as queimadas e os incêndios que têm acontecido na região de Brasília, que já registaram 5.871 incêndios florestais desde Janeiro, segundo revelou o Corpo de Bombeiros, têm deixado o céu de Brasília tomado pela fumaça e, por vezes, quase enquadrando um cenário de apocalipse. É mais um evidente caso das enormes alterações climáticas que estão a afectar o nosso planeta e às quais o Jair parece pouco sensibilizado.
Aqui na cidade de Lisboa também estamos sob um vaga de intenso calor, mas sempre vamos tendo de mais de 30% como valor mínimo da humidade relativa. Porém, já que outra coisa não podemos fazer para além de expressarmos solidariedade, também desejamos que chova rapidamente em Brasília. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Brexit: a demagogia continua em Londres

Ontem, em Londres, a Câmara dos Comuns retomou os seus trabalhos parlamentares depois das férias de Verão e tratou de diversas questões menores que estavam agendadas, tendo havido uma intervenção do primeiro-ministro Boris Johnson sobre a recente cimeira do G7.
Depois, seguiu-se a história do costume a respeito do Brexit, com os deputados divididos entre a saída sem acordo ou a saída com acordo. Boris Johnson, que conseguiu que o Parlamento fosse suspenso a partir da próxima semana, continuou a insistir na sua proposta radical de saída sem acordo, parecendo indiferente aos avisos que lhe chegam quanto às graves consequências que isso vai ter no abastecimento público, nos portos e no turismo. É o caos dizem uns, é a incerteza total dizem outros. Apesar disso, foi votada e aprovada uma proposta que visa a criação de legislação que impeça uma saída sem acordo no dia 31 de Outubro, isto é, a iniciativa do processo do Brexit volta ao Parlamento e não fica nas mãos do revolucionário Boris. Foi uma humilhante derrota como hoje diz o The Guardian, pois tiraram-lhe o tapete e foi-se a sua maioria parlamentar, enquanto viu alguns dos deputados do seu partido virarem-lhe as costas.
Hoje a luta continua, mas já é assumido que o governo vai apresentar uma proposta para a realização de eleições legislativas antecipadas dentro de seis semanas, isto é, a 14 de Outubro. Talvez seja a melhor solução para este enorme imbróglio, em que a União Europeia perdeu a paciência e se prepara para classificar esta novela como “um desastre natural”.
O que será necessário é que no processo eleitoral os britânicos sejam esclarecidos sobre o que está em jogo, porque há muita ignorância a minar este processo, que só um eleitorado esclarecido pode ultrapassar. Depois, saiam ou fiquem, com ou sem acordo, mas sem dar ao mundo este espectáculo político degradante.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A violência destruidora dos furacões

As tempestades tropicais ou ciclones tropicais são um fenómeno meteorológico de características depressionárias que se forma sobre o mar das regiões tropicais em diferentes regiões do mundo. No oceano Pacífico ocidental designam-se por tufões (typhoon), mas na região ocidental do oceano Atlântico são chamados furacões (hurricane). O efeito dos ciclones tropicais é devastador, quer no mar, quer em terra, porque o vento pode soprar com grande intensidade. O mais recente de que há notícia é o furacão Dorian que atingiu ontem o arquipélago das Bahamas, com ventos com velocidades superiores a 300 quilómetros por hora, que já provocaram cinco mortos e destruíram pelo menos 13 mil casas em várias ilhas, deixando um forte rasto de destruição e fazendo com que a população ficasse sem abrigo ou alojada precariamente. As autoridades das Bahamas declararam nunca ter visto tanta destruição porque a violência do Dorian “não tem precedentes”. Entretanto, quando o furacão se aproximava da Florida e da Geórgia, uma situação que a fotografia da capa da edição do Miami Herald bem esclarece, parece ter perdido força e estar a ser travado na sua progressão para noroeste por um sistema de altas pressões situado na área das Bermudas. No entanto, as autoridades americanas mantêm todos os alertas e continuam a avisar que a situação é “extremamente perigosa”. Os americanos do sul e sueste do país sabem por experiência o mal que o Dorian lhes pode levar.

As subvenções vitalícias dos políticos

A questão das pensões, qualquer que seja a sua natureza, é sempre um assunto é muito delicado e eu não sou um entendido nessas coisas. No entanto, não me oferece dúvida que quem tem um emprego, que trabalha e que desconta uma parte do seu salário para um fundo de pensões, tem direito a receber mais tarde uma pensão mensal proporcional ao tempo que trabalhou e aos descontos que lhe foram feitos. Porém, no caso dos políticos o assunto não pode ser visto da mesma maneira.
A carreira política é uma função nobre e aqueles que a escolhem fazem uma opção pelo serviço à causa pública ou pelo serviço à comunidade. Os políticos são um produto da vida partidária e muitas vezes submetem-se a eleições, mas uma eleição é diferente de um qualquer concurso empresarial para admissão de empregados, em que os candidatos têm que apresentar currículos e prestar provas. Por isso, a carreira política é temporária ou ocasional porque depende das escolhas dos eleitores. Não é um emprego e não pode ser tratada como um emprego.
Muitos políticos não percebem o que é servir a causa pública e mantém as suas actividades privadas em paralelo com as funções públicas, além de terem assegurados generosos subsídios de reintegração quando abandonam a política e regressam à sociedade civil. Portanto, o tempo que passam na política está protegido por esses subsídios e não lhes deve dar direito a quaisquer outros direitos especiais.
Assim, as subvenções vitalícias aos políticos não fazem sentido nenhum. Os políticos são cidadãos como os outros e os seus direitos não podem ser diferentes dos outros. Quando chegam à idade da reforma, têm direito a uma pensão mensal proporcional ao tempo que trabalharam e aos descontos que lhe foram feitos, onde ou para quem quer que fosse. Seis milhões de euros por ano, gastos com esta gente que, provavelmente, nem precisa, é um desperdício de recursos e uma abusiva utilização dos meus impostos. É mesmo imoral.

sábado, 31 de agosto de 2019

O topo do mundo para o Jorge Fonseca

Eu nunca tinha ouvido falar no Jorge Fonseca e ontem fui surpreendido com a notícia de que se tinha sagrado campeão do mundo de judo na classe -100 kg, ao vencer o russo Niyaz Ilyasov. As televisões repetiram muitas vezes aquela notícia e anunciaram que, pela primeira vez, um judoca português tinha sido campeão mundial.
Para quem, como eu, pensava que o judo português era a Telma Monteiro e a sua sempre adiada ascensão ao topo do mundo, foi muita surpresa mas também foi uma grande satisfação. O hino nacional foi ouvido em Tóquio e foi muito emocionadamente cantado pelo Jorge Fonseca, que nasceu em São Tomé e Príncipe, mas que veio para Lisboa há cerca de 15 anos. Disse ele que ouvir o hino foi uma situação incrível e que esperava voltar a ouvi-lo muitas vezes, o que é muito animador quando estamos a um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio.
Poucos imaginam os sacrifícios, as privações, o trabalho e a persistência que são exigidos na preparação dos atletas de alta competição, mas o título de Jorge Fonseca certamente que o compensa de tudo isso.
Os jornais generalistas portugueses deram a notícia em primeira página, mas com muita discrição, enquanto dois jornais desportivos esqueceram o futebol por um dia e perceberam a importância do feito atlético do Jorge Fonseca, dedicando-lhe toda s sua primeira página. Aqui fica, também, o meu aplauso porque, exceptuando os hoquistas, são muito raros os campeões do mundo portugueses.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Evocação do referendo de 1999 em Timor

Depois dos chamados acordos de Nova Iorque assinados no dia 5 de Maio de 1999 entre Jaime Gama e Ali Alatas, em representação dos governos de Portugal e da Indonésia com a mediação de Kofi Annan, o secretário-geral das Nações Unidas, realizou-se no dia 30 de Agosto de 1999 um referendo em Timor Leste.
Nessa consulta não se falava em independência e, muito habilmente, perguntava-se aos timorenses se aceitavam ou não uma autonomia especial para o seu território. A resposta foi negativa e 78,5% dos timorenses optaram por rejeitar essa “oferta” de estatuto, o que nos termos dos acordos de Nova Iorque significava o fim do vínculo indonésio a Timor-Leste e a restauração do estatuto que tinha até à invasão indonésia do seu território. Estava aberta a porta para a independência de Timor-Leste e para a substituição das forças militares e policiais indónésias por uma Força Internacional para Timor-Leste (INTERFET).
A notícia da realização da consulta popular que foi acordada em 5 de Maio, provocou muitas acções de intimidação contra os independentistas e muitos assassinatos. Com os resultados de 30 de Agosto, as milícias pró-indonésias com a cumplicidade dos militares indonésios, criaram uma situação de generalizada violência e destruição no território, sobretudo na cidade de Dili, assassinando muitas centenas de pessoas e levando muitos milhares a refugiarem-se em territórios vizinhos. As infraestruturas do território foram destruídas quase completamente, incluindo casas, escolas, igrejas, hospitais, bancos e os sistemas de irrigação, de abastecimento de água e de electricidade. As televisões mostraram a tragédia vivida pelos timorenses durante vários dias, pois só no dia 20 de Setembro desembarcou a força das Nações Unidas comandada pelo major-general australiano Peter Cosgrove. Hoje, o jornal Público evoca o 20º aniversário do referendo que abriu as portas da independência a Timor Leste, com uma fotografia da "alegria do povo".

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O Brexit no-deal está cada vez mais perto

A pedido do primeiro-ministro Boris Johnson, a rainha Isabel II aceitou ontem que o Parlamento britânico seja suspenso desde o dia 10 de Setembro até ao dia 14 de Outubro, isto é, até quando faltarem apenas  duas semanas da data prevista para o Brexit.
Com esta medida o radical governo britânico pretende assegurar que o Reino Unido abandone a União Europeia no dia 31 de Outubro, certamente sem acordo ou no-deal, ao mesmo tempo que pretende inviabilizar quaisquer tentativas de aliança entre a oposição trabalhista, os rebeldes conservadores e os deputados escoceses, para impedir essa saída sem acordo ou mesmo para conseguirem o afastamento de Boris.
As reacções a esta decisão foram imediatas pois o encerramento temporário do Parlamento é um sério ataque ao processo democrático e aos direitos dos deputados enquanto representantes eleitos pelo povo, havendo mesmo quem fale em golpe de estado. Muita gente não aceita a legitimidade política de Boris Johnson, pois foi escolhido por noventa mil cidadãos do seu partido, chefia um governo minoritário, não tem uma maioria no Parlamento e, desde que assumiu o cargo, não foi ao Parlamento uma única vez, o que é uma afronta à tradição democrática britânica.
O extravagante Boris Johnson, que toda a gente considera a versão britânica de Donald Trump, tem vivido obcecado com o Brexit e parece não entender as graves consequências que virão para a economia, para a sociedade e mesmo para a cultura do Reino Unido com este divórcio mal esclarecido. Por isso, a edição do The Times destaca hoje que "Johnson goes for broke", isto é, que Johnson nos leva à falência.
Ninguém se entende naquelas ilhas. Porém, como teremos oportunidade de ver, esta história ainda vai ter muitos mais episódios.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A vergonha dos políticos-futeboleiros

Embora eu tivesse sido um praticante muito medíocre, o gosto pelo futebol tem vivido sempre comigo desde há muitos anos porque, apesar dos condicionalismos impostos pelo negócio, pelo necessidade de satisfazer adeptos e patrocinadores e das muitas exigências de um espectáculo que movimenta milhões, ainda continua a ter um largo espaço para a criatividade e para a performance atlética, o que também faz do futebol uma arte do espectáculo, tal como o circo, o teatro ou a dança. Além disso, o futebol é um espectáculo divertido, que entusiasma, que pode alimentar sãs paixões clubísticas e que tem a potencialidade de regular as tensões da sociedade.
Porém, de há uns anos para cá, o futebol tornou-se uma praga social do tipo jacinto-da-água, pois invade e quase devora tudo à sua volta. A componente desportiva quase desapareceu deste fenómeno de massas e são os interesses comerciais que dominam, enquanto as televisões se deixaram colonizar pelo futebol e dão guarida a um arraial mediático de mau nível, onde não faltam as acusações, os insultos e as contínuas suspeitas sobre o adversário. Nenhum outro assunto ocupa tanto espaço televisivo como o futebol e até as notícias sem interesse nenhum são repetidas dezenas de vezes. É um atentado à saúde mental do telespectador. Um espectáculo televisivo deprimente.
Nos últimos tempos surgiu uma nova espécie de gente que são as dezenas de comentadores futebolísticos, muitos deles trauliteiros encartados e alguns deles, imagine-se, deputados eleitos como nossos representantes no Parlamento. Vemos, então, os nossos representantes no Parlamento aos gritos histéricos por causa de um penalti, de um off-side ou de um erro de arbitragem.
Hoje o jornal i chamou-lhe “os políticos que dão toques na bola”, mas eu acho que, se eles são políticos, são medíocres e incapazes. São gente sem princípios e sem valores que apenas querem ganhar uns cobres e satisfazer as suas vaidades pessoais. São meros oportunistas sem vergonha nenhuma e, ao colocar a fotografia de alguns deles na sua primeira página, o jornal fez-me lembrar os cartazes afixados à porta dos saloons com a imagem dos  cowboys que tinham a cabeça a prémio no Far West...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Plácido Domingo: a ovação em Salzburgo

O tenor espanhol Plácido Domingo, que actualmente conta 78 anos de idade, foi recentemente acusado nos Estados Unidos por supostamente ter assediado sexualmente nove mulheres, das quais sete nem sequer se identificaram.
Este tipo de acusações contra figuras proeminentes e ricas é comum no país mais poderoso do mundo, mas o senso comum percebe sem dificuldade que, muito provavelmente, se tratam de tentativas de extorsão que é uma prática comum numa sociedade em que o dinheiro é o valor mais importante de tudo.
Nestes casos de assédio sexual, real ou fictício, a moralidade americana é ridícula e extravagante, regendo-se por padrões muito diferentes dos padrões europeus e da cultura latina, chegando a haver acusações que resultam apenas de olhares ou de piropos, nem sempre mal intencionados.  Por isso, de vez em quando lá aparece na América mais um caso em que um indivíduo rico e famoso é vítima de uma acusação dessas. Foi assim, por exemplo, com Dominique Strauss-Kann, o antigo director do FMI e potencial candidato à Presidência da República Francesa, foi assim com Cristiano Ronaldo que foi e é o melhor futebolista do mundo e é, agora, com Plácido Domingo, considerado a maior estrela da ópera internacional. Todos eles são estrangeiros, estiveram na América e são ricos, pelo que são alvos interessantes para quem vive de extorsões e de indemnizações por tudo e por nada. Não sei se são culpados ou não das acusações que lhes têm feito, mas o facto é que lhes têm saído caras sob todos os pontos de vista.
Ontem Plácido Domingo apareceu pela primeira vez num espectáculo desde que surgiu a acusação e o público do Festival de Salzburgo ovacionou-o de pé antes e depois da sua actuação. Alguns jornais espanhóis, como por exemplo La Razón, juntaram-se ao público de Salzburgo e também aplaudiram o tenor.