quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Alepo e a complexidade do puzzle sírio

A imprensa internacional têm andado muito ocupada com os Jogos Olímpicos e com os feitos desportivos que vão sendo praticados em Londres. A temática olímpica tomou conta do espaço noticioso na generalidade dos países, celebrando-se as vitórias dos campeões com expressiva adjectivação e reproduzindo-se as suas fotografias nas piscinas, nas pistas e nos pódios. Praticamente não tem havido espaço para relatar outros acontecimentos internacionais e a crise do euro, a guerra no Afeganistão ou a situação síria parece terem caído no esquecimento.
Porém, a edição de hoje do The Washington Post não enfatiza o número de medalhas olímpicas ganhas pelos americanos, mas destaca o estado de guerra na Síria, que está cada vez mais violento. O jornal publica em primeira página uma fotografia de um combatente anti-regime e informa sobre a violência dos confrontos que se travam na cidade de Alepo. Os apoiantes de Bashar al-Assad exigem uma vitória decisiva para aniquilar a rebelião nas ruas de Alepo para evitar que a guerra alastre e chegue a Damasco. A oposição esperava mais ajuda dos Estados Unidos. Naturalmente, como sempre acontece nestas situações, o grande sofredor é o povo.
Entretanto, os apoios internacionais explícitos de ambas as partes mostram que é muito elevado o risco de internacionalização do conflito, sobretudo depois de ter sido frustrada a missão mediadora de Kofi Annan. A Rússia e a China mantém o apoio ao regime de Bashar al-Assad, enquanto o Irão denuncia o que afirma ser uma conspiração contra a Síria, apoiada pela Arábia Saudita, pelo Qatar e pela Turquia. Quando o The Washington Post se torna o porta-voz dos rebeldes e sugere a fixação de uma zona de exclusão aérea e o fornecimento de armas pesadas, não é mais do que uma pressão indirecta sobre os aliados europeus que no ano passado se envolveram na Líbia. Porém, agora as circunstâncias são outras e o puzzle é bem mais complexo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Os maus exemplos dos governantes

Segundo noticia hoje o jornal i, os subsídios de alojamento pagos aos membros do Governo e aos chefes de gabinete que tenham residência a mais de 100 quilómetros de Lisboa, custam cerca de 15.800 euros por mês ao Estado e ao bolso dos contribuintes, correspondendo a um custo de quase 200 mil euros por ano. Ainda de acordo com a referida notícia, esse subsídio é actualmente recebido por um ministro, nove secretários de Estado e seis chefes de gabinete, recebendo os membros do governo cerca de 1.130 euros mensais, enquanto os chefes de gabinete recebem aproximadamente 750 euros mensais. Essas pessoas auferem as mais elevadas remunerações da administração pública e, certamente, não têm necessidade deste subsídio, a juntar a muitas outras benesses de que já usufruem. Porém, são como a sanguessuga e não têm dignidade ética para recusar mais essa mordomia, que é paga pelos contribuintes. Comem tudo. Alguns até terão residência permanente fora de Lisboa, mas têm casa própria na capital, onde vivem há muitos anos. De resto, é habitual que essa gente indique duas residências para “usar” conforme as circunstâncias e as conveniências. Ora, em tempo de crise e quando são retirados os subsídios de férias e de Natal aos pensionistas e a outros trabalhadores, a suspensão do subsídio de alojamento de todos os titulares de cargos políticos seria uma forma da classe política dar o exemplo, antes de exigir tão pesados sacrifícios aos restantes portugueses. Seria apenas uma atitude simbólica, mas nós precisamos de atitudes simbólicas. Porém, para esta gente, a prestação de serviço público e o exemplo são coisas que não conhecem. São demasiado pequenos e vulgares.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Aljubarrota revive os tempos medievais

Comemorando a batalha travada no dia 14 de Agosto de 1385, em que nos campos de Aljubarrota se enfrentaram os exércitos de Portugal e de Castela, vai realizar-se na vila de Aljubarrota, a cerca de 3 quilómetros de Alcobaça, a tradicional Aljubarrota Medieval. Trata-se de uma festa popular inspirada nas tradições medievais que se realiza anualmente entre os dias 12 e 15 de Agosto, em cujo programa se anunciam uma feira medieval e muita animação de rua, mas também rábulas teatrais, música medieval, torneios medievais, tendas árabes, uma ceia medieval e tabernas onde os visitantes podem encontrar refeições medievais.
As ruas estreitas da vila são especialmente decoradas para melhor recriarem o ambiente do século XIV e por elas desfilam com os seus trajos característicos e ao som de tambores e de gaitas de foles, alguns dos representantes da sociedade daquele tempo, designadamente as princesas, os nobres, os soldados, os frades e os camponeses, muitas vezes acompanhados por malabaristas e jograis que animam os cortejos e os recintos.
A entrada é livre e dizem-me, aqueles que já lá estiveram em anos anteriores, que é uma festa medieval a não perder.

Bolt: o homem mais veloz do planeta

O jamaicano Usain Bolt é o homem mais veloz do planeta, depois de ontem ter vencido a prova rainha dos Jogos Olímpicos que, aliás, já vencera em 2008 em Pequim.
A sua corrida e a sua vitória foram fantásticas, bem como o tempo que obteve e que constitui um novo record olímpico: 9,63 segundos. A marca com que  bateu todos os seus adversários é o segundo melhor tempo de sempre nos 100 metros planos e apenas foi batida pelo próprio Bolt, quando em 2009 correu aquela distância em 9,58 segundos e estabeleceu em Berlim o recorde mundial, que ainda perdura.
A notícia da prova olímpica dos 100 metros planos e a fotografia de Usain Bolt ilustram as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo, numa unanimidade que glorifica o atleta. Usain Bolt é de facto uma máquina de correr e, dizem os especialistas, é anatomicamente perfeito. Porém, é curioso verificar que os cinco primeiros classificados na prova, foram os representantes da Jamaica e dos Estados Unidos, o que parece significar que é naquela região do hemisfério ocidental que o homem tem mais propensão para a velocidade.

Ceuta e algumas memórias lusitanas

Terminaram ontem na cidade autónoma de Ceuta as Fiestas Patronales en Honor a Santa Maria de África, a “patrona y madre de Ceuta”, o que foi amplamente noticiado pelo jornal Faro de Ceuta.
A devoção dedicada a Santa Maria de África ou Nossa Senhora de África ou Virgem de África não é exclusiva daquela cidade espanhola do norte de África, pois estendeu-se a outras regiões africanas, como por exemplo à Argélia e ao golfo da Guiné. Porém, segundo se crê, essa devoção teria nascido com a presença portuguesa em Ceuta, pois o mais antigo lugar de culto com esta designação encontra-se naquela cidade e a sua construção inicial data do século XV. A imagem da Virgem "patrona y madre de Ceuta" que é venerada nas festas, terá sido doada à cidade pelo Infante D. Henrique, com o pedido para que todos os sábados se rezasse pela sua alma e a tradição da “sabatina”, que ainda hoje permanece em Ceuta, poderá ter essa origem. A imagem tem na mão um bastão com nós, que foi oferecido pelo último governador português de Ceuta.
Ceuta foi conquistada em 1415 pelo rei D. João I e a partir de 1640 deixou de pertencer a Portugal, por não ter aderido ao movimento da Restauração. No entanto, a cidade manteve a sua bandeira igual à da cidade de Lisboa e o seu brasão com as cinco quinas portuguesas, o que só por si evoca as memórias lusitanas.
Teria sido uma boa oportunidade para visitar Ceuta.

sábado, 4 de agosto de 2012

O uso e o abuso dos cartões de crédito

Nos últimos dias os jornais e as televisões repetiram exaustivamente que, entre 2009 e 2011, oito gestores da INCM - Imprensa Nacional Casa da Moeda gastaram cerca de 27 mil euros em despesas pessoais, utilizando cartões de crédito da empresa. Alguns desses jornais ficaram muito impressionados e escreveram que os “gestores gastaram balúrdio”. O Tribunal de Contas tinha detectado o uso indevido dos cartões de crédito e decidiu que esse dinheiro fosse devolvido, o que já terá sido feito na totalidade. E, aparentemente, ficou tudo certo. Não foi abuso de confiança, nem desonestidade. Foi, simplesmente, uma distracção. Devolve-se e pronto!
Casos como este que ocorreu com os gestores da INCM são, como todos sabemos, muito frequentes e bom seria que o Tribunal de Contas estivesse mais atento ao que se passa nos ministérios, nos organismos e serviços da administração central, nas autarquias e nas empresas públicas. O abuso nas chamadas despesas e no uso do cartão de crédito vulgarizou-se e tem uma dimensão que excede largamente o que se passou na INCM. Uma pequena parte das gorduras do Estado está encoberta pelo despesismo pessoal devido ao uso do cartão de crédito e há que acabar com isso para moralizar a nossa vida pública. Precisamos de bons exemplos.
De vez em quando, chegam-nos algumas notícias que são apenas a ponta de um iceberg que pode ser gigantesco. Quem não se lembra dos abusos dos deputados turistas, dos gestores da Gebalis, do uso indevido de telefones, dos almoços, das viagens, dos hotéis e eu sei lá que mais.  A invenção do dinheiro de plástico (e a correspondente criação de moeda) é uma das causas da crise geral por que passamos e também tem sido um veículo de inqualificáveis abusos praticados por muitos dos que usam esse cartão e que, dessa forma, têm tirado proveito ilícito e lesado impunemente o Estado e o contribuinte.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Relvas está em festa!

O mês de Agosto é um mês de festas e romarias, apesar do calor ser por vezes excessivo e nos suscitar um forte apelo para que procuremos o mar. Poucas cidades, vilas e até aldeias resistem a organizar as suas festas, umas vezes de cariz religioso, outras de cariz profano, mas sempre com presença musical, comes-e-bebes e um acentuado cunho popular. Antigamente a componente musical centrava-se nas actuações das bandas filarmónicas a tocar nos coretos, mas nos tempos modernos essa vertente passa pela apresentação de concertos com outros estilos e outros ritmos musicais mais modernos, incluindo alguns cantores mais ou menos conhecidos do público.
Hoje começam as festas em Relvas, uma localidade da freguesia de Santa Catarina, no concelho das Caldas da Rainha. O nome da terra nada tem a ver com o mais famoso ministro que temos, nem com a sua meteórica actividade académica. Honni soit qui mal y pense!
A partir de hoje Relvas está em festa e vai receber a actuação de alguns dos mais conhecidos grupos musicais do Oeste como a Chaparral Band de Torres Vedras, o Bico d’Obra das Caldas da Rainha ou Os Lord’s de Atouguia da Baleia. Há quem goste. Vão ser cinco dias com muita música e muita luz, com cantores e bailarinas, com muito entusiasmo e muita cerveja. Relvas vai animar-se!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os gestores que alternam

A edição de hoje do jornal de Negócios, tendo por base o relatório de governação de sociedades publicado pela CMVM, relativo ao ano de 2010, informa que “250 gestores têm 4.100 cargos de administração”, isto é, em média cada um destes 250 super-gestores administra mais de 16 empresas. Esta realidade sugere de imediato uma pergunta: será possível ser bom gestor quando se acumulam cargos em 16 empresas?
O caso mais significativo passa-se com Miguel Pais do Amaral, que gere 73 empresas, mas se se incluirem as empresas que gere no estrangeiro, são mais de cem. Porém, segundo declarou, é accionista de todas as empresas em que é administrador e, nesse caso, a eventual ineficiência da sua gestão prejudica-o directamente.
O referido relatório também informava que havia 17 gestores que acumulavam mais de trinta cargos de gestão, nem sempre no mesmo grupo empresarial ou no mesmo sector de actividade. É gente que nada em todas as águas, como os tubarões. A maioria nem são gestores profissionais e muitos são advogados e ex-políticos, o que parece denunciar conflito de interesses e ambição pessoal sem limites. Alguns deles mantêm uma intervenção politico-partidária activa, mas discreta. Estão com um pé em cada lado, como convém. Alternam. Fazem gestão de alterne. Naturalmente, tornaram-se ricos e, consequentemente, tornaram-se muito poderosos e influentes. O jornal de Negócios identifica alguns: o advogado Proença de Carvalho que exerce funções de gestão em 31 sociedades, o socialista Fernando Gomes que tem 29 cargos como administrador e o emproado Nogeira Leite que ocupa 25 cargos de gestão, embora haja também os Rebelos de Sousa, os Lobos Xavier e outras sumidades. São alguns dos nossos super-gestores e, navegando entre empresas e interesses, fazem gestão de alterne.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Michael Phelps: "the greatest Olympian"

O nadador americano Michael Phelps cometeu ontem um feito desportivo extraordinário ao conquistar a sua 19ª medalha olímpica (quinze de ouro, duas de prata e duas de bronze) e ao ultrapassar a performance olímpica da ex-ginasta soviética Larisa Latynina que, em 1956, 1960 e 1964 tinha conquistado 18 medalhas (nove de ouro, cinco de prata e quatro de bronze). Com este único e invejável registo, Michael Phelps pode ser considerado “o maior atleta da história do desporto olímpico” e coloca-se num pedestal acima daquele em que se têm situado alguns dos nomes mais lendários do olimpismo moderno, como Jesse Owens, Emil Zatopek, Bob Beamon, Mark Spitz, Nadia Comaneci, Carl Lewis ou Sergei Bubka.
Agora a estrela olímpica passou a ser Michael Phelps: em 2004 conquistou 6 medalhas de ouro e 2 medalhas de bronze em Atenas e, em 2008, ganhou 8 medalhas de ouro em Pequim. Em Londres conquistou a sua 17ª medalha na estafeta de 4x100 metros livres (medalha de prata), depois a 18.ª medalha foi ganha nos 200 metros mariposa (medalha de prata) e a ambicionada 19ª medalha foi conquistada na estafeta de 4x200 metros livres (medalha de ouro). Michael Phelps é considerado um desportista predestinado e, em boa verdade, ele é um atleta do outro mundo a quem o jornal britânico The Guardian chamou "the greatest Olympian". Além de tudo isto, acontece que Phelps ainda vai voltar a competir...

terça-feira, 31 de julho de 2012

A overdose do Gaspar

Desde o ano de 1987, quando Portugal foi admitido na Comunidade Económica Europeia, que o deslumbramento e as facilidades tomaram conta dos portugueses e dos seus dirigentes. De repente, o país passou a aspirar à prosperidade europeia e Bruxelas tornou-se o destino prioritário dos nossos governantes, autarcas, assessores, técnicos e dirigentes muito diversos. Todos - o Estado, as Empresas e as Famílias - passaram a gastar demasiado em coisas não essenciais ou desnecessárias, com fundos próprios e com fundos comunitários, mas quase sempre com um excessivo endividamento. O Estado deixou-se engordar para satisfazer clientelas partidárias e cometeu exageros que são visíveis pelo país em infra-estruturas por vezes sumptuosas. Directa ou indirectamente, o subsídio passou a fazer parte da vida de muita gente. Os bancos perderam a cabeça e emprestaram o que tinham e o que não tinham. O apelo ao consumo e o crédito barato entusiasmaram os mais desatentos. Foram mais de vinte anos de euforia e de cegueira, até que os ventos da crise chegaram a Portugal, mostrando que os cofres estavam vazios, os credores à porta e que o país estava doente.
Quando alguém está doente, deve-lhe ser administrada a medicamentação adequada e proporcionada, nos exactos termos prescritos pelo médico. Nem mais, nem menos. Ao fim de um ano temos verificado como o monocórdico Gaspar – aquele valentão que ataca os fracos e se agacha com os fortes - com o pretexto de querer corrigir o défice público e reformar o Estado, mas sobretudo em obediência à troika, tem aplicado uma receita ao país que é uma verdadeira overdose. Ora, a realidade é que as overdoses enfraquecem os doentes e o resultado da overdose do Gaspar aí está: a emigração a aumentar, o desemprego a atingir os 15.4%, a pobreza a agravar-se, o pequeno comércio a fechar as portas, o interior a desertificar-se, a esperança a perder-se e a coesão social a fragmentar-se. Até o FMI e a OCDE acham que se tem ido longe demais.

Não esqueçamos os burlões do BPN

O Jornal de Negócios noticiou ontem que a maior burla de sempre na banca do Irão foi julgada por um tribunal que ditou a condenação à morte de quatro pessoas, a prisão perpétua para mais duas e várias condenações com penas de prisão até 25 anos, por envolvimento numa fraude de 2,6 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros). A fraude foi conhecida em Setembro do ano passado, a justiça funcionou e em poucos meses ditou a sua sentença. Nos Estados Unidos também se têm verificado condenações por infracções bancárias e a mais simbólica foi a de Bernard Madoff, o autor de uma fraude de 65 mil milhões de dólares (cerca de 45 mil milhões de euros), que já está a cumprir uma pena de 150 anos de prisão.
A ganância financeira e as práticas fraudulentas que lhe estão associadas, também existem na Europa, um pouco por toda a parte, estando ultimamente em destaque o que se passa nas bancas espanhola e inglesa. As notícias de falências, fraudes, burlas, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito de gestores são frequentes, embora as notícias relativas à criminalização dos seus responsáveis sejam mais raras.
Portugal não está à margem dessa realidade. Porém, havendo quem avalie a fraude do BPN - a fraude do século - em quase 10 mil milhões de euros, parece que a punição dos responsáveis tende a ser esquecida. Já são passados muitos meses e eles continuam a passear-se e, despudoradamente, a exibir os frutos da sua vigarice e das suas burlas. Tornaram-se ricos e poderosos, mas não passam de uns burlões encartados. Todos sabem quem são e por onde andam. Alguns continuam encostados à política e até estão bem colocados no Estado e fora dele, como se nada se tivesse passado.
A justiça não acelera o seu trabalho e a imprensa parece ter-se esquecido do “maior escândalo financeiro da história de Portugal” mas, em nome da nossa dignidade, não podemos esquecer os burlões do BPN.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Nunca se deitam foguetes antes da festa

Esta manhã o jornal i ilustrava a sua primeira página com a fotografia da judoca Telma Monteiro, que foi a porta-bandeira da delegação portuguesa no desfile inaugural dos Jogos Olímpicos, anunciando:
Hoje é dia da primeira medalha portuguesa.
Esse título não significava um desejo, mas apenas aquilo a que vulgarmente se chama “deitar foguetes antes da festa”. Outros jornais limitaram-se a salientar que hoje era o dia de Telma Monteiro e de João Pina, insinuando que os seus currículos desportivos justificavam as melhores expectativas para as provas que os dois judocas disputavam hoje.
Porém, ainda não era meio-dia e, para nossa desolação, já ambos tinham sido eliminados, logo no seu primeiro combate. Para quem, durante anos a fio, se dedicou intensamente ao treino, se privou de uma vida normal e alimentou tão intensos sonhos desportivos, este resultado também foi desolador. No entanto, a incerteza quanto ao resultado final é uma das características da competição desportiva e nem sempre ganham os melhores. Os adeptos do desporto têm que estar preparados para essa dolorosa realidade. Que os outros também são bons. Que nós talvez não sejamos tão bons como nos fazem crer. E, sobretudo, que nunca se devem deitar foguetes antes da festa. Os jornais não podem ser vendedores de ilusões. Nem podem exercer esta irresponsável pressão sobre os atletas. Telma Monteiro e João Pina perderam. Paciência. Ganhar ou perder, é a essência do desporto. Melhores dias virão.

sábado, 28 de julho de 2012

Gente famosa: ousadias & atrevimentos


Segundo ela própria anuncia, a revista GQ foi eleita a melhor revista masculina do ano. Nem a Playboy, nem a Penthouse, nem a Maxim. A audiência masculina prefere a GQ!
Embora eu não seja leitor dessa revista, suponho que uma das razões da apetência masculina por esta revista são as suas capas ousadas, com esbeltas jovens despidas e em poses sugestivas, que procuram notoriedade e popularidade a troco de um qualquer cachet. Aparecer na capa de uma revista, seja cor de rosa ou de outra natureza, é certamente um dos melhores caminhos para se ter acesso à profissão de modelo, para uma eventual entrada no mundo do cinema ou, de uma forma mais geral, para se tornar naquilo a que a prensa amarilla convencionou chamar famoso.
Porém, na edição de Julho/Agosto não foi uma jovem à procura de fama que aceitou aliviar-se da roupa para, como se diz na gíria, fazer capa da revista. Bárbara Guimarães é uma popular profissional do entertainment televisivo, mas terá aceite este ousado papel, ou porque ainda ambiciona mais fama do que a que já tem ou porque precisava do dinheiro do cachet, porque os tempos estão nublados e a vida está realmente muito difícil. Porém, a motivação parece ter sido outra, como revelou numa entrevista alusiva aos seus vinte anos de carreira e à sua natureza sedutora. Foi apenas ousadia e atrevimento. A mulher do ex-ministro Carrilho disse: “Sou atrevida por natureza. O meu marido adora, não acha mal nenhum”. Ficamos todos descansados por saber que não é uma questão de fama, nem de dinheiro. É apenas um atrevimento dela, que ele adora. Assim, sim. Não é barbaridade nenhuma!



Londres foi o centro do mundo

Ontem à noite Londres foi o centro do mundo, durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos mas, provavelmente, durante duas semanas, a cidade vai continuar a estar no centro das atenções mundiais devido às esperadas proezas atléticas.
O espectáculo ontem oferecido a muitos milhões de telespectadores foi grandioso e deslumbrante de imaginação, de tecnologia, de luz e de simbolismo, conseguindo mostrar algumas das facetas mais marcantes da história da Grã-Bretanha, desde os primórdios da sua vida rural até à criação do seu famoso Serviço Nacional de Saúde (NHS), passando naturalmente pela revolução industrial. A imprensa mundial e os jornais britânicos não se pouparam em elogios à noite gloriosa e de maravilha.
A cerimónia foi marcada por diversos momentos de grande espectacularidade, como a breve viagem que levou a rainha Isabel II e o agente secreto James Bond a percorrerem Londres de helicóptero e, depois, a saltarem de paraquedas sobre o estádio, que é uma ideia verdadeiramente genial e que ultrapassa muitas convenções que pudéssemos imaginar. Só a ficção do cinema permite esses efeitos. Porém, alguns dos mais conhecidos ícones britânicos contemporâneos que todo mundo conhece e admira, passaram pelo estádio. Houve o humor de Mr. Bean. A fantasia de Mary Poppins e de Harry Potter. A evocação dos Beatles e a música de Paul McCartney. Como se a Grã-Bretanha quisesse mostrar que Londres ainda é o centro ou um dos centros do mundo.
Depois houve o desfile das delegações olímpicas, os discursos apropriados e o acender da chama olímpica, que também foi um espectáculo dentro do espectáculo. Agora, os amantes do desporto vão ter duas semanas de grande interesse televisivo.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A crise espanhola e a lusa hipocrisia

A edição de hoje do jornal madrileno La Gaceta traduz a inquietação que atravessa a Espanha, um país “pasto de las llamas”, mas também um país acossado pelos especuladores financeiros que pressionam os juros da dívida e reclamam um resgate, enquanto  a banca e várias comunidades autónomas se vergam ao peso dos credores. A situação é de tal forma complexa que o referido jornal, em vésperas dos Jogos Olímpicos, se refere ao desporto como “a única esperança de Espanha”. Neste inquietante quadro, a entrevista de Felipe González ao jornal El Pais, publicada na edição de 23 de Julho, é um discurso realista ao reconhecer que “a Espanha está a pagar por dez anos de erros baseados numa enorme bolha imobiliária” e ao considerar que Mariano Rajoy tem a obrigação de mobilizar um grande acordo nacional ou de regime para sair da crise. Segundo salientou, os erros resultaram de decisões políticas adoptadas depois de 1998 por José María Aznar, Rodrigo Rato e Mariano Rajoy, que não foram corrigidos pelo governo de Zapatero, que se limitou a “atirar mais gasolina para a fogueira”.
Aqui no rectângulo a evolução não foi muito diferente, mas a nossa hipocrisia cala-se perante os erros do passado, cometidos por sucessivos governos, a começar naturalmente por aquele que foi presidido pelo actual Presidente da República. Passamos pelo pântano e ficamos de tanga. Esquecemos tudo isso. Ávidos de poder e de tacho, os catrogas, os relvas, os borges, os moedas e os nogeiras atiraram-se ao pinto de sousa e imaginaram que o problema estava nas gorduras do Estado e no excesso de institutos públicos. Enganaram-se. Por ignorância ou por má-fé. Não foram competentes, nem responsáveis. Os sinais de ruina do nosso país e uma boa parte do nosso empobrecimento pertencem-lhes.