quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Afinal de que lado está a Turquia?

A revista semanal italiana Tempi que se publica em Milão aborda como tema principal da sua última edição a situação na Turquia e, em especial, o comportamento do seu Presidente Recep Tayyip Erdoğan que, depois de ter sido primeiro-ministro durante cerca de onze anos, foi eleito para a presidência do país em Agosto de 2014.
Não é preciso dominar fluentemente o idioma italiano para perceber que o título Bottino di guerra, que significa despojos ou prendas de guerra, nos conduz à triste realidade de perceber que a Turquia está a tirar vantagens da situação que ela própria ajudou a criar, com a sua oposição a Bashar el-Assad e a sua aliança com a Arábia Saudita. O subtítulo esclarece ainda mais: “protegida pelo guarda-chuva da NATO, a Turquia de Erdoğan pratica o saque na Síria, trafica com o ISIS e pratica a extorsão aos refugiados. E a União Europeia ainda a premeia com três mil milhões de euros”. Realmente...
É sabido que a Turquia tem sido o principal apoio das forças anti-Assad e que é pelo seu território que é feito o contrabando do petróleo que financia o ISIS. Sabe-se, também, que sendo os curdos o grupo que mais tem combatido o radicalismo do ISIS, como se viu em Kobani, tem sido fortemente bombardeado pelos turcos sem que a NATO trave essas acções que, objectivamente, favorecem o ISIS e o jihadismo. O recente abate de um avião russo na fronteira turca, também mostrou que a Turquia não quer ver estranhos a observar o que se passa nas suas fronteiras.
Erdogan tem sido acusado de autoritarismo e de ter a família envolvida em negócios duvidosos, para além de estar a seguir uma orientação islâmica, no país que há muitas décadas tinha sido transformado num Estado secular por Ataturk. Afinal quem é e o que quer Recep Tayyip Erdoğan? A revista Tempi desconfia e eu também. Será que ele é muito diferente de Sadam Hussein e de Bashar el-Assad e de tantos outros lideres daquela região?

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Venezuela cansou-se do chavismo

As eleições legislativas venezuelanas realizadas no passado domingo tiveram um resultado que, não sendo inesperado surpreendeu, porque depois de 16 anos no poder, o chavismo foi derrotado.
As eleições realizaram-se num quadro de dificuldades económicas devidas à quebra da receita do petróleo e num ambiente de grande perturbação nacional e de quase revolta popular, com uma enorme escassez de alimentos e de medicamentos no mercado, com altas taxas de inflação, com perseguições políticas, muita insegurança e raptos e atentados. O eleitorado polarizou-se em torno de duas grandes coligações: de um lado o GPP ou Gran Polo Patriótico Simón Bolívar, liderado por Nicolas Maduro, o actual presidente da República Bolivariana da Venezuela e herdeiro político de Hugo Chavez e, do outro, o MUD ou Mesa de la Unidad Democratica liderado por Henrique Capriles. Embora se tratasse de duas grandes coligações, cada uma delas com um largo leque de partidos e movimentos, o GPP era classificado de centro-esquerda, enquanto o MUD era classificado de centro-direita. Os quase vinte milhões de eleitores deram a vitória ao MUD, o que aconteceu pela primeira vez em 16 anos. Nicolas Maduro reconheceu a derrota e afirmou que venceu a paz.  Depois de novos ventos em Cuba, de mudanças na Argentina e de ambiente tenso no Brasil, está em curso a mudança na Venezuela.
As eleições venezuelanas têm uma grande importância para Portugal, porque depois do Brasil, a Venezuela é o segundo país da América Latina com mais emigrantes portugueses. Os números oficiais apontam para cerca de quinhentos mil, embora os luso-descendentes possam ultrapassar um milhão. Por isso, tudo o que acontece na Venezuela interessa aos portugueses.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Um galeão para resgatar 300 anos depois

O Presidente da Colômbia Juan Manuel Santos anunciou na passada sexta-feira que os restos do galeão espanhol San José tinham sido encontrados a cerca de 10 milhas do porto de Cartagena das Indias e ontem, numa conferência de imprensa na Base Naval de Cartagena, afirmou: “Estoy muy complacido como jefe de Estado de informar a los colombianos que sin lugar a dudas, sin ningún tipo de duda, hemos encontrado 307 años después de su hundimiento el galeón San José”.
O galeão San José, guarnecido por 60 canhões, foi afundado no dia 8 de Junho de 1708 por navios ingleses quando largava daquele porto em direcção a Espanha, com mais de seiscentos marinheiros a bordo e com um tesouro que incluia ouro do vice-reino de Nova Granada (hoje Colômbia), prata do Perú e pedras preciosas, além de muitos outros objectos religiosos. A partir da documentação coeva existente, foi estimado pelos arqueólogos marítimos colombianos que o valor da carga do San José estaria entre 5 e 10 mil milhões de dólares, caso fosse vendido a colecionadores. Porém, o Presidente Santos anunciou de imediato que os tesouros a resgatar seriam musealizados num edifício apropriado a construir na cidade de Cartagena. A imprensa colombiana destaca este acontecimento e o El Colombiano ilustra a sua primeira página com uma gravura do galeão.
A localização do navio naufragado foi feita em 1991 pela empresa americana Sea Search Armada e levantou-se então um conflito entre o Estado colombiano e a empresa que reclamava metade do valor do tesouro a resgatar. Porém, um tribunal americano já decidiu a favor do Estado colombiano com base na lei colombiana que regulamenta a propriedade do património cultural submerso e que estabelece mecanismos para o resgate das centenas de naufrágios históricos que se encontram em águas colombianas, entre os quais se incluia o galeão San José. A descoberta deste galeão é um grande acontecimento cultural para a Colômbia e os colombianos souberam proteger-se atempadamente dos caça-tesouros.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Iraque, Síria, Líbia… e o Afeganistão

A ignorância e incompetência com que as potências ocidentais, os seus dirigentes máximos e os seus gabinetes de estratégia trataram as chamadas primaveras árabes, levaram ao afastamento de alguns dos seus líderes mais contestados como Saddam Hussein e Muammar Kadaffi, enquanto agora se procura abater Bashar al-Assad. Com o vazio político criado, o poder caiu na rua e a desordem impôs-se nesses países. Na ausência do poder que o ocidente abateu ou desautorizou, surgiu a guerra no Iraque com base numa mentira e a guerra na Síria com base numa teimosia e, daí, surgiu um radicalismo terrorista consubstanciado no ISIS. Apesar de todas as acções militares em curso, o jihadismo está a alastrar e, embora por formas diferentes, atingiu interesses russos, feriu a França com enorme crueldade e, aparentemente, até chegou aos Estados Unidos.
A Líbia é agora o novo foco onde se concentram as atenções jihadistas porque fica na encruzilhada da Europa, África e Médio Oriente. Aí, o ISIS não só dispõe do arsenal militar que sobrou da guerra contra Kadaffi como tem engrossado as suas fileiras com novos combatentes. Sabe-se que está a treinar pilotos na base aérea de Sirte e que a travessia do Mediterrâneo demora menos de uma hora. É a nova ameaça para a Europa, como Kadaffi avisara.
Entretanto, como hoje revela o jornal londrino The Times, o ISIS invadiu o Afeganistão, isto é, um grupo de 1600 combatentes islâmicos internou-se na zona leste do Afeganistão, junto da fronteira com o Paquistão. É o Wilayat Khurasan, a versão afegã do ISIS. Ocupou quatro distritos a sul da cidade de Jalalabad, a pouco mais de uma centena de quilómetros da capital Kabul, tendo instalado um campo de treino militar e procedido a julgamentos corânicos e a decapitações públicas.
Não sei o que mais é preciso para Obama, Putin, Xi Jinping, Hollande, Cameron, Merkel e não sei quem mais, se entenderem.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Haverá aviões a mais nos céus da Síria?

O Parlamento britânico decidiu ontem à noite o envolvimento na campanha aérea em curso na Síria contra o ISIS por uma maioria de 174 votos, depois de 397 deputados terem votado a favor e 223 deputados terem votado contra. Segundo refere a imprensa inglesa, designadamente The Herald, apenas 57 minutos depois dois Tornado GR4 largaram da sua base de Akrotiri em Chipre e regressaram três horas depois sem bombas.
Há três dias também o Parlamento alemão tinha aprovado o envolvimento da Alemanha no conflito sírio, com a participação de seis aviões Tornado que estacionarão na base turca de Incirlik, para além de um aparelho para reabastecimento aéreo, uma fragata que irá participar na protecção do porta-aviões francês Charles de Gaulle, que já está a actuar no Mediterrâneo oriental, para além de um total de 1200 efectivos terrestres que ainda não se sabe o que irão fazer.
Tal como acontece com a coligação liderada pelos Estados Unidos e com os russos, também a França tem uma assinalável presença aérea na região. Além disso, há os aviões do regime de Bashar al-Assad, mais os aviões turcos e os aviões chineses. É muito avião a voar por ali e não estará longe o dia em que alguns desses aviões se envolvam em tiroteio.
A acção militar implica sempre um correcto planeamento e muita coordenação. No caso da Síria/Iraque não se sabe quem coordena, nem o que coordena, o que se traduz por menor eficácia, maior custo e um elevado risco de incidentes do tipo daquele em que recentemente estiveram envolvidos aviões russos e turcos. É caso para perguntar se não serão aviões a mais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A bela Goa para quem tem frio em Lisboa

Um bom amigo decidiu deixar esta cidade de Lisboa por uns tempos e voar até Dabolim, que é o aeroporto que serve Goa, para fugir ao frio atlântico-europeu e para aproveitar o calor e a amizade dos muitos amigos que tem naquela bela terra virada para o mar Arábico. O meu amigo tem uma enorme notoriedade e prestígio cultural naquela terra e, provavelmente, é o português mais ilustre que nos próximos tempos andará a circular por Caranzalém, Dona Palma, Fontainhas, Altinho, Miramar e outros bairros da cidade de Pangim. Por isso, fui consultar os jornais de Goa para verificar se tinham dado notícia da sua chegada, porque esta sua visita é um facto que merece notícia. Porém, desapontado, verifiquei que ele tem mantido a discrição de que tanto gosta.
No entanto, aproveitei e fiz uma breve leitura do The Navhind Times, um dos mais populares jornais goeses. Na sua edição de hoje, o jornal reflecte na sua primeira página os tempos que se vivem em Goa e a sua rapidíssima entrada na era do consumo de massa, com anúncios de vários modelos de automóveis Chevrolet e de Instant Winter Holidays por 29.000 rupias (400 euros), publicitação do Shopping Festival em Chicalim e da Trade Fair cum Food Festival e de uma Singing Competition em Mapuça. Há dinheiro e vontade de o gastar. Como o mês de Dezembro é o mês em que milhares de goeses da diáspora visitam as suas famílias, sucedem-se todo o tipo de festas, sobretudo as festas religiosas dos católicos e os casamentos, sempre com muitas centenas de convidados. Para esses, também o jornal anuncia as ofertas do Señor, the suit people: um complete wedding package por 4999 rupias (70 euros) e a feitura de fatos simples por 2499 rupias (35 euros), com delivery in 3 to 4 hours.
Seguramente, o meu amigo JML vai estar em vários casamentos e não deixará de ir de fato novo. É só ir ao Señor, ali na Rua Heliodoro Salgado. E aprecie bem essa terra e essa gente!

UNESCO reconheceu a arte chocalheira

Com a surpresa que resulta da minha ignorância nesta matéria, tive ontem conhecimento que a arte chocalheira foi inscrita pela UNESCO na sua lista do Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente. Informei-me ccom a leitura do Público – talvez o único jornal que tratou do assunto  – e passei da surpresa para o aplauso do trabalho pelo feito pela comissão de candidatura, isto é, por aqueles que com entusiasmo, competência e discrição, fazem alguma coisa pelo nosso país. Segundo foi anunciado, a arte chocalheira foi iniciada há mais de dois mil anos, como testemunham os chocalhos celtiberos do século I a.C. que são semelhantes aos que são feitos actualmente. É, portanto, uma arte milenar que tem no território alentejano a sua maior expressão a nível nacional, especialmente nos concelhos de Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, com especial destaque para a freguesia de Alcáçovas.
O chocalho português é um instrumento de percussão munido de um só batente interno, que funciona da mesma maneira que um sino e que, habitualmente, é suspenso no pescoço dos animais com a ajuda de uma correia em couro. O chocalho está intimamente associado à pastorícia, sendo utilizado pelos pastores para localizar e dirigir os rebanhos, mas daí também resulta uma paisagem sonora única e característica. A inscrição do fabrico de chocalhos na Lista do Património Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente implica um Plano de Salvaguarda, uma espécie de “caderno de encargos" que visa reverter a tendência de desaparecimento desta arte, garantindo a transmissão do saber-fazer e a sustentabilidade futura da actividade. Daí que tenham sido propostas um conjunto de medidas para promover o ensino do ofício. Depois do cante alentejano e do fabrico de chocalhos que mais nos reservará o património cultural alentejano?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Falta de seriedade de quem nos governou

O Orçamento do Estado é o documento que traduz a actividade financeira do Estado, onde se incluem as receitas previstas e as despesas máximas autorizadas para o período de um ano ou, dito de outra forma, que trata de fixar a utilização anual a dar aos dinheiros públicos, tendo em vista a satisfação das necessidades colectivas. Trata-se do mais importante instrumento da acção governativa que é elaborado pelo Governo depois de ouvidos os parceiros sociais, sendo a respectiva proposta apresentada à Assembleia da República até ao dia 15 de Outubro, para ser discutida e votada. Este ano não vai ser assim.
O cumprimento do calendário constitucional recomendava que as eleições legislativas tivessem sido realizadas em Maio ou Junho, porque haveria vários meses para preparar o Orçamento do Estado para 2016. Porém, o Presidente tomou outra decisão  e, como se vê agora, decidiu mal.
No entanto, o processo de preparação do Orçamento começa habitualmente em Junho quando os Serviços recebem as instruções de orientação governamental e enviam para os escalões superiores as suas propostas com a explicitação das suas necessidades mínimas orçamentais para o ano seguinte, como por exemplo a despesa salarial prevista tendo em conta a despesa do ano corrente, as previsíveis despesas correntes de funcionamento e as despesas de investimento previstas.
Nada disto foi feito e, segundo a edição de hoje do Diário de Notícias, o novo governo socialista encontrou tudo por fazer no que respeita à preparação da proposta de Lei do Orçamento para 2016. Diz o jornal que “o trabalho produzido na anterior administração foi zero - mesmo aquele trabalho orçamental que não tem nada que ver com opções políticas de fundo”. Portanto, teremos o país sem Orçamento do Estado para 2016 durante vários meses porque houve falta de seriedade de um Presidente que marcou eleições fora de tempo e de um Governo que tratou da sua propaganda eleitoral em vez de cumprir com os seus deveres.

domingo, 29 de novembro de 2015

A enorme tragédia ambiental de Mariana

Mariana é uma cidade histórica brasileira do Estado de Minas Gerais que foi fundada por bandeirantes portugueses em finais do século XVII e cujo nome homenageia a rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa do rei D. João V. Situa-se numa região que é objecto de intensa exploração mineira e, para acomodar os materiais inertes provenientes da extracção do minério de ferro, foram construidas algumas barragens. Foi em duas dessas barragens, respectivamente Fundão e Santarém, pertencentes à empresa mineira Samarco, que no passado dia 5 de Novembro ocorreu uma tragédia que deixou um rasto de morte e de destruição, com graves danos para a sua população e para o meio-ambiente, em consequência de uma avalancha de lama que resultantou do rompimento das duas referidas barragens. Apesar desta lama não ter um teor marcadamente tóxico, o facto é que devastou e pavimentou mais de quinhentos quilómetros no seu percurso até ao mar.
Esta tragédia que ficou conhecida como o desastre de Mariana, é considerada o maior desastre ambiental da história de Minas Gertais e, para muitos observadores, é um retrato do Brasil contemporâneo, tendo servido para mostrar a negligência e a inoperância dos órgãos governamentares para enfrentar acontecimentos desta gravidade, mas também a enorme promiscuidade que prevalece entre as grandes empresas multinacionais, como é o caso da Samarco, e as instâncias políticas estaduais e federais.
Hoje o diário Estado de Minas de Belo Horizonte publica uma extraordinária fotografia do mar de lama a entrar no oceano e alerta para os “crimes contra o Brasil” e informa que a “tentativa de sabotar investigação de corrupção revolta o país”.

sábado, 28 de novembro de 2015

O vendedor de serviço para o Novo Banco

A Direcção Geral de Economia e Finanças da Comissão Europeia advertiu há umas semanas atrás, para a possibilidade dos contribuintes portugueses virem a suportar eventuais prejuízos do Novo Banco, depois de ter sido detectado um enorme buraco financeiro e de ser necessário reforçar o seu capital em 1398 milhões de euros no prazo de nove meses. A ministra Albuquerque afirmou então: “Digo o que sempre disse: os contribuintes não serão chamados a suportar eventuais perdas do Novo Banco”.
O assunto não ficou esquecido e a pressa para o vender acentuou-se. Assim, foi agora anunciado que o principal rosto da política de privatizações do governo de Passos & Portas tinha sido contratado pelo Banco de Portugal para vender o Novo Banco. A contratação do supracitado indivíduo de nome Sérgio Monteiro, que é um antigo funcionário da CGD, envolve uma remuneração mensal da ordem dos 30 mil euros, segundo noticiou o Público. O seu currículo revela que o referido Monteiro tem sido contemplado com alguns tachos a premiar a sua militância partidária, que assinou alguns contratos swaps, um dos quais gerou perdas de 152 milhões de euros ao Estado e, ainda, que esteve envolvido nas privatizações das lucrativas e estratégicas ANA e CTT, mas também da CP Carga e, por duas vezes, da TAP. Este currículo mostra que Monteiro tem mexido em muita massa, mas não garante que o tenha feito da melhor maneira, nem com salvaguarda do interesse nacional. Segundo diz o jornal, o montante que vai receber mensalmente está “a gerar perplexidade quer na CGD, quer no supervisor”, mas eu também fico perplexo por lhe pagarem tanto dinheiro, quando anda o país todo com o cinto tão apertado. E não deixarei de ficar perplexo quando souber que, ao contrário do que eles juraram, ainda teremos de pagar o Novo Banco

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Um discurso insólito que é para esquecer

A cerimónia da tomada de posse do XXI Governo Constitucional foi um acontecimento histórico, não só porque acabou com aquela estupidez que era o “arco da governabilidade”, mas também porque nos permitiu assistir a um dos mais insólitos discursos que um Presidente da República podia pronunciar naquelas circunstâncias. Nesse discurso falou muito em política económica, em disciplina orçamental e na confiança dos mercados financeiros e dos investidores externos, esquecendo-se que essa área governamental está entregue a gente que sabe e que veio das prestigiadas universidades de Harvard e de Nottingham.
Depois, com um ar desapropriado para aquela cerimónia, o Presidente ameaçou e disse: “Não abdicando de nenhum dos poderes que a Constituição atribui ao Presidente da República – e recordo que desses poderes só o de dissolução parlamentar se encontra cerceado – e com a legitimidade própria que advém de ter sido eleito por sufrágio universal e direto dos Portugueses, tudo farei para que o País não se afaste da atual trajetória de crescimento económico e criação de emprego e preserve a credibilidade externa”. Significa que seguiu a linha da propaganda do seu partido e se colou, uma vez mais ao anterior governo, ao dizer ser necessário “preservar a trajetória de crescimento e de criação de emprego”, quando essa trajectória realmente ainda não existe de forma sustentada e clara, pelo que não é intelectualmente sério mencioná-la naquelas circunstâncias.
O insólito discurso presidencial não teve uma palavra de incentivo ao governo para além da área económica, como se governar fosse a simples gestão da economia, sem que houvesse pessoas que vivem na pobreza e que carecem de emprego, de saúde, de justiça, de educação e da satisfação dos seus direitos básicos. O insólito discurso não teve uma palavra no sentido da mobilização dos portugueses para os desafios que têm pela frente ou para dar confiança à Europa e aos mercados, a que tanto se curva. O insólito discurso não teve uma palavra em defesa dos desempregados, nem dos reformados, nem do regresso dos milhares de concidadãos que sairam do país. Nem sobre a Ciência, o Ambiente, a Cultura ou a Educação. O insólito discurso é para esquecer.

Um novo governo e uma nova esperança

Passados mais de cinquenta dias sobre as eleições legislativas de 4 de Outubro e depois de audiências com tantas personalidades apostadas em contrariar a vontade expressa dos portugueses através dos seus deputados eleitos, tomou posse ontem o XXI Governo Constitucional presidido por António Costa. Acabou essa treta do arco da governação. Festejemos por isso, até porque os últimos quatro anos foram duros e cansativos para os portugueses que, com 62% dos votos, rejeitaram a insensibilidade, o autoritarismo e a demagogia do par Passos & Portas. Como disse há muitos anos o poeta Luís de Camões:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades;
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança;
Tomando sempre novas qualidades”.

Estamos realmente num tempo de “mudança” e de “novas qualidades”, mas estamos sobretudo num tempo de esperança para nos sentirmos num país mais democrático, mais coeso, mais solidário e de gente mais feliz. Ao contrário do que tem sido dito pela propaganda, o governo de Passos e Portas fez-nos andar para trás. Estamos pior do que em 2011. Temos mais dívida pública, mais desemprego, mais pobreza, mais desigualdade, mais gente emigrada, mais desertificação do território e mais envelhecimento demográfico. Esta é que é realidade que não é possível manipular.
Ontem Cavaco esteve ao seu nível, com ameaças e avisos desnecessários que só serviram para aumentar a crispação que anda por aí. O seu tempo político já passou. Agora é preciso assegurar que regresse a Boliqueime com um mínimo de dignidade. A História não guardará dele boa memória, mas talvez lhe ponham o nome numa rua ou numa escola ou num qualquer pavilhão gimno-desportivo.
O discurso de António Costa foi prometedor com fortes apelos à serenidade e à moderação, sem abdicar do combate à “vertigem austeritária” e a lembrar que responde politicamente perante o Parlamento e não perante Cavaco. Porém, tem um desafio difícil pela frente, até porque vai continuar a campanha difamatória que lhe tem sido feita pelas televisões e pelos seus jornalistas e comentadores de serviço, assim como o discurso intolerante e mentiroso de Portas, de Rangel, de Montenegro, de Teresa Coelho e dessa sinistra figura que é Marco António Costa, que repetem até à exaustão uma mesma cassete mentirosa.
António Costa é um político experiente e está preparado. Juntou gente de muito valor, com provas dadas na política e na vida académica. Sabe que os tempos são difíceis e que o caminho está armadilhado em Lisboa, em Bruxelas e talvez em Berlim, mas também sabe que tem a confiança maioritária dos portugueses para mudar o rumo do país. Boa sorte!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O incidente que não podia ter acontecido

O derrube de um bombardeiro Su-24 russo acontecido ontem na fronteira entre a Turquia e a Síria é um acontecimento muito grave: os turcos dizem que o avião violou o seu espaço aéreo e que os seus pilotos avisaram dez vezes durante cinco minutos antes de terem lançado o ataque, enquanto os russos garantem que o seu aparelho não saiu do espaço aéreo sírio. Está aberta uma nova frente no conflito sírio e as suas consequências são imprevisíveis, exactamente quando o Presidente Hollande desenvolve esforços para fazer uma grande coligação internacional contra o terrorismo e voa para Nova Iorque e para Moscovo para juntar Obama e Putin.
Este incidente não podia ter acontecido.
Vladimir Putin considerou este ataque como "uma facada nas costas dada pelos cúmplices dos terroristas" e afirmou que este acto terá consequências, enquanto o secretário-geral da NATO pediu calma e diplomacia para que este incidente seja esclarecido entre as partes.
Os recentes acontecimentos de Paris parecem ter acordado os dirigentes ocidentais para o problema da Síria e do Iraque e têm mostrado que não é o apoio ou não apoio a Bashar al-Assad que é importante agora. Todos estão ameaçados e todos parecem estar de acordo na necessidade de bloquear as fontes de financiamento do ISIS e do terrorismo, que são o petróleo vendido no mercado negro através da Turquia, além de outros apoios que receberão da mesma Turquia, da Arábia Saudita e do Qatar. Por isso, este incidente não podia ter acontecido e vem demonstrar que a Turquia não quer os russos por ali, porque protegem os curdos e apoiam Bashar al-Assad, o que é contra os seus interesses, isto é, os turcos estão mesmo muito envolvidos na questão síria e nas suas envolventes estratégicas e até religiosas. Estas coisas não acontecem por acaso e este incidente até pode ter sido fabricado pelos turcos.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A venda da TAP foi obra de fanáticos

Poucas vezes terão acontecido em Portugal negócios tão cinzentos como os que foram conduzidos pelo governo de Passos e Portas que, por motivos ideológicos, trataram de vender algumas das melhores fatias do nosso património empresarial, com enorme importância estratégica para o país, mas também com muito valor simbólico para os portugueses que as ajudaram a construir. Por vezes, o governo argumentou que a política de privatizações tinha como objectivo a redução da dívida pública, mas o facto é que esta nunca deixou de aumentar, apesar das vendas ao desbarato que Passos e Portas fizeram. Nunca se viu o destino dos encaixes financeiros, se os houve.
Todos nos lembramos da lucrativa EDP que foi vendida aos chineses, mas essa venda nunca foi bem explicada. Da mesma forma, nunca se percebeu porque foi vendida a ANA, nem porque os nossos governantes se desfizeram dos CTT. Agora venderam a TAP e trataram de arranjar justificações em que ninguém acredita. Venderam porque esse era o seu programa ideológico. Venderam porque rejeitaram pedir apoio à Comissão Europeia. Venderam à pressa e já demitidos, provavelmente já no campo da ilegalidade, porque quiseram levar o seu fanatismo privatizador até ao fim, desculpando-se com os problemas de tesouraria da empresa. Os espertalhões governamentais quiseram livrar-se da TAP para se livrarem dos 750 milhões de euros de dívidas e acabaram por ficar com elas. Absolutamente inaceitável. Os novos donos agradeceram tudo isto e, em nome da reestruturação da empresa, vão agora vender os terrenos que a TAP possui junto ao aeroporto avaliados em 146 milhões de euros, que lhe pertenciam desde 1991 e tinham sido desafectos do domínio público aeroportuário.
O governo foi demitido e a hipótese de venderem a Torre de Belém e os Jerónimos está abortada. Mas o que de mal foi foi feito fica assim, sem ser denunciado?

domingo, 22 de novembro de 2015

Ainda a vergonha que é a venda da TAP

No passado dia 10 de Novembro a maioria parlamentar votou contra o programa do XX Governo Constitucional e o governo de Passos e Portas foi demitido. Porém, dois dias depois e de forma muito estranha, pelas 23 horas e 30 minutos, foi anunciado que numa cerimónia realizada à porta fechada, o governo demitido tinha assinado um acordo relativo à venda de 61% da TAP ao consórcio Atlantic Gateway.
A venda da TAP é um assunto controverso e há uma larga percentagem da população portuguesa que discorda da sua privatização devido ao valor económico, simbólico e estratégico da empresa. Porém, mesmo demitida, a parelha Passos e Portas não parou na sua obcessão privatizadora.
Acontece que a TAP tem uma dívida à banca que se estima em 770 milhões de euros e, segundo foi divulgado pela imprensa, em caso de incumprimento ou de desequilíbrio financeiro da empresa, ficou acordado que os bancos têm a dívida assegurada pelo Estado, que o mesmo é dizer por todos nós. Foi um grande negócio para o grupo privado, porque o risco da dívida não ser paga aos bancos ficou totalmente do lado do Estado. É uma compra sem risco para o comprador e com todo o risco para todos nós, porque nos levam a carne e nos deixam os ossos. Segundo refere a imprensa, por parte do governo estiveram presentes na assinatura do acordo a secretária de Estado do Tesouro, Isabel Castelo Branco e o secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Miguel Pinto Luz, isto é, duas figuras governamentais de segundo plano que estavam demitidas há 24 horas, mas que se prestaram a esta triste figura. Esta estranha pantomina nem sequer justificou a presença de um qualquer ministro ou mesmo da parelha que agora se esconde das malfeitorias que nos faz.