sábado, 24 de março de 2018

Azoia de Baixo e a memória de Herculano

A Azoia de Baixo fica ali para os lados de Santarém e não resistiu à reforma administrativa nacional que em 2013 agregou freguesias, pelo que perdeu esse estatuto.
Foi nessa localidade que, depois de vários dias consecutivos de chuva e de céu muito nublado, apareceu num destes dias um fim de tarde solarengo que me proporcionou uma fotografia bem curiosa, em que a sombra de uma árvore se projecta sobre uma casa rural típica daquela zona.
Esta casa fica na rua Alexandre Herculano e em frente da Escola Alexandre Herculano, uma construção do século XIX que assinala a presença e perpetua a memória do grande escritor que viveu os últimos dez anos da sua vida na sua Quinta de Vale de Lobos, que ali fica bem próxima. Na localidade ainda existe um memorial de homenagem a Alexandre Herculano e, no pátio do Centro de Cultura e Recreio Alexandre Herculano, encontra-se um busto em bronze de Alexandre Herculano.
Não há dúvida que esta pequena localidade sabe honrar a memória de um grande historiador e escritor português que hoje repousa nos Jerónimos.

Facebook – a comunicação que ameaça

A notícia já corre há alguns dias e revela que o Facebook, ou feicebuque como o meu amigo JNB gosta de escrever, tratou de fazer batota e começou a explorar o exibicionismo dos seus utilizadores e a segmentá-los ou arrumá-los por perfis etários, psicológicos, económicos, culturais e outros. Assim, construiu uma monumental base de dados com milhões de registos de grande valor o que levou o deslumbrado Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, a vender essas informações privadas a uma tal Cambridge Analytica.
Os efeitos sociais dos mass media já eram bem conhecidos desde finais da primeira metade do século XX, através dos trabalhos de Paul Lazarsfeld e do casal Lang, que estudaram os efeitos das notícias sobre os consumidores e sobre os eleitores, isto é, sobre o consumo e sobre o voto. Hitler e a sua equipa também conheceram essas teorias de manipulação das decisões das pessoas e o canadiano Marshall McLuhan veio dizer que, sob a pressão dos mass media, o mundo se tinha transformado numa aldeia, daí nascendo o conceito de aldeia global.
Com a televisão, com a internet e com as redes sociais, o problema aprofundou-se. É agora possível definir os públicos-alvo com grande precisão e ser mais directo e mais eficaz na transmissão de mensagens comerciais ou políticas, canalizando a mensagem para os alvos preferenciais, se necessário através das fake news ou as notícias produzidas expressamente para produzir certos efeitos, que são tão comuns em Portugal, sobretudo nas fugas ao segredo de justiça que condenam qualquer cidadão perante a opinião pública, antes do julgamento em tribunal.
Assim, a Facebok e a sua associada Cambridge Analytica trataram de manipular os perfis dos seus utilizadores para uso publicitário e eleitoral e, segundo parece, foi daí que resultaram as surpresas eleitorais que deram a vitória ao Brexit e a Donald Trump. O assunto é muito sério porque é um enorme perigo para a paz e para a convivência democrática, tendo sido retratado na capa da edição de hoje do Der Spiegel.
Bem pode Mark Zuckerberg pedir desculpas, mas o facto é que o nosso modo de vida está ameaçado.

quinta-feira, 22 de março de 2018

As ameaças que pairam sobre a Itália

A Itália está a passar por uma grave crise de que pouco se fala e que foi agravada pelos resultados das últimas eleições, pois parece que não é possível formar uma maioria de governo. Depois das situações por que passaram a Bélgica, a Espanha e a Alemanha, é agora a Itália que ameaça tornar-se em mais um país europeu que não consegue formar um governo estável por não haver um partido ou uma coligação com maioria absoluta.
Neste quadro, as tensões regionais acentuam-se e a revista L’Espresso fala em fractura e publica uma ilustração da península italiana em que se evidenciam as divisões entre o Norte e o Sul.
Hoje, também o jornal Quotidiano di Sicilia faz uma análise de dez parâmetros económicos e sociais relativos à Sicília e à Lombardia, supostamente a mais pobre e a mais rica das regiões italianas, comparando os indicadores de saúde pública, despesa social, educação e empresas, entre outros, aproveitando os resultados obtidos para escolher o título da primeira página: “Sicilia - Lombardia, divide-nos o abismo!
Significa que nos últimos dias as palavras fractura e abismo estão a ser veiculadas pela imprensa italiana e isso é um facto preocupante. No tempo de incerteza e de instabilidade em que actualmente vive o mundo, a Europa precisa de mais unidade e de mais coesão, pelo que tudo o que a possa enfraquecer é preocupante, quer seja na Grã-Bretanha, na Catalunha ou na Itália.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Os ocidentais abandonaram os curdos

Na sua edição de hoje o diário francês Le Figaro dedica uma reportagem à Síria e à devastadora guerra que continua a assolar o país sem que se vislumbre uma solução e destaca, em título de primeira página, que “os curdos foram abandonados pelos ocidentais”.
Nos últimos tempos a campanha anti-Assad e anti-Putin dirigida pelas centrais de propaganda ocidentais quase atingiu o histerismo com a denúncia de bombardeamentos sobre Ghouta oriental, nos arredores de Damasco, nos quais perderam a vida várias centenas de civis. Sabe-se agora que os rebeldes sírios, que lutam contra Bashar-el-Assad e que foram lançados nessa luta por americanos, ingleses e franceses, dispararam um óbus sobre um mercado de Damasco que causou 35 mortes. Segundo refere o jornal “é o balanço mais elevado que conheceu a capital síria nos últimos meses causado pelos tiros de óbus e de roquetes lançados quotidianamente sobre Damasco pelos rebeldes, em represália pelos bombardeamentos do regime sobre os redutos rebeldes em Ghouta oriental”.
Porém, Le Figaro também anuncia que as forças turcas e os seus aliados sírios anti-Assad tomaram Afrin, que foi abandonada pelas forças curdas, talvez numa estratégia de recuar um passo para depois avançar dois. O abandono e a “traição” ocidental aos combatentes curdos, que têm sido os mais fiéis aliados do Ocidente na luta contra os jihadistas do Daesh, mostra como são as fidelidades na guerra. Porém, a propaganda das centrais ocidentais não relata quaisquer atrocidades em Afrin e até trata os curdos como rebeldes, o que mostra que a ditadura turca sabe manipular a opinião pública mundial. O jornal destaca ainda que depois da tomada de Afrin, a Turquia vai intensificar a sua ofensiva em direcção ao nordeste da Síria contra os curdos.
Esta guerra não é diferente das outras guerras e, como salienta o jornal francês, tanto Afrin como Ghouta oriental são apenas mais duas tragédias na Síria. Afinal Bashar-el-Assad e Recep Tayyip Erdoğan são demasiado parecidos mas, infelizmente, ainda há quem pense que nesta guerra há bons de um lado e maus do outro, quando nesta guerra são todos muito maus.

terça-feira, 20 de março de 2018

Um país com demasiados Felicianos

É com muita mágoa que escrevo sobre a inusitada violência que se abateu sobre um Feliciano – é esse o título escolhido pelo jornal i – pelo que aqui declaro, que não é meu propósito atacá-lo pessoalmente, nem alinhar com os seus companheiros de partido que o espremeram, embora alguns deles sejam tão Felicianos quanto o Barreiras Duarte do Bombarral.
Um Feliciano não incomoda ninguém nem tem expressão estatística, mas o facto preocupante é que temos demasiados Felicianos no nosso país, isto é, gente que desistiu de estudar e de aprender, que optou pelo facilitismo, que se encostou ao oportunismo e que se tornou parasita da vida político-partidária, tratando da sua vidinha em vez de tratar do interesse público. São um tipo especial de xico-espertos sem pudor nem vergonha, que procuram uns títulos académicos para decorar o seu nome e disfarçar a sua ignorante pequenez, que não têm outro passado que não sejam os cargos que os compadrios da política lhe trouxeram, nem outra actividade que vá para além do uso e abuso das vigarices, das mentiras e dos truques.
Os Felicianos procuram escolas de segunda ou terceira categoria para sacar um qualquer grau académico que lhes dê importância social, não frequentam aulas e desconhecem o mérito resultante do valor do trabalho metódico e da humildade da aprendizagem. Fazem exames ao domingo, requerem indevidas equivalências, escapam-se aos exames e obtém generosas licenciaturas, como se viu com aquela enorme quantidade de doutores em Protecção Civil, certificados em Castelo Branco. Apesar de tudo isso, não abdicam de ser reconhecidos como o Doutor Feliciano e não tremem nem se envergonham por isso, com tantas vezes se viu com esse Feliciano de referência que continua a ser Miguel Relvas. São demasiados os Felicianos que optaram por se comportar como verdadeiros travestis académicos, fazendo-se passar por engenheiros, catedráticos, licenciados, mestres, doutores e visiting scholars.
Almada Negreiros no seu famoso Manifesto Anti-Dantas escreveu que “uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi”. Será que podemos plagiar Almada e imaginar um Manifesto Anti-Felicianos?

segunda-feira, 19 de março de 2018

O separatismo catalão já perdeu fôlego

Desde que a Generalitat de Catalunya, ou Governo Autónomo da Catalunha, convocou um referendo para a independência já realizado no dia 1 de Outubro, que a região da Catalunha não sossega, com muita agitação, alguma desordem pública, inúmeras manifestações a favor e contra a independência e, sobretudo, com a economia a dar inquietantes sinais recessivos. Os constitucionalistas lutam por uma Catalunha integrada na Espanha e baseiam-se no facto da Constituição espanhola de 1978 não permitir votações sobre a independência de qualquer região espanhola, enquanto os soberanistas invocaram o direito à autodeterminação e independência da Catalunha para convocar o referendo, cujos resultados lhes foram favoráveis. Porém, ninguém reconheceu os resultados desse referendo emocional e o problema continua sem solução à vista.
Carles Puigdemont continua ausente ou exilado em Bruxelas, enquanto Oriol Junqueras continua na prisão. O diálogo demora, o separatismo perdeu fôlego mas ainda mostra intransigência e as maiorias silenciosas tendem a revelar-se.
Assim aconteceu no passado domingo, quando milhares de catalães convocados pela SCC (Sociedade Civil Catalã) vieram para a rua e reclamaram sensatez aos políticos catalães (seny) e um governo para todos, para recuperar a normalidade que foi perturbada pela ideia separatista.
Um dos participantes na manifestação foi o antigo primeiro-ministro francês Manuel Valls que, sendo natural da Catalunha e falando em catalão, afirmou que “a Europa precisa de uma Espanha unida” e que o separatismo, ou o procés como é conhecida a aventura catalã, já estava derrotado.
Na manifestação integraram-se bandeiras de Espanha, da Catalunha e da União Europeia e muitos militantes dos principais partidos políticos, destacando-se algumas palavras de ordem como “Estamos fartos”, ou “Somos Catalunha, somos Espanha”, ou “Puigdemont para a prisão”.
O jornal conservador ABC descreveu esta manifestação (em castelhano), tal como o ara ou o El Punt Avui descreverão as manifestações soberanistas (em catalão).

O reforçado poder de Vladimir Putin

Vladimir Putin foi reeleito presidente da Rússia e terá um novo mandato de seis anos, o que significa que vai estar no poder até 2024. No ano de 2000 tinha sucedido a Boris Yeltsin, o primeiro presidente eleito democraticamente na história da Rússia e, desde então, como presidente ou como primeiro-ministro, o Vladimir tem estado na primeira fila da política mundial e tem sido considerado como um novo czar de todas as Rússias.
A votação de domingo demorou cerca de 20 horas devido à extensão do território russo que se estende por 11 fusos horários, tendo-se verificado algumas denúncias de irregularidades eleitorais, mas Putin conseguiu 56 milhões de votos, correspondentes a 76% dos votos expressos.
O número de votos agora conseguidos superou o número de votos que obtivera nas anteriores eleições, o que parece provar que Putin consolidou o seu prestígio interno, na mesma medida em que também se tornou mais temido ou menos confiável no plano internacional. A vitória era esperada mas havia alguma expectativa quanto aos resultados, pois os eleitores russos iriam avaliar os desempenhos de Putin em relação à Ucrânia, à Crimeia e à guerra na Síria e, de uma forma mais geral, às relações da Rússia com a Europa e com os Estados Unidos, aquilo a que os comentadores dependentes costumam chamar Ocidente, apesar do chamado Ocidente já não existir como entidade homogénea, desde os anos de ouro da NATO e da guerra fria.
A resposta dos russos foi expressiva. O jornal britânico The Times anunciou-a na sua primeira página e escolheu a frase “Putin’s landslide victory... thanks to Britain”, lembrando que foi a precipitada atitude anti-russa de Theresa May e de alguns dos seus “aliados” mais reacionários, que levou o orgulho russo às urnas e à inequívoca vitória de Vladimir Putin.
Theresa May e a sua política continuam a somar derrotas e a afundar a Grã-Bretanha, enquanto Vladimir Putin está a fazer ressurgir o orgulho russo e a superar a humilhação que foi o fim da União Soviética.

sexta-feira, 16 de março de 2018

A desanimadora tensão russo-britânica

A edição de hoje do jornal inglês The Daily Telegraph destaca na sua primeira página uma fotografia do HMS Trenchant, um submarino nuclear britânico armado com mísseis de cruzeiro Tomahawk e torpedos pesados Spearfish, que está envolvido em exercícios militares no Ártico, no qual também participam os submarinos americanos USS Hartford e USS Connecticut. Estes exercícios revelam o interesse que o Ártico está a despertar no contexto da rivalidade russo-americana pelo controlo estratégico de uma tão vasta área do planeta e dos seus recursos.
Acontece que há mais de uma dezena de anos que nenhum submarino britânico frequentava a zona ártica, pelo que esta missão despertou o interesse da imprensa, numa altura em que é muito elevada a tensão entre o Reino Unido e a Rússia, depois do governo de Theresa May ter decidido expulsar 23 diplomatas russos como retaliação ao bárbaro envenenamento do espião russo Sergei Skripal e da sua filha. Assim, surgiram críticas sobre a inoportuna presença do HMS Trenchant no Ártico, que pode ser entendida como uma provocação. Essa é também a opinião do líder da oposição trabalhista Jeremy Corbyn, que já veio criticar a medida tomada por Theresa May e lembrar que é preciso evitar uma “nova guerra fria” com a Rússia, até porque a morte de Skripal, que era um agente duplo, poderá ter sido obra da máfia russa e não ter sido provocada pelas autoridades de Moscovo.
A tensão russo-britânica é desanimadora no quadro de um clima de paz e de cooperação internacional, mas do que não restam dúvidas é que os britânicos e o governo de Theresa May parecem estar a passar por alguma desorientação com os seus problemas internos, com as negociações do Brexit, sem o apoio americano que pensavam poder ser mais expressivo e, agora, com a tensão com a Rússia.

quarta-feira, 14 de março de 2018

As coisas caricatas do nosso quotidiano

O nosso pequeno Portugal tem sido palco nos últimos tempos de incontáveis situações demasiado caricatas, que passam pela política, pelo futebol, pela justiça, mas também por outros sectores, que mostram como o ridículo parece não ter limites.
Comecemos pela política. Com eleições legislativas no horizonte e com o Presidente Marcelo a revelar-se menos beijoqueiro do que o habitual, com António Costa a navegar à bolina, com Rui Rio a procurar tomar o leme ao seu partido e com os partidos da esquerda a agitar os seus eleitorados com vista às futuras eleições, apareceu uma tal de Cristas numa caricata e insensata ambição populista, a falar com uma arrogância e uma ambição desmedidas e a posicionar-se para liderar "todas as direitas" e ser a alternativa a António Costa. Foi a mais caricata e atrevida postura política que se viu ultimamente em Portugal. O que ela disse para mobilizar as suas bases é um atentado à inteligência dos portugueses, pois ninguém percebe como é possível passar de 7% das intenções de voto (sondagens de Janeiro de 2018 da Eurosondagem e da Aximage) para, como ela disse, chefiar o governo.
Também o futebol continua com aspectos caricatos, pois deixou de ser um belo espectáculo para se tornar numa indústria em que prolifera muita gente pouco recomendável, incluindo dirigentes e comentadores que, aos gritos e ameaças, ocupam o espaço televisivo e invadem os nossos domicílios.
Depois temos outro aspecto caricato da nossa vida quotidiana porque, numa lógica absurda e sem qualquer respeito pelo direito ao bom nome das pessoas, assistimos ao anúncio de inquéritos que deveriam ser confidenciais e que arrasam os cidadãos na praça pública, numa promíscua relação entre os agentes do sistema de justiça e os mais reles membros da nobre corporação dos jornalistas.
No plano dos costumes sociais também temos sido assaltados pelo ressurgimento da linha Relvas de falsos doutores, isto é, do reaparecimento de casos de abusivo e desonesto uso de qualificações académicas, como sucede com o título de catedrático que foi aceite por Passos Coelho ou com a utilização da categoria de visiting scholar por Barreiras Duarte.
São apenas algumas das situações caricatas que estão a atravessar a nossa sociedade e que mostram o poder dos media, mas também a altíssima perversidade de alguns deles.

domingo, 11 de março de 2018

A caravela-portuguesa veio dos trópicos

O título da edição de hoje do diário Faro de Ceuta até pode assustar os ceitis porque lhes pode lembrar o dia 21 de Agosto de 1415, quando chegaram à baía de Ceuta cerca de 212 embarcações, incluindo naus, caravelas, galés e outras embarcações menores, onde iam embarcados 20 mil homens comandados pelo rei D. João I para conquistar a cidade. De facto, a notícia de que a caravela portuguesa [está] em Ceuta, bem poderia referir-se ao episódio da chegada das caravelas e de outros navios portugueses à baía de Ceuta, acontecido há 602 anos.
Porém, a caravela-portuguesa referida na notícia é a physalia physalis que, segundo o meu amigo Google, é um organismo pluricelular ou uma colónia de organismos geneticamente idênticos e altamente especializados que aparentam ser uma única criatura e cuja principal toxina é a physaliatoxina. Têm cores diversas, tentáculos com células urticantes que podem atingir 30 metros de comprimento e vivem na superfície do mar das regiões tropicais, flutuando graças a um flutuador cilíndrico cheio de gás.
Provavelmente, devido a condições oceanográficas desconhecidas, a Portuguese man o’war que é parecida com uma alforreca, foi deslocada pelo vento desde as regiões tropicais até ao sul da península Ibérica. Apareceu nas praias de Ceuta onde causou alarme e foi notícia de primeira página no Faro de Ceuta, mas também nas praias da Manta Rota e Monte Gordo, no sotavento algarvio, o que levou a autoridade marítima a difundir conselhos às populações marítimas devido ao seu elevado poder urticante e elevada perigosidade. Para quem ande no mar ou vá à praia, há que ter muito cuidado, mas não deixa de ser curioso o nome deste organismo inspirado na aventura marítima portuguesa dos séculos XV e XVI.

Amoco Cadiz: o naufágio de má memória

O jornal bretão Le Télégramme dedica a sua edição de hoje ao encalhe do Amoco Cadiz, porventura o mais simbólico dos grandes acidentes marítimos acontecidos com super-petroleiros ou VLCC (Very Large Crude Carrier).
O histórico naufrágio sucedeu no dia 16 de Março de 1978 na costa da Bretanha e o navio de 334 metros de comprimento e 51 metros de boca partiu-se em dois, tendo provocado o derramamento de muitas toneladas de petróleo numa mancha principal que media 16 quilómetros de largura por 72 quilómetros de comprimento, o que foi um dos maiores desastres ambientais até então ocorridos no planeta.
Infelizmente para o meio ambiente, as tragédias com petroleiros têm continuado e os desastres do Exxon Valdez em 1989 no Alasca, do Erika em 1999 na baía da Biscaia e do Prestige em 2002 nas costas da Galiza, são apenas alguns exemplos dos desastres ambientais provocados pelos super-petroleiros. Porém, o caso do Amoco Cadiz continua a ser o exemplo mais clássico e mais lembrado de entre todos. Na Bretanha e um pouco por toda a França, milhares de voluntários mobilizaram-se durante vários meses para limpar as praias, onde foi muito profundo o impacto ecológico dessa catástrofe sobre o litoral, a sua fauna e a sua flora. O naufrágio do Amoco Cadiz marcou uma enorme mudança em relação às preocupações quanto à segurança marítima e foi um alerta para a sensibilização das autoridades e das opiniões públicas.
“O dia mais negro”, pelo seu significado, foi oportunamente evocado pelo Le Télégramme quando se perfazem 40 anos sobre esse naufrágio de má memória.

sábado, 10 de março de 2018

Paris e a manutenção da Torre Eiffel

A Torre Eiffel é o monumento mais emblemático da cidade de Paris e também da França, tendo sido inaugurado em 1889, o que significa que vai celebrar 130 anos de idade em 2019.
Desde que Gustave Eiffel terminou a sua obra até à actualidade, a torre de 300 metros de altura já foi visitada por mais de 300 milhões de pessoas. O seu simbolismo civilizacional e a necessidade da sua preservação implicam que, de sete em sete anos, o monumento seja objecto de trabalhos de manutenção, incluindo a pintura para manter o seu bom aspecto e para prevenir a sua corrosão. Assim acontecerá a partir do próximo mês de Outubro, numa operação que demorará três anos, que custará 40 milhões de euros e que consumirá 60 toneladas de tinta. O jornal Le Parisien destaca essa "incroyable" operação que se  afigura mais complexa do que as 19 operações de pintura realizadas desde a sua inauguração, pois foram encontradas corrosões em muitas juntas, o que requer a sua eliminação. Além disso, a tinta de chumbo que foi usada nas anteriores pinturas terá que ser substituída por razões ambientais, o que vai implicar a decapagem de cerca de 25 mil metros quadrados da estrutura.
Nesta intervenção destaca-se uma novidade que é a colocação de um inovador muro de vidro com 3,24 metros de altura e com 65 milímetros de espessura, a envolver exteriormente a base do monumento, para o proteger e para minimizar o risco de atentados terroristas.
Esta operação de manutenção da Torre Eiffel sugere que sejam estudadas e intervencionadas as estruturas metálicas que foram construídas em Portugal desde finais do século XIX, sobretudo pontes, para assegurar a sua segurança.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Donald e Kim ou o encontro não esperado

A notícia surgiu há poucas horas e foi veiculada por muitos jornais, incluindo o New York Post: os presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte vão encontrar-se no próximo mês de Maio, em lugar ainda não divulgado, para discutir a desnuclearização da Coreia do Norte e o fim dos testes de mísseis nucleares. O convite partiu de Kim Jong-un e foi aceite por Donald Trump, que já confirmou a aceitação do convite para esse encontro que poderá ser histórico, embora tenha garantido que se mantêm as sanções contra o regime de Pyongyang enquanto não houver um acordo sobre desnuclearização. Segundo foi divulgado, esta iniciativa de Kim Jong-un surgiu na sequência dos encontros entre as duas Coreias que se seguiu aos Jogos Olímpicos de Inverno realizados na Coreia do Sul, tendo o convite sido entregue pessoalmente pelo líder norte-coreano à delegação sul-coreana para que fosse entregue na Casa Branca.
O anúncio do encontro entre os dois polémicos dirigentes tem sido comentado como uma iniciativa muito positiva, embora haja inúmeras divergências a separar os Estados Unidos e a Coreia do Norte. No entanto, este encontro bem poderá ser um ponto de partida para o desanuviamento de uma tensão que ameaça a paz mundial. É difícil conciliar posições tão extremadas e, além disso, houve demasiadas provocações entre os dois dirigentes, mas o encontro não pode deixar de suscitar muitas esperanças num novo caminho que, curiosamente, nasceu com base no desporto e não na diplomacia. 
Quem sabe se o Donald e o Kim, que parece terem tantos pontos de excentricidade em comum, não acabam por se tornar amigos e acabam por dar algum sossego ao mundo?

quinta-feira, 8 de março de 2018

O triste fim do navio "Mestre Simão"

O acidente aconteceu no passado dia 6 de Janeiro quando o navio Mestre Simão, de 40 metros de comprimento, fazia a sua entrada no porto da Madalena.
O Mestre Simão, tal como o seu irmão Gilberto Mariano, era o orgulho dos passageiros do canal, ainda a cheirar a novo, bem equipado, moderno e confortável, mas o mar pregou-lhe uma partida. Havia mau tempo no canal e o navio, que fazia a ligação entre a ilha do Faial e a ilha do Pico, terá sido apanhado por uma onda desencontrada que o atravessou e fez perder o governo, sendo atirado para as rochas que orlam a margem sul da bacia de manobra do porto da Madalena. Os setenta passageiros foram retirados sem quaisquer problemas e não houve feridos, mas o navio ficou preso às rochas, provavelmente muito aguçadas.
A autoridade marítima, a seguradora do navio e o armador Atlânticoline, desenvolveram esforços para esclarecer o que de facto se passou e para tentar o salvamento do navio. Os dias passaram e todos os esforços para o salvar foram infrutíferos, pelo que o governo dos Açores já anunciou que o Mestre Simão sofreu danos irreparáveis e foi considerado perdido, pelo que foi iniciado o processo de aquisição de um navio semelhante, ao mesmo tempo que foi aberto um concurso internacional para o seu desmantelamento e remoção.
Fui fotografar o navio e senti uma enorme mágoa ao ver aquele símbolo do progresso na ligação entre as ilhas do grupo central açoriano e que me transportou algumas vezes no canal do Faial, ali solitário e moribundo. É mesmo muito doloroso porque, como Fernando Pessoa escreveu na Ode Marítima, um navio tem personalidade e, por isso, não merecia um fim tão triste e tão inglório.

terça-feira, 6 de março de 2018

O enorme imbroglio político da Itália

As eleições legislativas italianas realizaram-se no passado domingo e os resultados foram considerados um cataclismo eleitoral, pois o cenário é muito incerto e poderá dar origem a uma situação de ingovernabilidade, para além de deixar a Europa em sobressalto. Le Télégramme, um jornal francês de Lorient, diz hoje que a Itália está em pleno imbroglio político.
Aconteceu que a coligação de centro-direita liderada por Matteo Salvini e que agrega a Liga do Norte, a Forza Italia de Silvio Berlusconi e outros partidos eurocépticos e populistas, obteve 37% dos votos, enquanto a coligação de centro-esquerda do ex-Primeiro Ministro Matteo Renzi, que é dominada pelo Partido Democrático e tem cariz social democrata, se ficou pelos 22,85% de votos. Entre estas duas coligações, mas com o melhor resultado em termos individuais, aparece o Movimento Cinco Estrelas, liderado pelo jovem Luigi di Maio de 31 anos de idade, eurocéptico, populista e adepto da democracia directa, que foi a força mais votada com 32,68% dos votos.
Ninguém conseguiu os 40% que garantem a maioria absoluta para governar e Matteo Renzi já se demitiu da chefia do seu partido. No meio de tantos partidos e tantas coligações, é mesmo muito difícil antever o que irá acontecer.
Certo é que a Itália está agora dominada por eurocépticos e populistas, uns da anti-política e da democracia directa que não são da direita nem da esquerda tradicionais, outros que estão muito próximos da extrema-direita. Um país fundador da União Europeia parece ter-se unido contra o poder de Bruxelas e estar a alinhar-se com as tendências direitistas e xenófobas da Hungria e da Polónia ou, como alguém escreveu, “é estranho imaginar o governo de Roma mais próximo de Budapeste ou Varsóvia, do que de Paris, Berlim ou Bruxelas”. Os italianos votaram contra as políticas internas de apoio aos emigrantes, mas também contra as medidas impostas por Bruxelas que têm empobrecido o país, havendo muita gente que, por toda a Europa, teme um Brexit italiano, que a acontecer seria certamente mais grave do que aquele que foi decidido em Londres.