terça-feira, 3 de setembro de 2019

A violência destruidora dos furacões

As tempestades tropicais ou ciclones tropicais são um fenómeno meteorológico de características depressionárias que se forma sobre o mar das regiões tropicais em diferentes regiões do mundo. No oceano Pacífico ocidental designam-se por tufões (typhoon), mas na região ocidental do oceano Atlântico são chamados furacões (hurricane). O efeito dos ciclones tropicais é devastador, quer no mar, quer em terra, porque o vento pode soprar com grande intensidade. O mais recente de que há notícia é o furacão Dorian que atingiu ontem o arquipélago das Bahamas, com ventos com velocidades superiores a 300 quilómetros por hora, que já provocaram cinco mortos e destruíram pelo menos 13 mil casas em várias ilhas, deixando um forte rasto de destruição e fazendo com que a população ficasse sem abrigo ou alojada precariamente. As autoridades das Bahamas declararam nunca ter visto tanta destruição porque a violência do Dorian “não tem precedentes”. Entretanto, quando o furacão se aproximava da Florida e da Geórgia, uma situação que a fotografia da capa da edição do Miami Herald bem esclarece, parece ter perdido força e estar a ser travado na sua progressão para noroeste por um sistema de altas pressões situado na área das Bermudas. No entanto, as autoridades americanas mantêm todos os alertas e continuam a avisar que a situação é “extremamente perigosa”. Os americanos do sul e sueste do país sabem por experiência o mal que o Dorian lhes pode levar.

As subvenções vitalícias dos políticos

A questão das pensões, qualquer que seja a sua natureza, é sempre um assunto é muito delicado e eu não sou um entendido nessas coisas. No entanto, não me oferece dúvida que quem tem um emprego, que trabalha e que desconta uma parte do seu salário para um fundo de pensões, tem direito a receber mais tarde uma pensão mensal proporcional ao tempo que trabalhou e aos descontos que lhe foram feitos. Porém, no caso dos políticos o assunto não pode ser visto da mesma maneira.
A carreira política é uma função nobre e aqueles que a escolhem fazem uma opção pelo serviço à causa pública ou pelo serviço à comunidade. Os políticos são um produto da vida partidária e muitas vezes submetem-se a eleições, mas uma eleição é diferente de um qualquer concurso empresarial para admissão de empregados, em que os candidatos têm que apresentar currículos e prestar provas. Por isso, a carreira política é temporária ou ocasional porque depende das escolhas dos eleitores. Não é um emprego e não pode ser tratada como um emprego.
Muitos políticos não percebem o que é servir a causa pública e mantém as suas actividades privadas em paralelo com as funções públicas, além de terem assegurados generosos subsídios de reintegração quando abandonam a política e regressam à sociedade civil. Portanto, o tempo que passam na política está protegido por esses subsídios e não lhes deve dar direito a quaisquer outros direitos especiais.
Assim, as subvenções vitalícias aos políticos não fazem sentido nenhum. Os políticos são cidadãos como os outros e os seus direitos não podem ser diferentes dos outros. Quando chegam à idade da reforma, têm direito a uma pensão mensal proporcional ao tempo que trabalharam e aos descontos que lhe foram feitos, onde ou para quem quer que fosse. Seis milhões de euros por ano, gastos com esta gente que, provavelmente, nem precisa, é um desperdício de recursos e uma abusiva utilização dos meus impostos. É mesmo imoral.

sábado, 31 de agosto de 2019

O topo do mundo para o Jorge Fonseca

Eu nunca tinha ouvido falar no Jorge Fonseca e ontem fui surpreendido com a notícia de que se tinha sagrado campeão do mundo de judo na classe -100 kg, ao vencer o russo Niyaz Ilyasov. As televisões repetiram muitas vezes aquela notícia e anunciaram que, pela primeira vez, um judoca português tinha sido campeão mundial.
Para quem, como eu, pensava que o judo português era a Telma Monteiro e a sua sempre adiada ascensão ao topo do mundo, foi muita surpresa mas também foi uma grande satisfação. O hino nacional foi ouvido em Tóquio e foi muito emocionadamente cantado pelo Jorge Fonseca, que nasceu em São Tomé e Príncipe, mas que veio para Lisboa há cerca de 15 anos. Disse ele que ouvir o hino foi uma situação incrível e que esperava voltar a ouvi-lo muitas vezes, o que é muito animador quando estamos a um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio.
Poucos imaginam os sacrifícios, as privações, o trabalho e a persistência que são exigidos na preparação dos atletas de alta competição, mas o título de Jorge Fonseca certamente que o compensa de tudo isso.
Os jornais generalistas portugueses deram a notícia em primeira página, mas com muita discrição, enquanto dois jornais desportivos esqueceram o futebol por um dia e perceberam a importância do feito atlético do Jorge Fonseca, dedicando-lhe toda s sua primeira página. Aqui fica, também, o meu aplauso porque, exceptuando os hoquistas, são muito raros os campeões do mundo portugueses.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Evocação do referendo de 1999 em Timor

Depois dos chamados acordos de Nova Iorque assinados no dia 5 de Maio de 1999 entre Jaime Gama e Ali Alatas, em representação dos governos de Portugal e da Indonésia com a mediação de Kofi Annan, o secretário-geral das Nações Unidas, realizou-se no dia 30 de Agosto de 1999 um referendo em Timor Leste.
Nessa consulta não se falava em independência e, muito habilmente, perguntava-se aos timorenses se aceitavam ou não uma autonomia especial para o seu território. A resposta foi negativa e 78,5% dos timorenses optaram por rejeitar essa “oferta” de estatuto, o que nos termos dos acordos de Nova Iorque significava o fim do vínculo indonésio a Timor-Leste e a restauração do estatuto que tinha até à invasão indonésia do seu território. Estava aberta a porta para a independência de Timor-Leste e para a substituição das forças militares e policiais indónésias por uma Força Internacional para Timor-Leste (INTERFET).
A notícia da realização da consulta popular que foi acordada em 5 de Maio, provocou muitas acções de intimidação contra os independentistas e muitos assassinatos. Com os resultados de 30 de Agosto, as milícias pró-indonésias com a cumplicidade dos militares indonésios, criaram uma situação de generalizada violência e destruição no território, sobretudo na cidade de Dili, assassinando muitas centenas de pessoas e levando muitos milhares a refugiarem-se em territórios vizinhos. As infraestruturas do território foram destruídas quase completamente, incluindo casas, escolas, igrejas, hospitais, bancos e os sistemas de irrigação, de abastecimento de água e de electricidade. As televisões mostraram a tragédia vivida pelos timorenses durante vários dias, pois só no dia 20 de Setembro desembarcou a força das Nações Unidas comandada pelo major-general australiano Peter Cosgrove. Hoje, o jornal Público evoca o 20º aniversário do referendo que abriu as portas da independência a Timor Leste, com uma fotografia da "alegria do povo".

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O Brexit no-deal está cada vez mais perto

A pedido do primeiro-ministro Boris Johnson, a rainha Isabel II aceitou ontem que o Parlamento britânico seja suspenso desde o dia 10 de Setembro até ao dia 14 de Outubro, isto é, até quando faltarem apenas  duas semanas da data prevista para o Brexit.
Com esta medida o radical governo britânico pretende assegurar que o Reino Unido abandone a União Europeia no dia 31 de Outubro, certamente sem acordo ou no-deal, ao mesmo tempo que pretende inviabilizar quaisquer tentativas de aliança entre a oposição trabalhista, os rebeldes conservadores e os deputados escoceses, para impedir essa saída sem acordo ou mesmo para conseguirem o afastamento de Boris.
As reacções a esta decisão foram imediatas pois o encerramento temporário do Parlamento é um sério ataque ao processo democrático e aos direitos dos deputados enquanto representantes eleitos pelo povo, havendo mesmo quem fale em golpe de estado. Muita gente não aceita a legitimidade política de Boris Johnson, pois foi escolhido por noventa mil cidadãos do seu partido, chefia um governo minoritário, não tem uma maioria no Parlamento e, desde que assumiu o cargo, não foi ao Parlamento uma única vez, o que é uma afronta à tradição democrática britânica.
O extravagante Boris Johnson, que toda a gente considera a versão britânica de Donald Trump, tem vivido obcecado com o Brexit e parece não entender as graves consequências que virão para a economia, para a sociedade e mesmo para a cultura do Reino Unido com este divórcio mal esclarecido. Por isso, a edição do The Times destaca hoje que "Johnson goes for broke", isto é, que Johnson nos leva à falência.
Ninguém se entende naquelas ilhas. Porém, como teremos oportunidade de ver, esta história ainda vai ter muitos mais episódios.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A vergonha dos políticos-futeboleiros

Embora eu tivesse sido um praticante muito medíocre, o gosto pelo futebol tem vivido sempre comigo desde há muitos anos porque, apesar dos condicionalismos impostos pelo negócio, pelo necessidade de satisfazer adeptos e patrocinadores e das muitas exigências de um espectáculo que movimenta milhões, ainda continua a ter um largo espaço para a criatividade e para a performance atlética, o que também faz do futebol uma arte do espectáculo, tal como o circo, o teatro ou a dança. Além disso, o futebol é um espectáculo divertido, que entusiasma, que pode alimentar sãs paixões clubísticas e que tem a potencialidade de regular as tensões da sociedade.
Porém, de há uns anos para cá, o futebol tornou-se uma praga social do tipo jacinto-da-água, pois invade e quase devora tudo à sua volta. A componente desportiva quase desapareceu deste fenómeno de massas e são os interesses comerciais que dominam, enquanto as televisões se deixaram colonizar pelo futebol e dão guarida a um arraial mediático de mau nível, onde não faltam as acusações, os insultos e as contínuas suspeitas sobre o adversário. Nenhum outro assunto ocupa tanto espaço televisivo como o futebol e até as notícias sem interesse nenhum são repetidas dezenas de vezes. É um atentado à saúde mental do telespectador. Um espectáculo televisivo deprimente.
Nos últimos tempos surgiu uma nova espécie de gente que são as dezenas de comentadores futebolísticos, muitos deles trauliteiros encartados e alguns deles, imagine-se, deputados eleitos como nossos representantes no Parlamento. Vemos, então, os nossos representantes no Parlamento aos gritos histéricos por causa de um penalti, de um off-side ou de um erro de arbitragem.
Hoje o jornal i chamou-lhe “os políticos que dão toques na bola”, mas eu acho que, se eles são políticos, são medíocres e incapazes. São gente sem princípios e sem valores que apenas querem ganhar uns cobres e satisfazer as suas vaidades pessoais. São meros oportunistas sem vergonha nenhuma e, ao colocar a fotografia de alguns deles na sua primeira página, o jornal fez-me lembrar os cartazes afixados à porta dos saloons com a imagem dos  cowboys que tinham a cabeça a prémio no Far West...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Plácido Domingo: a ovação em Salzburgo

O tenor espanhol Plácido Domingo, que actualmente conta 78 anos de idade, foi recentemente acusado nos Estados Unidos por supostamente ter assediado sexualmente nove mulheres, das quais sete nem sequer se identificaram.
Este tipo de acusações contra figuras proeminentes e ricas é comum no país mais poderoso do mundo, mas o senso comum percebe sem dificuldade que, muito provavelmente, se tratam de tentativas de extorsão que é uma prática comum numa sociedade em que o dinheiro é o valor mais importante de tudo.
Nestes casos de assédio sexual, real ou fictício, a moralidade americana é ridícula e extravagante, regendo-se por padrões muito diferentes dos padrões europeus e da cultura latina, chegando a haver acusações que resultam apenas de olhares ou de piropos, nem sempre mal intencionados.  Por isso, de vez em quando lá aparece na América mais um caso em que um indivíduo rico e famoso é vítima de uma acusação dessas. Foi assim, por exemplo, com Dominique Strauss-Kann, o antigo director do FMI e potencial candidato à Presidência da República Francesa, foi assim com Cristiano Ronaldo que foi e é o melhor futebolista do mundo e é, agora, com Plácido Domingo, considerado a maior estrela da ópera internacional. Todos eles são estrangeiros, estiveram na América e são ricos, pelo que são alvos interessantes para quem vive de extorsões e de indemnizações por tudo e por nada. Não sei se são culpados ou não das acusações que lhes têm feito, mas o facto é que lhes têm saído caras sob todos os pontos de vista.
Ontem Plácido Domingo apareceu pela primeira vez num espectáculo desde que surgiu a acusação e o público do Festival de Salzburgo ovacionou-o de pé antes e depois da sua actuação. Alguns jornais espanhóis, como por exemplo La Razón, juntaram-se ao público de Salzburgo e também aplaudiram o tenor. 

domingo, 25 de agosto de 2019

Fogo da Amazónia é uma questão política?

Perante a enorme calamidade que está a afectar a Amazónia e da onda de indignação e de protesto que se gerou no país e no exterior, o presidente Jair Bolsonaro decidiu alterar o seu discurso e começou a mostrar alguns sinais de preocupação. Sentiu a sua cadeira a tremer e percebeu que a função presidencial é bem mais complexa do que aquilo que ele pensava. Alguém lhe sussurrou ao ouvido que fosse mais moderado e menos arrogante no seu discurso e que fizesse qualquer coisa para enfrentar a situação na Amazónia, pois o protesto do povo estava a aumentar.
Sob forte pressão nacional e internacional, o Jair autorizou a utilização das Forças Armadas no combate às queimadas na Amazónia, mas há quem defenda que esta iniciativa já é tardia e que a calamidade ambiental é irreversível. Há mesmo quem escreva que o Exército vai apagar um fogo posto pelo próprio presidente ou quem o acuse de um crime de lesa-pátria, devido aos estímulos que concedeu ao desmatamento ilegal de grandes áreas para exploração económica. Outros referem o risco do Brasil de Bolsonaro perder a soberania sobre a Amazónia, que é considerado o pulmão do planeta. Bolsonaro é, portanto, um político sem qualquer futuro como os brasileiros estão agora a ver.
Apesar de tudo parecer resultar de uma atitude política de passividade perante os grandes grupos económicos dos quais o Jair parece depender em demasia, o facto é que tem havido alguma solidariedade internacional para com a situação e a Argentina colocou-se na primeira fila, apesar de todos os seus problemas internos.
O assunto é tão importante que foi posto na agenda da 45ª reunião do G7 que está a decorrer em Biarritz, a par do tema da paz no nosso planeta, das questões do comércio mundial e da sustentabilidade ambiental. Afinal o fogo da Amazónia é muito mais que um incêndio florestal, pois tornou-se numa questão política.

sábado, 24 de agosto de 2019

O ataque aos fogos na selva boliviana

Os trágicos incêndios que estão a devastar a Amazónia e a angustiar o mundo, não estão a acontecer apenas no Brasil, pois também estão a afectar a Bolívia, sobretudo na Chiquitania, que é a região mais oriental do país e que faz fronteira com o Brasil e com o Paraguai.
Porém, enquanto Jair Bolsonaro tem alimentado a polémica, ao negar as evidências e ao retardar as medidas necessárias, o seu colega boliviano Evo Morales tomou medidas imediatas e, uma delas, foi a decisão de contratar o  Boeing 747 da empresa americana Global Super Tanker Services, que tem a sua base em Colorado Springs e que é considerado o maior avião de combate a incêndios do mundo, pois pode transportar 74 toneladas de água e de retardante. Só existe uma destas unidades, conhecida por 747 Supertanker, que foi adaptada em 2015 para a luta contra os incêndios e que, actualmente, já interveio com sucesso na Califórnia, no Chile e em Israel. Agora, na Bolívia, as primeiras notícias revelam que a acção do Supertanker “comienza a sofocar el incendio”, como revela a edição de hoje do jornal boliviano Cambio.
A Chiquitania ou Chiquitos é uma região boliviana que inclui um conjunto de seis cidades fundadas pelos missionários jesuítas na primeira metade do século XVIII, cujas igrejas sobreviveram à sua expulsão pelas autoridades espanholas e que em 1990 foram declaradas Património Mundial pela Unesco.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

A Amazónia arde e está muito ameaçada

Desde há cerca de duas semanas que o fogo vem consumindo extensas áreas florestais da região amazónica brasileira, mas também da Bolívia e, pelo conjunto de protestos internos e internacionais que nos chegam através das televisões, só podemos concluir que o que está a acontecer resulta da acção do homem e não de quaisquer causas naturais.
Segundo foi revelado, desde o início do ano já foram registados 73 mil focos de incêndio na Amazónia brasileira, o que significa quase o dobro do que se verificou no ano passado, daí resultando a perda de uma área de floresta equivalente ao território da Alemanha.
Os principais acusados por esta enorme tragédia ambiental são a ambição e a ganância dos produtores de gado e de soja que, através de queimadas não controladas e de incêndios, pretendem desmatar e aumentar as suas áreas de produção, aparentemente com o consentimento implícito do governo de Jair Bolsonoro. Porém, em vez de actuar, o governo brasileiro vem responsabilizando as ONG que defendem a Amazónia, acusando-as de provocarem os incêndios florestais com o fim de o atacarem politicamente, o que é mais uma fantasia do Jair e da sua limitada inteligência.
O facto é que o mundo está angustiado com o que se passa na Amazónia, que é um dos pulmões do planeta. O desequilíbrio ambiental que está a ser provocado pode ser irreversível e as Nações Unidas, a União Europeia, a Alemanha, a França e outros países têm protestado contra o que está a acontecer, para além do natural protesto dos prejudicados da primeira linha que são os brasileiros.
O jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, diz hoje em primeira página que o Brasil “pegou fogo”.  Realmente, desde que, no primeiro dia do ano de 2019, o Jair chegou à presidência, não cessam as notícias desagradáveis e negativas sobre o Brasil. Começa a ver-se que o Brasil merecia um presidente melhor.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

R.I.P. Percival Noronha

A notícia chegou esta manhã vinda de Goa e informava que, aos 96 anos de idade, falecera o comendador Percival Noronha.
Percival Noronha era bom amigo, era um conhecedor profundo da cultura goesa e esteve toda a sua vida ligado ao património cultural de Goa, quer no tempo da administração portuguesa do Estado da Índia, quer depois quando o território foi integrado na União Indiana. Conhecia como ninguém as ruas e as pedras da Velha Cidade onde se movimentava com naturalidade, como se aquele espaço museológico ainda estivesse no seu esplendor do século XVII. Conhecia os monumentos militares e religiosos e a sua história, a arte indo-portuguesa desde o mobiliário à joalharia, as tradições culturais religiosas e profanas e, também, as pequenas coisas que não estão escritas nos livros e que verdadeiramente fazem a história de Goa. Investigadores do mundo inteiro, sobretudo portugueses, recorriam aos seus saberes e nele encontravam sempre grande disponibilidade e alguma coisa de útil para as suas pesquisas. Humilde e discreto, vivia na sua casa do bairro das Fontainhas. Era um símbolo da cultura de Goa e, provavelmente, o goês mais conhecido nos meios académicos portugueses.
Afirmava a sua íntima ligação cultural a Portugal sem quaisquer complexos e era um símbolo da amizade luso-goesa, contrariando muitas vezes as correntes anti-portuguesas que, por moda ou por conveniência política, por vezes se manifestavam em Goa. Em 2014, muito justamente, tinha sido condecorado pelo governo português com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique e sei bem quanto isso o orgulhou.
Goa fica muito mais pobre com o desaparecimento de Percival Noronha e eu aqui lhe presto a minha homenagem.

domingo, 18 de agosto de 2019

Obras sumptuosas e mania das grandezas

No canto sudoeste da Europa onde o processo histórico constituíu dois estados soberanos – Portugal e Espanha – há muitas coisas em comum e uma delas é a mania das grandezas, embora essa circunstância não seja apenas um vício ibérico.
Acontece que, em ambos os países ibéricos, depois de um longo período de isolamento internacional e de desenvolvimento assimétrico em relação aos países mais desenvolvidos, a integração europeia acontecida em 1986 trouxe entusiasmo, dinamismo e substanciais ajudas comunitárias para recuperar o tempo perdido. O dinheiro chegou em doses maciças e deslumbrou muita gente, o que permitiu a modernização da agricultura e do tecido empresarial, o apoio à formação profissional e muito mais coisas. Porém, a construção de infraestruturas terá sido o sinal mais visível do novo-riquismo ibérico com as autoestradas e rotundas, os portos e as marinas, as pontes e os túneis, os estádios de futebol, as piscinas e os pavilhões gimno-desportivos. Nestas, como em muitas outras actividades, a participação comunitária a fundo perdido era geralmente superior a 50% e porque essas construções davam votos, poucos se preocuparam com a efectiva necessidade desses investimentos, nem com o pagamento da componente não comparticipada. Daí nasceram muitas dívidas que caíram no saco da dívida pública e que hoje apoquentam os governos ibéricos.
Vem isto a propósito da notícia de hoje da edição de Sevilha do jornal ABC que revela que, vinte anos depois do Mundial de Atletismo de 1999, o Estádio de la Cartuja que custou 130 milhões de euros, fechou por falta de uso e de manutenção, além de ter graves problemas estruturais na sua cobertura. Por cá não faltam exemplos semelhantes, desde os sumptuosos estádios de Aveiro, de Leiria e do Algarve, até às dezenas de piscinas e pavilhões encerrados por falta de uso ou de manutenção. Era um tempo de vacas gordas, mas também era a mania das grandezas.

Boris Johnson: le bad boy de l’Europe

O Reino Unido tem passado por uma grande turbulência política desde que, no dia 23 de Junho de 2016, se realizou o referendo para decidir da sua permanência ou saída da União Europeia. Os partidários do Brexit ganharam com 52% dos votos, mas essa margem foi tão escassa que o país ficou dividido e não se tem entendido quanto ao futuro. Os primeiros-ministros David Cameron e Theresa May não conseguiram resolver a situação e, no dia 24 de Julho, foi a vez de Boris Johnson tomar posse como primeiro-ministro.
Naturalmente, Boris Johnson anunciou que iria trabalhar para unir o país e que uma das suas prioridades era garantir a saída do Reino Unido da União Europeia, que está marcada para o dia 31 de Outubro, apesar da oposição do Partido Trabalhista e de um sector do seu próprio Partido Conservador. Embora esteja há menos de um mês a ocupar o nº 10 de Downing Street, o facto é que não há notícias que mostrem que Boris Johnson esteja a unir o que quer que seja e, perante a ameaça de sair sem um acordo com Bruxelas, amontoam-se os estudos a apontar para as trágicas consequências económicas e sociais para os britânicos, a juntar às ameaças de secessão por parte de escoceses e irlandeses do norte.
Boris Johnson é uma figura muito controversa, tem muito apoio de Donald Trump e, tanto a sua vida política como pessoal, têm estado sujeitas a muitas polémicas. Esta semana a edição do L’Express escolheu uma fotomontagem para ilustrar a sua capa, na qual Boris Johnson exibe um fósforo na mão, numa insinuação de que é um incendiário político. Chama-lhe o bad boy de l’Europe e procura mostrar o que nos espera com o Brexit, que tem data marcada para daqui a cerca de 70 dias.

sábado, 17 de agosto de 2019

R.I.P. Alexandre Soares dos Santos

A notícia da morte de Alexandre Soares dos Santos aos 84 anos de idade não foi inesperada porque era sabido que padecia de doença grave, mas é muito dolorosa. Com a sua morte desaparece mais uma figura de referência do universo empresarial português, num tempo em que temos assistido ao desaparecimento de verdadeiros empreendedores e ao nascimento (e queda) de aventureiros gananciosos que se disfarçaram de empresários e têm afundado várias empresas portuguesas.
Alexandre Soares dos Santos, tal como Américo Amorim e Belmiro de Azevedo, também foi um visionário que criou um negócio na área da distribuição, que satisfez uma necessidade social, que apoiou a produção agro-alimentar portuguesa e que, directa e indirectamente, empregou muita gente. À frente do grupo Jerónimo Martins desde 1968, foi com a sua visão que aquela pequena empresa familiar se tornou num dos maiores grupos empresariais portugueses, não só pela sua dimensão e robustez únicas no panorama nacional, como pela sua bem sucedida internacionalização, nomeadamente na Polónia e na Colômbia. As suas preocupações sociais e culturais levaram-no a muitas iniciativas de interesse para o desenvolvimento do país, de que a Fundação Francisco Manuel dos Santos é uma das mais notáveis.
Embora não o conhecesse, nem partilhasse muitas das suas ideias, nem gostasse do seu estilo demasiado contundente e polémico, aqui lhe presto a minha homenagem.
Homens como este fazem muita falta a Portugal.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A crise em Hong Kong continua sem saída

Desde o passado mês de Junho – já passaram 11 semanas – que têm acontecido grandes manifestações na Região Administrativa Especial de Hong Kong da República Popular da China (RPC) em protesto contra a intenção do governo da ex-colónia britânica para levar por diante um projecto de lei que prevê a possibilidade de extradição para a RPC de pessoas acusadas de crimes contra essa mesma RPC. 
Enquanto as autoridades de Hong Kong defendem que a lei se destina a assegurar a segurança interna do seu território, os manifestantes temem que a lei proposta seja a cobertura para que a lei chinesa tenha cada vez mais aplicação em Hong Kong e constitua uma efectiva restrição às liberdades públicas no seu território.
Os protestos de rua têm sido contínuos e os confrontos entre a polícia e os manifestantes têm sido muito violentos, com a polícia a recorrer à utilização de gás lacrimogéneo e os manifestantes a provocar tumultos e muita destruição, de que têm resultado muitos feridos e algumas detenções. Entre outras acções de afrontamento das autoridades, os manifestantes forçaram a entrada no Parlamento e ocuparam o aeroporto internacional de Hong Kong.
A senhora Carrie Lam, que é a chefe do governo de Hong Kong, já anunciou a sua decisão de suspender o projecto de lei e alertou para a gravidade da situação que se está a viver em Hong Kong, mas as manifestações continuam e, na sua última edição, The Economist pergunta: “Como é que isto vai acabar?”
Há muita gente que teme uma intervenção militar chinesa, que poderá acontecer a pedido do governo local em caso de necessidade da manutenção da ordem pública ou de auxílio em caso de catástrofes, isto é, quer na China quer no mundo, muitos temem a repetição de uma intervenção musculada semelhante ao massacre de Tiananmen, que aconteceu em Junho de 1989 em Pequim.