sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Angola nos 41 anos da sua independência

Há 41 anos, no dia 11 de Novembro de 1975, nasceu a República de Angola depois de quase cinco séculos de presença portuguesa no seu território. Nesse dia, também terminava o  império colonial português e o sonho que alguns alimentaram de uma pátria repartida pelo mundo, quando o último alto-comissário português em Angola, o Almirante Leonel Cardoso, procedeu ao arriar da bandeira portuguesa do Palácio do Governo. Poucas horas depois, em nome do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), o presidente Agostinho Neto proclamava solenemente e em nome do povo angolano, “perante a África e o mundo a independência de Angola”. No seu histórico  discurso, Agostinho Neto deixou claro que "a nossa luta não foi nem nunca será contra o povo português" e acrescentava que, "a partir de agora, poderemos cimentar ligações fraternas entre dois povos que têm de comum laços históricos, linguísticos e o mesmo objectivo: a liberdade". Nesse mesmo dia, os partidos rivais da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) de Jonas Savimvi e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) de Holden Roberto também proclamaram a independência, respectivamente no Huambo e no Ambriz, embora só a proclamação do MPLA viesse a ser reconhecida pela comunidade internacional.
Não foram fáceis os tempos para a nova república, com continuadas e muito violentas guerras com os movimentos de libertação rivais e os seus aliados, alguns bem poderosos, que só terminaram em 2002.
Desde então, a República de Angola iniciou uma caminhada de desenvolvimento e de progresso, em que muitos portugueses têm participado ao lado dos angolanos, ambos irmanados por uma história e uma língua comuns. Embora as relações entre Portugal e Angola nem sempre tenham sido as melhores, o facto é que hoje não há quaisquer traumas entre os dois países e que os governos de Lisboa e de Luanda são aliados nas grandes questões internacionais, como se viu na recente eleição do novo secretário-geral das Nações Unidas.
Hoje é um dia de festa para os angolanos, mas também para os portugueses.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A América escolheu o seu novo Presidente

A América votou e a vitória foi para o republicano Donald Trump, quando as sondagens pareciam indicar que Hillary Clinton seria eleita como a primeira mulher a atingir a presidência dos Estados Unidos. O populismo que tem crescido na Europa chegou em força aos Estados Unidos e a maioria do eleitorado americano deixou-se convencer, o que significa que a maior potência mundial também atravessa dificuldades e que, lá como cá, o povo aspira a melhores condições de vida e está farto das tutelas habituais e do domínio das garras do poder financeiro.
Durante a campanha eleitoral Donald Trump conseguiu estabelecer uma relação directa com o eleitorado, sem a mediação do seu próprio partido e usou uma linguagem populista a despertar esperanças nos mais marginalizados da sociedade americana. Porém, o seu discurso também assustou muita gente e a sua vitória foi classificada por alguma imprensa internacional como um choque, uma tempestade ou um salto no desconhecido e, até mesmo, numa ameaça à paz ou numa nova desordem internacional. Contudo, muito do que agora se diz ainda são ondas de choque da própria campanha eleitoral que serão amortecidas em poucas semanas ou dias.
Relativamente à política internacional, será difícil que Trump faça pior do que fez a administração Obama que, em vez de serenar a conflitualidade e a guerra iniciadas por George W. Bush no Iraque, usou de uma enorme falta de senso e do seu enorme poder aéreo para alargar o conflito à Síria, à Líbia e a outros países da região.
A imprensa de todo o mundo destacou as eleições americanas como o grande acontecimento e colocou a fotografia de Donald Trump nas suas primeiras páginas. Porém, houve alguns jornais, como aconteceu com o britânico Daily Mirror, que usou a envergonhada Estátua da Liberdade na capa da sua edição de hoje, aparentemente arrependida pelo que os americanos fizeram. O bom humor é sempre saudável...

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Cristiano Ronaldo é uma marca mundial

No ano em que Cristiano Ronaldo ganhou a Liga dos Campeões com o Real Madrid e o Europeu com a selecção portuguesa, a sua cotação subiu em flecha. Assim, na passada segunda-feira foi anunciada a celebração de um novo contrato com o Real Madrid válido até 2021 e com o valor de 21,6 milhões de euros anuais que, segundo o diário desportivo Marca, é “el contrato más grande de la historia del fútbol”. O jornal português A Bola fez contas e noticiou que Ronaldo “irá auferir um estratosférico salário”, a rondar os 1,8 milhões de euros mensais, ao ritmo de 450 mil euros por semana. É obra!
Porém, a história não acabou aqui. No dia seguinte, a multinacional norte-americana Nike também veio anunciar um contrato vitalício com Cristiano Ronaldo que se estima ser da ordem dos 24 milhões de euros anuais, semelhante ao que mantém com Michael Jordan, o mais importante ícone do basquetebol americano. Para a marca americana de equipamentos desportivos, Cristiano Ronaldo é alguém que “transcende o mundo do futebol”, pois é o desportista mais famoso do mundo, que ganhou três vezes a Bola de Ouro e que, segundo o último ranking elaborado pela revista Forbes, é o desportista mais bem pago do planeta. Além disso, Ronaldo goza de grande popularidade mundial pois tem 117 milhões de seguidores no Facebook e 47,9 milhões de seguidores no Twitter, o que o torna uma figura muito recomendável não só para as campanhas de publicidade e marketing da Nike, mas também para as campanhas da Castrol, Armani, KFC, Emirates, Tag Heuer, Herbalife, Toyota, Samsung, Linic e algumas marcas mais.
São números realmente “estratosféricos”. Entretanto, os hotéis Pestana CR7 já são uma realidade e o noticiário relativo ao jogador madeirense refere cada vez mais a palavra Hollywood. Cristiano Ronaldo é um futebolista e é um grande futebolista, mas cada vez mais é muito mais do que isso.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lisboa recebe a ‘Web summit 2016’

Arranca hoje em Lisboa e decorrerá até ao dia 10 de Novembro a Web summit 2016, que é o maior evento de tecnologia e  inovação que se realiza na Europa, na qual são esperados mais de 50 mil participantes de 166 nacionalidades.
O interesse por este evento é enorme e global e, por isso, nele confluem empreendedores, investidores, programadores, políticos, empresários, atletas e celebridades de diferentes áreas. De acordo com a organização estarão no Parque das Nações (FIL e MEO Arena), mais de 7 mil líderes de empresas, 2 mil jornalistas internacionais e cerca de 15 mil empresas representadas. É, portanto, um acontecimento de grande importância para Portugal, havendo quem lhe atribua maior impacto económico do que os emblemáticos eventos que foram a Expo 1998 e o Euro 2004 que abriram um pouco as portas da modernidade ao nosso país e, dizem, também deram um grande contributo para o início do processo de acumulação da nossa enorme dívida externa.
A Web summit nasceu em 2010 em Dublin, mas a sua dimensão parece ter ultrapassado as capacidades organizativas e logísticas da Irlanda, pelo que este ano se deslocou pela primeira vez para o estrangeiro. Depois de uma luta com Paris e, sobretudo com Amsterdão, o anúncio da escolha de Lisboa para acolher a Web summit em 2016, 2017 e 2018, aconteceu no dia 23 de Setembro de 2015 e foi feito por Paddy Cosgrave, o fundador da Web summit, juntamente com Paulo Portas que, afinal, não fez só propaganda e demagogia enquanto foi governante, embora o mérito desta decisão deva ser repartido com mais algumas pessoas, nomeadamente com Fernando Medina, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Embora o verdadeiro retorno da Web summit só venha a ser sentido daqui a cinco ou dez anos, o simples facto de estar em Lisboa é um sinal de modernidade para o mundo e mostra que para além do interesse turístico, existem outras potencialidades neste jardim à beira-mar plantado. Durante três dias, apesar das eleições americanas e das batalhas por Mossul e Raqqa, o mundo também vai ouvir falar de Portugal.

domingo, 6 de novembro de 2016

Uma volta ao mundo à vela em 80 dias

Os 29 participantes na 8ª edição da Vendée Globe, partiram hoje de Les Sables-d’Olonne, uma pequena cidade francesa situada na costa da Bretanha, para tentar vencer o desafio de fazer a volta ao mundo em solitário, sem quaisquer escalas e sem qualquer tipo de assistência. A prova realiza-se de quatro em quatro anos, é exclusiva para veleiros monocasco com menos de 18,30 metros e no seu regulamento está estabelecido que prova passa pelos três cabos – Boa Esperança (África do Sul), Leeuwin (Austrália) e Horn (Chile). É, por isso, um desafio que atrai os melhores e mais corajosos velejadores do planeta que gastarão cerca de oitenta dias para percorrer um mínimo de 24 mil milhas, embora tudo dependa das variáveis meteorológicas, como o vento, o estado do mar e até os gelos que encontrarem. A experiência dos velejadores é fundamental, assim como a sua condição física, porquanto nunca poderão dormir mais de meia hora sem interrupção e só quando o tempo o permitir.
Na edição da prova que hoje começou em Les Sables-d’Olonne e que terminará no mesmo porto na segunda quinzena de Janeiro participam velejadores de dez nacionalidades diferentes: vinte são franceses, mas há um espanhol, um inglês, um holandês, um húngaro, um suiço, um americano, um japonês e um neo-zelandês. Muitos milhares de pessoas assistiram à largada das 29 embarcações mas, através de várias plataformas tecnológicas, é possível acompanhar quase “em directo e ao vivo” esta grande prova desportiva. O actual detentor do recorde da prova é François Gabbart que na última edição da prova completou a volta ao mundo em 78 dias, 2 horas e 16 minutos, mas ele é também o grande ausente da presente edição, onde apenas estará um antigo vencedor, Vincent Riou, que conquistou a Vendée Globe em 2004-05.
A edição de hoje do diário regional francês Le Télégramme faz uma desenvolvida reportagem desta volta ao mundo em 80 dias, com a qual nem Júlio Verne sonhara.

A difusão da língua portuguesa no mundo

O título da última edição do jornal Tribuna de Macau é muito interessante e sugestivo ao salientar que a “língua portuguesa atrai centenas para 20 vagas”. De facto, o Programa de Aprendizagem de Tradução e Interpretação de Chinês e Português promovido pelos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP) de Macau atraiu 287 candidatos para 22 vagas e, segundo foi afirmado por alguns responsáveis macaenses, esse interesse resultou de uma campanha pública e de muita discussão sobre a importância do ensino do português. Ao mesmo tempo, outros salientam a provável influência das declarações do Primeiro-Ministro chinês Li Kequiang, que recentemente visitou o território de Macau e que vincou a importância da língua portuguesa no quadro das relações entre a China e os países lusófonos.
O programa tem a duração de dois anos e integra-se no quadro de cooperação em Formação de Tradução e Interpretação das Línguas Chinesa e Portuguesa entre a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) da República Popular da China e a União Europeia, cuja primeira edição decorreu em 2011.
A iniciativa merece aplauso. No entanto, era desejável que a problemática do ensino do português e de outras áreas afins como a tradução, a interpretação ou a tradução simultânea, constituissem uma prioridade do governo português. Essa é a missão do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I. P., e é a tarefa desempenhada por cerca de duas dezenas de Centros Culturais e por cerca de quatro dezenas de Centros de Língua Portuguesa que existem no estrangeiro, mas são necessários mais Centros e, sobretudo, mais professores qualificados. Tem prevalecido o princípio económico que nos diz que as necessidades são ilimitadas mas que os recursos são escassos e, por isso, a difusão e o ensino da língua portuguesa não têm merecido o devido apoio em recursos orçamentais. Num tempo em que se espera que o português venha brevemente a ser uma língua oficial nas Nações Unidas conforme vai ser proposto pela CPLP, pode ser que essa circunstância venha a gerar um maior interesse no apoio orçamental à difusão da nossa língua.

O próximo Presidente dos Estados Unidos

Estamos a pouco mais de 30 horas das eleições americanas e, embora se trate de um assunto interno dos Estados Unidos da América, o facto de se tratar da eleição do Presidente da mais poderosa nação do mundo, dá a esse acontecimento uma relevância planetária. A personalidade que for eleita e que vai suceder a Barack Obama não vai governar o mundo, mas vai influenciar muito do que nele irá acontecer nos próximos anos. Os mass media americanos, mas também em muitos outros países, apoiaram um ou outro dos candidatos, publicando textos a enaltecer as suas virtudes e merecimentos ou a divulgar suspeitas sobre o adversário. As suas fotografias ilustraram a capa dos jornais de todo o mundo e a sua presença nas televisões foi permanente. A América, mas também o mundo que não vota, ficaram a conhecer Hillary Clinton e Donald Trump.
Porém, nesta longa caminhada que são as campanhas eleitorais nos Estados Unidos, os programas dos candidatos não foram suficientemente discutidos e a campanha derivou para contínuas acusações que ultrapassaram o que seria uma campanha normal, muitas delas sobre a vida sexual dos candidatos ou dos seus familiares, mas também sobre as suas posições xenófobas, o desrespeito pelas mulheres, as relações com o fisco ou a forma como acumularam fortuna. Em vez da apresentação de figuras nacionais a apoiar os candidatos, as campanhas utilizaram várias mulheres que se prestaram a fazer depoimentos sobre as agressões sexuais de que teriam sido vítimas por parte de Donald Trump ou do marido de Hillary Clinton.
O resultado das sondagens têm evoluido ao longo do tempo e hoje mostram que o resultado é imprevisível, mas parece haver uma certeza que o Der Spiegel revelou, isto é, foi a campanha mais suja da história americana e as suas consequências poderão ser trágicas e prolongar-se no tempo. De resto, a fotografia que ilustra a capa da sua edição de ontem é elucidativa ao mostrar Trump e Clionton cobertos de lama. Veremos se os eleitores americanos escolhem o menos enlameado dos candidatos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Renasceu a polémica em torno do Brexit

A inesperada notícia surpreendeu o Reino Unido e hoje todos os jornais britânicos dela fazem manchete: a questão do Brexit/Remain que tanto dividiu a população britânica no passado Verão, voltou a estar em cima da mesa devido à acção de uma senhora chamada Gina Miller, nascida na Guyana mas que sempre viveu na Inglaterra. Casada com um milionário inglês e com 51 anos de idade, a Senhora Miller dedica-se, entre outras actividades, a causas filantrópicas e a actividades cívicas.
Perante as dúvidas e as incertezas que se têm acumulado desde o referendo de 23 de Junho em que o Brexit venceu por escassa margem, deixando muita gente a temer pelo futuro e muitas vozes a reclamar por um novo referendo, a Senhora Miller avançou com um processo contra a Primeira Ministra Theresa May, com o argumento de que nem o governo britânico nem os seus membros tinham poderes para accionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa para abandonar a União Europeia, sem a prévia autorização do Parlamento.
Ontem foi conhecida a decisão do High Court que deu razão à petição da Senhora Miller e nas redes sociais ela passou a ser tratada como uma heroína nacional. Assim, o Parlamento terá que votar e Theresa May terá que esperar.
Tal como acontecera durante a campanha pelo Brexit ou pelo Remain, os jornais britânicos realinharam-se de imediato. O Daily Mail veio dizer que os juizes foram “enemies of the people” por terem decidido contra a vontade popular expressa no referendo, enquanto outros jornais destacam a fotografia de Gina Miller que se tornou uma figura nacional ao defender que o poder democrático está no Parlamento. O governo de Theresa May já anunciou que vai contestar a decisão judicial, mas o facto é que renasceu a polémica em torno do Brexit. E já agora é caso para perguntar qual o jornal português que teria coragem para chamar "inimigos do povo" aos nossos juízes?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A batalha de Mossul já chegou à cidade

De acordo com a generalidade das notícias que estão a ser difundidas no ocidente, a batalha por Mossul intensifica-se e, ao mesmo tempo, também aumentam as preocupações quanto ao que pode acontecer ao milhão de residentes que vivem naquela cidade, que é a terceira maior cidade do Iraque. Ocupada pelo Daesh desde Junho de 2014, foi aí que Abu Bakr al-Baghdadi instalou o seu quartel-general e, portanto, o seu valor estratégico é muito importante.
Na passada terça-feira foi anunciado que as forças iraquianas entraram em Mossul ou em alguns dos seus bairros periféricos, um facto que tem um importante efeito simbólico. Muitos jornais europeus têm reproduzido fotografias das tropas iraquianas e dos peshmergas curdos na sua vitoriosa aproximação à cidade, mas também de elementos que têm conseguido fugir da cidade, como mostra a expressiva fotografia publicada pelo diário espanhol ABC.
Segundo os serviços de informação militares, crê-se que Abu Bakr al-Baghdadi esteja em Mossul e que tem instruido os seus combatentes para resistirem e para não cederem à tentação de retirar para o deserto. Além disso crê-se, também, que tem havido muitas execuções indiscriminadas, que estão preparadas muitas acções suicidas e que a população vai ser utilizada como escudo humano.
Há notícias que referem que a queda de Mossul pode estar por poucos dias e há notícias que afirmam que a batalha por Mossul será longa e dura. O que vai certamente acontecer é o sofrimento de milhares de pessoas indefesas e inocentes e um grave problema humanitário.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Lutero e o Papa Francisco: a mesma luta?

O Papa Francisco esteve na Suécia no início desta semana para comemorar Martinho Lutero, mas sobretudo para dar o seu contributo para ultrapassar a secular divisão entre as duas grandes igrejas da Cristandade, quando estão a ser celebrados cinco séculos da Reforma luterana, que é o tema destacado na capa da última edição da revista Der Spiegel.
O Cristianismo não é uma religião homogénea e, ao longo de dois mil anos, gerou três ramos principais, com muitas diferenças, mas também com muitas afinidades. Hoje, haverá cerca de 2,25 mil milhões de cristãos no mundo, sendo 1.100 milhões de católicos (50%), 900 milhões de protestantes (40%) e 260 milhões de ortodoxos (10%). No caso do Protestantismo, o movimento iniciou-se na Europa Central no início do século XVI por iniciativa de Martinho Lutero, como reacção às doutrinas e práticas da Igreja Apostólica Romana.
Lutero foi um monge agostiniano alemão que questionou os poderes do seu tempo e desestabilizou o mundo medieval, ao contestar tanto o Papa como o Imperador romano que eram os mais poderosos seres do planeta. Nas questões de fé, Lutero não aceitava a subordinação àqueles poderes, mas apenas ao poder da própria consciência, colocando em dúvida a infalibilidade do Papa e recusando-se a obedecer ao soberano mais poderoso da Europa. Portanto, ele não foi um divisor da Igreja como foi considerado por muita gente, mas um rebelde conservador que apenas queria a reforma da própria Igreja e o retorno às origens do Cristianismo.
Por tudo isto, não surpreendente este gesto de aproximação do Papa Francisco a Martinho Lutero, sobretudo depois de já ter visitado sinagogas e mantido encontros com representantes de religiões muito diferentes de todo o mundo. De resto, muitos dos vícios que Lutero condenou nas práticas do catolicismo são idênticos aos que o Papa Francisco vem condenando. Talvez não estejam muito longe um do outro e hoje, certamente, o Papa não excomungaria Martinho Lutero como fez o Papa Leão X em 1521.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

As modernas cidades da milenar India

Narendra Modi, o Primeiro-Ministro da Índia, visita hoje a cidade de Naya Raipur, a nova capital do Estado de Chhattisgarh na Índia Central, tendo o governo local decidido dar-lhe as boas vindas através de um anúncio que ocupa toda a primeira página da edição do Hindustan Times.
Por vezes, os jornais indianos parecem ser uma simples plataforma publicitária e não um veículo de notícias, tal a frequência com que vendem as suas primeiras páginas a todo o tipo de anúncios e anunciantes, incluindo mensagens de boas vindas, campanhas eleitorais, felicitações a personalidades, promoção de automóveis, de telemóveis e de imobiliário, serviços financeiros e outros produtos e serviços. Nesse sentido, o facto de um jornal destacar na sua primeira página um anúncio-mensagem de boas vindas a Narendra Modi é um acontecimento normal na Índia, mas que seria uma anormalidade no ocidente.
A milenar Índia é um país de contrastes únicos, muitos dos quais chegam a ser chocantes para os ocidentais, mas tem feito um grande esforço para se modernizar e para melhorar as condições de vida da sua população. O desafio é gigantesco e levará várias gerações para ser resolvido, mas essa melhoria já é hoje visível em algumas regiões e em alguns sectores económicos, tecnológicos e culturais. Foi nesse quadro de modernização que algumas cidades foram construídas de raiz e que hoje constituem as “brasílias da Índia”, vocacionadas para a centralização da modernidade e da tecnologia,  através das universidades, dos hospitais, dos transportes e das novas indústrias. Uma dessas cidades é Naya Raipur que é a capital do Estado de Chhattisgarh e que a publicidade diz ser a “India’s first modern and green capital of 21st century” e uma “Land of infinite opportunities”. É nessa nova cidade que o Primeiro-Ministro Narendra Modi inaugurará hoje novas infraestruturas.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A quebra no turismo inquieta a França

A França foi o primeiro destino turístico mundial em 2015 com 84,5 milhões de visitantes mas, depois dos atentados de Novembro de 2015 em Paris e de Julho de 2016 em Nice, o movimento turístico entrou num processo de regressão sem precedentes, com uma quebra global de visitantes estimada em 7%. O diário Libération analisa hoje com muito detalhe o sector turístico francês, que é habitualmente considerado um valor muito seguro da economia francesa com os seus dois milhões de empregos e um volume de negócios anual da ordem dos 170 mil milhões de euros – praticamente igual ao PIB português. O jornal classifica a situação do sector turístico como inquietante e em “estado de urgência”, a necessitar de ser reinventado para resistir aos tempos difíceis que atravessa.
Geograficamente o choque tem sido mais severo nas regiões da Île-de-France e da Côte d’Azur, que são os dois pilares do turismo francês e que concentram metade da actividade do sector, sendo exactamente os locais onde o terrorismo actuou.
Qualquer estatística de turismo que se analise é inquietante. No primeiro semestre de 2016 o número de turistas japoneses diminuiu 46% na região de Paris (Île-de-France), mas também o número de visitantes chineses e russos endinheirados diminuiu na mesma proporção. O Museu do Louvre que é o museu mais visitado do mundo com cerca de 9 milhões de visitantes por ano, dos quais cerca de 75% são estrangeiros, perdeu 20% de visitas no 1º semestre de 2016. No inquérito promovido pelo Libération junto de hotéis, restaurantes, galerias de arte, boutiques, bares, grandes armazéns e casas da moda, entre outras actividades de referência parisiense, verifica-se que a quebra dos seus chiffres d’affaires se situa por vezes na ordem dos 50%.
Como consequência desta situação economicamente muito inquietante para os franceses, estão os portugueses a tirar partido do turismo como nunca se vira e, quem sabe se, como diz o povo, não estão a dar um passo maior que a perna.

sábado, 29 de outubro de 2016

Um abraço português para o povo de Cuba

No dia 26 de Outubro a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma Resolução que pede o fim do embargo económico a Cuba, com 191 votos a favor, nenhum voto contra e duas abstenções (Estados Unidos e Israel). Foi um grande acontecimento político para Cuba e para o mundo, pois foi a 25ª vez consecutiva que foi analisada uma Resolução com igual conteúdo, o que significa que a questão do fim do embargo a Cuba já era assunto velho e que a teimosia americana anti-castrista já não se justificava.
Curiosamente ou não, no mesmo dia chegava a Cuba o Presidente da República Portuguesa para uma visita oficial e, embora com destaques bem diferentes, esses dois acontecimentos são destacados pelo Granma, o “órgano oficial del Comité Central del Partido Comunista de Cuba”.
Granma é o nome do pequeno iate que em 1956 transportou Fidel de Castro e os seus companheiros desde o México até às praias do sopé da Sierra Maestra, de onde foi iniciada a caminhada revolucionária até Havana, que veio a ser ocupada no dia 2 de Janeiro de 1959 pelas forças de Che Guevara e de Camilo Cienfuegos. É, por isso, um nome cheio de simbolismo para a revolução cubana, que durante muitos anos desafiou a América Latina e, em certa medida, os próprios Estados Unidos. Porém, as mudanças acontecidas no mundo também influenciaram o regime cubano e, aos poucos, o país caminha para a Democracia.
Com esta visita a Cuba o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa voltou a mostrar a sua sensibilidade cultural e o sua compreensão do processo histórico cubano, em absoluto contraste com o seu antecessor. Esteve em Cuba sem receio de apanhar caspa ou contrair qualquer constipação, esteve com Fidel de Castro mais de uma hora, teve conversações com Raúl de Castro, proferiu uma conferência na Universidade de Havana, recebeu a comunidade lusófona na Embaixada de Portugal, inaugurou exposições e participou em fóruns empresariais. Levou Cultura e Economia na bagagem, mas também levou consigo a Política de apaziguamento, o não seguidismo em relação aos interesses americanos e, quem sabe, se não levou também algum sentimento emocional por se encontrar face a face com alguns dos símbolos das lutas que tanto entusiasmaram a sua geração por todo o mundo e que se traduziram na utopia guevarista. Mais uma chapelada a Marcelo Rebelo de Sousa!

Na linha da frente contra o Daesh

A revista mensal francesa L’Histoire dedica o seu último número aos curdos – mil anos sem Estado - e centra a sua análise num povo que tem uma identidade, uma língua, uma literatura e uma história, que ocupa um território muito extenso mas pouco definido, mas que não tem o seu próprio Estado. O Curdistão é a maior nação do mundo sem Estado e os cerca de 30 milhões de curdos distribuem-se pela Síria, Iraque, Irão e Turquia. Depois da 1ª Guerra Mundial e da derrota do Império Otomano os territórios do Médio Oriente dominados pelo sultão turco foram divididos, surgindo novos países como a Síria, o Líbano e a Palestina, mas os vencedores da guerra terão hesitado na criação de mais um país soberano e não criaram um Estado curdo.
Porém, a ambição de serem independentes nunca abandonou os curdos e ao longo de muitos anos têm desenvolvido grandes lutas para atingir esse objectivo, apesar da repressão de que têm sido vítimas, sobretudo pelo regime iraquiano de Sadam Hussein e, mais recentemente, pelo regime turco de Recep Tayyip Erdoğan. Nos tempos conturbados que afectam a região,  os curdos têm sido os principais adversários do Daesh no terreno, através da acção do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e das Unidades de Defesa do Povo (YPG) constituídas pelos peshmerga – os combatentes curdos que enfrentam a morte. Os peshmerga constituem as forças armadas do Curdistão, existem desde a queda do Império Otomano, incluem mulheres nas suas fileiras e são a expressão militar dos sentimentos independentistas curdos. Têm estado na linha da frente na luta contra o Daesh, como se verificou na defesa da cidade fronteiriça de Kobani, defendida sobretudo pelas Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) e como se verifica hoje no assalto a Mossul. A revista L’Histoire reconhece a importância e o valor dos peshmerga ao referir que “la bataille de Mossoul a commencé lundi 17 octobre quand les forces kurdes ont attaqué la ville irakienne fief de l’état islamique.
Certamente que, quando a chamada guerra da Síria terminar, a comunidade internacional não deixará de reconhecer o povo curdo como soberano e o Curdistão como um Estado.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Reformados europeus escolhem Portugal

La Voix du Nord, o diário de Lille que foi fundado em 1941 pela clandestina Resistência francesa e que na actualidade tem grande difusão nacional, destaca hoje uma reportagem com um sugestivo título em português:
Bem-vindo a Portugal”.
Segundo o jornal, Portugal é o novo destino favorito dos reformados franceses devido a factores diversos como a proximidade geográfica, a amenidade do clima, as facilidades fiscais, a segurança no espaço público, o atraente custo de vida, a cultura e a gastronomia, o preço do imobiliário e, até, a cordialidade e simpatia dos portugueses, bem como a sua facilidade de integração nas comunidades locais. Atraidos por estas condições e pela possibilidade de terem uma reforma tranquila ao sol, mas estimulados também pela promessa de um regime fiscal vantajoso, depois de 2013 mais de 25 mil franceses instalaram-se em Portugal.
Portugal tornou-se o destino privilegiado dos reformados franceses e um estudo recentementre revelado sobre os seus destinos preferidos, colocam Portugal à frente da Tailândia, Marrocos, Maurícias, Espanha, Bali, República Dominicana, Tunísia, Senegal e Brasil. Nesse estudo, Portugal e especialmente o Algarve, são classificados como a “Califórnia europeia”.
Porém, as facilidades fiscais para estes franceses “não residentes habituais” implicam uma permanência mínima de 183 dias no país, ou seja, que Portugal se torne a sua “residência principal”. Quando hoje, em muitas regiões do país, designadamente no Oeste ou nos Açores, se entra num restaurante ou num supermercado, é cada vez mais frequente encontrar reformados franceses, mas também de outros países europeus a consumir produtos e serviços portugueses e, por essa via, a ajudar o crescimento e o emprego no nosso país. Como diz hoje o jornal de Lille, que sejam bem-vindos!