quarta-feira, 1 de maio de 2019

A incerteza e o caos na Venezuela

Ontem em Caracas, às primeiras horas da madrugada, um grupo de oposicionistas ao governo de Nicolas Maduro, sob a liderança do autoproclamado presidente Juan Guaidó, fez uma proclamação anunciando o início da Operação Liberdade, destinada a acabar com o regime chavista. Antes, Juan Guaidó e os seus apoiantes mais próximos tinham libertado Leopoldo López, considerado o verdadeiro líder da oposição venezuelana, que cumpria uma pena de prisão domiciliária.
Quem viu a mensagem transmitida por Juan Guaidó deve ter ficado perplexo, pois a cena tinha todo o aspecto de uma encenação mal preparada, com alguns elementos disfarçados de soldados e sem o anúncio de qualquer novidade mobilizadora do povo que, nestas coisas, gosta de ver soldados e marinheiros, autometralhoras, aviões no ar e helicópteros em movimento e, sobretudo, uma mão cheia de decididos salgueirosmaias.
 Contrariamente ao que acontece nas revoluções triunfantes, não houve uma tomada da Bastilha, nem uma revolta da guarnição de um qualquer couraçado Potemkin, nem tão pouco a ocupação de um qualquer Radio Clube Português ou o cerco a um qualquer Quartel do Carmo. Juan Guaidó confiou nessa arma que é o feicebuque, perdeu mais uma vez e limitou-se a chamar os seus apoiantes à rua, confiando na sua popularidade e convencendo-se, uma vez mais, que a queda de Maduro eram favas contadas.
A sua iniciativa foi chamada de golpe de estado, mas mais parece ter sido um golpe de comunicação impulsionado pelas redes sociais, pelos tweets e pelas fake news, que criaram muitas notícias fantasiosas e mentirosas, como a fuga de Maduro para a Rússia, a ocupação da base de La Carlota ou o apoio do general José Ferreira, que algumas declarações de responsáveis americanos mais desacreditaram. Foi um tiro de pólvora seca. Tudo parece ter-se resumido a um carro blindado, cujo condutor não resistiu à pressão e avançou sobre um grupo de manifestantes. É muito pouco para atirar abaixo o regime do Maduro, apesar da Venezuela continuar muito dividida.
Como hoje escreve o jornal colombiano Vanguardia, há incerteza e caos na Venezuela, mas Juan Guaidó parece já ter perdido mais uma batalha e ter tido apenas o mérito de acordar o país e o mundo do adormecimento em que a Venezuela tinha caído. Por isso, deixem-se destas brincadeiras, conversem e preparem eleições.

A nova febre (perigosa) das trotinetes

No Brasil chamam-lhe patinetes e tornaram-se uma verdadeira febre no Rio de Janeiro, conforme noticia o jornal O Globo, que acrescenta que estão a ser alimentadas novas estatísticas de acidentes, sobretudo nos fins de semana e nos feriados. Tem aumentado o número de acidentados que recorrem aos hospitais para o tratamento de fracturas e também já há muitos detidos por utilizarem as patinetes para roubar os transeuntes.
Aqui chamam-se trotinetes e essa febre também já assentou arraiais em Lisboa onde, nesta altura, há exactamente nove empresas - Lime, Bungo, Hive, Iomo, Voi, Tier, Flash, Wind e Bird – que exploram este negócio que, certamente, é muito lucrativo.
Todos os dias, entre as 7 e as 21 horas, os residentes e os visitantes de Lisboa com mais de 18 anos de idade podem encontrar e usar uma trotinete através de uma aplicação do seu telemóvel e é evidente que as trotinetes ajudam a cidade a reduzir o congestionamento de tráfego e as emissões de carbono, além de facilitarem a vida das pessoas.
Porém, parece não haver regras na utilização das trotinetes, porque embora ela se enquadre no Código da Estrada, a autoridades policiais não parecem estar a actuar na sua fiscalização de forma consistente. As trotinetes circulam por toda a parte e em todas as direcções, tendo-se tornado um perigo para os peões e para os automóveis e, tal como no Rio de Janeiro, também estarão a alimentar as estatísticas dos acidentes no espaço público urbano. São abandonadas pelos cantos da cidade e, lamentavelmente, não tardará que apareçam notícias de corridas de trotinetes pelas ruas e ruelas da cidade, nem de acidentes graves. A observação dos comportamentes dos trotineteiros não me permite outra previsão.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O voto da Espanha e a incerteza do futuro

As eleições legislativas espanholas realizaram-se ontem e tiveram uma participação de quase 76%, a demonstrar o enorme interesse que despertaram. A vitória sorriu ao PSOE de Pedro Sánchez (28,8%), que quebrou um ciclo de onze anos a perder eleições legislativas e viu a sua representação parlamentar passar de 85 para 123 deputados, enquanto o grande derrotado foi o PP de Pablo Casado que passou de 137 para 66 deputados. Apesar deste resultado, o PSOE não tem maioria para governar e vai ter que negociar com os outros partidos.
Parece que se desenham duas hipóteses de coligação, que necessita de 176 deputados para se constituir como uma maioria estável: a primeira seria uma coligação entre o PSOE (123 deputados) com os Ciudadanos de Alberto Rivera (57 deputados), o que daria uma maioria de 180 deputados; a segunda hipotese seria uma coligação do PSOE com os Unidos Podemos de Pablo Iglésias (42 deputados), o que daria um total de 165 deputados. Esse número seria insuficiente para se afirmar como uma maioria e, nesse caso, o PSOE precisaria do apoio adicional de mais 11 dos 38 deputados que representam os oito menores partidos. Os analistas ainda não descartaram totalmente a possibilidade de uma eventual coligação pós-eleitoral entre o PSOE e o Ciudadanos, apesar dos dois partidos terem, antes das eleições, repetido que não se iriam aliar, preferindo associar-se a movimentos dentro do seu próprio bloco político, um de esquerda e o outro de direita.
A Espanha está politicamente fragmentada e o seu futuro é incerto e, como novidade, houve o aparecimento do Vox que representa a extrema-direita franquista que conseguiu 24 deputados.
Agora resta-nos esperar que Pedro Sánchez tenha êxito na formação de uma maioria que garanta a estabilidade da Espanha, o que será muito bom para Portugal.

sábado, 27 de abril de 2019

As piruetas e as ambições de um ex-juiz

Edição de 7 de Novembro de 2018 da revista Veja
Sérgio Moro é o Ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil desde o dia 1 de Janeiro de 2019 e veio a Portugal, um país onde todos os brasileiros são benvindos por circunstâncias históricas, culturais e emocionais.
A visita deste ex-juiz não teve grande repercussão na comunicação social portuguesa até ao dia em que um ex-primeiro-ministro português o acusou de ser medíocre, ser indigno e ser um activista político disfarçado de juiz, ao que o ministro respondeu com uma recusa “em debater com criminosos”.
A partir daí, os espaços de debate televisivo portugueses pegaram no tema e surgiu uma quase unanimidade na condenação das palavras de Sérgio Moro, que cometeu três erros graves:
- Como juiz porque chamou criminoso a alguém que ainda não foi acusado, nem julgado, nem condenado e, por isso, é inocente até prova em contrário.
- Como ministro porque comentou assuntos do foro interno da justiça portuguesa e, ainda por cima, quando se encontrava em território português.
- Como cidadão porque cometeu uma enorme falta de cortesia para com todos os portugueses ao insultar um cidadão português que ainda nem foi acusado e que apenas foi “condenado” por alguns jornais sensacionalistas que vivem dos escândalos.
Sérgio Moro revelou-se, portanto, um homem arrogante, impreparado e de uma chocante vulgaridade. O Brasil merecia muito mais. Foi ele que condenou o Presidente Lula da Silva e que o impediu de se bater com Bolsonaro. É um oportunista que envergonha o Brasil. De resto, a revista Veja já em 7 de Novembro de 2018 tratava Sérgio Moro como o homem da pirueta, isto é, o homem que depois de ter feito um grande servicinho como juiz, aceitou a recompensa de ser ministro e aparece agora cheio de ambição política. Sim, o Brasil merece melhor.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A necessária evocação do 25 de Abril

Perfazem-se hoje 45 anos sobre “a madrugada que eu esperava” ou “o dia inicial inteiro e limpo”, como assinalam as inspiradas palavras de Sophia de Mello Breyner a propósito do dia 25 de Abril de 1974. Foi um dia memorável que saltou para as páginas da História e se tornou um referencial para muitos povos e para diferentes gerações que aspiravam pela liberdade.
Portugal e os portugueses, mas também os povos dos territórios coloniais então designados por províncias ultramarinas, estavam desde 1926 sujeitos a um regime autoritário, intolerante e repressivo, hostilizado pela comunidade internacional e incapaz de se renovar ou de compreender os ventos da História. Em 1974, após quase meio século de ditadura, eram chocantes os índices de obscurantismo e de subdesenvolvimento do país, havia medos e ameaças que nos cercavam por toda a parte e que moldavam as nossas mentalidades e instalara-se o cansaço por uma guerra dolorosa e sem sentido. O país ansiava por mudança e, no dia 25 de Abril de 1974, um grupo de militares organizado em torno do Movimento das Forças Armadas iniciou o desafio e a missão histórica de abrir as portas à democratização, à descolonização e ao desenvolvimento por que o povo ansiava. Não foram necessários tiros e o movimento que teve imediato apoio popular, tornou-se triunfante em poucas horas. O país transformou-se desde esse dia e a Europa e o mundo rejubilaram com o fim da “mais velha ditadura da Europa”. A partir de então, com a democratização e a descolonização, Portugal retomou o seu lugar no concerto das nações.
Hoje perfazem-se 45 anos sobre esse dia de libertação e de esperança que o jornal Público assinala. Viva o 25 de Abril!

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O terrorismo regressou ao Sri Lanka

O Sri Lanka é uma ilha situada no sul do subcontinente indiano, mas também é um país com 65 mil km2 e 21 milhões de habitantes. Adquiriu a independência da Grã-Bretanha em 1948 mas, entre 1983 e 2009, veio a defrontar-se com uma violenta guerra civil que durou 26 anos e em que se envolveram o governo e os Tigres de Libertação do Eelam Tamil (LTTE), que lutou pela criação de um estado independente designado por Tamil Eelam, cujo território se localizava a norte e a leste da ilha. A guerra civil terminou com a vitória das tropas do general Sarath Fonseka. O país cuja população é budista (70%), hindu (13%), islamita (9%) e católica (8%), é favorecido por singulares belezas  naturais e parecia ter entrado numa via de paz e de progresso.
Porém, ontem, que era Domingo de Páscoa, verificaram-se oito explosões em hotéis de luxo e igrejas católicas localizadas em Colombo, Negumbo e Batticaloa, aparentemente provocadas por bombistas suicidas, que causaram pelo menos 290 mortos e 500 feridos.
Os ataques ainda não foram reivindicados e as autoridades cingalesas estão a ser muito prudentes nas suas investigações sobre o apuramento da verdade. Os comentadores portugueses trataram de apontar a autoria destes atentados para grupos jihadistas, eventualmente regressados do Médio-Oriente, embora os ataques tivessem sido condenados pelo Muslim Council of Sri Lanka. Porém, não se pode excluir que se esteja perante uma reaparição do LTTE, cerca de dez anos depois da sua derrota militar, até porque os alvos escolhidos e o método de ataque utilizado parecem ser os seus.  
A imprensa mundial noticia e condena estes bárbaros ataques. O jornal britânico The Guardian dedica toda a sua primeira página ao Sri Lanka e insere uma reportagem assinada por Amantha Perera, a sua correspondente em Colombo, em que são destacadas em caixa as declarações do ministro Harsha de Silva. Estes apelidos - Fonseka, Perera e Silva - revelam como foi grande a influência portuguesa naquele país da Ásia do Sul.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

O fim das boas viagens da Jet Airways

Jet Airways, que é uma das principais companhias aéreas indianas, suspendeu ontem todos os seus voos domésticos e internacionais devido a problemas financeiros, depois de não ter conseguido crédito para o pagamento do combustível e de outros serviços necessários à sua actividade operacional. No comunicado ontem emitido pela empresa é anunciado que a suspensão das operações de voo é temporária, mas poucos acreditarão nessa declaração, sobretudo os seus cerca de 20 mil funcionários onde se incluem mais de mil pilotos, que estarão há vários meses sem receber salários. A notícia da suspensão da actividade operacional da Jet Airways foi publicada por toda a imprensa indiana, incluindo o jornal Divya Bhaskar (દિવ્ય ભાસ્કર) que usa a indecifrável língua gujarati e se publica na cidade de Ahmadabad, que deu destaque de primeira página a essa notícia.
A Jet Airways é uma das grandes companhias aéreas da Índia e tem a sua sede em Mumbai, a antiga Bombaim, tendo sido fundada em 1992 por um milionário indiano. Dispõe actualmente de uma frota de 99 unidades, incluindo 67 Boeing 737 e onze modernos Boeing 777-300ER, que voam para 71 destinos internos e internacionais, incluindo Nova Iorque, Londres e Hong Kong.
Porém, parece que existe uma maldição que leva as companhias aéreas indianas à falência, pois a Jet Airways junta-se a algumas dezenas de companhias que não têm resistido à concorrência ou à má gestão, recordando-me da East-West Airlines, da Gujarat Airlines, da Indian Airlines, da Spice Jet Air, da Sahara Airlines e da Kingfisher Airlines, em que eu próprio voei algumas vezes, entre muitas outras que faliram. Agora com o encerramento da Jet Airways acabou-se aquela que eu sempre escolhia como a melhor companhia que me levava da Europa para a India e da Índia para a Europa, que me proporcionou sempre melhores voos do que aqueles que me foram servidos pela Lufthansa, pela British Airways, pela Swissair, pela Air France ou pela KLM.

A maior democracia do mundo vai a votos

A República da Índia é a maior democracia do mundo, constituindo um estado federal composto por 28 estados autónomos e sete Union Territories, sendo também a sétima maior economia mundial em termos de produto interno bruto nominal e o segundo país mais populoso do mundo.
Este ano a República da Índia realiza eleições gerais para o Lok Sabha, o parlamento nacional indiano que funciona em Nova Delhi, nas quais participarão cerca de 900 milhões de eleitores, incluindo cerca de 15 milhões que têm 18 ou 19 anos de idade, que vão escolher os 543 deputados nacionais. Significa que, depois, serão necessários 272 deputados para formar uma maioria de um partido ou coligação que escolherá o primeiro-ministro.
O processo eleitoral é muito complexo e, por exemplo em 2014 apresentaram-se ao sufrágio 8250 candidatos representando 464 partidos! As votações nos diferentes estados decorrem durante sete semanas e alguns estados já votaram no passado dia 11 de Abril, enquanto os outros estados votarão em outros dias até ao dia 19 de Maio, sendo os resultados finais anunciados no dia 23 de Maio. 
O Bharatiya Janata Party (BJP) e o Indian National Congress (INC) são as duas principais formações políticas entre as centenas de partidos que se apresentam nas eleições, mas de facto os eleitores vão escolher entre a recondução do actual primeiro-ministro Narendra Modi (BJP) e a eleição do seu principal oponente Rahul Gandhi (INC), o bisneto de Nehru e neto de Indira Gandhi que transporta consigo a tradição da família Nehru. Narendra Modi está no poder e representa o ultra-nacionalismo hindu, enquanto Rahul Gandhi representa a social-democracia e o secularismo religioso. Apesar de ter o favoritismo, Modi tem apelado ao voto com anúncios na primeira página dos principais jornais indianos, nomeadamente no Deccan Chronicle de Bangalore, onde refere o seu slogan de campanha eleitoral - a leadership that performs, reforms and transforms.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

As boas relações entre Portugal e Angola

Durante muitos anos, apesar da especial ligação histórica e de amizade entre os seus povos, as relações entre os governos de Portugal e de Angola foram tensas.
Porém, tudo parece ter entrado na normalidade das relações Estado a Estado e estão a viver-se tempos muito esperançosos com o aparecimento de novos protagonistas políticos que “enterraram o machado de guerra” e que estão a promover a desejada relação de amizade e de cooperação, que todos reconhecem ser de comum interesse para os dois países e para os seus povos. Primeiro foi a visita de António Costa a Angola (Setembro de 2018), a seguir foi a visita de João Lourenço a Portugal (Novembro de 2018) e, depois, foi a visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola (Março de 2019). Agora, quando a ministra da Justiça Francisca Van-Dúnem se desloca a Angola, essa visita não é mais que uma situação de rotina, a mostrar que as relações entre Portugal e Angola se estão a desenvolver com normalidade, na base de uma cooperação harmónica e frutuosa, como tanto desejam os angolanos e os portugueses. Por isso, a edição de hoje do Jornal de Angola destaca essa visita na sua primeira página.
Evidentemente que é a economia que tende a prevalecer nas relações entre os dois países mas, tanto em Luanda como em Lisboa, ninguém pode esquecer a importância do reforço dos laços afectivos que sempre existiram, inclusive no tempo colonial, derivados das afinidades culturais e do conhecimento mútuo entre os dois países, de uma história partilhada de bons e de maus episódios e, sobretudo, pela sua língua comum.
O futuro está realmente a construir-se “com grande articulação e harmonia”, como salientou em Luanda a ministra Francisca Van-Dúnem.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre Dame em Paris: tragédia em directo

Um violento incêndio deflagrou ontem ao fim da tarde e consumiu grande parte da Notre Dame, a catedral de Paris, pensando-se ter sido acidental e estar relacionado com os trabalhos de reabilitação do edifício que estavam em curso.
A Notre Dame é um dos mais visitados monumentos da Europa e demorou quase dois séculos a ser construída, entre os anos de 1163 e 1345. É, juntamente com a torre Eiffel, um ex-libris da cidade-luz e as imagens da tragédia emocionaram os franceses e o mundo.
O incêndio lavrou por várias horas, foi seguido em directo nas televisões mundiais e teve o seu ponto mais dramático quando ruiu o pináculo da torre central. Uma das torres do edifício colapsou e o tecto também sucumbiu. Sabe-se que uma parte das estátuas no exterior da catedral que rodeavam o pináculo, foram poupadas por terem sido retiradas há quatro dias para serem restauradas. De resto, os principais tesouros religiosos também tinham sido retirados devido às obras de reabilitação do edifício.
Houve quem tivesse sugerido um combate ao incêndio com meios aéreos, mas o lançamento de toneladas de água a grande velocidade iria contribuir para a integral derrocada do edifício.
As primeiras páginas dos jornais franceses e de muitos outros países assinalam a noite trágica em Paris, onde as palavras tragédia, inferno e desastre são usadas para definir os nove séculos de história que o fogo consumiu. Porém as palavras de Emmanuel Macron foram firmes e uniram a França na ambição de reconstruir a Notre Dame, para o que já se iniciou uma recolha de fundos. Ontem, ao fim de tantos anos, um dos símbolos de Paris esteve a arder, parecendo cumprir-se a vontade de Adolfo Hitler.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

A indiferença face à coesão territorial

Entre os principais problemas portugueses estão as assimetrias regionais que continuam a agravar-se, embora também haja casos em que houve uma real inversão dessa situação devido à localização de novas actividades criadoras de emprego, mas também por fixação de polos universitários e politécnicos que atraíram estudantes ou, até, por alterações da base económica das regiões.
Para o agravamento das assimetrias regionais e para a desertificação de muitas regiões do interior, têm contribuido duas instituições – CGD e CTT – que parecem viver numa indiferença pela coesão territorial e praticam uma lógica empresarial de rentabilidade financeira e se alheiam da rentabilidade social. Ora, na perspectiva das modernas sociedades democráticas, as actividades empresariais, públicas ou privadas, devem regular-se tanto rentabilidade financeira como pela rentabilidade social. Esse tem que ser um imperativo de todos, porque só faz sentido haver empresas quando satisfazem uma necessidade e quando servem as populações, o que não parece ser a atitude da CGD e dos CTT, que apenas querem ganhar dinheiro. Acontece que, segundo hoje divulgou o Jornal de Notícias, no ano de 2018 a CGD fechou 65 das suas agências bancárias, enquanto no mesmo ano os CTT encerraram 70 estações dos correios. Daí resultou que, pelo menos em 12 concelhos, tanto a CGD como os CTT deixaram de existir, havendo 33 concelhos onde já não existe qualquer estação dos correios.
Assim, podem ser gastos milhões na construção de infraestruturas ou no apoio às iniciativas empresariais, mas na primeira linha do abandono, do desinteresse e da indiferença pela coesão territorial estão as políticas da CGD e dos CTT, que afectam directamente as necessidades das populações. Parece que todos se esquecem do artigo 66º da Constituição que diz que incumbe ao Estado "ordenar e promover o desenvolvimento do território, tendo em vista uma correcta localização das actividades, um equilibrado desenvolvimento socioeconómico e paisagens biologicamente equilibradas".

Cerimónias da Semana Santa em Espanha

Iniciaram-se ontem em todo o mundo católico as cerimónias da Semana Santa que têm uma especial celebração por toda a Espanha. A Semana Santa é uma tradição religiosa católica que decorre entre o Domingo de Ramos e o Domingo de Páscoa, isto é, entre a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a sua crucificação na sexta-feira santa e a sua ressureição que acontece no domingo.
É uma celebração eminentemente religiosa, mas também é um atraente cartaz turístico, sobretudo em Espanha, onde atrai muita gente, mesmo os não católicos, para assistirem às procissões que percorrem as ruas das cidades e vilas, com muitos devotos que transportam os andores com as imagens mais veneradas, os pálios sustentados por varas que cobrem os representantes da Igreja local e outros dignitários, as inúmeras confrarias com os seus exuberantes trajos, as associações com os seus estandartes e o povo aos milhares, que acompanha o cortejo sincronizado pela música mais ou menos sacra dos agrupamentos musicais que nele se incorporam.
Porém, para além das procissões, a Semana Santa inclui muitos outros rituais religiosos que, por si só, despertam o interesse dos fiéis e dos não fiéis.
Hoje, toda a imprensa espanhola dá um grande destaque ao início da Semana Santa que parece ter a sua maior celebração em Sevilha, mas para ilustrar este acontecimento escolhemos a capa do Diario Palentino que se publica na cidade de Palência, na província do mesmo nome, na comunidade autónoma de Castela e Leão.

sábado, 13 de abril de 2019

Bombas que não explodiram nas guerras

A edição de hoje do Diari de Tarragona, publicado naquela cidade catalã, destaca que “cada cinco dias desactivan una bomba de la Guerra Civil”.
A guerra civil espanhola terminou no dia 1 de Abril de 1939, depois das tropas do general Franco terem entrado em Madrid, o que significa que já passaram 80 anos e, por isso, a notícia hoje divulgada causa alguma admiração até porque também informa que, desde 1985, já foram desactivados 2194 engenhos explosivos na província de Tarragona. Porém, haverá milhares de bombas e outros engenhos explosivos ainda escondidos, sobretudo naregião de Madrid, na Catalunha e no País Basco.
Na Alemanha ocorre uma situação semelhante, estimando-se que haverá cem mil bombas aliadas por explodir, mas também minas anti-tanque, granadas de mão, obuses e munições de artilharia russas. Cada ano são descobertas e desactivadas cerca de duas mil toneladas de bombas e, só na cidade de Berlim, já foram encontradas cerca de sete mil bombas, havendo naturalmente muitas mais por descobrir.
Embora eem menor escala, também na Inglaterra vão sendo descobertas e desactivadas algumas bombas da 2ª Guerra Mundial, tal como em França onde, há menos de dois meses foi encontrada no bairro de la Chappele, em Paris, uma bomba americana de algumas centenas de quilogramas, tendo a sua desactivação obrigado a que cerca de 1800 pessoas tivessem de abandonar temporariamente as suas casas.
Passados tantos anos depois do fim destas duas grandes guerras, o número de engenhos explosivos que se vão descobrindo mostra como essas guerras foram violentas e exterminadoras.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Brexit adiado, mas a incerteza continua

Por uns tempos, exactamente por seis meses, vamos deixar de ouvir falar a toda a hora no Brexit, nos ingleses, na Theresa May e no Jeremy Corbyn.
A confusão que se tem vivido no Reino Unido já não tem descrição possível, com uns a quererem sair e outros a não quererem sair da União Europeia, com uns apoiar o acordo feito com Bruxelas e outros a rejeitar esse acordo e outros, ainda, a não querer acordo nenhum. O que se tem passado no Reino Unido é uma catástrofe política pois tornou o país ingovernável, radicalizou posições que dividem a sociedade e já ninguém sabe se dessa situação poderá ou não resultar algum contágio para a União Europeia, que tem estado unida neste imbróglio.
O facto é que a saída do Reino Unido, inicialmente prevista para o dia 29 de Março de 2019, teve que ser adiada e o Conselho Europeu aceitou esse adiamento por alguns dias. Porém, como o Parlamento britânico continuou dividido, os líderes europeus retomaram o assunto e concordaram em adiar a saída do Reino Unido da União Europeia até ao dia 31 de Outubro. Houve propostas para que esse adiamento fosse por um ano, mas acabou por ser aprovado um prazo de cerca de seis meses. Esse período foi considerado suficiente para que os britânicos se entendessem, mas parece ser curto. No entanto, é evidente que eles estão na altura de fazer eleições, de escolher um novo Parlamento e um novo primeiro-ministro e, directa ou indirectamente, saber o que querem os britânicos, isto é, se continuam a querer sair ou se afinal querem ficar, porque agora estão muito mais esclarecidos e terão que pensar que a Escócia e a Irlanda do Norte também podem decidir-se pelo abandono do Reino Unido. O jornal escocês The Herald que se publica em Glasgow e que é um dos mais antigos jornais do mundo, que tem tendências independentistas e defende a permanência do Reino Unido na União Europeia, tratou de mostrar na sua primeira página uma Theresa May de azul e agarrada à bandeira. A insinuação é bem elucidativa das posições escocesas. 
  

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A primeira imagem de um 'buraco negro'

A imprensa mundial, sobretudo europeia e americana, aparece hoje na sua primeira página com a fotografia de um círculo iluminado que diz ser de um 'buraco negro', salientando que é a primeira vez que foi fotografado e que é maior do que todo o sistema solar. A notícia transcreve uma declaração de um cientista que afirmou que “é um momento que ficará para a história da Europa, um dia emocional porque nunca tivemos um momento como este, em que os cientistas europeus mostraram liderança no mundo".
Não percebo nada de astrofísica e, por isso, limito-me a transcrever alguns aspectos relativos a esta notícia que tanto interessou os mass media mundiais.
O buraco negro fotografado encontra-se no centro da supergaláxia Messier 87, a cerca de 55 milhões de anos-luz da Terra e para captar a sua imagem foram necessários oito radiotelescópios espalhados pelo nosso planeta, ligados em rede e localizados no Arizona, Havai, México, Chile, Espanha, Antárctida, França e Gronelândia. A captação da imagem foi possível graças a uma cooperação mundial orçada em 44 milhões de euros, que incluiu fundos europeus e que foi desenvolvida no âmbito do projecto EHT (Event Horizon Telescope) em que participaram cerca de duas centenas de cientistas. Segundo refere o jornal Público, Einstein tinha razão e a sua teoria da Relatividade Geral, apresentada há mais de um século, foi agora confirmada.
E mais não digo, porque destas (e de outras matérias) nada sei.