domingo, 10 de novembro de 2019

Lula regressa para lutar pelo Brasil

Depois de 580 dias na prisão e na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal Federal brasileiro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi libertado da prisão de Curitiba, conforme relata a Folha de S.Paulo.
Embora não conheça os detalhes jurídicos da acusação, do julgamento e da condenação de Lula da Silva, nem as razões que agora ditaram a sua libertação, o caso Lula sempre me despertou interesse, sobretudo porque se trata de um homem cuja presidência, exercida entre 2003 e 2011, prestigiou internacionalmente o Brasil. O seu percurso político e a sua experiência operária e sindical levaram-no à presidência do quinto maior país do mundo (96 vezes maior do que Portugal), desenvolvendo o famoso programa “Fome Zero”, que foi reconhecido pelas Nações Unidas como o mais eficente programa mundial de redução da pobreza, com cerca de 40 milhões de brasileiros a ascenderem a uma nova classe média e com o número de pessoas que passam fome a ser reduzido em 50%. Evidentemente que esta mensagem de sucesso que vingou no exterior, não terá tido o mesmo reconhecimento interno, mas o facto é que os brasileiros se preparavam para levar Lula da Silva de novo à presidência. Porém, as acusações veiculadas e ampliadas pela imprensa, a par dos agentes da Justiça brasileira, travaram a hipótese de Lula da Silva disputar as eleições presidenciais de 2018 e daí resultou a vitória de Jair Bolsonaro, um presidente que não prestigia o seu país.    
À saída da prisão, Lula era esperado por muitos dos seus correligionários e atacou “o lado podre do Estado, da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal”, prometendo que ia lutar pelo Brasil. Os seus adversários não lhe vão dar tréguas para o devolver à prisão, mas a oposição ao actual regime brasileiro ganhou uma maior coesão e uma poderosa bandeira chamada Luiz Inácio Lula da Silva.

sábado, 9 de novembro de 2019

Celebrando a queda do muro de Berlim

Está hoje a comemorar-se, na Alemanha e em outros países, o 30º aniversário da queda do muro de Berlim, um acontecimento que, de forma simbólica, acelerou a reunificação alemã, bem como o fim do sovietismo e da guerra fria.
Depois da 2ª Guerra Mundial a Alemanha e a cidade de Berlim ficaram divididas em quatro sectores de ocupação - soviético, americano, francês e britânico – mas as relações entre as autoridades ocupantes, sobretudo soviéticas e ocidentais, foram geralmente tensas e daí resultaram duas moedas em circulação, dois ideais políticos e, por fim, duas Alemanhas. Em 1949, os três sectores ocidentais (americano, francês e britânico) passaram a constituir a República Federal Alemã (RFA) e o sector oriental (soviético) tornou-se na República Democrática Alemã (RDA). O ambiente político e o desenvolvimento económico das duas Alemanhas eram bem diferentes e, até 1961, calcula-se que quase 3 milhões de pessoas tivessem deixado a RDA em direcção à florescente RFA. Para contrariar esta realidade, em Agosto de 1961 as autoridades de Berlim Oriental decidiram iniciar a construção de um muro de cerca de 4 metros de altura que separava as duas partes da cidade de Berlim e, ao longo dele, uma avenida também conhecida por “faixa da morte”, dotada de sistemas de alarme e pela qual circulavam constantemente veículos policiais. O muro de Berlim tornou-se o ícone da das tensões Leste-Oeste e o símbolo da chamada Guerra Fria.
No dia 9 de Novembro de 1989, sob forte pressão popular, o governo da RDA afirmou que era permitida a passagem para o lado oeste da cidade e milhares de pessoas atravessaram para Berlim Ocidental. A destruição do muro começou então por iniciativa popular. Tinha durado 28 anos e, entre 1961 e 1989, mais de cinco mil pessoas tentaram atravessá-lo. Cerca de uma centena delas morreu quando procurava a liberdade.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Donald Trump e a América em julgamento

As audições relativas ao processo de impeachment que está em curso contra Donald Trump terão início no próximo dia 13 de Novembro e, como hoje refere a revista Time, a América já está concentrada no que se vai passar, porque o que está em causa é algo mais que um qualquer Donald Trump, mas é sobretudo a forma como tem sido governada a própria América.
Num dos artigos publicados pela revista é referida uma obra de referência publicada em 1888 pelo historiador inglês James Bryce intitulada The American Commonwealth, é afirmado que “um presidente ousado que saiba que tem o apoio popular, pode ser tentado a anular a lei e a impor a sua própria lei”, ou que pode acontecer “haver um tirano na presidência, não contra as massas, mas com as massas”. Mais de cem anos depois, segundo o autor do artigo, a profecia cumpre-se.
Os factos contra o Donald parecem acumular-se, não só no que respeita às pressões sobre a Ucrânia para que anunciasse publicamente uma investigação contra Joe Biden, o seu rival na corrida presidencial de 2020, mas também sobre outros assuntos da governação americana. A envolver tudo isto está uma espécie de núvem dos tempos modernos em que alguma comunicação social asfixia as pessoas com demagogia e mentira, com propaganda e notícias falsas, mas também a crescente governação-espectáculo, com os “julgamentos de tabacaria” e a invasão da vida privada dos actores políticos. Portanto, o processo de impeachment contra Donald Trump é, também e sobretudo, um julgamento que põe em causa a própria América e o reality show em que a sua vida política se transformou.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O nervosismo que perturba a Catalunha

Na última semana do passado mês de Setembro um juiz espanhol determinou a prisão de sete independentistas catalães porque, supostamente, planeavam acções violentas que iriam coincidir com o anúncio da sentença do procés. A detenção foi concretizada através da Operación Judas e os detidos pertenceriam às Equipos de Respuesta Táctica (ERT), uma nova organização derivada dos Comités de Defensa de la República (CDR), que activamente lutam pela independência da Catalunha por via violenta. A decisão do juiz baseou-se na acusação de que aqueles indivíduos pertenciam a uma organização terrorista, que possuiam ou preparavam a fabricação de explosivos e que preparavam diversas acções violentas contra esquadras da polícia e até a ocupação do Parlamento.
Passou-se mais de um mês e ontem, a poucos dias das eleições legislativas espanholas, foram divulgados alguns vídeos em que alguns dos detidos confessaram ligações com dirigentes políticos e outros actores do processo independentista, incluindo o presidente Quim Torra e o seu antecessor Carles Puigdemont, insinuando que eles apoiavam a sua mais sonhada acção que era a ocupação do Parlamento catalão durante uma semana. Embora Quim Torra se tivesse apressado a negar aquela acusação e a afirmar que os detidos falaram sob pressão policial, a sua simpatia pelos CDR é do domínio público, até porque neles milita activamente a sua filha. Os jornais espanhóis de referência tratam hoje desse episódio, sobretudo o conservador ABC que lhe dá um destaque de primeira página. Porém, a questão fundamental, para além de uma evidente preocupação pelo aparecimento na Catalunha de qualquer coisa semelhante à ETA, é saber a razão porque esta notícia aparece antes das eleições e que efeito terá no eleitorado. Até parece o nosso “caso Tancos” que, enquanto fake new, tanto perturbou as nosssas eleições legislativas.

A pirâmide invertida nas Forças Armadas

A notícia da edição de hoje do Jornal de Notícias é alarmante mas confirma as suspeitas que existem, desde há alguns anos, de que há cada vez menos praças nas Forças Armadas, designadamente no Exército e na Força Aérea.
Segundo refere a notícia, os efectivos das Forças Armadas são actualmente de 25.845 elementos, tendo havido uma redução de cerca de 25% nos últimos oito anos. No que respeita à classe de praças, no mesmo período, a redução foi superior a 40%. Actualmente o Exército tem 6265 praças, 3881 sargentos e 2976 oficiais, a Força Aérea tem 1930 praças, 2620 sargentos e 1944 oficiais, enquanto a Marinha tem 3714 praças, 2237 sargentos e 1985 oficiais. Esta "situação insustentável", segundo o CEMGFA, resulta sobretudo das opções políticas e dos constrangimentos orçamentais, mas também de uma atitude cultural do poder político.
Destes números pode concluir-se que a organização militar portuguesa tem uma pirâmide hierárquica invertida, certamente por corresponder a uma maior qualificação técnica dos seus elementos para os habilitar a dar resposta à sofisticação dos modernos equipamentos militares, mas também mostra um crescente desinteresse do poder político pelas suas Forças Armadas, provavelmente porque é grande o fosso existente entre os valores sociais dominantes e a cultura militar. A clássica opção apresentada há muitos anos por Paul Samuelson relativamente à utilização de recursos escassos na escolha entre canhões e manteiga, tem plena aplicação no caso português, porque a classe política que ocupa, ou quer ocupar o poder, se sustenta através do voto dos eleitores e estes estão mais interessados em manteiga do que em canhões.   
Porém, o problema da dimensão das Forças Armadas, do recrutamento de pessoal e da retenção dos militares qualificados não é apenas uma questão cultural porque é, sobretudo, uma questão de constrangimentos orçamentais que até é comum à maioria dos países europeus, como tantas vezes tem salientado o Donald. O facto é que o assunto é complexo e não pode deixar de ser estudado por quem saiba, porque assim as coisas não estão bem e, enquanto pilar do Estado democrático, as Forças Armadas têm que ser prestigiadas e dotadas dos meios adequados para cumprir as suas missões.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

África do Sul é a nova campeã do mundo


No passado domingo disputou-se na cidade japonesa de Yokohama a final do Rugby World Cup 2019, no qual triunfou a selecção da República da África do Sul e, naturalmente, a festa foi grande em todo o território nacional e a vitória constituíu um enorme contributo para a coesão nacional de um país marcadamente multiétnico, tal como a sua equipa de râguebi. Toda a imprensa sul-africana, como por exemplo o jornal Beeld que se publica em Johannesburg, deu grande destaque a esta vitória e aos seus “heróicos jogadores”.
Esta prova realiza-se de quatro em quatro anos desde 1987 e, até agora, foi vencida pelos All Blacks da Nova Zelândia (4 vezes), pelos Springboks da África do Sul (3 vezes), pelos Wallabies da Austrália e pela Inglaterra (uma vez cada).
A fase final do IX Campeonato do Mundo de Râguebi, ou de Rugby Union, iniciou-se no dia 19 de Outubro e nela participaram vinte selecções nacionais. Depois da fase preliminar chegaram às meias-finais quatro selecções, respectivamente da África do Sul e da Inglaterra que disputaram a final, juntamente com a Nova Zelândia e o País de Gales que jogaram para o terceiro e quarto lugares.
O próximo campeonato realiza-se no ano de 2023 em França e, então, poderá ser que o país anfitrião consiga pela primeira vez uma vitória, como “vingança” pelas três derrotas que averbou nas três vezes que a sua equipa chegou à final.          
O que não há dúvida é que, em popularidade, o râguebi está a ir na esteira do futebol.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Aproximam-se as eleições espanholas


As eleições legislativas espanholas vão realizar-se no próximo dia 12 de Novembro e não é necessário referir a sua importância para a Espanha e para as pretensões independentistas da Catalunha, mas também para Portugal e para a coesão europeia, até porque já basta de instabilidade, sobretudo aquela que nos vai chegando das Ilhas Britânicas. Nesta altura aparecem sondagens para todos os gostos, que mostram que é cada vez mais estreita a diferença entre a esquerda e a direita parlamentares, isto é, entre o bloco de esquerda formado pelo PSOE, Unidos Podemos e Más País e o bloco de direita constituído pelo PP, Ciudadanos e Vox.
Hoje, os cinco principais candidatos vão confrontar-se no único debate televisivo previsto na campanha eleitoral e há fortes expectativas quanto ao seu efeito sobre os cerca de 35% de eleitores indecisos, mas não faltarão apreciações quanto à reduzida influência das campanhas eleitorais na opção e voto dos eleitores. O jornal ABC é um dos jornais espanhóis que, a uma semana das eleições, publica hoje uma sondagem em que o PSOE de Pedro Sanchez aparece com 27,3% e o PP de Pablo Casado com 21,6%, o que mostra que, desde o passado mês de Abril quando se realizaram as anteriores eleições legislativas, o PSOE desceu quase um ponto percentual e que o PP subiu quase quatro pontos. Por isso, há quem defenda uma coligação entre estes dois partidos cujos projectos não são incompatíveis mas, se assim fosse, lá se ia o principio da alternância democrática do poder.
Portanto, parece sensato que não se façam muitos prognósticos quanto ao futuro politico da Espanha porque os tempos que virão não vão ser fáceis.

domingo, 3 de novembro de 2019

Novo fôlego da independência da Escócia

A Escócia é um reino situado na parte norte das ilhas Britânicas que foi independente desde 843 até 1707, ano em que se uniu com a Inglaterra para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha. Durante três séculos os escoceses e os ingleses viveram muito felizes, embora tivessem mantido inúmeras instituições e actividades que nunca foram integradas na sua união, que em 1801 foi estendida à Irlanda, dando origem ao Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda.
Em 1973 o Reino Unido aderiu à Comunidade Europeia e, para além das suas capitais em Edimburgo e Londres, os escoceses passaram também a ter uma outra capital em Bruxelas. E gostaram disso, porque da nova capital lhes chegaram muitas coisas boas. Porém, nos últimos tempos as coisas começaram a mudar, com tensões políticas entre escoceses e ingleses. Daí resultou um referendo sobre a independência da Escócia realizado no dia 18 de Setembro de 2014, em que 44,70% dos escoceses votaram sim, enquanto 55,30% votaram não.
As tensões independentistas serenaram, até que no dia 23 de Junho de 2016 se realizou um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, em que 51,89% dos eleitores votaram sim ao Brexit, embora 67,2% dos escoceses tivessem votado contra. No dia seguinte, a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon, afirmou que um segundo referendo pela independência da Escócia em relação ao Reino Unido estava em cima da mesa.
Entretanto, passaram mais de três anos e a David Cameron sucedeu Theresa May e, depois, o estarola do Boris Johnson. Tem sido uma confusão e um descrédito completos. Agora estão marcadas eleições para o próximo dia 12 de Dezembro, mas Nicola Sturgeon não perdeu tempo e, como se esperava, exige agora um novo referendo sobre a independência da Escócia.

A inovação da moderna arquitectura

A Fundação OnePulse anunciou na cidade americana de Orlando, no estado da Florida, que depois de um concurso internacional foi aprovado o desenho do novo Museu Nacional e Memorial de Pulse, a construir naquela cidade, que foi proposto por um grupo de arquitectos franceses em colaboração com arquitectos locais. O jornal La Prensa de Orlando, publicou a imagem do monumento que homenageará as 49 vítimas mortais e os 53 feridos que resultaram o massacre terrorista, bem como todos os que foram afectados pela trageia ocorrida no dia 12 de Junho de 2016 na discoteca Pulse, executado em nome do Daesh e que foi considerado "o mais mortal tiroteio em massa da história dos Estados Unidos”.
A proposta vencedora não é definitiva e representa um ponto de partida para discussão e posterior integração de novas ideias, mas o monumento incluirá um espelho de água e um jardim com 49 árvores, além de um museu ao ar livre, jardins verticais e um passeio na cobertura. Com este monumento, a cidade de Orlando procura ultrapassar o trauma que esta tragédia constituiu para a comunidade local e, ao mesmo tempo, é uma aposta numa obra de arquitectura inovadora e de referência. Naturalmente que as grandes obras da arquitectura primeiro se estranham mas depois se entranham, como dizia o slogan publicitário atribuído a Fernando Pessoa.  

sábado, 2 de novembro de 2019

A viagem do “Mayflower” foi há 400 anos

No dia 6 de Setembro de 1620 largou de Plymouth um velho navio de carga de cerca de 30 metros de comprimento chamado Mayflower que transportava 30 tripulantes e 102 passageiros com destino ao outro lado do Atlântico. No dia 11 de Novembro o navio chegou a Cabo Cod, no actual estado de Massachusetts, depois de sessenta e cinco dias de viagem.
Na sua maioria os passageiros do Mayflower eram famílias puritanas que procuravam a sua liberdade longe da Igreja Anglicana, num tempo de grande conflitualidade religiosa nas ilhas britânicas e na Europa. Apenas sobreviveram 53 passageiros, conhecidos depois por pilgrims fathers, que foram os primeiros ingleses protestantes que emigraram para o continente americano e que fundaram as primeiras colónias que vieram a dar origem aos Estados Unidos.
Nos anos 1950 surgiu na Inglaterra a ideia de construir uma réplica do Mayflower para ser oferecida aos Estados Unidos como símbolo da gratidão inglesa pela ajuda americana durante a II Guerra Mundial. Essa réplica foi construída nos estaleiros de Brixham e em 1957 navegou para os Estados Unidos, onde se tornou um navio-museu muito visitado e tendo feito algumas pequenas viagens entre os portos da costa nordeste dos Estados Unidos. Actualmente o navio encontra-se em trabalhos de manutenção e restauro nos estaleiros Mystic em Connecticut, preparando-se para tomar parte no Mayflower Sails 2020, que no próximo ano celebrará em Boston os 400 anos da sua histórica viagem. Em Maio de 2020, quando navegar para Boston, espera-se que o Mayflower tenha a companhia do USS Constitution, que entrou ao serviço em 1797. Segundo o The Boston Globe será a primeira vez que os dois mais simbólicos navios da história americana navegarão juntos. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Donald Trump a caminho da impugnação

Numa conferência proferida há dois dias e que foi divulgada pela revista Visão, o professor Adriano Moreira afirmou que “a maior ameaça actual ao mundo é a incultura e a leviandade do Presidente dos Estados Unidos”. Esta afirmação, feita por alguém cuja lucidez e sabedoria são bem reconhecidas nos meios políticos e académicos, revela que o comportamento de Trump é um problema global e não é apenas um caso muito preocupante para os americanos e para os seus aliados.
Por isso, com uma maioria de 232 votos contra 196, os congressistas da câmara baixa do Congresso ou Câmara dos Representantes dos Estados Unidos acabam de formalizar um processo de impugnação (impeachment) contra o presidente Donald Trump, o que é um acontecimento histórico por ser a quarta vez em 230 anos que o Congresso chega tão perto de uma acusação e julgamento de um presidente dos Estados Unidos. No entanto, este problema acontece não só devido à má gestão e à impreparação de Trump para o cargo, mas também porque se aproximam eleições presidenciais e é o tempo para os Democratas e os Republicanos “contarem espingardas”, sucedendo-se os testemunhos favoráveis ou desfavoráveis à actuação presidencial do Donald.
Porém, mesmo que a Câmara dos Representantes venha a acusar o Donald de “crimes graves”, é muito provável que ele não seja condenado por essa acusação quando o processo subir ao Senado, pois seria necessária uma maioria de dois terços (67 senadores) e o Partido Democrata só pode contar, à partida, com 47 votos. Portanto, a impugnação pode acontecer, mas daí à destituição vai uma grande distância.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Argentina e Brasil com rumos diferentes

Nos últimos tempos realizaram-se eleições presidenciais em Moçambique, na Bolívia e na Argentina, mas enquanto Filipe Nyusi e Evo Morales renovaram os seus mandatos, o presidente Mauricio Macri foi derrotado por Alberto Fernández que vai ser o presidente da Argentina, o país que viu nascer o Papa Francisco e Ernesto "Che" Guevara, Lionel Messi e Diego Maradona, Carlos Gardel e Jorge Luis Borges, Juan Manuel Fangio e Juan Domingo Perón.
Na sua primeira mensagem no Twitter o presidente eleito agradeceu a vitória aos seus apoiantes e publicou uma fotografia em que aparece a desenhar um “L” com o indicador e o polegar da mão esquerda — um símbolo do movimento que pede a libertação de Lula da Silva, o antigo presidente do Brasil. A fotografia vinha acompanhada de um texto que dizia que “também hoje faz anos o meu amigo Lula, um homem extraordinário que está injustamente preso há um ano e meio”, acrescentando “parabéns para si, querido Lula. Espero ver-te em breve”. Jair Bolsonaro, a partir da capital brasileira, não gostou daquelas afirmações e afirmou ser “uma afronta à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro”, recusando-se a felicitar o novo presidente da Argentina.
Parece, portanto, abrir-se um tempo de incerteza ou mesmo de tensão entre os dois maiores países da América do Sul, cuja rivalidade vai muito para além do futebol. Porém, a malha de interesses económicos e comerciais entre eles é tão intensa que, certamente, nenhum ousará criar incidentes diplomáticos ou rupturas comerciais. É exactamente isso que salienta a edição de ontem do Correio Braziliense, isto é, a esquerda peronista na Argentina e a direita ultra-conservadora de Jair Bolsonaro vão ter de conviver, embora a navegar com rumos ideológicos bem diferentes.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Abu al-Baghdadi morreu mas o Daesh não

Os Estados Unidos, pela voz de Donald Trump, anunciaram ontem a morte de Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico do Iraque e Síria (ISIS) ou, em árabe, apenas Daesh.
Este facto foi uma grande vitória para Donald Trump que vinha sendo muito criticado pela sua recente decisão de retirar as tropas americanas do norte da Síria, mas também foi um alívio para todos os que, muitas vezes, acompanharam pela televisão as atrocidades e as barbaridades cometidas pela gente que ele comandava.
Abu Bakr al-Baghdadi era um religioso que, depois da invasão americana do Iraque em 2003, estivera preso em Camp Bucca, no território iraquiano, tendo sido nesse centro de detenção mantido pelos militares americanos que lhe nasceu a ideia da criação de um califado. Entretanto, al-Baghdadi estudou na Universidade de Bagdad e doutorou-se em estudos do Alcorão, mas manteve sempre a sua ligação a grupos radicais, pois o seu objectivo era estabelecer o seu próprio Estado por meio da força. Em 2014 anunciou a criação de um califado a que chamou Estado Islâmico do Iraque e Síria, também conhecido por Daesh, que em pouco tempo passou a controlar importantes cidades através da imposição de uma relação de brutalidade contra cerca de 8 milhões de pessoas e da ocupação de um extenso território no Iraque e na Síria.
A instabilidade na região favoreceu o Daesh, mas a reacção não tardou daí resultando a perda da cidade iraquiana de Mossul em 2016, da cidade síria de Racca em 2017 e, em Março deste ano, do seu último bastião que era a cidade síria de Baghouz. O califado durara cinco anos. Abu Bakr al-Baghdadi tinha sido derrotado, mas a ameaça de reaparecer, eventualmente com acções terroristas noutras partes do mundo, perdurava. Agora, com a sua morte o mundo parece poder respirar, mas de facto o Daesh não morreu e, por certo, os seus seguidores não tardarão a aparecer porque a organização era um monstro de muitas cabeças.
Hoje, a notícia da morte de al-Baghdadi foi manchete na imprensa mundial. Era o homem mais procurado do planeta e escolheu o seu próprio fim.

domingo, 27 de outubro de 2019

Um forte protesto continua na Catalunha

Ontem a cidade de Barcelona voltou a ser palco de uma grande manifestação em que participaram cerca de 350.000 pessoas mobilizadas pelos Comités de Defesa da República, os CDR, depois de uma semana em que a calma parecia estar a regressar à cidade.
A contestação surgiu no passado dia 14 de Outubro, quando o Supremo Tribunal espanhol condenou os principais dirigentes políticos catalães envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até um máximo de 13 anos de prisão. Essa decisão gerou uma onda de protesto que se repetiu ao longo de vários dias em Barcelona e em outras cidades da região autónoma que, muitas vezes, tem derivado para a violência e para o vandalismo, protagonizado por grupos radicais. Porém, embora o problema catalão se esteja a agudizar até porque não há diálogo à vista entre as partes em conflito, este número de manifestantes é bastante menor do que acontecera com outras manifestações.
Embora esse número seja menor do que antes, isso não significa que haja desmobilização por parte dos independentistas catalães. Num inquérito muito participado que o jornal catalão La Vanguardia abriu aos seus leitores, foram-lhes feitas duas perguntas:
1) Vês solução a curto prazo para o conflito catalão (94,1% de respostas negativas)
2) Aprovas os protestos contra a sentença do procés (27,9% de aprovações).
Significa que os catalães têm a noção de que as pretensões independentistas só poderão vir a ser satisfeitas no longo prazo e, naturalmente, num quadro de negociação e de diálogo democrático, mas também que é muito significativa a discordância relativamente à dura sentença proferida pelo Supremo Tribunal.

sábado, 26 de outubro de 2019

A crise também já chegou à NATO

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), por vezes chamada apenas como Aliança Atlântica, é uma aliança militar que foi assinada no dia 4 de Abril de 1949 por doze países – Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Itália, Islândia e Portugal.
Depois, a NATO alargou-se e em 1952 entraram a Grécia e a Turquia, em 1955 a Alemanha, em 1982 a Espanha e, numa incompreensível e precipitada decisão, seguiu-se o ingresso de muitos outros países sem qualquer relação física ou cultural com o Atlântico, mas apenas para os isolar de outras influências ou contágios.
Hoje a NATO já agrega 29 estados-membros, o último dos quais é o Montenegro. Provavelmente, já são países a mais. 
A NATO constitui essencialmente um sistema de defesa colectiva em que os seus estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa. Porém, quando um estado-membro se envolve em conflitos militares, a organização costuma consultar-se e tomar posição.
Foi o que agora aconteceu. Com a retirada unilateral americana do norte da Síria e a ofensiva turca na mesma região, os ministros da Defesa da NATO reuniram em Bruxelas e foram muito críticos em relação ao que se passa naquela área, onde os russos estão a reforçar a sua determinante influência junto dos diversos poderes regionais. Donald Trump e Recep Erdogan foram os alvos das críticas ministeriais e, enquanto houve 28 estados-membros a instar a Turquia para que suspendesse as suas operações, também tivemos Erdogan a afirmar que ninguém travará a ofensiva turca.
O facto é que, com 29 membros cultural e politicamente tão diferentes, como é possível sustentar uma aliança que depois da guerra fria perdeu todo o sentido, que actua bem longe do seu quadro atlântico e que insiste em querer manter uma unidade que na realidade não existe? É hoje evidente, até pelo que se passa com o Brexit e com grosseiro anti-europeismo de Trump, que a NATO é uma organização sem qualquer lógica ou coesão racionais e que apenas se mantém porque dá emprego, prestígio e poder a muita gente. Hoje o diário francês Le Monde retrata a “profunda crise” que atravessa a NATO, a organização onde têm assento Trump e Erdogan, mas também Boris Johnson, Matteo Salvini e Viktor Orbán, entre outros figurões.