quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O fim do Donald e a invasão do Capitólio

As cenas que ontem nos foram mostradas em directo pelas televisões pareciam vir de uma república das bananas ou ser cenas de um qualquer filme histórico sobre a tomada da Bastilha em Paris no ano de 1789 ou o assalto ao Palácio de Inverno em Petrogrado no ano de 1917. Aquilo não poderia passar-se nos Estados Unidos, mas de facto tratava-se da invasão do Capitólio, o simbólico edifício que na cidade de Washington aloja o Congresso, isto é, as duas câmaras constitucionais - o Senado e a Câmara dos Representantes. É, portanto, a sede da Democracia americana. 
Ontem decorria a sessão presidida pelo vice-presidente Mike Pence, para confirmar os resultados eleitorais de 3 de Novembro passado, quando algumas centenas de desordeiros encorajados por Donald Trump invadiram o Capitólio, supostamente para impedir os trabalhos do Congresso. As cenas que vimos em directo mostravam um clima insurrecional que envergonha a América e faz rir o mundo. Houve quatro mortos e 52 pessoas foram detidas. Só depois o Congresso recomeçou os seus trabalhos, tendo formalmente declarado a vitória de Joe Biden e de Kamala Harris. 
Donald Trump perdeu mais uma tentativa para reverter a sua derrota eleitoral e continua a mostrar evidentes sintomas de demência ao não querer deixar a Casa Branca. O Partido Republicano e o seu vice-presidente abandonaram-no. As redes sociais suspenderam-lhe as contas. Muitas personalidades como Obama e George W. Bush condenaram-no e nem uma só voz respeitável apareceu a defendê-lo. Não se sabe se chegou a perguntar se Washington já estava a arder, mas o que se passou coloca Donald Trump numa galeria de gente que não merece o respeito de ninguém, tanto na América como no mundo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

R.I.P. Carlos do Carmo

Carlos do Carmo faleceu aos 81 anos de idade e a comunicação social foi unânime no elogio a um homem que era a voz e uma referência obrigatória na história do fado, mas que também era um homem de cultura e um defensor de causas. 
A sua carreira artística passou por inúmeros palcos internacionais e começou em 1980 no Olympia de Paris, mas também por muitos outros palcos em todos os continentes, tendo recebido vários prémios internacionais como o Prémio Goya em Espanha, o Grammy Latino de Carreira em Hollywood e a Grand Médaille de Vermeil da cidade de Paris, a mais alta distinção cultural da capital francesa e, segundo as palavras do Presidente da República “foi a voz de Portugal cá dentro e lá fora, prestigiando não apenas o fado como toda a nossa cultura”. A sua voz foi sempre estimulante, tanto nos tempos da Ditadura, como nos tempos da Democracia. No seu repertório incorporou textos de grandes poetas, em particular do seu amigo Ary dos Santos que com ele assinou o famoso álbum Um Homem na Cidade, editado em 1997. Foi um dos principais embaixadores da Candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade e a sua carreira foi distinguida com várias condecorações.
Carlos do Carmo falava fluentemente francês, inglês, alemão e espanhol e foi um defensor da língua e da cultura portuguesa, como reconhece na sua edição de hoje o jornal macaense Ponto Final que destaca que a sua voz também aproximou Macau de Portugal. Era um lutador por causas políticas e sociais e afirmava-se um homem de esquerda e um defensor dos ideais do 25 de Abril. 
As cerimónias fúnebres de Carlos do Carmo realizam-se hoje.

sábado, 2 de janeiro de 2021

2021: nova esperança e novos desafios

O novo ano já corre há mais de 24 horas e sucedem-se os balanços sobre o que foi o ano de 2020, enquanto se fazem previsões sobre o que vai acontecer em 2021. 
Temos vivido num quadro de incerteza que nos foi trazido pela crise pandémica e o aparecimento de vacinas que asseguram protecção para o covid-19, que aconteceu nas últimas semanas do ano, foi um facto que deu uma renovada esperança ao mundo. Portanto, o ano de 2021 é um ano de esperança, como destaca o Correio Braziliense na sua primeira edição do ano. 
Porém, depois dos fogos de artifício e dos tradicionais festejos que assinalaram a entrada no novo ano, a realidade apresenta-se com muitos desafios para ultrapassar os gravosos efeitos sociais e económicos da pandemia, que alteraram o nosso modo de vida e o nosso sistema de valores, o modo de produção da nossa sociedade, os padrões de consumo e as características do trabalho, do emprego e do lazer. Nada vai ser como antes e, por isso, confrontamo-nos com os desafios de um tempo diferente que está a chegar, num quadro mais impessoal de convivência e da chamada transição digital que nos obriga a ficar cada vez mais dependentes de um computador. 
Nessas circunstâncias, a geração dos mais velhos que é a minha, vai ter maior dificuldade de adaptação ao mundo que se está a desenhar e, por isso, vai ser cada vez mais necessário resistir ao ghetto que nos pode cercar, lutar contra a crescente desumanização do quotidiano e reforçar a solidariedade e o convívio com os amigos para que não fiquemos submersos pelo que aí vem.
Naturalmente, para todos aqui ficam os desejos de um Bom Ano.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O ano de 2020 termina. Mejor año nuevo!

Hoje é o último dia do ano de 2020 e, por todo o mundo, muitos jornais despedem-se de um ano que querem esquecer e transmitem mensagens de esperança no ano de 2021, que se inicia dentro de poucas horas. De entre essas mensagens de esperança para o novo ano, destacamos a mensagem bem simples que aparece hoje na capa dos principais jornais de Madrid e de Barcelona. Diz apenas Mejor año nuevo e vem assinada com um pequeno M, quase escondido, mas que a generalidade dos leitores identifica espontaneamente com a Movistar, a marca comercial de grande notoriedade da operadora de telefonia móvel do grupo Telefónica, que opera em Espanha e em vários países latino-americanos como a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, México, Panamá, Peru, Uruguai, Venezuela e Brasil, neste caso através da operadora Vivo. É uma presença publicitária de grande criatividade que reforça a imagem de marca da Movistar e que aumenta os níveis de confiança da sua clientela. 
Em situações de crise económica e social como aquela que o mundo atravessa, este tipo de mensagens publicitárias não se destina a aumentar as vendas ou a angariar clientes, mas apenas a reforçar o prestígio das marcas e a gerar uma confiança acrescentada no público. Com esta mensagem a desejar mejor año nuevo, a Movistar reforça a sua presença junto do público e deixa no subconsciente dos seus clientes actuais ou potenciais, a ideia de que é melhor e mais confiável do que as outras operadoras de telefonia móvel que operam em Espanha - a Orange, a Vodafone e a Yoigo.
E nós, tal como a Movistar, também desejamos mejor año nuevo aos nossos leitores.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Cristiano Ronaldo e Globe Soccer Awards

No passado dia 27 de Dezembro realizou-se no emirado do Dubai a gala dos Globe Soccer Awards 2020, uns prémios que têm uma relevância mínima no mundo do futebol, mas que permitem que os árabes endinheirados que gostam de futebol possam conviver com algumas estrelas do futebol mundial. 
O Dubai é conhecido por ser um luxuoso shopping center, pela sua arquitectura moderna, pela sua animada vida nocturna e pelo dinheiro que movimenta. Por isso, um evento como os Globe Soccer Awards assenta muito bem naquele cenário de modernidade. 
Este ano realizou-se a 12ª edição daquele evento e havia três portugueses candidatos a disputar os títulos de melhor jogador do século, melhor treinador do século e melhor empresário do século, tendo a gala sido realizada no majestoso arranha-céus Burj Khalifa, uma torre com 830 metros de altura, que se destaca num mar de arranha-céus. Jorge Mendes e Cristiano Ronaldo têm assinatura nestes prémios e foram escolhidos como empresário do século e jogador do século, enquanto José Mourinho ficou sem prémio desta vez. Quando ainda faltam oitenta anos para acabar o século é demasiado ridículo que já estejam a ser escolhidos o empresário e o jogador do século e, por isso, a imprensa desportiva tratou este assunto de forma muito discreta, porque o evento não merecia mais. Curiosamente, a maior referência que encontramos a este evento encontra-se no diário La Opinión, um jornal americano de língua espanhola que se publica em Los Angeles desde 1926, que ilustra a primeira página da sua edição de ontem com uma foto de Cristiano Ronaldo a três colunas e com a legenda Monstruo! Não se imaginaria tanta popularidade do Cristiano Ronaldo na Califórnia e não há dúvida que ele é, provavelmente, o maior embaixador que alguma vez tivemos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Um conselho ao Donald: stop the insanity

Tínhamos imaginado que a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais americanas que sucessivos tribunais confirmaram, tinha acabado de vez com a nefasta presidência de Donald Trump que tanto prejudicou o prestígio internacional dos Estados Unidos. Além disso, a declaração dos especialistas de que se tratou da ”mais segura eleição da história dos Estados Unidos”, parecia acabar de vez com as teorias conspirativas do Donald. O assunto parecia ter ficado arrumado, mas as coisas não parecem ser exactamente assim. 
Numa altura em que a crise pandémica está muito intensa nos Estados Unidos, com mais de 200 mil contágios e três mil óbitos diários, com os hospitais à beira do colapso mas com as esperanças concentradas na nova vacina, o Donald continua amuado com o país, nada diz sobre a crise pandémica e repete a sua costumada gritaria em que insiste que que ganhou as eleições. Deste seu comportamento irresponsável tem resultado a perda de aliados e um isolamento cada vez maior, até porque não pára de fazer asneiras, não só através do boicote ao Congresso que lhe tirou o tapete mas, sobretudo, pela forma leviana e desonesta como vem distribuindo indultos a algumas dezenas de amigos e apoiantes, alguns deles já condenados. 
Na sua edição de hoje o jornal New York Post não o poupa e diz-lhe mesmo para parar com a sua insanidade. Stop the insanity é um invulgar apelo feito ao Donald para acabar com a louca cruzada em que se tem envolvido, mas a América e o mundo ainda terão de esperar 23 dias para o ver fora da Casa Branca.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Bispo de Pemba e guerra em Cabo Delgado

A província moçambicana de Cabo Delgado tem vivido em estado de guerra desde 2017 e como resultado da acção armada de grupos insurgentes estão contabilizados dois mil mortos e 600 mil deslocados. As raízes do conflito são complexas mas parecem assentar em sérias divergências com um governo que se encontra a 2.500 quilómetros de distância e que tem revelado incapacidade para discutir a situação e para ajudar os que precisam, optando por uma abordagem essencialmente militar e parecendo esquecer a componente religiosa do conflito. No litoral de Cabo Delgado o islamismo está implantado há muitos séculos e do actual descontentamento tem resultado a progressiva radicalização no terreno, com ideologias e práticas jihadistas inspiradas pelas suas ligações à umma regional e global. Por outro lado, a riqueza local em gás natural e outros recursos é também uma variável importante neste conflito e o Estado Islâmico, que inicialmente não se terá envolvido na insurgência, parece que desde há alguns meses passou a dominar a actuação dos grupos armados insurgentes. 
As Nações Unidas e o Papa têm referido as suas preocupações, sobretudo em relação aos deslocados, calculando-se que na cidade de Pemba se encontrem cerca de 150 mil pessoas deslocadas e em deficientes condições humanitárias. É nesse contexto que D. Luiz Fernando Lisboa, o missionário brasileiro que é Bispo de Pemba, se tem erguido com uma das vozes mais críticas do governo moçambicano pela sua inoperância na abordagem deste conflito, na denúncia do radicalismo e das violações de direitos humanos que ocorrem no terreno e pelo seu trabalho na ajuda e protecção dos deslocados que fugiram do mato. 
Há uma semana o Bispo de Pemba foi recebido em prolongada audiência pelo Papa Francisco e agora o semanário independente Savana, que se publica em Maputo, escolheu-o como “a nossa figura do ano”, por ser “a voz da tragédia de Cabo Delgado”. Daqui de muito longe, recordamos a antiga cidade de Porto Amélia, achamos que o semanário escolheu bem e daí o nosso aplauso. 

Uma vacina que é o sorriso do mundo

Tudo começou em Dezembro de 2019 quando foram detectados alguns casos de uma misteriosa pneumonia na cidade chinesa de Wuhan, que depressa se espalhou por toda a China e por outros países asiáticos. Essa estranha pneumonia chegou aos Estados Unidos no dia 20 de Janeiro de 2020 e, logo a seguir, entrou na Europa no dia 24 de Janeiro através da França. No dia 11 de Fevereiro a OMS identificou o vírus – SARS-CoV-2 – como causador dessa pneumonia e anunciou o nome oficial da doença que passou a chamar-se covid-19. Um mês depois, a OMS declarou o surto de covid-19 como uma epidemia que, até agora já infectou mais de oitenta milhões de pessoas e já provocou 1.757.665 mortes. 
A Ciência começou a trabalhar imediatamente na pesquisa de uma vacina e, no meio de muitas especulações ditadas pela política e pela competição comercial, os resultados acabaram por aparecer como se fosse um milagre que trouxe esperança ao mundo. A União Europeia deu um forte contributo para financiar alguns projectos de investigação e, desde o princípio, atribuiu subsídios às principais empresas farmacêuticas – AstraZeneca, Sanofi-GSK, Janssen Pharmaceutica NV, BioNTech-Pfizer, CureVac e Moderna – para assegurar que os estados-membros pudessem comprar as vacinas logo que fossem aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento e iniciassem o processo de vacinação ao mesmo tempo em todos eles. 
A vacina já chegou a Portugal como anuncia o jornal Público e a vacinação vai começar hoje em Lisboa, Coimbra e Porto, de acordo com as prioridades previamente estabelecidas pelas autoridades de saúde. É um sinal de esperança para ultrapassar a crise sanitária, económica e social que se abateu sobre o mundo, mas é também uma grande vitória da Ciência de que nos devemos orgulhar.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Vem aí a nova Europa a 27. Quem ganhou?

Na próxima sexta-feira o Reino Unido deixa de pertencer à União Europeia e esse facto não pode deixar de entristecer os europeus, que perdem um dos seus mais importantes membros. A Europa a 28 passa a uma Europa a 27 e a hipótese de saída de um qualquer outro membro torna-se, a partir de agora, uma ameaça ou uma probabilidade cada vez maior. Apesar de ter sido um divórcio amigável e de uns falarem nos “nossos amigos europeus” e dos outros se referirem aos “nossos amigos britânicos”, o facto é que o dia 31 de Dezembro de 2020 vai realmente ser um dia triste para os europeistas, porque representa um divórcio e, quando isso acontece, nada voltará a ser como dantes. O acordo a que as duas partes chegaram parece assegurar a estabilidade económica e comercial, a protecção do mercado do trabalho e dos imigrantes, a continuação da luta comum contra o terrorismo, entre outros temas importantes para o futuro, mas a perda de um membro é uma marca muito negativa no futuro da União Europeia.
Porém, também há quem veja um alívio nesta saída do Reino Unido, pois a sua frequente reacção ao eixo franco-alemão levava-o muitas vezes a posições de conflitualidade e, por isso, o jornal Courrier Picard que se publica em Amiens, no norte de França, dedica a sua edição de hoje àquele divórcio com um significativo au revoir.
Só o tempo dirá quem vai beneficiar mais com o Brexit, isto é, se será o Reino Unido a recuperar a sua arrogância vitoriana e a livrar-se da ingerência de Bruxelas, ou se vai ser a União Europeia a libertar-se de um parceiro incómodo e exigente. Se calhar nenhum deles vai ganhar...

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O acordo do Brexit e a luta da Escócia

A União Europeia e o Reino Unido, ou Bruxelas e Londres, chegaram a um acordo que, depois de avanços e recuos, consuma finalmente o Brexit e a decisão de 51,89% do eleitorado britânico, que escolheu a saída do projecto europeu no referendo de 23 de Junho de 2016. Toda a gente festejou este acordo porque, sem ele, o futuro estava muito cinzento e o caos económico era mesmo uma ameaça. O acordo está inscrito em cerca de duas mil páginas que confirmam o fim do período de transição e o início de uma nova relação económica e social entre o Reino Unido e a União Europeia. Toda a gente veio dizer que o acordo é justo e equilibrado e, provavelmente, é. Porém, quando Ursula von der Leyen se referiu a este acordo com alívio, também afirmou a “doce tristeza da despedida”, porque é a primeira vez que há uma deserção da União Europeia como hoje salienta o jornal espanhol La Vanguardia. Nestas coisas há sempre o risco de contágio e se esta deserção tiver outros seguidores, pode abrir-se a porta à desintegração do projecto europeu. 
A concretização do Brexit ainda vai continuar a perturbar a política e a economia britânicas e, neste momento, já reabriu a questão escocesa. A Escócia votou por larga maioria pela permanência do Reino Unido na União Europeia (62%) e a primeira-ministra Nicole Sturgeon veio de imediato lembrar que o Brexit aconteceu contra a vontade do povo escocês e afirmar que chegou o tempo da nação escocesa se tornar “uma nação europeia independente”. A Escócia precisa da autorização de Londres para realizar um referendo sobre a independência e essa luta vai certamente acentuar-se nos próximos meses.
Ainda terão que passar alguns anos para que o Reino Unido possa fazer um balanço dos custos e benefícios desta saída da União Europeia, mas é muito possível que nessa altura o Reino Unido já não seja espacialmente o que era.

O Natal é tempo solidário e de harmonia

Hoje é Dia de Natal e, apesar de todas as contingências sanitárias por que estamos a passar, as famílias encontram-se e confraternizam em circunstâncias diversas, consoante as suas tradições religiosas ou pagãs, ou conforme as práticas mais tradicionais das suas comunidades. No pequeno Portugal de dez milhões de habitantes há uma enorme diversidade de práticas natalícias que vão desde as ceias com bacalhau ou com polvo, até aos almoços com assados de perú ou borrego, ambos acompanhados por uma doçaria abundante e variada, mas esses rituais incorporam cada vez mais as árvores de Natal e as referências a um Pai Natal barbudo que vem da gelada Lapónia num trenó puxado por renas. Os católicos concentram-se nas celebrações da Missa do Galo e entoam canções de Natal, enquanto a troca simbólica de presentes continua a ser uma marca da época natalícia, embora cada vez mais viciada pela lógica e pelos apelos consumistas. Porém, em boa verdade, o Natal já não é o que era, pois vai perdendo o seu significado simbólico de uma religião universal, estando cada vez mais a tornar-se numa festividade dedicada ao consumo. Daí que tenha sido adoptado até nas sociedades não cristãs, em que adquiriu um estatuto de grande festa com as suas iluminações características e os seus excessos comerciais, mas sem quaisquer referências ao nascimento de Jesus Cristo. 
Para além destes aspectos mais visíveis em que a sociedade de consumo está a transformar o Natal, este tempo é sempre de reflexão, de solidariedade, de reencontro, de harmonia e de paz, sobretudo nas regiões geográficas onde predominam as diferentes formas do Cristianismo. Neste tempo, reencontramos os nossos familiares e os nossos amigos, quer presencialmente, quer através dessa maravilha civilizacional que é o WhatsApp. Trocamos mensagens e afectos, reconciliamo-nos com o outro e, por vezes, aprendemos que o espírito de Natal deveria estar presente nas nossas vidas durante o ano inteiro. 
Por tudo isto, aproveito a capa do jornal La Dépêche du Midi para desejar um Bom Natal quand même aos leitores deste texto e para os incentivar a manter o espírito natalício nas suas vidas.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

A confusão britânica em tempo natalício

No passado fim-de-semana, num discurso dirigido à nação, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson anunciou o aparecimento de uma variante do novo coronavírus no Reino Unido e o mundo, que celebrava o aparecimento da vacina, voltou a tremer. 
O Reino Unido entrou em quarentena para se proteger da nova ameaça, enquanto várias dezenas de países, entre os quais a França, cancelaram as suas ligações aéreas, marítimas e rodoviárias com o Reino Unido para evitar contágios. As rotas comerciais entre a França e o Reino Unido são as mais importantes da Europa e foram naturalmente afectadas por estas repentinas restrições. Muitas centenas de camiões ficaram bloqueados em Dover sem poder sair para França e outros tantos estão em Calais sem poder entrar na Grã-Bretanha, numa altura de grande movimento não só por ser a quadra natalícia, mas também porque os comerciantes ingleses quiseram refazer os seus stocks por desconhecerem o que o futuro lhes reserva, isto é, a pandemia veio mostrar aos britânicos que o Brexit parece ter sido um erro grave. 
O Brexit concretizou-se no dia 31 de Janeiro de 2020 e o Reino Unido deixou de pertencer à União Europeia, tendo sido feito um acordo de saída transitório que termina no dia 31 de Dezembro de 2020. Falta uma semana, mas os negociadores não se entendem quanto ao futuro das relações, nomeadamente no aspecto comercial e na mobilidade dos cidadãos, pelo que ninguém sabe o que vai acontecer a partir de 1 de Janeiro de 2021. Nesta situação, os britânicos temem vir a sofrer escassez de alimentos, sobretudo de frutas e de vegetais, ao mesmo tempo que começam a ver as prateleiras dos supermercados vazias. As fotografias que ilustram as capas dos jornais, bem como as imagens televisivas, com muitas centenas de camiões retidos nas fronteiras, mostram bem a crise por que está a passar o Reino Unido.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Nova variante do vírus, nova preocupação

Quando a nova vacina contra o covid-19 começava a ser aplicada e o mundo já suspirava de alívio e se acentuavam os sinais de esperança, surgiu a notícia de que no Reino Unido fora descoberta uma nova variante do coronavírus que se está a disseminar muito rapidamente.
A nova variante que já é designada por VUI-202012/01, surgiu após mutações, já se tornou a forma mais comum do vírus em algumas regiões britânicas e, embora as suas características ainda estejam por conhecer, já é considerado que se transmite mais rapidamente que a anterior variante, o que está a gerar muita preocupação as autoridades de saúde britânicas. Uma das dúvidas que as autoridades sanitárias e a comunidade científica procuram saber é se as vacinas já aprovadas serão ou não eficazes contra a nova variante, pois não existem quaisquer evidências científicas que seja mais letal ou tenha efeitos mais graves do que a variante anterior. 
O centro da nova epidemia parece ser a região de Londres, mas já surgiram casos na Dinamarca, na Holanda e até na Austrália, que se pensa terem sido importados do Reino Unido. Perante esse quadro de incerteza, a generalidade dos países europeus e alguns países extra-europeus, decidiram “decretar a quarentena” ao Reino Unido, isto é, suspender os voos oriundos do Reino Unido, bem como as ligações marítimas e ferrroviárias provenientes das Ilhas Britânicas, o que hoje constitui o tema de primeira página do The Times. É mais um “soco no estômago” na indústria do turismo, mas a imprensa portuguesa não dá qualquer destaque a este assunto e disfarça a sua mediocridade com o seu habitual envolvimento no futebol e nos casos menores da vida política portuguesa. Quem quiser saber mais sobre este assunto não pode contar com a imprensa diária portuguesa.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Shanghai Grand Opera House

O jornal Shanghai Daily revela hoje que, depois de um concurso internacional, o projecto de completo de arquitectura e de arranjos exteriores da Shanghai Grand Opera House, foi adjudicado à Snøhetta, um famoso escritório internacional de arquitectura e de design de exteriores e de interiores, com sede em Oslo e com delegações em Nova Iorque, S. Francisco, Paris, Innsbruck, Hong Kong, Adelaide e Estocolmo. 
Trata-se de uma iniciativa para dotar a cidade de um espaço cultural moderno que estimule as práticas culturais da população local e seja, também, um polo de atracção de visitantes. O novo espaço cultural da cidade de Shanghai ocupa uma área de 124 mil metros quadrados, localiza-se na margem do rio Huangpu e pretende tornar-se num espaço de atracção de artistas e de públicos, destinando-se à apresentação de ópera clássica e de ópera chinesa, concertos de música clássica e outras apresentações experimentais que possam atrair públicos mais jovens. Espera-se que venha a tornar-se o ex-libris da cidade e o ponto de encontro adequado para eventos de grande escala, prevendo-se que venha a estar aberto 24 horas por dia durante 365 dias. 
A maqueta do edifício mostra a grandeza do projecto que deverá estar concluído em 2024 e cuja descrição revela que incluirá três grandes auditórios para 2000, 1200 e 1000 lugares e muito vidro para valorizar a luz natural, num enquadramento espacial dominado por arvoredo e com vistas sobre a cidade e sobre o rio.

Goa Liberation Day 2020

O Goa Liberation Day celebra-se hoje e é evocado na edição diária do Herald, assinalando a data em que o General Vassalo e Silva apresentou a rendição das suas tropas ao General K. P. Candeth, que comandou a invasão de Goa e terminou com uma presença portuguesa naquele território que durara 451 anos. A acção desencadeada pelas Forças Armadas da Índia teve o nome de código de Operation Vijay, durou cerca de 36 horas e, segundo alguns registos que circulam, causou a morte a vinte e dois indianos e a trinta portugueses. Na Índia, a acção sobre Goa é um destacado capítulo da sua história porque ajudou a forjar o sentimento de unidade nacional num território de tanta diversidade, enquanto em Portugal é sempre assinalada a desproporção das forças envolvidas e o comportamento exemplar de alguns militares, nomeadamente da Marinha. Porém, raras vezes se destaca a intransigência do regime político português e o seu erro de avaliação estratégica, ao rejeitar os “ventos de mudança” que sopravam no mundo, nem seguir os exemplos do Reino Unido e da França, nem escutar os anseios autonomistas das elites goesas, nem atender às propostas de Jawaharlal Nehru. António Salazar e o seu regime foram incapazes de avaliar a situação e, mais tarde, de reconhecer o seu erro, tratando de responsabilizar os militares portugueses pela traumática queda da Índia Portuguesa. 
Em Goa celebra-se o Goa Liberation Day, mas os acontecimentos de Dezembro de 1961 ainda por lá suscitam alguma controvérsia. Apesar do Supremo Tribunal da Índia ter declarado que a anexação de Goa foi uma “conquest by invasion” das Forças Armadas Indianas, ainda se discute localmente se se tratou de uma invasão ou de uma libertação, numa evidente postura de natureza política e cultural. Os mais velhos ainda se interrogam como foi possível a cegueira salazarista de rejeitar negociações com Nehru e de ter sido aberta a porta da intervenção armada indiana e de tudo o que se seguiu depois, que tem sido uma tentativa oficial de desportugalização da vida social e cultural goesa. 
Goa é o mais desenvolvido estado indiano e tem o maior grau de ocidentalização do país, mas a herança cultural portuguesa não é alheia a esses indicadores. O facto que aqui se salienta é que Portugal faz parte da história de Goa, tal como Goa faz parte da história de Portugal e é essa forte interacção cultural que, para além das análises políticas, hoje aqui relembramos.