segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Há 90 anos olhando pelo Rio de Janeiro

O Cristo Redentor é a imagem mais famosa do Brasil e completa amanhã 90 anos de idade, pois foi inaugurado no dia 12 de Outubro de 1931, tendo-se tornado no monumento mais simbólico da cidade do Rio de Janeiro que, antes da pandemia, recebia anualmente a visita de mais de dois milhões de visitantes.
A monumental estátua está localizada no topo do morro do Corcovado, a cerca de 709 metros de altitude, tendo uma privilegiada vista sobre a maior parte da cidade e, de forma especial, sobre a baía da Guanabara. Em 2007 foi eleita como uma das sete maravilhas do mundo moderno e em 2012 a Unesco considerou-a como elemento da paisagem do Rio de Janeiro, que foi incluída na lista de Património da Humanidade.
A estátua foi construída a partir de 1926, tem trinta metros de altura e está assente num pedestal com oito metros, enquanto os seus braços se prolongam por 28 metros. Foi construída em concreto armado e totalmente revestida de chapas de pedra-sabão, que é uma pedra que resiste bem a temperaturas extremas.
A estátua encontra-se na área do Parque Nacional da Tijuca mas é gerida pela Arquidiocese do Rio de Janeiro que, em 2006, a transformou num santuário católico. Muito antes da construção da estátua foi construído o Trem do Corcovado, uma linha férrea que liga a cidade ao morro onde foi construída a estátua e que foi inaugurada em 1884 pelo imperador Dom Pedro II, o que é um motivo adicional de interesse histórico.
A imprensa brasileira tem assinalado a efeméride e o jornal O Estado de S. Paulo destacou o 90º aniversário do Cristo Redentor, tendo publicado uma sugestiva fotografia com a legenda “há 90 anos olhando pelo Rio”.

domingo, 10 de outubro de 2021

Nem tudo foi perfeito na nossa existência

Sabe-se bem como as ciências sociais, ao contrário das ciências exactas, são susceptíveis de interpretações distorcidas que normalmente são feitas pelos vencedores, pelas maiorias ou pela classe dominante. A História não é uma excepção a essa regra e, por isso, as verdades vão sendo encontradas e interpretadas ao sabor dos tempos. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como já tinha escrito Camões. Quantos acontecimentos já foram registados como uma coisa, depois com outra versão e, ainda, com uma outra? A História não é, portanto, uma ciência exacta, nem definitiva e, por isso, aqueles que hoje têm uma nova interpretação dos factos históricos que contraria a versão dominante, não sabem se em breve surgirão ou não documentos que mostrem uma realidade diferente.
Significa, portanto, que os movimentos desencadeados ultimamente por algumas minorias, embora sejam legítimos, não se podem arvorar em donos da verdade. A moda da destruição de monumentos e do derrube de estátuas, enquanto símbolos da escravidão e do colonialismo, gerou exageros e o principal terá sido a perseguição que foi feita às estátuas de Cristóvão Colombo. Essa moda chegou a Portugal e deu origem a algumas polémicas como o triste caso dos brasões florais na Praça do Império, a vandalização da estátua do Padre António Vieira e até a absurda reivindicação para que o Padrão dos Descobrimentos fosse demolido. Agora, apareceu “o desconforto com as pinturas da sala de visitas da Assembleia da República”, conforme salientava o jornal Público na sua edição de ontem.
Porém, o derrube de estátuas, a vandalização de monumentos ou a exclusão de pinturas murais não muda nada do que aconteceu. Será que ainda vão reivindicar a demolição da Torre de Belém ou do Palácio Nacional de Mafra com o argumento que foram feitos com mão-de-obra escrava e sem contrato colectivo de trabalho? Naturalmente, nem tudo foi perfeito na nossa existência secular.

sábado, 9 de outubro de 2021

A actividade vulcânica nas Canárias

O vulcão Cumbre Vieja que fica situado no complexo vulcânico da ilha de La Palma, entrou em erupção no dia 19 de Setembro e, cerca de vinte dias depois, não dá sinais de atenuar a sua actividade. A fotografia hoje publicada pelo Diário de Avisos, o jornal de Tenerife, mostra uma extensa fajã criada pela corrente de lava que entrou no oceano na costa ocidental da ilha e se calcula que tenha, nesta altura, uma área de cerca de cinquenta hectares. Trata-se de uma expressiva e impressionante imagem, daquelas a que se aplica a conhecida frase "uma imagem vale mais que mil palavras". 
Entretanto, as autoridades canárias revelam que a situação está para durar. Dezenas de pequenos sismos, alguns deles sentidos pela população, têm abalado a ilha de 84 mil habitantes e de 708 km2 de superfície, isto é, uma área ligeiramente menor do que as ilhas da Madeira e de S. Miguel, ao mesmo tempo que apareceram novas correntes de lava que correm em diferentes direcções e que vão engolindo mais edifícios e vão destruindo plantações, sobretudo de bananas. Em paralelo com as correntes de lava, também as cinzas e os fumos têm causado grandes perturbações na qualidade do ar, de que resultou o encerramento do aeroporto, além de outras consequências no domínio da saúde pública. 
Actualmente calculam-se em seis mil o número de desalojados e as autoridades espanholas já anunciaram medidas de apoio de emergência para atenuar os problemas humanos e económicos por que está a passar a ilha de La Palma.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O mau momento do turismo de Macau

O jornal Tribuna de Macau anunciou na sua última edição que o turismo macaense está de rastos devido às restrições adoptadas devido à pandemia. Esta constatação revelou-se durante a recente “semana dourada” de Outubro, que se iniciou no primeiro dia do mês e que agrega sempre vários feriados, incluindo os que se referem à implantação da República Popular da China. 
Depois do Ano Novo Lunar, que é a principal festa das famílias chinesas, a “semana dourada” é o período de festividades que gera o maior movimento de massas na China. Por isso, o número de pessoas que visitam Macau durante a “semana dourada” é um indicador da vitalidade da indústria turística macaense, mas revela uma preocupante paralisia que afecta todas as actividades e o emprego turístico. Em 2019, antes da pandemia, um total de 985 mil pessoas visitaram Macau e, na “semana dourada” de 2020, houve 156.300 pessoas que visitaram o território. Este ano, Macau registou a entrada de apenas 8.159 visitantes. Os números falam por si.
A grande massa de visitantes de Macau é oriunda da República Popular da China (60%) e do vizinho território de Hong Kong (40%). Apesar da taxa de ocupação hoteleira ainda estar elevada devido ao alojamento de residentes e de pessoas retidas devido à quarentena imposta pelas autoridades dos territórios vizinhos, os representantes do sector afirmam que “o sector do turismo continua numa situação de quase total paralisação” e reclamam medidas que deverão ser coordenadas com as autoridades de Hong Kong e da República Popular da China.
No entanto, o que suscita a atenção da primeira página do jornal macaense não é tanto a notícia do “turismo de rastos”, mas a fotografia das ruinas da igreja de S. Paulo, o ex-libris de Macau, vazias e sem a habitual multidão de turistas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O Brasil procura a Ordem e o Progresso

A edição de hoje do jornal Libération escolheu a fotografia de Luiz Inácio Lula da Silva para ilustrar a sua primeira página e destaca uma frase do antigo presidente do Brasil em que afirma que “Bolsonaro vai perder” nas eleições presidenciais de 2022.
A fragilidade de algumas instituições, a gestão de Jair Bolsonaro e a pandemia da covid-19 abalaram o Brasil nos anos mais recentes, não só pelos problemas internos que criaram ou agudizaram, mas também pela forma como foi afectado o seu prestígio internacional. Ao entrevistar e escolher Lula da Silva para ilustrar a sua primeira página, o Libération está a anunciar uma vontade europeia de que o Brasil irradie o “sonho mau” que tem sido Bolsonaro e a sua gestão incompetente, errática e desonesta, reabrindo a porta da recuperação do prestígio internacional do Brasil, da luta contra a pobreza, da defesa da Amazónia e da luta contra as alterações climáticas.
Independentemente de ser Lula ou outra personalidade a regenerar a esperança brasileira, coisa que os brasileiros saberão escolher em 2022, o Brasil precisa de um desígnio e de uma ambição tão grandes como o seu território, que é o quinto maior do planeta, enquanto os 213 milhões de brasileiros merecem uma presidência à altura da sua história. Em nenhum outro lugar do mundo como aqui em Portugal, se deseja tanto que este seu “filho” que completa 200 anos de idade no próximo ano, supere as suas dificuldades e arranque para uma era de “ordem e progresso” que é o lema nacional do Brasil, inscrito na sua própria bandeira nacional.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

A falibilidade das plataformas digitais

Uma enorme e inesperada avaria, possivelmente devida a uma defeituosa configuração que ainda estará por identificar, tornou ontem inoperativas durante meia dúzia de horas, as aplicações Facebook, WhatsApp, Instagram e Messenger. A notícia correu mundo como se fosse um grande cataclismo à escala universal, pois impossibilitou o acesso àquelas aplicações do grupo Facebook e prejudicou muitos negócios que dependem cada vez mais destas plataformas digitais. Porém, o destaque desta notícia não foi a constatação de estarmos perante uma dependência digital que “liberta” ou que “condena” os seres humanos, as economias e as relações internacionais, mas o facto da riqueza pessoal de Mark Zuckerberg, um dos fundadores do grupo Facebook, ter “caído” mais de seis mil milhões de dólares após este episódio.
As agências noticiosas insistiram nesse pormenor e toda a imprensa mundial que pudemos consultar salientou que as acções do Grupo Facebook caíram 4,9%, o que significa que a fortuna de Mark Zuckerberg, um jovem americano de 37 anos de idade, caiu para 121,6 mil milhões de dólares e que o seu nome desceu um lugar na lista dos mais ricos do mundo. Porém, essas notícias esquecem que as cotações bolsistas são como as marés, isto é, descem e sobem regularmente, pelo que o Mark não sairá afectado desta situação. 
Um dos jornais que destacou esta notícia foi o Jornal do Comércio, que se publica na cidade brasileira de Porto Alegre e que escolheu para manchete da sua edição de hoje a frase: “pane derruba Facebook, WhatsApp e Instagram". O apagão veio mostrar ao mundo como estamos colonizados pelo mundo digital.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Os nossos campeões do mundo do futsal

O futsal é uma modalidade que, apesar de ser muito popular e ter muitos praticantes, não goza de um estatuto desportivo elevado, tanto no nosso país, como no mundo, apesar de ser um jogo de grande beleza estética e atlética. Antigamente chamava-se futebol de salão e também futebol de cinco, mas quando foi consagrado pela FIFA tornou-se futsal. Pois ontem Portugal sagrou-se campeão do mundo de futsal e um título destes é um acontecimento muito raro, tendo originado uma invulgar atenção da comunicação social e entusiasmado muita gente. Não foi caso para menos, porque houve incerteza e emoção em cada jogo disputado na nona edição do Futsal World Cup Lithuania 2021, organizado pela FIFA.
Nas oito edições anteriores o Brasil vencera cinco vezes, a Espanha duas e a Argentina uma, mas desta vez a vitória coube à equipa portuguesa. No seu percurso vitorioso bateu-se com a Tailândia (4-1), as Ilhas Salomão (7-0), Marrocos (3-3), Sérvia (4-3), Espanha (4-2), Cazaquistão (3-2) e, finalmente, a Argentina (2-1). Foi uma caminhada realmente emocionante que a RTP acompanhou.
No jogo da final ontem disputado na cidade de Kaunas, a equipa foi apoiada por uma surpreendente legião de adeptos que vibraram com as fintas de Ricardinho, as defesas de Bebé e os golos de Pany Varela.
Toda a imprensa desportiva, mas também a imprensa generalista portuguesa, registaram e aplaudiram aquela vitória. Foi, seguramente, um dos mais importantes resultados que o desporto português alguma vez conseguiu em termos colectivos e daí o nosso aplauso, enquanto admiradores do futsal.

sábado, 2 de outubro de 2021

Rivalidades e tensões no mar da China

A última edição do Courrier international dedica uma parte do seu conteúdo às relações entre os Estados Unidos e a China e, através de uma sugestiva ilustração, destaca a crescente rivalidade entre Washington e Pequim e a evidente escalada de âmbito militar entre os dois países.
A China, ou antes, a República Popular da China, foi fundada em 1949 por Mao Tsé-Tung depois da guerra civil chinesa. Os nacionalistas chineses que foram derrotados, refugiaram-se em Taiwan e em 1954 assinaram um Tratado de Defesa Mútua com os Estados Unidos, mas esse acordo foi rescindido em 1980 pelos americanos, como contrapartida do reconhecimento da República Popular da China e do estabelecimento de relações diplomáticas entre Washington e Pequim. A partir de então, existem acordos de assistência militar dos Estados Unidos com Taiwan, mas a protecção americana que defendia a ilha das ambições continentais chinesas que querem o seu regresso à Grande China, já não são a mesma coisa. Por isso, o regime de Taiwan vive sob a ameaça militar permanente de ser reintegrada na República Popular da China porque, as autoridades chinesas insistem que o território de Taiwan faz parte da China. Essa tem sido uma linha vermelha da política chinesa, mas confronta-se com a “assistência mútua” que, de certa forma, nunca deixou de existir entre Washington e Taipei.
Porém, o espaço de rivalidade e de potencial conflitualidade sino-americano também se estende a todo o Pacífico ocidental e ao mar da China, como se viu no recente acordo tripartido entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Austrália, o chamado pacto Aukus, que os franceses consideraram “uma facada nas costas” e que originou fortes críticas de Pequim, ao mesmo tempo que as autoridades de Taiwan agradeceram este inesperado apoio.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Aeronáutica e orgulho chinês em Zhuhai

A 13ª Exposição Internacional de Aviação e Aeroespacial da China ou Airshow China 2021, a maior feira aeronáutica que se realiza na República Popular da China, iniciou-se ontem na cidade de Zhuhai, que faz parte da província chinesa de Cantão. 
Zhuhai tem fronteira com o território de Macau e é uma cidade moderna, que em 1980 foi transformada em Zona Económica Especial da China e que realiza este evento bienal, que este ano tem a participação de cerca de 700 empresas de quase quatro dezenas de países.
Como é habitual nestas grandes feiras aeronáuticas, tem havido lugar a demonstrações de voo, tendo-se destacado as exibições das equipas de acrobacia aérea da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo, respectivamente a Falcão Vermelho e a BaYi. A equipa Ba Yi utiliza os modernos aviões de combate Chengdu J-10, multi-funcionais e de concepção chinesa, a que os americanos chamam “Dragão Furioso”.
O jornal Global Times, que se publica diariamente em Pequim sob a orientação do Diário do Povo, o órgão oficial do Partido Comunista Chinês, destacou na sua edição de hoje uma fotografia da exibição da equipa BaYi nos céus de Zhuhai, não só porque esteticamente se trata de uma excelente imagem, mas também porque alimenta o orgulho militar e aeronáutico chinês.

A lava do ‘Cumbre Vieja’ chegou ao mar

O vulcão do complexo de Cumbre Vieja, que desde há cerca de dez dias está em erupção na ilha de La Palma, no arquipélago das Canárias, continua com actividade bastante intensa e a suscitar alguma preocupação entre a população, sobretudo na parte sul da ilha. 
O fluxo de lava já cobriu quase três centenas de hectares da ilha, destruiu muitas plantações de bananeiras, devastou mais de seis centenas de edificações e já obrigou cerca de seis mil pessoas a deixar as suas casas casas. Ontem a impressionante corrente de lava chegou ao mar, caindo de um penhasco de considerável altura, o que produziu espessas nuvens de fumo e libertou gases tóxicos, conforme noticiou o Diario de Avisos, um jornal de Tenerife que é o decano da imprensa canária.
Tanto as autoridades como os peritos em vulcanologia têm acompanhado a evolução do vulcão, que fez deslocar para a ilha de La Palma muitos jornalistas, o que tem permitido um acompanhamento noticioso, sobretudo fotográfico, deste fenómeno.

A Grécia dá ajuda à economia francesa

O recente cancelamento do contrato que a França e a Austrália assinaram em 2016 para o fornecimento de submarinos, no valor de algumas dezenas de milhares de milhões de euros, foi um duríssimo golpe para a poderosa indústria de defesa francesa. A tensão entre americanos e franceses acentuou-se, pois os franceses sentiram-se traídos e daí que tivessem surgido muitas declarações apaziguadoras por parte dos americanos, havendo notícias de que Biden e Macron se iriam reunir por causa desta crise.
Por isso, a notícia hoje divulgada pelo jornal Le Télégramme de Lorient, de que o presidente Macron e o primeiro-ministro grego tinham ontem assinado um contrato para a construção de três modernas fragatas nos estaleiros do Naval Group em Lorient, antes conhecidos por DCNS ou Direction des Construction Navales, suscitou uma enorme euforia. Além disso, está ainda prevista a construção de três corvetas da classe Gowind, de 2500 toneladas, um navio que já está ao serviço ou prestes a entrar ao serviço nas marinhas de França, do Egipto e da Malásia, o que aumentará o valor global deste contrato.
Com esta encomenda a Grécia dá uma boa ajuda à economia francesa. Porém, não foi divulgado o esquema de financiamento deste contrato e, porque o montante da dívida externa grega é o mais elevado no espaço europeu, não se imagina quem possa avançar com mais estes créditos aos gregos. Por isso, não admirará que seja a França a construir e a financiar. Depois se verá…

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Quem poderá suceder a Angela Merkel?

As eleições legislativas alemãs que se realizaram no domingo eram esperadas com bastante expectativa porque os eleitores iriam escolher os 735 deputados para o Bundestag, de onde sairá o sucessor de Angela Merkel. Na tradição política alemã não é costume que um só partido obtenha a maioria de 368 deputados e, por isso, o processo de formação dos governos obriga a muitas negociações, alianças e coligações. Assim vai ser desta vez, embora num quadro de mudança, depois de dezasseis anos de governos dirigidos pelo CDU de Angela Merkel.
O partido mais votado foi o SPD de Olaf Scholz que teve 25.7% dos votos e conquistou 206 mandatos, enquanto o segundo partido mais votado foi a CDU de Armin Laschet que teve 24.1% dos votos e conquistou 196 mandatos. Há, portanto, um grande equilíbrio entre o centro-esquerda do SPD e o centro-direita da CDU e não se sabe qual deles vai conseguir fazer uma coligação de governo. O terceiro partido mais votado foi o Partido Verde de Annalena Baerbock que conseguiu 14.8% dos votos e 118 mandatos; o quarto foi o FDP, o partido liberal de Christian Lindner com 11.5% dos votos e 92 mandatos; o quinto foi o AfD, o partido populista de extrema-direita com 10.3% e 83 mandatos; o sexto foi o Die Linke de extrema-esquerda populista com 4.9% dos votos e 39 mandatos.
Tudo parece orientar-se para uma primeira negociação/coligação entre Verdes e Liberais que juntos representam 210 mandatos e, depois, numa negociação entre este grupo verde-liberal com cada um dos dois maiores partidos. De qualquer forma, o processo vai ser demorado e tanto Olaf Scholz como Armin Laschet podem vir a suceder a Angela Merkel, como sugere o Süddeutsche Zeitung, o maior jornal alemão, que na sua edição de hoje destaca em primeira página a fotografia dos dois possíveis chanceleres da Alemanha. Ou será que há espaço para uma terceira hipótese? Ou que tudo se complica e que a Alemanha tenha de recorrer a novas eleições?
Tudo pode acontecer e a isto é que se pode chamar política com geometria variável.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Eleições autárquicas: a lição e o aviso

As eleições autárquicas ontem realizadas decorreram com normalidade e foram a prova provada de que a democracia portuguesa está viva, pois a campanha eleitoral e as votações decorreram sem incidentes. 
Os portugueses escolheram livremente e mostraram que a alternância do poder é um valor importante e que responde à necessidade de mudança a que aspiram as pessoas e as comunidades. 
A possibilidade de escolher através do voto aqueles que devem governar em nome do povo é uma arma democrática e as eleições constituem a forma de satisfazer as naturais vontades de mudança. Há muitos anos, já Camões escrevera:

            Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
          Muda-se o ser, muda-se a confiança; 
          Todo o mundo é composto de mudança, 
          Tomando sempre novas qualidades.

Era assim no século XVI e é assim agora, isto é, o mundo é composto de mudança. Porém, lamenta-se tanta abstenção, o que constitui um aspecto negativo dos processos eleitorais a que os agentes políticos não têm querido dar resposta, pois quase sempre escolhem candidatos gerados pelos aparelhos e não as pessoas interessadas em prestar um serviço público à comunidade. Para muitos eleitores é tudo “farinha do mesmo saco” e, por isso, tornam-se indiferentes e acabam por não participar.  Os resultados de ontem não tiveram expressão nacional e não significam grandes mudanças, mas serviram para abalar alguns interesses instalados ou, como refere o jornal Público, as eleições abalaram o PS e animaram o PSD. A resposta às exigências das populações implica um poder autárquico muito dedicado a essas populações, o que nem sempre acontece, pois há muitos autarcas mais apostados no seu carreirismo político do que na satisfação das necessidades das pessoas – os transportes, a habitação, a limpeza urbana, o ambiente, a segurança, entre outras. Porém, muitos dos autarcas acomodam-se a pensar nas suas carreiras políticas e os eleitores já não engolem facilmente essas situações. Isso terá acontecido em Coimbra, no Funchal e em outros concelhos, mas sobretudo em Lisboa onde o excesso de confiança daqueles a quem as sondagens garantiam a vitória, os conduziu à derrota.
Foi uma grande lição e um acertado aviso, porque governar uma cidade é servir e não pode ser um trampolim para qualquer outras coisa.

sábado, 25 de setembro de 2021

Auf Wiedersehen: o adeus a Angela Merkel

A Alemanha tem eleições gerais amanhã para escolher o novo chanceler que substituirá Angela Dorothea Merkel, que exerceu esse cargo durante dezasseis anos. Serão eleitos 709 deputados para o Bundestag, sobretudo da CDU (centro-direita) e do SPD (centro-esquerda), mas o futuro chanceler resultará, como é habitual na política alemã, das coligações que forem acordadas.
Com 67 anos de idade, Angela Merkel deixa o seu cargo com um nível de popularidade interna da ordem dos 80%, enquanto no estrangeiro se sucedem as homenagens à mulher que se tornou o símbolo da estabilidade europeia desde que assumiu o cargo em 2005. Durante o seu mandato a senhora Merkel conheceu cinco primeiros-ministros do Reino Unido, quatro presidentes franceses, quatro presidentes americanos, sete primeiros-ministros italianos e quatro presidentes portugueses, tendo conquistado uma reputação e um capital de prestígio singular no actual xadrez da política mundial.
Um dos aspectos mais curiosos do seu desempenho político foi a sua relação com a França, com quem a Alemanha disputou a hegemonia europeia durante muitos anos, nomeadamente na guerra franco-alemã de 1870-71 e nas duas guerras mundiais. A boa relação entre a França e a Alemanha de Angela Merkel foi, provavelmente, o factor que mais contribuiu para a unidade e para estabilidade europeias e daí as homenagens da imprensa francesa que, apesar do seu espírito chauvinista não hesitou em usar a expressão Auf Wiedersehen em algumas das suas publicações.
Angela Merkel foi uma figura notável e inscreveu o seu nome na estreita galeria dos construtores da Europa, onde estão Konrad Adenauer, Robert Schuman, Jean Monnet, Jacques Delors e poucos mais.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O infeliz discurso do Jair em Nova Iorque

Jair Bolsonaro, o presidente da República Federativa do Brasil, foi até Nova Iorque para discursar na 76ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, tal como outros chefes de estado, mas uma boa parte da imprensa brasileira refere-se a essa sua viagem de forma muito desprestigiante e classifica o seu discurso como polémico e com distorsões e mentiras.
Nas suas edições de ontem a Folha de S. Paulo escreveu que “falácias e descrédito marcam ida de Bolsonaro à ONU”, o Estado de S. Paulo dizia que “Bolsonaro mente dez vezes na ONU” e O Globo destacava que “Presidente distorce factos sobre covid, economia e Amazônia”. O jornal Extra do Rio de Janeiro publicou a fotografia do presidente e diz que “mente que nem sente”. Pode perguntar-se como é possível que um país tão importante na comunidade mundial como é o Brasil, possa ser representado por uma personagem tão vazia como este Jair! De facto, quem o ouviu não teve dificuldade em perceber que o homem se deixou enredar em pura propaganda, o que o ridicularizou perante a Assembleia Geral das Nações Unidas.
Por acaso, também esteve nessa sessão o presidente português que, obviamente, o mundo ouviu muito atento... Antes passeara-se por Nova Iorque, sempre atrás das televisões, a tirar selfies, a fazer declarações redundantes e a insistir em lugares comuns. É uma ânsia de protagonismo exagerada. 
Porém, ao contrário do Jair, o nosso presidente não nos envergonha, embora estas coisas nos custem muito dinheiro. Um outro português que estava na sala era António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, cujo discurso apelou ao multilateralismo para vencer a pandemia e a crise climática.
Grande António Guterres!