terça-feira, 2 de julho de 2024

Costa só há um, o Diogo e mais nenhum

Que o António Costa, mais o Afonso Costa e o Gomes da Costa, mais todos os Costas do mundo, me desculpem, inclusive os Costas da minha família mas, depois do que vimos ontem, há que afirmar que “Costa só há um, o Diogo e mais nenhum”. Esta revelação começou a afirmar-se ontem no jogo contra a Eslovénia dos oitavos-de-final do Euro 2024, em que Diogo Costa fez uma defesa salvadora aos 115 minutos, quando o esloveno Sesko lhe surgiu isolado pela frente. Não tendo havido golos durante os 120 minutos de jogo, a decisão foi para os penaltis e Diogo Costa lá foi para a baliza para cumprir o seu papel, tendo defendido o primeiro, depois o segundo e, por fim, o terceiro. Nunca se vira nada como isto. Com intuição e com segurança, Diogo Costa defendeu tudo com “as mãos de Portugal”, como se lhe referiu o jornal A Bola. Não foi preciso defender mais porque os jogadores portugueses não falharam o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro penalti que marcaram. Depois de tanto sofrimento e tanta emoção desportivas, a selecção portuguesa estava apurada para os quartos-de-final do Euro 2024, em que defrontará a França.
Milhões de portugueses, excitados por longas horas de espaços televisivos, cansativos e repetitivos, apresentados por “jornalistas” medíocres e bajuladores, vibraram com as defesas de Diogo Costa e com a vitória portuguesa, que esteve tão comprometida.
Com 24 anos de idade, este atleta que nasceu em Rothrist, na Suiça, mas que cresceu em Santo Tirso, joga no F.C. Porto desde 2011 e, a partir de ontem, tornou-se o Costa mais conhecido e admirado de todos os Costas de Portugal.

R.I.P. Fausto Bordalo Dias

Deixou-nos aos 75 anos de idade o homem que foi considerado “um monumental criador de canções” e cuja obra maior foi o Por Este Rio Acima, provavelmente o mais importante disco da música portuguesa. Num tempo de grande criatividade musical em que se destacaram criadores famosos como José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco, aquele notável disco de Fausto como criador e cantautor, parece ultrapassá-lo a si próprio, pois permanece vivo desde 1982. 
Essa sua obra de referência explora o tema dos descobrimentos marítimos portugueses, um tema simultaneamente grandioso e polémico, tendo procurado inspiração na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e nos seus enredos, como por exemplo o medo, o horror, a escravidão, o sonho e a saudade, que exprime em canções como “O barco vai de saída”, “Navegar, navegar” ou “A guerra é a guerra”, em que se serviu de uma diversidade musical e instrumental invulgares, cujas raízes se encontram no folclore português e na música africana.
Fausto nascera em 1948 a bordo do paquete Pátria em pleno oceano Atlântico, quando o navio navegava de Lisboa para Luanda, tendo vivido em Angola até 1968, ano em que rumou a Lisboa para iniciar os seus estudos universitários. Consigo, trouxe o ritmo musical africano que passou a conjugar com a tradição da música popular portuguesa, que se tornaram marcas distintivas da sua obra.
Fausto Bordalo Dias partiu, mas deixou-nos o Por Este Rio Acima, para ouvirmos muitas mais vezes. Apesar de outros grandes destaques do dia, a morte de Fausto foi noticiada em primeira página pela imprensa portuguesa, designadamente pelo jornal Público, que dedicou três páginas ao "genial alquimista da música portuguesa".

segunda-feira, 1 de julho de 2024

R.I.P. Manuel Cargaleiro

Com 97 anos de idade faleceu ontem o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro, um dos mais importantes artistas plásticos do nosso tempo, a quem se atribui o mérito de ter renovado a azulejaria portuguesa.
O Diário de Notícias prestou-lhe uma justificada homenagem, ao noticiar o seu falecimento na primeira página da sua edição ce hoje. A sua obra teve sempre o reconhecimento da crítica e dispersa-se pela cerâmica, pintura, gravura, tapeçaria e desenho, embora o seu talento artístico se tivesse distinguido sobretudo na cerâmica, talvez a sua arte favorita, pois executou diversos painéis cerâmicos em edifícios, igrejas, jardins e escolas, com destaque para a estação de Champs Elysées-Clémenceau do Metropolitano de Paris (1995) e para a estação do Colégio Militar/Luz do Metropolitano de Lisboa (1988), embora as estações do Rato e da Cidade Universitária, em Lisboa, também tenham beneficiado das suas intervenções, ao transpor para painéis cerâmicos algumas obras relevantes da pintura de Arpad Szènes e de Maria Helena Vieira da Silva.
Desde 1957 que Manuel Cargaleiro vivia em Paris mas nunca esqueceu as suas raízes lusitanas que lhe serviam de inspiração, sobretudo na procura da harmonia das cores, tendo a sua obra sido apreciada pelos Presidentes da República Ramalho Eanes, Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa que condecoraram este homem cujo legado artístico é relevante no quadro da cultura portuguesa.
Eu sou modesto um admirador da sua obra, que se distingue no panorama da nossa arte contemporânea, que se expressou além-fronteiras, que vai perdurar e que continua a sensibilizar-me esteticamente.

domingo, 30 de junho de 2024

A origem das bombas que destruiram Gaza

A edição de hoje do diário Kuwait Times, que é o mais importante jornal em língua inglesa de todo o golfo Pérsico, destaca como título de primeira página que, desde o dia 7 de outubro de 2023, os Estados Unidos enviaram para as autoridades israelitas 14.000 bombas de 2.000 libras, isto é, bombas de cerca de 907 quilogramas de grande poder destruidor pois “podem rasgar concreto e metal espessos”.
Com base em informações recolhidas em fontes oficiais, tanto em Washington como em Gaza, o jornal informa que desde outubro de 2023, os Estados Unidos “transferiram pelo menos 14 mil bombas MK-84 de 2.000 libras, mais 6.500 bombas de 500 libras, cerca de 3.000 mísseis ar-solo Hellfire de alta precisão, 1.000 mísseis destruidores de bunkers e 2.600 bombas de pequeno diâmetro para lançar do ar, além de outros tipos de munições”. Este apoio atingiu 6,5 mil milhões de dólares e, apesar dos apelos internacionais para que cessasse o apoio militar a Israel, o jornal refere que “as quantidades anunciadas de fornecimentos militares sugerem que não houve quebra significativa no apoio americano a Israel”.
Estas informações estão em linha com o panorama de destruição na Faixa de Gaza, que as imagens televisivas nos mostram, mas também com os anunciados 37.834 mortos, sobretudo mulheres e crianças, anunciados pelas autoridades sanitárias de Gaza.
Como se conclui das informações do jornal, a administração de Joe Biden está totalmente alinhada com o regime de Benjamin Netanyahu e, portanto, é co-responsável pela desproporcionada e cruel repressão que está a ser feita ao povo palestiniano. Algumas declarações moderadoras de Joe Biden ou as múltiplas viagens de Antony Blinken ao Médio Oriente, não são mais do que simples actos de propaganda e de hipocrisia, embora tenham quem as apoie em algumas capitais europeias pois, também elas, vendem armas a Israel.
Este mundo anda mesmo muito perturbado…

Eleições francesas e futuras incertezas

Os franceses vão hoje às urnas e daí que o jornal La Voix du Nord, que se publica na cidade de Lille, em tom de solene proclamação, tenha escolhido a frase: “Aux urnes citoyens!”, como título principal da sua edição de hoje.
Estas eleições deveriam acontecer apenas em 2027, mas foram convocadas pelo presidente Emmanuel Macron após a derrota do seu partido nas recentes eleições de 9 de junho para o Parlamento Europeu, em que se verificou a surpreendente subida do Rassemblement National, o partido da extrema-direita que é presidido por Marine Le Pen.
As sondagens dão a vitória à extrema-direita, com hipóteses de conseguir uma maioria absoluta, o que pode mergulhar a França num cenário de instabilidade que pode contagiar a Europa, enquanto a coligação de esquerda da Nova Frente Popular pode chegar aos 29% e o partido liberal de Emmanuel Macron se ficará pelos 20%. A confirmarem-se estas sondagens, poder-se-à dizer que é uma tempestade política em França e que a segunda volta, que se realizará no dia 7 de julho, nada trará de novo. Macron deve ter sonhado que poderia ser um novo Napoleão inspirador dos franceses, exorbitou no seu protagonismo europeu e descuidou-se internamente, tendo os franceses percebido que ele não passa de um Napoléon de poche.
Porém, esta tempestade política francesa também irá produzir efeitos no conjunto da União Europeia e vai mostrar que não são apenas os franceses que estão descontentes com Macron. Certamente que, noutros estados-membros, também os seus nacionais não estão satisfeitos com o rumo que os seus dirigentes estão a dar aos assuntos políticos europeus, nomeadamente com a questão ucraniana, com os seus discursos belicistas e com o seu seguidismo em relação aos interesses americanos.
A derrota anunciada de Macron é, certamente, um pré-aviso para todos os europeus e, naturalmente, para os portugueses.

sábado, 29 de junho de 2024

A festa do Tour de France vai começar

O Tour de France é uma das mais antigas e mais participadas provas desportivas que se disputam no mundo e que este ano cumpre a sua 111ª edição, que começa hoje na cidade italiana de Florença e termina no dia 21 de julho na cidade francesa de Nice. Ao longo de 21 etapas e de 3.492 quilómetros, muitos deles em alta montanha, haverá 176 ciclistas distribuidos por 22 equipas a lutar para chegarem à meta à frente de todos os outros corredores.
O Tour de France 2024 regista a presença dos grandes nomes do ciclismo mundial – Tadej Pogacar, Jonas Vingegaard, Primoz Roglic, Remco Evenepoel, Mathieu van der Poel e Wout Van Aert – que não costumam correr juntos, pelo que esse facto é mais um factor a aumentar o entusiasmo pela competitividade da corrida, embora o jornal desportivo francês L’Équipe dê todo o favoritismo ao esloveno Tadej Pogacar que há poucas semanas ganhou a Volta à Itália.
Haverá três ciclistas portugueses em prova: João Almeida (12), Rui Costa (114) e Nélson Oliveira (157). De entre eles, será João Almeida, que é companheiro de equipa de Tadej Pogacar, aquele de quem se espera melhor desempenho e até uma boa classificação.
O Tour de France é uma festa para os franceses, talvez mais importante que as eleições legislativas que estão em curso e que os Jogos Olímpicos que virão depois. Muitos milhares de franceses estarão à beira das estradas a vibrar com a caravana ciclista e a apoiar os seus ídolos. A prova terá transmissão televisiva assegurada pelo canal Eurosport e, certamente, os espectadores continuarão a ter a possibilidade de acompanhar a parte desportiva da prova, bem como uma sempre interessante itinerância turística e cultural, que fazem das transmissões televisivas um espectáculo dentro do espectáculo.

António Costa dirige o Conselho Europeu

António Costa foi escolhido por uma maioria qualificada dos líderes dos 27 estados-membros para presidir ao Conselho Europeu a partir de Dezembro do corrente ano e essa escolha é altamente gratificante para Portugal que, em breve, vai ter dois dos seus mais destacados cidadãos a dirigir as Nações Unidas e a União Europeia.
Num discurso proferido em 1965, o ditador Salazar tinha afirmado que Portugal era um país “sem alianças, orgulhosamente só” e aqui temos a prova que o regime instalado com o 25 de Abril de 1974, além da Liberdade, da Democracia e do fim da guerra colonial, ainda nos trouxe o respeito da comunidade internacional.
Embora o presidente do Conselho Europeu não tenha funções executivas e seja um coordenador de 27 líderes, de 27 vaidades, de 27 sensibilidades políticas e de 27 egoismos nacionalistas, o seu desempenho vai ser muito importante para a União Europeia, num tempo em que a França e a Alemanha estão muito fragilizadas, em que a Itália quer maior protagonismo, em que se discutem opções entre “canhões ou manteiga”, em que é necessário parar com a guerra na Ucrânia, em que os americanos estão em pânico perante o seu futuro quadro presidencial, em que os chineses continuam a marchar firmemente para a liderança do mundo e em que os africanos desesperam por um melhor futuro para os seus países.
António Costa vai ter que falar com muita gente, fazer muitas viagens, procurar muitos equilíbrios e consensos, mas os líderes europeus não duvidaram da sua capacidade, nem da sua inteligência política, nem da sua moderação. Lamentavelmente, foi em Portugal que um sistema viciado e vicioso mais procurou destruir António Costa, afastando-o do governo e levantando suspeitas sobre a sua honorabilidade, sem que houvesse indícios ou provas. Muita gente de duvidosa sensatez teve que “engolir um sapo”. Porém, o primeiro-ministro Luís Montenegro esteve à altura das suas obrigações e deu-lhe todo o apoio. Nós também.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

O debate-empate entre Biden e Trump

O debate que os candidatos presidenciais americanos sustentaram ontem à noite em Atlanta, não parece ter tido consequências importantes na corrida eleitoral. Os juízos opinativos da imprensa americana estão em linha com o alinhamento dos próprios jornais, em que uns apoiam Biden e outros apoiam Trump, pelo que os efeitos políticos do debate só serão conhecidos mais tarde. Na sua edição de hoje o jornal nova-iorquino Newsday diz que o debate presidencial foi um combate de palavras, o que significa que não se pode classificar o debate como decisivo, enquanto se escreveu que o debate não foi mais do que “90 minutos miseráveis”.
Porém, alguns títulos e algumas afirmações que se podem ler nas entrelinhas de diversa imprensa, parecem mostrar que Joe Biden esteve pior que Donald Trump. O jornal New York Post diz que “assistimos ao fim da presidência de Biden”, que esteve triste, resmungão e até tropeçou, enquanto o britânico Evening Standard escreveu que “Biden estragou tudo”.
O facto é que os Democratas parecem ter ficado em pânico com o desempenho de Joe Biden, havendo quem tenha começado a sugerir a nomeação de um candidato mais jovem para a convenção de agosto do Partido Democrata, lembrando talvez o sucesso histórico de jovens como John Kennedy ou Bill Clinton. 
Donald Trump foi classificado como “o pior presidente da história americana” e foi acusado, uma vez mais, de ter sido o responsável pela insurreição de 6 de janeiro de 2021.Os dois candidatos divergiram em relação à guerra na Ucrânia, pois Biden disse que Putin era “um criminoso de guerra” que quer estender a guerra até aos estados vizinhos que pertencem à NATO, enquanto Trump se referiu a Zelensky como “o maior vendedor do mundo”.
Foi um combate de palavras, ou um debate-empate, que o mundo seguiu com muita atenção e ficado à espera da reacção dos eleitores americanos.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

EUA: Biden e Trump em debate televisivo

Hoje à noite, na cidade de Atlanta vai acontecer o primeiro confronto presencial da campanha presidencial americana entre o candidato e actual presidente Joe Biden e o candidato e ex-presidente Donald Trump. A América e o mundo estarão atentos às palavras, aos gestos, às reacções e às gaffes destes dois homens de 81 e 78 anos de idade, que nas eleições do dia 5 de novembro de 2024 procuram ser escolhidos para dirigir a mais poderosa nação do mundo, num tempo de grande perturbação, em que há quem afirme que estamos no limiar de uma terceira guerra mundial.
O debate é organizado pela estação televisiva CNN e, como já foi estudado pela academia, a transmissão dos debates eleitorais tem um poderoso efeito sobre as opções do eleitorado americano. Assim, ambos os candidatos aceitaram o convite da CNN para um debate de 90 minutos que, inevitavelmente, incluirá dois intervalos comerciais, tendo concordado em aceitar as regras e o formato do debate, que ocorrerá sem a presença de público (para evitar aplausos ou apupos) e em que haverá um só microfone ligado de cada vez (para garantir que não haja interrupções, nem que os discursos se sobreponham).
Numa altura em que a luta eleitoral em França está muito acesa, com os franceses a ir às urnas no próximo domingo para escolher os 577 membros da sua Assembleia Nacional, o jornal francês La Dépêche du Midi dedica a sua edição de hoje ao debate entre Trump e Biden e à “nuit américaine”, mostrando como é importante para o futuro do mundo.
A pouco mais de quatro meses das eleições, as sondagens mais recentes mostram que os dois candidatos estão tecnicamente empatados, com Joe Biden a ter 44% das intenções de voto e Donald Trump a receber 43%, embora Joe Biden tenha aprovação negativa em 45 dos 50 estados americanos. 
Neste contexto de incerteza, o debate desta noite é mesmo muito importante.

domingo, 23 de junho de 2024

Uma justa vitória e a alegria portuguesa

A selecção nacional de futebol bateu ontem em Dortmund a selecção turca por 3-0, teve uma prestação que um jornal desportivo português classificou como “exibição de luxo” e já está apurada para a fase seguinte do Euro 2024. 
Foi uma tarde memorável para os adeptos portugueses do futebol, não só pela exibição e pelo resultado, mas também porque o entusiasmo de cerca de 12 mil portugueses que estiveram no estádio calou os 40 mil turcos que foram surpreendidos por uma equipa muito talentosa e muito eficaz. “O apoio que sentimos foi brutal”, disse Bernardo Silva, que marcou o primeiro golo português.
Todos os jornais portugueses, generalistas ou desportivos, destacam hoje este grande êxito futebolístico com manchetes e fotografias, mas a surpresa surge na edição do diário francês L’Équipe, que publicou uma fotografia da festa portuguesa a toda a largura da primeira página e escolheu a frase “Ronaldo encanta”, acrescentando em sub-título que “CR7 se tornou o melhor passeur da história do Euro, ao oferecer um golo a Bruno Fernandes”.
O seleccionar Roberto Martinez, que até aprendeu português e canta o hino nacional, referiu-se ao segundo golo de Portugal dizendo que “esta jogada devia ser mostrada em todas as academias”, pois mostra que o futebol é um jogo de equipa e que Ronaldo, aos 39 anos de idade, é um exemplo para os mais jovens.
Naturalmente, todos os portugueses estão satisfeitos e felizes com a nossa selecção de futebol, embora "ignorem" os sucessos desportivos de atletas como Fernando Pimenta e João Almeida, entre outros. Contudo, é pena que nos tempos que correm não haja muitos mais temas para além do futebol, que façam os portugueses felizes.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

As práticas culturais portuguesas em Goa

No século XVI o nosso país foi uma potência marítima à escala global e os portugueses “por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana”, tendo sido pioneiros do primeiro esboço da moderna globalização e do primeiro encontro de culturas entre o ocidente e o oriente. Passados cerca de quatro séculos, já pouco resta desse tempo de hegemonia económica e tecnológica dos portugueses, ou da influência cultural que exerceram em tantas geografias distantes.
Essa realidade é observável em diversas regiões marítimas da orla do oceano Índico e, mais recentemente, começa a observar-se também em Macau, em Timor e em Goa.
Por isso, quando na sua edição de hoje o jornal O Heraldo, que desde 1900 se publica em Goa, inclui com destaque de primeira página um anúncio sobre as festas de São João que se realizam em Utorda Beach, no distrito de Salcete, não é apenas uma curiosidade, mas também é um exemplo da sobrevivência da língua portuguesa num território cujas línguas oficiais são o inglês e o concanim. Festejar o São João e não o Saint John, é um pequeno acontecimento mas que é culturalmente relevante, pois mostra que algumas práticas culturais portuguesas têm sobrevivido à natural e progressiva indianização cultural do estado de Goa que, pela natural evolução da vida local, vem acontecendo desde 1961.

Sanjoaninas: a festa maior dos Açores

As nove ilhas do arquipélago dos Açores constituem uma região autónoma integrada na República Portuguesa desde 1976. No conjunto das ilhas ou na especificidade de cada uma, os seus espaços físicos e culturais distinguem-se e impressionam o visitante, quer pela exuberância da paisagem marítima, quer pela singularidade das suas práticas culturais, tanto religiosas como profanas.
De entre todas as ilhas destaca-se a ilha Terceira, pelo seu relevante protagonismo na História de Portugal e por ser a mais “festeira” de todas as ilhas do arquipélago, havendo uma expressão popular que afirma que “os Açores são oito il,has mais um parque de diversões” (que é a ilha Terceira). É na ilha Terceira que se apresentam os bailinhos de Carnaval, que desfilam as marchas populares e que o povo vibra com as touradas à corda mas, sobretudo, se organizam as grandes festas no Verão, em especial nas cidades da Praia da Vitória e de Angra do Heroísmo. Na cidade de Angra, que a UNESCO classificou em 1983 como património da Humanidade, festejam-se as famosas Sanjoaninas, que são consideradas as maiores festas lúdicas dos Açores e que, nesta edição de 2024, celebram os 50 anos do 25 de Abril, sob o tema “Angra: teu nome é Liberdade”.
Entre os dias 21 e 30 de junho, as Sanjoaninas 2024 vão encher as ruas da cidade de Angra do Heroísmo com concertos, gastronomia, tauromaquia, desporto, desfiles, exposições e marchas populares, num encontro de tradição e modernidade em que a marca libertadora do 25 de Abril vai estar presente.
Para quem alguma vez assistiu às Sanjoaninas, facilmente concluiu que a ilha Terceira e a cidade de Angra são mesmo um parque de diversões…

quinta-feira, 20 de junho de 2024

As alianças militares na Ásia Oriental

O líder russo Vladimir Putin visitou a Coreia do Norte esta semana, tendo sido a primeira visita que fez ao país nos últimos 24 anos embora, em menos de um ano, tenha tido um segundo encontro com Kim Jong-un.
Putin foi recebido na cidade de Pyongyang em festa e como um grande amigo, não lhe faltando um tapete vermelho e uma grande cerimónia na Praça Kim Il-sung, com banda militar e danças sincronizadas, como mostra a fotografia publicada pelo The Guardian. Os dois países são aliados desde o fim da guerra da Coreia (1950-1953), mas tornaram-se mais próximos desde a intervenção russa na Ucrânia, que teve o apoio do regime de Kim Jong-un.
A Coreia do Norte é um importante produtor de armamento e tem seguido uma política militarista, agressiva e anti-americana, pelo que este encontro entre Putin e Kim Jong-un, causou natural alarme em Washington e Seul, pois vai muito para além do fornecimento de armas e munições, constituindo uma aliança estratégica que foi formalizada num acordo de parceria global já assinado, que prevê a prestação de ajuda mútua em caso de agressão contra qualquer das partes. Nessa altura, segundo refere a imprensa, Putin referiu declarações dos Estados Unidos e de outros países da NATO sobre o fornecimento à Ucrânia de armas de longo alcance, aviões F-16 e outro armamento para atacar o território russo. Na mesma linha tem actuado Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO, que usa e abusa de um discurso agressivo para o qual ninguém o mandatou. 
Portanto, temos a escalada em marcha. Provavelmente só as eleições nos Estados Unidos, em França e no Reino Unido poderão mudar o preocupante rumo dos acontecimentos.

Felipe VI e os seus dez anos de reinado

No dia 19 de junho de 2014 o parlamento espanhol proclamou Felipe VI como Rei de Espanha, depois do seu pai Juan Carlos I ter abdicado, num momento em que o então chefe de Estado estava envolvido em polémicas relacionadas com a sua vida íntima e comportamentos pessoais considerados pouco éticos, a que se somaram suspeitas de corrupção que afectavam também outros membros da família real. Felipe VI tinha então 46 anos de idade e, desde então, tem procurado regenerar a imagem da Monarquia, através de medidas concretas de que se destaca a rejeição da herança material do seu pai e o corte com abusos que aconteciam até na sua própria família.
De acordo com a Constituição de 1978, a Espanha é constituída por 17 comunidades autónomas e duas cidades autónomas, dotadas de autonomia legislativa e executiva e, no seu artigo 2º, reconhece e garante “o direito à autonomia das nacionalidades e regiões que compõem o Estado”, dentro da “indissolúvel unidade da Nação espanhola, pátria comum de todos os espanhóis”. Desta forma, a Espanha tem o espanhol como língua oficial, mas tem quatro línguas co-oficiais, que são faladas em seis das 17 comunidades: galego, basco, catalão e aranés. Significa que, perante um quadro tão diverso, o Rei é o símbolo maior de unidade nacional.
Ontem assinalaram-se dez anos de reinado de Felipe VI, com muitas cerimónias e celebrações, parecendo ter havido uma grande unanimidade em torno da sua “ejemplaridad, lealtad y transparencia”, como mostram as primeiras páginas dos principais jornais espanhóis, como por exemplo o Heraldo de Aragón. Porém, a vida política de Felipe VI não tem sido fácil, porque embora tenha havido apenas dois primeiros-ministros durante o seu reinado, respectivamente Mariano Rajoy (PP) e Pedro Sánchez (PSOE), tem-lhe cabido manter um papel de equilíbrio na crise resultante das reivindicações independentistas da Catalunha e na gestão de todas as assimetrias regionais do Reino de Espanha. 
No entanto, o que todos os portugueses desejam é que a Espanha se conserve estável, próspera, pacífica e, sobretudo, seja um bom vizinho.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Um feliz início português no EURO 2024

Ontem aconteceu o arranque português do EURO 2024 com uma vitória “arrancada a ferros” sobre a República Checa, a que agora se vem chamando Chéquia. Antes não se falava noutra coisa que não fosse esse jogo, os jogadores e os adeptos, com cansativas e nada imaginativas reportagens televisivas apresentadas por inúmeros jornalistas que as suas empresas, certamente muito prósperas, fizeram deslocar para a Alemanha. 
Se Luís de Camões cá estivesse, certamente, iria repetir os seus tão cantados versos da estrofe terceira do Canto I de Os Lusíadas:
         Cesse tudo o que a Musa antiga canta 
         Que outro valor mais alto se alevanta.
De facto, "outro valor mais alto se alevantou" e não se falou noutra coisa, como se não houvesse acontecimentos e notícias em Portugal, nem guerra na Ucrânia e em Gaza, nem tensões em Taiwan e no mar da China Meridional, nem eleições em França e no Reino Unido, nem disputas entre Biden e Trump, nem ondas de calor em várias regiões dos Estados Unidos, nem incêndios no Pantanal. Os media e os jornalistas portugueses estavam em Leipzig obcecados com a selecção nacional, acompanhavam os treinos e tratavam de excitar os seus auditórios.
Veio o jogo e correu bem, porque o jovem Francisco Conceição, que entrara menos de dois minutos antes, marcou o golo da vitória aos 92 minutos. Todos vimos esse momento decisivo, que foi um alívio para milhões de portugueses! Os jornais portugueses, generalistas ou desportivos, deram destaque fotográfico a esse momento.
Como curiosidade, a equipa portuguesa bateu dois recordes: Cristiano Ronaldo tornou-se o primeiro atleta a jogar seis fases finais de Europeus de futebol e, com 41 anos e 113 dias de idade, Pepe passou a ser o mais velho jogador de sempre a jogar num Europeu.
Segue-se a Turquia. Voltaremos a falar destes assuntos futebolísticos.