quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Um mercado da arte que surpreende

A leiloeira Christie’s vendeu em Nova Iorque, após cerca de seis minutos de intensa licitação, ou “feroz licitação” como se lhe referiu a BBC, um tríptico do pintor britânico Francis Bacon que foi arrematado por 142,4 milhões de dólares (106 milhões de euros), transformando-se na obra de arte mais cara do mundo. O preço pago pela obra intitulada "Três estudos de Lucian Freud" supera o preço pago pelo quadro "O Grito", do artista norueguês Edvard Munch, que atingiu 119,9 milhões de dólares (89,1 milhões de euros), num leilão organizado pela Sotheby’s em Maio de 2012. Como é habitual nestes casos, o nome do comprador permanece em segredo. Este leilão constituiu um caso surpreendente de dinamismo do mercado internacional da arte e, por isso, diversos jornais espanhóis e franceses destacaram essa notícia.
Apesar da crise mundial, o mercado da arte continua a revelar-se muito atractivo para os coleccionadores e para os investidores, sobretudo em relação à arte do século XX que tem dominado o mercado e registado os preços mais elevados, designadamente nos domínios do impressionismo, da arte moderna e da arte do período pós-guerra. No que respeita aos compradores, que até há pouco tempo eram americanos e europeus, o mercado regista agora a chegada de chineses, russos e indianos, o que também tem contribuido para o seu dinamismo. Assim, calcula-se que o mercado internacional da arte movimente anualmente cerca de 43 mil milhões de euros, o que representa cerca de 25% do PIB português. Por cá, embora tenhamos uma escala completamente diferente e haver quem se esteja a "desfazer dos anéis", o mercado da arte está como o resto, isto é, sem andamento que se veja.

Haja quem mande calar o Barroso e o FMI

Na sua imensa sabedoria o povo diz que “quem muito se abaixa mostra o rabo” e na realidade, muito do que de catastrófico nos está a ser imposto resulta de uma excessiva passividade das nossas autoridades face às exigências dos credores, dos alemães e da troika. As recentes palavras de Barroso e os recados do FMI vão nesse sentido e demonstram o nível de submissão a que nos deixamos chegar. Ouvimos e calamos. Sem reacção. Com cobardia. Ao fim de 30 meses de austeridade e de acentuada degradação da situação económica e social, está à vista o monumental falhanço das políticas impostas pela troika que servilmente têm sido por cá adoptadas, ao mesmo tempo que se acentua a pressão com que nos humilham e que fere a nossa dignidade nacional. Nem a Espanha, nem a Itália, nem a Grécia ou a Irlanda, alguma vez aceitaram este tipo de humilhante relação que nos envergonha e que os nossos dirigentes aceitam sem pestanejar. As contínuas pressões de Merkel, Lagarde ou de Barroso são inaceitáveis e são intromissões intoleráveis na nossa soberania, mesmo que esta esteja diminuida. É preciso dizer-lhes para se calarem. Que queremos ser respeitados no quadro do projecto de solidariedade europeia. A nossa história tem altos e baixos, mas poucas vezes foi tão maltratada. É preciso ser muito claro: o Primeiro-Ministro e o Presidente da República são os maiores responsáveis pela humilhante situação por que passamos, ao alinharem na política do bom aluno que aplica uma austeridade desproporcionada e que, em vez de protegerem os portugueses como é seu dever em resultado do voto que receberam, têm contribuido para o empobrecimento do nosso país, para a destruição do tecido económico, para a degradação da vida social e para a destruição da esperança em dias melhores. Já lá vão 30 meses desde que nos disseram que nada disto nos aconteceria. Vejam o que sucedeu e tomem as devidas consequências. A bem da Nação.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Veterans Day 2013

Ontem, dia 11 de Novembro, comemorou-se em todo o território dos Estados Unidos o Dia dos Veteranos de Guerra ou Veterans Day, um feriado nacional em que se homenageiam aqueles que serviram nas Forças Armadas Americanas. É um grande dia de exaltação patriótica e de unidade para os americanos. Por isso, todos os jornais que se publicaram hoje no país, dedicaram alargadas reportagens às comemorações e quase todos com destaques de primeira página e muitas fotografias alusivas ao acontecimento. O Veterans Day começou a ser celebrado nos Estados Unidos em 1947 e com as suas paradas, discursos, romagens e sessões solenes, enquadradas por marchas militares, bandeiras, uniformes e medalhas, faz parte da cultura dominante da América.
Aqui em Portugal não temos essa tradição por razões diversas e complexas, apesar de termos provavelmente mais de um milhão de antigos combatentes e de já ter havido algumas tentativas para haver um dia que lhes fosse dedicado e em que os portugueses os pudessem homenagear, mas essa iniciativa ainda não faz parte da cultura dominante portuguesa. Assim, já que não temos o nosso Veterans Day e que não há condições para homenagear aqueles que serviram as Forças Armadas, que ao menos houvesse algum respeito por elas. Não é isso que faz o governo e a sua rapaziada, em especial, o ministro branco que, ignorante dessas coisas militares e arrogante por natureza, as afronta repetidamente com um autoritarismo serôdio, para além de desconhecer os seus valores, a sua ética e a sua dignidade. É uma triste personagem que não tem estatuto intelectual nem político para dirigir as nossas Forças Armadas que, no quadro da NATO, são com toda a justiça respeitadas pela sua competência.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O rei vai nu

Ao fim de cerca de 30 meses de governação, começa a ser altura de dizer que o rei vai nu e que, no nosso país, tudo ou quase tudo está muito pior do que estava em Maio de 2011, porque o desemprego aumentou, o défice não diminuiu, a dívida agravou-se, as famílias empobreceram, os jovens estão a emigrar, o pequeno comércio faliu e não há investimento. Vivemos bem pior, embora o número de multimilionários tenha aumentado mais de 10% num só ano, mas isso nem sequer envergonha quem nos governa. Os nossos governantes – o “bando de meninos”, como lhes chamou António Lobo Antunes – deixaram-se humilhar pelos diktats da troika, levados pela sua impreparação, incompetência, ignorância, deslumbramento, irresponsabilidade e fanatismo ideológico. Isso tem sido a nossa desgraça, que o novo-riquismo de Barroso e Constâncio, que são a projecção internacional deste tipo de gente, tanto têm apoiado. O ataque ao Estado social é permanente e a nossa sociedade está decadente e vive amedrontada, pois não se vê uma estratégia nem um rumo para sair deste atoleiro. Eles não previram a recessão, nem são capazes de sair dela. Em vez de atacarem as causas do excesso da despesa que são as PPP, os juros especulativos que nos impõem, as rendas excessivas do sector da energia ou a proliferação de institutos públicos e empresas municipais, atiram-se aos pensionistas e aos funcionários públicos, com medidas socialmente inaceitáveis. Não toleram o Tribunal Constitucional nem quem lhes modere os apetites. Mentem descaradamente e têm medo de andar na rua. Esperava-se que os nossos eleitos defendessem os portugueses, mas revelam uma insensibilidade gritante e ofendem os seus legítimos direitos. Estão ao lado dos especuladores e não são capazes de mobilizar o país. E, no meio desta quase tragédia que tem sido esta governação Passos-Portas ou Portas-Passos, ainda há quem diga que “vamos no bom caminho”, ao mesmo tempo que se ouvem os aplausos ou os silêncios do palácio de Belém...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A catástrofe que passou pelas Filipinas

O tufão Haiyan passou pelas Filipinas provocando uma catástrofe traduzida num número estimado de dez mil mortos e num brutal rasto de destruição material, embora o balanço final ainda esteja por fazer. Baptizado localmente como Yolanda, o tufão parece ter sido a maior tempestade tropical alguma vez gerada no nosso planeta, pelo menos desde que há registos, tendo os ventos atingido velocidades superiores a 370 km por hora e as ondas superado os 15 metros de altura. As chuvas torrenciais e os ventos ciclónicos geraram o caos nas províncias do sul do país. Milhares de casas foram destruidas e muitas aldeias foram literalmente varridas. A electricidade e as comunicações foram cortadas. Segundo relata a edição do Manila Standard Today, a cidade de Tacloban, na província de Leyte, “foi totalmente destruida” e há centenas de cadáveres espalhados pelas ruas, verificando-se muitas acções de pilhagem nos supermercados e nos centros comerciais desta cidade de 200 mil habitantes, em busca de comida, arroz, leite e outros bens alimentares. Embora o arquipélago das Filipinas seja uma região em que frequentemente ocorrem vários tipos de calamidades naturais, incluindo terramotos, tsunamis e tufões, nenhuma delas foi tão grave quanto o tufão Haiyan.
Nestas emergências é habitual mobilizar-se a ajuda e a solidariedade internacionais e, por isso, há diversos países e organizações humanitárias que estão a caminho das Filipinas, pois estima-se que haja 3 ou 4 milhões de desalojados, muitos deles isolados e desesperados, sem assistência médica nem comida, nem electricidade nem nada. Uma calamidade.

domingo, 10 de novembro de 2013

A Venezuela é uma fábrica de "misses"

A Venezuela está a enfrentar uma grave crise económica e social, com uma inflação que já vai nos 48% e com a falta de muitos produtos básicos nos seus circuitos comerciais, daí resultando a progressiva deterioração do seu tecido social e da tranquilidade pública. O controverso Presidente Nicolás Maduro, que há poucos meses sucedeu a Hugo Chávez, tem procurado travar a degradação da qualidade de vida dos venezuelanos, não só através da importação de bens alimentares e de higiene, mas também pela adopção de medidas políticas de características emocionais. Há dias decretou o dia 1 de Novembro como o dia da chegada do Natal para que a felicidade chegue ao povo mais cedo e para que seja criado um ambiente de festa que pacifique o país e que derrote a amargura. Nesse sentido, até criou a Secretaria de Estado da Suprema Felicidade Social, encarregada da gestão de todas as actividades relativas aos projectos sociais desenvolvidos pelo governo.
Até que ontem, no Crocus City Hall em Moscovo, a venezuelana Maria Gabriela Isler foi consagrada como Miss Universo e, de repente, o país passou da amargura à euforia, até porque na Venezuela os concursos de beleza são um motivo de orgulho nacional e foi a sétima vez que uma representante venezuelana venceu o concurso. Por isso, o país é considerado uma "fábrica de misses", porque em 62 anos de história deste concurso, só os Estados Unidos conseguiram mais vitórias (oito).  Nicolás Maduro já congratulou a vencedora e o país entrou em verdadeira euforia, com todos os jornais venezuelanos a apresentar a fotografia de Maria Gabriela Isler e a destacar a notícia. Eis, assim, como uma só miss pode animar tanta gente!

 

Espanha também é vítima do aparelhismo

Na generalidade dos países democráticos, os vencedores das eleições instalam-se no aparelho de Estado por direito próprio, mas criaram o hábito de levar consigo uma multidão de correlegionários e de amigos para ocupar os chamados lugares de confiança. É que existem lugares para todos, desde que pertençam ao partido. É um prémio de militância. Um emprego dos bons.
Em Portugal tem sido assim e os gabinetes ministeriais e as direcções gerais enchem-se de assessores e de técnicos, as empresas públicas renovam-se de administradores e directores, as autarquias e as empresas municipais dão emprego a quem faz parte ou apoiou o partido e, quando necessário, criam-se comissões, institutos e fundações. Esta gente gasta rios de dinheiro. Sempre que se altera o ciclo político é um fartote indiscritível de tacharia que, em elevado grau, também tem sido responsável pelo descalabro das nossas finanças públicas. Em Espanha passa-se o mesmo fenómeno e talvez em grau mais absurdo, pois segundo revela hoje a edição do El Mundo, os partidos políticos dão emprego directo ou indirecto a 145 mil espanhóis. É um número espantoso. São verdadeiras “fábricas de emprego” que vivem dos dinheiros públicos, refere o jornal. Pagam salários a muita gente, onde se incluem os membros do governo, os deputados das 19 câmaras representativas existentes e os 8116 autarcas, muitos deles isentos de obrigações fiscais. Desde que começou a crise, esse número passou de 27.600 para 39.500, a mostrar que os sacrifícios não são para os políticos. Porém, a estes números há que juntar mais 20 mil assessores contratados a dedo como pessoal de confiança (sendo que a sua maior parte são “familiares dos políticos” e membros dos partidos), para além de muitas outras ocupações que o El Mundo destaca e que totalizam 145 mil empregos! Eu julgava que éramos vítimas do nosso aparelhismo que faz deputados, assessores, técnicos especialistas e até secretários de Estado com 20 anos de idade, mas afinal em Espanha ainda parece ser pior.

sábado, 9 de novembro de 2013

Um caso raro de prestígio reconhecido

Exceptuando as gentes do mundo do futebol e, em especial, os casos de Cristiano Ronaldo e José Mourinho, só em raríssimos casos a imprensa internacional tem destacado acontecimentos ou personalidades portuguesas nas suas primeiras páginas. Ontem, aconteceu isso, quando o novo Presidente da Câmara Municipal do Porto foi notícia na primeira página da edição internacional do diário norte-americano The New York Times, que é um dos mais influentes jornais mundiais. É um caso absolutamente raro, provavelmente único nos últimos anos. O jornal destaca a vitória de Rui Moreira nas eleições autárquicas de 29 de Setembro, a que se apresentou como candidato independente e sem o apoio de máquinas partidárias, tendo conseguido um resultado praticamente sem precedentes em Portugal e em quase toda a Europa ocidental: ser eleito Presidente da Câmara de uma grande cidade, sem pertencer a um partido político e a criticar o aparelhismo dos partidos políticos.
O jornal aponta Rui Moreira como um factor de esperança democrática em Portugal e até no espaço político europeu, onde os partidos políticos tradicionais estão a ser vistos com cada vez mais indiferença pelos eleitores que os associam à corrupção, ao desemprego e às políticas de austeridade, salientando a sua posição sobre a crise económica e a crise de liderança e de ideais que se vive na Europa, onde os partidos populistas ou fascisantes tendem a afirmar-se na Grécia, na Itália, na França e na Grã-Bretanha. Além disso, o jornal salienta que Rui Moreira rejeita os vícios do aparelhismo e defende que o nosso país precisava de um programa de ajustamento, mas considera que "o que aconteceu em Portugal foi uma overdose" de austeridade. Este homem é diferente e pode ser uma janela de oportunidade neste lusitano imbróglio. Foi isso que o The New York Times percebeu e destacou.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ele vive abaixo das suas possibilidades

Chama-se São Pedro do Rio Seco o local onde veio ao mundo quando a segunda guerra mundial já tinha terminado há alguns meses e eram altas as expectativas quanto aos tempos de paz que se aproximavam. O rapaz cresceu e estudou. Foi um aluno de excepção na Faculdade de Ciências e cumpriu o serviço militar na Marinha. Homem discreto, atento e inteligente, decidiu-se por uma carreira empresarial que teve muito sucesso, mas porque é solidário e generoso, não esqueceu as suas origens e tem dado o seu contributo para a valorização do seu torrão natal.
Atento observador do mundo e verdadeiro filósofo da sociedade contemporânea, juntou as suas regulares crónicas da blogosfera e publicou-as como “O Mundo em transição – Reflexões sobre crescimento, população, poluição e recursos naturais”. É um livro notável, escrito por um homem que sabe e que pensa, o que começa a ser raro no panorama editorial português.
A propósito dessa iniciativa, ontem juntou muitos amigos, figuras da cultura e da comunicação social, conterrâneos e colegas, jornalistas e companheiros de armas. Foi um notável acontecimento social e cultural, proporcionado por um homem notável que tem sabido viver “abaixo das suas possibilidades”. Foi na rua Ivens, ali ao Chiado, nas instalações do Grémio Literário, o clube criado em 1846 e que teve Alexandre Herculano como seu sócio nº 1. Tive o grato prazer de estar com o L.Q., que conheço e admiro desde há 45 anos.
 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O insulto afasta o desejável consenso

Nas últimas semanas têm sido produzidas algumas afirmações de precipitado optimismo, com base em dois indicadores que registaram uma evolução positiva: o produto cresceu 1,1% no segundo trimestre de 2013 face ao trimestre anterior e, em Setembro, a taxa de desemprego situou-se nos 16,3%, ligeiramente abaixo dos 16,5% registados em Agosto. Estes indicadores trouxeram algum ânimo aos nossos dirigentes. Assim, há um mês atrás, numa entrevista concedida a um jornal sueco, o Presidente da República afirmou que “Portugal já saiu da recessão e apresenta o maior crescimento da Europa”. Depois, o ministro Portas passou a falar em “sinais positivos”, dizendo que “a economia começa a dar sinais de recuperação”, que "é possível que Portugal esteja a poucas semanas de saber oficialmente que saiu de uma recessão técnica” e que “em Junho de 2014 podemos viver uma espécie de 1640 financeiro”. O ministro Lima, apesar de ser mais comedido e mais conhecedor do que o seu pupilo, foi na onda e falou em “milagre económico”. Infelizmente a realidade é outra e só a sazonalidade e a maciça emigração sustentaram aqueles sinais. Poucos acreditam que, com este tipo de austeridade, os desejos de retoma se transformem em realidade, com excepção dos que se sentam na primeira fila das bancadas parlamentares dos partidos da maioria, eventualmente à espera de uma qualquer promoção. Esses aplaudem em delírio. E é esta rapaziada que, perante o ultimato da troika a exigir um compromisso político com a oposição, adopta um intolerável discurso – agressivo, provocatório e insultuoso – que nos chega a casa através das emissões em directo do canal Parlamento. Não é de agora, mas nos últimos tempos o insulto quase tem feito parte da ordem de trabalhos. Assim, nunca haverá consenso, nem o desejável compromisso de que o país carece. Assim, só novas eleições (e outros deputados mais maduros e menos panfletários) poderão resolver este imbróglio.
 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O farol da Barra: património e memória

A edição de hoje do jornal Correio que se publica na cidade de Salvador, a capital do Estado da Bahia, dedica a sua primeira página ao arranjo paisagístico que vai enquadrar o forte e o farol da Barra, que se localizam à entrada do porto de Salvador, na Bahia de Todos-os-Santos. Este farol foi o primeiro farol do Brasil e, também, de todo o continente americano.
Em finais do século XVII aquela baía era um dos mais frequentados portos do Brasil colonial e, quando em 1696 se iniciou a reedificação do forte de Santo António da Barra, que fica à entrada do porto, foi instalado no seu interior um farol constituído por um torreão quadrangular encimado por uma lanterna de bronze, envidraçada e alimentada a óleo de baleia. Essa instalação começou a funcionar em 1698, passando a ser chamada como Vigia da Barra ou farol da Barra. O farol da Barra é, portanto, o pioneiro dos faróis do continente americano, até porque o mais antigo farol dos Estados Unidos só foi construído em 1716 em Little Brewster Island, à entrada do porto de Boston.
O arranjo paisagístico que enquadra o farol é um bom serviço prestado à preservação do património histórico brasileiro, mas é também uma boa memória do passado português do Brasil.

Um rapazote convencido e deslumbrado

Na sua itinerância por tudo o que lhe cheire a mordomia, influência e poder, mas também na sua ânsia de tocar todos os instrumentos e de ao mesmo tempo dirigir a orquestra, a personagem deslumbra-se. É um atrevido. Andou pela Defesa e para além de ter fotocopiado tudo, deslumbrou-se com generais e almirantes a prestarem-lhe vassalagem; passou pelos Negócios Estrangeiros e para além de não ter parado em passeatas pelo mundo inteiro, espumou de felicidade com a subserviência dos diplomatas. Depois, no passado mês de Julho protagonizou um verdadeiro golpe de Estado que nos custou milhões com a subida de juros que provocou, mas viu o seu protagonismo e o seu poder aumentarem na hierarquia do Estado. Numa demonstração de grande carácter, em poucas horas deixou de ser irrevogável. O outro vergou-se e este sucesso subiu-lhe à cabeça. Certamente, deve ter exclamado: “Mãe, sou um estadista, olha-me o talento”. Então, a personagem passou a estar em todas e a apresentar-se como um poderoso e como um deslumbrado – na relação com troika, na coordenação do orçamento, no guião para a reforma do Estado e na promoção do investimento e das exportações. Assim, lá foi para mais uma viagem até ao Oriente. Vendeu fruta. Que fruta? Vendeu arroz. Que arroz? Que pouca vergonha!
A edição de hoje do jornal Macau hoje conta como numa recepção à comunidade portuguesa de Macau chegou com duas horas de atraso, pelo que metade dos convidados já se tinha ido embora. E nem sequer pediu desculpa. “Inenarrável”, diz o jornal. Acham que é com espertalhões destes que sairemos deste buraco em que nos afundamos dia após dia?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A França começa a rejeitar a austeridade

A crise económica está a alastrar do sul da Europa para o norte e chegou à Bretanha. A Bretanha é uma das 22 regiões administrativas e fica situada no noroeste da França, com a sua capital em Rennes e cerca de 3 milhões de habitantes, tendo por base económica a agricultura e a indústria agro-alimentar. Desde 2011 que a situação económica bretã se tem deteriorado muito devido ao agravamento dos custos de produção agrícola, à redução do poder aquisitivo das famílias e à política de preços imposta pela Grande Distribuição que adquire cerca de 75% da produção local, o que tende a arruinar as empresas agrícolas e agro-alimentares e a gerar o desemprego. Assim, esta situação tem dado origem a um número crescente de falências e daí que em 2011 tenham sido perdidos 3900 postos de trabalho e se estime, para o corrente ano, a perda de mais 5 mil empregos. Foi neste quadro de crise que o governo de François Hollande decidiu aumentar a austeridade e a carga fiscal, ao criar um imposto de circulação sobre os veículos pesados que circulam nas estradas francesas – a que chamaram eco-taxa –, a aplicar a partir do próximo dia 1 de Janeiro, não só para diminuir a poluição atmosférica, mas também para aumentar as receitas fiscais.
Foi a gota de água que fez entornar o copo! Os agricultores bretões reagiram com violência. Enfiaram o seu gorro vermelho, um símbolo histórico do protesto bretão e, segundo descreveram muitos jornais franceses, fizeram uma verdadeira maré vermelha de protesto e violência, a que se seguiram confrontações com a polícia e a destruição de valioso património. A França está assustada e teme que esta agitação se estenda pelas outras regiões do país.

 

A Espanha recupera e nós ficamos a ver

Embora as notícias da recuperação económica espanhola já tenham surgido desde há algumas semanas na imprensa, poucas terão sido tão esclarecedoras quanto foi aquela que o diário Heraldo de Aragon, que se publica em Saragoça, destacou na passada sexta-feira: “a Espanha recupera confiança no exterior e recebe 36.700 milhões de euros de investimento em oito meses”. Só na indústria automóvel foram investidos 5 mil milhões de euros e foram criados 2400 empregos e, no mês de Outubro, as vendas de automóveis subiram 34,4%. Hoje, a OCDE revelou que "está a sair mais investimento estrangeiro de Portugal do que a entrar e que o valor do investimento directo estrangeiro em Portugal no 2º trimestre de 2013 foi negativo em 1,4 mil milhões de dólares". Uma lusitana desgraça.
Estas notícias obrigam-nos a pensar no caminho que estamos a seguir para ultrapassar a nossa crise ou, por outras palavras, a perguntar como é possível o que está a acontecer aos nossos vizinhos e o que nos acontece aqui, onde estamos condenados a marcar passo ou a andar para trás. O actual chefe da propaganda e criador do guião, ou seja, o  irrevogável ministro Portas, gosta de dizer que o fim da recessão está a chegar. Nós que andamos pelas ruas e viajamos de autocarro vemos que não é verdade. Além disso, a pretexto de captar investimento e promover as exportações, o irrevogável ministro que é, provavelmente, o mais viajado ministro português desde que D. Afonso Henriques se revoltou contra a mãe, não apresenta quaisquer resultados das suas dispendiosas viagens, para além da sua promoção pessoal, sempre a olhar para o seu umbigo e a pensar no seu futuro, mas à custa de todos nós. Inaugurou ginásios na Índia e agora quer vender arroz na China. Hoje em Macau, tivemo-lo a regozijar-se porque o programa de vistos gold concluiu que já foram investidos em Portugal mais de 200 milhões de euros e que 80% desse investimento teve lugar no imobiliário. Então onde havia de ser? Precisávamos de ter janelas que nos dessem claridade e perspectivas de futuro, mas temos portas destas. É uma tristeza. É mesmo uma tristeza!

Os tubarões da assessoria jurídica

Quando se realizaram as eleições legislativas de 2011, criticava-se muito o governo  de então pela excessiva despesa que era feita com escritórios de advogados, aos quais eram adjudicados serviços de assessoria e consultoria jurídica e encomendados estudos, pareceres, arbitragens, representação em processos judiciais e condução de negócios. Essa despesa era encarada pelos arautos da teoria das gorduras do Estado como um exemplo de despesismo e da promiscuidade entre o interesse público e o interesse privado, pelo que a sua eliminação figurava sempre como uma das medidas necessárias para a redução do défice. Provavelmente tinham razão e, por isso, esperava-se uma inversão de rumo e um travão aos desenfreados apetites dos tubarões da assessoria jurídica. Porém, o jornal i veio hoje noticiar que o “governo bate recorde em gastos com escritórios de advogados”, pois as despesas não só não estão a diminuir como até têm vindo a aumentar. De facto, nos primeiros dez meses do corrente ano, já foram contratualizados 12 milhões de euros em 302 contratos com escritórios de advogados, o que representa um aumento de 17,6% em relação ao total que foi gasto em 2012. O maior tubarão deste negócio, segundo o jornal i, é a Sérvulo Correia & Associados que, só à sua conta, já assinou este ano 58 contratos por um valor de 3,1 milhões de euros. Escandalosamente, os grandes escritórios de advocacia ganham cada vez mais dinheiro à conta das encomendas feitas pelo Estado, que são pagas com o dinheiro dos contribuintes e com os meus impostos. E o que faz quem manda? Nada!