quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A verdade do Eurostat e a propaganda

O Eurostat divulgou hoje o seu NewsRelease 186/2015 e a informação que nos dá é absolutamente preocupante e alarmante, sobretudo numa altura em que estamos rodeados de incertezas e perante um provável quadro de crise política. Ao longo dos últimos meses a desenfreada propaganda governamental e dos seus aliados da comunicação social garantia que estávamos no bom caminho, que tudo corria bem, que os cofres estavam cheios e até avisavam os eleitores para que tivessem cuidado para não se deitar a perder tudo aquilo que fora conquistado com o sacrifício dos portugueses. O governo até teve a ousadia e o atrevimento de defender que, em pouco tempo, estaríamos entre as dez economias mais competitivas do mundo. Muitas ilusões se venderam e muitas manipulações foram feitas para anestesiar e cativar o voto do eleitorado.
Hoje, o Eurostat veio dizer-nos a verdade e tirar-nos uma parte dessa anestesia com que o governo nos manipulou: a dívida pública e o défice público, que eram as bandeiras do governo e que se dizia tinham assegurado a retoma da credibilidade externa portuguesa, estão ao nível do pior que acontece na Europa. Mais de quatro anos de governação só agravaram estes problemas. A dívida pública portuguesa em finais de 2014 continuava a aumentar e aproximava-se dos 230 mil milhões de euros, o que significa que representa 130,2% do PIB e que só é ultrapassada pela Itália (132,3%) e pela Grécia (178,6%). Relativamente ao nosso défice público de 2014 que se fixou nos 7,2%, a situação também é muito grave, pois só o Chipre está pior do que nós (8,9%). Significa que, depois dos tais sacrifícios que os portugueses fizeram, estamos na mesma ou talvez pior. Dá que pensar.
Não sabemos o que vai acontecer politicamente nos próximos dias, mas é evidente que o resultado hoje anunciado pelo Eurostat recomenda que alguma ou muita coisa mude. 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Brasília sofre com o aquecimento global

No tempo do Presidente Juscelino Kubitschek, que entre 1956-1961 foi o 21º Presidente do Brasil e ficou conhecido por JK, iniciou-se a construção da nova capital federal brasileira que concretizava uma ideia antiga de promover o desenvolvimento do interior e a integração territorial e económica do país. JK convidou o urbanista Lúcio Costa e o arquitecto Oscar Niemeyer para projectarem a nova cidade e os seus principais edifícios públicos numa perspectiva moderna. Eles fizeram-no de uma forma inovadora que impressionou pela sua ousadia e o facto é que, em 1987, a cidade foi classificada como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO. Actualmente, a cidade é considerada um monumento a céu aberto e na sua área metropolitana concentram-se cerca de três milhões de pessoas. JK e a nova capital federal ficaram associados a um período de notável desenvolvimento do Brasil, de grande estabilidade política, de enorme dinamismo cultural e de acentuada aquisição de prestígio internacional, sobretudo pela construção de Brasília e pela conquista da sua primeira Copa do Mundo em futebol.
Porém, nem tudo são rosas na grande cidade, um pouco por culpa da meteorologia e das alterações climáticas. Segundo os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), as temperaturas máximas na cidade ocorrem em Outubro e a temperatura máxima absoluta historicamente registada em Brasília foi de 35,8 ºC e verificou-se no dia 28 de Outubro de 2008, seguido pelos 35,0 ºC registados no dia 15 de Outubro de 2014.
Ontem o Correio Brasiliense informava que a temperatura atingiu 36,4 ºC e acrescentava que “foi o dia em que Brasília ferveu”. Em nome do aquecimento global, o dia 18 de Outubro de 2015 entrou na história da cidade. Que os meus amigos brasilienses aguentem o melhor possível!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Rugby World Cup: o sul derrota o norte

A Rugby World Cup 2015 está a decorrer desde o passado dia 18 de Setembro em onze cidades inglesas e em Cardiff (Gales), com a presença de vinte selecções nacionais distribuidas por quatro grupos.
No fim da fase preliminar ficaram apuradas oito equipas e a grande surpresa foi a eliminação da equipa da Inglaterra, o país organizador. Depois, as oito equipas apuradas encontraram-se nos quartos de final e a Austrália, a Argentina, a Nova Zelândia e a África do Sul ficaram apuradas para as meias finais por terem eliminado, respectivamente, a Escócia, a Irlanda, a França e o País de Gales. Aconteceu, portanto, o inesperado: as equipas do sul do planeta eliminaram todas as potências do rugby europeu, aquelas que disputam o famoso Torneio das Cinco Nações.
Alguns escreveram que no rugby, tal como em muitas outras coisas, a Europa está em decadência, mas foi com os franceses que a situação foi mais dramática. A selecção da França perdeu com a Nova Zelândia por 62-13 e, a avaliar pela reacção da imprensa francesa, o país ficou em estado de choque, pois ontem os media não hesitaram na escolha dos títulos dos seus jornais – “L’humiliation” ou “La marée noire” ou “Le désastre” ou “Humiliés” ou “Comment rebâtir le XV de France?”. Não é caso para tanta mágoa dos franceses, porque uma derrota num jogo de rugby com a Nova Zelândia não é tragédia nenhuma, embora tenha havido e continue a haver outras tragédias por aí, sem que a imprensa francesa as tenha denunciado claramente.
No próximo fim de semana haverá o Argentina-Austrália e o África do Sul-Nova Zelândia, para escolher aqueles que, no dia 31 de Outubro, jogarão a final do Rugby World Cup 2015.

domingo, 18 de outubro de 2015

A guerra na Síria é um grande imbróglio

Na sua edição de ontem, o diário libanês L’Orient – Le Jour apresenta uma desenvolvida reportagem intitulada “Qui combat qui, et où, en Syrie”, na qual procurou recolher informação directa das partes sobre um conflito que desde 2011 já fez 250 mil mortos. E, sobre a guerra, o jornal pergunta: É uma revolta popular contra um regime autoritário? É uma guerra por procuração entre potências regionais? É uma luta contra o jihadismo internacional? É uma nova guerra fria entre as grandes potências? É uma guerra, se não mundial, pelo menos internacional com combatentes de diferentes nacionalidades no terreno? O jornal diz que, certamente, é um pouco de tudo isto, o torna muito complexa a compreensão do que se passa no terrreno. O último exemplo desta confusão são os raids aéreos russos que Moscovo afirma serem dirigidos contra o Estado Islâmico, enquanto os Ocidentais defendem que eles são dirigidos contra as forças da oposição ao regime de Bashar el-Assad.
Para clarificar a situação, o L’Orient – Le Jour fez um estudo com a identificação de quem combate quem e onde, com a informação tão detalhada quanto possível das forças pro e anti-regime de Bashar el-Assad actualmente presentes no território sírio. Essa lista “das principais forças presentes no terreno”, confirma a real complexidade da situação pois não há apenas dois campos que se combatem, havendo muitos outros que se combatem entre si.
Do lado do regime estão as Forças de Defesa Nacional Síria (100 mil soldados), o Hezbollah (8 mil combatentes), as forças pasdaran ou guardas da revolução iraniana (7 mil combatentes) e as milícias iraquianas xiitas (25 mil combatentes). Contra o regime de Assad estão a Frente al-Nosra, que é o ramo sírio da el-Qaëda (10 mil combatentes), o ISIS ou Estado Islâmico (50 mil), o Jaich el-Fateh (30 mil), o Ahrar el-Cham (15 mil), o Jaich el-Islam (10 mil), a Frente Sul (30 mil), a Saraya ahl el-Cham (efectivos não declarados ao jornal). Além destas, existem as forças do PYD (Partido da União Democrática Curda) com 35 a 60 mil combatentes, dos quais 40% são mulheres, que defendem a criação de um Estado Curdo e que, para isso, tanto combatem o ISIS (como aconteceu em Kobani), como o regime de Assad.
A guerra na Síria é realmente um imbróglio e a solução passa pelo entendimento, primeiro entre os Estados Unidos e a Rússia e, depois, entre, o Irão, a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar, entre outros.

sábado, 17 de outubro de 2015

A corrupção também existe na Alemanha

Todos temos presente a forma arrogante como a Alemanha trata e humilha os seus parceiros do Sul, sobretudo os gregos e os portugueses. As atitudes e os discursos alemães denotam um evidente preconceito de superioridade que julgávamos ultrapassado desde há muitos anos. Porém, em algumas ocasiões pudemos ver directamente através da televisão não só a agressividade dos seus principais dirigentes, mas também as atitudes subservientes de Vítor Gaspar e de Maria Luís Albuquerque perante o todo poderoso ministro Wolfgang Schäuble.
Há bem pouco tempo fomos surpreendidos pela grosseira batota da Volkswagen que demonstrou a todo o mundo que os alemães não têm qualquer superioridade moral sobre os seus parceiros europeus, designadamente sobre os países do Sul. Sabemos também que, enquanto maior fabricante mundial de submarinos e seu fornecedor a dezenas de países, incluindo a Grécia e Portugal, recaem as maiores suspeitas sobre a indústria alemã quanto à forma pouco transparente como decorrem esses negócios. A notícia agora divulgada pelo diário catalão La Vanguardia e por outros jornais mundiais é mesmo demolidora: a Alemanha subornou a FIFA para assegurar a realização do Mundial de Futebol de 2006. Este caso até nem admira porque Joseph Blatter, o homem que preside à FIFA desde 1998, parece estar envolvido em enormes esquemas de corrupção e até foi suspenso pelo Comité de Ética daquela organização. O que não se imaginava é que a Alemanha fosse tão longe na sua ambição e na sua ganância ou que lá houvesse tanta corrupção.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Códices medievais na Memória do Mundo

A UNESCO acaba de inscrever no Registo da Memória do Mundo o conjunto de manuscritos medievais dos Comentários do Apocalipse do Beato de Liébana existentes na Península Ibérica, em resultado de uma candidatura conjunta de Portugal e Espanha, apresentada em 2014 e intitulada Manuscritos do Comentário do Apocalipse (Beatus de Liébana) na Tradição Ibérica. O conjunto inclui onze manuscritos,  nove existentes em Espanha e dois que se encontram em Portugal, um dos quais é o códice conhecido como o Apocalipse de Lorvão, datado do séc. XII que pertence ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo e, o outro, é o códice conhecido como o Apocalipse de Alcobaça, existente na Biblioteca Nacional, que foi produzido no Mosteiro de Alcobaça no início do séc. XIII.
A história remonta ao séc. VIII quando as Astúrias foram o reduto da resistência ibérica contra a invasão muçulmana. Aí, no ano de 786, o padre Beato de Liébana escreveu o Comentário do Apocalipse como uma interpretação do último livro do Novo Testamento para que os cristãos comuns conseguissem entender a linguagem simbólica do seu texto. No século XII o monge Egas, no Mosteiro do Lorvão, fez uma cópia do texto do Beato de Liébana que ficou conhecida como Apocalipse de Lorvão, ilustrando-a com 66 iluminuras e incluindo comentários pessoais. Como o original do século VIII se perdeu, no século XIII foi feita no Mosteiro de Alcobaça uma cópia a partir do Apocalipse do Lorvão do monge Egas, a que se chamou Comentário ao Apocalipse do Beato de Liébana ou Apocalipse de Alcobaça. Únicos no seu género, estes códices são considerados uma expressão cultural e artística de grande relevância produzida na Península Ibérica e com grande disseminação no resto da Europa medieval. No seu site, a UNESCO diz que aqueles manuscritos são “considerados os mais bonitos e originais produzidos pela civilização medieval ocidental”. Com esta classificação a Memória do Mundo da UNESCO passa a ter oito inscrições portuguesas.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Um patrão português do futebol mundial

A edição de hoje do diário francês Libération destaca na sua primeira página a fotografia de um homem de fato azul e o título “Le vrai patron du foot mondial”, dedicando-lhe uma desenvolvida reportagem nas páginas interiores. Esse homem chama-se Nélio Lucas, tem 36 anos de idade, é português e é originário de famílias humildes da região de Coimbra. Estudou Comunicação e Marketing nos Estados Unidos, fala fluentemente cinco línguas (português, espanhol, inglês, francês e italiano) e, há menos de uma dezena de anos, entrou com grande sucesso no mundo do futebol. O jornal considera-o “o símbolo do liberalismo mais absoluto no futebol moderno” e afirma que ele domina a opacidade do negócio do futebol.
Nélio Lucas dirige a Doyen Sports, um fundo de investimento que está presente no universo do futebol e, segundo o jornal, é ele que “desenha o mapa do futebol” e é tudo naquela organização: investidor, banqueiro, empresário, agente de imagem, olheiro e recrutador.
A reportagem permite-nos imaginar o ambiente que caracteriza este negócio da compra e venda de jogadores de futebol e das margens de lucro que envolve, através do relato dos encontros havidos entre empresários e dirigentes no Hotel Sheraton da Avenida da Boavista no Porto, antes do recente jogo entre o FC Porto e o Chelsea. A velha ideia do amor à camisola já tinha morrido, mas agora consolida-se a ideia de que cada equipa de futebol é uma unidade de negócio que existe para ser rentabilizada financeiramente.
Neste negócio sempre ouvi falar em Jorge Mendes, mas graças ao Libération ficamos a saber que também há o Nélio Lucas e, provavelmente, haverá outros todo-poderosos neste mundo do futebol. Assim, são cada vez mais ridículos aqueles indivíduos que passam horas a discutir futebol na televisão por causa de um penalti ou de um golo anulado. 

A escolha do próximo Primeiro-Ministro

As eleições legislativas realizaram-se no dia 4 de Outubro mas continuamos sem saber quem será o futuro Primeiro-Ministro. Porém, ao contrário do que dizem alguns protagonistas que andam por aí, por agora isso não é um problema, até porque os dias continuam a ter 24 horas, os rios continuam a correr para o mar e a lei de Lavoisier continua viva, isto é, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Estes dias de incerteza e de curiosidade quanto ao nome do próximo Primeiro-Ministro têm servido para que na televisão, na rádio e nos jornais, tenham aparecido centenas de cidadãos a expressarem a sua fundamentada opinião e a mostrar que há saídas constitucionais para todos os gostos, ou seja, Sua Excelência - que já pensou em todos cenários - vai ouvir os partidos representados na Assembleia da República e, tendo em conta os resultados eleitorais, vai nomear um Primeiro-Ministro, cujo programa essa mesma Assembleia da República irá aceitar ou rejeitar. Depois se verá...
No meio desta silenciosa algazarra que nos envolve, já há algumas coisas que se devem salientar. A primeira é que a maioria absoluta acabou e que a estabilidade e a governabilidade exigem humildade e compromisso a quem aceitar a incumbência de formar governo.  A segunda é que são os portugueses, através dos seus deputados, que aprovam ou reprovam o programa do governo, o que significa que essa tarefa não cabe aos comentadores. A terceira é que aquela ideia do arco da governação é uma treta inventada pelo portismo e que caiu por terra, pois os governos dependem do Parlamento e para apoiar um governo não há deputados de primeira e deputados de segunda.
Para além destas realidades, há uma novidade na política portuguesa que nunca se vira antes com tal intensidade, a lembrar os tempos sombrios do Diário da Manhã e da União Nacional. Trata-se da intervenção de alguns indivíduos que, disfarçados de jornalistas ou de comentadores, dão um triste espectáculo de servilismo e de preconceito à mudança, que difamam, que insultam e que nos envergonham a todos. O que eles fazem não é jornalismo. É uma repugnante propaganda. É a arruaça. Moram nas televisões, mas também no Observador e no Correio da Manha, entre outros locais que lhes dão abrigo e lhes pagam. Esse Fernandes e essa Bonifácio...

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Cristiano Ronaldo ou o grande ganhador

Há muito poucos portugueses que brilham além-fronteiras, mas Cristiano Ronaldo é um deles. Nem Saramago, nem Paula Rego, nem Guterres e muito menos Barroso, atingiram a sua notoriedade e fama. Ele é o mais famoso futebolista português de sempre e recebeu ontem a sua quarta Bota de Ouro. Nunca nenhum outro jogador de futebol tinha vencido aquele troféu tantas vezes e, por isso, o tema foi destacado na imprensa desportiva internacional, assim sucedendo hoje, por exemplo, com o diário espanhol MARCA que o classifica com o título El Único. A Bota de Ouro é um prémio atribuido pelo European Sports Media para distinguir o futebolista que tenha marcado mais golos nos diferentes campeonatos europeus. Criado em 1967 pela revista francesa L’Équipe, o prémio já foi conquistado por três futebolistas portugueses, a mostrar que em matéria futebolística somos um país muito competitivo. Assim sucedeu com Eusébio (1967-68 e 1972-73), com Fernando Gomes (1982-83 e 1984-85) e, mais recentemente, com Cristiano Ronaldo (2007-08, 2010-11, 2013-14 e 2014-15).
Em 47 anos que já tem de existência, o prémio veio para Portugal oito vezes, o que significa que 17% dos premiados foram portugueses. É um caso surpreendente. O prémio já foi conquistado por argentinos, holandeses e romenos (4 vezes cada), por brasileiros, uruguaios e búlgaros (3 vezes cada), por alemães, jugoslavos, austríacos, franceses, italianos, galeses e escoceses (2 vezes cada) e, curiosamente, nunca foi ganho por espanhóis. Com oito troféus conquistados os portugueses destacam-se nas artes futebolísticas e Cristiano Ronaldo mostra que é realmente um caso único no futebol europeu.

domingo, 11 de outubro de 2015

A crueldade do mar é a mesma de sempre!

O cargueiro americano El Faro de 224 metros de comprimento, navegava de Jacksonville na Florida para San Juan de Porto Rico com 33 tripulantes a bordo, tendo desaparecido no mar das Bahamas durante a passagem do furacão Joaquin. Esta dramática ocorrência aconteceu há dez dias e, apesar das intensas buscas que têm sido efectuadas, apenas foram recuperados um bote salva-vidas sem ninguém a bordo e outros destroços menores. Embora ainda não se saiba exactamente o que se passou, terá havido 28 americanos e cinco polacos que perderam a vida, quando o navio desapareceu no meio de uma violenta tempestade, com ondulação muito forte, mar agitado e ventos estimados da ordem dos 215 quilómetros por hora.  O navio era do tipo Ro/Ro, especialmente destinado ao transporte de veículos, estando ao serviço desde 1975. Era, portanto, um navio velho que nesta viagem transportava centenas de contentores e veículos automóveis, mas terá sofrido avarias devido ao mau tempo e perdido capacidade de propulsão, acabando por ser “engolido” pelo mar. A edição de hoje do Miami Herald evoca a última viagem do El Faro com uma ilustração na sua primeira página que reconstitui, ou pelo menos ajuda a compreender, o que se terá passado com o navio.
A National Transportation Safety Board (NTSB) em cooperação com a Tote Maritime, a empresa proprietária do navio, estão a investigar as razões porque o navio deixou Jacksonville e, aparentemente, se dirigiu directamente para o olho do furacão Joaquin, apesar de dispor de todas as informações meteorológicas necessárias e de se tratar de uma situação bem conhecida das gentes do mar e sem qualquer imprevisibilidade. Em tempos de tanta tecnologia, como é possível que aconteçam estes casos de desafios ao mar cruel, em que se perdem tantas vidas?

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A situação na Síria vai de mal a pior

Há uma teoria segundo a qual a 3ª Guerra Mundial já começou e o Papa Francisco foi uma das primeiras pessoas que avançou com essa ideia, quando há mais de um ano falou dos crimes, massacres e destruições que se verificam na Síria e no Iraque e apelou à paz e ao fim da “loucura bélica”. Outras personalidades têm referido que já se vive um clima de 3ª Guerra Mundial, não só pelo agravamento da situação militar, mas também pela situação humanitária que gerou milhões de refugiados. A última edição do semanário francês L’OBS, o antigo e famoso Le Nouvel Observateur, trata deste grave problema.
No passado dia 30 de Setembro de 2015 a Rússia decidiu intervir directamente na Síria e logo apareceram vozes a dizer que esse dia marcava o início da 3ª Guerra Mundial, tal como o dia 28 de Junho de 1914 marcou o início da 1ª Guerra Mundial, quando aconteceu o atentado de Serajevo.
Os Estados Unidos, a França e o Reino Unido condenaram imediatamente a intervenção russa por ter atacado opositores ditos moderados de Bashar-al-Assad que são financiados pelos americanos, mas ignoram o ataque ao hospital afegão dos Médicos sem Fronteiras em Kunduz, que causou a morte a pelo menos duas dúzias de doentes, médicos e pessoal civil.
A Síria de Bashar-al-Assad será uma caricatura de democracia, mas tem um regime laico e todas as confissões religiosas são toleradas. Ao contrário de Sadam Hussein e de Kadaffi, Assad resistiu à intervenção militar externa, mas enfrenta o jihadismo do EI e da Al-Qaeda, mas também outras forças financiadas pela Arábia Saudita, pela Turquia e até pelos Estados Unidos, que apoiam tudo e o seu contrário. É o que acontece com a Arábia Saudita que é apoiada pelos Estados Unidos e pela França, mas que oprime e reprime mais de metade da população, que não permite que as mulheres se desloquem sozinhas, nem que conduzam, nem que sejam médicas, nem que vão ao cinema, que semanalmente executa presos, que não permite a um cristão ir a uma igreja e que condena à morte um muçulmano que pretenda deixar de o ser.
A Síria é hoje um laboratório no mundo multipolar, no meio de uma extensa região que ameaça desintegrar-se. Os turcos preferem o EI a qualquer autonomia curda; os sauditas preferem o EI à minoria alauita; o Irão quer a minoria alauita no poder. Os EUA, tal como a França e o Reino Unido, não sabem o que querem.
Assad terá lançado uma grande ofensiva no terreno com o apoio do Hezbollah libanês, das forças especiais iranianas e da aviação russa. Os russos estarão em vias de intervir no terreno a pedido de Assad, enquanto se anuncia que a China já tem um porta-aviões nas águas sírias e mil fuzileiros no terreno. A NATO foi surpreendida e diz-se pronta a enviar tropas e aviões para a Turquia. Há muitos aviões a voar sobre a Síria, uns russos, outros do regime sírio, outros da coligação liderada pelos americanos. Não sei se a 3ª Guerra Mundial já começou, mas sei que isto vai de mal a pior.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Timor evoca a chegada dos portugueses

O jornal semanal timorense Matadalan que se publica em tétum na cidade de Dili, anuncia na sua última edição hoje divulgada, que o Estado timorense vai comemorar os 500 anos da chegada dos portugueses à ilha de Timor. De facto, desde Julho de 2015 que está constituída uma comissão organizadora presidida por Dionísio Babo Soares, que tem por missão a organização das Comemorações dos 500 Anos da Afirmação da Nova Identidade Timorense, devendo as cerimónias oficiais decorrer na Região Administrativa Especial de Oe-Cusse Ambeno no dia 28 de Novembro de 2015, que é o dia da proclamação da independência nacional em 1975.
É no enclave do Oe-Cusse que se situa a povoação de Lifau, que foi o ponto onde os portugueses terão desembarcado pela primeira vez no dia 18 de Agosto de 1515, conforme está assinalado num obelisco que existe em Lifau e resistiu aos 25 anos de ocupação indonésia, que o jornal Matadalan reproduziu na sua primeira página. As autoridades timorenses pretendem assinalar a longa caminhada histórica de Timor-Leste na construção da sua identidade nacional, marcada pelo primeiro contacto com os portugueses há 500 anos e, ao mesmo tempo, promover um sentimento de unidade nacional num território repartido por muitos reinos, muitos grupos etno-linguísticos e muitas mestiçagens culturais, sendo de salientar que a memória da chegada dos portugueses a Timor, seja um contributo tão importante para a afirmação da unidade nacional do país.

Um enorme bando de papagaios escribas

O resultado das eleições de 4 de Outubro traduziu-se numa meia vitória do governo, porque embora tivesse obtido o maior número de votos, perdeu a maioria absoluta. Agora, se quiser governar, a ex-maioria constituida por PSD+CDS tem que perder a sua arrogância, negociar, ceder e, provavelmente, até tem que pedir desculpas pelos repetidos insultos que fez ao líder do PS, especialmente esse tal Portas, um valentão que se destacou pela sua demagogia, populismo e agressividade verbal. Ontem, os dois parceiros da ex-maioria foram a correr assinar um acordo político de governo, que não é mais do que uma bóia de salvação para esse grupúsculo de pequenos políticos chamado CDS, que se tornou numa lapa ou numa sanguessuga para o PSD.
Durante a campanha eleitoral, com a descarada cumplicidade de muitos jornalistas, o PS teve que explicar o seu programa, sem que o governo fosse denunciado pelos resultados desastrosos das suas políticas, nem pelo facto de não ter sequer apresentado um programa eleitoral. Agora que a ex-maioria precisa totalmente do PS, os mesmos jornalistas voltam a pressionar o PS para se acomodar aos diktats da ex-maioria, sem perceberem que é a ex-maioria que tem de se acomodar ao programa do PS. É o jornalismo que temos, feito por autênticos papagaios sem ética nem deontologia profissional, muitos deles com assento na televisão, que se repetem, repetem, repetem!
Porém, não será o homem de Boliqueime nem os jornalistas que escolherão a solução de governo para o nosso país. Essa tarefa caberá aos partidos com assento parlamentar e aos deputados eleitos. Acontece que, como tem sido repetidamente dito, os votos dos portugueses expressaram outras hipóteses de maioria, tendo havido 62% de eleitores que rejeitaram a aliança PSD+CDS. Por isso, como não há deputados de primeira e deputados de segunda, há várias maiorias possíveis resultantes da vontade dos deputados portugueses, que foram escolhidos por eleitores portugueses. Por isso, já temos o PCP a anunciar a sua disposição para dar expressão institucional à "vontade de mudança" manifestada pelos portugueses nas últimas eleições e o BE a reclamar uma aliança de governo à esquerda. É realmente uma grande embrulhada como salienta hoje a revista Visão, mas que certamente vai ser resolvida com a ponderação que as circunstâncias aconselham. A Democracia vencerá. Abaixo os papagaios que escrevem e falam.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Semearam ventos, vão colher tempestades

Ainda estão gravadas nos nossos ouvidos as repetidas afirmações da propaganda do governo de que tudo estava a correr bem, que as exportações batiam recordes, que os turistas inundavam o nosso país, que a economia tinha começado a crescer, que os cofres estavam cheios. Da mesma forma, ainda nos lembramos do optimismo reinante, das atoardas contra os adversários, dos inúmeros avisos para que não voltássemos para trás. Agora, passada a fase do vale tudo e da propaganda anestesiante, começam a aparecer as facturas para pagar e, logo no dia seguinte, essas sinistras figuras do Schäuble e do Dijsselbloem, já se permitiam exigir que lhes fosse enviado o nosso orçamento até ao próximo dia 15 e até as agências de rating se permitiram mandar avisos. Afinal, quando ainda estão por apurar os resultados do círculo eleitoral da emigração, já se pode verificar que o governo levou uma boa tareia e perdeu cerca de 800 mil votos e cerca de 25 deputados. O Portas e o seu partido deixaram de ser precisos ao PSD e, mais dia menos dia... Como é que se pode falar em vitória e como é que se pode ter tanto optimismo, quando a situação que temos pela frente é bem grave?
Ontem, quando ainda faltam 107 dias para deixar Belém, tivemos mais uma prova da mediocridade política e da completa ausência de neutralidade do homem que veio de Boliqueime. Antes de ter “ouvido os partidos políticos” como manda a Constituição que jurou cumprir, o homem que faltou às comemorações do 5 de Outubro resolveu encarregar o chefe do seu partido de “desenvolver diligências” para conseguir uma solução com “estabilidade política e governabilidade”, ao mesmo tempo que ignorava a existência dos outros partidos com representação parlamentar. Que habilidoso! Que chico-esperto! Então o homem esqueceu-se de que há mais partidos no Parlamento, os  quais se afirmaram contra a política que tem sido seguida e até representam cerca de 62% do eleitorado? Porém, o PS que tão insultado foi durante a campanha eleitoral e passou de 73 para 85 deputados (mais 16%), já veio dizer que rejeita essa ideia do “arco da governação” e que vai negociar com todos os partidos com expressão parlamentar. Faz muito bem. Eles semearam ventos, vão colher  tempestades.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Eleições: continuidade venceu a mudança

O resultado das eleições de ontem foi inequívoco e os eleitores escolheram a continuidade em vez da mudança, embora o caminho agora seja bem mais estreito do que aquele que o governo tinha percorrido desde 2011. O governo levou um cartão amarelo, quando se esperava que levasse um cartão vermelho, bem merecido pelas suas malfeitorias e manipulações dos últimos quatro anos. Acabou-se o tempo da arrogância da maioria e do desprezo pela oposição. A partir de agora, a cultura da negociação e do compromisso tem que ser a norma. No entanto, alguns símbolos desse tempo de treva que disseram ser de luz, como o Ministro..., o Secretário de Estado... e o Deputado... vão continuar a atravessar-se no nosso caminho e a incomodar o nosso quotidiano.
Os portugueses são um povo bonzinho que se deixou levar, mas que depois não se pode queixar. A sua vontade democrática surpreendeu, mas a vida é assim e o povo é quem mais ordena. A austeridade não passou por cá. Nem as mentiras, o brutal aumento de impostos, o enorme desemprego, a emigração em massa, o corte nas pensões, o aumento da dívida, o corte nos salários, a submissão à Europa, o engano sobre a solidez do BES, as privatizações ideológicas, o aumento colossal da pobreza, os atrasos nas escolas, a confusão nos hospitais, a desmoralização nas polícias, a triste memória do Relvas ou o irrevogável que se vendeu por um cargo e não foi capaz de fazer a reforma do Estado. Os portugueses parece terem perdoado quase tudo a esta gente.
Embora o melhor resultado tivesse sido uma votação que permitisse a escolha de um governo de maioria absoluta que garantisse a estabilidade política necessária para enfrentar a carga de trabalhos que aí vem, os portugueses escolheram outra solução e o resultado são várias maiorias e minorias que se cruzam, ou não cruzam. Vêm aí tempos politicamente muito difíceis e, qualquer dia, lá teremos novas eleições, porque a história que nos venderam de que estamos no bom caminho é uma treta. Isto não está nada bem. A nossa dívida aumentou muito nos últimos quatro anos, não houve investimento, nem há uma efectiva criação de emprego. Agora que acabaram a campanha eleitoral e a propaganda, acordemos para o estado da nação. Enfrentemos pois a difícil realidade que 38% dos portugueses escolheram, num Portugal mergulhado numa Europa sem rumo.