terça-feira, 2 de maio de 2017

A forte turbulência eleitoral em França

A generalidade dos grandes jornais internacionais publicou hoje nas suas primeiras páginas uma fotografia dos confrontos havidos em Paris, como consequência das manifestações do dia 1 de Maio e da tensão política associada à 2ª volta das eleições presidenciais do próximo domingo.
É um bom exemplo de fotojornalismo, daqueles casos em que uma imagem vale mais do que mil palavras. Nessa fotografia, que nenhum jornal português publicou por ser cara ou por terem achado que não tinha interesse noticioso, um grupo de polícias luta contra as chamas resultantes de um ataque com um cocktail Molotov, a arma química incendiária que muitas vezes é utilizada em protestos urbanos. Sabe-se que vários polícias ficaram feridos, mas não há notícia de que tenha havido mortes.
Entretanto, a poucos dias da votação, as sondagens têm mostrado que as intenções de voto dos eleitores franceses dão a vitória a Emmanuel Macron com 59% dos votos, enquanto Marine Le Pen se ficará pelos 41%. Porém, as sondagens falham muitas vezes e a diferença entre os dois candidatos está a estreitar-se, com Marine Le Pen a subir e Emmanuel Macron a descer. Por isso, apesar do elevado favoritismo de Macron, há muita incerteza e os comentadores reconhecem que a França está dividida entre dois projectos muito diferentes para a França e para a Europa e que a luta pelo voto continuará até ao último minuto.
Os confrontos do 1º de Maio de que o jornal espanhol ABC reproduziu a expressiva fotografia na sua primeira página, são também uma consequência da tensão político-eleitoral em França e da ansiedade que percorre a França.

Os novíssimos vampiros da nossa terra

Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada, assim diz o refrão de Os Vampiros, uma canção escrita e cantada por José Afonso em 1963, que é considerada como o tema fundador do canto político em Portugal e que tem servido para ilustrar inúmeras situações injustas, desde o combate à ditadura do Estado Novo até às recentes imposições externas da troika que nos últimos anos nos humilhou.
Porém, por analogia, o tema também serve para ilustrar outras situações de injustiça, embora de âmbito mais restrito. O Jornal de Notícias divulgou ontem que “o contacto com eleitores dá mais mil euros por mês” aos deputados, isto é, os deputados receberam 198 mil euros nesta legislatura para reunir com cidadãos nos seus círculos eleitorais, mas não são pedidas provas desses encontros por parte da Assembleia da República. Acontece que os deputados são eleitos democraticamente pelo povo, embora num quadro legal que não permite que cada cidadão conheça o seu deputado. Daí que ninguém conheça o seu deputado para o responsabilizar por promessas não cumpridas ou para o interpelar sobre assuntos de interesse local.
O sistema eleitoral permite que haja muitos deputados que nunca trabalharam e até alguns que nem sequer estudaram, mas todos recebem uma remuneração que é mais de 5 vezes superior ao ordenado mínimo nacional, isto é, os deputados recebem no mínimo cerca de três mil e trezentos euros, mas podem receber bastante mais. São, portanto, muito bem pagos e está certo que assim seja. Porém, muitos deputados são remunerados adicionalmente por terem sido escolhidos para integrarem entidades fiscalizadoras e comissões diversas, para além daqueles que desenvolvem actividades no sector privado de forma declarada ou não. Depois há o contacto com os eleitores, os subsídios de residência, as deslocações e as muitas coisas mais que, se não são escondidas, também não são divulgadas. Assim, um deputado português arrisca-se mesmo a enriquecer ao serviço do povo. Devia ser um serviço à comunidade, mas de facto é um bom emprego. Sim, eles ou muitos deles, comem tudo e assemelham-se aos vampiros denunciados por José Afonso.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O 1º de Maio como afirmação do trabalho

Hoje é o Dia do Trabalhador que é celebrado em Portugal e em muitos outros países do mundo, sendo um dia feriado em muitos deles.
A sua história começa no dia 1 de Maio de 1886 em Chicago, quando se realizou uma manifestação muito participada a reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias, ao mesmo tempo que se realizava uma greve geral nos Estados Unidos. Houve confrontos violentos com a polícia e alguns mortos, mas na sequência destes acontecimentos houve cinco sindicalistas que foram condenados à morte e três que foram condenados a prisão perpétua. O dia 1 de Maio passou a ser uma data evocativa da luta dos trabalhadores de Chicago e, também, dos trabalhadores de todo o mundo.
Na sua edição de hoje, o jornal i dedica a sua primeira página ao 1º de Maio que é o Dia do Trabalhador em Portugal. Porém, este dia só passou a ser comemorado livremente em Portugal depois da revolução do 25 de Abril de 1974, porque durante a Ditadura a sua comemoração era organizada clandestinamente e era fortemente reprimida.
Hoje, o Dia Mundial dos Trabalhadores é comemorado em todo o país, com manifestações, comícios e festas de carácter reivindicativo promovidas pelas centrais sindicais, tendo uma acentuada adesão da população trabalhadora. No entanto, para além dos seus aspectos reivindicativos, a que se colam muitas vezes e de forma abusiva os interesses partidários, o 1º de Maio também é uma festa popular que contribui para a dignificação do trabalho e para afirmar a sua importância para o progresso económico do país e para a estabilidade social. Numa época em que o capital financeiro e as doutrinas neoliberais tendem a ser dominantes, o 1º de Maio serve para mostrar o valor do trabalho e para evidenciar que o progresso económico e social só é possível através da articulação entre os factores de produção Capital e Trabalho. Trabalho digno e salário digno, em nome da dignidade da pessoa humana. Como disse, também , o Papa Francisco.
Viva, pois, o 1º de Maio!

domingo, 30 de abril de 2017

Treinadores portugueses brilham lá fora

Nos últimos anos, o futebol penetrou com grande intensidade no quotidiano das sociedades modernas, não só porque se trata de um espectáculo de grande carga estética e emocional e de um grande negócio que movimenta muitos milhões, mas também porque é servido por uma máquina de promoção em que entra a publicidade, o marketing e o chamado jornalismo desportivo. É um mundo em que entram jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, técnicos, preparadores físicos, massagistas, roupeiros, jornalistas, comentadores, claques, patrocinadores e muito mais gente. É um mundo de rivalidade e, muitas vezes, de confronto. Portugal está bem cotado mundo do futebol. É o campeão europeu! Os futebolistas portugueses são talentosos e jogam nas melhores equipas mundiais, enquanto o melhor do mundo é português.
Porém, a figura do treinador tem-se tornado muito importante, não porque marque golos, mas porque orienta as equipas e as suas tácticas, para além de ocupar horas nas televisões a debitar banalidades. Há um numeroso grupo de treinadores portugueses de muito sucesso no estrangeiro. Sérgio Conceição é um deles, depois de ter sido um futebolista de talento.
No passado dia 8 de Dezembro teve a sua primeira oportunidade como treinador no estrangeiro, quando aceitou treinar o FC Nantes que se encontrava em 19º lugar e em zona de despromoção no campeonato francês. Desde então, a equipa conseguiu 10 vitórias e cinco empates em 18 jogos e chegou ao 8º lugar. A recuperação do FC Nantes sob a direcção de Sérgio Conceição está a ser espectacular e a impressionar o meio futebolístico francês. Por isso, o clube já anunciou o prolongamento do seu contrato até 2020, enquanto o diário Presse Océan de Nantes destaca essa notícia com uma fotografia a quatro colunas. É obra. Nasceu mais uma estrela no meio dos treinadores portugueses.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Os porta-aviões: arma de poder e prestígio

Numa altura em que é forte a tensão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, cuja capital Pyongyang está situada a 350 quilómetros de Dalian, onde se localizam os estaleiros da China Shipbuilding Industry, a República Popular da China exibiu esta semana o primeiro porta-aviões construído no país e exactamente naqueles estaleiros.
Trata-se de uma acção de promoção e de prestígio da China, pois as autoridades chinesas não relacionaram a apresentação do seu novo porta-aviões com o momento de tensão actual e, de facto, ela parece ser apenas uma demonstração do desenvolvimento das capacidades da sua indústria de Defesa e uma afirmação do seu interesse estratégico e territorial no mar da China Meridional.
O jornal China Daily destacou na sua edição de ontem a apresentação desse novo porta-aviões chinês e, numa sugestiva infografia, mostrou os países que possuem porta-aviões em actividade – Estados Unidos (10), Itália (2), França (1), Rússia (1), Índia (1) e Tailândia (1). A China já possui o porta-aviões Liaoning, que fora construido em 1988 para a Marinha da União Soviética e que veio a ser comprado pela China, onde entrou ao serviço em 2012, certamente para introduzir uma nova cultura no âmbito das operações navais chinesas e para inspirar a construção dos seus próprios porta-aviões. A nova unidade só estará operacional em 2020, é designado temporariamente como 001A, tem 315 metros de comprimento, 75 metros de largura e uma velocidade cruzeiro de 31 nós.
Há vários anos que a China tenta modernizar as suas Forças Armadas, especialmente a Marinha, como parte das suas aspirações no mar da China Meridional, região cuja soberania é disputada por vários países. Porém, a Marinha chinesa está longe de rivalizar com o poderio militar dos Estados Unidos, que possuem uma dezena de porta-aviões operacionais, assim como cerca de seis centenas de bases militares em quase  cinco dezenas de países. Além disso, o orçamento militar chinês é da ordem dos 156 mil milhões de dólares, que é bem inferior aos 628 mil milhões do orçamento de defesa americano. A China ainda vai ter de esperar muitos anos, mas é sabido como são pacientes.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

As acusações ridículas de Kim Jong-un

A tensão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, ou entre Donald Trump e Kim Jong-un, continua a ocupar algum espaço nas agendas mediáticas, um pouco por todo o mundo, o que significa que existe de facto o risco de se envolverem em operações bélicas.
Agora é o Northern Territories News, o jornal da cidade australiana de Darwin e que é conhecido pela sigla NT News, que coloca na sua primeira página os foguetões de Kim Jong-um e faz um trocadilho com o nome do líder norte-coreano, chamando-lhe Kim-becile. De facto, a arrogância e a figura do Líder Supremo da Coreia do Norte fazem dele um verdadeiro imbecil e, também, um homem perigoso.
Acontece que os jornais oficiais norte-coreanos têm acusado os Estados Unidos de terem aumentado a sua presença militar em Darwin, no norte da Austrália, de uma forma como nunca se vira desde a 2ª Guerra Mundial, o que será a prova de que se preparam para uma guerra nuclear. O governo australiano já rejeitou essas acusações, enquanto o NT News foi saber a composição das forças americanas estacionadas na sua base de Pine Gap, próximo de Darwin: 1250 marines e 13 meios aéreos, incluindo 4 aeronaves militares multifunções Bell Boeing V-22 Osprey de descolagem vertical, 5 helicópteros Super Cobra e 4 helicópteros Huey. É muito pouco para intervir a quase 6 mil quilómetros de distância, para além de haver algumas bases americanas bem mais próximas da Coreia do Norte, nomeadamente na Coreia do Sul e no Japão.
Por isso, a ridícula acusação de Kim é apenas para consumo interno e para mobilização da sua gente para resistir à ameaça americana.

Sevilha é a capital da festa taurina

A Espanha é um país de festas e a cidade de Sevilha parece ser a sua capital festeira. Passou ainda tão pouco tempo sobre a Semana Santa que atraiu a Sevilha muitos milhares de turistas religiosos e já está à porta a Feria de Abril Sevillana, que é uma das grandes festas da cidade e que vai decorrer de 29 de Abril a 7 de Maio.
A Feria de Abril realiza-se desde 1847 e atrai gente muito diversa de todo o país e do estrangeiro, pois constitui uma manifestação muito intensa de cultura popular, pelo colorido dos trajes flamencos das mulheres sevilhanas e, sobretudo, pelas touradas que enchem a Plaza de Toros de la Real Maestranza de Sevilla, construída em 1749 e que é a mais antiga e mais icónica praça de touros espanhola.
A partir do dia 28 de Abril “arranca el ciclo taurino de la Feria”, como se lhe refere hoje a edição sevilhana do diário ABC, na sua primeira página. Durante dez dias consecutivos, realizam-se dez corridas de touros em que actuam os mais famosos matadores de touros espanhóis. São muitas corridas, apenas porque há muito público interessado. Como é habitual, a afición irá encher a Maestranza para assistir a um espectáculo que sendo cada vez mais criticado pela sua violência e brutalidade, continua a suscitar um enorme entusiasmo por parte dos espanhóis, apesar dos bilhetes para cada tourada oscilarem entre 64 e 165 euros.
Nunca fui à Feria de Abril e ainda não será este ano que lá irei, embora só gostasse de fotografar os coloridos trajes flamencos das sevilhanas e provar a famosa manzanilla, que substitui a cerveja durante a festa.

A evocação de uma cidade e de uma data

Perfazem-se hoje 80 anos sobre a data em que a cidade basca de Guernica foi bombardeada pela aviação alemã da Legião Condor, ao serviço das forças do General Francisco Franco e, segundo referem todas as crónicas, tratou-se do mais violento e mais devastador bombardeamento aéreo até então realizado no nosso planeta.
Os especialistas afirmam que se tratou de um ensaio inovador sobre as novas técnicas de destruição e morte provocadas pelo bombardeamento aéreo, que antes nunca tinham sido experimentadas. Guernica foi destruída e muita gente morreu.
O pintor Pablo Picasso inspirou-se nesse trágico acontecimento, pouco tempo depois, para pintar um painel surrealista de grandes dimensões para decorar o pavilhão da República de Espanha na Exposição Internacional de Paris de 1937. Esse painel  foi muito apreciado pela crítica e rapidamente se tornou uma das suas mais célebres obras nos planos estético e simbólico, mas também um símbolo universal da rejeição dos horrores da guerra.
Na sua edição de hoje, o diário basco El Correo que se publica em Bilbau, evoca com grande destaque o bombardeamento de Guernica e a data de 26.4.1937, como um símbolo do terror e da destruição causada pela guerra.
Como nota final, anota-se que o famoso painel de Picasso se encontra actualmente no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia em Madrid.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Os ideais do 25 de Abril estão bem vivos

O 25 de Abril que os poetas cantaram e que o povo aclamou nas ruas, aconteceu há 43 anos. Nesse inesquecível dia, a que Sofia de Melo Breyner chamou o “dia inicial inteiro e limpo”, foi derrubado um regime político que oprimia o povo e reprimia os seus adversários, que persistia numa guerra injusta e prolongada, que estava isolado internacionalmente, que se conformava com o subdesenvolvimento económico e social e que apostava no obscurantismo cultural.
O Jornal do Fundão destacou-se na luta contra o antigo regime e, depois do 25 de Abril, esteve sempre na primeira linha da defesa dos ideais da liberdade e da democracia, pelo que aqui o apresentamos como um símbolo de coerência e de liberdade.
Os 43 anos que decorreram desde 1974 traduziram-se num enorme progresso económico e social da sociedade portuguesa, num espectacular avanço nos campos da educação, da saúde e das infraestruturas, na melhoria da qualidade de vida e do desenvolvimento cultural da nação portuguesa, para além da sua integração na Europa e da recuperação do seu lugar no plano internacional.
Os objectivos do movimento de militares que planeou e realizou o 25 de Abril foram alcançados, isto é, concretizou-se a Democratização, realizou-se a Descolonização e promoveu-se o Desenvolvimento. A geração do 25 de Abril pode orgulhar-se do serviço que prestou ao país, pois soube interpretar os anseios do povo e foi capaz de abrir as portas para que o nosso país fosse melhor e mais próspero.
Pergunta-se muitas vezes se tudo correu bem e é evidente que não, havendo quem defenda que ainda há uma parte do 25 de Abril por cumprir. De facto, o peso da herança recebida, o excesso de entusiasmo, as rivalidades políticas, a submissão aos mercados financeiros, os contextos internacionais e muitos erros próprios, não permitiram que fossem completamente alcançados os níveis de desenvolvimento desejados. Assim, ainda encontramos faixas da sociedade, ou sectores económicos, ou regiões periféricas, onde ainda prevalecem índices de desenvolvimento insatisfatórios e onde se verificam situações inaceitáveis de pobreza, de desigualdade ou de desemprego, bem como algumas condenáveis práticas de corrupção e de autoritarismo. Por isso, é preciso que o ideal libertador e de progresso do 25 de Abril chegue a toda a gente, a todos os sectores e a todas as regiões. Viva o 25 de Abril!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Fixemos o nome de Emmanuel Macron

A primeira volta das eleições presidenciais francesas decorreu ontem e apurou Emmanuel Macron com 23,39% e Marine Le Pen com 22,37% dos votos para disputarem a segunda volta no dia 7 de Maio.
Os principais candidatos derrotados foram François Fillon com 19,94%, Jean-Luc Mélenchon com 19,56% e Benoit Hamon com 6,35%, que já anunciaram o seu apoio a Emmanuel Macron para a segunda volta, por forma a impedir a extrema-direita de chegar ao poder. Assim, não é difícil prever que o candidato Emmanuel Macron de 39 anos de idade, centrista, liberal, europeísta e sem partido, será o futuro Presidente da França. Antigo ministro da Economia do Presidente François Hollande, Macron afirmou não ser de esquerda nem de direita, tendo criado o movimento En Marche! para o apoiar na sua campanha eleitoral, em que defendeu uma maior integração e uma maior coesão europeias.
O jornal Le Parisien diz que ele é a “sensation Macron”. O seu discurso é o de uma nova Europa reformada, modernizada e reajustada aos novos tempos e aos novos desafios. Os franceses dirão no dia 7 de Maio qual o grau de confiança que depositam neste jovem para dirigir a França num contexto nacional e internacional muito complexo, mas que parece inspirar muita confiança num eleitorado já cansado das promessas dos velhos partidos. Provavelmente, a Europa vai respirar de alívio com a eleição de Emmanuel Macron e talvez seja possível emendar os erros e a burocracia de um passado recente, em que a Europa andou fortemente desgovernada e sem rumo.
Aparentemente Marine Le Pen será derrotada, mas o facto de disputar a segunda volta eleitoral dá-lhe um estatuto mais alto na hierarquia política francesa e isso vai ser um sinal preocupante, pois as ideias extremistas e anti-europeias da sua Frente Nacional também passam a ter maior estatuto nacional. Daí que a luta entre os ideais de Macron e de Le Pen não termine no dia 7 de Maio, até porque quase metade do eleitorado escolheu candidatos que se afirmaram contra a União Europeia.

domingo, 23 de abril de 2017

Um grande jornal em Belo Horizonte

O Estado de Minas é um diário que se publica em Belo Horizonte, a capital do Estado de Minas Gerais, sendo considerado o grande jornal dos mineiros e um dos jornais de referência brasileiros. Na sua edição de hoje, o jornal destaca três temas de grande interesse cultural e político. Como tema principal, o jornal reproduz a imagem do Guernica de Pablo Picasso quando se estão a celebrar 80 anos sobre esse famoso quadro, que deixou de representar o ataque da aviação alemã sobre a cidade basca de Guernica no dia 26 de Abril de 1937, para se tornar o símbolo dos horrores de todas as guerras.
Depois, o jornal faz um balanço do valor que o Brasil perdeu com a “montanha de propinas” que a Odebrecht destinou a políticos de 26 partidos e calcula que esse valor atingiu dez mil milhões de reais que, ao câmbio actual, representa cerca de três mil milhões de euros. É muito dinheiro e, segundo afirma o próprio título do jornal, o Brasil não só perdeu esse dinheiro, como também perdeu a vergonha na cara. De facto, esse dinheiro resolveria muitos problemas na saúde, na educação e nas infraestuturas, para além de atenuar muitos problemas sociais. Sabe-se que a corrupção existe em maior ou menor escala em todo o mundo, mas parecia impensável que tivesse uma dimensão destas num país democrático e civilizado.
O jornal ainda chama à sua primeira página um assunto muito interessante que mostra a força da sociedade civil organizada. Acontece que o Edifício Niemeyer, projectado por Oscar Niemeyer e localizado na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, está classificado como património municipal, estadual e federal, mas encontrava-se muito deteriorado pelo tempo. A aguardada reparação que deveria ser feita pelos poderes públicos em nome da preservação do património, demorava. Então, os moradores do edifício uniram-se e decidiram custear a sua reabilitação, sem esperarem pela intervenção pública. É uma lição para aqueles que, em toda a parte, se julgam com direito a que o Estado lhes faça tudo.

sábado, 22 de abril de 2017

Donald & Kim: brincadeiras de meninos

No moderno processo de comunicação existe um agente emissor que emite uma mensagem para um ou mais receptores, sendo essa mensagem codificada de acordo com certos critérios e que pode utilizar sons, filmes, textos, fotografias, imagens, caricaturas e outras formas de expressão. A imprensa utiliza sobretudo textos e imagens para codificar as suas mensagens, mas por vezea também utiliza a caricatura. A caricatura é um desenho de um ou mais personagens ou de uma situação da vida real, em que são enfatizados e exagerados alguns aspectos pessoais ou da situação visada, tornando-a humorística e apelativa para a compreensão dos receptores. A caricatura distorce a realidade, mas uma boa caricatura pode captar aspectos das pessoas ou das situações, pelo que os jornais a utilizam com muita frequência para chamar a atenção e despertar o interesse dos seus leitores.
A revista alemã Der Spiegel utiliza muitas vezes a caricatura para ilustrar as suas capas e, nos últimos tempos, tem-se destacado na utilização da caricatura para retratar as frequentes manifestações de arrogância do Presidente dos Estados Unidos. Assim acontece na sua mais recente capa em que apresenta Donald Trump e Kim Jong-un como meninos de fraldas, sentados numa ogiva nuclear a parecer “brincar às guerras”, como se isso não significasse o risco de um conflito nuclear. Essa “brincadeira” acentuou-se nas últimas semanas porque, depois de ter realizado dois testes nucleares no ano passado, a Coreia do Norte anunciou que poderia realizar um teste nuclear e ensaiar novos mísseis balísticos capazes de atingir o território americano. Donald Trump não gostou e levantou a voz, decidindo enviar uma poderosa força naval para a região. A tensão cresceu de imediato, até porque Kim Jong-un não se calou. Por isso, como diz o Der Spiegel, tenham cuidado com as brincadeiras.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Venezuela: hasta cuándo?

A Venezuela está a atravessar um período de grande perturbação política, com protestos e confrontos mais ou menos diários, em que a oposição da Mesa da Unidade Democrática (MUD) liderada nas ruas por Henrique Capriles, o governador do estado de Miranda e ex-candidato presidencial, contesta a presidência de Nicolás Maduro e a política chavista representada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).
A crise política e a luta contra a chamada revolução bolivariana, o modelo socialista adoptado por Hugo Chávez, não é nova. Em 2014 houve violentos confrontos e morreram 43 pessoas durante uma crise semelhante à actual, enquanto nas últimas semanas já foram contabilizados oito mortos, mais de uma centena de feridos e quase seis centenas de detidos. Naturalmente, a questão económica é relevante porque o país depende excessivamente do petróleo e das oscilações do seu preço que tem estado em baixa no mercado internacional, o que não tem sido nada favorável à Venezuela. Directa ou indirectamente a população sofre os efeitos da crise.
No quadro das instituições venezuelanas a Assembleia Nacional perdeu poderes e a luta política está nas ruas. A instabilidade é enorme e, segundo muitos observadores, pode resvalar para uma guerra civil, até porque são evidentes as intromissões estrangeiras no conflito venezuelano. Neste ambiente de incerteza e de inquietação, o diário colombiano El Universal faz uma pergunta com duplo sentido: Venezuela: hasta cuándo?
A numerosa comunidade portuguesa da Venezuela que totaliza cerca de 550 mil pessoas e que representa quase 2% da população venezuelana, olha com angústia e cepticismo para evolução do país. Hoje, o jornal i anunciava que “o governo português diz que tem barcos e aviões prontos para ir resgatar portugueses”. Esperemos que não seja necessário e que a Venezuela se acalme e resolva os seus problemas.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

As velas brasileiras de visita à Europa

Nos últimos tempos não têm sido animadoras as notícias que nos chegam do Brasil, sobretudo depois daquela aparente precipitação que foi a destituição da Presidente Dilma Rousseff. Foi a partir daí que se acentuaram as notícias sobre a operação Lava-jato, sobre a crise económica e social, sobre a insegurança em algumas cidades e até sobre a persistente permanência do futebol brasileiro num inesperado patamar de quase vulgaridade. A leitura da imprensa brasileira raramente tem notícias animadoras, embora isso aconteça em toda a parte quando ciclicamente se atravessam as situações de depressão ou de crise.
Porém, apesar desta tendência depressiva, também há boas notícias. Hoje, por exemplo, o diário O Liberal da cidade de Belém destaca a visita da galera Cisne Branco, um veleiro da Marinha do Brasil, com uma fotografia de primeira página. A notícia refere que o navio iniciou no passado dia 2 de Abril no Rio de Janeiro uma viagem com a duração de cerca de seis meses baptizada como “Europa 2017”. Quando, no dia 14 de Outubro, regressar ao Brasil, o navio terá visitado 18 portos de 12 países, incluindo Lisboa e Ponta Delgada. O veleiro de 76 metros de comprimento foi construído em Amsterdão e foi incorporado na Marinha brasileira em Fevereiro de 2000 e é, naturalmente, um símbolo do Brasil e da sua Marinha, sendo-lhe atribuídas missões de representação nacional em eventos náuticos internacionais, de apoio à diplomacia brasileira, de preservação da memória histórica do país e, ocasionalmente, de instrução de jovens cadetes da Marinha brasileira.
A imagem de um veleiro como o Cisne Branco tem sempre uma faceta estimulante e de desafio. Se antes era o desafio e a aventura pelos mares desconhecidos e pelas grandes viagens, hoje é o desafio do progresso e da preservação do património comum que são os oceanos, isto é, duas causas bem estimulantes de que os brasileiros certamente comungam.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

As alegrias que o Ronaldo nos vai dando

O futebolista Cristiano Ronaldo jogou ontem pelo Real Madrid contra o Bayern de Munique no jogo da segunda mão do apuramento para as meias-finais da Liga dos Campeões e marcou três golos. Na semana passada Ronaldo tinha marcado dois golos à mesma equipa e, portanto, o Bayern e o seu famoso guarda-redes encaixaram cinco golos marcados por Ronaldo. É obra. O orgulho alemão tem, certamente, muita dificuldade para digerir a humilhação a que foi sujeito por um futebolista madeirense. Na passada semana ele já tinha cometido a proeza de chegar aos 100 golos nas provas europeias, mas ontem tornou-se o primeiro futebolista a alcançar 100 golos na Liga dos Campeões. Um jornal que destaca a proeza de Cristiano Ronaldo vai ao pormenor de nos revelar que desses 100 golos na Liga dos Campeões, houve 69 obtidos com o pé direito, 14 com o pé esquerdo e 17 com a cabeça... Tudo medido e conferido ao pormenor.
O jornal A Bola, que a tribo lusitana do futebol consagrou como a verdadeira "Bíblia", esqueceu por umas horas os calores do Sporting-Benfica que se aproxima e a necessidade de “vender papel” e, na sua edição de hoje, homenageia Ronaldo, a quem chama o Mister Champions, por ser o primeiro futebolista a chegar aos 100 golos na prova. E fez bem, porque o Ronaldo merece o nosso apreço pelas alegrias que vai dando aos portugueses.
No entanto, esta performance ronaldina que tanto nos entusiasma, não pode ser transposta para outras esferas da nossa vida colectiva, designadamente para a toponímia da nossa geografia ou das nossas infraestruturas. É leviandade, é demagogia e é deslumbramento circunstancial. Mesmo com o apoio dos nossos mais representativos políticos. Ao futebol, apenas o que é do futebol.