sábado, 8 de julho de 2017

A virtualidade do encontro de Hamburgo

Os dois homens mais poderosos do planeta, que dirigem os destinos dos Estados Unidos e da Rússia, encontraram-se fisicamente pela primeira vez e conversaram durante mais de duas horas em Hamburgo.
O encontro aconteceu à margem da cimeira dos 20 países mais industrializados do mundo (G20) que começou ontem naquela cidade alemã, tendo como tema dominante da agenda a luta contra o terrorismo internacional, mas que incluiu também os temas habituais destas cimeiras, como a dinâmica dos mercados financeiros, o crescimento económico, o comércio internacional, as migrações e, nos últimos tempos, as alterações climáticas. Em simultâneo com a cimeira registaram-se grandes manifestações e graves distúrbios provocados pela contestação às práticas políticas e ambientais dos países mais ricos do mundo, que resultaram em muitas dezenas de feridos e muitas destruições.
Porém, o acontecimento mais importante desta cimeira acabou por ser o encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin. Os principais jornais internacionais destacaram nas suas primeiras páginas a fotografia dos dois líderes, que se desfizeram em mútuos elogios e que exibiram rasgados sorrisos. Um desses jornais foi The Washington Post e os destaques desse jornal são sempre para ter em conta. Segundo foi relatado, Trump e Putin terão discutido a questão da Ucrânia e terão acordado num cessar-fogo no sul da Síria, mas o que foi importante foi mesmo o encontro entre ambos. Da boa relação pessoal entre estes dois homens pode resultar muita coisa boa para a paz mundial e a simples divulgação da fotografia desse encontro entre ambos, baixa de imediato a tensão internacional. Ainda bem.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Cuidado com os valentões oportunistas!

O incêndio de Pedrógão Grande e o roubo de Tancos foram factos muito graves que têm provocado muito pesar e um justificado alarme na sociedade portuguesa.
A onda de solidariedade que se gerou em torno da tragédia de Pedrógão Grande e a apreensão sobre as circunstâncias em que aconteceu o roubo de Tancos, têm marcado o nosso quotidiano e todos querem saber o que realmente se passou. Depois de muitos meses de euforia económica, de descontracção social e de alegria popular, estes casos foram autênticos murros no estômago.
Ninguém tem dúvidas que, num caso como no outro, houve coisas que não correram bem e que têm que ser esclarecidas.
Ninguém tem dúvidas que, num caso como no outro, há coisas que todos os governos têm desleixado desde há muitos anos.
Ninguém tem dúvidas que, num caso como no outro, os ministros fizeram o que podiam, isto é, a Ministra Constança não ateou qualquer fogo e o Ministro Azeredo não furou qualquer vedação.
Porém, também ninguém tem dúvidas que Cristas disparou numa histeria sem pudor, sem procurar outra coisa que não seja fazer sangue no governo, mas também no seu adversário directo. Este, embora sem a histeria da jovem angolana que quer governar Lisboa, também não se cansa de atacar tudo por interesse eleitoral. Nenhum deles parece lembrar-se dos que sofreram nem do que é preciso fazer para os ajudar. Chafurdam na política. São uns oportunistas. Para eles o que aconteceu não foi uma tragédia, mas tão só uma oportunidade política.
Porquê então este desregramento e esta histeria dos líderes da oposição que ao verem o adversário político debilitado pela tragédia, o esmurram e pontapeiam para colher dividendos, como se o que agora aconteceu não fosse também da sua responsabilidade política, designadamente nos anos do goverrno Passos-Portas-Cristas?  Uns valentões. Cuidado com eles!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O desejo independentista escocês

A Escócia é um dos quatro países do Reino Unido, tem uma superfície de cerca de 78 mil km2, um pouco mais de 5 milhões de habitantes e tem a sua capital na cidade de Edimburgo.
O governo escocês é chefiado desde 2014 por Nicola Sturgeon que é a líder do Scottish National Party (SNP), um partido nacionalista e social-democrata que é não só o maior partido da Escócia, mas também o terceiro maior partido do Reino Unido, depois dos Conservadores e dos Trabalhistas. O SNP defende a independência do país e, porque 63% dos escoceses votaram contra o Brexit, a dinâmica Nicola Sturgeon tem-se oposto a Theresa May e até já conseguiu que o Parlamento escocês aprovasse a realização de um novo referendo sobre a independência da Escócia a realizar em finais de 2018, isto é, antes de ficar formalizado o Brexit. Significa que a Primeira-Ministra britânica Theresa May está a encontrar muitas dificuldades para cumprir a sua tarefa e de uma posição hard, já passou para uma posição soft nas suas relações com Bruxelas.
Agora, através do The National, um jornal em cujo estatuto editorial está inscrita a luta pela independência escocesa, a notícia de que o produto escocês tinha crescido 0,8% no primeiro trimestre de 2017, enquanto o produto britânico crescera apenas 0,2% tornou-se num verdadeiro sinal de apoio à independência escocesa e deu origem a uma onda de entusiasmo nacional. Como o jornal escreveu “Scotland’s economy grows four times faster than the UK’s in first quarter”. É caso para dizer que a campanha já começou, mas muito antes do referendo escocês teremos que acompanhar o que se vai passar na Catalunha.

As perigosas provocações de Kim Jong-un

No passado dia 4 de Julho os Estados Unidos celebraram o Independence Day, o dia do ano de 1776 em que as Treze Colónias da costa oriental americana fizeram a Declaração de Independência e se separaram formalmente do Império Britânico.
The Fourth of July é o principal feriado dos Estados Unidos da América e tem uma enorme impacto sobre o orgulho nacional, o estilo de vida e a cultura americanas. Como sempre acontece, as festividades decorreram por todo o país e tiveram um acentuado cunho nacionalista, com muitos desfiles de majorettes e de veteranos, muitos festivais, muita música e a apresentação de bandas executando marchas militares, algumas delas criadas por John Philip de Souza.
A imprensa dedicou alargados espaços ao Dia da Independência, publicando inúmeras fotografias dos fogos de artifício e das multidões agitando as bandeirinhas das stars and stripes.
Este ano houve uma novidade internacional que foi a notícia de que a Coreia do Norte tinha lançado com sucesso o seu primeiro míssil balístico intercontinental baptizado como Hwasong-14, que tem capacidade para transportar uma ogiva nuclear e é capaz de atingir o território americano. Kim Jong-un tratou de festejar o acontecimento com grande excitação e, em atitude provocatória, afirmou que aquele míssil era uma prenda de aniversário norte-coreano para os Estados Unidos no seu Dia da Independência.
O USA Today registou essa provocação que terá despertado os falcões e os conselheiros de Trump que, desde há meses, têm vindo a concentrar atenções e meios militares naquela região do Pacífico.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

No ciclismo como na vida, não vale tudo

Está a decorrer a 104ª edição da Volta à França em bicicleta ou o Tour de France, uma das mais importantes provas desportivas mundiais que se realiza desde 1903 e que desperta um entusiasmo indescritível como se pode observar nas reportagens televisivas. Nos últimos anos, através da recolha de imagens muito diversas e da utilização de várias tecnologias de informação, o espectador televisivo pode acompanhar a corrida em directo, podendo observar tudo com grandes detalhe, talvez mesmo com mais informação do que se estivesse a pedalar no meio do pelotão de ciclistas. Além disso, a realização nunca perde a oportunidade de valorizar a reportagem com a apresentação de imagens dos belos monumentos e paisagens francesas, numa quase sugestão para que os turistas os visitem. São sempre grandes reportagens!
Ontem o Tour esteve no nordeste da França e teve a sua quarta etapa desde Mondorf-les-Bains até Vittel, numa distância de cerca de 207 quilómetros. Tudo correu com normalidade e correu-se com as altas velocidades proporcionadas pelas estradas planas da região da Lorena. Quando os ciclistas disputavam o sprint final para cortar a meta em primeiro lugar e vencer a etapa, aconteceu uma queda aparatosa. Só as imagens permitiram verificar que o ciclista eslovaco Peter Sagan, bicampeão mundial de ciclismo, dera uma cotovelada no ciclista britânico Mark Cavendish, um ciclista que já tem 30 vitórias em etapas do Tour, quando este o tentava ultrapassar pelo lado direito, causando a sua queda. Alguns jornais franceses e espanhóis destacaram a fotografia da cotovelada de Sagan que fez cair Cavendish.
Peter Sagan foi expulso da prova por decisão do colégio de comissários e Mark Cavendish foi obrigado a desistir devido a problemas e eventuais fracturas no ombro. O Tour vai continuar, mas vai sentir-se a ausência destes dois grandes ciclistas. Porém, no ciclismo como na vida, tem de haver regras e não vale tudo.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Macron procura novo rumo para a Europa

Emmanuel Macron foi eleito Presidente da República Francesa no passado dia 7 de Maio e no dia 18 de Junho ganhou as eleições legislativas com maioria absoluta. Um êxito rápido e surpreeendente. Ontem, menos de dois meses depois de chegar ao Eliseu, o presidente francês chamou ao palácio de Versailles os deputados e os senadores franceses e anunciou-lhes a sua estratégia para reformular de alto a baixo a política francesa. Para que não ficassem dúvidas sobre as suas intenções anunciou o propósito de reduzir em um terço o número de representantes de cada câmara – de 577 para 385, na Assembleia Nacional, e de 348 para 232, no Senado – e de alterar o actual sistema eleitoral de duas voltas das eleições legislativas, de forma a permitir uma representação parlamentar mais proporcional ao número total de votos, acrescentando que tratará da aprovação direta desta reforma pelos eleitores num referendo, se os parlamentares não analisarem rapidamente as propostas que anunciou.
O discurso de Macron reafirmou que os recentes resultados eleitorais são a prova do desejo de mudança e de alternância política dos franceses e o seu diagnóstico foi esclarecedor: “O nosso equilíbrio financeiro está deteriorado, a nossa dívida é considerável. O investimento produtivo é baixo. O desemprego atingiu níveis insuportáveis. A pobreza aumenta”.
Para além deste aspecto, o discurso de Macron referiu o estado de uma Europa enfraquecida pela burocracia, pelos egoísmos nacionais e pelo crescimento do cepticismo quanto ao futuro, prometendo lutar por uma maior justiça social e por uma nova Europa. O que não há dúvida é que com Emmanuel Macron parece haver um rumo alternativo ao declínio europeu dos últimos anos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Bastou um só chileno para nos derrotar

A selecção nacional de futebol jogou ontem o acesso à final da Taça das Confederações que está a ser disputada na Rússia, defrontando a selecção chilena. Era o encontro do campeão da Europa e do campeão da América do Sul, mas também o encontro de alguns dos melhores futebolistas mundiais. A expectativa era grande, sobretudo na América do Sul, uma vez que Portugal ainda está muito anestesiado e perturbado pela recente tragédia de Pedrógão Grande e a temperatura futebolística está em baixa.
Durante 90 minutos as equipas equilibraram-se e não houve golos. Depois jogaram-se mais 30 minutos e voltou a não haver golos, ermbora os chilenos tivessem acertado no poste e na trave da baliza portuguesa. Era o prenúncio do que estava para acontecer com a decisão nos pontapés de grande penalidade.
Com tudo preparado na forma do costume, avançaram os guarda-redes e os rematadores. Enquanto os chilenos meteram três golos seguidos, os jogadores portugueses remataram de forma tão inábil que permitiram três defesas de Cláudio Bravo. Acontece. O futebol é assim. A equipa do Chile conquistou o direito a jogar a final e a equipa portuguesa terá que disputar o 3º lugar. Cláudio Bravo, que também é o guarda-redes da equipa do Manchester City, teve direito a fotografia nas capas dos jornais chilenos, como por exemplo no El Mercúrio. Os chilenos mereceram a vitória e a derrota portuguesa não deslustra, mas serve para que assentemos os pés na terra nestas questões do futebol. Não é costume que um só homem derrote uma equipa e uma ambição colectiva.

terça-feira, 27 de junho de 2017

HMS Queen Elizabeth e orgulho nacional

O novo porta-aviões britânico HMS Queen Elizabeth saiu ontem pela primeira vez dos estaleiros escoceses de Rosyth e navegou para o mar do Norte para efectuar provas de mar e testar sensores, radios, radares e outros equipamentos.
A construção deste navio e do seu irmão gémeo HMS Prince of Wales, que já está em construção, foram anunciadas em 2007.
Com um orçamento inicial de 4 mil milhões de libras para as duas unidades, em 2013 foi feita uma renegociação com o consórcio de construtores e o preço foi fixado em 6.200 milhões de libras. Pelo que diz a imprensa britânica, o navio parece ser uma obra-prima da engenharia naval, com 280 metros de comprimento e um deslocamento de 65.000 toneladas, onde se poderão instalar 40 aviões de combate, mais uma força de 250 Royal Marines com os respectivos helicópteros de ataque.
A construção do HMS Queen Elizabeth iniciou-se em 2009 e foi montado por secções construidas em diferentes locais do Reino Unido que depois foram transportadas para Rosyth. Trabalharam no projecto cerca de 10 mil pessoas e, por isso, o navio está a ser considerado uma iniciativa tecnológica e militar em que todos se envolveram, o que está a alimentar o orgulho nacional britânico, até porque é o maior e mais poderoso navio alguma vez construido para a Royal Navy. Esta atitude bem pode ser comparada com a mesquinhez e a ignorância com que em Portugal foi tratada a compra de dois submarinos.
Hoje, os principais jornaios britânicos, designadamente The Times, colocaram a fotografia do novo porta-aviões nas suas primeiras páginas e no teor das notícias transparece o orgulho britânico na sua Royal Navy, nos seus navios e nos homens e mulheres que os servem.
Depois das provas de mar o navio irá para a sua futura base de Portsmouth e entrará ao serviço no fim do ano, embora só venha a atingir a sua operacionalidade plena em 2020. Estas coisas de mar são demoradas.
 

domingo, 25 de junho de 2017

O futebol a simbolizar a festa lusitana

Ontem a selecção nacional de futebol defrontou a selecção neo-zelandesa e, ganhando por 4-0, assegurou a presença nas meias-finais da Taça das Confederações 2017 na qual participam, em teoria, as oito melhores equipas do mundo.
A selecção portuguesa está, portanto, colocada entre as quatro melhores equipas de futebol do mundo e isso é muito gratificante para quem gosta de futebol, porque nos tempos que correm, a imagem, o prestígio e o reconhecimento internacional de um país passa cada vez mais pelo futebol.
Goste-se muito ou goste-se pouco, é assim em todo o mundo.
Acontece que esta prova, que é organizada pela FIFA, decorre num período de tristeza e de reflexão nacional devido aos trágicos acontecimentos ocorridos recentemente, para além de não despertar o mesmo entusiasmo do Campeonato do Mundo ou do Campeonato da Europa. Por isso, ao contrário do que aconteceu há um ano quando a selecção portuguesa se sagrou campeã europeia, não tem havido os excessos desproporcionados e doentios da parte da comunicação social em relação à prestação dos nossos futebolistas. Isso é muito positivo, porque é preciso que o futebol seja posto no lugar que merece e não acima nem abaixo, pois é um fenómeno cultural importante na nossa sociedade.
Porém, o inesperado chegou hoje da Venezuela onde o diário desportivo Meridiano, que se publica em Caracas, tratou de destacar a festa lusitana, pela vitória sobre a equipa da Nova Zelândia. É um exagero que só se compreende com o objectivo de vender mais jornais à comunidade portuguesa, ou para atenuar a ansiedade e a incerteza por que ela tem passado nos últimos tempos.

sábado, 24 de junho de 2017

O incêndio trágico e as responsailidades

Passou uma semana desde o trágico incêndio que enlutou o país, roubando 64 vidas ao nosso convívio, queimando aldeias e floresta, destruindo muito património em vários concelhos do centro do país. O balanço é dramático e, para além dos seus duros aspectos emocionais, é também uma consequência do continuado processo de desertificação e de abandono das regiões interiores do nosso país, cada vez mais esquecidas.
Muita gente procura respostas para as dúvidas que persistem quanto ao que aconteceu em Pedrógão e nos concelhos vizinhos, enquanto alguns políticos, acolitados por abutres disfarçados de jornalistas, procuram avidamente por responsáveis para queimar adversários políticos. Lamentável. Contudo, a responsabilidade que os abutres procuram para vender jornais ou para destruir adversários políticos, até pode ser encontrada nas condições meteorológicas excepcionais, na deficiência de funcionamento da SIRESP, a operadora da Rede Nacional de Emergência e Segurança, ou na eventual inconpetência de um ou outro agente que não actou eficazmente, mas a verdadeira explicação está nos nossos comportamentos de risco e nas nossas imprevidências, mas também nos políticos que escolhemos, porque durante décadas não tiveram coragem para enfrentar o problema do ordenamento florestal, que é muito complexo e cuja solução rouba votos. De facto, se o diagnóstico está feito há muito tempo, é caso para perguntar porque razão são adiadas as medidas que se impõem quanto ao ordenamento florestal e à limpeza das florestas?
Ao olharmos para a fotografia hoje publicada na capa da edição do jornal Público facilmente compreendemos, sem ser necessário ser especialista nestas matérias, que a estrada EN 236 bem como muitas outras estradas que existem em Portugal, são verdadeiras ciladas montadas para quem nelas circula no Verão, devido ao denso arvoredo que as envolve até junto das bermas.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Prémio prestigiante para J. E. Agualusa

O escritor luso-angolano José Eduardo Agualusa foi distinguido ontem com o International Dublin Literary Award, um prestigiado prémio literário internacional pela tradução inglesa do romance Teoria Geral do Esquecimento. De acordo com as regras, os 100 mil euros do prémio são entregues na totalidade ao autor se o livro tiver sido escrito em inglês ou, no caso de se tratar de uma tradução, o valor do prémio é repartido em 75 mil euros para o escritor e 25 mil para o tradutor.
Portanto, Agualusa recebe 75 mil euros e é o primeiro autor de língua portuguesa a vencer o prémio criado em 1996, que é atribuido anualmente e que é gerido pelo Município e pelas Bibliotecas Públicas de Dublin. Os autores e as obras apreciadas resultam de um processo de nomeações que é feito a partir de sugestões ou propostas de mais de quatro centenas de bibliotecas de todo o mundo, o que torna o prémio muito importante.
A Teoria Geral do Esquecimento, o romance premiado, foi indicado pela Biblioteca Pública Municipal do Porto, pela Biblioteca Municipal de Oeiras, pela Biblioteca Demonstrativa Maria da Conceição Moreira Salles, de Brasília, e pela Gradska Knjiznica, de Rijeka, na Croácia, que destacaram a forma como o romance equilibra "elementos-chave da história angolana recente com as vidas de gente comum".
Nascido no Huambo em 1960, José Eduardo Agualusa foi hoje homenageado pelo Jornal de Letras e está de parabéns pelo prémio, pelo seu talento, pela sua capacidade criativa e, também, pela sua personalidade e inteligência. Acompanho-o literariamente desde que li Nação Crioula. É um bom amigo.

Causas e culpas do incêndio de Pedrógão

Foi uma das maiores tragédias que aconteceram em Portugal e, durante quatro dias, os acontecimentos ocorridos no centro do país foram acompanhados com ansiedade e emoção. As imagens falaram por si mostrando a brutalidade e a violência do inferno que nos bateu à porta. Gerou-se uma onda de solidariedade nacional e internacional. Elogiaram-se os que enfrentaram as chamas e agradeceu-se às centenas de pessoas que estiveram no terreno. Repetiram-se as declarações dos políticos no sentido de todos se concentrarem no controlo ou na extinção dos incêndios e de darem todo o apoio às vítimas.
Embora os números da tragédia não sejam comparáveis aos mais de 700 mortos pelas inundações na região de Lisboa em 1967, as 64 vítimas já apuradas nos incêndios de Pedrógão Grande e na estrada EN 236 são um número impressionante que nos atinge e nos choca profundamente. A revista Visão dedicou um dossier especial a esta tragédia e refere "a bola de fogo" que "vinha por cima e caía sobre as pessoas". Foi realmente uma tempestade perfeita em que se conjugaram condições meteorológicas excepcionais, com um ordenamento florestal que continua por fazer, com uma desleixada gestão de floresta que não é limpa porque não gera rendimento e com uma preocupante desertificação do território. Como sempre acontece nestes casos, algumas dezenas de especialistas passaram pelas televisões a apontar caminhos e soluções técnicas, que se espera tenham sido ouvidas pelos políticos.  
Aproximam-se eleições e nos funerais das vítimas não têm faltado políticos, o que até pode parecer oportunismo. Têm sido alguns deles que, numa contínua insinuação, têm insistido na necessidade de uma rápida averiguação a tudo o que se passou para apurar responsabilidades. Eu também acho que deva ser assim. Porém, mesmo sob a capa da comoção e do luto, muitos desses políticos não conseguem abster-se de procurar dividendos políticos na tragédia que nos aconteceu e deixar no ar suspeitas sobre a acção das autoridades. A hipocrisia de alguns políticos parece não ter limites.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O fisco espanhol e os portugueses ricos

A edição americana do diário Financial Times destacou hoje na sua primeira página uma notícia sobre dois cidadãos portugueses, ilustrando-a com uma fotografia captada no tempo em que trabalharam juntos em Madrid.
De facto, Cristiano Ronaldo e José Mourinho trabalharam no Real Madrid, onde auferiam salários, recebiam prémios, percebiam direitos de imagem e, certamente, pagavam os impostos a que estavam obrigados por lei.
Como não conheço pessoalmente esses dois meus compatriotas, nem faço ideia da forma como gerem o património que acumularam, também não sei se são ou não são contribuintes exemplares, mas não tenho dúvidas que a sua qualidade de homens ricos e famosos os torna um alvo apetecido das garras do fisco e dos medíocres que invejam o sucesso dos outros.
Assim, as autoridades fiscais espanholas terão entendido que tanto Ronaldo como Mourinho não pagaram todos os impostos que deviam e, segundo informam os meios de comunicação social especializados em escândalos, terão accionado processos de fuga ao fisco ou de ocultação de rendimentos contra esses dois cidadãos portugueses. Eles saberão defender-se e a justiça não deixará de ser feita.
O que torna este assunto mais curioso não é a culpabilidade ou a inocência dos nossos compatriotas que são ídolos mundiais do futebol, mas o simples facto de terem sido notícia nos Estados Unidos, embora por razões menos desejáveis.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A enorme tragédia de Pedrógão Grande

Foi uma tragédia, das maiores que aconteceram em Portugal desde há muitos anos! Foi a brutalidade da perda de pelo menos 62 vidas em condições dramáticas, que deixaram o nosso país impressionado, comovido e de pesado luto, quando no passado sábado o fogo cercou aldeias e atravessou estradas, apanhando na sua fúria muita gente, sobretudo na estrada nacional A 236, onde pereceram 47 pessoas dentro ou junto dos seus automóveis.
Segundo tudo indica, o incêndio que deflagrou na região de Pedrógão Grande terá sido causado por uma trovoada seca, provavelmente com vários focos, tendo sido muito rápida a propagação do fogo. Para isso terão contribuido as altas temperaturas, o aparecimento de vento forte e desencontrado, o elevado estado de secura da floresta, a orografia do terreno com ravinas e desfiladeiros muito acentuados, para além dos problemas existenciais do nosso ordenamento florestal e da falta de limpeza da floresta. Para quem conhece o nosso país e o percorre de automóvel, sobretudo no centro do país onde predominam grandes manchas florestais, este quadro nem é surpreendente.
Agora, é uma hora de profunda dor e não é altura para apontar o dedo a eventuais responsáveis, nem para louvar quem o possa merecer, mas é tempo para uma reflexão sobre as razões de tudo isto, desta crueldade que é a perda de tantas vidas nestas circunstâncias. Porquê, pergunta o Público. Agora, como referiu o Presidente da República, há que reforçar a nossa solidariedade para com os que sofreram ou sofrem e unirmo-nos “todos como um só”.
O dramatismo deste incêndio teve grande repercussão na imprensa internacional e encheu as primeiras páginas de jornais estrangeiros, sobretudo espanhóis, tendo gerado a solidariedade de vários países que de imediato decidiram ajudar com meios aéreos e bombeiros.
A tragédia de Pedrógão Grande não nos sairá da memória.

sábado, 17 de junho de 2017

Macron, Rajoy e a Espanha toda inteira

Mariano Rajoy foi ontem a Paris visitar Emmanuel Macron e almoçaram nos jardins do Palácio do Eliseu. Deve ter sido um frutuoso almoço de trabalho, com o resguardo de uma boa sombra, em dia de grande calor. Depois falaram aos jornalistas, afirmando a sua posição comum de acelerar o projecto de integração europeia e comprometendo-se a trabalhar em conjunto no combate anti-terrorista, na luta contra a imigração ilegal, na política de apoio aos refugiados, na defesa e nas ligações das redes de energia.
O acordo nestas matérias entre Macron e Rajoy, ou entre a França e a Espanha, tem um significado muito importante, sobretudo no quadro da União Europeia que se vai desenhar no futuro sem o Reino Unido.
Naturalmente, os jornalistas interrogaram o Presidente Macron sobre o problema do independentismo catalão e as respostas foram inequívocas, tendo sido largamente reproduzidas pela imprensa espanhola, nomeadamente pelo diário ABC:
- “Se trata de un tema interno de España y no tengo ningún comentario que hacer al respecto. Solo conozco un socio y un amigo que es España, España toda entera. España en su conjunto. Tengo un interlocutor y está aquí a mi lado, Mariano Rajoy. El resto no me concierne”.
Com esta declaração Emmanuel Macron voltou a ter uma postura de grande firmeza e rejeitou qualquer apoio ao independentismo catalão. Como era de esperar.
Nos tempos da ditadura franquista havia alguma simpatia francesa pelas reivindicações das regiões espanholas, mas esse tempo já lá vai. Nas relações entre a França e a Espanha, dois estados democráticos e modernos, a Catalunha não podia esperar outra resposta de Emmanuel Macron. Se os independentistas catalães pensavam que podiam ter um aliado do outro lado dos Pirinéus enganaram-se. Macron afirma-se cada dia como um homem de ideias firmes e capaz de dar um grande contributo para tirar esta Europa deste estado de pré-naufrágio.